segunda-feira, 4 de julho de 2022

Acorde... observe! ...Jesus está vindo!

 



Muitas vezes na Sagrada Escritura ressoa este "despertar" de Deus: "Despertai, vigiai" e outros semelhantes: "Não durmais", "Não fecheis os vossos corações". A Igreja dirige-nos com frequência estes convites e sobretudo no Advento e na Quaresma, os tempos fortes da liturgia: "É tempo de acordar do sono" (Rm 13,11).

Por quê? Porque todos nós somos levados, por instinto, a adormecer, a nos acostumar, a cair no fundo do poço. Para reduzir a tensão espiritual e moral. Também o ambiente que nos cerca - hoje secularizado, mundano, pagão, homólogo - nos arrasta para baixo. Nós, especialmente hoje quando tudo conspira contra Deus e seu Cristo, devemos redescobrir em nossa fé católica, em Jesus que habita em nossos corações, a coragem/heroísmo de caminhar contra a maré, contra o vento nas pegadas dos santos, dos jovens santos que também não faltam no mundo de hoje, desenfreados na carne e loucos no espírito.

Jesus está vindo!

Para estar desperto e vigilante, é bom lembrar que "o cristianismo, antes de tudo, não é uma ideia ou um conjunto de ideias, mas um advento, um fato histórico": Deus, porque ama o mundo, veio para salvar num momento dado da História, através de Jesus Cristo há 2021 anos, no dia 25 de "kasleu" dos 750 da fundação de Roma, correspondente ao nosso 25 de dezembro.

Sua obra de salvação continua hoje, o advento de Cristo é atual e funciona hoje e funcionará até o fim dos tempos e atinge cada um de nós hoje. Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e nos séculos. Jesus é o sol que ilumina e aquece cada homem, em todos os lugares e em todos os momentos.

Mas é preciso que nos abramos a Ele. Não basta que Ele trabalhe, é essencial aderir a Ele: caso contrário, estaremos perdidos nesta vida e na futura. O inferno existe e, de fato, não está vazio. Assim, pede-nos com urgência que não sejamos sonolentos, distraídos, ausentes e fechados diante de seu trabalho, mas que entremos nele, nos insiramos nesse fato, colaboremos com Jesus Cristo, ajudemos os outros a conhecê-lo e nos abramos ele. .

Tudo isso se chama Vigilância no Evangelho, ou seja, estado de vigília, conhecimento, atenção, porque sob nossos olhos, hoje - o hoje da vida -, a obra de Deus está acontecendo, numa relação misteriosa, mas certa, que em Cristo salve o mundo. Portanto, é necessário conhecer este plano divino, não estar ausente, não nos expulsar; caso contrário, erramos na vida, erramos: cometemos o erro mais colossal. Sem Cristo existem apenas vidas erradas, com o inferno já aqui e ali.

Prepare as lanternas

Essas palavras também - sabemos - provêm da parábola evangélica das dez virgens, enviadas para participar da festa de casamento para emprestar sua obra de luz e iluminação à ceia das bodas (Mt., 25).

O sentido da parábola (que também comoveu Ernest Renan, renegado e ímpio!) não nos escapa: esses casamentos são os casamentos de Cristo com a humanidade que o acolhe, casamentos que se realizam para a Redenção: o cristianismo como união matrimonial de Cristo com cada pessoa humana que lhe diz sim.

Esta união produz a celebração, isto é, a alegria, a alegria da verdade, a alegria da vida divina, merecida por Cristo na cruz com o seu sacrifício, partilhada connosco aqui na terra pelo baptismo e aumentada pela Santíssima Eucaristia, a alegria da participando da ação de Deus no tempo, o todo como uma alegre antecipação da felicidade eterna, uma antecipação da inevitável luta e sofrimento da vida.

Essas lâmpadas, que as dez meninas tiveram que preparar com eficiência para iluminar a sala de recepção e a festa de casamento, nos indicam tudo o que devemos preparar e possuir para tornar eficiente nossa vida cristã, que se expande em nossa ação de anunciar o Evangelho.

A primeira coisa que a lâmpada precisa é de óleo, uma fonte de luz: se faltar óleo, as lâmpadas se apagam. Este óleo significa acima de tudo a fé, isto é, a nossa adesão a Cristo, que, se válida, muda a vida e a torna luminosa. A fé deve ser alimentada continuamente, caso contrário ela diminui e se extingue. Santo Agostinho, com sua habitual sagacidade e eficiência expressiva, chamou tudo isso de cogitare fidem (fé pensante) e disse: " Fides non cogitata nulla est " (uma fé não pensada é nula). Como fazer para cogitare fidem ?

A resposta é bastante ampla, aqui bastam algumas características, expressas nos verbos “conhecer” cada vez mais o mundo da fé; “aprofundá-la”, “revisitar” seus fundamentos; “refundar” a fé; “estende-lo” a todos os setores de nossas vidas; Acima de tudo, “pedir” a Deus, pedir ajuda divina para nos abrirmos sempre mais ao mundo de Deus (relação pessoal com Deus: abre-se o mundo da oração pessoal com Deus, abre-se o mundo da oração cristã) e à ação da salvação que Ele opera no mundo em Cristo.

Eis a nossa abertura à irrupção de Jesus Cristo vivo e operante, nos sacramentos: confissão, Santa Missa e comunhão com a qual Deus vem atuar em nossas almas, em nossas vidas e nos reconfigura à imagem e semelhança de Jesus, seu Filho . Ele é o homem redimido, divinizado, "Cristoforme", "Cristificado".

“Dê-nos um pouco do seu óleo”

As lâmpadas, para iluminar, além do óleo, devem possuir todos os poderes capazes de transformar o óleo em luz. Falamos em linguagem metafórica. Neles vemos todas as realidades que se chamam competências profissionais, adquiridas na preparação exigida dos leigos católicos, que trabalham no mundo para iluminá-lo, transformá-lo, consagrá-lo (sim, consagrá-lo) a Jesus Cristo, retornando isso para Ele.

Estamos, embora sempre enraizados na santa Tradição católica (as raízes que nos dão solidez nunca devem ser cortadas), abertos ao "novo", tendo em conta que em todos os campos "o novo (moderno) não é símbolo de verdadeiro nem válido”.

No mundo de hoje - ao longo da história - como na parábola evangélica, também ouvimos o grito angustiado de uma parte que se encontra excluída da festa das bodas. "Nossas lâmpadas se apagam." É o grito de hoje, cheio de súplicas, implícitas ou explícitas, para que tantas vidas, especialmente os jovens, voltem ao mundo dos adultos, à família, à sociedade, à Igreja, aos homens individuais da Igreja, ao apóstolos de hoje.

