sexta-feira, 30 de abril de 2021

Quem ama a Jesus Cristo deve odiar o mundo

 


Mihi autem absit gloriari nisi in cruce Domini nostri Iesu Christi, per quem mihi mundus crucifixus est et ego mundo – “Longe esteja de mim o gloriar-me senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gl 6, 14)


Sumário. Jesus Cristo quis morrer crucificado para nos livrar do amor ao mundo perverso. Tendo-nos chamado ao seu amor, quer que nos coloquemos acima das promessas e ameaças do mundo. Quer que não façamos caso nem das censuras do mundo nem das suas aprovações, e nos alegremos por sermos odiados e perseguidos como o próprio Jesus. Para alcançarmos um fim tão elevado, habituemo-nos a prever já de manhã as contrariedades e os desprezos que nos possam vir do correr do dia, e preparemo-nos para os sofrer com paciência.


I. Quem ama a Jesus Cristo com amor verdadeiro, alegra-se quando se ve tratado pelo mundo assim como foi tratado Jesus Cristo, que por ele foi odiado, vituperado e perseguido até morrer de dor, suspenso num patíbulo infame. – O mundo é diametralmente oposto a Jesus Cristo: e por isso, odiando a Jesus, odeia a todos os que o servem. Pelo que o Senhor animava os seus discípulos a sofrerem com paz as perseguições, dizendo-lhes que, já que tinham abandonado o mundo, não podiam deixar de ser dele odiados (1).


Ora, como as almas amantes de Deus são para o mundo objeto de ódio, assim o mundo deve ser objeto de ódio para quem ama a Deus. Dizia São Paulo: Mihi absit gloriari nisi in cruce Domini nostri Iesu Christi, per quem mihi mundus crucifixus est et ego mundo – “Esteja longe de mim o gloriar-me senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo”. O mundo abominava o Apóstolo, assim como se abomina um homem condenado e morto na cruz; mas de igual maneira São Paulo abominava o mundo: mihi mundus crucifixus est. – Jesus quis morrer crucificado pelos nossos pecados, para livrar-nos do amor ao mundo perverso (2). Já que Jesus nos chamou ao seu amor, quer que nos coloquemos acima das promessas e das ameaças do mundo. Quer que não façamos mais caso nem de suas censuras, nem de suas aprovações.


Afim de chegarmos ali, representemo-nos, na nossa meditação, todos os desprezos, contrariedades e perseguições que nos possam sobrevir, e ofereçamo-nos com grande coragem a sofrê-los por amor de Jesus Cristo, não somente em paz, mas também com alegria de espírito. Procedendo desta maneira, estaremos na ocasião mais dispostos a aceitá-los. Mas sobretudo devemos pedir a Deus, que nos faça esquecer inteiramente o mundo, e alegrarmo-nos quando nos virmos rejeitados pelo mundo.


II. Para que sejamos inteiramente de Deus, não basta que nós abandonemos o mundo; é além disso mister desejarmos que o mundo nos abandone e nos esqueça de todo. Alguns abandonam o mundo, mas não deixam de querer ser por ele louvados, ainda que seja só pelo terem abandonado. Alimentado este desejo de serem estimados pelo mundo, fazem com que o mundo ainda viva neles.


Como o mundo odeia os servos de Deus, e odeia por isso os seus bons exemplos e máximas santas, assim nós devemos odiar todas as máximas do mundo, como sejam: bem-aventurado o rico; bem-aventurado o que não sofre e se diverte, infeliz o que é maltratado e perseguido dos outros! Numa palavra, se desejamos agradar a Deus só, devemos viver em contínua desavença com o mundo, que, na palavra do Apóstolo, não pode deixar de ser inimigo de Deus (3).


Sim, meu Jesus crucificado e morto por mim, só a Vós quero agradar. Que mundo, que riquezas, que dignidades! Quero que Vós, meu Redentor, sejais todo o meu tesouro; a minha riqueza é o amar-Vos. Se me quereis pobre, quero ser pobre; se me quereis humilhado, enfermo e desprezado de todos, aceito tudo de vossas mãos; a vossa vontade será sempre a minha única consolação. Mas eis aqui a graça que Vos peço: fazei que em tudo quanto me acontecer, eu me não afaste, nem sequer uma linha, da vossa santa vontade, e Vos ame de todo o meu coração.


Sei que não mereço esta graça depois de Vos ter virado tantas vezes as costas pelo amor das criaturas, mas, meu Senhor, Vós dissestes que não sabeis desprezar um coração contrito e humilhado, e eu arrependo-me de todo o coração e quisera morrer de dor. – Atendei-me, meu Jesus, fazei que nunca me afaste da vossa santa vontade e Vos ame de todo o coração. Esta mesma graça vos peço, ó grande Mãe de Deus e minha Mãe, Maria


Referências:


(1) Jo 15, 19

(2) Gl 1, 4

(3) Rm 8, 7


quarta-feira, 28 de abril de 2021

PEQUENO CATECISMO DA COMUNHÃO NAS MÃOS

 



Fonte: L’Hermine n ° 61 (em La Porte Latine) – Tradução: Dominus Est

Nestes últimos meses, as autoridades da Igreja “conciliar” se apoiaram na pandemia do Covid-19 para encorajar ou impor a prática de receber a Sagrada Eucaristia nas mãos. Em sentido inverso, circulam muitas publicações que pretendem provar que a comunhão sempre foi recebida na língua, mesmo nos primeiros séculos da Igreja. O que devemos pensar? Na Internet existem muitos documentos que, embora defendam a comunhão na língua, o fazem com base em argumentos falaciosos. É necessário, portanto, aprofundar a questão, sem, no entanto, abandonar o estilo simples do catecismo. Por isso, decidimos inserir no texto apenas as principais conclusões, relegando todo o aparato crítico das evidências às notas finais.

  1. O que é a comunhão nas mãos hoje?

A comunhão nas mãos é uma prática da liturgia romana reformada após o Concílio Vaticano II. O sacerdote (ou outro ministro da Eucaristia, que na nova liturgia também pode ser um leigo [1] coloca a hóstia sobre a palma da mão esquerda do fiel, que a pega com a mão direita e a leva à boca.

