sábado, 12 de outubro de 2019

A vida dos religiosos é mais semelhante à de Jesus Cristo



Quos praescivit, et praedestinavit conformes fieri imaginis Filii sui – “Os que conheceu na sua presciência, também predestinou para se fazerem conformes à imagem de seu Filho” (Rm 8, 29)
Sumário. Compenetremo-nos bem de que os religiosos, contanto que guardem suas Regras, são os homens mais felizes do mundo; porque mais do que os outros são imitadores da vida de Jesus Cristo. Os mundanos têm-nos por loucos, mas no vale de Josafá conhecerão terem sido eles os loucos, porque deixaram o caminho da verdade e assim condenaram-se para sempre. Demos graças ao Senhor pela escolha que fez de nós e sejamos fiéis à nossa vocação. Ai de nós, se tivéssemos a desgraça de a perder.
I. O Apóstolo diz que o Pai Eterno predestina ao reino dos céus só àqueles que têm uma vida conforme a do Verbo Incarnado: Os que conheceu na sua presciência, também predestinou para se fazerem conformes à imagem de seu Filho. Quanto devem, pois, estar contentes e certos do céu os religiosos, vendo que Deus os chamou a um estado de vida que entre todos é o mais conforme à vida de Jesus Cristo!
Jesus nesta terra quis viver pobre como simples aprendiz de operário, numa casa pobre, com vestidos pobres, com alimentos pobres: Propter vos egenus factus est, cum esset dives (1) – “Apesar de ser rico, ele se fez pobre por vós”. Demais, ele escolheu para si uma vida toda mortificada, apartada de todos os prazeres do mundo e sempre acompanhada de penas e tristezas, do nascimento até à morte, pelo que foi chamado pelos profetas o homem das dores: vir dolorum (2). Com isso fez ver a seus servos, qual deve ser a vida de quem o quer seguir, isto é, uma vida de abnegação e de sacrifício: Si quis vult venire post me, abneget semetipsum, tollat crucem suam, et sequatur me (3) – “Se alguém quiser vir atrás de mim, renuncie a si próprio, tome a sua cruz, e siga-me”.
Seguindo este exemplo e este convite de Jesus, os santos procuravam despojar-se de todos os bens terrenos e carregar-se de penas e de cruzes para assim seguirem seu amado Senhor. – Assim fez um São Bento, que, sendo filho dos senhores de Núrcia e parente do imperador Justiniano, renunciou às delícias e riquezas do mundo, e, jovem de 14 anos, foi viver numa gruta no monte Sublaco. Assim fez um São Francisco de Assis, que, entregando ao pai toda a porção da herança que lhe competia, até o próprio vestido, pobre e mortificado se consagrou todo a Jesus Cristo. Assim um São Francisco de Borgia, um São Luiz Gonzaga, que sendo, o primeiro duque de Gandia e o segundo príncipe de Castiglione, deixaram riquezas, vassalos, pátria, casa e parentes, e foram viver pobres num convento. E assim fizeram outros muito nobres e príncipes, mesmo de sangue real. Só na ordem beneditina se contam setenta e cinco imperadores, reis e rainhas que deixaram o mundo para viverem pobres, mortificados e esquecidos do mundo, em um pobre convento, e assim se tornarem mais semelhantes a Jesus Cristo.
II. Compenetremo-nos bem de que os religiosos, contanto que guardem as suas Regras, que os religiosos, e não os grandes do mundo, são os verdadeiros felizes, porque, mais do que quaisquer outros, são imitadores de Deus, como filhos prediletos (4). Os mundanos os têm por loucos, mas no vale de Josafá conhecerão terem sido eles os loucos. Vendo então os Santos em seus tronos, coroados por Deus, chorando e desesperados dirão: “São estes de quem nós algum tempo escarnecíamos. Nós, insensatos! Tínhamos a vida deles como uma loucura… Eis como são contados no número dos filhos de Deus e a sua sorte é entre os santos. De que nos aproveitou nosso orgulho?” (5)
Meu Mestre e Redentor Jesus, eis-me, portanto, no meio dos ditosos, que Vós chamastes para Vos seguirem. Senhor meu, graças Vos dou! Deixo tudo: desejaria ter mais que deixar para Vos seguir, meu Rei e meu Deus, que escolhestes para Vós uma vida tão pobre e tão cheia de privações por amor de mim e para me dar ânimo com o vosso exemplo. Caminhai adiante, Senhor, que eu Vos seguirei. Escolhei para mim a cruz que quiserdes e ajudai-me porque quero levá-la com constância e amor. – Pesa-me que no passado Vos abandonei para correr atrás de minhas satisfações e das vaidades do mundo; agora não quero mais abandonar-Vos. Prendei-me à vossa Cruz; e se, pela minha fraqueza, eu resistir alguma vez, atrai-me com as doces cadeias do vosso amor e não permitais que eu Vos deixe ainda.
Sim, meu Jesus, renuncio a todos os prazeres do mundo; o meu único prazer será seguir-Vos, amando e sofrendo tudo que for do vosso agrado. Assim espero achar-me um dia em vosso reino, ligado a Vós com o laço do amor eterno, com que, amando-Vos sem véu, não poderei mais temer ver-me solto e separado de Vós. Amo-Vos, meu Deus e meu tudo, e sempre Vos amarei. – Maria Santíssima, vós que, por terdes sido a mais semelhante a Jesus, sois agora a mais poderosa para alcançar as graças, protegei-me.
Referências:
(1) 2 Cor 8, 9
(2) Is 53, 3
(3) Mt 16, 24
(4) Ef 5, 1
(5) Sb 5, 3

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 275-277)

Motivos para Esperar em Jesus Cristo



Sic Deus dilexit mundum, ut Filium suum unigenitum daret – “Tanto amou Deus o mundo, que lhe deu seu Filho unigênito” (Jo 3, 16)
Sumário. O Pai Eterno, dando-nos seu Filho por Redentor, vítima e preço de nosso resgate, não pôde dar-nos motivos mais poderosos de confiança e de amor. Aproveitemo-nos de tão grande dom e recorramos a Jesus em todas as necessidades, lembrando-nos de que Ele é nossa sabedoria, para trilharmos o caminho da salvação; nossa justiça, para aspirarmos ao paraíso; nossa santificação, para obtermos a santidade; finalmente, nossa redenção, para alcançarmos a liberdade dos filhos de Deus.