É o grito desesperado cheio de angústia dos doentes, dos drogados, dos alcoólatras, dos desesperados, dos tentados ao suicídio, dos homens que buscam o sentido da vida, da dor e da morte... caminho da vida sem um suprimento de petróleo... e eles gritam para nós: "Dê-nos um pouco do seu óleo!" Dá-nos Cristo e o seu Evangelho! Onde você colocou Cristo? Não são vocês que deveriam anunciá-lo?

Feito um "pequeno rebanho", se soubermos responder, será novamente um novo Advento do Cristo. "O século 21 será de Cristo ou não será."


domingo, 3 de julho de 2022

Você me ama porque eu a conduzo a Deus

 


⚜ Certo dia, uma mulher disse ao Padre Pio:⚜

 "Sinto vergonha em dizer, mas creio que amo o senhor mais do que a Deus". 

"Muito bem", disse Padre Pio, "Então você vai fazer o que lhe direi. Quero que vá até a vila mais próxima e roube por mim." 

Chocada, respondeu a mulher: "O que está dizendo, Padre Pio? O senhor sabe que não posso fazer isso!"

Com veemência, continuou Padre Pio: "Sei o que estou dizendo; vá até a vila e roube por mim." 

Respondeu a mulher: "Não, não, Padre! Não quero roubar. É errado roubar."

Após repetir a ordem pela terceira vez e a mulher continuar a insistir que roubar é errado, Padre Pio sorriu e disse: "Não vê? Quando eu mandei você fazer algo contrário à lei de Deus, você recusou a me obedecer; portanto, ama a Deus mais do que a mim." E completou: "Você me ama porque eu a conduzo a Deus. Se eu não a conduzisse a Deus, você não me amaria mais."


São Pio de Pietrelcina, rogai por nós!!

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Quão útil é meditar na Paixão de Jesus Cristo

 

Paixão de Cristo (por PauloDuqueFrade)

Paixão de Cristo (por PauloDuqueFrade)

Recogitate eum qui talem sustinuit a peccatoribus adversus semetipsum contradictionem, ut ne fatigemini, animis vestris deficientes – “Não deixeis de pensar naquele que dos pecadores suportou contra si uma tal contradição; para que não vos fatigueis, desfalecendo em vossos ânimos” (Hb 12, 3)

Sumário. Não há meio mais eficaz para alcançar a salvação eterna do que a lembrança quotidiana dos sofrimentos de Jesus Cristo: tem mais valor uma lágrima derramada pela recordação da Paixão do Senhor, do que um ano de jejum a pão e água. Foi nesta meditação que os santos acharam coragem e força para suportar as tribulações, os tormentos e a morte. Se queremos progredir na virtude, lancemos cada dia ao menos um olhar sobre a Paixão do Redentor, contemplando especialmente a pobreza, os desprezos e as dores.

I. Diz Santo Agostinho: “Não há coisa mais apropriada para nos fazer adquirir a salvação eterna do que a lembrança quotidiana dos sofrimentos de Jesus Cristo.” Ao que São Boaventura acrescenta: “Quem quiser crescer sempre em virtude e em graça, deve meditar todos os dias na Paixão de Jesus, porque não há exercício mais útil para santificar uma alma do que a consideração frequente das penas do Salvador.

Com efeito, onde é que os santos acharam a coragem e a força para sofrer as tribulações, os tormentos, os martírios e a morte, senão nos sofrimentos de Jesus Cristo? São José de Leonissa, vendo que o queriam ligar com cordas para uma operação dolorosa que o cirurgião lhe queria fazer, tomou em suas mãos o crucifixo e disse: “Que cordas, cordas? Eis aqui as minhas cordas; meu Senhor pregado na cruz por meu amor. É Ele quem, pelas suas dores, me liga e me constrange a suportar todas as dores por seu amor. E assim sofreu a operação sem se queixar, contemplando a Jesus, que não abriu a boca qual cordeiro que cala debaixo da mão que o tosquia” (1).

Quem poderá ainda dizer que sofre injustamente quando olha para Jesus ferido pelas nossas iniquidades e dilacerado pelos nossos pecados? (2) Quem poderá ainda escusar-se de obedecer por causa de qualquer incômodo, havendo-se Jesus feito obediente até à morte e até à morte de crus? (3) Quem ousará subtrair-se às ignomínias, vendo Jesus tratado como louco, como um rei de teatro, como um malfeitor; esbofeteado, coberto de escarros e preso a um patíbulo infame? Finalmente, quem poderá amar senão a Jesus, vendo-O morrer no meio de tão grandes dores e desprezos, afim de cativar o nosso amor? Conclui Santo Agostinho que vale mais uma só lágrima vertida na consideração da Paixão de Jesus, que uma peregrinação a Jerusalém e um ano de jejum a pão e água.

II. Com razão o Ven. Padre Baltazar Alvares afirmava que a ignorância dos tesouros que temos em Jesus é a causa da ruína dos cristãos. Pelo que o assunto predileto e mais frequente de suas meditações era a Paixão de Jesus Cristo, considerando em Jesus especialmente três sofrimentos: a pobreza, o desprezo e a dor. Exortava seus penitentes a que fizessem o mesmo, dizendo que não pensassem haver feito progresso algum enquanto não chegassem a trazer Jesus crucificado sempre gravado no coração.

Eis aqui, meu irmão, o que tu também deves fazer se desejas ser santo, como aliás tens obrigação de ser. Lança todos os dias um olhar sobre a Paixão do Redentor, meditando de preferência no que dizem os santos Evangelhos. – São muito edificantes e bonitas as meditações sobre a paixão, escritas por devotos autores; mas um cristão levará impressão mais profunda de uma só palavra das sagradas Escrituras do que mil contemplações e revelações atribuídas a certas pessoas devotas; porquanto as Escrituras são a própria palavra de Deus e nos dão a garantia de que tudo que referem tem a certeza da fé divina.

E como quem é devoto do filho não pode deixar de ser devoto igualmente da mãe; não nos esqueçamos, em nossas meditações sobre a Paixão de Jesus Cristo, de contemplar também as dores de Maria Santíssima. Pede a esta boa Mãe que te dê uma parte da compaixão que tanto a afligiu na morte de Jesus e constituiu todo o martírio de seu amantíssimo Coração.

Referências:

(1) Is 53, 7
(2) Is 53, 5
(3) Fl 53, 5


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 191-193)

quarta-feira, 29 de junho de 2022

A santa comunhão nos faz perseverar na graça divina

 





Qui manducat meam carnem, et bibit meum sanguinem, habet vitam aeternam – “Quem come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna” (Jo 6, 55)

Sumário. Como o pão terrestre sustenta a vida do corpo, assim o pão celeste da santíssima Eucaristia sustenta a vida da alma, fazendo-a perseverar na graça de Deus. Mais, é este o efeito principal do Santíssimo Sacramento: alimentar a caridade e comunicar à alma grande vigor para progredir na perfeição e resistir a todos os inimigos. Se, pois, desejas a graça preciosa da perseverança, resolve comungar frequentes vezes com as devidas disposições e nunca deixar de fazê-lo por qualquer negócio terrestre. Que negócio pode haver mais importante do que o da salvação eterna?