  1. Quando essa prática foi introduzida?

A prática atual da comunhão nas mãos foi introduzida oficialmente em 29 de maio de 1969 pela Instrução Memoriale Domini da Sagrada Congregação para o Culto Divino [2]. Este documento, embora exprima uma preferência pela comunhão na língua, confia às Conferências Episcopais, após consulta ao Vaticano, o poder de autorizar a comunhão nas mãos.

  1. Trata-se de uma simples tolerância ou uma autorização verdadeira?

Alguns autores, se apoiando na carta da Instrução Memoriale Domini, vêem a comunhão na mão como um mal que o Vaticano teria tolerado unicamente por causa das circunstâncias. De fato, em alguns países (especialmente Bélgica, Holanda, França e Alemanha) a comunhão na mão já havia sido introduzida abusivamente. Ao invés de deixar a porta aberta para uma experimentação anárquica, o Vaticano teria preferido aceitá-la e regulamentá-la. Esta interpretação benevolente é, no entanto, contrariada pelos fatos. De fato, se tivesse sido apenas uma mera tolerância, o Vaticano teria que desencorajar a comunhão nas mãos nos países onde ela não havia sido difundida. No entanto, aconteceu o oposto. Por exemplo, a comunhão nas mãos foi autorizada na Itália em 1989, na Argentina em 1996, na Polônia em 2005. Além disso, D. Annibale Bugnini, Secretário da Congregação para o Culto Divino, deixou claras as intenções do Vaticano em um artigo publicado em 15 de maio de 1973 no Osservatore Romano e revisado pelo próprio Paulo VI [3]: para não mortificar “um significativo número de bispos, que se referem a uma prática [comunhão na mão] igualmente válida na história da Igreja e que, em certas circunstâncias, pode ser útil ainda hoje”. Agora, “válido” e “útil” não se referem a um mal que é tolerado, mas a um bem que é autorizado. A conclusão é óbvia: não há mera tolerância, mas verdadeira autorização, embora restrita.

  1. A comunhão nas mãos foi praticada anteriormente na história da Igreja?

Sim, a comunhão na mão já foi praticada na história da Igreja. Como veremos, foi até a forma mais comum de receber a Eucaristia nos primeiros séculos. No entanto, no início da Igreja, a comunhão na mão era feita de uma maneira muito diferente em comparação com hoje. Além disso, a mudança da comunhão nas mãos para a comunhão na língua foi geral e se baseia em razões imperiosas, de modo que não há razão válida para voltar atrás.

  1. Como sabem que nos primeiros séculos da Igreja a Comunhão era recebida normalmente na mão?

Sabemos que, nos primeiros séculos da Igreja, a comunhão era recebida normalmente na mão, graças ao testemunho de vários Padres e escritores eclesiásticos. Por exemplo, São Cirilo de Jerusalém (313-387) escreve: “Quando se aproximar da Mesa Sagrada, não se aproxime com as palmas das mãos estendidas nem os dedos separados, mas faça da sua mão esquerda um trono para a sua mão direita, já que esta deverá receber o Rei, e na palma da sua mão receber o corpo de Cristo, dizendo: “Amém””. Este texto é retirado de sua quinta Catequese Mistagógica, que remonta ao ano 348 [4]. No Ocidente, Tertuliano (155-230) [5], Papa São Cornélio (180-253) [6], uma inscrição do início do século III [7], São Cipriano de Cartago (210-258) [8] e Santo Agostinho (354-430) [9] atestam a mesma prática. “Os testemunhos antigos, escritos ou arqueológicos, são unânimes neste ponto” [10].

  1. Não há autores que, ao mesmo tempo, falem da comunhão na língua?

Foram apresentados os nomes de São Basílio (329-379), do Papa São Leão I (390-461) e do Papa São Gregório Magno (540-604). Seus testemunhos, no entanto, não parecem contradizer a prática geral da comunhão nas mãos [11].

  1. O rito da comunhão nas mãos nos primeiros séculos era o mesmo que o de hoje?

Não, o rito da comunhão nas mãos nos primeiros séculos não era o mesmo que o de hoje. Antigamente, os leigos tinham que lavar as mãos antes de receber a comunhão [12]. Além disso, as mulheres, pelo menos na Gália, só podiam tocar a hóstia com as mãos cobertas por um pequeno pano branco [13]. Tomava-se muito cuidado para garantir que nenhum fragmento caísse no chão, o que foi ainda mais fácil naquela época pois o pão eucarístico era fermentado. São Cirilo de Jerusalém (cf. n. 5) diz explicitamente: “Cuidai para não deixar cair nada, pois o que te escaparia seria como algo próprio que se perderia” [14]. Nenhuma destas disposições estão mais previstas pelo novo rito de comunhão na mão.

  1. Quando passamos da comunhão na mão para a comunhão na língua?

Passamos da comunhão na mão à comunhão na língua durante o século IX [15]. É possível que esta prática tenha iniciado um pouco antes, mas os testemunhos de que dispomos não são decisivos e provavelmente só dizem respeito a casos particulares, como a comunhão aos doentes [16].

  1. Por que a comunhão na mão foi substituída pela comunhão na língua?

Em primeiro lugar, porque, mais ou menos ao mesmo tempo, no Ocidente, passou-se a usar os pães ázimos para a Eucaristia [17]. Se por um lado este pão é mais fácil de manusear e adere facilmente à língua, por outro é provável que produza mais fragmentos. A isto devemos acrescentar que o fervor das origens havia diminuído e que o Cristianismo havia se tornado uma religião das massas: foi entre os séculos V e IX que a Igreja “generalizou a admissão das crianças ao batismo, sua perseverança não suscitava nenhuma outra preocupação” [18]. O risco de dispersão de fragmentos foi, portanto, aumentado. É por isso que a Igreja, tanto no Ocidente como no Oriente, passou muito rapidamente à prática da comunhão na língua, o que evitou este perigo [19].

