terça-feira, 27 de julho de 2021

A morte dos Santos é preciosa

 

Corpo Incorruputo de Santa Teresa de Liseux

Corpo Incorruputo de Santa Teresa de Liseux

Pretiosa in conspectu Domini mors sanctorum eius – “Preciosa é aos olhos do Senhor a morte de seus Santos” (Sl 115, 5)

Sumário. A morte assusta os pecadores, que sabem que da primeira morte, do estado de pecado, passarão à segunda, que é eterna. A morte é, porém, o consolo das almas boas, que, confiadas nos merecimentos de Jesus Cristo, tem indícios suficientes para estarem moralmente certas de se achar na graça de Deus. Para estas a morte é preciosa, porque é um repouso suave depois das angústias padecidas no combate contra as tentações, ou em aplacar os temores e os escrúpulos de desagradar ao Senhor. Oh, que consolo poder dizer: Nunca mais ofenderei ao meu Deus!

I. A morte assusta os pecadores, que sabem que da primeira morte, do estado de pecado, passarão à segunda, que é eterna. Não amedronta, porém, as almas boas, que, confiadas nos méritos de Jesus Cristo, têm suficientes indícios para terem certeza moral de que se acham na graça de Deus. – Por isso aquele Proficiscere: Parte, ó alma, deste mundo, que tanto perturba os que morrem contra a sua vontade, não perturba os santos, que desprenderam o coração de todo o amor terrestre e com todas as verás sempre disseram: Deus meus et omnia – “Meu Deus e meu tudo”.

Para estes a morte não é um tormento, mas o repouso depois das angústias padecidas no combate contra as tentações e das inquietações causadas pelos escrúpulos e temores de ofender a Deus. Neles se realiza o que escreve São João:

Beati mortui qui in Domino moriuntur! Amodo iam dicit Spiritus: ut requiescant a laboribus suis (1) – “Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor! Desde agora diz o Espírito que descansem de seus trabalhos”.

– Quem morre no amor de Deus, não se perturba pelas dores que acompanham a morte; muito ao contrário, nelas se compraz, oferecendo-as a Deus como os últimos restos da sua vida. Oh! Que paz tão profunda goza o que morre resignado, abraçado com Jesus Cristo, que escolheu para si uma morte amargosa e desolada, a fim de nos obter uma morte suave e resignada!

Ó meu Jesus, Vós sois meu Juiz, mas sois também meu Redentor, que morreu para me salvar. Não era mais digno de Vos amar, mas, pelos vossos benefícios, me atraístes a vosso amor. Se é vossa vontade que eu morra desta doença, de boa mente aceito a morte. Sei que não mereço entrar logo no céu; contente estou de ir ao purgatório para ali padecer quanto Vos agrada. A minha pena mais grave será ver-me longe de Vós, suspirando por ir ver-Vos e amar-vos face a face. Portanto, meu amado Salvador, tende piedade de mim.

II. Não se pode viver nesta vida sem culpas. Eis o motivo porque as almas amantes de Deus desejam a morte. Este pensamento enchia o Padre Vicente Carafa de consolação na hora da morte; ele disse: “Visto que acabo de viver, acabo de ofender ao meu Deus”. Certa pessoa mandou, aos que a assistiam, que na hora da morte lhe repetissem muitas vezes estas palavras: Consola-te, visto ter chegado o tempo em que não poderás mais ofender a teu Senhor.

Com efeito, o que é para nós nosso corpo senão uma prisão, na qual a alma está encarcerada sem poder unir-se a seu Deus? Pelo que o amante São Francisco exclamou na hora da morte, com o Profeta: Educ de custodia animam meam (2) – Senhor, livrai-me a alma deste cárcere que a impede de Vos contemplar. – São Pionio Mártir, quando já estava ao pé do patíbulo, mostrou-se tão alegre, que as pessoas presentes, admiradas de tão grande alegria, lhe perguntaram, como é que podia estar tão radiante de alegria, estando tão próximo da morte. “Estais enganados”, respondeu o Santo, “eu não vou à morte, mas à vida que me fará viver eternamente.”

