quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

SÃO JOSÉ: UMA VOCAÇÃO À VIRTUDE ESCONDIDA

Fonte: FSSPX/Distrito da Grã-Bretanha – Tradução: Dominus Est
São José, uma vocação oposta a dos apóstolos
Bossuet em seu primeiro panegírico do santo diz: “Dentre as diferentes vocações, noto duas nas Escrituras que parecem diretamente opostas: a primeira é a dos Apóstolos, a segunda a de São José.
  • Jesus foi revelado aos apóstolos para que eles pudessem anunciá-Lo por todo o mundo; Ele foi revelado a São José, para que permanecesse em silêncio e O mantivesse escondido.
  • Os Apóstolos são luzes para fazer o mundo ver Jesus; José é um véu para cobri-Lo; e sob esse misterioso véu estão escondidos de nós a virgindade de Maria e a grandeza do Salvador das almas
  • Aquele que torna os apóstolos gloriosos com a glória da pregação glorifica José pela humildade do silêncio”. A hora da manifestação do mistério da Encarnação ainda não chegara: deveria ser precedida pelos trinta anos de vida escondida.
São José, uma vocação superior a dos apóstolos
A vocação do silêncio e da obscuridade de São José ultrapassou a dos Apóstolos porque se aproximava mais da Encarnação redentora. Depois de Maria, José estava mais próximo do Autor da graça, e no silêncio de Belém, durante o exílio no Egito, e na pequena casa de Nazaré ele recebeu mais graças do que qualquer outro santo.
Dupla era a sua missão. Em relação a Maria, ele preservou sua virgindade contraindo com ela um casamento verdadeiro, mas totalmente sagrado. Maria encontraria ajuda e proteção em São José. Ele a amava com um amor puro e devotado, em Deus e por Deus.
No que diz respeito ao Verbo Encarnado, José vigiava, protegia e contribuía para a Sua educação humana. Ele é chamado Seu pai adotivo, mas o termo não expressa totalmente a misteriosa relação sobrenatural entre os dois. Os Apóstolos temiam o menor perigo, mas Deus lhes deu um novo coração e sua coragem tornou-se destemida… A mesma mão deu a José o coração de um pai e a Jesus o coração de um filho. É por isso que Jesus obedece e José não teme ordenar.
Como ele tem coragem de mandar em seu Criador? Porque o verdadeiro Pai de Jesus Cristo, o Deus que Lhe dá nascimento desde toda a eternidade, tendo escolhido José para ser o pai de Seu único Filho no tempo, infundiu dentro de seu peito algum raio ou alguma centelha de Seu infinito amor por Seu Filho; foi isso que mudou seu coração, foi isso que lhe deu o amor de um pai, e José, o homem justo que sente o coração do pai dentro dele, sente também que Deus deseja que ele use sua autoridade paterna, de modo que ele ousa comandar Aquele que ele sabe que é seu Mestre.
A vocação de São José para o escondimento é também nossa
Bossuet faz essa observação geral sobre as virtudes da vida escondida: “É uma debilidade comum dos homens entregarem-se inteiramente ao que está fora e negligenciar o que está dentro; trabalhar por meras aparências e negligenciar o que é sólido e duradouro; pensar frequentemente na impressão que causam e pouco no que eles deveriam ser.
É por isso que as virtudes mais altamente consideradas são aquelas que dizem respeito à conduta e direção das coisas. As virtudes escondidas, pelo contrário, que são praticadas longe da visão pública e sob o olhar de Deus, não são apenas negligenciadas, mas mal sequer se ouve falar delas.
E, ainda assim, este é o segredo da verdadeira virtude… um homem deve ser interiormente forjado em si mesmo antes de merecer ser posto entre outros; e se esta base estiver faltando, todas as outras virtudes, por mais brilhantes que sejam, serão meras exibições… não farão o homem de acordo com o coração de Deus. José buscou a Deus em simplicidade; José encontrou Deus em desapego; José desfrutou da companhia de Deus na obscuridade.”
Honremos São José
Honremos hoje a São José:
  • buscando a sua proteção – a mesma proteção que ele deu à sua esposa e ao Menino Jesus;
  • rezando para que a mesma centelha de infinito amor paternal por Jesus, no coração de José, estenda-se às nossas almas para também nos comandar;
  • e implorando pela graça, através das mãos de sua esposa, a Santíssima Virgem Maria, para que possamos crescer em virtude escondida neste mundo, a fim de cantar a glória de Deus e São José na próxima. Amém.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