Em segundo lugar, porque durante o século IX, assistimos a um aumento do respeito e da veneração pelo Santíssimo Sacramento. Este fenômeno é testemunhado também pela introdução, um pouco mais tarde, do costume de receber a Comunhão de joelhos [20]. Agora, a comunhão na língua faz parte desse movimento de fervor eucarístico. Deve expressar de forma mais direta e explícita o mistério da presença real, que os fiéis recebem pelas mãos do sacerdote ou do diácono, os únicos ministros deste sacramento.

  1. Visto que a Igreja autorizou a comunhão na mão até o século IX, não seria legítimo voltar a essa prática hoje?

Não, e por duas razões: 

Primeiro, porque seria fazer arqueologismo. O arqueologismo é a atitude daqueles “que desejam voltar aos ritos e costumes antigos, rejeitando as normas introduzidas pela ação da Providência, por causa da mudança das circunstâncias“. Estas são as palavras de Pio XII na Encíclica Mediator Dei (20 de novembro de 1947) (leia um excelente texto sobre essa Encíclica clicando aqui). O Papa condena esta mentalidade, comparando-a com a de quem gostaria de voltar às fórmulas dos primeiros Concílios, rejeitando expressões mais recentes da doutrina católica. “A liturgia da época antiga é sem dúvida – diz o papa – digna de veneração, mas o uso antigo não é, por motivo somente de sua antiguidade, o melhor, seja em si mesmo, seja em relação aos tempos posteriores e às novas condições verificadas. Os ritos litúrgicos mais recentes também são respeitáveis, pois que foram estabelecidos por influxo do Espírito Santo que está com a Igreja até à consumação dos séculos, e são meios dos quais se serve a ínclita esposa de Jesus Cristo para estimular e conseguir a santidade dos homens.” [21].

– Em segundo lugar, porque a passagem de um rito que expressa mais reverência pela Eucaristia para um rito que expressa menos fé na presença real abre a porta a abusos e sacrilégios através da dispersão de fragmentos e roubo de hóstias. A experiência diária da liturgia pós-conciliar mostra isso muito bem. Para dar apenas um exemplo, em 1994, nos Estados Unidos, apenas 30% dos católicos com menos de 45 anos acreditavam na presença real [22].

  1. Não seria possível conceder a Comunhão nas mãos pelo menos em circunstâncias muito particulares, como no caso de uma epidemia?

Antes de qualquer coisa deve-se afirmar que não há nenhuma evidência científica que demonstre que a comunhão na língua expõe à contaminação mais do que a comunhão na mão. Mesmo que houvesse, não seria legítimo distribuir a comunhão nas mãos. As razões que demos no nº 10 superam quaisquer considerações sanitárias, porque evitando a dispersão de fragmentos, o sacrilégio, o perigo de enfraquecer a fé na presença real é um bem maior que a saúde do corpo. Somente no caso de ser demonstrado cientificamente que a comunhão na língua aumenta consideravelmente o risco de contaminação de uma doença muito grave, a autoridade eclesiástica poderia propor uma solução alternativa, sem nunca permitir, porém, o uso da comunhão na mão.

Pe. Daniele di Sorco, FSSPX

Notas:

  1. Apresentação geral do Missal Romano, n. 98 e 100.
  2. Tradução francesa, comentário e história do documento: cf. Comunhão na Mão, suplemento ao “Itinéraires”, n. 163, maio de 1972.
  3. “Sì sì, no no”, 30 de novembro de 1989, p. 3.
  4. Embora a maioria dos estudiosos acreditem que o autor das Catequeses Mistagógicasé São Cirilo, alguns preferem atribuí-las a seu sucessor na sé de Jerusalém, João († 417). Recentemente, sites tem afirmado que, sendo sua ortodoxia suspeita, o rito de comunhão nas mãos que ele descreve seria uma inovação própria. Certamente, João de Jerusalém simpatizava com Orígenes e protegia Pelágio, mas é no mínimo duvidoso que ele tenha aderido às doutrinas heréticas destes. Além disso, nenhum dos erros atribuídos a ele por seus contemporâneos diz respeito à Eucaristia. Consequentemente, mesmo que se sustente que o autor das Catequeses Mistagógicas seja João, não há evidência de que o rito de receber a Comunhão na mão foi introduzido por ele em oposição à prática litúrgica comum. Tal mudança não deixaria de suscitar críticas de seus oponentes, especialmente daqueles, como São Jerônimo, que se opuseram a ele na polêmica origenista. Observou-se que no rito de comunhão descrito na Quinta Catequese Mistagógica se refere a uma prática estranha. Esta seria a prova de que este texto não expressa a prática normal da Igreja. Eis o trecho em questão: “Depois de ter prudentemente santificado seus olhos pelo contato com o Corpo Sagrado, coma-o”. O argumento, no entanto, tem pouco valor pois esse costume, por estranho que pareça, também é mencionado por São Clemente de Alexandria (150-215) e por Afraates da Síria (280-345). Cf. M. RIGHETTI, Manual de história litúrgica, vol. III, Milão, Ancora, 1949, p. 423; J.-A. JUNGMANN, Missarum sollemnia, t. III, Paris, Aubier, 1958, p. 312, nota 35. – Sobre toda esta questão, cf. J. QUASTEN, Iniciação aos Padres da Igreja , tr. fr., t. III, Paris, Cerf, 1963, pp. 512-517; B. ALTANER, Patrologia, tr. it, Turin, Marietti, 1981, pp. 321-322; A. FLICHE-V. MARTIN (dir.), História da Igreja , t. IV, Paris, Bloud e Gay, 1937, pp. 31-46 e 94-98.
  5. “[…] gemendo ao ver um cristão […] aproximar-se do corpo de nosso Senhor com as mãosque dão corpos aos demônios” (De idolatria, VII). Tertuliano fala aqui dos fabricantes de ídolos que se tornaram cristãos sem abandonar seus ofícios.
  6. “De fato, quando [o herege Novato] fez as ofertas eucarísticas e distribuiu a porção a cada um e a entregou a ele, obriga os infelizes a jurarem ao invés de agradecer; ele toma em ambas as mãos as de quem recebeu sua parte, e não as deixa ir até que façam um juramento com essas palavras – uso suas palavras -: “Jurai-me, pelo sangue e pelo corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo, que jamais me abandonareis e que não retornareis a Cornélio”. E o infeliz não pode provar [o Santíssimo Sacramento] a menos que tenha primeiro amaldiçoado a si mesmo, e em vez de dizer “Amém”, ao receber este pão, diz: “Não voltarei a Cornélio” (em EUSÈBUS, Historia ecclesiastica , VI, 43, 18).
  7. Esta é a inscrição de Pretorius, escrita em grego e encontrada em 1839 em um antigo cemitério em Autun. Ela diz: “Receba este prato doce como o mel do Salvador dos santos, coma com deleite segurando o Ichtus em suas mãos“. Ichtus é uma palavra grega que significa “peixe”, mas que era usada pelos cristãos como a sigla para “Jesus Cristo, Filho de Deus Salvador”. Cf. H. LECLERCQ, Autun (arqueologia), no Dicionário de Arqueologia e Liturgia Cristãs, t. I / 2, Paris, Letouzey e Ané, 1907, col. 3194-3198.
  8. “Um cristão, saindo de sacrifícios idólatras, apresenta-se no altar do Senhor; ele ousa, com os outros, receber a Eucaristia; mas ele não pode levá-la à boca; ao abrir as mãos, não encontra alí senão cinzas” (De lapsis, 26).
  9. “Mas então, por que ele se aproximou para fazer sua oferta ao Senhor?” Por que os presentes receberam sobre as mãos postas oque ele havia oferecido, apesar de seus vícios e impurezas?” (Contra epistulam Parmeniani , II, 7, 13).
  10. RIGHETTI, Manual de história litúrgica, vol. III, Milão, Ancora, 1949, p. 422.
  11. A passagem de São Basílio invocada em favor da comunhão na língua é a seguinte: “Não é grave se, fora dos tempos de perseguição, na ausência de um sacerdote ou de um diácono, alguém se veja obrigado a comungar com suas próprias mãos” ( 93). Estas palavras apenas atestam o costume, ainda vivo na época, de comungar quando o ministro sagrado estava ausente. Eles não sugerem de forma alguma que, quando o padre ou diácono estava presente, a comunhão era dada na língua. O resto da carta diz exatamente o contrário: “Mesmo na igreja, quando o padre dá a cada um a sua parte, aquele que a recebe a segura com total poder sobre ela, e é assim que a leva à boca com as próprias mãos” – São Leão limita-se a dizer: “o que acreditamos pela fé, recebemos pela boca” ( De ieiunio septimi mensis, 3). Quem não vê a fraqueza do argumento? Mesmo no rito atual da Missa, o celebrante diz: “Que possamos guardar com pureza de espírito, Senhor, o que recebemos pela boca”. E ainda assim ele tocou o Santíssimo Sacramento com suas mãos! – O texto de São Gregório é, por outro lado, mais relevante. Ele fala de um milagre realizado pelo Papa Santo Agapet I (535-536). Ele foi apresentado a um homem manco e mudo. Depois de ter celebrado a missa, o Papa “deixou o altar, pegou na mão do coxo, e então, à vista de todos os presentes, levantou-o do chão e o pôs de pé. Então ele colocou o corpo do Senhor em sua boca, e sua língua, por tanto tempo silenciosa, estava solta, pronta para proferir palavras” (Dialogi, III, 3). Este episódio, entretanto, é muito especial para testemunhar uma prática comum. Uma vez que o coxo não podia ficar de pé, seria impossível dar-lhe a Comunhão nas mãos. A única solução era colocá-la diretamente na boca. Essa seria a prática usual para os enfermos. Mas nada prova que o mesmo acontecesse com os saudáveis. – Mais de dois séculos e meio depois, João Diácono (825-880) afirma que São Gregório recusou a comunhão a uma senhora romana por causa de sua atitude irreverente “tirando-lhe a mão de sua boca ” (Vita S. Gregorii,II, 41). Mas a fórmula utilizada para dar a comunhão, que não data de antes do século IX, mostra que o autor provavelmente projetou para a época de São Gregório os costumes litúrgicos de seu tempo. Alguns até pensam que toda essa história é lendária. Cf. J.-A. JUNGMANN, Missarum sollemnia , t. II, Paris, Aubier, 1952, p. 305, nota 2.
  12. J.-A. JUNGMANN, Missarum sollemnia, t. III, Paris, Aubier, 1958, p. 313, onde se mencionam, em nota (n. 43), os testemunhos de Santo Atanásio (295-373), de São João Crisóstomo († 407) e de São Césario d’Arles (470-543).
  13. J.-A. JUNGMANN, Missarum sollemnia, t. III, Paris, Aubier, 1958, p. 313, onde se mencionam, em nota (n. 47), os testemunhos de São Césario d’Arles (470-543) e do Sínodo de Auxerre (578 ou 585).
  14. Catequeses mistagógicas, V, 21. – Este é o ensinamento comum dos Padres da Igreja. Para referências precisas cf. A. SCHNEIDER, Dominus est, Perpignan, Artège, 2008, II, cap. 4.
  15. Ao narrar a vida de São Cædmon, irmão leigo (entre 657 e 684), São Beda o Venerável (673-735) fala da comunhão nas mãos como uma prática ainda normal em seu tempo: “Ele [São Cædmon] disse: “Trazei-me a Eucaristia”. Depois de recebê-la em suas mãos, questionou os presentes se estavam todos em paz com ele […]. – As primeiras evidências confiáveis de um uso generalizado da comunhão na língua remontam às primeiras décadas do século IX. “Um sínodo, de Córdoba (839), condena a seita dos cassianistas que se recusaram a admitir que a Eucaristia foi posta nos lábios dos comungantes” (J.-A. JUNGMANN, Missarum sollemnia, t. III, Paris, Aubier, 1958, p. 314, nota 52). Em Rouen, um concílio celebrado por volta de 878 estabeleceu que o sacerdote “deve distribuir a Eucaristia aos leigos e às mulheres, não pela mão, mas apenas pelos lábios” (cf. ibid ., Texto).
  16. J.-A. JUNGMANN, Missarum sollemnia, t. III, Paris, Aubier, 1958, p. 314, nota 51. – É alegado, contrariamente, o cânon 2 de um concílio celebrado em Rouen por volta de 650 (texto em GD MANSI, Sacrorum Conciliorum nova amplissima collectio, t. X, Florença, Zatta, 1764, col. 1199-1200; cf. col. 1204-1206). No entanto, a datação é muito duvidosa e estudiosos mais recentes acreditam que a assembleia em questão ocorreu apenas no século IX. Ver M. AUGÉ, A proposito della comunione sulla mano, in “Ecclesia orans” 8 (1991) 293-304.
  17. J.-A. JUNGMANN, Missarum sollemnia, t. II, Paris, Aubier, 1952, p. 306-307.
  18. BÉRAUDY, A iniciação cristã, em A.-G. MARTIMORT (ed.), A Igreja em oração, Tournai, Desclée et Cie, 1961, p. 594.
  19. Esse também é o pensamento de J.-A. JUNGMANN, Missarum sollemnia, t. III, Paris, Aubier, 1958, p. 315.
  20. M. RIGHETTI, Manuale di storia liturgica, vol. III, Milão, Ancora, 1949, p. 425; J.-A. JUNGMANN, Missarum sollemnia , t. III, Paris, Aubier, 1958, p. 308-309.
  21. O arqueologismonão deve ser confundido com o apego à tradição. O arqueólogo rejeita o desenvolvimento homogêneo da doutrina e da liturgia católica, isto é, o processo pelo qual a fé e o culto, embora permanecendo o mesmo em substância, são expressos de forma cada vez mais clara, explícita, definida. Por outro lado, aqueles que estão apegados à tradição rejeitam o desenvolvimento não homogêneo da doutrina e do culto, um desenvolvimento pelo qual a fé e o culto são modificados em sua substância ou então são feitos passar do mais claro ao menos claro, do mais explícito ou menos explícito, do mais definido ao menos definido: é o caso das doutrinas e da liturgia do Vaticano II.
  22. KC JONES, Index of Leading Catholic Indicators, Roman Catholic Books, 2003.