Meu dulcíssimo Jesus, graças Vos dou por não me terdes deixado morrer quando estava em vossa desgraça e por Vos haverdes conquistado meu coração pela grande bondade que tivestes para comigo. Quando penso nos desgostos que Vos causei, quereria morrer de dor. Em vossas mãos deposito a minha alma que já estava perdida. Lembrai-Vos, Senhor, de que a resgatastes com o preço de vossa morte: Redemisti me, Domine, Deus veritatis (3). – Amo-Vos, ó bondade infinita, e desejo sair já deste mundo para Vos ir amar com amor mais perfeito no céu. Mas, enquanto ficar ainda nesta terra, fazei-me sempre conhecer melhor a obrigação que tenho de Vos amar. Meu Deus, dignai-Vos aceitar-me: sou todo vosso, a Vós me consagro e em Vós confio pelos merecimentos de Jesus Cristo. – Ó Maria, minha esperança, confio também na vossa intercessão.

Referências:

(1) Ap 14, 13
(2) Sl 114, 8
(3) Sl 30, 6

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 290-293)

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Importância do último fim

 

Caverna em que viveu São Bento

Caverna em que viveu São Bento

Quid prodest homini, si mundum universum lucretur, animae vero suae detrimentum patiatur? – “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma?” (Mt 16, 26)

Sumário. Eis aí o negócio de todos os negócios, o único importante, o único necessário: o serviço de Deus e a salvação da alma. Quem se salvar, será feliz para sempre e gozará no céu toda a sorte de bens; ao contrário, quem se condenar, será para sempre desgraçado e sofrerá no inferno toda a sorte de males. Mas, como é que este tão importante negócio é tão descuidado da maior parte dos homens?… Ah, meu irmão não sejamos nós do número desses insensatos e não imaginemos que possamos fazer acordar o céu com os pecados.

I. Contempla, meu irmão, de quão grande importância é para ti o conseguires teu último fim. É de uma importância suprema; pois que, se o alcançares e te salvares, serás feliz para sempre, gozarás na alma e no corpo toda a sorte de bens; se, porém, o errares, perderás a alma e o corpo, o céu e Deus; serás eternamente infeliz e condenado para sempre. É este, portanto, o negócio entre todos os negócios, o único importante, o único necessário: Servir a Deus e salvar a alma.

Portanto, meu irmão, não digas mais:

“Por enquanto quero viver para minhas satisfações; mais tarde me darei a Deus e assim espero salvar-me.”

Quantos não foram levados ao inferno por esta falsa esperança! Eles também falavam assim e agora foram condenados e não há mais remédio para eles. – Qual o condenado que se quis condenar? Deus, porém, amaldiçoa ao que peca com a esperança do perdão: Maledictus homo qui peccat in spe. Tu dizes: quero cometer este pecado e depois o confessarei. Mas quem sabe se haverá tempo: quem te garante que não hás de morrer logo depois do pecado? Tu perdes a graça de Deus; e que será se não a puderes mais adquirir? Deus usa de misericórdia com aquele que o teme, não com aquele que o despreza: Et misericórdia eius timentibus eum (1) – “Sua misericórdia é par aos que o temem”.

Não digas mais: com igual facilidade confesso dois pecados como três; não, porque Deus te perdoará dois pecados e não três. Deus suporta, mas não suporta sempre: ut in plenitudine peccatorum puniat (2) – “Afim de castigar na plenitude dos pecados”. Quando estiver cheia a medida, Deus não perdoa mais e castiga ou com a morte, ou com o abandono do pecador, de modo que, ruindo de pecado em pecado, se precipita no inferno. Tal abandono é castigo pior do que a morte.