O JEJUM E A ABSTINÊNCIA



Com o intuito de fazer penitência por nossos pecados, de melhor nos dispor para a oração e de estar unidos aos sofrimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, a Santa Igreja nos pede, nos tempos de penitência, que ofereçamos jejum e abstinência a Deus.
O Jejum:
Praticado desde toda a Antiguidade pelo povo eleito, como sinal de arrependi­mento, praticado por Nosso Senhor Jesus Cristo e por todos os santos, recomendado pela Santa Igreja como instrumento de santificação da alma, de controle do corpo e equilíbrio emocional, o jejum obrigatório foi sendo reduzido ao longo dos séculos.
Quando devemos jejuar por obrigação?
Na Quarta-feira de cinzas, abertura da Quaresma
Na Sexta-feira Santa, dia da morte de Nosso Senhor.
No entanto, todos os católicos devem ter a mortificação e o jejum presentes em suas vidas ao longo do ano, principalmente durante o Advento, a Quaresma e nas Quatro Têmporas, tendo sempre o espírito mortificado, fugindo do excesso de conforto e prazeres e, na medida do possível, oferecendo alguns sacrifícios a Deus, seja no comer, no beber, nas diversões (televisão principal­men­te), nos desconfortos que a vida oferece (calor, trabalho, etc.), sabendo suportar os outros, tendo paciência em tudo.
Assim sendo, mesmo não sendo obrigatório, continua sendo recomendado o jejum nas Quartas e Sextas da Quaresma e do Advento, guardando-se sempre o espírito pronto para as pequenas mortificações também nos demais dias.
Quem deve jejuar?
As pessoas maiores de 21 anos são obrigadas. Mas é evidente que os adolescentes podem muito bem oferecer esse sacrifício sem prejuízo para a saúde.
Quanto às crianças menores, mesmo alimentando-se bem, devem ser orientadas no sentido de oferecer pequenos sacrifícios, e acompanhar a frugalidade das refeições.
As pessoas doentes podem ser dispensadas (é sempre bom pedir a permissão ao padre)
As pessoas com mais de sessenta anos não têm obrigação de jejuar, mas podem fazê-lo se não houver perigo para a saúde.
Como jejuar nos dias de jejum obrigatório?
– Café da manhã mais simples que de hábito: uma xícara de café puro, um pedaço de pão, uma fruta.
– Almoço normal, mas sem carne (peixe pode), sem doces e sobremesas mais apetitosas, sem bebidas alcoólicas ou refrigerantes.
– No jantar, um copo de leite ou um prato de sopa, um pedaço de pão, uma fruta.
São inúmeras as passagens das Sagradas Escrituras referentes ao jejum. Eis algumas poucas referências:
II Reis XII,16
Tobias XII,8
Daniel I, 6-16
S. Mateus IV,1
S. Mateus VI, 17
S. Mateus XVII,20
Atos XIV,22
II Coríntios VI,5
A Abstinência de carne 
Dentro do mesmo espírito de mortificação, pede-nos a Santa Madre Igreja a mortificação de não comer carne às sextas-feiras, o ano todo, de modo a honrar e adorar a santa morte de Nosso Senhor. (ficam excluídas as sextas-feiras das grandes festas, segundo a orientação do padre).
A abstinência ainda é praticada e, diferente do jejum, começa desde a adolescência, a partir dos quatorze anos.
Nas sextas-feiras do ano, e mais ainda durante os tempos de penitência, saibamos oferecer esse pequeno sacrifício a Nosso Senhor. Se vamos a um restaurante, peçamos peixe (muitos restaurantes ainda hoje servem pratos de peixe nas sextas-feiras).
O Jejum eucarístico
O jejum eucarístico é o fato de se comungar sem nenhum alimento comum no estômago, em honra à Santíssima Eucaristia.
O espírito do jejum eucarístico  é de receber a Santa Comunhão como primeiro alimento do dia. Quando o Papa Pio XII modificou a disciplina do jejum eucarístico, devido à guerra, salientou que todos os que podiam deviam praticar esse jejum, chamado natural : só tomar alimento depois da comunhão. Quem assiste à Santa Missa cedo pode, muitas vezes, praticar esse jejum.
Apesar da lei eclesiástica em vigor determinar apenas uma hora antes da comunhão para o jejum eucarístico, todos os padres sérios pedem a seus fiéis que se esforçem para deixar três horas, visto que uma hora não chega a ser nem mesmo um sacrifício.
Caso as crianças ou pessoas debilitadas precisarem tomar algo antes da comunhão, com menos de três horas, procurem, ao menos, tomar apenas líquido, um copo de leite, por exemplo. Porém, tendo se alimentado com menos de uma hora antes da hora da comunhão, não se deve, de modo algum, se aproximar da Sagrada Mesa.
O jejum, a abstinência e o confessionário
Como o jejum e a abstinência fazem parte dos mandamentos da Igreja, devemos nos empenhar  para praticá-los por amor de Deus. Caso haja alguma negligência ou fraqueza da nossa vontade que nos leve a quebrar o santo jejum ou a abstinência, devemos nos arrepender por não termos obedecido ao que nos ordena nossa Santa Madre Igreja, confessando-nos por termos assim ofendido a Deus.
Nos casos de esquecimento, devemos substituir essa obra por outra equivalente, como fazer o jejum em outro dia, rezar um terço, etc.
É sempre bom lembrar que a água pura não quebra o jejum.
As pessoas inclinadas à mortificação e ao jejum  não devem nunca determinar um aumento de penitência sem o consentimento explícito do sacerdote responsável. O demônio usa muito o excesso de penitência corporal para enfraquecer a alma. Tudo fazer na obediência.
Fonte: Permanencia

O PECADO DA MURMURAÇÃO: QUÃO FÁCIL É FALAR E QUÃO DIFÍCIL É CALAR!

Fonte: FSSPX México – Tradução: Dominus Est
A Murmuração é uma língua de víbora, que de um só golpe fere três pessoas (Rm 1,30): O murmurado, o que ouve e o murmurador, odiado por Deus (São Bernardo).

A) Aquele de quem se murmura

As Sagradas Escrituras e os Santos Padres frequentemente chamam a murmuração de homicídio, porque arrebata a vida social, mais estimável que a do corpo.

“Os pecados cometidos contra o próximo são medidos pelos danos que causam … O homem desfruta de um triplo bem, a saber: o da alma, o do corpo e a dos bens exteriores … Entre esses últimos, a fama supera muito as das riquezas, porque se opõe aos bens espirituais, pela qual se diz nos Provérbios (22,1): “O bom nome vale mais do que riquezas“. Portanto, a murmuração, embora seja um pecado menor que o homicídio e o adultério é, sem dúvidas, maior que o roubo” (São Tomás de Aquino).
Matéria grave é ferir a reputação de alguém, uma vez que é o maior bem do homem, e perde-la lhe impede trabalhar muitos bens que seriam capazes”, conforme o Eclesiástico (41,15): “Cuide do seu nome, que permanece mais que milhares de tesouros ” (São Tomás de Aquino).
O homem de juízo dá por bem empregado qualquer dispêndio destinado a recuperar sua boa reputação. Então aquele que o priva dela prejudica-o mais que roubando-lhe. Eis como o murmurador profissional é mal visto. Apesar disso, temos vergonha de ter cometido um roubo e não temos de haver murmurado vinte vezes.