I. Considera que o Eterno Pai, dando-nos o Filho por Redentor, vítima e preço de nosso resgate, não nos pode dar motivos mais poderosos de confiança e de amor. Tendo-nos dado Seu Filho, não tem mais nada que nos dar, diz Santo Agostinho. Quer o Pai que nos aproveitemos deste seu dom imenso, para alcançarmos a salvação eterna e todas as graças de que necessitamos. Em Jesus achamos tudo que podemos desejar; nEle achamos luz, fortaleza, paz, confiança, amor e a glória eterna, porquanto Jesus Cristo é um dom que encerra todos os dons que nos é lícito buscar e desejar: Quomodo non etiam cum illo omnia nobis donavit? (1). Depois que Deus nos deu Seu amado Unigênito, que é a fonte e o tesouro de todos os bens, como poderemos temer, diz São Paulo, que nos queira recusar alguma graça que lhe vamos pedir?

Christus Jesus factus est nobis sapientia a Deo, et iustitia, et sanctificatio et redemptio – “Jesus Cristo foi por Deus feito para nós sabedoria, justiça, santificação e redenção” (2). Deus no-lo deu, para que fosse nossa luz e sabedoria na ignorância e cegueira, para trilharmos o caminho da salvação. Aos réus do inferno deu-o como justiça afim de poderem aspirar ao paraíso; aos pecadores deu-o como santificação para alcançarem a santidade; e, finalmente, como éramos escravos do demônio, deu-no-lo como redenção para adquirirmos a liberdade dos filhos de Deus. – Numa palavra, diz o Apóstolo que por meio de Jesus Cristo fomos enriquecidos com todos os bens e graças, se os pedimos em virtude dos seus merecimentos: In omnibus divites facti estis; ita ut nihil vobis desit in ulla gratia – “Em todas as coisas fostes enriquecidos nele, de modo que nada vos falta em alguma graça” (3).
O dom que Deus fez do Seu Filho, é um dom feito a cada um de nós; pois que o deu de tal forma a cada um, como se fosse dado a este só. De modo que cada um de nós pode dizer: Jesus é todo meu; é meu o Seu Corpo, o Seu Sangue, é minha a Sua vida e a Sua morte; são meus os Seus padecimentos e méritos; – Por isso dizia São Paulo: Dilexit me, et tradidit semetipsum pro me – “Ele me amou e se entregou a si mesmo por mim” (4). Quem quer pode dizer o mesmo: o meu Redentor me amou, pelo amor que me teve, se deu todo a mim.
II. Ó Deus eterno, quem poderia fazer-me um dom de valor infinito a não ser Vós, que sois um Deus de amor infinito? Ó meu Criador, que mais podíeis fazer para excitar em nós a confiança na Vossa Misericórdia, e nos obrigar a Vos amar? Senhor, eu Vos paguei com ingratidão; mas Vós dissestes: Diligentibus Deum omnia cooperantur in bonum – “Para os que amam a Deus, tudo coopera para o bem” (5). Não quero, portanto, que o grande número e a enormidade de meus pecados me façam perder a confiança em Vossa bondade; quero que me sirvam para me humilhar mais, quando receba alguma afronta. É digno de outras humilhações e desprezos aquele que teve a ousadia de Vos ofender, ó Majestade infinita! Quero ainda que me sirvam para me resignar mais perfeitamente nas cruzes que me queirais enviar; para ser mais diligente em Vos servir e louvar, afim de compensar as injúrias que Vos fiz. Sempre terei diante dos olhos os desgostos que Vos causei, para louvar mais a Vossa Misericórdia, para me abrasar mais em Vosso amor, já que me viestes procurar, quando fugia de Vós, e me fizestes tanto bem, depois que Vos tinha ofendido tantas vezes.
Espero, Senhor, que já me haveis perdoado. Arrependo-me e quero sempre arrepender-me dos ultrajes que Vos fiz. Quero provar-Vos a minha gratidão, compensando pelo meu amor a minha ingratidão para conVosco. Vós, porém, deveis ajudar-me, e peço-Vos a graça de executar esta minha vontade. Para Vossa glória, fazei, ó meu Deus, que Vos ame muito um pecador que muito Vos ofendeu. Meu Deus, meu Deus, como poderei não Vos amar e tornar a me separar do Vosso amor?
– Ó Maria, minha Rainha, socorrei-me; conheceis a minha fraqueza. Fazei que me recomende a Vós cada vez que o demônio queira separar-me de Deus. Maria, minha Mãe, e minha esperança, ajudai-me.
Referências:
(1) Rm 8, 32
(2) 1 Cor 1, 30
(3) 1 Cor 1, 5 e 7
(4) Gl 2, 20
(5) Rm 8, 28

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 467-469)

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Pensamento da morte faz perder o apego dos bens do mundo