A salvação é a única coisa necessária

 



Porro unum est necessarium – “Uma só coisa é necessária” (Lc 10, 42)

Sumário. Não é preciso que neste mundo sejamos cumulados de dignidades, que tenhamos riquezas, boa saúde, gozos terrestres; é necessário tão somente que nos salvemos. Não há meio termo: se não nos salvarmos, seremos condenados; estaremos ou sempre felizes no céu, ou sempre infelizes no inferno! Por isso avisa-nos o Senhor, que amontoemos tesouros, já não neste mundo, mas no céu, onde a ferrugem e os vermes não os consomem, nem os desenterram e roubam os ladrões.

I. Não é necessário que neste mundo sejamos cumulados de dignidades, que tenhamos riquezas, boa saúde e gozos terrestres; mas necessário é que nos salvemos. Não há meio termo: se não nos salvarmos, seremos condenados. Depois desta breve vida seremos ou para sempre felizes no paraíso, ou para sempre desgraçados no inferno.

Quantos mundanos, que outrora gozaram abundância de riquezas e honras, foram elevados às mais altas dignidades, quiçá a tronos, estão agora no inferno! Ali todas as prosperidades gozadas neste mundo só lhes servem para sua maior dor e desesperação. – Eis o que nos avisa o Senhor: Nolite thesaurizare vobis thesauros in terra – Não queirais ajuntar tesouros na terra; mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consomem a ferrugem e os vermes, e onde os ladrões não os desenterram nem roubam (1). Todos os bens terrestres se perdem na hora da morte; mas os bens espirituais são tesouros incomparavelmente mais preciosos e duram eternamente.

Deus manifestou-nos a vontade de que todos sejam salvos, e a todos dá o auxílio para se salvarem. Quem se perder, perder-se-á por culpa própria, e isto será a sua pena mais grave no inferno. Vindicta carnis impii, ignis et vermis (2) – “A vingança da carne do ímpio será o fogo e o verme”. O fogo e o verme roedor (isto é, o remorso da consciência), serão os algozes do réprobo para vingança de seus pecados; mas o verme roedor o atormentará eternamente muito mais que o fogo. – Que dor não causa neste mundo a perda de um objeto de valor, de um diamante, de um relógio, de uma bolsa com dinheiro, mormente quando a perda se deu por descuido próprio? A lembrança da perda faz perder o apetite e o sono, posto que haja esperança de remediá-la de outra maneira. Qual não será então o tormento do réprobo ao lembrar-se que por sua culpa própria perdeu o seu Deus e o paraíso, sem esperança de poder ainda possuí-los?

II. Ergo erravimus (3) – “Logo nos extraviamos do caminho”. Eis aí o que fará os desgraçados réprobos chorarem eternamente: extraviamo-nos do caminho perdendo-nos voluntariamente, e não há mais remédio para o nosso erro. Para todas as desgraças que nos podem sobrevir neste mundo, acha-se com o tempo algum remédio, ou na mudança das circunstâncias ou ao menos na santa resignação à vontade divina. Mas chegados que formos à eternidade, nenhum remédio nos poderá valer, se para desgraça nossa tivéssemos errado o caminho do céu.

Por isso exorta-nos o apóstolo São Paulo a que nos empenhemos na obra da salvação com temor e tremor, isto é, com medo de a perdermos: Cum metu et tremore vestram salutem operamini (4). Este medo fará com que andemos com cautela no caminho do céu e fujamos das ocasiões perigosas e nos recomendemos continuamente a Deus, e deste modo sermos salvos. Roguemos ao Senhor, queira gravar bem fundo em nosso espírito este pensamento, que do último suspiro na hora da morte dependerá o sermos eternamente bem-aventurados ou eternamente desgraçados sem esperança de remédio.

