sábado, 19 de fevereiro de 2022

Vantagens das Congregações de Maria Santíssima

 

Ingredere tu et omnis domus tua in arcam – “Entra na arca tu e toda a tua casa” (Gn 7, 1)

Sumário. As Congregações Marianas são como outras tantas arcas de Noé, onde os seculares acham a salvação no naufrágio comum. Não somente por causa da proteção especial com que Maria cuida dos seus congregados, senão também por causa dos meios de salvação que nelas se encontram. Se quiseres, pois, o mais possível assegurar a salvação de tua alma, deixa-te alistar em alguma destas Congregações. Lembra-te, porém, que para seres congregado, não é bastante que dês teu nome, mister é que guardes também as regras.

I. As Congregações, especialmente as de Nossa Senhora, são como tantas arcas de Noé, em que acham refúgio os pobres seculares no dilúvio das tentações e dos pecados que inundam o mundo. Regularmente falando, encontram-se mais pecados num homem que não frequenta a Congregação do que em vinte que a frequentam. Sim, porque nela adquirem os congregados muitas defesas contra o inferno e praticam, para conservar-se na divina graça, diversos meios, de que fora dela os seculares dificilmente usam.

Em primeiro lugar, um dos meios para salvar-se é pensar nas máximas eternas, como diz o Espírito Santo (1); e muitos se perdem porque não meditam nelas. Ora, aqueles que vão à Congregação, frequentemente pensam nelas em tantas meditações, leituras e sermões que ali se fazem:

Oves meae vocem meam audiunt (2) — “As minhas ovelhas ouvem a minha voz”

— Em segundo lugar, para salvar-se é preciso recomendar-se a Deus: Pedi e recebereis (3). Na Congregação, os irmãos fazem isto continuamente, e Deus os atende mais, pois que Ele mesmo disse que muito voluntariamente concede as suas graças quando as orações são feitas em comum (4); pela razão, como diz Santo Ambrósio, que as orações, de muito fracas cada uma por si, se tornam fortes quando unidas.

— Em terceiro lugar, na Congregação, tanto em virtude das regras como dos exemplos dos outros irmãos, se fazem muitos exercícios de mortificações, de humildade, de caridade para com os irmãos enfermos e pobres. O que mais é, nela se frequentam mais facilmente os sacramentos, que são meios eficacíssimos para a perseverança na divina graça, como declarou o Concílio de Trento (5).

— Finalmente, todos sabem quanto aproveita, para salvar-se, o servir a Mãe de Deus; e que fazem os irmãos senão servi-la na Congregação? Ali se consagram desde o princípio ao serviço dela, elegendo-a de modo especial por sua Senhora e Mãe. Alistam-se no livro dos filhos de Maria: portanto, assim como eles são servos e filhos distintos da Virgem, assim como esta os trata com distinção e protege-os na vida e na morte. De modo que um congregado de Maria pode dizer que com a Congregação recebeu todos os bens: Venerunt mihi omnia bona pariter cum illa (6).

II. Tinha razão São Francisco de Sales quando exortava calorosamente os seculares a entrarem nas Congregações. Que não fez igualmente São Carlos Borromeu para estabelecer e multiplicar as Congregações Marianas? E nos seus Sínodos adverte aos confessores que façam nelas entrar os seus penitentes. — Imagina, pois, leitor meu, que o Senhor te diz o que disse a Noé:

Ingredere tu et omnis domus tua in arcam — “Entra na arca tu e toda a tua casa”

Se quiseres salvar-te, entra tu e toda a tua família nesta arca salutar da Congregação de Maria.

Não te contentes, porém, com a inscrição de teu nome no registro, o que pouco ou nada adianta. Guarda também com exatidão as regras e atende sobretudo a duas cosias: Primeira, ao fim da Congregação, na qual não deves entrar por outro motivo senão para servir a Deus e sua santa Mãe e salvar a própria alma. Segunda, a não perder a Congregação nos dias marcados, por negócios do mundo, pois que ali deves ir para tratar do negócio mais importante que tens neste mundo, que é a salvação eterna. Procura também conduzir quantos puderes à Congregação e especialmente procura fazer voltar a ela os irmãos que a tenham deixado. Oh, com que terríveis castigos o Senhor tem punido àqueles que abandonaram a Congregação de Nossa Senhora! Ao contrário, os Congregados perseverantes são por Maria providos de bens temporais e espirituais: Omnes domestici eius vestiti sunt duplicibus (7).

Ó Virgem bendita e imaculada, nossa Rainha e Mãe, refúgio e consolação de todos os desgraçados, prostrado ante o vosso trono com toda a minha família, vos escolho por minha Soberana, minha Mãe, e Advogada junto de Deus. Consagro-me para sempre ao vosso serviço, com todos os que me pertencem; e peço-vos, ó Mãe de Deus, que nos recebais no número dos vossos servos, tomando-nos sob a vossa proteção, socorrendo-nos durante a nossa vida e mais ainda no momento da nossa morte.

Ó Mãe de misericórdia, eu vos constituo Senhora e Governadora de toda a minha casa, dos meus parentes, dos meus interesses e de todos os meus negócios. Não vos negueis a tomar cuidado deles; de tudo disponde segundo o vosso agrado. Abençoai-me, pois, com toda a minha família, e não permitais que algum de nós ofenda no futuro a vosso divino Filho. Defendei-nos nas tentações, livrai-nos dos perigos, provede às nossas necessidades, aconselhai-nos nas dúvidas, consolai-nos nas aflições e enfermidades, e principalmente nas angústias da morte. Não permitais que o demônio se glorie jamais de nos ter sob a sua escravidão, já que vos somos consagrados, mas fazei com que vamos ao céu para vos agradecer e todos juntos convosco louvar e amar a nosso Redentor Jesus em toda a eternidade. Amém. (8)

Referências:
(1) Eclo 7, 40
(2) Jo 10, 16
(3) Jo 16, 24
(4) Mt 18, 19
(5) Sess. 13, c. 2
(6) Sb 7, 11
(7) Pr 31, 21
(8) Onde não existe uma Congregação Mariana com exercícios comuns, procurem os fiéis ao menos entrar em alguma Confraria de Nossa Senhora, como sejam as do Carmo, da Imaculada Conceição, de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, enriquecidas com muitas indulgências plenárias e parciais. O Papa Leão XIII recomendou particularmente a Ordem Terceira de São Francisco.

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 241-244)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Amor de Deus em fazer-se criança

 

Parvulus natus est nobis, et filius datus est nobis – “Nasceu-nos uma criança, e foi-nos dado um filho” (Is 9, 6)

Sumário. Querendo o Filho de Deus fazer-se homem, podia aparecer no mundo como homem perfeito, assim como foi criado Adão. Como, porém, as crianças atraem mais facilmente o amor dos que as veem, Jesus Cristo quis aparecer na terra como criança, e como a criança mais pobre e humilde que jamais tenha nascido. Como é então possível, ó meu Jesus, que sejam tão poucos os que Vos amam? Do número destes poucos eu também quero ser. Sim, ó Bondade infinita, amo-Vos de todo o coração e sobre todas as coisas.