Dives cum dormierit, nihil secum aufert; aperiet óculos suos, et nihil inveniet – “O rico, quando dormir, nada levará consigo; abrirá os olhos e nada achará” (Jó 27, 19)
Sumário. Oh! Quão bem aprecia as coisas e dirige as suas ações, o que as aprecia e dirige tendo em vista a morte! Lembra-te, portanto, muitas vezes, meu irmão, de que todas as fortunas deste mundo acabam com um último suspiro, com um cortejo fúnebre. Em breve terás de ceder a outrem as tuas dignidades e riquezas. O túmulo será a morada do teu corpo até ao dia do juízo, e tua alma estará ou no céu, ou no inferno, para ali ficar eternamente. Então nada acharás senão o bem ou o mal que fizeste; tudo o mais terá acabado.
I. É certa a morte. Ó céus! Sabem-no os cristãos, acreditam-no, vêem-no; como é, pois, que há tantos que vivem no esquecimento da morte, como se nunca tivessem de morrer? Se depois desta vida não houvesse nem inferno nem céu, poderiam pensar menos na morte do que atualmente pensam? E porque é que vivem tão mal como estão vivendo?
Meu irmão, se queres viver bem, procura viver o resto de teus dias sem perder a morte de vista. O mors, bonum est iudicium tuum (1) – “Ó morte, quão boa é a tua sentença!”. Quão bem aprecia as coisas e dirige as suas ações o que as aprecia e dirige tendo em vista a morte! – A lembrança da morte faz perder o amor às coisas deste mundo, diz São Lourenço Justiniani: Consideretur vitae terminus, et non erit in hoc mundo quod ametur. Com efeito; todos os bens do mundo se reduzem, na palavra de São João (2), aos prazeres dos sentidos, às riquezas e as honras. Ora, tudo isto é bem desprezível aos olhos do que reflete em que dentro em breve se tornará pó e será sepultado para servir de pasto aos vermes. Foi efetivamente à vista da morte que os santos desprezaram todos os bens da vida presente.
Que louco não seria o viajante que só pensasse em fazer figura no país que atravessa, e não se importasse que assim se reduz a viver depois vida miserável no país onde tem de ficar a vida toda? E não será igualmente insensato o que só procura ser feliz neste mundo, onde se fica apenas uns poucos dias, e se arrisca a ser desgraçado no outro, onde deverá viver eternamente? – Quem possui alguma coisa apenas por empréstimo, pouca afeição lhe tem, pensando que em breve a tem de restituir. Os bens da terra nos são dados todos de empréstimo; seria, pois, loucura ligar-se-lhes afeição, já que em breve os havemos de abandonar. A morte nos privará de tudo.
II. Meu irmão, todas as posses, todas as fortunas deste mundo terminarão com um último suspiro, um préstito fúnebre, um baixar à cova. Em breve terás de ceder a outrem a casa que construíste; o túmulo será a morada de teu corpo até ao dia do juízo, e depois irá ou ao céu ou ao inferno, para onde a alma já o terá precedido. E então nada acharemos senão o pouco que tivermos feito por amor de Deus, tudo o mais estará acabado.
Porque, pois, esperar, ó meu Senhor? Esperarei até que venha a morte e me encontre tão miserável e enlameado de pecados, como estou atualmente? Se tivesse de morrer agora, morreria bem inquieto e mal satisfeito com a vida que levei. Não, meu Jesus, não quero morrer tão descontente. Agradeço-Vos por me haverdes dado o tempo de chorar os meus pecados e de Vos amar. Quero começar, a partir de agora. Pesa-me sobre todos os males de Vos ter ofendido, ó bondade suprema, e amo-Vos mais que todas as coisas, mais que minha vida. Dou-me todo inteiro a Vós; ó meu Jesus, desde já Vos abraço, Vos aperto ao coração, e Vos entrego toda a minha alma: In manus tuas commendo spiritum meum (3). Para vô-la dar, não quero esperar até o momento em que o Proficiscere lhe intimará a ordem de partir deste mundo. Não quero esperar até então para Vos rogar que me salveis.
Iesus, sis mihi Iesus – “Ó Jesus, sêde meu Salvador”. Salvai-me agora, perdoando-me e concedendo-me a graça de vosso santo amor. Quem sabe se a consideração que estou lendo agora, não será o último apelo, a última misericórdia que me fazeis? Estendei-me a vossa mão, ó meu amor, e fazei-me sair do lodaçal da tibieza. Dai-me fervor, fazei que Vos obedeça com grande amor em tudo que pedis de mim. – Ó Pai Eterno, pelo amor de Jesus Cristo, dai-me a santa perseverança e a graça de Vos amar, mas de Vos amar muito durante o resto de meus dias. – Ó Maria, Mãe de misericórdia, pelo amor que tendes a vosso Filho Jesus, obtende-me estas duas graças: a perseverança e o amor.
Referências:
(1) Eclo 41, 3
(2) 1 Jo 2, 16
(3) Sl 30, 6

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 9-12)

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Deus é o bem que faz o paraíso




Ego ero merces tua magna nimis – “Eu serei tua recompensa infinitamente grande” (Gn 15, 1)
Sumário. A formosura dos Santos, as harmonias celestiais e todas as outras delícias do céu, são os menores bens desse reino bem-aventurado. O bem que faz a alma plenamente feliz e faz propriamente o céu é o Bem supremo, é Deus, é vê-lo face a face e amá-lo. Ânimo, pois, meu irmão, visto que tão grande recompensa nos aguarda também. Mas, para o conseguirmos, mister é que abracemos de boa vontade as cruzes e tribulações da vida presente, mormente se no passado houvéssemos tido a desgraça de merecer o inferno.
I. A formosura dos Santos, as harmonias celestiais e todas as outras delícias do céu são os menores bens desse reino bem-aventurado. O bem que faz a alma plenamente feliz e que constitui propriamente o paraíso é o Bem supremo, é o Deus, é ver Deus face a face e amá-lo. – Diz Santo Agostinho que, se Deus se deixasse ver aos réprobos, o inferno com todos os seus tormentos se mudaria para ele no mesmo instante em um paraíso. E acrescenta que, se fosse dada a uma alma, ao sair desta vida, a escolha de ver a Deus ficando nas penas do inferno, ou de ser livre das penas do inferno, mas privada da vista de Deus, preferiria ver o Senhor nos tormentos do inferno.