I. Quando Jesus visita uma alma pela santa comunhão, lhe traz todos os bens, todas as graças e especialmente a graça da santa perseverança. O efeito principal do Santíssimo Sacramento do altar é: alimentar com este sustento da vida a alma que O recebe, comunicando-lhe grande vigor para progredir na perfeição e resistir aos inimigos que desejam a nossa morte eterna. Por isso é que Jesus escondido no Sacramento se chama pão celeste: Ego sum panis vivus qui de coelo descendi (1) – “Eu sou o pão vivo, que desci do céu”.

Como o pão terrestre sustenta a vida do corpo, assim este pão celeste sustenta a vida da alma, fazendo-a perseverar na graça de Deus. Com esta vantagem, porém: o pão material sustenta e prolonga a vida do corpo até certo ponto e detém a morte só por breve tempo; por muito que alguém se alimente, afinal há de morrer. Ao contrário, Jesus disse que, se a alma se alimentar devidamente com o pão eucarístico, vivera eternamente e nunca mais estará sujeita à morte espiritual, que consiste na perda da graça: Este é o pão que desce do céu, para que o que dele comer, não morra (2).

Numa palavra, a comunhão, como nos ensina o santo Concílio de Trento (3), é a medicina que nos livra dos pecados veniais e nos preserva dos mortais.

E Inocêncio III acrescenta que, pela sua Paixão, Jesus Cristo nos livra dos pecados cometidos e pela Eucaristia dos que podemos cometer. – Pelo que diz São Boaventura que os pecadores não se devem afastar da comunhão pela razão que forem pecadores; muito antes, por terem sido pecadores devem tomá-la com mais frequência; pois, quanto mais alguém se sente doente, tanto mais precisa de médico: Magis eget medico, quanto quis senserit se aegrotum.

II. Se desejas obter a graça preciosa da perseverança e assegurar a tua salvação eterna, resolve-te a comungar as mais vezes que te for possível, conforme o conselho de teu diretor e a nunca deixar por causa de algum negócio terrestre. Lembra-te que não há negócio mais importante que o da salvação eterna. Se não pertences a uma ordem religiosa e vives no mundo, terás ainda mais precisão de te aproximar de Jesus Cristo, porque estás exposto a tentações mais graves e corres mais risco de cair.

Não basta, porém, só o comungar: se queres tirar proveito da comunhão, mister é que a recebas com as devidas disposições. São Luiz Gonzaga empregava três dias em preparar-se para comungar e outros três dias para dar ações de graças ao Senhor; por isso é que se tornou santo.

Infeliz de mim, ó Senhor! Porque me queixo da minha fraqueza ao ver as minhas quedas tão frequentes? Como podia eu resistir aos assaltos do inferno, afastando-me de Vós, que sois a nossa fortaleza? Se me tivesse chegado mais à santa comunhão, não teria sucumbido tantas vezes diante de meus inimigos. Para o futuro não há de ser mais assim. In te, Domine, speravi, non confundar in aeternum (4) – “Em ti, Senhor, esperei, não serei jamais confundido”. Não quero mais fiar-me em meus propósitos; a minha esperança sois Vós, meu Jesus; Vós me deveis dar a força para não recair no pecado. Eu sou fraco, mas pela santa comunhão me tornareis forte contra os meus inimigos.

Meu Jesus, perdoai-me todas as injúrias que Vos fiz e que agora detesto de toda a minha alma. Antes quero morrer do que tornar a ofender-Vos e pela vossa Paixão espero que me ajudarei a perseverar na vossa graça até à morte: Em ti, Senhor, esperei, não serei jamais confundido. – É o que com São Boaventura vos digo também, ó minha Mãe Maria: Senhora, em vós ponho todas as minhas esperanças e não serei jamais confundido.

Referências:

(1) Jo 6, 51
(2) Jo 6, 50
(3) Sess. 13, c. 2.
(4) Sl 70, 1

Voltar para o Índice dda Novena de Pentecostes

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 188-191)

domingo, 26 de junho de 2022

A ovelha perdida e o Pastor divino

 Jesus Divino Pastor

3º Domingo depois de Pentecostes

Congratulamini mibi, quia inveni ovem meam, quae perierat – “Congratulai-vos comigo, porque achei a ovelha que se tinha perdido” (Lc 15, 6)

Sumário. No Evangelho de hoje, Jesus Cristo representa-nos a sua misericórdia para com os pecadores. Com efeito, nós éramos como que ovelhas desgarradas: cada um ia errando por seu caminho. O divino Pastor, porém, solicito por nós, desceu do céu à terra, para nos reconduzir ao aprisco. Oh! que festa houve então no paraíso! Mas a festa se torna em luto, cada vez que pecamos ou caímos novamente do fervor na tibieza. Como, pois, teremos a triste coragem de fazê-lo?

I. Refere-se no Evangelho de hoje que os Fariseus e os Escribas murmuravam de Jesus Cristo, porque se chegava aos publicanos e pecadores. Então o Senhor lhes propôs esta parábola: Qual de vós possuindo cem ovelhas e tendo perdido uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai em busca da que se perdeu até a encontrar? Achando-a põe-na aos ombros muito alegre e chegando à casa, convoca os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque achei a minha ovelha que se tinha perdido: Inveni ovem meam quae perierat.

Sob uma figura tão bela quis Jesus Cristo representar a sua própria pessoa e a sua misericórdia para com os pecadores. Todos nós éramos como que ovelhas desgarradas, cada um ia errando pelo seu caminho (1). Então Jesus, solicito por nossa salvação, desceu do céu à terra para nos reconduzir a seu aprisco e pôr-nos de novo no caminho que conduz à felicidade eterna. Pelo que São Pedro escreve: Eratis sicut oves errantes (2). – Vós éreis como ovelhas desgarradas; mas agora estais reconduzidos ao Pastor e Bispo de vossas almas.

Ah, meu divino Pastor Jesus! Eu também fui uma daquelas ovelhas perdidas, mas Vós me viestes buscar até me achar, como tenho a confiança. Vós me achastes e eu Vos achei. – Mas, ó Senhor, porque é que convidais vossos amigos, quer dizer, os anjos e os santos, a alegrarem-se convosco? Parece que antes lhes devíeis dizer que se alegrem com a ovelha, por Vos haver achado, seu Deus e seu tudo. É, pois, tão grande o amor que tendes à minha alma, que Vos sentis feliz por a terdes achado! E depois disso, como poderei tornar a Vos deixar, ó meu amado Senhor?