I. Querendo o Filho de Deus fazer-se homem por nosso amor, podia fazer sua entrada no mundo na idade de homem já perfeito, assim como foi criado Adão. Como, porém, as crianças soem atrair mais facilmente o amor dos que as veem, quis Ele aparecer na terra como criança, e como a criança mais pobre e humilde que jamais tenha nascido. “É assim que quis nascer nosso Deus”, escreve São Pedro Crisólogo, “porque quis ser amado”. Já o profeta Isaías predissera que o Filho de Deus devia nascer criança e dar-se assim todo inteiro a nós, pelo amor que nos tinha:

Parvulus natus est nobis, et filius datus est nobis (1) — “Nasceu-nos uma criança, e nos foi dado um filho”

Ah, meu Jesus, meu supremo e verdadeiro Deus! Quem Vos forçou a deixar o céu e a nascer numa gruta, a não ser o amor que tendes aos homens? Quem Vos obrigou a deixar o seio de vosso Pai e ser deitado numa manjedoura? Quem Vos fez deixar o vosso reino acima das estrelas, para serdes colocado sobre a palha? Quem Vos constrangeu a deixar os coros dos anjos e estar entre dois animais? Vós abrasais os serafins no santo fogo do amor, e estais tremendo de frio nessa gruta. Vós dais o movimento aos céus e ao sol, e agora, para Vos mover, haveis mister que alguém Vos tome nos braços. Vós dais alimento aos homens e aos animais, e estais precisando de um pouco de leite para sustentar a vossa vida. Vós sois a alegria do céu, e ouço que estais chorando e gemendo. Dizei-me, quem é que Vos reduziu a tão extrema miséria? “Quis hoc fecit? Fecit amor”, diz São Bernardo, – Fê-lo o amor que tendes aos homens.

II. Ó doce Menino Jesus, dizei-me, que viestes fazer sobre a terra? Dizei-me, que vindes aqui buscar? Ah! Já Vos entendo: viestes morrer por mim, para me livrar do inferno. Viestes buscar-me, a ovelha perdida, para que no futuro nunca mais fuja de Vós, e Vos ame. Ó meu Jesus, meu tesouro, minha vida, meu amor, meu tudo, se não Vos amo, a quem hei de amar? Onde posso achar um pai, um amigo, um esposo mais amável que Vós, e que mais do que Vós me queira bem? Amo-Vos, meu Deus, amo-Vos, meu único Bem. — Lastimo ter vivido tantos anos para o mundo, não somente sem Vos amar, mas ofendendo-Vos e desprezando-Vos. Perdoai-me, ó meu amado Redentor, já que me arrependo de Vos ter tratado assim, e me arrependo de toda a minha alma. Perdoai-me e dai-me a graça de não me separar mais de Vós, e de Vos amar sempre no tempo de vida que ainda me resta. Meu Amor, a Vós me consagro todo; aceitai-me e não me rejeiteis como tinha merecido.

— Maria, vós sois a minha advogada; com as vossas súplicas obtendes de vosso Filho tudo o que pedirdes: pedi-Lhe que me perdoe e me conceda a santa perseverança até à morte.

Referências:
(1) Is 9, 6

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 239-240)


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Amor de Deus em fazer-se homem

 

Verbum caro factum est, et habitavit in nobis – “O Verbo se fez carne, e habitou entre nós” (Jo 1, 14)

Sumário. Que se havia de dizer, se um príncipe, por compaixão de um verme morto, quisesse tornar-se verme, e fazendo um banho de seu sangue, morresse para restituir o verme à vida? Mais porém do que isso fez por nós o Verbo Eterno, que, sendo Deus, quis fazer-se homem como nós e morrer por nós, a fim de nos merecer a vida da graça divina que tínhamos perdido. Apesar disso, quão poucos são os que se Lhe mostram gratos! Do número destes poucos sejamos também nós.

I. Consideremos o amor imenso que Deus nos mostrou fazendo-se homem, para nos adquirir a salvação eterna. Adão, nosso primeiro pai, peca, e por se ter rebelado contra Deus, é expulso do paraíso e condenado, com todos os seus descendentes, à morte eterna. Eis, porém, que o Filho de Deus, vendo o homem perdido e querendo livrá-lo da morte, se oferece a tomar a natureza humana e morrer justiçado sobre uma cruz. Mas — assim se me afigura que Lhe dissesse então o Pai — mas, meu Filho, reflete que na terra terás de levar uma vida humilde e penosa. Deverás nascer numa gruta fria e serás posto numa manjedoura. Ainda criança, terás de fugir par ao Egito a fim de te livrares das mãos de Herodes. De volta do Egito terás de viver numa oficina como humilde aprendiz, pobre e desprezado. Finalmente, perderás a vida sobre uma cruz, à força de dores, coberto de opróbrios e abandonado de todos. — Meu Pai, responde o Filho, não importa, aceito tudo, com tanto que o homem seja salvo.

Que se havia de dizer, se jamais um príncipe, por compaixão de um verme morto, quisesse fazer-se verme, e fazendo um banho de seu sangue, morresse a fim de restituir a vida ao verme? — Pois, mais do que isso fez por nós o Verbo Eterno, que, sendo Deus, quis fazer-se verme como nós e morrer por nós, a fim de nos fazer recuperar a vida da divina graça que tínhamos perdido. — Vendo que os muitos dons a nós concedidos não bastaram para Lhe granjear o nosso amor, que fez? Ele se fez homem e se deu todo a nós.

Verbum caro factum est, et tradidit semetipsum pro nobis — “O Verbo se fez carne, e se entregou a si mesmo por nós”

O homem, diz São Fulgêncio, afastou-se de Deus, porque o desprezou; mas Deus, pelo amor que tem ao homem, desceu do céu para procurá-lo. E para que desceu? Para que o homem conhecesse quanto Deus o amava, e assim se resolvesse a amá-Lo ao menos por gratidão. Os irracionais que se chegam a nós, se fazem amar; e porque somos tão ingratos para com Deus que do céu baixou à terra, para se fazer amar?

II. Quando certo dia um sacerdote dizia esta palavra da Missa: Et Verbum caro factum est — “E o Verbo se fez carne”, um dos assistentes deixou de fazer ato de reverência, pelo que o demônio lhe deu uma forte bofetada, dizendo:

“Ah ingrato! Se Deus tivera feito por mim o que fez por ti, estaria continuamente com o rosto em terra para lhe dar graças”

Ó grande Filho de Deus, Vós Vos fizestes homem para Vos fazer amar pelos homens; mas qual é o amor que os homens Vos têm? Vós sacrificastes o vosso sangue e a vossa vida pela salvação das nossas almas: porque é que Vos somos tão pouco reconhecidos, que, em vez de Vos amar, Vos desprezamos com tamanha ingratidão? — E eu, Senhor, quiçá mais do que os outros, Vos ofendi assim. A vossa Paixão é a minha esperança. Suplico-Vos pelo amor que Vos fez tomar a natureza humana e morrer por mim sobre a cruz, que me perdoeis todas as ofensas que Vos fiz. Amo-Vos, ó Verbo incarnado, amo-Vos, ó Bondade infinita. † Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas. Arrependo-me de todos os desgostos que Vos causei, e quisera morrer de dor. Ó meu Jesus, dai-me o vosso amor, não permitais que ainda viva ingrato ao afeto que me haveis mostrado. Quero amar-Vos sempre. Dai-me a santa perseverança.