B) O que ouve murmurar

1- Incita a pecar
“Vamos admitir que ninguém deu ouvidos aos detratores; certamente estes não se atreveriam… Logo, se alguns murmuram, deve-se culpar aqueles que lhes ouvem” (São Jerônimo).
“Se os murmuradores comprovaram que fugíamos deles mais do que aos censurados, eles perderiam o mau hábito” (São João Crisóstomo)
2 – Agrava nossos pecados 
“O demônio nos induz a este, de modo que, descuidando do que nos interessa, aumenta nosso reato, porque não consiste apenas no seu mal na conta que devemos dar aos nossos ditos, senão que os nossos pecados se agravam ao privarmos de todas as desculpas. Aquele que censura duramente o próximo se priva de toda vênia. Deus ditará a sentença atendendo não apenas às nossas falhas, mas à maneira como julgamos os outros. “Não julgueis e não sereis julgados” (Mt 7,1). Nosso pecado não aparecerá então como tem sido neste tempo, mas se somará uma grande e inevitável quantidade devido a nossos julgamentos” (São João Crisóstomo).
3 – Impede a perfeição
O primeiro passo para ela deve ser negar-se a ouvir a murmuração, porque não há nada que inquiete mais a alma e é entrada à ódios, dissensões, animosidades e dissipação do espírito, como ela (São Jerônimo)

C) Ao murmurador


Seu pecado é grande. Por três razões:

  1. Falta à Caridade
  2. Revela um fundo mal. Gozo em derrubar uma reputação.
  3. Normalmente denota hipocrisia. Desejo de justificar suas próprias falhas.
Pecado mortal ou venial? 
1.- Pode ser venial devido à paridade da matéria.
2.- Mas muitas vezes não são pequenas nem levianas (as coisas) como algumas pessoas acham que são (Pe. Alonso Rodríguez). “Não basta dizer que é uma palavra levada pelo vento (à toa), porque a murmuração voa, mas fere gravemente; passa rápido, mas queima atrozmente” (São Bernardo). 

Remédios e conselhos contra murmúrios

Fugir do maledicente
1.- “O prudente vê o perigo e se esconde” (Prov. 22)
2.- Não fugirias daquele que removeu o estrume? (São João Crisóstomo)
Repreender-lhe
1 –  “E aqueles que ouvem os maledicentes lhes aviso que tapem os ouvidos e imitando o profeta digam: “Reduzirei ao silêncio o que detrata em segredo seu vizinho “(Sl 100,5)..
2 – “Diga-lhe: Você tem alguém a quem louvar e exaltar? Te escuto e ouço. Mas, se você quer falar mal, fecho meus ouvidos, porque não estão acostumados a receber estrume e lama” (São João Crisóstomo).
Se o murmurador for superior
Mude a conversa ou mostre um semblante distraído ou triste.

 

O CURA DE ARS
“Ao julgar o próximo, devemos sempre levar em conta a sua fraqueza e sua capacidade de se arrepender. Normalmente, quase sempre, em seguida, é preciso corrigir nossos julgamentos sobre os outros, já que, uma vez examinados bem os fatos, nos vemos forçados a reconhecer que aquilo que foi dito era falso.  Geralmente nos acontece o que ocorreu com aqueles que julgaram a casta Susana fundando-se na delação de duas testemunhas falsas, sem dar-lhe tempo para se justificar (Dn 13,41), outros imitam a presunção e a maldade judeus, que declararam Jesus blasfemo (Mt 9, 3 ..) e endemoniado (Jo 7, 20, etc); outros, finalmente, se comportam como aquele fariseu que, sem se preocupar em investigar se Magdalena havia renunciado ou não às suas desordens, e embora a tenha visto em um estado de grande aflição acusando seus pecados e chorando-os aos pés de Jesus Cristo seu Salvador e Redentor, não deixou de considera-la como uma infame pecadora” (Lc 7, 39).