II. Dico vobis, quod ita gaudium erit in coelo. Considera como Jesus conclui a sua parábola: “Assim também vos digo, haverá mais alegria no céu por um só pecador que faz penitência do que por noventa e nove justos que não precisam de penitência”. São Gregório nos explica a razão disso, dizendo: “É mais agradável a Deus uma vida fervorosa depois do pecado, do que a vida inocente mas arrefecida pela segurança”. A alegria, porém, do paraíso converte-se em luto, quando uma ovelha, procurada com tamanha solicitude e reconduzida com tanto amor ao aprisco do divino Pastor, de novo se desvia, pela recaída no pecado mortal, ou no hábito das faltas veniais deliberadas. Diz São Francisco de Sales, que os anjos, se pudessem chorar, chorariam de compaixão ao verem tão grande miséria. E São Bernardo acrescenta: Pecccatum, quantum in se est, Deum perimit – “O pecado, pela sua natureza, causa a morte de Deus”. Como se dissesse: Se Jesus Cristo pudesse morrer, um só pecado mortal bastaria para fazê-lo morrer de pura tristeza.

Ah, meu dulcíssimo Redentor! É assim que eu também Vos tenho tratado cada vez que desprezei a vossa graça. – Oh não! Ter eu antes morrido mil vezes do que ofender-Vos, ó bondade infinita! Mas já que me viestes procurar e me achastes, uni-me a Vós, prendei-me com os felizes laços do vosso santo amor, afim de que Vos ame sempre e não mais me afaste de Vós. Se desejais vingar-Vos das amarguras que Vos causei, vingai-Vos, eu vo-lo peço, não já expulsando-me da vossa presença, mas concedendo-me uma dor tão viva, que me faça chorar por toda a minha vida.

Ó meu Jesus, amo-Vos de todo o coração e sabei que não quero mais viver sem o vosso amor; socorrei-me com o vosso auxílio. – “Ó Deus, protetor dos que em Vós esperam, e sem o qual nada há firme nem santo, multiplicai sobre nós a vossa misericórdia, para que, por Vós dirigidos e guiados, passemos de tal modo pelos bens terrenos, que não percamos os eternos. Fazei-o pelo amor de Jesus Cristo” (3). † Doce Coração de Maria, sede minha salvação.

Referências:

(1) Is 53, 6
(2) 1 Pd 2, 25
(3) Or. Dom.

Voltar para o Índice dda Novena de Pentecostes

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 178-180)

sábado, 25 de junho de 2022

Coração de Maria, imagem fiel do Coração de Jesus

 Imaculado Coração de Maria, imagem fiel do Sagrado Coração de Jesus

Mater eius conservabat omnia verba haec in corde suo – “Sua Mãe conservava todas estas palavras em seu coração” (Lc 2, 51)

Sumário. Todas as qualidades que nos dias anteriores contemplamos no Coração de Jesus acham-se, com as devidas proporções, também no Coração de Maria, sua Mãe. Durante os trinta anos que a Virgem Santíssima conviveu com Jesus, não fez senão estudar continuamente no livro do Coração do Filho. Se, pois, amamos deveras a Maria e queremos ser seus dignos filhos, estudemos igualmente o Coração de Jesus e aprendamos de Nossa Senhora a praticarmos a humildade e o amor para com Deus e para com o próximo.

I. Depois da Encarnação do Verbo, a ocupação habitual de Maria Santíssima foi estudar o grande livro do Coração amabilíssimo de Jesus e nesta escola divina fez progressos tão grandes, que se tornou uma imagem fiel de Jesus. Pelo que todos os dotes que nos dias anteriores contemplamos no Coração do Filho, acham-se também, observadas as devidas proporções, no Coração da Mãe.

Com efeito, que coração há mais amável que o Coração de Maria? Coração todo puro, santo, imaculado, perfeito; Coração, em suma, no qual Deus acha as suas delícias, as suas complacências. – Coração ao mesmo tempo tão amante dos homens, que, se todas as criaturas unissem as suas forças, nem de longe conseguiriam igualar o amor de Maria: Amat nos amore invicibili (1) – “Ela nos ama com amor inexcedível”. Este amor de Maria para com o gênero humano, rivalizando com o do Eterno Pai, levou-a a fazer o sacrifício doloroso, de entregar à morte seu Filho inocente. Leva-a continuamente a compadecer-se com ternura maternal das nossas misérias; a socorrer-nos generosamente em nossas necessidades; a ser-nos reconhecida e recompensar fielmente qualquer obra boa feita por seu amor, qualquer palavra dita para glória sua, cada bom pensamento que lhe agrada.

Como retribuição de todos os benefícios que a divina Mãe nos dispensou e ainda continuamente nos dispensa, não exige senão nosso amor; porquanto seu coração, à semelhança do de Jesus, é um coração desejoso de ser amado. – Vê, portanto, quanta aflição deve sentir vendo-se pago com desprezos. Não sejas tu do número daqueles ingratos que assim afligem a nossa terna Mãe.

II. Imitatores mei estote, sicut et ego Christi (2) – “Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo”; é o que, com mais razão do que São Paulo, nos diz a divina Mãe. Se, pois, amas a Maria, deves, à sua imitação, estudar continuamente no livro do Coração de Jesus Cristo, afim de nele aprender todas as virtudes, especialmente as que te sejam mais necessárias como, por exemplo, o desapego da terra, a humildade, a mansidão, a resignação e sobretudo o amor para com Deus e para com o próximo. – Se não tens a coragem de estudar em tão grande livro, pede-a à divina Mãe.

Ó Coração de Maria, Mãe de Deus e Mãe nossa; Coração amabilíssimo, objeto da complacência da adorável Trindade, de toda a veneração e amor dos anjos e dos homens; Coração mais semelhante ao de Jesus, do qual sois imagem perfeita; Coração cheio de bondade e todo compassivo com as nossas misérias: dignai-vos tirar a frieza de nossos corações e fazei que sejam transformados à semelhança do Coração do divino Salvador. Infundi-lhes o amor a vossas virtudes; abrasai-os no fogo feliz, que está continuamente ardendo em vosso Coração.

Abrangei a santa Igreja, guardai-a e sede-lhe sempre doce asilo e torre inexpugnável contra todos os assaltos dos seus inimigos. Sede-nos o caminho para irmos a Jesus e o canal pelo qual nos venham todas as graças necessárias para nossa salvação. Sede nosso socorro nas aflições, nosso conforto nas tentações, nosso refúgio nas perseguições, nosso auxílio em todos os perigos, especialmente nos últimos combates de nossa vida na hora da morte, quando todo o inferno se desencadear contra nós para roubar nossas almas, naquele momento terrível do qual depende a eternidade. Ó Virgem piedosíssima, deixai-nos experimentar então a doçura do vosso coração maternal e a eficácia do vosso poder para com o Coração de Jesus, abrindo-nos nesta fonte mesma da misericórdia um abrigo seguro, no qual possamos um dia chegar a bendizê-lo no paraíso por todos os séculos dos séculos.