Ó meu Deus, tenho muitas vezes desprezado a vossa graça; mas o Profeta assegura-me que sois misericordioso para com aquele que Vos procura: Bonus est Dominus animae quaerenti illum (5). Outrora fugia de Vós, mas agora Vos procuro; não desejo e não amo senão a Vós; por piedade, não me desprezeis, lembrai-Vos do sangue que por mim derramastes. Esse sangue e a vossa intercessão, ó Mãe de Deus, Maria, são todas as minhas esperanças.

Referências:

(1) Mt 6, 19
(2) Eclo 7, 19
(3) Sb 5, 6
(4) Fl 2, 12
(5) Lm 3, 25

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 62-64)


terça-feira, 27 de abril de 2021

A Alegria como arma contra o Diabo segundo São Francisco de Assis

 

São Francisco afirmava: «Contra todas as maquinações e ardis do inimigo, a minha melhor defesa continua a ser o espírito da alegria. O diabo nunca fica tão contente como quando consegue arrebatar a alegria à alma de um servo de Deus. Ele tem sempre uma reserva de poeira que sopra na consciência através de qualquer orifício, para tornar opaco o que é límpido; mas em vão tenta introduzir o seu veneno mortal num coração repleto de alegria. Os demónios não podem nada contra um servo de Cristo que encontram repleto de santa alegria; enquanto uma alma desgostosa, melancólica e deprimida se deixa facilmente submergir pela tristeza ou absorver por prazeres enganosos.»

Eis por que ele mesmo se esforçava por manter sempre o coração alegre, por conservar esse óleo da alegria com o qual a sua alma tinha sido ungida (Sl 44, 8). Tinha grande cuidado em evitar a tristeza, a pior das doenças, e, quando sentia que ela se começava a infiltrar na sua alma, recorria imediatamente à oração. «À primeira perturbação, dizia ele, o servo de Deus deve levantar-se, pôr-se em oração e permanecer diante do Pai até que Ele lhe faça recuperar a alegria própria daquele que foi salvo» (Sl 50,14).

Com os meus próprios olhos o vi eu por vezes apanhar do chão um pedaço de madeira, colocá-lo sobre o braço esquerdo e raspá-lo com um pau como se tocasse com o arco na viola; assim, fazia de conta que acompanhava [com música] os louvores que cantava ao Senhor em francês.

Tomás Celano in 'Vita Secunda de São Francisco', §§ 125 e 127




Confiai a Deus todas as vossas preocupações


Quem fala mal a um pobre injuria a Cristo


A Primeira Regra de São Francisco de Assis






segunda-feira, 26 de abril de 2021

Da Tibieza

 


Quia tepidus es, et nec frigidus nec calidus, incipiam te evomere ex ore meo – “Porque és morno, e nem frio nem quente, começarei a vomitar-te da minha boca” (Ap 3, 16)


Sumário. A verdadeira tibieza consiste em que a alma cai em pecados veniais plenamente voluntários, dos quais pouco se arrepende, e que menos ainda se esforça por evitar, dizendo que são coisas de pouca monta. Temamos cair nesta tibieza, porque é semelhante à febre héctica, que não inspira muito cuidado, mas é tão maligna que não deixa quase esperança de cura. Infeliz da alma que faz as pazes com os pecados, posto que leves; a desgraçada irá de mal a pior. Sendo ela tão avarenta para com Deus, como pode pretender que o Senhor seja liberal para com ela?


I. Há duas espécies de tibieza, uma inevitável, outra evitável. A inevitável é a da qual na vida presente nem conseguem isentar-se as almas espirituais, que pela fragilidade humana não podem evitar que não caiam de vez em quando, sem vontade plenamente deliberada, em alguma falta leve. Desta espécie de culpas nenhum homem pode ficar livre sem uma graça especialíssima, que foi somente concedida à Mãe de Deus, porque a nossa natureza humana ficou corrompida pelo pecado original. – Deus permite tais manchas até mesmo nos Santos, para conservá-los humildes. Muitas vezes sentem-se estes frios, aborrecidos e desgostosos em seus exercícios de devoção, e em semelhante tempo de aridez caem facilmente em muitos defeitos, ao menos indeliberados.


Quem estiver em tal estado, não omita as suas devoções habituais, nem perca o ânimo, nem creia que já caiu na tibieza, porque isso não é propriamente tibieza. A tibieza verdadeira e deplorável é a que faz a alma cair em pecados veniais plenamente refletidos, de que quase não se arrepende e que se esforça menos ainda por evitar, sob o pretexto de que são coisas de pouca monta o ofender a Deus? Dizia Santa Teresa a suas religiosas: Minhas filhas, Deus vos livre do pecado cometido refletidamente, por leve que ele seja.


Dizem: os pecados veniais não nos privam da graça de Deus. Quem fala desta maneira, está em grande perigo de ver-se um dia cair em pecado mortal e privado da graça divina. Escreve São Gregório, que quem cai em pecados veniais deliberados e habituais sem fazer caso deles e sem pensar em emendar-se, nunca para no sítio em que caiu, mas afinal cairá no precipício: Nunquam illic anima quo cadit iacet. – As enfermidades mortais não provêm sempre de graves desordens, mas de muitas desordens leves e continuadas. Do mesmo modo a queda de certas almas em pecados graves, muitas vezes provem do hábito de pecar venialmente, pois este torna a alma tão débil, que, quando assaltada por alguma tentação mais forte, não tem força para resistir, e cai.


