quarta-feira, 25 de maio de 2022

“EU PRECISO TANTO DE UMA MÃE!”

 





Um dia conta-nos um vigário dos subúrbios de Paris, notei uma ovelha estranha misturada ao rebanho do meu catecismo. Aquela figurinha pálida e apoucada, que se insinuara na ponta do último banco, não me era totalmente desconhecida; minha memória lembrou-me logo que o intruso era filho do contramestre da fábrica, homem de opiniões violentas e exaltadas, orador de clube, inimigo de padres, etc. Aliás, o pequeno parecia deslocado no santo lugar.

Olhava para todos os lados e tinha uma atitude constrangida na extremidade do seu banco. Não aparentei reparar na presença dele, mas, após acabar de interrogar os meus meninos, fui a ele e fi-lo levantar. Ele segurava um gorro na mão e olhava-me com grandes olhos tristes. As suas roupas belas e bem feitas careciam de frescor. Ao vê-las, adivinhava-se que não as preparava um mãe.

– Vais à escola, – disse-lhe eu, – já ouviste falar de Deus Nosso Senhor? – Silêncio, gesto vago e indiferente.

– Da Santíssima Virgem? – O pequeno levantou a fronte e subitamente o semblante se lhe animou.

– Ouvi, – disse-me ele baixinho, misteriosamente. – Ouvi dizer que os meninos do catecismo têm uma Mãe, a SS.Virgem. Foi por isso que eu vim… – E grossas lágrimas rolaram-lhe pelas faces, enquanto ele acrescentava: ” Eu preciso tanto de uma mãe!”

Esse grito comoveu-me. Assim que meus alunos saíram, voltei ao pequeno estranho, e lhe disse: ” Vem cá, vou-te levar à tua Mãe.” – Ele deitou-me um olhar profundo. ” Aquela que substituirá tua mãe”, continuei. E conduzi-o ao branco altar que as Filhas de Maria ornamentam com desvelo piedoso. Quando o menino avistou a bela imagem coroada do diadema de ouro, rodeada de flores e iluminada pelo reflexo dos vitrais, exclamou de mão postas: ” Ah! lá está ela! Como é bela!

O Sr. acha que ela quererá me tomar por seu filho? olhe, ela tem outro nos braços. Talvez não precise de mim; e eu, se o Sr. soubesse! Preciso muito de uma mãe…ainda mais depois que estou doente…” – e estás doente, meu filho? – Ele tocou o lado esquerdo. – Tenho uma dor aqui, não grande, mas não posso brincar ou correr como os outros, então o médico proibiu que eu fosse á escola. Sou infeliz sozinho em casa. Papai me quer muito bem, mas está sempre fora de casa. Disseram-me que os meninos que vêm aqui acham uma mãe muito boa e toda-poderosa, eu então fugi e vim cá.

Eis aí mais um dos vossos benefícios, ó boa Mãe, pensei eu.

Obrigado por me terdes trazido esta cara alminha, que pereceria na ignorância, e cuja voz, talvez em breve, se misturará aos concertos dos anjos.

E ele repetia inquieto: “O Sr. acha que a santa Virgem quererá saber de mim? – Sem dúvida, meu amigo, mas é preciso fazer como os meninos que aqui vêm, e aprenderes o teu catecismo.”

Pus-lhe um catecismo nas mãos, e ele disse: ” Obrigado, Sr., não deixo de o ler.”

Leu-o, aprendeu-o, mas a morte fazia lentamente a sua obra. Pouco tempo depois de fazer a primeira comunhão, ele morreu como um santo, e foi encontrar-se com sua Mãe no céu. 

A Formação da Donzela – Pe. J. Baeteman

Fonte:

http://catolicosribeiraopreto.com/

terça-feira, 24 de maio de 2022

A ÁGUA BENTA

 

Pia batismal – Foto de Igreja Matriz de Cristo Rei, Bento Gonçalves -  Tripadvisor

Adentremos na tradição e na intenção da Igreja, evitando usar a água benta mecanicamente.

Fonte: Apostol n ° 156 – Tradução: Dominus Est

Quando entramos em uma igreja, nosso primeiro gesto é se utilizar da água benta com a qual fazemos o sinal da cruz sobre nós mesmos. Em suma, abençoamo-nos com a água benta.

A água benta é o sacramental básico, por assim dizer. Não contém a graça – como é o caso dos 7 sacramentos – mas é uma prece muito poderosa da Igreja. O seu efeito principal é expulsar os demônios graças aos exorcismos que esta água recebeu, e ao sal que o sacerdote acrescenta durante a sua bênção. A água benta remove, portanto, as perturbações imediatas do demônio, tais como apegos ao pecado, tentações e distrações.

É aconselhável, portanto, utilizar a água benta para estar melhor preparado para honrar o lugar sagrado – que é a igreja, para alí rezar, para assistir os ofícios e receber os sacramentos. Em poucas palavras, a água benta leva-nos do profano ao sagrado.

Este rito segue as práticas das primeiras igrejas cristãs, quando os fiéis recebiam água benta do próprio celebrante antes de entrarem na igreja, ou a levavam em bacias ou cântaros colocados no vestíbulo. Hoje em dia são aspergidas pelo celebrante no início da Missa solene dominical.