– Meu irmão, repara bem no que estás lendo. Põe um termo à vida de pecado e consagra-te a Deus, receia que não seja agora o último aviso que Deus te dá. Basta de ofensas; basta de tolerância da parte de Deus. Teme que depois de mais um pecado mortal, Deus talvez não queira mais perdoar-te. Olha, que se trata da alma, que se trata da eternidade.

Este grande pensamento da eternidade – a quantos não fez desapegar-se do mundo, a quantos não fez irem viver num claustro, num deserto ou numa gruta!

II. Considera que o negócio da salvação eterna é o mais descuidado. Pensa-se em todas as coisas, exceto na salvação. Há tempo para tudo, exceto para Deus. Aconselhe-se a uma pessoa mundana que frequente os sacramentos, que faça cada dia meia hora de oração. Responde: Tenho filhos, tenho sobrinhos, tenho propriedades, tenho negócios a tratar. Ó céus! E não tens uma alma? Pois, chama tuas riquezas, chama teus filhos ou sobrinhos para virem em teu auxílio na hora da morte e te livrarem do inferno, se vieres a condenar-te.

Não imagines que possas fazer ir de acordo Deus e o mundo, o céu e os pecados. A salvação não é um negócio que se possa tratar por alto; mister é que te faças violência, mister é que empenhes todas as tuas forças, se quiseres ganhar a coroa imortal. Quantos cristãos se iludiram com a ideia de que mais tarde serviriam a Deus e se salvariam e agora estão no inferno! Que loucura, pensar sempre no que passa tão breve e pensar tão pouco no que nunca terá fim!

Ah! Meu irmão, não sejas do número daqueles insensatos. Se no passado te descuidaste da salvação, começa ao menos agora a pensar seriamente em tua sorte e dize a ti mesmo: tenho uma alma só; se a perder, terei perdido tudo. Tenho uma alma só; se à custa desta minha alma ganhasse o mundo, de que me serviria? Se me tornar uma celebridade, mas perder minha alma, de que me aproveitara? Se amontoar riquezas e engrandecer minhas casa, mas perder a alma, que proveito tirarei? De que serviram as grandezas, os prazeres, as vaidades a tantos que viveram neste mundo e agora ficaram reduzidos a pó numa cova, enquanto sua alma foi relegada ao fundo do inferno? – Se, pois, a alma é minha, se tenho uma alma só, se, perdendo-a uma vez, perco-a para sempre, devo pensar bem seriamente em minha salvação. Este negócio é supremamente importante. Trata-se de ser ou sempre feliz ou sempre infeliz.

Ó meu Deus, confesso, para minha confusão, que até agora fui cego e errei longe de Vos; não pensei em salvar a minha única alma. Ó Pai celestial, salvai-me, pelos méritos de Jesus Cristo: ficarei satisfeito perdendo todas as coisas, contanto que não Vos perca, ó Deus meu! – Maria, minha esperança, salvai-me pela vossa intercessão.

Referências:

(1) Lc 1, 50
(2) 2 Mac 6, 14

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 288-290)

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Desejo de Jesus de sofrer por nós

 

Sofrimento de Cristo (por Sergejbag, DevianArt)

Sofrimento de Cristo (por Sergejbag, DevianArt)

Baptismo habeo baptizari: et quomodo coarctor, usque dum perficiatur? – “Tenho de ser batizado com um batismo: e quão grande não é a minha ansiedade até que ele se cumpra” (Lc 12, 50)

Sumário. Sendo o sofrimento suportado pela pessoa amada a prova mais patente do amor, e o que mais cativa o amor da pessoa amada, nosso Senhor suspirou em todo o correr de sua vida pelo dia em que havia de ser batizado com o seu próprio sangue. Na véspera da sua Paixão foi ele mesmo ao encontro dos seus inimigos, como se viessem para o levarem, não ao suplício, mas à posse de um grande reino. Ó amor imenso de Jesus! E todavia, este amor é tão mal correspondido pela maior parte dos homens!