II. Que spernit modica, paulatim decidet (1) – “Quem despreza as coisas pequenas, de pouco a pouco cairá”. Quem não faz caso das quedas leves, facilmente se verá um dia caído num precipício. Diz o Senhor: Porque és tépido, começarei a vomitar-te de minha boca (2). Estou a vomitar-te, quer dizer, para abandonar-te, ou ao menos te privarei dos auxílios divinos especiais que são necessários para te conservar na graça. – Compreendamos bem este ponto. O Concílio de Trento condena àquele que diz que nós podemos perseverar na graça sem um auxílio especial e extraordinário de Deus; mas este auxílio especial Deus o negará com justiça àquele que comete de olhos abertos pecados veniais, sem fazer caso deles. Qui parce seminat parce et metet (3) – “Quem pouco semeia, pouco colhe”. Se nós formos avarentos para com Deus, como podemos esperar que Deus seja liberal para conosco?


Infeliz, portanto, da alma que fez as pazes com os pecados, posto que veniais; irá de mal a pior. As paixões, arraigando-se cada vez mais, facilmente obcecarão a alma, e um cego facilmente cairá num precipício, quando menos o suspeita. Temamos, pois, cair na tibieza. A tibieza voluntária é qual febre héctica, que inspira pouco cuidado, mas é tão maligna, que dificilmente dela se sara.


Senhor, tende piedade de mim. Vejo que já mereço ser vomitado por Vós por causa das muitas imperfeições com que Vos sirvo. Ai de mim! É por isso que me vejo sem amor, sem confiança, e sem desejos. Meu Jesus, não me abandoneis; estendei a vossa mão poderosa e tirai-me do abismo da tibieza em que caí. Fazei-o pelos méritos de vossa Paixão, na qual confio. – Virgem Santíssima, os vossos rogos podem levantar-me; rogai por mim (4).


Referências:


(1) Eclo 19, 1

(2) Ap 3, 16

(3) 2 Cor 9, 6

(4) “Posto que seja difícil um tíbio emendar-se, não faltam remédios para os que quiserem usar deles. Estes remédios são:

1. Resolver-se a sair a todo custo de tão lastimoso estado.

2. Fugir das ocasiões das quedas, sem o que não há esperança de emenda.

3. Recomendar-se frequentemente a Deus, pedir-Lhe fervorosamente que dê forças para livrar-se de um estado tão deplorável; e não deixar de rezar, enquanto se não esteja inteiramente fora de todo o perigo.”

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Da coração depende a nossa salvação

 



Si quis vestrum indiget sapientia, postulet a Deo, qui dat omnibus affluenter, et non improperat – “Se alguém de vós necessita de sabedoria, suplique-a de Deus, que a todos dá liberalmente, e não impropera” (Tg 1, 5)


Sumário. A oração é não só útil à salvação, mas mesmo necessária, porque de um lado somos incapazes de fazer obras boas sem o auxílio de Deus, e do outro, o Senhor, ainda que nos queira dar este auxílio, de ordinário não o dá senão a quem ora. Se, pois, queremos salvar-nos, devemos orar até à morte, pois desde que cessemos de orar, estaremos perdidos. Devemos orar não só por nós mesmos, como também pelo próximo e especialmente pelos pecadores e pelas almas do purgatório..


I. A oração não só é útil à salvação, mas também necessária. Pelo que Deus, querendo salvar-nos, nos impõe o preceito da oração: Oportet semper orare et non deficere (1) — “Importa orar sempre e não cessar”. A razão desta necessidade de nos recomendarmos muitas vezes a Deus, baseia-se na nossa impotência para fazer, sem o auxílio divino, uma boa obra qualquer (2), mesmo para concebermos algum bom pensamento (3), e daí para nos defender contra o demônio, que não deixa de andar ao redor de nós para nos tragar.


É verdade; foi erro de Jansênio, condenado pela Igreja, o dizer que nos é impossível guardar certos mandamentos e que algumas vezes nos falta a graça para podermos observá-los. Deus é fiel, diz São Paulo, e não permitirá que sejamos tentados acima de nossas forças (4). Mas é igualmente verdade que Deus quer ser rogado; quer que nas tentações a Ele recorramos a fim de obtermos a graça para resistir. “Deus quer dar as suas graças”, diz Santo Agostinho, “mas, especialmente no tocante à perseverança, não a dará senão a quem a pedir.” E em outra parte acrescenta: “Lex data est, ut gratia quaereretur; gratia data est, ut lex impleretur — A lei foi dada para que se procure a graça; a graça foi dada para que se cumpra a lei”. O que exprimiu muito bem o Concilio de Trento quando disse: “Deus não manda coisas impossíveis; mas mandando, exorta-nos a que façamos o que está ao nosso alcance, e que peçamos o que excede nossas forças, a fim de que possa vir em nosso auxílio.” (5)


Numa palavra, o Senhor está todo disposto a dar-nos o seu auxílio, para não sermos vencidos; mas só dá este auxílio àqueles que o invocam no tempo das tentações, especialmente nas tentações contra a castidade, como disse o Sábio: Et ut scivi, quoniam aliter non possem esse continens, nisi Deus det… adii Dominum et deprecatus sum illum (6) — “Como eu sabia que de outra maneira não podia ter continência, se Deus ma não desse… recorri ao Senhor, e fiz-Lhe a minha súplica”.


II. Oremos, pois, e oremos com confiança. Jesus Cristo está agora assentado num trono de graças para consolar a todos os que a Ele recorrem e diz: Petite et dabitur vobis (7) — “Pedi e ser-vos-á dado”. No dia do juízo Jesus estará também assentado num trono, mas num trono de justiça. Que loucura seria a daquele que, podendo ser aliviado de suas misérias indo agora a Jesus, que oferece as suas graças, quisesse somente dirigir-se a Ele quando for juiz e não tiver mais misericórdia?


Avisa-nos São Tiago: “Se alguém de vós necessita de sabedoria, suplique-a de Deus, que a todos dá liberalmente, e não impropera… Mas suplique com fé, nada duvidando.” Por sabedoria se entende aqui o saber salvar a alma, e para que tenhamos tal sabedoria, se diz que devemos pedi-la a Deus. E Deus nô-la dará, e nô-la dará superabundantemente, mais do que nós pedimos. — Se quisermos salvar-nos, é mister que até à morte oremos, dizendo: Meu Deus, ajudai-me! † Meu Jesus, misericórdia! † Doce Coração de Maria, sede minha salvação! — No dia em que deixamos de rezar, estaremos perdidos.