— Ó Maria, Mãe de Deus e minha Mãe, alcançai-me do vosso Filho a graça de amá-Lo sempre até à morte.

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 237-239)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Momento da morte

 

Si ceciderit lignum ad austrum aut ad aquilonem, in quocumque loco ceciderit, ibi erit – “Se a árvore cair para o sul ou para o norte, em qualquer lugar onde cair, aí ficará” (Ecle 11, 3)

Sumário. É uma verdade da fé que a morte é um momento de que depende a eternidade. Quem a errar então, tê-la-á errado para sempre, sem esperança de remédio. Se cremos nesta verdade, porque não tomamos a resolução de nos afastarmos de todo o perigo e de tomar todas as providências para nos assegurarmos uma boa morte? Nenhuma cautela será demasiada para nos assegurarmos a vida eterna! Lembremo-nos de que os dias da nossa vida são outras tantas graças que Deus nos concede para o ajuste das contas, antes que venha o momento terrível.

I. Considera que a morte é o momento do qual depende a eternidade. Já está o homem nos extremos da vida e, portanto, próximo a uma das duas eternidades. A sua sorte depende do último suspiro, depois do qual, no mesmo instante, a alma ou está salva ou condenada para sempre. Ó momento, ó suspiro, de que depende uma eternidade, ou de glória ou de tormentos; uma eternidade, ou sempre feliz ou sempre desgraçada; ou de prazeres, ou de angústias; uma eternidade de todo o bem ou de todo o mal; uma eternidade no paraíso ou no inferno. — Numa palavra, se naquele momento te salvas, nada mais terás a sofrer; estarás sempre contente e feliz. Se, ao contrário, erras o passo e te condenas, viverás sempre aflito e desesperado, enquanto Deus for Deus. Na morte conhecerás o que quer dizer paraíso, inferno, pecado, Deus ofendido, lei de Deus desprezada, pecados calados na confissão, restituição omitida.

Desgraçado de mim! Dirá então o moribundo, daqui há poucos instantes tenho de comparecer à presença de Deus! Qual será a sentença que vai ser pronunciada sobre mim? Para onde irei? Para o paraíso ou para o inferno? Irei gozar entre os anjos ou arder entre os condenados? Dentro em pouco, ai de mim! O saberei. Onde chegar no primeiro momento, ali ficarei sempre. Ah! Dentro de poucas horas, de poucos instantes, que será de mim? Que será de mim se não reparo aquele escândalo? Se não restituo tal objeto, aquela fama? Se não perdoo de coração ao meu inimigo? Se não me confesso bem? — Então detestarás mil vezes o dia em que pecaste; aquele deleite, aquela vingança que tomaste. Porém, será tarde e sem fruto, porque só o farás por temor do castigo e não por amor de Deus.

— Ah Senhor! Eis que desde este momento me converto a Vós, não quero esperar até a hora da morte; desde hoje eu Vos amo, Vos abraço e abraçado convosco quero morrer.

II. Meu irmão, nós cremos ou não cremos. Se cremos que há uma eternidade, que se tem de morrer, e que se morre uma só vez, de sorte que, se então errarmos, o erro será eterno, sem esperança de o podermos remediar, porque não tomamos a resolução de nos afastar de todo o perigo de perdição e de tomar todas as providências para nos assegurar uma boa morte? Nenhuma cautela será demasiada para nos garantir a vida eterna. Os dias da nossa vida são outras tantas graças que Deus nos concede a fim de ajustarmos as nossas contas para a hora da morte. Apressemo-nos, pois não há tempo a perder.

Eis-me aqui, meu Deus; dizei-me o que tenho de fazer para me salvar; estou pronto a fazer tudo. Eu Vos virei as costas, mas estou sumamente arrependido, e quisera morrer de dor. Senhor, perdoai-me, e não permitais que ainda me separe de Vós. Se jamais houvesse de me suceder tamanha desgraça, fazei-me antes morrer nesta hora, da morte mais dura que quiserdes. Aceito-a e Vo-la peço. Mas livrai-me do castigo de me ver privado da vossa graça. Amo-Vos, † Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas, de todo o meu coração, e protesto que quero morrer fazendo um ato perfeito de amor, para assim continuar a amar-Vos eternamente no paraíso.

Santíssima Virgem e minha Mãe Maria, não me abandoneis nessa hora. Vinde então receber a minha alma e apresentá-la ao vosso Filho. Desde agora Vos espero e quero morrer debaixo de vosso manto, abraçando os vossos pés e dizendo: † Jesus, José e Maria, expire a minha alma em paz na vossa companhia (1).

Referências:
(1) Indulgência de 100 dias cada vez

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 233-237)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Paciência de Deus em esperar que o pecador faça penitência

 

Propterea, expectat Dominus, ut misereatur vestri – “Por isso o Senhor espera, para ter misericórdia de vós” (Is 30, 18)

Sumário. A paciência de que o Senhor usa para com os pecadores, esperando que façam penitência, é tão grande, que, no dizer de Santo Agostinho, se não fosse Deus, pareceria que falta à justiça. A misericórdia de Deus impede continuamente as criaturas, que por natural instinto quiseram vingar as injúrias feitas ao Criador; e ao mesmo tempo dispensa-lhe toda sorte de graças, a fim de conduzi-los à resipiscência. Parece que teimosamente lutamos com Deus: nós provocando os seus castigos; Deus oferecendo-nos o perdão. Mas continuará sempre assim? A paciência irritada afinal torna-se furor!

I. A paciência de que Deus usa para com os pecadores é tão grande, que uma alma santa desejava que se construísse uma igreja e se lhe desse por título: Paciência de Deus. Meu irmão, quando ofendias a Deus, podia fazer-te morrer; mas Deus esperava, conservava-te a vida e acudia-te em todas as necessidades. Fingia não ver os teus pecados, a fim de que viesses à resipiscência:

Dissimulas peccata hominum propter poenitentiam (1) — “Dissimulas os pecados dos homens, para que façam penitência”.

Mas como é isto, Senhor, exclama o profeta Habacuc: os vossos olhos são puros, não podeis sofrer a vista de um só pecado, e tantos vedes e Vos calais? (2) Vedes o impudico, o vingativo, o blasfemador, que dia a dia amontoam os pecados, e não os punis? Porque usais de tamanha paciência? Propterea expectat Dominus, ut misereatur vestri. Deus espera pelo pecador, para que se corrija, a fim de assim lhe poder perdoar e salvá-lo.