Adentremos na tradição e na intenção da Igreja, evitando utilizar a água benta mecanicamente. Não se deve utilizá-la quando há a aspersão do domingo. Também não há razão para utilizá-la ao sair da igreja, especialmente depois de ter comungado. Qualquer outro uso de água benta pelos fiéis na igreja deve ser evitado.

Pe. Lionel Héry, FSSPX

QUEM DESEJA A SALVAÇÃO DEVE TEMER A CONDENAÇÃO

 

inferCum metu et tremore vestram salutem operamiui – “Trabalhai em vossa salvação com medo e tremor” (Phil. 2, 12).

Sumário. Avisa-nos São Paulo que devemos trabalhar em nossa salvação não só com medo, mas com tremor, visto que se trata da eternidade. Se na hora da morte estivermos na graça de Deus, tudo estará seguro: seremos felizes para sempre. Se, ao contrário, a morte nos achar em pecado mortal, com que desespero confessaremos: Desviei-me do caminho e já não há remédio em toda a eternidade! Meu irmão, aproveitemo-nos do aviso. Quem sabe se esta meditação não é para mim o último convite… Quem sabe se não morreremos repentinamente!

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São Paulo nos previne que devemos trabalhar em nossa salvação não só com medo, mas com tremor; porquanto quem não teme e treme pela sua salvação, não se salvará:Cum metu et tremore vestram salutem operamini. Um rei da Sicília, para fazer compreender a um simples cidadão o receio que o dominava no trono, o mandou sentar à mesa com uma espada suspensa por um fio delgado sobre a cabeça, de modo que, nesta terrível situação, mal podia comer um bocado. Coisa igual se dá conosco: todos nós estamos em semelhante perigo, pois que, de um instante para outro, pode cair sobre nós a espada da morte, da qual depende a nossa eterna salvação.

Trata-se da eternidade. Si ceciderit lignum ad austrum aut ad aquilonem, in quocumpque loco ceciderit, ibi erit (1) – “Se a árvore cair para a parte do sul ou para a do norte, em qualquer lugar onde cair, aí ficará”. Se na morte nos acharmos na graça de Deus, qual não será a alegria da alma, que então poderá dizer: “Tudo está seguro, já não posso mais perder a Deus, serei feliz para sempre!” Mas se a morte achar a alma em estado de pecado, com que desespero não exclamará: “Ergo erravimus! (2) Desviei-me do caminho e para a minha aberração já não há remédio em toda a eternidade!”

Foi este receio que fez o Bem-aventurado João de Ávila, apóstolo de Espanha, dizer quando lhe anunciaram a aproximação da morte: “Oxalá tivesse mais um pouco de tempo para me preparar para a morte!” Foi o mesmo temor que fez o Abade Agathon dizer, posto que morresse depois de longos anos de penitência: “Que será feito de mim? Quem conhece os juízos de Deus?” Santo Arsênio tremia igualmente à vista da morte, e perguntando-lhe seus discípulos a causa, respondeu: “Meus filhos, este temor não é novo em mim, tive-o sem cessar durante toda a minha vida.” Mais que ninguém tremia o santo homem Jó, quando exclamava: Quid faciam, cum surrexerit ad iudicandum Deus? (3) – “Que farei, quando o Senhor se levantar para me julgar? E Quando me interrogar, que lhe responderei?” E tu, meu irmão, que poderias responder a Jesus Cristo se ele te deixasse morrer neste instante e te chamasse perante o seu tribunal?

Meu irmão, quem sabe se a meditação que estás lendo, não é o último convite que Deus te faz? Preparemo-nos, portanto, quanto antes para a morte, afim de que não nos colha de improviso. Diz Santo Agostinho que Deus nos oculta o último dia da vida para que estejamos todos os dias preparados para morrer:Latet ultimus dies, ut observentur omnes dies.

Ah, meu Deus, quem houve jamais que me tenha amado mais do que Vós? E a quem tenho eu mais desprezado e injuriado do que a Vós? Ó Sangue, ó Chagas de Jesus, Vós sois a minha esperança. Pai Eterno, não repareis nos meus pecados; olhai as chagas de Jesus Cristo, olhai vosso Filho querido, que morre de dor por amor de mim, e Vos pede que me perdoeis. Arrependo-me, ó meu Criador, de Vos ter ofendido, e sinto-o mais que qualquer outro mal. Vós me criastes para que Vos ame, e vivi como se me tivésseis criado para Vos ofender. Por amor de Jesus Cristo, perdoai-me e dai-me a graça de Vos amar. Outrora eu resistia à vossa vontade; mas agora não quero mais resistir; quero fazer tudo que me ordenardes.

Ordenais-me, ó Senhor, que deteste os ultrajes que Vos fiz; pois bem, detesto-os de todo o coração. Ordenais que tome a resolução de não Vos ofender mais; eis que resolvo antes perder mil vezes a vida do que a vossa graça. Ordenais que Vos ame de todo o coração; ah sim! De todo o coração Vos amo, e não quero amar senão a Vós; de hoje em diante sereis o meu único bem, o meu único amor. Peço-Vos, e de Vós espero obter, a santa perseverança. – Meu Pai, pelo amor de Jesus Cristo, fazei com que eu Vos seja fiel e Vos diga sempre com São Boaventura: Sois o meu bem-amado, o meu único amor: Unus est dilectus meus, unus amor meus. Não, não quero que a minha vida sirva para Vos dar desgosto; quero que me sirva somente para chorar as mágoas que Vos causei, e para Vos amar. – Maria, minha Mãe, vós rogais por todos os que se vos recomendam; rogai também por mim a Jesus. (II 26.)