I. É excessivamente terna, amorosa e constrangedora a declaração que o nosso Redentor fez acerca dos motivos da sua vinda à terra, quando disse que tinha vindo para acender nas almas o fogo do divino amor, e que tinha o vivíssimo desejo de ver esta santa chama acender-se em todos os corações dos homens: Ignem veni mittere in terram, et quid volo nisi ut accendatur? (1)

E porque o padecer pela pessoa amada patenteia melhor o amor do objeto amado, Jesus Cristo logo em seguida acrescentou que esperava ser batizado com o batismo do seu próprio sangue, afim de lavar os nossos pecados, pelos quais tinha vindo satisfazer com as suas penas: Baptismo habeo baptizari. Para nos fazer compreender todo o ardor do desejo que tinha de morrer por nós, disse, com as mais doces expressões de amor, que experimentava vivas ânsias pela chegada do tempo em que devia cumprir-se a sua Paixão: Et quomodo coarctor usque dum perficiatur!

Mas ouçamos o que disse o Senhor na noite bem-aventurada que precedeu a sua Paixão, na véspera de ser sacrificado sobre o altar da cruz: “Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco” – Desiderio desideravi hoc pascha manducare vobiscum (2). São Lourenço Justiniano, meditando nestas palavras, diz que elas foram todas expressões de amor. É como se nosso amável Redentor tivesse dito: Homens, sabei que esta noite começará a minha paixão e o tempo de minha vida pelo qual tenho suspirado mais, porque é agora que pelos meus padecimentos e pela minha morte cruel vos farei conhecer quanto vos amo, e assim vos obrigarei, o mais que me é possível, a me amardes. – Um autor diz que na Paixão de Jesus a onipotência divina se uniu com o amor. O amor quis amar o homem com toda a extensão da onipotência e a onipotência quis secundar o amor em toda a extensão de seu desejo.

II. O desejo que tinha Jesus de sofrer por nós foi tão grande que, na noite que precedeu a sua morte, não somente foi por sua livre vontade ao horto, onde sabia que os judeus haviam de o vir prender; mas ainda, sabendo que o traidor Judas se aproximava acompanhado dos soldados, disse a seus discípulos: Levantai-vos, vamos; eis aí que se aproxima o que me entregará: Surgite; eamus: ecce qui me tradet, prope est (3).

Estando já pregado na cruz, Jesus disse que tinha sede: Sitio. Com esta palavra, na explicação de Santo Tomás com São Lourenço Justiniano, nosso divino Salvador quis manifestar-nos menos a sede do seu corpo, que o desejo que tinha de padecer por nós, mostrando-nos por tantos sofrimentos o seu amor, juntamente com o desejo de ser amado por nós.

Ó Deus, abrasado em amor pelos homens, que podíeis dizer e fazer mais, para me por na necessidade de Vos amar? E que vantagem podia trazer-Vos o meu amor, se para o obter quisestes morrer e tanto suspirastes pela vossa morte? Se um dos meus servos houvesse somente desejado morrer por mim, teria ele adquirido o meu amor; e poderei viver sem Vos amar de todo o meu coração, a Vós, meu Rei e meu Deus, que morrestes por mim, e tanto desejastes morrer a fim de conquistar o meu amor?

Ó meu amabilíssimo Redentor, não quero mais resistir às finezas do vosso amor; eu Vos dou todo o meu amor. Entre todas as coisas, Vós sois e haveis de ser sempre o único bem amado de minha alma. Vós vos fizestes homem para terdes uma vida a dar por mim; eu queria ter mil vidas a sacrificar por Vós. Amo-Vos, bondade infinita, e quero amar-Vos com todas as minhas forças. Quero fazer tudo quanto possa para Vos agradar. Fortalecei, ó meu Jesus, este desejo que Vós mesmo me inspirais. Fazei-o pelo amor da vossa e minha querida Mãe, Maria.

Referências:

(1) Lc 12, 49
(2) Lc 22, 15
(3) Mc 24, 52

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 280-283)

sábado, 17 de julho de 2021

SOBRE O MOTU PROPRIO DO PAPA FRANCISCO SOBRE A MISSA TRIDENTINA

 

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E agora, o que será feito? Como ficará a questão da Missa Tridentina das capelas que rezam segundo o Motu Próprio de Bento XVI? O que vocês têm a dizer?