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

SÃO PIO X, SANTO PROVIDENCIAL DOS TEMPOS MODERNOS

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Quando Pio XII canonizou São Pio X, em 29 de maio de 1954, não deixou de chamar-lhe repetidamente, no discurso de canonização, “o santo dado pela Providência para a nossa época”, “o santo providencial do tempo presente”, “o santo providencial de nossos tempos”. E, de fato, na pessoa de São Pio X podemos ver, em ordem à Igreja, uma tríplice Providência de Deus:
  • A Providência pela qual o retira de uma humilde família de Riese, conduzindo-o por todos os graus e cargos da hierarquia, até estabelecê-lo no Sumo Pontificado.
  • A Providência pela qual a sua ação não se limita ao tempo de sua vida, mas que perdura nos tormentosos tempos posteriores.
  • A Providência pela qual o Supremo Magistério reconhece a ação providencial de José Sarto, de Pio X, e a confirma.
1 – Providência primeira
Podemos vê-la assinalada nas palavras do Introito da Festa de São Pio X: “Do meio do povo tirei o meu eleito; ungi-o com o meu óleo santo; a minha mão o sustentará, e o meu braço lhe dará firmeza”.
É admirável ver como Deus, de maneira suave, mas precisa, vai guiando a esse humilde filho de um oficial, que nem sequer tem com que pagar os estudos, por todos os graus da hierarquia: exemplar seminarista entre seus companheiros, depois vigário em Tombolo (9 anos), pároco de Salzano (9 anos), cônego de Treviso, diretor espiritual do seminário desta mesma diocese, chanceler secretário do bispo (8 anos), bispo de Mântua (9 anos), cardeal e patriarca de Veneza (9 anos). Uma longa preparação de 45 anos de sacerdócio, e de 19 anos de vida episcopal, dedicada às necessidades das almas, da formação sacerdotal, da Igreja, dos erros e perigos que a combatem, e dos melhores meios para promover a difusão e a defesa da fé e da Igreja.
Aos 68 anos o cardeal José Sarto chega ao Sumo Pontificado, em 1903; e nos recorda assim a outras figuras, como Moisés, chamado por Deus aos 80 anos, ou como nosso próprio fundador, Monsenhor Lefebvre, chamado à sua principal missão aos 65 anos: só então a Providência divina brilha com todo o seu esplendor: • que, tendo já prevista a eleição de José Sarto como sumo Pontífice, o fez passar por todas as etapas que mais lhe seriam úteis para cumprir seu pontificado com eficácia; • e que prepara seu instrumento, aperfeiçoando-o, para poder produzir depois, com grande eficácia e em muito pouco tempo, uma obra imensa.
2 – Providência segunda
Podemos vê-la no fato de que o Supremo Magistério, pela boca do Papa Pio XII, reconhece a missão providencial de São Pio X para a Igreja dos tempos modernos, afirmando que a Igreja há de continuar nas pegadas de Pio X, e confirmando tudo o que foi feito por Pio X.
“Em Pio X se revela o arcano da sábia e benigna Providência, que assiste à Igreja, e por meio dela o mundo em todas as épocas da história. Que significaria – a princípio, perguntaríamos – o nome de Pio X? Nos parece vê-lo agora claramente. Por sua pessoa e por sua obra, Deus quis preparar a Igreja para os novos e árduos deveres que os tormentosos tempos futuros lhe reservavam. Preparar a tempo uma Igreja concorde na doutrina, firme na disciplina, eficaz em seus pastores: um laicato generoso, um povo instruído, uma juventude santificada desde os primeiros anos, uma consciência cristã atenta aos problemas da vida social. Se hoje a Igreja de Deus, longe de retroceder frente as forças destruidoras dos valores espirituais, sofre, combate e, pela divina virtude, avança e redime, deve-se em grande parte à ação clarividente e à santidade de Pio X. Hoje aparece manifesto como todo seu pontificado foi sobrenaturalmente dirigido segundo um desígnio de amor e de redenção, para dispor os ânimos e afrontar nossas próprias lutas, e para assegurar nossas vitórias e as vitórias vindouras” (Pio XII, discurso de beatificação de Pio X, 3 de julho de 1951).
Assim, pois, o Supremo Magistério da Igreja, fazendo eco da então universal veneração a Pio X, não por alguma coação nem entre relutâncias, mas com todo o entusiasmo e iniciativa de Pio XII, em atos soleníssimos, quais são os da beatificação e canonização, proclama que São Pio X teve a missão de ancorar a Igreja para os tempos vindouros, que seriam tempestuosos, de modo que nesses momentos haverá que se referir a sua obra para assegurar a vitória da Igreja. Nada mais alentador que poder apoiar-se deste modo no Supremo Magistério, para levar a cabo, assegurados pela Roma eterna, a luta contra o pseudo-magistério conciliar, contra a Roma neomodernista.
3 – Providência terceira
Pode-se ver no Evangelho da festa de São Pio X, que nos recorda o tríplice ato de amor de São Pedro: “Simão, filho de João, tu amas-Me mais do que estes?… Apascenta meus cordeiros… apascenta minhas ovelhas… apascenta minha ovelhas”; pois a três atos principais de fidelidade resume Pio XII, no discurso de canonização, a ação providencial e a posterior missão de Pio X, retomando o já dito em discurso de beatificação: preparar a tempo uma Igreja • firme na disciplina, • concorde na doutrina, • eficaz e santa nos pastores.