  1. Eccles. 11, 3.
    2. Sap. 5, 6.
    3. Iob. 31, 14.

Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso

segunda-feira, 23 de maio de 2022

AS PROMESSAS DE DEUS E A EFICÁCIA DA ORAÇÃO

 

Aprenda a rezar
Amen, amen dico vobis: si quid petieritis Patrem in nomine meo, dabit vobis
 – “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa ao Pai em meu nome, Ele vo-la dará” (Io. 16, 23).

Sumário. Considera como o divino Redentor engrandece a eficácia da oração: Em verdade, em verdade vos digo: que tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo dará. Nem é só neste lugar, mas em muitos outros lugares do Antigo e Novo Testamento, que Deus promete ouvir a quem o roga. Animo pois, e nunca deixemos de recorrer ao Senhor. Peçamos sempre as graças no nome e pelo amor de Jesus Cristo. E para sermos atendidos mais facilmente, valhamo-nos da intercessão de Maria.

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I. Considera como o divino Redentor engrandece no Evangelho deste dia a eficácia da oração. Em verdade, em verdade vos digo: que tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo dará. E não é somente neste lugar, mas em muitos outros, tanto do Antigo como do Novo Testamento, que Deus promete ouvir a quem o roga. Pela boca de Jeremias diz: “Dirigi-te a mim pela orarão, e te atenderei.” (1) Nos Salmos repete: “Chama-me em teu auxílio, e livrar-te-ei.”(2) No Evangelho de São Lucas acrescenta: “Pedi, e dar-se-vos-á …, porque todo aquele que pede, recebe.”(3) No Evangelho de São João, Jesus diz: “Tudo o que me pedirdes em meu nome, fá-lo-ei.” (3) “Pedi tudo que quiserdes, que logo vos será concedido.” (4) E assim há muitas outras passagens.

Por isso o Profeta nos incita a rezar, afirmando-nos que: “o Senhor é suave e benigno e todo misericórdia para os que o invocam” (5). E mais ainda anima-nos São Thiago, dizendo: “Si quis vestrum indiget sapientia, postulet a Deo, qui dat omnibus affluenter” (6). – “Se alguém de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente”. Diz este Apóstolo que, quando se ora ao Senhor, este abre as mãos e dá mais do que se Lhe pede. Nec improperat, e não impropéra; parece, ao contrário, que se esquece de todas as ofensas que lhe foram feitas. – Numa palavra, é tão grande a eficácia da oração, que nos pode obter tudo; porque, como diz São João Clímaco, a oração faz de algum modo violência a Deus, obrigando-o a conceder-nos tudo o que Lhe pedimos: Oratio pie, Deo vim infert.

A razão desta eficácia, segundo a explicação de São Leão, é que Deus por sua natureza é uma bondade infinita, e por isso tem um extremo desejo de nos fazer participar de seus bens, e é maior o desejo de Deus de nos fazer bem, do que o nosso de receber. Deus, portanto, não pode deixar de atender a quem o roga; o que leva Santa Maria Madalena de Pazzi a afirmar que Deus, por assim dizer, contrai obrigações com a alma que a ele recorre, porque lhe fornece o ensejo de dispensar as graças conforme almeja o seu coração.

II. Injustamente se queixam alguns, como se o Senhor não os quisesse atender; muito ao contrário, observa São Bernardo, eles mesmos se acham em falta, deixando de Lhe pedir as graças. – Disso parece exatamente que Jesus Cristo se queixou quando, repreendendo docemente a seus discípulos e na pessoa deles a todos nós, acrescenta: “Até agora não pedistes nada em meu nome; pedi e obtereis, afim de que o vosso gozo seja perfeito”: Petite et accipietis, ut gaudium vestrum sit plenum. Como se dissesse: Não vos queixeis de mim, se não tendes sido completamente felizes; queixai-vos antes de vós mesmos, porque não me pedistes graças.

Animo pois, meu irmão, e não deixemos nunca de recorrer a nosso bom Deus, que, particularmente no Sacramento do altar, dá audiência a todos, e está sempre com as mãos cheias de graças para as distribuir a quem as pede. Notemos, porém, as palavras: in nomine meo – “em meu nome”. Pedir em nome de Jesus, não somente quer dizer pedir com confiança nos merecimentos de Jesus, mas também pedir coisas úteis para a nossa eterna salvação. Pelo que Santo Agostinho diz: Não pede em nome de Jesus Cristo, quem pede coisas prejudiciais a própria salvação.