A felicidade de ver e amar a Deus face a face, não pode ser de nós concebida nesta terra. Procuremos, porém, formar dela alguma ideia. Em primeiro lugar, sabemos que o amor divino é tão encantador, que mesmo nesta terra chegou a arrebatar não só as almas, como também os corpos dos Santos. São Filipe Neri foi certa vez arrebatado ao ar, juntamente com o banco em que estava sentado. São Pedro de Alcântara foi também elevado sobre a terra, a ponto de desarraigar a árvore à qual estava abraçado.
Sabemos, além disso, que os santos mártires, pela doçura do amor divino, se regozijavam até no meio dos tormentos. São Vicente falava de tal maneira, enquanto o atormentavam, que, na expressão de Santo Agostinho, parecia ser um que sofria e outro que falava. São Lourenço, enquanto estava na grelha em brasa, zombava do tirano nestes termos: Vira-me e come. – Que suavidade não enche a alma, quando, iluminada na oração por um raio da luz divina, vê a bondade divina e as misericórdias de Deus para com ela e o amor que lhe teve Jesus Cristo. Então a alma se sente toda abrasada e como que cair desfalecida pelo amor.
No entanto, neste mundo não vemos Deus tal qual é. Temos uma venda sobre os olhos e Deus está oculto sob o véu da fé e não se deixa ver. Que será, porém, quando se tirar a venda dos nossos olhos, se levantar o véu e virmos a Deus face a face? Veremos então como Deus é belo, quanto é grande, quanto é justo, quanto é perfeito, quanto é amável, quanto é amante!
II. Tinha razão o Apóstolo São Paulo em dizer que todos os sofrimentos da vida presente não são nada quando comparados com a futura glória que se manifestará em nós: Non sunt condignae passiones huius temporis ad futuram gloriam, quae revelabitur in nobis (1). Por isso, meu irmão, abracemos de boa vontade as cruzes e tribulações que Deus nos envia para nosso bem; e, mais ainda, se no passado temos tido a desgraça de merecer o inferno. Digamos frequentemente com São Filipe: É tão grande o bem que espero, que toda a pena me é gozo.
Meu soberano Bem, eu sou esse desgraçado que Vos voltou às costas e renunciou ao vosso amor. Não merecia mais ver-Vos e amar-Vos. Mas, Vós sois aquele que, tendo compaixão de mim, não teve compaixão de si próprio, condenando-se a morrer de dor sobre um madeiro ignominioso e infame. A vossa morte me dá a esperança de Vos ver um dia e gozar de vossa presença, amando-Vos então com todas as minhas forças. Agora, que estou ainda em risco de Vos perder para sempre, depois de já Vos haver perdido pelos meus pecados, que farei no resto da minha vida? Continuarei a ofender-Vos? Não, meu Jesus, abomino com todo o horror de que sou capaz as ofensas que Vos fiz: pesa-me extremamente de Vos haver ultrajado e amo-Vos de todo o meu coração.
Repelireis uma alma que está arrependida e Vos ama? Não, meu amado Redentor; bem sei que dissestes que não sabeis repelir aquele que arrependido volta a vossos pés. – Ó meu Jesus, eu abandono tudo e me converto a Vós; abraço-Vos, aperto-Vos ao coração; abraçai-me também e apertai-me ao vosso. Ouso falar-Vos assim; porque falo a uma bondade infinita; falo a um Deus, que quis morrer por meu amor. Meu querido Salvador, dai-me a perseverança em vosso amor. – Minha querida Mãe Maria, pelo grande amor que tendes a Jesus Cristo, obtende-me a perseverança.
Referências:
(1) Rm 8, 18
(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 222-224)

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Como receber e usar o Escapulário de Nossa Senhora do Carmo



No dia 16 de Julho de 1251, Nossa Senhora apareceu a São Simão Stock e disse:

"Recebe, diletíssimo filho, este Escapulário de tua Ordem como sinal distintivo e a marca do privilégio que eu obtive para ti e para todos os filhos do Carmelo; é um sinal de salvação, uma salvaguarda nos perigos, aliança de paz e de uma proteção sempiterna. Quem morrer revestido com ele será preservado do fogo eterno."

Qualquer pessoa pode usar o Escapulário, reduzido a um pequeno pedaço de pano. Deve, no entanto, rezar diariamente orações marianas, como por exemplo 3 Avé Marias antes de dormir, pela santa pureza.

Como receber e usar o Escapulário

1 - Qualquer padre tem poder para benzer e impor na pessoa o Escapulário.

2 - Essa bênção e imposição valem para toda a vida, portanto, basta recebê-lo uma vez.

3 - Quando o Escapulário se desgastar, basta substituí-lo por um novo.

4 - Mesmo quando alguém tiver a infelicidade de deixar de usá-lo durante algum tempo, pode simplesmente retomar o seu uso, não é necessária outra bênção.

5 - Uma vez recebido, ele deve ser usado sempre, de preferência no pescoço, em todas as ocasiões, mesmo enquanto a pessoa dorme.

6 - Em casos de necessidade extrema, como doentes em hospitais, se o Escapulário lhe for retirado, o fiel não perde os benefícios da promessa de Nossa Senhora.

7 - Em casos de perigo de morte, mesmo um leigo pode impor o Escapulário. Basta recitar uma oração a Nossa Senhora e colocar na pessoa um escapulário já bento por algum sacerdote.

Em 1910, São Pio X concedeu a permissão para se usar uma medalha de metal, devendo ter em uma das faces o Sagrado Coração e na outra a Santíssima Virgem. Deve ser levada ao pescoço ou de outra maneira conveniente, ganhando-se com o seu uso quase todas as indulgências e privilégios concedidos aos pequenos escapulários. O Santo Papa desse modo quis atender aos apelos dos missionários de zonas tórridas em favor dos nativos, porquanto os pedaços de lã dos escapulários ficavam logo em condições intoleráveis devido ao intenso calor, às vezes sendo ninho de vermes. 

Porém, para se gozar todos os privilégios, é necessário que se tenha recebido a bênção e a imposição do escapulário de lã. Ao contrário do que se dá com o escapulário de lã, no qual basta só o primeiro ser bento, cada medalha-escapulário que se troca precisa ser benta. A recepção deve ser feita com o escapulário de tecido. 

O Papa Pio XI, por decreto (1925), aprovou o escapulário protegido por plástico ou outro material qualquer; mas o escapulário tem que ser de lã.

domingo, 22 de setembro de 2019

Confiai a Deus todas as vossas preocupações



Entrou na Ordem um novo aspirante de qualidade e o seu número foi assim elevado para oito. Então o bem-aventurado Francisco reuniu-os a todos e falou-lhes longamente do Reino de Deus, do desprezo do mundo, da renúncia à vontade própria e da docilidade que tinham de exigir ao seu corpo. 

Depois dividiu-os em quatro grupos de dois e disse-lhes: «Ide, meus bem-amados, percorrei dois a dois as diversas regiões do mundo, anunciai a paz aos homens e pregai-lhes a penitência que obtém o perdão dos pecados. Sede pacientes na prova, certos de que Deus cumprirá o que decidiu e manterá as suas promessas. Respondei humildemente a quem vos interrogar, abençoai os que vos perseguirem, agradecei aos que vos insultarem e vos caluniarem, pois esse é o preço do Reino dos Céus (Mt 5,10-11).» 


Eles acolheram com alegria a missão que lhes confiava a santa obediência e prostraram-se aos pés de São Francisco, que abraçou cada um deles ternamente dizendo-lhes com fé: «Confiai a Deus todas as vossas preocupações, porque Ele tem cuidado de vós» (1Pe 5,7). Era a sua frase habitual quando enviava um irmão em missão.


Tomás de Celano (biógrafo de S. Francisco e de S. Clara) in «Vita Prima» de S. Francisco 

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sábado, 21 de setembro de 2019

Quem fala mal a um pobre injuria a Cristo



Francisco, pobrezinho e pai dos pobres, queria viver em tudo como pobre; sofria quando encontrava alguém mais pobre que ele, não por vaidade mas por causa da terna compaixão que os pobres lhe causavam. Só queria uma túnica de tecido grosseiro e muito comum; ainda assim acontecia-lhe bastantes vezes partilhá-la com algum infeliz. 