1 – Firmeza na disciplina (primeiro “apascenta meus cordeiros”). São Pio X, para realizar seu programa de instaurar tudo em Cristo, de voltar e levar tudo à unidade em Cristo, deu-se conta de que o grande meio era a Igreja. A esta Igreja quis em concreto fazer mais apta e mais disposta para levar os homens a Cristo, mas não modificando-a em sua definição, em suas estruturas, em seu meios, mas renovando o corpo das leis eclesiásticas, para conferir assim o inteiro organismo da Igreja em funcionamento mais regular e maior segurança e agilidade de movimentos, segundo o que requeriam as condições do mundo moderno.
“São Pio X – prossegue Pio XII – é o santo providencial do tempo presente, em primeiro lugar, pelo código de direito canônico, que continuará sendo sua obra pessoal (embora não fosse promulgado, mas por seu sucessor) e o grande monumento de seu pontificado: nele a Igreja fica como ancorada em sua própria noção, em suas estruturas divinas e humanas, em seus meios de ação e de apostolado, em seus direitos.
Ao referir-nos, pois, nos tempos turbulentos atuais, ao direito codificado por São Pio X, estamos seguros de encontrar toda a sabedoria e a prudência da Igreja, tudo o que a tradição dos apóstolos, dos pontífices, dos concílios, puderam legislar de melhor em ordem a defender e propagar a santa Igreja de Deus”.
2 – Concórdia na doutrina (segundo “apascenta minhas ovelhas”). O segundo motivo pelo qual Pio XII denomina São Pio X “campeão invicto da Igreja” e “santo providencial de nossos tempos” é por sua segunda empresa: a defesa do tesouro inestimável da unidade da Igreja em seu fundamento íntimo: a fé. Na lucidez e firmeza (que não conheceu titubeio algum) com a qual Pio X dirigiu a luta vitoriosa contra os erros do modernismo, vê Pio XII a realização literal das palavras do Senhor a São Pedro: “Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu confirmas a teus irmãos” (Lc 22 32).
“Justo é – conclui Pio XII – que a Igreja invoque hoje a intercessão deste santo Papa, para que afaste dela outras batalhas semelhantes: Nós, de nossa parte, vemos como Pio XII entreviu com clareza a necessidade de exaltar a São Pio X nesta obra doutrinal, como entrevendo as lutas que estes mesmos erros refutados e condenados por São Pio X voltariam a apresentar à Igreja. Ao ensino, pois, e à fidelidade de São Pio X, podemos e devemos acudir – disse-nos o Supremo Magistério – para assegurar a vitória.
3 – Eficácia e santidade nos pastores (terceiro “apascenta minhas ovelhas”). São Pìo X, ensina-nos Pio XII, viveu sempre, como humilde pároco, como bispo, como Pontífice Supremo, orientado à busca da santidade sacerdotal. Pois bem, qual é a santidade que convém ao sacerdote, ao representante do sumo e eterno sacerdote, Jesus Cristo, senão a que está fundamentada na Santa Missa, na perpétua renovação do sacrifício da Cruz? Por isso, toda a vida de São Pio X – continua dizendo Pio XII – compreendia em viver o mistério da Sagrada Eucaristia.
“Na profunda visão que possuía da Igreja como sociedade, Pio X conheceu o poder que tem a Eucaristia para alimentar sua vida íntima e elevá-la acima de qualquer outra associação humana… Exemplo providencial para o dia de hoje, em que a sociedade terrena, com ânsia, busca uma solução sobre como voltar a dar uma alma! Que esse mundo retorne ao redor de seus altares… Apenas na Igreja, parece repetir o Sumo Pontífice, e pela Igreja na Eucaristia, que é “vida escondida com Cristo em Deus”, encontra-se o segredo e a fonte de renovação da vida social”.
E conclui Pio XII inculcando aos ministros do altar a grave responsabilidade que têm de profundamente viver do mistério eucarístico, de fazerem-se depois promotores e distribuidores da Eucaristia.
Conclusão
Dentro dessa terceira Providência parece incluir-se o que nosso venerado fundador, Monsenhor Marcel Lefebvre, nos dera como Patrono de Fraternidade a São Pio X. Com efeito, a nossa Congregação parece incumbir-lhe, nos tempos atuais, a tarefa de assegurar a continuidade da obra providencial de São Pio X, apoiando-nos em suas diretivas e fiados em juízo que sobre elas emitiu o Magistério Supremo da Igreja. De fato, e guardando sempre as devidas proporções, poderíamos estabelecer um notável paralelo entre São Pio X e Monsenhor Lefebvre:
  • Também a ele uma primeira Providência o exaltou dentre os seus, conduzindo-o progressivamente através de todos os cargos, desde humilde vigário para arcebispo, que mais tarde lhe seriam úteis para levar a cabo sua obra de defesa do sacerdócio e da Santa Missa.
  • Também ele, por uma admirável identificação de almas, impôs-nos o mesmo ideal, as mesmas metas que, no dizer do Papa Pio XII, foram as de São Pio X: santidade sacerdotal centrada e procedente da Santa Missa; defesa da fé católica, que esta Missa compendia; defesa dos direitos da Igreja, que por esta Missa se perpetua para santificar as almas.
  • Apenas faltaria a terceira Providência, pela qual a Igreja reconheça o providencial de sua pessoa e de sua obra; mas isso virá certamente, se Deus assim o julgar, e se for necessário para o bem da Igreja e das almas.
Enquanto isso, peçamos a nosso santo Patrono a graça de nos mantermos na fidelidade às diretrizes por ele legadas, e de imitar seus santos exemplos, para que alcancemos, por sua poderosa intercessão: • nossa santidade pessoal, • o fervor e fecundidade de nossa obra, • a salvação das almas que o Senhor nos confia, • e a recompensa eterna do céu.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