Roguemos por nós mesmos e pelos pecadores, especialmente pelos que estão em agonia e hão de morrer neste dia. Esta oração agrada muito a Deus. Roguemos também cada dia pelas almas do purgatório; estas santas prisioneiras são em extremo gratas a quem ora por elas. — Em todas as nossas orações, peçamos a Deus as graças pelos merecimentos de Jesus Cristo, porquanto Ele mesmo nos ensina que nos será dado tudo quanto pedirmos a Deus em seu nome: Amen, amen, dico vobis: si quid petieritis Patrem in nomine meo, dabit vobis (8) — “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu nome, Ele vô-la dará”.


— Meu Deus, eis o que antes de tudo Vos peço pelos méritos de Jesus Cristo: fazei que em toda a minha vida, e especialmente no tempo das tentações, me recomende a Vós e implore o vosso auxílio por amor de Jesus e Maria. — Virgem Santíssima, obtende-me esta graça, da qual depende a minha salvação.


Referências:


(1) Lc 18, 1

(2) Jo 15, 5

(3) 2 Cor 3, 5

(4) 1 Cor 10, 13

(5) Sess. 6, c. 11.

(6) Sb 8, 21

(7) Mt 7, 7

(8) Jo 16, 23

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Motivos que temos de honrar a São José

 



Constituit eum dominum domus suae, et principem omnis possessionis suae – “Constituiu-o senhor de sua casa, e príncipe de tudo que possuía” (Sl 104, 21)

Sumário. Tomemos a São José por nosso protetor especial e não nos esqueçamos de honrá-lo cada dia e de nos recomendar a ele. Honrando ao santo Patriarca, imitaremos os exemplos de Jesus e Maria, que foram os primeiros a honrarem-no sobre esta terra. Além disso, pelo intermédio do Santo obteremos os favores mais assinalados, porquanto a experiência demonstra que São José obtém de Deus para seus devotos tudo que quer e os socorre em suas necessidades..

I. O exemplo de Jesus Cristo, que nesta terra quis honrar tão grandemente a São José, era bastante para inspirar a todos uma grande devoção a este preclaro Santo. Desde que o Pai Eterno designou São José para fazer as suas vezes juntos de Jesus, Jesus sempre o considerou e o respeitou como pai, obedecendo-lhe pelo espaço de vinte e cinco ou trinta anos: Et erat subditus illis (1) — E lhes estava sujeito. O que quer dizer que em toda aquela série de anos a única ocupação do Redentor foi obedecer a Maria e a José.

A José competia em todo aquele tempo exercer o ofício de governar, como cabeça que era da pequena família; a Jesus, como súdito, o ofício de obedecer. De sorte que Jesus não dava um passo, não praticava coisa alguma, não tomava alimento, não ia repousar, senão segundo as ordens de São José. Punha a mais atenciosa diligência em escutar e executar tudo o que lhe era imposto. — “O meu Filho”, assim revelou o Senhor a Santa Brígida, “era tão obediente, que quando José dizia: Faze isto, ou faze aquilo, logo o executava.” E Gerson acrescenta que em Nazaré “Jesus muitas vezes preparava a comida, buscava água, lavava a vasilha, mesmo varria a casa”.

Esta humilde obediência de Jesus ensina-nos que a dignidade de São José é superior à de todos os Santos, exceção feita da divina Mãe. Pelo que um douto autor escreve com razão: “É justíssimo que seja muito honrado pelos homens aquele que de tal maneira foi elevado pelo Rei dos reis.” (2) — Jesus mesmo recomendou a Santa Margarida de Cortona que fosse particularmente devota de São José, por ser ele quem o alimentou em sua vida: “Eu quero”, disse-lhe (e imaginemos que nos diz o mesmo), “que cada dia pratiques algum obséquio especial a meu amantíssimo pai nutrício, São José.

II. Para compreendermos as grandes mercês que São José faz aos seus devotos, basta referir o que a este respeito diz Santa Teresa:

Não me lembro (é a Santa quem fala) de lhe ter pedido alguma coisa sem que ma tenha obtido. Causaria assombro se eu enumerasse todas as graças que o Senhor me concedeu por intermédio deste Santo, e todos os perigos, tanto para o corpo como para a alma, dos quais me livrou. Aos demais Santos parece que o Senhor lhes deu o serem protetores numa só necessidade particular; a experiência, porém, faz ver que São José é protetor universal. Parece que Jesus nos quer dar a entender que, assim como ele na terra se submeteu voluntariamente a São José, também no céu faz tudo que o Santo lhe pede. O mesmo conheceram também outras pessoas, às quais aconselhei que se lhe recomendassem.

“Quisera persuadir a todos (continua a Santa) a serem devotos deste Santo, pela experiência adquirida dos grandes favores que ele obtém de Deus. Não conheço pessoa que honrando-o de uma maneira particular, não se visse progredir muito na virtude. Desde muitos anos lhe peço na sua festa uma graça especial e sempre a tenho conseguido. A quem não me quiser crer, peço pelo amor de Deus que faça a experiência.

Tomemos pois”, exorta-nos Gerson, “tomemos São José por nosso especial protetor e poderoso intercessor”, e não deixemos de nos recomendar-lhe cada dia e várias vezes por dia. Multipliquemos as nossas orações nestes dias de sua festa, pratiquemos em sua honra alguma mortificação e digamos muitas vezes:

 “Lembrai-vos, ó puríssimo Esposo de Maria Virgem, ó doce Protetor meu São José, que jamais se ouviu dizer que alguém tivesse invocado a vossa proteção, e implorado o vosso socorro, e não fosse por vós consolado. Com esta confiança, venho à vossa presença, a vós fervorosamente me recomendo. Ah! Não desprezeis a minha súplica, pai putativo do Redentor, mas dignai-vos de a acolher piedosamente. Assim seja.” (3)

Referências:

(1) Lc 2, 51
(2) Card. Camer.
(3) Indulg. de 300 dias.


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 39-42)