Diz Santo Tomás que todas as criaturas, o fogo, a terra, o ar, a água, por natural instinto quiseram castigar o pecador e vingar as injúrias feitas ao seu Criador. Deus, porém, pela sua misericórdia os impede. — Mas, Senhor, Vós esperais pelos ímpios a ver se se convertem, e não vedes que esses ingratos se servem da vossa misericórdia para mais Vos ofenderem? “Vós, ó Senhor”, diz Isaías, “favorecestes este povo, e usastes para com ele de misericórdia; porventura fostes glorificado?” (3) Para que então tamanha paciência? Porque Deus não quer a morte do pecador, mas, sim, que se converta e se salve: Nolo mortem impii, sed ut convertatur et vivat (4). Ó paciência infinita de Deus!

II. Santo Agostinho chega a dizer que Deus, se não fosse Deus, pareceria injusto pela demasiada paciência para com os pecadores. Sim, porque esperar assim por quem abusa desta paciência até tornar-se insolente, parece que é faltar à honra que Deus a si próprio se deve. “Nós pecamos”, prossegue o Santo, “ficamos fixos no pecado” — Alguns há que se familiarizam com o pecado, vivem em paz com ele e dormem no pecado meses e anos. “Nós nos alegramos pelo pecado” — Outro há que até chegam a gabar-se dos seus crimes.

“E Vós permaneceis quieto. Nós provocamos a vossa indignação, e Vós nos provocais a que peçamos misericórdia”

Numa palavra, parece que teimosamente lutamos com Deus; nós provocando os seus castigos, Deus oferecendo-nos o perdão. Mas há de ser sempre assim? A paciência irritada afinal torna-se furor.

Ah! Meu Senhor, reconheço que deveria agora estar no inferno:

Infernus domus mea est (5) — “O inferno é a minha morada”

Graças, porém, à vossa misericórdia, eis-me, não no inferno, mas neste lugar a vossos pés, e ouço que me dais a suave ordem que quereis ser amado por mim:

Diliges Dominum Deum tuum (6) — “Amarás ao Senhor teu Deus”

Dizeis que me quereis perdoar, se detestar as ofensas que Vos fiz. Sim, meu Deus, pois que ainda quereis ser amado por mim, miserável rebelde de vossa majestade, de todo o coração Vos amo. Estou arrependido de Vos ter ultrajado, e isso mais me aflige que todos os males que pudera ter merecido. Iluminai-me, ó Bondade infinita, fazei-me conhecer o mal que Vos fiz.

Não, não quero outra vez resistir à vossos chamamentos. Não quero mais desagradar a um Deus que tanto me amou e tantas vezes me perdoou com tamanho amor. Nunca Vos tivesse ofendido, ó meu Jesus! Perdoai-me e fazei que no futuro só Vos ame; que só viva para quem morreu por mim; que sofra por vosso amor, já que pelo meu tanto sofrestes. Vós me haveis amado em toda a eternidade: fazei que durante toda a eternidade arda no vosso amor. Pelos vossos merecimentos espero tudo, meu Salvador.

— Em vós também, ó Maria, confio; com a vossa intercessão haveis de salvar-me.

Referências:
(1) Sb 11, 24
(2) Hsb 1, 13
(3) Is 26, 15
(4) Ez 33, 11
(5) Jó 17, 13
(6) Mt 22, 37

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 232-234)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Necessidade da oração mental

 

Desolatione desolata est omnis terra; quia nullus est qui rerogitet corde – “Toda a terra está inteiramente desolada, porque não há nenhum que considere no seu coração” (Jer 12, 11)

Sumário. Afeiçoemo-nos à oração mental e nunca a deixemos de fazer. É ela necessária, para que tenhamos luz na viagem que estamos fazendo para a eternidade e também para que conheçamos os nossos defeitos e os emendemos. Assim como sem a oração mental, não faremos bem a vocal, à qual estão ligadas as graças, assim igualmente nos faltará a força para vencer as tentações e praticar as virtudes. Infeliz, portanto, da alma que não faz oração mental; ela não precisa de demônios para lançá-la no inferno, visto que de si mesma nele se precipita.

I. A oração mental é, em primeiro lugar, necessária, para que tenhamos luz na viagem que estamos fazendo para a eternidade. As verdades eternas são coisas espirituais, que não são vistas pelos olhos do corpo, senão somente pela consideração do espírito. Quem não faz oração, não as vê, e assim andará com dificuldade no caminho da salvação. — Além disso, quem não faz oração, não conhece os seus defeitos, e assim, como diz São Bernardo, não os aborrece. Tampouco vê os perigos em que se acha a sua salvação e não pensa em evitá-los. Mas quem faz oração logo descobre os seus defeitos e os perigos de perder-se; e vendo-os, pensará em aplicar-lhes o remédio. Por isso o mesmo São Bernardo afirma que “a meditação regula os afetos, endireita as ações e corrige os defeitos”.

Em segundo lugar, sem a oração não haverá força para vencer as tentações e praticar as virtudes. Dizia Santa Teresa que quem omite a oração, não precisa de demônios para levá-lo ao inferno, visto que de si mesmo nele se precipita.

— A razão disso é que sem a oração mental não haverá oração vocal. Deus quer dispensar-nos as suas graças; porém, diz São Gregório que para no-las dispensar quer ser rogado e como que coagido pelas nossas petições: Vult Deus rogari, vult cogi, vult quadam importunitate vinci. Sem a oração faltará a força para resistir aos inimigos e tampouco se obterá a perseverança no bem. Escreve monsenhor Palafox:

“Como é que o Senhor nos dará a perseverança, se nós não lha pedirmos? E como lha pediremos sem a oração mental?”

Ao contrário, quem faz oração, é como que uma árvore que está plantada junto às correntes das águas, que sempre cresce e está sempre virosa. Erit tamquam lignum secus decursus aquarum (1).

II. A oração mental é a feliz fornalha na qual as almas se abrasam no amor divino; é qual laço de ouro que prende a alma a Deus. Dizia a sagrada Esposa:

Introduxit me rex in cellam vinariam (2) — “O rei me introduziu na sua adega”

Esta adega é a oração, na qual a alma se embriaga de tal modo pelo amor divino, que perde quase inteiramente o gosto das coisas da terra. Não vê mais senão o que agrada a seu amado, não fala senão no amado, nem quer ouvir falar senão nele e toda outra conversação a aborrece e aflige.

Na oração, a alma recolhe-se para tratar a sós com Deus e assim se eleva acima de si mesma. Sedebit solitarius et tacetib, quia levavit super se (3). Diz o profeta Sedebit: assentar-se-á, isto é: a alma em seu repouso, contemplando na oração quanto Deus é amável e quão grande é o amor que lhe tem, começará a saborear as coisas de Deus; o espírito se lhe encherá de santos pensamentos; ela se desprenderá dos afetos terrestres, conceberá grande desejo de se fazer santa e finalmente resolverá dar-se toda a Deus. Onde é que os santos formaram as resoluções generosas, que os sublimaram a um alto grau de perfeição, a não ser na meditação? Por isso São Luiz de Gonzaga dizia que nunca chegará a alto grau de perfeição quem não chega a fazer muita oração mental.

— Afeiçoemo-nos, pois, à meditação e não a omitamos, seja qual for o aborrecimento que nela achemos. Deus remunerará abundantemente o aborrecimento sofrido pelo seu amor.