No entanto, era um pobre muito rico pois, movido pela sua grande caridade a socorrer os pobres sempre que podia, quando estava muito frio, ia ter com os ricos deste mundo e pedia-lhes que lhe emprestassem um sobretudo ou um casaco. Traziam-lhos mais depressa do que a pressa que ele se tinha dado em fazer o pedido. Ele então dizia: «Aceito com a condição de não esperarem que vo-los devolva.» E, com o coração em festa, Francisco oferecia o que acabava de receber ao primeiro pobre que encontrava. 

Nada lhe causava mais pena do que ver insultar um pobre ou que dissessem mal de qualquer criatura. Um dia, um irmão deixou escapar umas palavras que magoaram um pobre que pedia esmola: «Não serás por acaso um rico a fingir de pobre?» Estas palavras caíram muito mal a Francisco, o pai dos pobres, que infligiu ao delinquente uma terrível reprimenda e lhe ordenou que se despojasse das suas vestes na presença do pobre e lhe beijasse os pés, pedindo-lhe perdão. «Quem fala mal a um pobre, dizia, injuria a Cristo, de quem o pobre é o mais nobre símbolo neste mundo, uma vez que Cristo por nós Se fez pobre neste mundo» (cf 2Cor 8,9).

Tomás de Celano, biógrafo de S. Francisco in 'Vita prima' de S. Francisco, §76 

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Frei Junípero e a capacidade de suportar as críticas e a maldicência



Frei Junípero, um dos primeiros discípulos e companheiros de São Francisco de Assis, não conseguia manter-se em silêncio quando era repreendido ou quando alguém lhe fazia uma observação desagradável. Para se corrigir desse defeito fez o propósito de, durante seis meses, não dar réplica nem mesmo às mais pesadas injúrias que eventualmente lhe fossem feitas.

Essa luta contra si mesmo custou-lhe grandes sacrifícios. Certa vez, ao ser insultado de forma brutal, fez um tal esforço para se conter que sentiu subir-lhe aos lábios uma golfada de sangue que vinha do seu peito. Nesse dia, muito aflito, o bom frade entrou numa igreja, prostrou-se diante de um crucifixo e exclamou:

– Vede, meu Senhor, o que suporto por amor a Vós!

Então, cheio de temor e encanto, viu o divino Crucificado despregar do madeiro a mão direita e colocá-la sobre a chaga aberta pela lança do centurião, enquanto que lhe dizia:

E Eu, o que suporto por amor a ti? Profundamente emocionado, Junípero era outro homem ao levantar-se. Ele, que antes não conseguia aturar sem sofrimento qualquer pequena injúria, passou a receber com alegria as mais graves ofensas, como se fossem pedras preciosas para ornar a sua alma.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

O Amor Divino e os seus maravilhosos efeitos, por Tomás de Kempis









Jesus: Grande coisa é o amor! E um bem verdadeiramente inestimável que por si só torna suave o que é difícil e suporta sereno toda a adversidade. Porque leva a carga sem lhe sentir o peso e torna o amargo doce e saboroso. O amor de Jesus é generoso, inspira grandes ações e nos excita sempre à mais alta perfeição. O amor tende sempre para as alturas e não se deixa prender pelas coisas inferiores. O amor deseja ser livre e isento de todo apego mundano, para não ser impedido no seu afeto íntimo nem se embaraçar com algum incômodo. Nada mais doce do que o amor, nada mais forte, nada mais delicioso, nada mais perfeito ou melhor no céu e na terra; porque o amor procede de Deus, e em Deus só pode descansar, acima de todas as criaturas.


Quem ama, voa, corre, vive alegre, é livre e sem embaraço. Dá tudo por tudo e possui tudo em todas as coisas, porque sobre todas as coisas descansa no Sumo Bem, do qual dimanam e procedem todos os bens. Não olha para as dádivas, mas eleva-se acima de todos os bens até Àquele que os concede. O amor muitas vezes não conhece limites, mas seu ardor excede a toda medida. O amor não sente peso, não faz caso das fadigas e quer empreender mais do que pode; não se escusa com a impossibilidade, pois tudo lhe parece lícito e possível. Por isso de tudo é capaz e realiza obras, enquanto o que não ama desfalece e cai.

O amor vigia sempre, e até no sono não dorme. Nenhuma fadiga o cansam nenhuma angústia o aflige, nenhum temor o assusta, mas qual viva chama a ardente labareda irrompe para o alto e passa avante.


Só quem ama compreende o que é amar. Bem alto soa aos ouvidos de Deus o afeto da alma que diz: Meu Deus, meu amor! Vós sois todo meu, e eu todo vosso!

A alma: Dilatai-me o amor, para que possa, no âmago do coração, saborear quão doce é amar, no amor desmanchar-me e nadar. Prenda-me o amor, e eleve-me acima de mim, num transporte de fervor excessivo. Cante eu o cântico do amor, siga-vos ao alto, ó meu Amado, desfaleça minha alma no nosso louvor, no júbilo do amor. Amar-vos quero mais que a mim, e a mim só por amor de vós, e em vós a todos que deveras vos amam, conforme ordena a lei do amor que de vós dimana.

O amor é prontosinceropiedosoalegre amávelfortesofredorfielprudentelongânimeviril e nunca busca a si mesmo. Pois, logo que alguém procura a si mesmo, perde o amor.

O amor é circunspectohumilde retonão é frouxo, não é levianonem cuida de coisas vãs; é sóbriocastoconstantequietorecatado em todos os seus sentidos. O amor é submisso e obediente aos superiores, mas aos próprios olhos é vil e desprezível; devoto e agradecido para com Deus, confia e espera sempre nele, ainda quando está desconsolado, porque no amor não se vive sem dor.
Quem não está disposto a sofrer tudo e fazer a vontade do Amado não é digno de ser chamado amante. Àquele que ama cumpre abraçar por seu Amado, de boa vontade, tudo o que for duro e amargo e dele não se apartar por nenhuma contrariedade. [ii]

Bendigo-vos, Pai celestial, Pai de meu Senhor Jesus Cristo, por vos terdes dignado lembrar-vos de mim, pobre criatura. Ó Pai de misericórdia e Deus de toda consolação! (I Cor 1,3), graças vos dou porque, apesar de minha indignidade, me recreais às vezes com vossa consolação. Sede para sempre bendito e glorificado, com vosso Filho unigênito e o Espírito Santo consolador, por todos os séculos. Ah! Senhor Deus, santo amigo de minha alma, tanto que entrais em meu coração, exulta de alegria o meu interior. Vós sois a minha glória e o júbilo de meu coração; vós sois a minha esperança e meu refúgio no dia da tribulação.