Ó Pai eterno, adoro-Vos, reconheço-Vos por fonte de todo o bem, e graças Vos dou pelos muitos benefícios que me concedestes. Especialmente Vos agradeço a luz pela qual me fizestes conhecer que toda a minha salvação consiste na oração. Quero responder ao vosso convite e Vos peço em nome de Jesus Cristo que me concedais uma grande dor dos meus pecados e a perseverança na vossa graça. “Fazei também, ó meu Deus, que pela vossa inspiração eu conheça o que é reto, e pela vossa graça o execute” (7). Bem sei que não mereço esses favores, mas vosso Filho os prometeu a quem Vo-los pede pelos seus merecimentos, e é pelos merecimentos de Jesus Cristo que Vo-lo peço, e espero obtê-los. – Ó Maria, vossas orações obtêm tudo quanto pedem; rogai por mim. (*II 136.)

1. Ier. 33, 3.
2. Sal. 49, 15.
3. Luc. 1, 9 e 10.
4. Io. 14, 14.
5. Io. 15, 7.
6. Sal 85, 5.
7. Or. Dom. curr.

Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso

terça-feira, 17 de maio de 2022

KARL MARX E SATÃ

 

A verdadeira doutrina defendida por Karl Marx | Instituto Rothbard

Gustavo Corção

Numa excelente revista belga, Bulletin Indépendant d´Information Catholique, no. 150 – número especial com que se despede dos leitores, não podendo manter-se pela simples e clara razão de ser excelente – li um artigo cuja difusão me parece um imperativo dos tempos presentes. Trata-se da recensão do livro Karl Marx et Satan recentemente publicado nas Edições Paulinas – Apostolat des Editions – pelo judeu convertido ao cristianismo Richard Wurmbrandt, que sofreu na URSS muitos anos de trabalhos forçados em razão de sua fé cristã. Seu último livro é revelador de relações estreitas entre o satanismo e o comunismo, que o autor considera como uma encarnação política do Demônio. Segundo A. d´Arian, diretor da revista e autor da recensão, a obra é digna de atenção com algumas reservas no plano da doutrina católica. As linhas que se seguem são de transcrição:

“Muito piedoso desde a sua mocidade, Karl Marx, da alta burguesia israelita, faz um pacto com Satã. Aos vinte anos surge no mundo das letras com um poema intitulado Oulamen, anagrama de Emanuel, no qual lêem-se esses versos: “Quero construir parar mim um trono nas alturas”, que repetem quase literalmente as palavras de Isaías (14, 13), “subirei aos céus, e colocarei meu trono acima dos astros de Deus”, que se referem a Lúcifer.

“Num outro poema, A Virgem Pálida, o miserável ousa escrever: – Já perdi o Céu; minh´alma, outrora fiel a Deus, está marcada para o inferno.

“Nessa época, Karl Marx combatia as idéias socialistas na revista alemã Rheinische Zeitung, escarnecendo ao máximo da classe operária. Mas, espantado, recebe a advertência de Moses Hess de que o socialismo pode ser uma boa isca para atrair os intelectuais e as massas para o seu ideal diabólico. O amigo convenceu-o. Fiéis a essa idéia, os soviéticos, desde a primeira hora, tomarão como lema: – Expulsemos os capitalistas da terra e Deus do Céu!

“Foi com Bakunine que Marx fundou a Ia. Internacional. Ora, Bakunine escrevia: – Satã é o primeiro livre-pensador, é o Salvador do Mundo que liberou Adão imprimindo em sua fonte o sinete da liberdade fazendo-o desobedecer. (Deus e o Estado).

“O mesmo Bakunine escrevia ainda: – É preciso incutir o Diabo na alma dos homens, e despertar neles as paixões mais torpes.

“E para que despertar as paixões do povo? Para permitir ao Diabo arruinar a obra do Criador. Marx diz isto sem a menor cerimônia: – Como um Deus criador, irei ao acaso entre as ruínas do mundo, sentindo-me igual ao criador.

“E assim, sem a menor preocupação pelo bem dos operários, Marx sonha incarnar-se no anjo rebelde para arruinar o mundo.

“Preguiçoso e dado a bebidas, Marx vivia na dependência de Engels, que, com benevolência, assume a paternidade do filho natural que Karl teve com sua empregada.

“Sempre apertado em dinheiro, Marx vive a esperar as heranças. Recebendo notícias da enfermidade grave de seu tio, escreve a Engels: “Se o cão morrer me tirará de embaraços”. E em 8 de março de 1855, sabendo da morte exclama: “Excelente notícia!”

“Diante do caixão de sua mãe, em 1863, demonstra a mesma alegria. Outro sinal diabólico pode-se constatar na sua correspondência com Engels sempre entremeada de obscenidades.

“Karl Marx morre desesperado no dia 25 de maio de 1883, depois de ter traçado estas palavras: — Como a vida é vã e vazia”. A empregada que presenciou sua agonia observou que sua testa estava amarrada com uma fita longa, e que o moribundo se entretinha com um personagem invisível diante de uma fileira de velas acesas. Esse rito derradeiro teria alguma significação mágica para obter, daquele a quem se entregara, um suplemento de vida? Será o comunismo um enfeitiçamento coletivo?”

Antes de ter chegado à conclusão extrema de um pacto com Satã, como Richard Wurmbrandt, já publicamos em artigo de Itineraires, março de 1977, algumas reflexões que mostram o caráter violentamente negativo e destrutivo do anarquismo. Eis o texto:

Já observamos que, para a maioria das pessoas, os socialistas e anarquistas são vistos como homens apaixonados pela realização e atingimento de um ideal. Eles mesmos, para uso externo (e talvez para internamente se enganarem a si mesmos antes de enganarem os outros), nos prometem um Novo Mundo, chegando até a nos proporem a mutação que nos trará o Homem Novo.