Conhecidos, louvados, benditos, amados, servidos e glorificados, sejam sempre e por toda parte o diviníssimo Coração de Jesus e o puríssimo Coração de Maria.

Referências:

(1) S. Petr. Dam.
(2) 1 Cor 4, 16

Voltar para o Índice dda Novena de Pentecostes

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 175-178)

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Festa do Sagrado Coração de Jesus

 Sacratíssimo Coração de Jesus

Filios enutrivi et exaltavi; ipsi autem spreverunt me – “Criei uns filhos e engrandeci-os; eles, porém, me desprezaram” (Is 1, 2)

Sumário. Os homens prometem facilmente, mas depois faltam muitas vezes à palavra, ou porque enganaram prometendo ou porque não a podem ou não a querem guardar. Não faz assim Jesus Cristo, que, sendo Deus todo poderoso, não pode enganar nem mudar. Quanto melhor é, pois, ter que tratar com este Coração divino do que com os homens! Ponhamos, porém, a mão na consciência: somos nós fiéis a Deus, assim como ele nos é fiel? Quantas vezes temos já prometido amá-Lo e depois o temos traído!

I. Oh! Quanto o belo Coração de Jesus é fiel para com aqueles que Ele chama a seu santo amor! Fiel é aquele que vos chamou: ele também assim fará. A fidelidade de Deus nos dá ânimo para esperar tudo, se bem que nada mereçamos. Depois de expulsarmos a Deus de nosso coração, basta que Lhe abramos a porta para Ele entrar logo segundo a promessa feita: Si quis aperuerit mihi ianuam, intrabo ad illum et coenabo cum illo (1) – “Se alguém me abrir a porta, entrarei em sua casa e ceiarei com ele”. – Se desejamos graças, peçamo-las em nome de Jesus Cristo, visto que Ele nos prometeu que assim as obteremos: Se pedirdes alguma coisa a meu Pai em meu nome, Ele vo-la dará (2). Nas tentações, confiemos nos méritos de Jesus, e Ele não permitirá que os inimigos nos incomodem acima das nossas forças: Fidelis autem Deus est, qui non patietur vos tentari supra id quod potestis (3).

Oh, como é preferível tratar com Deus a tratar com os homens! Quantas vezes estes não prometem e depois faltam à palavra, quer porque enganam na promessa, quer porque depois da promessa mudam de opinião. Non est Deus quasi homo, ut mentiatur; nec ut filius hominis ut mutetur (4). Deus, assim diz o Espírito Santo, não pode ser infiel em suas promessas, porque não pode mentir, sendo a verdade mesma; nem pode mudar de opinião, porque tudo o que quer é justo e reto. Prometeu acolher todo aquele que a Ele se chega; dar auxílio ao que o pede, amar àquele que O ama, e depois não há de fazer? Dixit ergo, et non faciet?

Oxalá fôssemos nós tão fiéis a Deus, assim como Ele o é para conosco! No passado, quantas vezes não Lhe temos prometido sermos todos d’Ele, servi-Lo e amá-Lo; e depois nos tornamos traidores, e renunciando ao seu serviço, fizemo-nos escravos do demônio! Peçamos-Lhe que nos dê força para Lhe sermos fieis no futuro. – Felizes de nós, se formos fiéis a Jesus Cristo nas poucas coisas que Ele nos manda! Ele será fiel recompensando-nos copiosamente, e nos fará ouvir o que prometeu a seus servos fiéis: Euge, serve bone et fidelis! Quia super pauca fuisti fidelis, super multa te constituam; intra in gaudium domini tui (5) – “Eia, servo bom e fiel; já que foste fiel no pouco, te investirei na posse do muito: entra no que é gozo de teu senhor”.

II. Amadíssimo Redentor meu, oxalá que eu Vos tivesse sido fiel, como Vós o fostes comigo. Cada vez que Vos abri a porta do meu coração, nele entrastes para me perdoar e receber a vossa graça; cada vez que Vos invoquei, correstes em meu socorro. Vós fostes sempre fiel e eu Vos fui muitas vezes infiel: prometi servir-Vos e depois tantas vezes Vos virei as costas; prometi amar-Vos e depois mil vezes Vos recusei meu amor, como se Vós, meu Deus, meu Criador e meu Redentor, fosseis menos digno de ser amad, que as criaturas e as miseráveis satisfações pelas quais Vos abandonava. Perdoai-me, ó meu Jesus. Reconheço a minha ingratidão e a detesto. Reconheço que sois a bondade infinita, digna de um amor infinito, especialmente digna de ser amada por mim, a quem tanto tendes amado após tantas ofensas da minha parte.

Desgraçado de mim se me condenasse! As graças que me destes e as provas de amor que me prodigalizastes, seriam o inferno do meu inferno. Não seja assim, ó meu amor; não permitais que Vos abandone de novo, e que, por um justo castigo, seja precipitado no inferno para continuar a pagar com ódio e injúrias vosso amor para comigo. Ó Coração terno e fiel de Jesus, inflamai meu pobre coração, para que se abrase de amor para convosco, como Vós para comigo. Parece que de presente Vos amo, ó meu Jesus, mas amo-Vos muito pouco; dai-me que Vos ame muito e Vos seja fiel até à morte. É esta a graça que Vos peço, bem como a graça de a pedir sempre. Deixai-me morrer antes que venha novamente a trair-Vos.

“Fazei, Senhor Jesus Cristo, que nos vistamos das virtudes e nos inflamemos com os afetos de vosso Santíssimo Coração, para que mereçamos ser conformes à imagem da vossa bondade e participar do fruto da redenção.” (6) Fazei-o pelo amor de vossa e minha amada Mãe, Maria.

Referências:

(1) Ap 3, 20
(2) Jo 14, 13
(3) 1Cor 10, 13
(4) Nm 23, 19
(5) Mt 25, 23
(6) Or. Festi.

Voltar para o Índice dda Novena de Pentecostes

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 173-175)

quinta-feira, 23 de junho de 2022

9º Dia da Novena ao Sagrado Coração de Jesus

Coração de Jesus desprezado

9º Dia da Novena ao Sagrado Coração de Jesus

Filios enutrivi et exaltavi; ipsi autem spreverunt me – “Criei uns filhos e engrandeci-os; eles, porém, me desprezaram” (Is 1, 2)

Sumário. Para um coração amante não há pena mais pungente do que ver desprezado seu amor, mormente quando as provas de amor foram manifestas e a ingratidão é grande. Vejamos, pois, qual deva ter sido a pena do Coração sensibilíssimo de Jesus que em retorno dos muitos benefícios feitos aos homens, só recebe ofensas, injúrias e desprezos, como nem se praticariam para com o mais vil dos homens. Poderemos pensar nesses tratos indignos para com Deus sem sentirmos compaixão e sem nos esforçarmos para o desagravar com o nosso amor?