Mas, como ainda sou fraco no amor e imperfeito na virtude, necessito ser consolado e confortado por vós; por isso visitai-me mais vezes e instruí-me com santas doutrinas. Livrai-me das más paixões e curai meu coração de todos os afetos desordenados, para que eu, sanado e purificado interiormente, seja apto para amar, forte para sofrer e constante para perseverar. [ii]

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[i]: KEMPIS, Tomás de. Imitação de Cristo. liv. III, cap. V, 3-8)
[ii]: KEMPIS, Tomás de. Imitação de Cristo. liv. III, cap. V, 1-2)

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Continue a esforçar-se e penitenciar-se.




Combate-se o dito de que não é preciso tanto.
Um leproso (diz o Evangelho) estava fazendo suplicas a Jesus Cristo, dizendo: Oh Senhor, vós se quiserdes, podeis sarar-me.» A lepra, meus irmãos, é um cancro universal, que deixando o doente com vida, lhe infecciona todo o corpo; e d’esta sorte é figura d'um cristão, que apesar de estar em graça, vive com tibieza e descuido, não fazendo caso dos pecados veniais, nem dos defeitos, nem de imperfeições: e por este motivo lhe saem  infeccionadas e manchadas todas as suas boas obras; porque não guarda os sentidos externos; porque vive sem mortificação, e sem recolhimento; porque se ocupa com pensamentos vãos; porque se não vence a si mesmo, nem reprime as suas paixões; tudo, tudo lhe sai infecciona- do e manchado!...
E por isso com grande fundamento comparou Isaías as nossas boas obras com panos os mais sujos: Oh! Quanto deve ser pura e santa a vida d´um cristão, para logo se entrar no Reino dos Céus e sair deste mundo! Já o disse, uma alma deve estar toda purificada como uma estrela para entrar no Reino dos Céus, e gozar da vista clara de Deus: é certo que os Santos tiveram luzes divinas, e acertaram; pois já estão seguros, já estão gozando de Deus lá na pátria celestial; e também é certo que os pecadores vivem nas trevas do erro, cegos com as suas paixões; e como pensaram os Santos sobre estas cousas? que disseram, ou como fizeram eles? Dizem os pecadores, ou antes diz o inimigo mundo: Para se salvar uma alma também não é preciso tanto. Não é preciso tanto? Pois desengana-te; para te salvares, ainda que fora necessário andares com a língua de rastos até ao fim da tua vida; ainda que fora necessário dares mil vidas, se as tiveras; ainda que fora necessário passares por mil infernos, se fora possível tudo isto, ainda era pouco; ainda o Céu te ficava muito e muito barato!.. Não é preciso tanto, dizes tu, ou dizem eles; mas pergunto eu: E por ventura estarão lá no Reino dos Céus esses que viveram e morreram segundo esse espírito do mundo? Ninguém m’o pode provar; e quantos já estarão ardendo no fogo do inferno? Sim, porque os verdadeiramente preguiçosos não podem conquistar o Reino dos Céus, nem merecer os bens eternos da gloria!... Que vos parece? Os Santos, cheios de luzes divinas, e talvez com bem poucas faltas, fizeram quanto puderam, não cuidavam em outra cousa, trabalhavam sempre por Deus, e tudo lhes parecia pouco; ainda temiam, e receavam; e os pecadores, esses homens do mundo, que vivem segundo o espírito do mundo, carregados de crimes, cheios de vícios, e sem luzes divinas, tudo lhes parece muito, tem medo de fazer alguma cousa de mais, ou de que outros o façam. Não vos enganeis, meus irmãos; não vos enganeis com esse mundo; por quanto ele te é um inimigo da alma; esse mundo tem enganado, e está enganando quase tudo; quase tudo vai perdido por via das más conversações e dos maus exemplos dessas pessoas desmoralizadas... Não olheis para ditos; quem ainda estremece com estes ditos, quem disso fizer caso, não está firme, e não vai longe com a sua vida espiritual; porque há de perder o fervor, há de cair na tibieza e no descuido; e por fim também cairá em pecados graves, e com eles irá ao inferno. Portanto sede firmes e fervorosos, fazendo sempre quanto puderdes, quando não, caminhais muito arriscados para a eternidade.

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Retirado do livro Missão Abreviada, pelo PADRE MANUEL JOSÉ GONÇALVES COUTO)

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

17 graus da perfeição: São João da Cruz:



















 "Procure em todas as coisas a maior honra e glória de Deus"

1.Por nada deste mundo cometer pecado, nem mesmo venial com plena advertência, nem imperfeição conhecida.
2. Procurar andar sempre na presença de Deus, segundo as obras que se está fazendo.
3. Nada fazer nem dizer coisa de importância que Cristo não pudesse fazer ou dizer se estivesse no estado em que me encontro e tivesse a idade e a saúde que eu tenho.
4. Procure em todas as coisas a maior honra e glória de Deus.
5. Por nenhuma ocupação deixar a oração mental que é o sustento da alma.
6. Não omitir o exame de consciência, sob pretexto de ocupações, e, por cada falta cometida, fazer alguma penitência.
7. Ter grande arrependimento por qualquer tempo não aproveitado ou que tenha escapado sem amar a Deus.
8. Em todas as coisas, altas e baixas, ter a Deus por fim, pois de outro modo não se crescerá em perfeição e mérito.
9. Nunca faltar à oração e, quando experimentar aridez e dificuldade, por isso mesmo perseverar nela, porque Deus quer muitas vezes ver o que há na alma e isso não se prova na facilidade e no gosto.
10. Do céu e da terra sempre o mais baixo e o lugar e o ofício mais ínfimo.
11. Nunca se intrometer naquilo de que não se foi encarregado, nem discutir sobre alguma coisa ainda que se esteja com a razão. E, no que tiver sido ordenado, não imaginar que se tem obrigação de fazer aquilo a que, bem examinado, nada obriga.
12. Não ocupar-se das coisas alheias, sejam elas boas ou más, porque, além do perigo que há de pecar, essa ocupação é causa de distrações e amesquinha o espírito.
13. Procurar sempre confessar-se com profundo conhecimento da própria miséria e com sinceridade cristalina.
14. Ainda que as coisas de obrigação e ofício se tornem dificultosas e enfadonhas, nem por isso desanimar-se, porque não há de ser sempre assim, e Deus, que experimenta a alma simulando trabalho no preceito (Cf. Sl 93,20), em breve a fará sentir o bem e o ganho.
15. Lembrar-se sempre de que tudo quanto se passa, seja próspero ou adverso, vem de Deus, para que assim nem se caia em soberba por um lado, nem no desânimo por outro.
16. Recordar-se sempre de que não se veio senão para ser santo, e, assim, não consentir que reine na alma o que não leve à santidade.
17. Ser sempre mais amigo de dar alegria aos outros do que a si mesmo, e, assim, com relação ao próximo, não ter inveja nem predomínio. Entenda-se, porém, que isto se refere ao que está de acordo com a perfeição, porque Deus muito se aborrece com os que não antepõem o que lhe agrada ao beneplácito dos homens.
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São João da Cruz, em Pequenos Tratados Espirituais