Ora, o Estudo mais atento, não somente da história, mas também das obras-primas de ficção que a história imita, nos revela a verdadeira figura desse fenômeno monstruoso. Percebe-se então que essas violentas correntes históricas, na verdade, não são movidas pela força de um ideal ardentemente desejado, mas pela força propulsora de uma rejeição em jato. Sim, pela força peristáltica de uma recusa. Acima de qualquer objetivo mais ou menos próximo, o anarquista põe sempre o desejo absoluto de um repúdio.

Para os descendentes de Bakunine e para os possessos de Dostoievski, a revolução é antes de tudo uma recusa absoluta e uma rejeição total. De que? Antes de mais nada recusa daquilo-que-aí-está, recusa da obra herdada, recusa da tradição, de todas as identidades impostas pelo real, recusa do ser, recusa de Deus. Donde tiram o soberano desprezo que eles manifestam pelos mornos, impuros ou utópicos sonhadores de conquista do poder para domínio dos acontecimentos e para a subsequente perfeição da obra herdada e continuada, como aquele pobre Jaurès que, em 1914, derramou o mais estéril dos sangues. Não resisto a tentação de colorir esse texto com a transcrição de uma página de Roger Martin du Gard, em Les Thibault, onde um de seus personagens revolucionários nos faz esta profissão de fé:

“—O domínio dos acontecimentos? Rosnou Mithoergh com gestos desordenados, dumkopf! A instauração de um novo regime só se pode imaginar sob a pressão de uma catástrofe num momento de Krampf espasmódico coletivo em que todas as paixões se tornam furiosas… Apenas marcado por um sotaque germânico, seu francês era correto, martelado, áspero. – Nada de novo pode ser feito sem esse élan que é dado pelo ódio. E para construir é preciso primeiro que um ciclone, um Wirbelsturm, tenha tudo destruído, tudo nivelado, até os últimos escombros! Mithoergh pronunciara essas palavras de cabeça baixa, numa espécie de desinteresse que ainda as tornava mais terríveis. Erguendo a cabeça arrematou: — Tabula rasa, tabula rasa”.

(O Globo, 6/5/78)

quarta-feira, 11 de maio de 2022

O SINAL DA BESTA

 

CITAÇÕES SOBRE O ANTICRISTO | DOMINUS EST

O que se segue é a transcrição de um sermão proferido pelo Revmo. Pe. Gabriel Billecocq, FSSPX, na St. Nicolas-du-Chardonnet, a principal igreja da nossa Fraternidade em Paris. É um texto muito equilibrado, uma advertência salutar para evitar os excessos na qual podemos nos inclinar nestes tempos difíceis e um lembrete ainda mais salutar de que devemos permanecer sempre focados na “única coisa necessária”: Deus e Sua vontade.

Fonte: SSPX Great Britain – Tradução: Dominus Est

É uma visão verdadeiramente apocalíptica que a Igreja nos dá hoje no Evangelho, com Nosso Senhor descrevendo o que aparentemente é o final dos tempos – tempos difíceis, dolorosos, cujos dias serão abreviados pelo bem dos eleitos, como nosso próprio Senhor nos diz.

Percebam que todos nós temos uma pequena de curiosidade em saber como essas coisas vão acontecer, como será o final dos tempos, e talvez alguns dos senhores tenham sido curiosos o suficiente para pegar e ler o livro do Apocalipse e tentar adivinhar muito concretamente, muito materialmente, como essas coisas vão acontecer. Os senhores terão lido sobre as famosas bestas e a “marca da Besta”, o sinal da Besta.

Meus queridos fiéis, nossa curiosidade sobre essas coisas tende a ser mórbida. A curiosidade mórbida existe: uma curiosidade que nos atrai mais para o pecado do que para o belo e o bom. Podemos vê-la por nós mesmos – há exemplos ao nosso redor. É triste ver quantos jovens são atraídos por imagens ruins, ao invés de ler o Evangelho ou se interessar pelo que nosso Senhor fez durante Sua vida. E temos que admitir que podemos ser afetados por essa curiosidade mórbida quando pensamos no final dos tempos, imaginando como será o Anticristo, como nascerá, quem será, como seremos capazes de reconhecê-lo, qual será a marca do Anticristo… E sabemos que as pessoas agora estão fazendo todo tipo de especulação sobre essas coisas. Ao mesmo tempo que o Apocalipse diz no que cada um dos eleitos será marcado com o selo de Deus – e eu nunca tive um único fiel que se aproximasse de mim e me perguntasse o que é o selo de Deus. Todos perguntam: “O que é o selo do demônio? Qual é a marca da Besta?” Ninguém pergunta: “O que é o selo de Deus?” Meus queridos irmãos, este é apenas um exemplo de como nossa curiosidade se volta mais facilmente para o que é mau e feio do que para o que é bom e belo, e isso é uma coisa triste.