Ó meu Deus, perdoai-me a minha preguiça. Que tesouros de graças perdi por ter deixado tantas vezes a oração! Para o futuro dai-me força a fim de que seja fiel a conversar sempre convosco nesta terra, visto que espero conversar eternamente convosco no céu. Não aspiro aos regalos das vossas consolações; não as mereço. Basta-me que me permitais ficar a vossos pés para Vos recomendar a minha pobre alma, que tão pobre se acha por se ter afastado de Vós. Ó meu Jesus crucificado, na oração só a lembrança de vossa Paixão me desprenderá da terra e me unirá convosco.

— Santíssima Virgem Maria, assisti-me na minha meditação.

Referências:
(1) Sl 1, 3
(2) Ct 2, 4
(3) Lm 3, 28

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 229-232)

domingo, 13 de fevereiro de 2022

A parábola do fermento e os efeitos da graça santificante

 

6º Domingo depois da Epifania

Simile est regnum coelorum fermento – “O reino dos céus é semelhante ao fermento” (Mt 13, 33)

Sumário. Nesta parábola do fermento os santos Padres veem uma figura da caridade, isto é, da graça santificante. Assim como a levedura penetra toda a massa, levanta-a e lhe dá sabor; assim a graça divina tira da alma a friúra do pecado e, excitando nela santos afetos, torna-a digna de amizade de Deus. Mais: faz com que a alma seja a morada do Espírito Santo, sua filha, sua esposa. Lancemos um olhar sobre nossas almas: estão elas ornadas da graça santificante?

I. Na parábola do fermento Santo Agostinho, o Bem-aventurado Alberto Magno e outros veem uma figura da caridade, isto é, da graça santificante. Porquanto, como a levedura penetra toda a massa, levanta-a e lhe dá sabor, assim a graça santificante tira da alma a friúra áspera do pecado, e inflamando-a no amor celeste eleva-a a um estado sobrenatural, torna-a digna da amizade de Deus.

– Por isso é que o Espírito Santo chama a graça um tesouro infinito:

Infinitus enim thesaurus est hominbus (1) – “É um tesouro infinito para os homens”

Esse tesouro, porém, acrescenta o santo homem Job, é um tesouro oculto, pois, se os homens conhecessem o valor da graça divina, não a trocariam por uma fumaça, um punhado de terra, um vil prazer:

Nescit homo pretium eius (2) – “O homem não conhece o seu preço”

Privados da luz da fé, os pagãos julgavam impossível que uma criatura pudesse ser amiga de Deus. E seguindo unicamente a luz natural, tinham razão, pois a amizade, segundo observa São Jerônimo, torna os amigos iguais. Deus, contudo, em muitos lugares nos declarou que, em virtude da sua graça, nos tornamos seus amigos, observando a sua lei:

Vos amici mei estis, si feceritis quae praccipio vobis (1) – “Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando”

Ó bondade de Deus”, exclama São Gregório, “não lhe merecemos o nome de servos, e digna-se chamar-nos seus amigos!”. Como se julgaria feliz quem fosse honrado com a amizade de seu rei! Mas seria temeridade para um vassalo o pretender travar amizade com o seu príncipe. No entanto uma alma pode sem temeridade aspirar a amizade do seu Deus.

Conta Santo Agostinho que, estando dois validos do paço num convento, um deles pôs-se a ler a vida de Santo Antônio abade. A medida que ia lendo, o seu coração desprendia-se dos afetos mundanos. Voltando-se depois para o companheiro: Amigo, disse-lhe, que é que procuramos? Servindo o imperador, podemos esperar mais do que ser amigos? Chegando a isso, poremos em maior perigo a nossa salvação eterna. Além disso, com que dificuldade chegaremos a ser amigos do imperador! Ao contrário, assim conclui, desde já posso ser amigo de Deus, se o quiser.

II. Quem está na graça de Deus, torna-se, pois, amigo de Deus. Mais ainda, torna-se seu filho:

Dii estis, et filii Excelsi omnes (2) – “Sois deuses, e todos filhos do Excelso”

É esta a grande prerrogativa que o amor divino nos alcançou por meio de Jesus Cristo. Além disso, a alma em estado de graça torna-se esposa de Deus:

Sponsabo te mihi in fide (3) – “Desposar-me-ei contigo com fidelidade”

Por isso o pai do filho pródigo, ao restituir-lhe as boas graças, ordenou que lhe dessem o anel, sinal dos esponsais.

– Finalmente, como diz São Paulo, quem está na graça de Deus, torna-se templo do Espírito Santo:

Templum Dei estis, et Spiritus Dei habitat in vobis (4) – “Sois o templo de Deus e o Espírito de Deus habita em vós”

Soror Maria de Oignies viu um dia o demônio sair do corpo de uma criança que estavam batizando, e o Espírito Santo entrar com um cortejo de anjos.

Ó meu Deus, eis que minha alma, quando estava em vossa graça, era vossa amiga, vossa filha, vossa esposa e vosso templo. Mas depois perdeu tudo pelo pecado, e tornou-se vossa inimiga e escrava do inferno. Graças Vos dou por me haverdes ainda dado o tempo para reparar o mal que fiz, para reentrar em vossa graça e aumentá-la mais e mais. Ó Bondade infinita, arrependo-me sobre todos os males de Vos ter ofendido, e amo-Vos sobre todas as coisas. Dignai-Vos receber-me de novo em vossa amizade. Por piedade, não me desprezeis. Bem sei que merecia ser repelido de Vós; mas Jesus Cristo merece por mim que me aceiteis de novo, visto estar arrependido, em consideração do sacrifício que de si mesmo fez no Calvário.

– Adveniat regnum tuum – “Venha o vosso reino”. Meu Pai (é assim que vosso Filho me ensinou a chamar-Vos), meu Pai, vinde reinar no meu coração pela vossa graça, fazei com que só Vos sirva, que viva só para Vós e que só Vos ame. Numa palavra, “fazei com que ocupando-me sempre com pensamentos santos e racionáveis, eu execute com palavras e obras o que é de vosso agrado divino” (5).

Peço esta graça também a vós, ó grande Mãe de Deus, e minha Mãe Maria.

Referências:
(1) Jo 15, 14
(2) Sl 81, 6
(3) Os 2, 20
(4) 1Cor 3, 16
(5) Or. Dom. curr.

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 227-229)

sábado, 12 de fevereiro de 2022

"Oh, meu Jesus...", A ORAÇÃO DE FÁTIMA

 


Em Fátima, Nossa Senhora, no contexto do único segredo que consiste em três partes, revelou uma oração, que pela Divina Providência tornou comum ser rezada no final de cada mistério do Santo Rosário.

Mas há versões diferentes em sua recitação.

Para que esta oração seja conhecida o mais próximo possível da pronúncia que a Santíssima Virgem fez dela, colocamos aqui a oração e a explicação que Pe. Michel de la Sainte Trinité faz dela, em seu livro « Toda a verdade sobre Fátima », ainda inédito em espanhol.

Acompanhando esta escrita está a foto tirada no mesmo dia em que receberam o segredo e esta oração. Você pode ver nas feições dos Pastorinhos sua melancolia pela mensagem recebida.