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Como se proteger dos ataques iniciais do demônio






Os conselhos do padre Lorenzo Scupoli são antigos, porém muito eficazes

Em sua primeira carta, São Pedro diz que temos de ser vigilantes e conscientes da batalha espiritual que nos cerca por todos os lados: 
“Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar.Resisti-lhe fortes na fé. Vós sabeis que os vossos irmãos, que estão espalhados pelo mundo, sofrem os mesmos padecimentos que vós” (1 Pedro 5,8-9). 
Essa é uma verdade da qual muitas vezes nos esquecemos, pois normalmente não vemos o inimigo da nossa alma com nossos olhos. No entanto, só porque não conseguimos vê-lo, isso não significa que o poder que o diabo pode ter em nossas vidas seja reduzido.
O padre italiano Lorenzo Scupoli deu sua opinião sobre como defender-se do diabo em seu clássico “O Combate Espiritual”, publicado em 1589. Ele sugere que a chave está em avaliar como nos vemos. Confira: 
  1. O maior meio utilizado pelo maligno para roubar as nossas almas é a nossa própria vaidade e nosso amor-próprio;
  2. O segredo para derrotá-lo é manter-se profundamente entrincheirado na santa humildade e nunca abandoná-la;
  3. Se não tentarmos nos disciplinar, nós nos abandonaremos ao espírito orgulhoso para quem não somos páreo;
  4. Não é suficiente que só vigiemos; nós também temos que rezar. Pois foi dito que devemos vigiar e orar;
  5. Não permitamos que nossas mentes fiquem aflitas ou perturbadas de qualquer forma;
  6. A alma humilde e pacífica faz tudo com uma facilidade que salta sobre os obstáculos com graça e facilidade.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Você vai se surpreender com quantos rosários o Padre Pio rezava por dia






















Uma informação simples que pode renovar sua fé

Este é o testemunho do Frei Paolo Covino, capuchinho que ministrou, na noite do dia 22 de setembro de 1968, os últimos sacramentos ao Padre Pio.
Frei Paolo era um dos melhores amigos do santo. Morreu em 2012, com 94 anos de idade, 70 deles como sacerdote.
Frei Paolo afirmou:
“Eram em média 2500 Ave Marias por dia!”
“Padre Pio estava sempre com o rosário nas mãos, sua arma mais poderosa contra o inimigo. Ele rezava entre 15 e 20 Rosários (com 150 Ave Marias cada) COMPLETOS por dia.”
* * *
E você, quanto tempo do dia dedica a orar com Maria?

Maria Santíssima é a esperança de todos



In me omnis spes vitae et virtutis – “Em mim há toda a esperança da vida e da virtude” (eclo 24, 25)
Sumário. O Rei do céu deseja sumamente enriquecer-nos das suas graças; mas como da nossa parte é necessária a confiança, afim de aumentá-la em nós, nos deu por Mãe e Advogada a sua própria Mãe, a quem deu todo o poder para nos ajudar. Por isso quer o Senhor que nela ponhamos a esperança de nossa salvação e de todo o nosso bem. Qual não deve, pois, ser nossa gratidão para com a bondade divina! Qual a confiança que devemos ter em Maria!
I. De dois modos, diz Santo Tomás, podemos por a nossa esperança numa pessoa: como causa principal, ou como causa intermediária. Quem espera alguma graça do rei, espera alcançá-la do rei como senhor; ou espera alcançá-la do seu ministro ou válido, como intercessor. Se consegue a graça, consegue-a principalmente do rei, mas por intermédio do ministro. Pelo que, quem pretende obter a graça, tem razão de chamar àquele intercessor a sua esperança.
O Rei do céu, por ser a bondade infinita, deseja sumamente enriquecer-nos de suas graças; mas como da nossa parte é necessária a confiança, e com o fim de aumentá-la em nós, deu-nos por Mãe e Advogada sua própria Mãe, a quem deu todo o poder para nos ajudar. Por isso quer que ponhamos nela a esperança de nossa salvação e de todo o nosso bem. – Aqueles que põem a sua esperança unicamente nas criaturas, independentemente de Deus, são sem dúvida amaldiçoados de Deus, como diz Isaías (1). Mas aqueles que esperam em Maria, como Mãe de Deus, poderosa para lhes alcançar as graças e a vida eterna, são bem-aventurados e agradam ao Coração de Deus, que assim quer ver honrada a excelsa criatura que mais que todos os homens e anjos o amou e honrou neste mundo.
É, pois, com razão que chamamos à Virgem a nossa esperança, esperando alcançar por sua intercessão o que não alcançaríamos só com as nossas orações. Oh, quantos soberbos, com a devoção a Maria, acharam a humildade! Quantos iracundos a mansidão! Quantos cegos a vista! Quantos desesperados a confiança! Quantos perdidos a salvação! Numa palavra, afirma Santo Antônio que todo verdadeiro devoto de Maria pode dizer: Venernunt mihiomnia bona pariter cum illa – “Com a devoção a Maria vieram-me juntamente todos os bens” (2).
II. É com razão que a santa Igreja aplica a Maria as palavras do Eclesiástico, chamando-a Mãe da santa esperança, Mater sanctae spei; e quer que quotidianamente todos os eclesiásticos e todos os religiosos, na egrégia oração da Salve Rainha, levantem a voz e em nome de todos os fiéis invoquem e chamem a Maria com este doce nome de esperança nossa. – Tu também, meu irmão, seja qual for o teu estado, põe toda a tua confiança nesta Mãe amorosíssima e dize-lhe frequentemente: Spes nostra, salve – “Esperança nossa, salve!”.
Ó Mãe do santo amor, sabeis que, não contente de se fazer nosso perpétuo advogado junto do Pai Eterno, Jesus Cristo vosso Filho quer ainda que vós mesma intercedais junto dele, para nos obter as divinas misericórdias. Decretou que vossas orações nos ajudariam a salvar, e lhes deu tanta eficácia que são sempre atendidas. Dirijo-me então a vós, ó esperança dos miseráveis. Pelos merecimentos de Jesus Cristo e por vossa intercessão espero salvar minha alma. Tal é minha esperança, e tão longe vai que, se minha salvação eterna estivesse nas minhas mãos, logo iria depô-la nas vossas, porque mais me fio de vossa misericórdia e proteção que em todas as minhas obras.
Ó minha mãe e minha esperança, não me desampareis, como o merecia. Confesso que, assaz de vezes, meus pecados puseram obstáculo às luzes e aos socorros que me obtínheis de Deus. Mas vossa compaixão para com os miseráveis e vosso poder junto de Deus transcendem o número e a malícia de minhas iniquidades. O céu e a terra sabem que não é possível se perca quem é vosso protegido. Esqueçam-se, pois, de mim todas as criaturas, mas vós nunca. Dizei a Deus que sou vosso servo, dizei-lhe que tomais minha defesa, e salvo serei. – Ó Maria, confio-me a vós; e na vida e na morte proclamarei sempre que sois toda a minha esperança depois de Jesus. Nesta esperança quero viver e morrer.
Referências:
(1) Is 30, 2
(2) Sb 7, 11