Assim, para dissipar um pouco toda essa curiosidade, hoje vamos falar sobre esse sinal da Besta, como aparece no Apocalipse e como certos Padres da Igreja o entendem. Ouvimos muito falar sobre essas coisas hoje em dia, infelizmente, com tudo o que estamos vivendo em nosso mundo.

É verdade que o Apocalipse inclui aquela famosa afirmação de que aqueles que seguem a Besta terão uma marca na testa e no braço, e que não poderão comprar nada se não tiverem essa marca. Muitas pessoas estão se perguntando se a vacina pode ser a marca da Besta – da mesma forma que essas mesmas pessoas se perguntavam se os cartões de crédito eram a Besta, e depois se os códigos de barras eram, talvez, o sinal da Besta.

Então o Apocalipse acrescenta o nome da Besta, dizendo que é o nome de um homem, e o número do seu nome é 666. As pessoas também especulam sobre essas expressões no Apocalipse.

Em primeiro lugar, a marca da Besta é um selo na mão e na testa, e Santo Agostinho explica realmente o que isso significa. Santo Agostinho não descreve este selo como uma marca visível aos olhos, como uma tatuagem que uma pessoa faz ou como um chip inserido em nosso corpo. Ele diz que a marca na mão e o caracter na testa significam duas formas de pertencer ao demônio.

A primeira forma de pertencimento é a marca na testa, que significa o pertencimento por confissão aberta. A primeira maneira pela qual pertencemos à Besta – a marca em nossa testa – é proclamando abertamente que a Besta é toda-poderosa e ao mesmo tempo negando que Deus é todo-poderoso. Outro Padre da Igreja dá a mesma interpretação, que uma das marcas de pertença à Besta é a negação: a negação de Deus, a negação de Seu poder onipotente, a negação de que Deus criou o mundo, a negação de Sua Encarnação, a negação da Redenção… Em uma palavra, esta marca na testa equivale a apostasia, apostasia no coração. A testa é o que aparece abertamente, e Santo Agostinho explica que o que aparece em nossa testa é o que mostramos exteriormente de nosso pensamento interior, assim como o sinal do cristão é o sinal da cruz, que começamos em nossa testa, com a nossa mão. Assim como o sinal do cristão é o sinal da cruz, pelo qual o cristão mostra exteriormente que pertence a Jesus Cristo – ou seja, quer seguir Jesus Cristo seu Mestre e carregar sua própria cruz – do mesmo modo o primeiro sinal do demônio, aquela marca na testa, significa que um homem nega abertamente a Deus e afirma que o demônio tem poder onipotente.

A segunda marca é a da mão. Mais uma vez Santo Agostinho explica que essa marca não é uma espécie de tatuagem ou chip que alguém impõe na mão de uma pessoa. Ele explica que nas Escrituras as mãos expressam obras. A segunda marca de pertencer à Besta são as más ações, as obras do pecado. Aquele que pertence à Besta é aquele que segue o demônio fazendo o mal, pela realização do mal, pela obra do pecado.

Meus queridos fiéis, tendes aí o significado dessas marcas, os sinais da Besta.

Nossa salvação, antes de mais nada, não é material, tal como nosso combate, antes de mais anda, não é material.

Portanto, nossa pertença a Deus ou ao demônio não é, antes de tudo, algo material. Não é primeiro inscrevendo algo em nosso corpo que pertencemos ao demônio, nem é primeiro inscrevendo algo em nosso corpo que pertencemos a Deus. A primeira marca de nossa pertença a Deus é um caráter, um caráter indelével, impresso em nossa alma pelo batismo. Essa é a primeira marca da pertença do cristão a Deus. E é esse caráter que lhe dá acesso a todos os outros sacramentos. A marca de pertença à Besta é também um caráter da alma, não indelével, graças a Deus, mas o caráter de uma vontade que se volta para o mal e comete pecado.

Nosso combate é espiritual e, portanto, nossa pertença a Deus é espiritual. E a pertença ao demônio também é espiritual. a pertença a Deus acontece pela graça, e esse é o sinal pelo qual reconhecemos os eleitos de Deus. Os eleitos são aqueles que são marcados com o selo da graça, ou seja, o selo da caridade. Pertencer ao demônio significa pecado. Esse homem pertence ao demônio que não tem o amor de Deus nele, mas apenas o amor das coisas terrenas, materiais, sensíveis, ou mesmo simplesmente humanas, sem nada além.

Quanto a este número 666 de que fala o Apocalipse, esse livro também diz que este número da Besta é “o número de um homem”. Santo Irineu dá talvez a melhor explicação para este número. Muitas pessoas tentaram encontrar esse número literalmente ou encontrar o nome que ele contém, como os rabinos costumavam fazer, já que os números nas Escrituras sempre têm algum simbolismo. Existe até uma ciência chamada numerologia, que dá a interpretação dos números. Santo Irineu diz mais do que apenas isso.