I. Não há para um coração amante pena mais pungente do que ver seu amor desprezado; mormente quando as provas de amor foram manifestas é mais negra a ingratidão que se mostra. – Se alguém por amor de Jesus Cristo se privasse de todos os seus bens, fosse viver num deserto, se alimentasse só com ervas, dormisse no chão, se macerasse com penitências, se, afinal, se deixasse martirizar; que seria tudo isso em compensação do sangue e da vida que o grande Filho de Deus sacrifícios por nós? Se nós nos entregássemos cada instante à morte, de certo nada seria em compensação do amor que Jesus Cristo nos mostrou em se dando a nós no Santíssimo Sacramento. Um Deus esconder-se sob as espécies de um pouco de pão e fazer-se o sustento de suas criaturas!

Mas, ó céus! Como é que os homens reconhecem e recompensam o amor de Jesus Cristo? Como? Com ultrajes, desprezo de suas leis e doutrinas; numa palavra, com injúrias tais, que não as haviam de fazer nem a um inimigo ou escravo, nem ao homem mais abjeto do mundo. – poderemos pensar em todos os ultrajes que Jesus Cristo tem recebido e ainda recebe todos os dias, sem que nos compadeçamos dele, sem que procuremos compensar com nosso amor o amor imenso de seu divino Coração que no Santíssimo Sacramento arde do mesmo amor para conosco, desejoso de nos comunicar seus bens, de se dar todo a nós, disposto a acolher-nos em seu Coração cada vez que a ele recorramos? Qui venit ad me, non eiciam foras (1) – “O que vem a mim, não o lançarei fora”.

Estamos habituados a ouvir falar em Coração, Encarnação, Redenção, em Jesus nascido numa gruta, em Jesus morto na cruz. Ó Deus! Se algum homem nos tivesse prestado um destes benefícios, ser-nos-ia impossível não o amar. Só Deus, por assim dizer, é tão desditoso, que, apesar de não saber mais que fazer para ser amado dos homens, não pode conseguir o seu intento: em vez de amado, é ultrajado e desprezado. Tudo provem de que os homens se esquecem do amor de Deus.

II. Coração do meu Jesus, abismo de misericórdia e amor, à vista de vossa bondade comigo e de minha ingratidão, como é possível não morrer eu e consumir-me de dor? Ó meu Salvador, depois de me haverdes dado o ser, ainda me destes todo o vosso sangue e a vida e Vós entregastes por amor de mim aos opróbrios e à morte. Não contente disto, inventastes o meio de Vos sacrificar todos os dias por mim na santíssima Eucaristia, não recusando expor-Vos às injúrias que deveis receber (como de antemão o sabíeis) neste Sacramento de amor. Ó céu! Como posso ver-me tão ingrato a vosso respeito sem expirar de confusão?

Ah Senhor! Ponde termo às minhas ingratidões, feri meu coração com vosso santo amor, e fazei que seja todo vosso. Lembrai-Vos das lágrimas e do sangue que derramastes por meu amor, e perdoai-me. Não sejam para mim perdidas tantas dores. Apesar de me verdes tão ingrato e tão indigno de vosso amor, não me deixastes de amar, ainda quando eu Vos não amava, nem desejava ser amado de Vós; quanto, pois, não devo esperar vosso amor, agora que desejo unicamente Vos amar e ser de Vós amado?

Por piedade, contentai plenamente meu desejo; ou antes o vosso desejo, já que sois Vós que m´o inspirais. Seja o dia de hoje o da minha inteira conversão, começando desde já a Vos amar, ó soberano Bem, para nunca cessar de o fazer. Fazei-me morrer completamente a mim mesmo e não viver mais senão para Vós, arder sempre no vosso santo amor e reproduzir em mim as vossas belas virtudes, especialmente a humildade e a mansidão no meio dos desprezos. † Ó Jesus, manso e humilde de Coração, fazei meu coração semelhante ao vosso (2).

– Ó Maria, vosso coração foi o feliz altar em que ardeu sem cessar o fogo do divino amor.

– Minha terna Mãe, fazei meu coração semelhante ao vosso. Rogai por mim a vosso Filho, que se compraz em vos honrar, não recusando coisa alguma que lhe pedis.

Referências:

(1) Jo 6, 37
(2) Indulg. de 100 dias

Voltar para o Índice dda Novena de Pentecostes

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 170-172) 

quarta-feira, 22 de junho de 2022

8º Dia da Novena ao Sagrado Coração de Jesus

 Coração de Jesus apresentado à Santa Margarida Maria

8º Dia da Novena ao Sagrado Coração de Jesus

Omnis qui reliquerit domum, vel fratres… propter nomen meum, centuplum accipiet, et vitam aerternam possidebit – “Todo aquele que deixar por amor de meu nome a casa ou os irmãos, receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna” (Mt 19, 29)

Sumário. É tão agradecido o Coração de Jesus, que não pode ver qualquer obra, por pequena que seja, mas feita por seu amor, sem a recompensar nesta vida ou na outra. Apesar disso, os homens, que se mostram gratos até aos animais, são tão ingratos para com Deus, depois de receberem dele tão grandes benefícios. Parece de certo modo que os benefícios de Deus mudam de natureza e se tornam vexames, porque em vez de gratidão e amor, lhe retribuem ofensas e injúrias. Como é que nós até ao presente havemos correspondido à divina beneficência?… Como lhe corresponderemos para o futuro?

I. É tão agradecido o Coração de Jesus, que não pode ver uma obra qualquer nossa feita por seu amor, uma palavra qualquer dita para sua glória, um bom pensamento refletido para sua complacência, e não dar a cada qual a devida recompensa. Mais: Ele é tão agradecido, que dá sempre cento por um: Centuplum accipiet. – Os homens, sendo gratos e querendo recompensar um benefício recebido, recompensam-no uma vez; cumprem, como se diz, a sua obrigação e depois não pensam mais nisso. Não é assim que Jesus Cristo faz conosco; cada ação boa por nós praticada afim de Lhe dar o gosto, é por Ele não somente recompensada ao cêntuplo na vida presente, mas ainda lá na outra vida recompensa-a infinitas vezes em cada instante da eternidade: quem, pois, não se esmerará em contentar, quanto possa, a um Coração tão agradecido?

Mas, ó céu! Como se aplicam os homens a agradarem a Jesus Cristo? Ou, digamos antes, como podemos nós ser tão ingratos para com o nosso Salvador? Se por nossa salvação ele não tivesse derramado senão uma só gota de sangue, uma só lágrima, ficar-Lhe-íamos infinitamente obrigados, porque aquela gota de sangue, aquela lágrima teriam tido aos olhos de Deus um valor infinito para nos obter toda graça. Jesus, porém, quis despender por nós todos os instantes da sua vida, deu-nos todos os seus merecimentos, todas as suas penas e ignomínias, todo o sangue e a vida, de modo que temos, não somente uma, senão mil obrigações para o amarmos.