Primeiramente devemos lembrar que isso em nada muda o trabalho da FSSPX com a Missa e a verdadeira fé católica.

Em segundo lugar vamos aguardar se haverá um pronunciamento oficial da FSSPX sobre essa questão.

Em terceiro lugar quem deve responder diretamente essa pergunta não somos nós, mas sim os neoconservadores. Eles que deverão sair de cima do muro.

Porém, nesse momento, para poder elucidar um pouco a questão, disponibilizaremos alguns textos já publicados aqui no blog que poderão dar uma noção sobre o assunto:

DEVE-SE TEMER UMA AMEAÇA À MISSA TRADICIONAL?

É A MESMA MISSA TRIDENTINA? SIM, MAS NAO O MESMO COMBATE!

CATECISMO DAS VERDADES OPORTUNAS: OS “RALLIÉS”, VISTOS POR MONS. LEFEBVRE

A GRANDE LACUNA DOS CONSERVADORES

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Rezemos para que esses que estão ligados apenas à Missa e não a fé integral ( aqueles da “forma extraordinária”) consigam dar um “passo à frente” em relação à Tradição,  pois nós que saímos do Motu Proprio em 2013 conhecemos, e muito bem, todas as artimanhas desse processo.

sábado, 10 de julho de 2021

Maria Santíssima é a medianeira dos pecadores para com Deus

 



Facta sum coram eo quasi pacem reperiens – “Tenho-me tornado na sua presença como uma que acha a paz” (Ct 8, 10)

Sumário. É com razão que Maria Santíssima é comparada ao íris; porque é a medianeira e o penhor da paz entre Deus e os homens. Com efeito, quantos pecadores que agora são grandes Santos no céu, estariam talvez ardendo no inferno, se Maria não tivesse intercedido junto ao Filho para lhes obter perdão! Seja qual for o estado da nossa alma, recorramos com confiança a esta querida Mãe e seremos salvos. Lembremo-nos, porém, que para merecermos a sua proteção especial, é preciso que tenhamos ao menos a vontade de nos emendar.

I. O principal ofício que foi dado a Maria, quando veio à terra, consistiu em levantar as almas decaídas da graça divina e reconciliá-las com Deus. Eis como o Espírito Santo a faz falar nos sagrados Cânticos: Eu me tornei diante dele como uma que achou a paz. Eu sou, diz Maria, a defesa daqueles que a mim recorrem, e a minha misericórdia é, em benefício deles, como uma torre de refúgio, porque o Senhor me fez medianeira de paz entre os pecadores e Deus. — Oh, quantos daqueles que são agora grandes Santos no paraíso, estariam talvez a arder no inferno, se a Virgem não tivesse intercedido junto ao Filho para lhes obter perdão!

Por isso, os Santos Padres comparam Maria Santíssima, não só com a arca de Noé, onde acharam abrigo todos os animais, figuras dos pecadores; mas ainda com a pomba, que, saída da arca, para ela voltou, trazendo no bico o ramo de oliveira, em sinal da paz que Deus concedia aos homens.

Foi também figura expressiva de Maria o iris, que, na visão de São João, cercava o trono de Deus: Et iris erat in circuitu sedis (Apoc 4, 3). Sim, porque, na explicação de um intérprete, a Santa Virgem sempre assiste no tribunal divino para mitigar a sentença e o castigo devido aos pecadores; ou ainda, porque, segundo diz São Bernardino de Sena, como Deus à vista do arco-íris se lembra da paz prometida à terra, assim também, pelos rogos de Maria, perdoa aos pecadores as ofensas feitas, e faz pazes com eles.