Os Padres da Igreja concordam que este nome será desconhecido para nós até que o Anticristo apareça de fato. Esta profecia do Apocalipse é como qualquer outra profecia: só se torna clara no seu cumprimento. Mas Santo Irineu ainda pode explicar que o número 666 está cheio de simbolismo, tal como o número de 144 mil eleitos que são contados no Apocalipse (12 mil de cada tribo), como ouvimos na Festa de Todos os Santos. Os números nas Escrituras são realmente simbólicos. O 7 representa a perfeição, o 8 representa a plenitude e o 6 representa uma imperfeição. Não apenas uma imperfeição qualquer, mas os Padres dizem que parar em 6 significa impedir que o número se abra para Deus. Assim, o número 6 indica não alguma imperfeição natural inerente à criatura, mas um retorno do homem sobre si mesmo. E Santo Irineu continua explicando que o triplo seis (666) representa uma tripla volta do homem sobre si mesmo: não apenas um pecado do corpo, mas um pecado da alma, ou seja, do intelecto e da vontade, e também um terceiro pecado que ele chama de pecado do espírito.

Esse pecado do corpo, como sabemos, significa todos aqueles pecados que são muito difundidos hoje: pecados contra a natureza, aqueles pecados que clamam vingança ao Céu. O pecado da alma, isto é, do intelecto e da vontade, corresponde ao pecado de obstruir ou distorcer o intelecto para que ele seja incapaz de alcançar a verdade. Meus queridos irmãos, precisamos agradecer àqueles que se dedicam aos nossos filhos e dar-lhes uma educação genuína na verdade que os leva a Jesus Cristo. Mas esse pecado da alma, de fazer tudo para impedir que a criança chegue à verdade, também afeta a vontade. É outro lado desses programas de educação modernos, de impedir que a criança conheça o bem, o verdadeiro bem e como praticar o bem. O último dos três 6 significa o pecado do espírito, o pecado de nos fecharmos a Deus; é o pecado pelo qual o homem recusa a Deus. Este pecado corresponde à abominação da desolação no templo sagrado, talvez como o vemos hoje com esta nova Missa em que a adoração é totalmente orientada para o homem.

Meus queridos fiéis, vejam como os Padres da Igreja explicam essas misteriosas palavras do Apocalipse, que ainda permanecem misteriosas. Temos que nos impedir de correr atrás de interpretações, cada uma mais louca que a outra. Não importa quais dificuldades estamos passando hoje, não importa quais mentiras e erros estão nos sendo servidos – e muitas mentiras e erros estão nos sendo servidos! – por mais perigosos que sejam certos produtos que as pessoas querem injetar em nós, não esqueçamos que a marca da Besta é algo espiritual: significa pecado. Pertencemos ao demônio pelo pecado; pertencemos a Deus pela graça e pela caridade.

Nosso Senhor é muito claro neste ponto, e Ele nos diz: “Não temais aqueles que podem matar o corpo” – e hoje temos uma aplicação direta – “Não temais aqueles que podem matar o corpo; antes temais Aquele que tem o poder de lançar no fogo do inferno”. E novamente, Nosso Senhor disse a Seus Apóstolos pouco antes de deixá-los: “Coragem; Eu venci o mundo.” Não temos nada a temer das coisas materiais deste mundo. Devemos temer o pecado. Não devemos temer a morte do corpo; devemos temer a morte eterna.

É verdade, meus queridos fiéis, que o futuro nos é desconhecido e pode parecer muito sombrio, de fato. No entanto, há coisas que sabemos com absoluta certeza: Deus é nosso Pai; Deus não se esquece de Seus filhos; Deus protege Seus filhos; Deus alimenta Seus filhos. 

Sejam quais forem as provações que teremos de enfrentar, estejamos perfeitamente confiantes: podemos não saber nada sobre os sofrimentos que virão, mas sabemos com absoluta certeza que a graça nunca nos falhará. Essa é a nossa esperança e nossa alegria neste mundo de tristeza.

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Dois outros excelentes textos sobre o tema:

“NOSSA ÚNICA PREOCUPAÇÃO”- PE. GABRIEL BILLECOCQ, FSSPX

ELES TREMIAM DE MEDO ONDE NÃO HAVIA NADA A TEMER – PE. FRÉDÉRIC WEIL, FSSPX


terça-feira, 10 de maio de 2022

A perda da Salvação é um mal sem remédio

 "Quem não treme pelo temor de se perder, não se salvará"

Qui poenas dabunt in interitu aeternas a facie Domini – “Os quais, longe da presença de Deus, sofrerão por castigo eterno a perdição” (2 Ts 1, 9)

Sumário. Para todos os males há remédio; só para o condenado não. Morre-se uma vez, e, perdida a alma uma vez, está perdida para sempre e só lhe resta lamentar eternamente a sua perdição eterna, causada pela sua própria culpa. Avivemos, pois, a nossa fé, e lembrando-nos que nos caberá por sorte o céu ou o inferno, tomemos as providências apropriadas para nos assegurarmos a salvação eterna. Sejamos especialmente devotos à Santíssima Virgem e examinemos frequentes vezes, se por ventura nos temos relaxado nesta devoção.