Mas, infelizmente, nós somos gratos, até aos animais; se um cachorrinho nos faz alguma festa, parece que nos constrange a amá-lo; como podemos então ser tão ingratos para com Deus? Parece que os benefícios de Deus, quando prestados aos homens, mudam de natureza e se tornam vexames; porquanto Deus, em vez de gratidão e amor, só aufere deles ofensas e injúrias. Iluminai, ó Senhor, esses ingratos, afim de que reconheçam o amor que lhes tendes.

II. Ó meu amado Jesus, eis aqui a vossos pés um ingrato. Tenho sido grato para com as criaturas e ingrato somente para convosco. Para convosco, digo, que morrestes por mim, e não pudestes fazer mais afim de me obrigar a amar-Vos. O que me consola e anima é que estou tratando com um Coração de Bondade e misericórdia infinita, que promete esquecer todas as ofensas do pecador que se arrepende e o ama.

Meu querido Jesus, no passado eu Vos ofendi e Vos desprezei; mas agora amo-Vos sobre todas as coisas, mais que a mim mesmo. Fazei-me saber o que de mim desejais; estou pronto a fazê-lo com a vossa graça. Creio que sois meu Criador, que por meu amor destes vosso sangue e vida; creio também que por meu amor Vos quisestes ficar no Santíssimo Sacramento. Graças Vos sejam dadas, ó amor meu! Por piedade, não permitais que para o futuro eu seja ainda ingrato por tantos benefícios e tantas provas de vosso amor. Ligai-me, prendei-me a vosso Coração e não permitais que no tempo de vida que me resta torne a Vos desgostar e amargurar. Já basta de ofensas, ó meu Jesus, quero agora amar-Vos.

Oxalá pudessem voltar os anos perdidos! Mas, infelizmente, eles não voltam mais e breve será a vida que ainda me resta. Mas, meu Deus, quer seja breve, quer seja longa, quero empregá-la toda em Vos amar, ó Bem supremo, digno de um amor eterno e infinito. Quero empregá-la para que também os outros Vos amem. † Amado seja em toda parte o Sagrado Coração de Jesus (1). “Louvado, adorado, amado, agradecido e venerado seja a todo o instante o Coração eucarístico de Jesus em todos os tabernáculos do mundo, até à consumação dos séculos. Assim seja (2).

– Ó grande Mãe de Deus e minha Mãe, Maria, obtende-me a força para ser fiel a estes meus propósitos e não permitais que novamente eu seja ingrato para convosco e para com vosso Filho.

Referências:

(1) Indulg. de 100 dias
(2) Indulg. de 100 dias

Voltar para o Índice dda Novena de Pentecostes

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 167-170)

terça-feira, 21 de junho de 2022

7º Dia da Novena ao Sagrado Coração de Jesus

 Liberalidade do Coração de Jesus

7º Dia da Novena ao Sagrado Coração de Jesus

Mecum sunt divitiae… ut ditem diligentes me, et thesauros eorum repleam – “Comigo estão as riquezas… para enriquecer os que me amam e encher os seus tesouros” (Pv 8, 18 e 21)

Sumário. É próprio das pessoas de coração bem formado o querer fazer todos contentes. Mas onde acharemos quem tenha o coração mais bondoso que Jesus Cristo? Para nos comunicar as suas riquezas chegou a fazer-se homem e pobre como nós. Mais: Ele quis ficar conosco no Santíssimo Sacramento, no qual está sempre com as mãos cheias de graças e convida-nos continuamente, a que nos aproximemos para as receber. Se, pois, ficamos sempre pobres, a culpa é só nossa.

I. É próprio das pessoas de coração bem formado querer fazer todos contentes, especialmente os mais necessitados e aflitos. Mas onde acharemos quem tenha o coração mais bondoso que Jesus Cristo? Por ser a bondade infinita, tem um desejo extremo de nos comunicar as suas riquezas: Mecum sunt divitiae, ut ditem diligentes me – “Comigo estão as riquezas, para enriquecer os que me amam”. Ele se fez pobre, diz o apóstolo, para nos fazer ricos: Propter vos egenus factus est, ut illius inopia vos divites essetis (1).

Para este fim ainda quis ficar no Santíssimo Sacramento, no qual está com as mãos cheias de graça, conforme se mostrou ao Padre Balthazar Alvarez, afim de dispensá-las aos que vierem visitar. Com o mesmo intuito se nos dá todo inteiro na santa comunhão, dando-nos a entender que não saberá negar os seus bens, a quem dá toda a sua pessoa. Quomodo non etiam cum illo omnia nobis donavit? (2) – “Como não nos deu também com Ele todas as coisas?” – No Coração de Jesus achamos, portanto, todos os bens e todas as graças que desejemos: In omnibus divites facti estis in illo,… ita ut nihil vobis desit in ulla gratia (3) – “Em todas as coisas fostes enriquecidos n’Ele (Cristo),… de modo que nada vos falta em graça alguma”.

Vê, portanto, que é ao Coração de Jesus que devemos agradecer todas as graças recebidas: a Redenção, a vocação, as luzes interiores, o perdão, a força para resistir às tentações, a paciência nas contrariedades; pois que, sem o seu auxílio nenhum bem poderíamos fazer: Sine me nihil potestis facere (4) – “Sem mim não podeis fazer nada”. E se no passado, diz o Senhor, não tendes recebido graças mais abundantes, não vos queixeis de mim; queixai-vos de vós mesmos, porque tendes descuidado de m’as pedir. Usque modo non petistis quidquam; petite et accipietis (5) – “Até agora não tendes pedido nada: pedi e recebereis”.

II. Oh! Quanto é rico, quanto é liberal o Coração de Jesus, para com os que a Ele recorrem! Oh, quão grandes graças recebem as almas que cuidam em pedir auxílio a Jesus Cristo! Davi dizia: Tu, Domine, suavis et mitis, et multae misericordiae omnibus invocantibus te (6) – “Tu, ó Senhor, és suave e brando e de muita misericórdia para todos os que te invocam”. Recorramos, portanto, sempre a este coração, peçamos com confiança e obteremos tudo.

Ah, meu Jesus, Vós não Vos dedignastes de sacrificar por mim vosso sangue e a vida, e eu me recusarei a dar-Vos o meu miserável coração? Eu Vo-lo dou todo inteiro, meu amado Redentor, eu Vos dou toda a minha vontade; aceitai-a e disponde dela segundo o vosso agrado. Não tenho nem posso nada; mas disponho de um coração que Vós me destes e que ninguém me pode roubar; podem tirar-me os bens, o sangue, a vida, mas não o coração. Com este coração Vos posso amar e Vos quero amar. Ensinai-me, ó meu Deus, o perfeito esquecimento de mim mesmo; ensinai-me o que deva fazer para obter o vosso puro amor, cujo desejo Vós mesmo me inspirastes pela vossa infinita bondade. Minha alma está resolvida a Vos agradar; mas de Vós espero e peço a graça de o fazer.