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 113-115)

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Da confiança em Maria, Rainha de misericórdia



Positusque est thronus matri regis, quae sedit ad dexteram eius – “Foi posto um trono para a mãe do rei, a qual se assentou à sua mão direita” (1 Rs 2, 19)
Sumário. O ofício da Santíssima Virgem no céu é compadecer-se dos miseráveis e socorrê-los, pois que exatamente para este fim o Senhor a constituiu Rainha de Misericórdia. Se nos quisermos salvar, recorramos com confiança a esta amada Mãe. A nossa confiança deve ser tanto maior quanto mais profunda for a nossa miséria, porque os miseráveis são destinados a ser a sua coroa de glória no paraíso. É, porém, mister que tenhamos a vontade de nos emendarmos.
I. Depois que a grande Virgem Maria foi elevada à dignidade de Mãe do Rei dos reis, com justa razão a santa Igreja a honra e quer que todos a honrem, com o título glorioso de Rainha. Mas, não somente de Rainha, senão de Rainha de misericórdia; porque ela é toda doce, clemente e inclinada a fazer bem a nós miseráveis: Salve, Rainha, Mãe de misericórdia! Considerando João Gerson as palavras de Davi: duo haec audivi, etc. (1) — “estas duas coisas tenho ouvido”, diz que, consistindo o reino de Deus na justiça e na misericórdia, o Senhor o dividiu. O reinado da justiça, reservou-o para si, e o reinado da misericórdia, cedeu-o a Maria, ordenando que todas as misericórdias que se concedessem aos homens, passassem pelas mãos de Maria e se distribuíssem a seu arbítrio, de sorte que o oficio da Virgem no céu é compadecer-se dos miseráveis a aliviá-los.
Na Sagrada Escritura se lê que a rainha Ester, com medo de irritar o seu esposo Assuero, se recusou a interceder junto dele a fim de que revocasse a sentença de morte pronunciada contra os Judeus. Mas Mardoqueu repreendeu-a e mandou dizer-lhe que não pensasse só em salvar-se a si, pois o Senhor a tinha posto sobre o trono para bem de todo o seu povo (2).
Não há perigo de que a nossa Rainha Maria jamais se recuse a ajudar os seus filhos; mas se em tempo algum ela recusasse alcançar-nos de Deus o perdão do castigo, de nós bem merecido, poderíamos também dizer-lhe: Ne putes, quod animam tuam tantum liberes — Não cuideis, Senhora, que Deus vos elevou a ser Rainha do mundo só para bem vosso, senão também a fim de que, elevada tão alto, possais compadecer-vos mais dos miseráveis e socorrer a todos os homens que a vós recorrem: quia in domo regis es prae cunctis hominibus.
II. Refugiemo-nos, pois, mas refugiemo-nos sempre aos pés da nossa dulcíssima Rainha, se seguramente nos queremos salvar. Se nos espanta e nos desanima a vista dos nossos pecados, lembremo-nos que Maria foi feita Rainha de misericórdia a fim de salvar com a sua proteção aos mais perdidos pecadores que a ela se recomendar. Estes hão de ser a sua coroa no céu, como disse o seu divino Esposo; coroa bem digna e própria da Rainha da misericórdia: Coronaberis de cubilibus leonum, de montibus pardorum (3).
Ó Maria, eis aqui a vossos pés um miserável escravo do inferno, que vos pede misericórdia. É verdade que não mereço nenhum favor; mas vós sois Rainha de misericórdia, e a misericórdia é para aquele que não a merece. Todo o mundo vos chama o refúgio e a esperança dos pecadores; sois, portanto, também o meu refúgio e a minha esperança. Sou como ovelha desgarrada, mas foi para salvação das ovelhas desgarradas que o Verbo Eterno desceu do céu e se fez vosso Filho; Ele quer que eu a vós recorra e que vós me socorrais com as vossas orações.
Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis! Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós! Ó grande Mãe de Deus que por todos rogais, rogai a vosso Filho também por mim! Dizei-Lhe que sou devoto vosso e que vós me protegeis. Dizei-Lhe que em vós pus toda a minha esperança. Dizei-Lhe que me dê o perdão e que detesto todas as ofensas que lhe tenho feito. Dizei-Lhe que pela sua misericórdia me conceda a santa perseverança. Dizei-lhe que me dê a graça de amá-Lo de todo o meu coração. Dizei-Lhe, enfim, que me quereis ver salvo. Jesus faz tudo que vós lhe pedis. Ó Maria, esperança minha, em vós confio, tende piedade de mim.
Referências:
(1) Sl 61, 12
(2) Est 4, 13
(3) Ct 4, 8

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 188-190)