I. O negócio da salvação eterna é não somente o nosso negócio mais importante, o nosso negócio único; é, além disso, o nosso negócio irreparável. “Não há falta que se possa comparar à do descuido da salvação eterna”, diz Santo Euquério. Para todos os outros males há remédio. Perdidos os bens, podem-se adquirir outros; perdido o emprego, pode-se obtê-lo de novo; ainda no caso de se perder a vida, contanto que se salva a alma, está tudo reparado. Só o condenado não tem remédio. — Morre-se uma vez; e perdida a alma uma vez, está perdida para sempre: Periisse semel, aeternum est. Só lhe resta gemer eternamente no inferno com os outros infelizes insensatos. Ali o pesar maior que os atormenta é o pensar que para eles acabou o tempo de remediar seus males: Finita est aestas, et nos salvati non sumus (1) — “O estio findou-se e nós não fomos salvos”.

Perguntai a esses sábios do mundo, que já estão mergulhados no abismo de fogo, perguntai-lhes que pensam hoje e se estão contentes por terem feito fortuna na terra, agora que estão condenados a uma prisão eterna. Ouvi o que respondem, gemendo: Ergo erravimus a via veritatis (2) — “Assim, nos desencaminhamos da estrada da verdade”. — Mas para que lhe serve reconhecerem o seu erro, já que não há mais remédio para a sua eterna condenação?

Qual não seria o pesar de um homem que, tendo podido com pequena despesa acudir ao desabamento de sua casa, a encontrasse um dia em ruínas e pensasse em sua negligência, quando não havia mais remédio? Muito maior é a pena que os réprobos sentem, pensando que perderam a alma e se condenaram por sua própria culpa: Perditio tua, Israel; tantummodo in me auxilium tum (3) — “A tua perdição, ó Israel, toda vem de ti; só em mim está o teu auxílio”. Ó céus! Qual não será o desespero de um cristão, no momento em que cair no inferno, quando, vendo-se encerrado nesse lugar de tormentos, refletir na sua desgraça e reconhecer que por toda a eternidade não haverá meio de a reparar! Assim, dirá ele, perdi a alma, o paraíso e Deus; perdi tudo para sempre; e como? Por minha própria culpa!

II. Cum metu et tremore vestram salutem operamini (4) — “Com temor e tremor empenhai-vos na obra da vossa salvação”. Meu irmão, avivemos a nossa fé, que tanto o inferno como o céu são eternos; lembremo-nos que um ou outro nos caberá por sorte. Este grande pensamento nos encherá de medo e nos fará evitar as ocasiões de ofendermos a Deus e empregar os meios necessários para alcançarmos a salvação. Quem não treme pelo temor de se perder, não se salvará. — Façamos sobretudo por adquirir uma devoção verdadeira para com a Santíssima Virgem e examinemos frequentes vezes se porventura nos tenhamos relaxado neste ponto. Oh, quantos cristãos estão ardendo no inferno por terem deixado de honrar à grande Mãe de Deus!

Ah Senhor, como é possível que, sabendo que pelo pecado me condenava a uma eternidade de penas, Vos tenha ofendido tantas vezes e perdido a vossa graça? Sabendo que sois meu Redentor, morto na cruz para minha salvação, como pude voltar-Vos tantas vezes as costas por um desprezível prazer? Meu Senhor, pesa-me sobre todos os males de Vos ter assim ofendido e quisera morrer de dor. Agora amo-Vos sobre todas as coisas, de hoje em diante sereis o meu único bem, o meu único amor, e antes quero perder tudo, antes quero perder mil vezes a vida, do que perder a vossa amizade.

Rogo-Vos, meu Jesus, não me repilais de vossa presença, como bem merecia; tende piedade de um pecador que volta arrependido aos vossos pés e Vos quer amar muito, porque muito Vos ofendeu. Que seria de mim, se me tivésseis deixado morrer quando estava na vossa inimizade? Ó Senhor, já que tivestes tamanha piedade de mim, dai-me força para Vos ser sempre fiel e me santificar. Espero-o pelos vossos merecimentos. Espero-o também pela vossa intercessão, ó grande Mãe de Deus e minha Mãe, Maria.

Referências:

(1) Jr 8, 20
(2) Sb 5, 6
(3) Os 13, 9
(4) Fl 2, 12

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 178-181)

quarta-feira, 4 de maio de 2022

NOVENA DAS CRIANÇAS PELAS VOCAÇÕES – DE 5 A 13 DE MAIO

 

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

Milhões de almas estão quase prontas para receber a graça e a verdade, mas faltam-lhes os instrumentos divinos para as transmitir: os sacerdotes. Este é o plano de Deus. É, portanto, inevitável. Eis porque Nosso Senhor nos suplica no Evangelho: “Rogai pois ao Senhor da messe, que mande operários para a sua messe!””

As crianças, através da suas orações, têm uma importância particular a este respeito. Suas almas, ainda não sobrecarregadas pelos desejos do mundo, podem refletir sobre a vocação sacerdotal, o destino mais belo do mundo e podem pedir ao Bom Deus que nos conceda muitos.

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ORAÇÃO

“Ó Virgem Santíssima, quão feliz seria se todas as ações da minha vida fossem dedicadas a Deus, como foram as vossas. Mas não sendo assim, resta-me apenas um desejo, ó Virgem Santa, que é rogar-vos para que me obtenhais este favor, que desde agora siga a benevolência de Deus, e que desapegue os meus afetos de tudo o que não seja d’Ele, a fim de amá-Lo com todas as minhas forças e com todo o meu coração para sempre.”

São Francisco de Sales

Senhor, dai-nos muitos santos sacerdotes.