«UMA ORAÇÃO URGENTE PELA SALVAÇÃO DAS ALMAS

Imediatamente após o término do segredo, Nossa Senhora continuou: «Quando rezares o terço, dirás depois de cada mistério:

« Ó meu Jesus, perdoa-nos,

livra-nos do fogo do inferno;

conduzir todas as almas ao Céu,

especialmente os mais necessitados”. [1]

"OH MEU JESUS." As duas orações ensinadas por Nossa Senhora são dirigidas ao Seu Filho, a Jesus, nosso "Deus Salvador". Só isso basta para destruir as calúnias dos reformadores contrários a Fátima, sob o pretexto falacioso de que a sua mensagem não é suficientemente cristocêntrica! Esse erro! Em Fátima, Nossa Senhora quis acrescentar à grande oração em Sua honra, esta breve invocação dirigida a Jesus Salvador. Intercalada entre a Gloria Patri à Santíssima Trindade, os Pais Nossos e as Aves que suplicam ao Pai Nosso e à Mãe Nossa do Céu, esta pequena oração expande o horizonte divino do nosso rosário.

"NOS PERDOA!" O pensamento do nosso pecado, este pecado tão profundamente enraizado em nós e que ameaça causar a nossa ruína, está presente na mensagem de Fátima em todos os lugares. Não há nenhuma das nove aparições do Anjo e da Santíssima Virgem, em que alguma alusão não seja feita a ele. Cada uma das quatro orações ensinadas a nós, por mais breves que sejam, todas fazem alguma menção ao pecado. Esta oração, que não é excepção, tem ecos das Ladainhas, dos Paters e das Aves : «Perdoa-nos as nossas dívidas», e «rogai por nós pecadores» [2] .

"SALVE-NOS DO FOGO DO INFERNO!" Este apelo, o mais urgente, refere-se, naturalmente, à visão do inferno. A evocação concreta de seu fogo assustador pretendia expressamente trazer à nossa mente a descrição do inferno feita por Lúcia. Sim, é o desejo de Nossa Senhora, que é a Soberana Mestra, que a palavra inferno nos lembre sempre deste fogo devorador, que exprime com mais precisão a sua terrível realidade.

"Librai nos do fogo do inferno!" A expressão é forte e vigorosa, e deliberadamente assim. Não mais “nos preserva”, mas mais exatamente, “livra-nos!” Esta palavra explicita o último pedido do Pai Nosso, com o mesmo verbo, "mas livra-nos do mal". Isso quer dizer que o inferno não é um perigo distante e imaginário do qual podemos escapar por conta própria. Não, é a culminação exata e certa das rebeliões contra Deus e do endurecimento do coração, para onde iríamos sem o perdão de Jesus, nosso Salvador, e sem a ajuda de Sua Graça, cheia de misericórdia. Sem Ele, sem Sua Paixão e Seu Sangue redentor, já estamos perdidos. Devemos nossa salvação somente a Ele, e Ele quer que Lhe peçamos: "Ó meu Jesus, livra-nos do fogo do inferno!"

A oração de Fátima é muito semelhante à da liturgia: «Da morte eterna, livra-nos, ó Jesus» implora a Ladainha. E a oração do Cânon Romano, que afirma claramente a intenção do Sacrifício Eucarístico, diz: "Livra-nos da condenação eterna (ab aeterna damnatione nos eripi) e conta-nos no rebanho dos teus eleitos". A mesma expressão vigorosa é encontrada nas Ladainhas dos Santos, e desta vez deixa absolutamente claro quem são os referidos pelo "nós": somos nós e todos os nossos entes queridos que temos a fé, e imploramos perdão para os nossos. : «Que Tu libertes nossas almas e as almas de nossos irmãos, parentes e benfeitores da condenação eterna, nós te imploramos, ouça-nos! Ut animas nostras… ab aeterna damnationeEripias , pedimos que nos ouça!”

Este é um apelo urgente, mas também cheio de imensa verdade. Pois na esperança já temos a certeza de obter o perdão de Nosso Salvador e, por fim, alcançar a felicidade do Céu... Assim, nossos horizontes se alargam, levando-nos à segunda parte da oração:

"LEVA TODAS AS ALMAS PARA O CÉU." Nosso desejo ardente de sermos salvos, nós mesmos e nossos entes queridos, necessariamente se estende a todas as almas. Cristo ofereceu Sua vida por todos os homens, sem exceção, e Deus, Seu Pai "quer salvar todos os homens"; Então, por que nem todas as almas vão para o céu? A pequena oração torna-se... uma oração universal. É místico e exprime uma caridade verdadeira e ardente. "Senhor", gostava de repetir o padre de Foucauld, "se fosse possível, fazei todos os homens irem para o céu!"

“A todas as almas”, “ como todas as almas” ou na versão mais citada pela Irmã Lúcia, “as alminhas todas”, com este diminutivo de comiseração, “todas aquelas pobres almas”, como diríamos, “pobres pecadores. " "Levai para o Céu!" Leve-os para o céu! A palavra dificilmente pode ser traduzida: carrega-os, transporta-os, eleva-os ao Céu! E talvez melhor ainda, como traduzem Padre Simonin e Dom Jean Nesmy: " atraitodas as almas para o Céu." Isso nos lembra as palavras de Jesus ao pôr do sol no Domingo de Ramos, imediatamente antes de entrar no caminho de Seu Sacrifício Redentor: “Agora será lançado fora o príncipe deste mundo; e eu, quando for ressuscitado da terra, atrairei todos a Mim. Ele disse isso indicando de que morte ia morrer.» [3] "Omnia traham ad meipsum." Ressuscitado na Cruz, como uma nova serpente de bronze, Ele salvará todos aqueles que O buscam, o único Salvador, "A quem traspassaram". E em breve, ascendendo ao Céu, levará consigo uma multidão de prisioneiros [4] .

"ESPECIALMENTE O MAIS NECESSÁRIO". Estas últimas palavras deixaram o Cônego Formigão perplexo. Eles são realmente surpreendentes: como podemos pedir a Jesus que leve todas as almas para o céu, e assim por diante, todas sem exceção, e então adicionar imediatamente uma fórmula que é parcial e restritiva? As palavras “todos… especialmente” parecem desafiar a lógica simples.

E mesmo assim, a fórmula é autêntica, e a dificuldade desaparece quando consideramos que se trata da salvação das almas, ou seja, a pura e infinita misericórdia de Deus. A lógica aqui é a do amor, cheia de suposições causadas pela estrutura muito estreita da relação exata dos conceitos a serem refutados. A alma suplicante, no zelo do seu amor, gostaria de obter da Divina Misericórdia a salvação de todas as almas... mas sabe que o seu pedido não pode ser plenamente atendido... não o merece. Neste caso, ela imediatamente esclarece seu pedido e diz a Deus: "Peço-te que tenhas misericórdia de pelo menos algumas almas, e mais especialmente, prioritariamente, das almas dos maiores pecadores, que certamente estão em perigo !" risco de se perder!" Essa é a lógica dos santos...