OS DOZE GRAUS DO SILÊNCIO

Fonte: FSSPX México – Tradução: Dominus Est
A vida interior poderia consistir somente nesta palavra: Silêncio! O silêncio prepara os santos; os inicia, os perfecciona e os consome. Deus, que é eterno, não diz mais que uma só palavra, que é o Verbo. Do mesmo modo, seria desejável que todas as nossas palavras digam “Jesus” direta ou indiretamente. Esta palavra, silêncio, quão bonita é!
1º Falar pouco às criaturas e muito a Deus. Este é o primeiro passo, mas imprescindível, nas vias solitárias do silêncio. Nesta escola se ensinam os elementos que dispõe à união divina. Aqui a alma estuda e aprofunda esta virtude, no espírito do Evangelho e da Regra que abraçou, respeitando os lugares sagrados, as pessoas, e sobretudo esta língua em que tantas vezes descansa a Palavra do Pai, o Verbo feito carne. Silêncio ao mundo, silêncio às notícias, silêncio com as almas mais justas: a voz de um Anjo turbou Maria…
2º Silêncio no trabalho, nos movimentos. Silêncio no porte; silêncio dos olhos, dos ouvidos, da voz; silêncio de todo o ser exterior, que prepara a alma para entrar em Deus. A alma adquire grandes méritos por estes primeiros esforços em escutar a voz do Senhor. Que bem recompensado é este primeiro passo!
Deus a chama ao deserto, e por isso, neste segundo estado, a alma aparta tudo o que poderia distraí-la; se distancia do ruído, e foge sozinha Àquele que somente é. Ali saboreará as primícias da união divina e o zelo de seu Deus. É o silêncio do recolhimento, ou o recolhimento no silêncio.
3º Silêncio da imaginação. Esta faculdade é a primeira em chamar à porta fechada do jardim do Esposo; com ela vêm as emoções inoportunas, as vagas impressões, as tristezas. Mas neste lugar retirado, a alma dará ao Amado provas de seu amor. Apresentará a esta potência, que não pode ser destruída, as belezas do céu, os encantos de seu Senhor, as cenas do Calvário, as perfeições de seu Deus. Então, também ela permanecerá no silêncio, e será a servente silenciosa do Amor divino.
4º Silêncio da memória. Silêncio ao passado… esquecimento. Há que saturar esta faculdade com a recordação das misericórdias de Deus… É o agradecimento no silêncio, é o silêncio da ação de graças.
5º Silêncio às criaturas. Oh, miséria de nossa condição presente! Com freqüência a alma, atenta a si mesma, se surpreende conversando interiormente com as criaturas, respondendo em seu nome. Oh, humilhação que fez gemer os santos! Nesse momento esta alma deve retirar-se docemente às mais íntimas profundezas deste lugar escondido, onde descansa a Majestade inacessível do Santo dos santos, e onde Jesus, seu consolador e seu Deus, se descobrirá a ela, lhe revelará seus segredos, e a fazer-lhe provar a bem-aventurança futura. Então lhe dará um amargo desgosto para tudo o que não é Ele, e tudo o que é da terra deixará pouco a pouco de distraí-la.
6º Silêncio do coração. Se a língua está muda e os sentidos se encontram em calmaria, e guardam silêncio a imaginação, a memória e as criaturas, ao menos no íntimo desta alma de esposa, o coração fará pouco ruído. Silêncio dos afetos, das antipatias, dos desejos no que há de demasiado ardente, do zelo no que há de indiscreto; silêncio do fervor no que há de exagerado; Silêncio do amor no que há de exaltado, não dessa exaltação que tens Deus por autor, senão daquela na qual se mistura à natureza. O silêncio do amor é o amor no silêncio…
É o silêncio diante de Deus, suma beleza, bondade, perfeição… Silêncio que não tem nada de chato nem de forçado; este silêncio não prejudica a ternura e ao vigor deste amor, de modo semelhante à como o reconhecimento das faltas não prejudica o silêncio da humildade, nem o bater das asas dos anjos a o silêncio de sua obediência, nem o fiat ao silêncio de Getsemani, nem o Sanctus eterno ao silêncio dos serafins…
Um coração no silêncio é um coração de virgem, uma melodia para o coração de Deus. A lâmpada se consome caladamente diante do Sacrário, e o incenso sobe em silêncio até o trono do Salvador: assim é o silêncio do amor. Nos graus precedentes, o silêncio era ainda a queixa da terra; neste a alma, por causa de sua pureza, começa a aprender a primeira nota deste cântico sagrado que é o cântico dos céus.
7º Silêncio da natureza, do amor próprio. Silêncio à vista da própria corrupção, da própria incapacidade. Silêncio da alma que se compraz na sua baixeza. Silêncio aos louvores, à estima. Silêncio diante dos desprezos, das preferências e murmurações; é o silêncio da mansidão e da humildade. Silêncio da natureza ante as alegrias ou dos prazeres. A flor se abre em silêncio e seu perfume louva em silêncio ao criador: a alma interior deve fazer o mesmo. Silêncio da natureza na pena ou na contradição. Silêncio nos jejuns, nas vigílias, nas fadigas, no frio e no calor. Silêncio na saúde, na enfermidade, na privação de todas as coisas: é o silêncio eloquente da verdadeira pobreza e da penitência; é o silêncio tão amável da morte a todo o criado e humano. É o silêncio do eu humano transformando-se no querer divino. Os estremecimentos da natureza não poderiam turbar este silêncio, porque está acima da natureza.
8º Silêncio do espírito. Fazer calar os pensamentos inúteis ou puramente naturais; só estes danificam o silêncio do espírito, e não o pensamento em si mesmo, que não pode deixar de existir. Nosso espírito quer a verdade, e nós lhe damos a mentira! Agora bem, a verdade essencial é Deus! Deus basta à sua própria inteligência divina, e não basta à pobre inteligência humana!
No que diz respeito a uma contemplação de Deus imediata e prolongada, só é possível, na debilidade de nossa carne, quando Deus a concede como um puro dom de sua bondade. O silêncio nos exercícios próprios do espírito consiste então, em relação à fé, em contentar-se com sua luz escura. Silêncio aos raciocínios sutis que debilitam a vontade e dissecam o amor. Silêncio na intenção: pureza, simplicidade; silêncio às buscas pessoais; na meditação, silêncio à curiosidade; na oração, silêncio às próprias operações, que apenas colocam obstáculos à obra de Deus. Silêncio ao orgulho que se busca em tudo, sempre e em todas as partes; que quer o belo, o bem, o sublime; é o silêncio da santa simplicidade, do desprendimento total, da retidão. Um espírito que combate contra tais inimigos é semelhante a esses anjos que veem sem cessar a Face de Deus. Esta é a inteligência, sempre em silêncio, que Deus eleva a si.
9º Silêncio do juízo. Silêncio quanto as pessoas e as coisas. Não julgar, não manifestar a própria opinião, não ter opinião às vezes, ou seja, ceder com simplicidade, sem a ele não se opor a prudência e a caridade. É o silêncio da bem-aventurada e santa infância, é o silêncio dos perfeitos, o silêncio dos anjos e arcanjos quando seguem as ordens de Deus. É o silêncio do Verbo encarnado!
10º Silêncio da vontade. O silêncio aos mandamentos, às santas leis da regra, não é outra coisa, por dizer assim, que o silêncio exterior da própria vontade. O Senhor tem algo que ensinar-nos de mais profundo e difícil: o silêncio do escravo sob os golpes de seu amo. Mas, ditoso escravo, que o Amo é Deus!
Este silêncio da vítima sobre o altar, é o silêncio do cordeiro que se vê despojado de sua lã; é o silêncio nas trevas, silêncio que impede pedir a luz, ao menos a que alegra.
É o silêncio nas angústias do coração, nas dores da alma; o silêncio de uma alma que se viu favorecida por seu Deus, e que, sentindo-se agora rechaçada por Ele, não pronuncia nem sequer estas palavras: Por que? Até quando?
É o silêncio no abandono, o silêncio sob a severidade do olhar de Deus, sob o peso de sua mão divina; o silêncio sem outra queixa que a do amor. É o silêncio da crucifixão; é mais que o silêncio dos mártires: é o silêncio da agonia de Jesus Cristo. Sim, este silêncio é seu divino silêncio e nada é comparável à sua voz, nada resiste à sua oração, nada é mais digno de Deus que esta classe de louvor na dor, que este fiat no sofrimento, que este silêncio no trabalho da morte.
Enquanto esta vontade humilde e livre, verdadeiro holocausto de amor, se aniquila e se destrói para a glória do nome de Deus, Ele a transforma em sua vontade divina. Então, o que falta para sua perfeição? O que requer ainda para a união? O que falta para que Cristo seja acabado nesta alma? Duas coisas: a primeira é o último suspiro do ser humano; a segunda é uma doce atenção ao Amado, cujo beijo divino é a inefável recompensa.
11º Silêncio consigo mesmo. Não falar-se interiormente, não escutar-se, não queixar-se nem consolar-se. Em uma palavra, calar-se consigo mesmo, esquecer-se de si mesmo, deixar-se só, completamente só com Deus; fugir de si, separar-se de si mesmo. Este é o silêncio mais difícil, e no entanto é essencial para unir-se a Deus tão perfeitamente como possa fazê-lo uma pobre criatura que, com a graça, chega frequentemente até aqui, mas se detém neste grau, porque não o compreende e menos ainda o pratica. É o silêncio do nada. É mais heróico que o silêncio da morte.
12º Silêncio com Deus. No começo Deus dizia à alma: “Fala pouco às criaturas e muito comigo“. Aqui lhe diz: “Não me fales mais“. O silêncio com Deus é aderir-se a Deus, apresentar-se e expor-se ante Deus, oferecer-se a Ele, aniquilar-se  ante Ele, adorá-lo, amá-lo, escutá-lo, ouvi-lo, descansar nEle. É o silêncio da eternidade, é a união da alma com Deus.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