Ó Coração amantíssimo de Jesus, Vós deveis fazer que seja todo vosso o meu pobre coração, que no passado Vos tem sido tão ingrato e pela sua culpa privado do vosso amor. Suplico-Vos que meu coração seja todo amor por Vós, assim como o vosso é todo amor por mim. Fazei com que a minha vontade seja toda unida à vossa, de modo que eu não queira senão o que Vós quereis. A vossa santa vontade seja doravante a regra de todas as minhas ações, de todos os meus pensamentos e de todos os meus desejos.

Espero, ó Senhor, que não me negareis a vossa graça para executar a resolução que, prostrado a vossos pés, tomo hoje, a de aceitar com resignação tudo que queirais dispor de mim, e do que é meu, tanto na vida como na morte.

– Ó Maria Imaculada, fostes feliz por terdes sempre vosso Coração conformado em tudo ao Coração de Jesus. – Por piedade, minha Mãe, obtende-me que para o futuro eu não queira nem deseje senão o que queirais vós e Jesus.

Referências:

(1) 2 Cor 8, 9
(2) Rm 8, 32
(3) 1 Cor 1, 5 e 7
(4) Jo 15, 5
(5) Jo 16, 24
(6) Sl 85, 5

Voltar para o Índice dda Novena de Pentecostes

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 165-167)

segunda-feira, 20 de junho de 2022

6º Dia da Novena ao Sagrado Coração de Jesus

 Sagrado Coração de Nosso Senhor

6º Dia da Novena ao Sagrado Coração de Jesus

Misericordia eius a progenie in progenies timentibus eum – “A sua misericórdia se estende de geração a geração, sobre os que o temem” (Lc 1, 50)

Sumário. Onde poderemos encontrar um coração mais terno que o Coração de Jesus, um coração que se compadeça mais de nossas misérias? É movido por esta misericórdia que baixou do céu à terra para nos buscar, suas ovelhas desgarradas; agora ainda sempre nos convida a que voltemos a ele, e promete que se esquecerá de todas as injúrias recebidas. Não tardemos, pois, a nos lançar nos braços de tão amoroso Pai; peçamos-Lhe perdão das ingratidões passadas e façamos o protesto que nunca jamais d’Ele nos afastaremos.
I. Onde poderíamos achar um coração mais terno e misericordioso do que o Coração de Jesus, um coração que se tenha compadecido mais das nossas misérias? A sua misericórdia fê-lo baixar do céu à terra; fê-lo dizer que era Ele o bom Pastor vindo a dar a vida pelas suas ovelhas. Para nos obter o perdão, a nós, pecadores, não perdoou a si mesmo e quis sacrificar-se sobre a cruz, afim de sofrer Ele mesmo o castigo que nós tínhamos merecido.

É a mesma piedade e compaixão que O faz ainda agora dizer: Quare moriemini, domus Israel? Revertimini et vivite (1) – “Porque morrereis, ó casa de Israel? Voltai e vivei”. Ó homens, parece dizer, meus pobres filhos, porque vos quereis condenar, fugindo de mim? Não vedes que afastando-vos de mim correis para a morte eterna? Não vos quero ver condenados; não desanimeis, se quereis voltar a mim, voltai e recuperareis a vida: Revertimini et vivite. – A mesma misericórdia O faz ainda dizer que ele é o Pai amoroso que, posto que desprezado pelo filho, não sabe repulsá-lo quando volta arrependido, mas o abraça com ternura e se esquece de todas as injúrias recebidas: Peccatorum tuorum non recordabor (2) – “Não me lembrarei de teus pecados”.

Não é assim que soem fazer os homens. Estes, ainda que perdoem, guardam sempre a lembrança da ofensa recebida e sentem desejos de vingança; e se não se vingam, porque são tementes de Deus, ao menos têm grande repugnância de conversar e tratar com aqueles que os ofenderam. – ah, meu Jesus, Vós perdoais aos pecadores arrependidos e não recusais dar-Vos a eles todo inteiro nesta terra pela santa comunhão e no céu pela luz da glória, sem que mostreis a menor repugnância em conservar unida convosco, por toda a eternidade, à alma que Vos ofendeu. Onde então achar um coração tão amável e misericordioso como o vosso, ó meu amado Salvador?

II. Ó Coração misericordioso de meu Jesus, tende compaixão de mim. Meu dulcíssimo Jesus, tende compaixão de mim. Eu Vo-lo digo agora e dai-me, ó Jesus, a graça de sempre Vos repetir esta súplica: Ó meu dulcíssimo Jesus, tende compaixão de mim. Antes de Vos ofender, ó meu Redentor, não merecia, por certo, nenhuma das muitas graças que me fizestes. Vós me criastes, me comunicastes tantas luzes, sem merecimento da minha parte. Depois, porém, que pequei, não somente não sou digno de favores, mas mereço ser abandonado de Vós e precipitado no inferno. A vossa misericórdia é que Vos fez esperar-me e conservar-me a vida quando me achava na vossa desgraça. A vossa misericórdia é que me esclareceu e me convidou à penitência; ela me deu a dor dos pecados e o desejo de Vos amar
e pela vossa misericórdia nutro a confiança de estar em vossa graça.

Ó meu Jesus, não cesseis de exercer misericórdia comigo. † “Para Vos mostrar a minha gratidão e para reparar as minhas infidelidades, Vos dou o meu coração e me consagro inteiramente a Vós, ó meu amável Jesus e com vosso auxílio proponho nunca mais pecar.” (3) – É esta a misericórdia que Vos peço; iluminai-me e fortalecei-me para não ser mais ingrato para convosco.

Meu amor, não pretendo que torneis a perdoar-me se eu tornar a virar-Vos as costas; isto seria um presunção que havia de impedir que usásseis de misericórdia para comigo. Que misericórdia poderia esperar ainda de Vós, se viesse novamente a desprezar a vossa amizade, separando-me de Vós? Ó meu Jesus, amo-Vos e quero sempre amar-Vos. É esta a misericórdia que Vos imploro e espero: Não permitais, não permitais que me separe de Vós. – Ó minha Mãe, Maria, rogo-vos também: não permitais que ainda me separe de meu Deus.

Referências:

(1) Ez 18, 31-32
(2) Is 43, 25
(3) Indulg. de 100 dias, quando se reza diante da imagem do Sagrado Coração

Voltar para o Índice dda Novena de Pentecostes

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 162-165)