É assim que os três videntes entenderam esta frase, à luz de seu contexto imediato: a visão do inferno [5] . Uma passagem marcante das Memórias mostra-nos como a pequena oração de Nossa Senhora voltava muitas vezes aos lábios de Jacinta, e não só entre as dezenas do terço, mas muitas vezes para implorar a salvação das almas:

“Muitas vezes ela se sentava no chão ou em alguma pedra e, pensativa, começava a dizer:

"- O inferno! O inferno! Como sinto pelas almas que vão para o inferno! E as pessoas que, estando ali vivas, queimam como lenha no fogo!

“E assustada, ajoelhava-se e, com as mãos juntas, recitava as orações que Nossa Senhora nos ensinara:

«– Oh meu Jesus, perdoa-nos, salva-nos do fogo do inferno, leva todas as almas para o Céu, especialmente as que mais precisam!

«– Agora, Exmo. e Revmo. Sr. Bishop, e Vossa Excelência. revma. Você entenderá por que me pareceu que as últimas palavras desta oração se referiam àquelas almas que estão em maior ou mais iminente perigo de condenação”. [6]

Estas últimas palavras voltam nossa atenção para os moribundos. Em todas as miríades de Ave-Marias que todos teremos rezado durante nossas vidas, pedimos à Mãe de Misericórdia que reze por nós "na hora de nossa morte". Mas, e todas essas almas endurecidas, que constantemente a indignam e nunca a invocam? É por eles, pelo contrário, que Nossa Senhora nos faz rezar durante o nosso terço.

Essa prioridade dada aos maiores pecadores não foi compreendida, e foi a principal razão pela qual a versão original foi abandonada por tanto tempo em favor de uma mais clássica. Além disso, esta oração nos introduz a toda a realidade do Evangelho. É a prioridade dada às ovelhas perdidas pela dupla razão, que elas estão perdidas, e que sua salvação nos mostrará mais vivamente o Amor incansável de seu Bom Pastor! Foi Santa Teresa do Menino Jesus que, "devorada pela sede de almas, inflamada pelo desejo de arrebatar das chamas eternas as almas dos maiores pecadores", tomou a decisão de "evitar a qualquer custo ir para o inferno » , o horrível criminoso cujos três assassinatos monopolizaram as notícias. Sobre ele também, "este pobre infeliz Pranzini",[7] .

Veremos que esta questão da salvação dos maiores pecadores é um tema frequente nas revelações posteriores dadas à Irmã Lúcia. Este também era o pensamento constante de Jacinta:

«E ficou assim, muito tempo, de joelhos, repetindo a mesma oração. De vez em quando ele ligava para mim ou para seu irmão (como se estivesse acordando de um sonho):

«– Francisco, Francisco, rezas comigo? É preciso rezar muito, para libertar as almas do inferno. Tantos vão lá! Muitos!" [8]

[…]

«A ORAÇÃO PELAS ALMAS

Por quais almas deve ser dito? Pelas almas dos pecadores? Ou para os do Purgatório, como se acreditou por muito tempo?

DUAS VERSÕES DIFERENTES

Até aos anos quarenta, na maioria das obras sobre Fátima encontramos a seguinte versão, citada pelo Padre Castelbranco: «Ó meu Jesus, perdoa-nos os nossos pecados! Salve-nos do fogo do inferno! E traz à tona as almas do Purgatório, especialmente as mais abandonadas.» [9] Nessa altura, os peregrinos a Fátima recitavam a mesma fórmula na Cova da Iria. Como podemos explicar essa discrepância?

A VERSÃO AUTÊNTICA

Durante o interrogatório de 21 de agosto de 1917, Lúcia relatou ao padre Ferreira a versão revelada por Nossa Senhora pouco mais de um mês antes. Exceto por duas palavras, que não alteram o sentido [10] , este é exatamente idêntico ao texto que Irmã Lúcia transcreveu em sua Quarta Memória , em 8 de dezembro de 1941. Portanto, é esta última versão que estamos comentando. : «Ó meu Jesus, perdoa-nos, salva-nos do fogo do inferno e leva todas as almas para o Céu, especialmente as mais necessitadas». [onze]

Assim, não há dúvidas sobre a autenticidade desses textos, tanto mais que, além deles, há muitos outros que mostram que a Irmã Lúcia não alterou a redação, exceto em pequenos detalhes que em nada alteram o sentido do texto. frase. [12]

A INTERPRETAÇÃO DO CANON FORMIGÃO

Sabemos que durante o interrogatório de 27 de setembro de 1917, Lúcia recitou ao cônego Formigão a mesma versão autêntica que já havia dado ao seu pároco um mês antes. [13]

Mas quem são essas almas “mais necessitadas” e por quem Nossa Senhora nos pediu para rezar? O bom Cônego, que naturalmente não conhecia o segredo, nem as mensagens do Anjo, nem os repetidos convites de Nossa Senhora para rezar e sacrificar pelos pecadores, e era especialmente ignorante da visão do inferno, que é o contexto imediato da revelação deste a oração, pensou ele, deve sem dúvida referir-se às almas mais abandonadas do Purgatório.

Não é a palavra "alminhas" , diminutivo de "almas" , que sugere fortemente esta hipótese? O cónego Formigâo, que ele próprio optou resolutamente pela outra solução, explica: «Em português, a palavra «almas», sobretudo na sua forma diminuta, «alminhas» , (as pequenas, pobres ou queridas almas), usada sem qualificação, ordinariamente designa as almas do Purgatório. Nas igrejas, os cofrinhos das almas do Purgatório trazem esta inscrição, "caixa das almas", e nas esquinas encontram-se pequenas construções denominadas "ermida das alminhas" (ermida das pobres almas).» [14]Outro detalhe significativo: não é raro em Portugal ouvir um mendigo pedindo almas, “para las alminhas” , pelas almas do Purgatório.

Portanto, podemos facilmente compreender como o Cônego Formigão chegou a acreditar que a oração de Nossa Senhora poderia ter algo a ver com os mortos. Acrescentou ainda uma frase à versão inicial: «Levem todas as almas do Purgatório para o Céu, como alminhas do purgatório todas ... » 15] , por uma questão de clareza. Esta é a origem da fórmula que ele adotou e publicou em suas obras: "Ó meu Jesus, perdoa-nos, livra-nos do fogo do inferno e liberta as almas do Purgatório, especialmente as mais abandonadas". [16]

Quando em 1927 citou o interrogatório de 27 de setembro de 1917, apresentou sua fórmula como resposta de Lúcia à pergunta. Isso mostra como a nova versão da sentença, que apareceria como corrigida por ele, foi posteriormente amplamente divulgada [17] .