A ACEITAÇÃO CRISTÃ DA MORTE E A GRAÇA DA PERSEVERANÇA FINAL



No trabalho da santificação não basta começar bem, nem sequer progredir muito e por longo tempo; o mais necessário de tudo é terminar bem, pois em todas as coisas “o fim é que coroa a obra”. Por isso toca-nos examinar, a modo de conclusão final, a boa morte considerada sob um duplo aspecto: 1º como coroação de todo o trabalho de renúncia e mortificação; 2º como coroação de todo nosso trabalho de santificação.
1º A aceitação cristã da morte, coroação de todo o trabalho de mortificação e renúncia ao pecado.
Considerada à luz da fé, a morte aparece como a penitência por excelência para expiar os pecados cometidos, e como o sacrifício por excelência para unir-nos ao holocausto do Calvário.
1 – A morte, cristãmente aceita, constitui a penitência por excelência para reparar nossos pecados. Temos as provas disso:
  1. Na vontade formal de Deus. Todas as penitências suportadas ao longo da vida são contas parciais e antecipadas; o pagamento total que a justiça divina exige por nossas dívida é a morte. Assim o decretou Deus desde que o pecado entrou no mundo: “Morrerás indubitavelmente” (Gn 2 17); assim o proclama São Paulo: “O estipêndio do pecado é a morte” (Rm 6 23).
  2. Na conduta de Jesus Cristo. Feito nosso fiador, Jesus Cristo expiou nossos pecados por sua morte na cruz; e por isso mesmo, também nós devemos pagar à justiça divina a parte que nos corresponde, unindo o sacrifício de nossa vida ao de Jesus Cristo.
  3. Na natureza do pecado e da morte. Todo pecado tem como princípio, um apego desordenado aos bens da terra, uma satisfação culpável dos sentidos, um ato de orgulho ou de vontade própria. Pois bem, aceitar cristãmente a morte é reparar: todos os nossos apegos desordenados, aceitando a separação desgarradora de todos os bens desta terra; todos os nossos prazeres culpáveis, aceitando a morte com todo seu cortejo de sofrimentos físicos e angústias morais;  todos os nossos atos de orgulho de vontade própria, fazendo-nos obedientes à vontade Deus até o ponto de aceitar a morte, tal como apraz ao Senhor no-la enviar, e a humilhação e o esquecimento supremo do túmulo. Por isso, os autores ascéticos veem na aceitação cristã da morte um ato de caridade perfeita, que tem a virtude de expiar todas as dívidas contraídas por nossos pecados.
2 – A morte, cristãmente aceita, é o sacrifício por excelência. Com efeito, para a criatura humana: • aceitar a destruição de seu ser para reconhecer o supremo domínio de Deus sobre ela, é oferecer à divina Majestade o mais perfeito holocausto; • aceitá-la com confiança e abandono filial para com nosso Pai celestial é terminar nossa vida pelo ato mais meritório; • aceitá-la, sobretudo, em união com Jesus e seu sacrifício da cruz, morrendo com Ele pela redenção das almas, é coroar nossa vida com o mais fecundo sacrifício, a imitação de Jesus, que converteu o infame patíbulo da cruz em um altar no qual consumou o mais perfeito sacrifício para glória de seu Pai e salvação das almas.
3 – A aceitação cristã da morte, prática de toda a vida. É capital e decisivo não esperar a nossa última hora para aceitar a morte em espírito de penitência e de sacrifício, mas fazer da aceitação da morte uma prática de toda a vida e ainda de cada dia.
  • É sabedoria e prudência. Coroar nossa vida com a aceitação generosa da morte é uma coisa tão grande e decisiva, que há que se entregar a ela a cada dia: tamanha obra não se improvisa. Ademais, segundo uma lei geral, anunciada por Nosso Senhor, a morte chega de improviso e nos ameaça a toda hora. Finalmente, no momento da morte, muito há que temer que a enfermidade nos prive da lucidez da mente e da liberdade de vontade necessárias para dar a este ato tão importante toda a sua perfeição.
  • É um dever a título de cristãos. Jesus faz da vigilância e preparação à morte um preceito para todos seus discípulos, comparando a morte com um ladrão que espreita sem cessar a sua vítima para despojá-la quando ela menos espera, e com um senhor que virá surpreender de improviso seu servidor para pedir-lhe contas de seu trabalho. O bom cristão deve, pois, preocupar-se habitualmente da morte, estar sempre preparado para ela (Mc 23 42-47).
  • É uma fonte de méritos. Cada vez que nos propomos, diante da eventualidade de uma morte, por aceitá-la onde, quando e como apraza a Deus no-la enviar, ganhamos integralmente o mérito deste ato. Também nisto Jesus nos serve de Modelo. Ele morreu uma só vez na Cruz; mas ao longo de toda a sua vida mortal entrevia esta morte sangrenta, aceitava-a plenamente, e unia assim de antemão o sacrifício parcial de cada instante ao sacrifício total de sua vida. Nós morreremos uma só vez; mas, a exemplo de nossa divina Cabeça, podemos ganhar todo o mérito do sacrifício de nossa morte quantas vezes e tão frequentemente quando quisermos.
2º A perseverança final,  coroação de todo nosso trabalho de crescimento na vida divina.
A perseverança final é a graça das graças, a que coroa toda nossa vida espiritual fazendo que a morte nos encontre em estado de graça e mereçamos, portanto, a eterna recompensa prometida por Deus aos bem-aventurados.
  • Sem esta graça, tudo está perdido: qualquer que seja o grau de santidade a que havemos chegado, se viéssemos a perdê-la e morrêssemos em desgraça de Deus, tudo estaria irremissivelmente perdido para nós.
  • Com esta graça, tudo está ganho: “Quem perseverar até o fim, este será salvo” (Mt 1022). Assim, pois, apenas a perseverança final dará uma resposta favorável ao angustioso interrogante de nossa vida: Merecerei o prêmio definitivo, ou o definitivo castigo? Serei um eterno bem-aventurado no céu, ou eterno condenado no inferno? Por isso, nunca faremos o bastante para assegurar nossa perseverança final.
Esta perseverança final pode considerar-se sobre um duplo aspecto: do lado do homem e do lado de Deus.
1 – Da parte do homem, a perseverança final consiste em manter-se na graça de Deus até a morte. Supõe como elemento essencial uma boa morte, isto é, uma morte em estado de graça; mas é mais ou menos perfeita, segundo a alma tenha se mantido por mais ou menos tempo na graça de Deus antes de sair deste mundo.
2 – Da parte de Deus, a perseverança final supõe todo um conjunto de socorros, não apenas ordinários, mas também extraordinários e gratuitos.
  • Socorros extraordinários, que podem ser exteriores ou interiores: EXTERIORES, como as intervenções especiais da Providência, tanto para desviar do curso de nossa existência certas circunstâncias que Deus sabia seriam fatais para nossas virtudes, como para enviar-nos a morte na hora mais favorável; INTERIORES, como as graças especiais que, por sua natureza, oportunidade e intensidade, permitem-nos triunfar nas horas críticas da vida e nas lutas supremas da agonia.
  • Socorros gratuitos: constituídos em estado de graça, podemos merecer em justiça, por nossa fidelidade e virtudes, um novo grau de graça e de glória; mas, em justiça, jamais merecer a perseverança final, já que em nenhuma parte da Escritura se nos promete como recompensa de nossas boas obras; e assim, devemos esperá-la da liberalidade divina como um puro dom.
3 – Meios para assegurar nossa perseverança final.
Os meios para assegurar a perseverança final podem reduzir-se a três: a oração, a comunhão frequente e a devoção a Maria.
1º A oração. O que não podemos exigir estritamente da justiça de Deus por via de mérito propriamente dito, podemos obtê-lo infalivelmente da misericórdia de Deus por meio de orações humildes, confiadas e perseverantes: • orações humildes: que partam da convicção de nossa radical impotência para perseverar por nossas próprias forças; • orações confiadas: apoiadas na promessa final de Deus de tudo conceder à oração feita em nome de Jesus Cristo; • orações perseverantes: já que a perseverança final supõe um encadeamento contínuo de graças, cada uma das quais é inteiramente gratuita; por isso, há que pedi-las todos os dias até o último momento.
2º A comunhão diária. Jesus Cristo mesmo afirma solenemente que a comunhão é uma prenda de perseverança final: “O que come a minha carne, e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e Eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6 54). As orações que precedem e acompanham a comunhão nos inculcam a mesma verdade: “Senhor Jesus Cristo…, fazei que eu seja sempre fiel cumpridor dos vossos mandamentos e não permitais que jamais me afaste de Vós”; “O Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo guarde a minha alma para a vida eterna”.
Ao culto eucarístico vincula-se a devoção ao Sagrado Coração e a prática reparadora da Comunhão durante nove primeiras sextas-feiras do mês, segundo a promessa expressa do Coração de Jesus a Santa Margarida Maria: “Eu prometo, na excessiva misericórdia do meu Coração, que amor todo-poderoso dele concederá, a todos aqueles que comungarem em nove primeiras sextas-feiras do mês seguidas, a graça da penitência final; eles não morrerão na minha desgraça, nem sem receber os sacramentos e o meu divino Coração será o seu asilo seguro no último momento.”
3º A devoção a Maria. A devoção a Maria sempre foi proclamada um dos sinais mais certos de predestinação, ou seja, de perseverança final: “Um escravo de Maria nunca perecerá”. Por isso, a Igreja nos incita a recorrer diariamente a Maria, ao fazer-nos dizer sem cessar a Ave Maria: “Rogai por nós, pecadores, agora”, para assegurar-nos os auxílios especiais da “viagem”, “e na hora da nossa morte”, para assegurar-nos os auxílios especiais do “supremo passo”.
A oração confiada a Maria devemos vincular a devoção ao seu Imaculado Coração e a prática reparadora da Comunhão durante os cinco primeiros sábados do mês, segundo o que a Santíssima Virgem prometeu em 1925 a Irmã Lúcia: “Dize que todos aqueles que durante cinco meses, no primeiro sábado, se confessarem, recebendo a Sagrada Comunhão, rezarem um Terço, e Me fizerem quinze minutos de companhia, meditando nos quinze mistérios do Rosário, com o fim de me desagravar, Eu prometo assistir-lhes, na hora da morte com todas as graças necessárias para a salvação dessas almas”.
4º Considerações finais
Segundo o ensinamento da teologia católica, além dos meios anteriores para conseguir infalivelmente da misericórdia divina a graça da perseverança final, há certos sinais de predestinação, isto é, conjeturas pelas quais podemos e devemos alimentar uma esperança muito bem fundada de que obteremos de Deus esse grande dom. Entre eles são os principais:
• viver habitualmente na graça de Deus, fugindo com generosidade do pecado e de suas ocasiões, e praticando as virtudes cristãs;
• a paciência cristã nas adversidades;
• uma verdadeira humildade; 
• a prática sobrenatural da caridade cristã  e das obras de misericórdia;
• a união habitual a Nosso Senhor Jesus Cristo e a seus mistérios.