A INTERPRETAÇÃO DA IRMÃ LUCIA

A partir de 1921, e depois durante longos anos, Lúcia esteve afastada das peregrinações a Fátima, o que a manteve quase completamente alheia ao que se passava. Assim, ela não conseguiu retificar a fórmula errônea que estava sendo recitada ali. Mas quando questionado sobre sua opinião, (um pouco tarde, infelizmente!) ele insistiu em restaurar a versão original, cuja interpretação lhe parecia a mais óbvia. Já citamos sua carta ao Padre Gonçalves. Ela o fez novamente, com ainda mais vigor, em conversa com o Cônego Barthas, em 18 de outubro de 1946. Segue o texto:

«Permiti-me pedir à Irmã Lúcia que qualificasse o significado da palavra “alminhas”, almas: «Nestas almas que precisam da assistência divina, devemos ver as almas do Purgatório ou as dos pecadores?, perguntei-lhe.

"'Pecadores', ele respondeu sem hesitação.

"'Por que você pensa isso?'

«“Porque a Santíssima Virgem sempre falou das almas dos pecadores. Ela dirigiu nossa atenção para eles em todos os sentidos; Ela nunca falou das almas do Purgatório."

““Por que, em sua opinião, a Santíssima Virgem lhe interessou especialmente pelos pecadores, e não pelas almas do Purgatório?”

«Sem dúvida porque as almas do Purgatório já estão salvas, estando já no vestíbulo do Céu, enquanto as almas dos pecadores estão no caminho que conduz à condenação.» (Esta foi essencialmente a minha opinião também.)

“Sua explicação me parece altamente teológica. "Por que, então, em muitas igrejas e até em Portugal, as almas do Purgatório são nomeadas nesta oração?"

«“ Não sei Eu mesmo nunca falei das almas do Purgatório. Quanto ao resto, isso não me diz respeito.”» [18]

Esta declaração nos parece decisiva. A oração ensinada por Nossa Senhora só pode ser devidamente compreendida no contexto mais geral do segredo de Fátima. Isso justifica a modificação do texto, que o Cônego Formigão, com toda a sua boa fé, julgou ter o direito de fazer. Hoje, no entanto, preferimos recitar esta oração com o mesmo espírito que os três videntes, pois como a Irmã Lúcia escreve acertadamente noutro lugar: "Geralmente, Deus acompanha as Suas revelações com um conhecimento íntimo e minucioso do que elas significam." .» [19]

Devemos então esquecer as queridas almas do Purgatório? A resposta de Nossa Senhora em 13 de maio ("Ela estará no Purgatório até o fim do mundo") é suficiente para nos mostrar o quanto eles precisam de nossas orações. É um belo dever de caridade interceder por eles, especialmente pelos mais abandonados entre eles. Longe de se excluirem, todas as devoções católicas se fortalecem. Cabe a cada um praticar a sua devoção seguindo o impulso da graça particular que lhe foi dada… Há muito espaço num coração em chamas pelo amor das almas!”


[1] Aqui damos o texto da Quarta Memória , na tradução mais literal. Em todo caso, a versão usualmente adotada é substancialmente correta: "Ó meu Jesus, perdoa -nos os nossos pecados , salva-nos do fogo do inferno e conduz todas as almas ao céu, especialmente as mais necessitadas de tua misericórdia ". Esta bela oração foi citada em várias variantes e ainda é interpretada de várias maneiras. Alguns acreditam que o segundo pedido se refere às almas do Purgatório. Em anexo justificaremos a versão que adotamos e a explicação que propomos.

[2] Leia o belo paralelo estabelecido por nosso Pai entre o Pai Nosso e a Ave-Maria. CRC 182, outubro de 1982.

[3] Jo. 12. 31-33.

[4] Jo. 19, 37, Z. 12, 19; Ef. 4, 7.

[5] Ver carta da Irmã Lúcia ao Padre Gonçalves de 18 de Maio de 1941: A última súplica foi aplicada às almas do Purgatório, “porque parece que o sentido destas últimas palavras foi mal compreendido; mas creio que Nossa Senhora se referia às almas em maior perigo de condenação. Esta continua a ser minha impressão, e sem dúvida você vai acreditar na mesma coisa depois de ter lido a parte do segredo que escrevi, e sabendo que Nossa Senhora nos ensinou esta mesma oração durante a mesma aparição." (Memórias e cartas, p. 443).

[6] III, pág. 110.

[7] Manuscritos autobiográficos, pp. 117-119, Livre de Vie (1957).

[8] III, pág. 110.

[9] O Milagre Sem Precedentes de Fátima , p. 12 (1939). Em 1940, o padre Martin Jugie, em seu livro sobre o Purgatório, citou uma fórmula semelhante, p. 337. (Lethielleux).

[10] Nomeadamente, a conjunção "e" e as palavras "dela", referindo-se à misericórdia de Deus: "especialmente os mais necessitados dela ".

[11] O meu Jesus, pardoai-nos, (e) livrai nos do fogo do Inferno; levai como alminhas todas para o Céu, principalmente as que mais (d'ele) exigem. (Documentos, p. 341, 501).

[12] Seguem algumas datas: 7 de setembro de 1922, carta de Carlos Mendès (Barthas, Fátima, Grande Milagre do Século XX, p. 322). O relatório de 5 de janeiro de 1922 (Documentos, p. 471). O interrogatório perante a comissão canónica, 8 de julho de 1924. A carta do padre Gonçalves de 18 de maio de 1941 (Documentos , p. 443), e finalmente os textos da III e IV Memoria (Ibid., pp. 221 e 341). Em 18 de outubro de 1946, a Irmã Lúcia ditou a mesma fórmula ao cônego Barthas, acrescentando: "e ajuda sobretudo aqueles..." Mas o sentido é sempre o mesmo.

[13] Cf. JM Alonso, Fátima, escola de oração, p. 105, e História da Literatura p. 13: «A primeira versão escrita dos manuscritos do Formigão é precisamente aquela que os videntes sempre repetiram».

[14] Fátima 1917-1968, p. 101; ver todas as notas nas págs. 99-102.

[15] Alonso, História da Literatura, pp. 14-15.

[16] ...e libertar as almas do Purgatório, especialmente as mais abandonadas. Documentos, por exemplo 505.

[17] Saliente-se que o Padre Alonso acreditava que a interpretação teológica do Cânon Formigão podia ser justificada, mas insistia no sentido ordinário da palavra «alminhas». Segundo ele, a palavra "alminhas" esclarece a questão: refere-se às almas do Purgatório. (Fátima, escola de oração, p. 105; 1980.) Reparemos apenas que:

1. A Irmã Lúcia parece usar tanto a palavra "alminhas" como "almas" com indiferença. (Texto de 18 de maio de 1941) Segundo Castelbranco, a fórmula aprovada para peregrinações tem também a palavra «almas», enquanto os Martos aprenderam em 1917 a fórmula com a palavra «almas».

2. O próprio Cónego Formigão, em vez da palavra «alminhas», vem substituí-la pela expressão mais clara «almas do purgatorio». Por que então a mudança foi necessária?

3. A maioria dos doutos críticos portugueses interpreta a palavra "alminhas" como a Irmã Lúcia faz, por exemplo, designando as "pobres almas" dos pecadores.

Assim, concluímos que em português, assim como em latim ou francês, a palavra «alminhas» é indefinida e, dependendo do contexto, pode referir-se às almas dos falecidos ou às dos vivos. Documentos pág 447.

[18] Fátima 1917-1969, p. 101-102.

[19] III, pág. 116.