Tinha, pois, São Bernardo razão de exclamar: Age gratias ei, qui talem tibi mediatricem providit — «Rende graças a Deus que te concedeu tal medianeira». Ó pecador, por muito que estejas enlodado de culpas, e envelhecido no pecado, não desconfies. Dá graças a teu Senhor, que, para usar contigo de misericórdia, não só te deu o Filho por advogado, mas para te inspirar mais ânimo e confiança, te concedeu uma medianeira, que com seus rogos obtém tudo que quer. Vai, recorre a Maria, com a vontade de te emendar, e serás salvo.

II. Dulcíssima Soberana, se é vosso ofício interpor-Vos como medianeira entre Deus e os pecadores, permiti que Vos diga com Santo Tomás de Vilanova: Advocata nostra, officium tuum imple — «Ó advogada nossa, cumpri o vosso ofício também para comigo». Não me digais que minha causa é muito difícil de ganhar; porque sei, e todo o mundo m’o afirma, que nunca uma causa, por desesperada que parecesse, se perdeu quando vos teve por defensora. Só a minha correria risco? Não, não o temo.

Sem dúvida, se não considerasse senão a multidão dos meus pecados, devera temer que vos escusásseis a me defender. Mas considerando, ó Maria, a vossa imensa misericórdia, e o extremo desejo que vive em vosso dulcíssimo Coração, de ajudar os pecadores mais perdidos, nem isso temo. Quem é que já se perdeu depois de ter recorrido a vós? Chamo-vos, pois, em meu socorro, ó minha poderosa advogada, meu refúgio, minha esperança e minha Mãe. A vossas mãos entrego a causa da minha salvação eterna; confio-vos a minha alma; ela estava perdida, mas a vós toca salvá-la. Não deixo de dar graças ao Senhor por me ter inspirado tão grande confiança em vós, a qual, não obstante a minha indignidade, me dá segurança de salvação.

Um só temor ainda me aflige, ó minha amadíssima Rainha; é perder um dia, por minha negligência, a confiança que tenho em vós. Suplico-vos, pois, ó Maria, pelo amor que tendes a vosso Jesus, conserveis e aumenteis em mim cada vez mais a doce confiança em vossa intercessão; ela com certeza me fará recobrar a amizade de Deus, que tão loucamente desprezei e perdi no passado. Uma vez recobrada esta amizade, espero conservá-la por vosso socorro, e, conservando-a, chegar ao paraíso, para vos render graças e cantar as misericórdias de Deus e as vossas, durante toda a eternidade.

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. )






segunda-feira, 5 de julho de 2021

Importância do último momento da vida

 



Mortuo homine impio, nulla erit ultra spes, et expectatio sollicitorum peribit – “Morto o homem ímpio, não restará mais esperança alguma e a expectação dos ambiciosos perecerá” (Pv 11, 7)


Sumário. Um pagão, a quem perguntaram qual era a melhor sorte neste mundo, respondeu: Uma boa morte. Que dirá, pois, o cristão, que sabe pela fé que nesse momento começa a eterna alegria ou o eterno sofrimento? Oh! De que importância é o último momento, a última respiração, o último cair do pano sobre o teatro do mundo! Que loucura, portanto, a nossa, se, por amor aos prazeres vis e passageiros deste mundo, nos expuséssemos ao perigo de morrermos de morte desgraçada e de irmos sofrer para sempre no inferno!


I. Que loucura! Por amor aos miseráveis e breves prazeres de tão curta vida, correr o risco de uma morte desgraçada e com esta principiar uma eternidade desgraçada! De que importância é o último momento, a última respiração, o último cair do pano sobre o teatro do mundo! Vale uma eternidade, ou de todas as alegrias, ou de todos os tormentos; uma vida, ou sempre feliz, ou sempre desgraçada! – Consideremos que Jesus Cristo quis morrer de morte tão ignominiosa e amarga para nos obter uma boa morte. Tantas vezes Ele nos convida, nos dá tantas luzes e nos avisa por tantas ameaças, afim de que nos determinemos a consumar o nosso último instante na graça de Deus!


Até um pagão, Antisthenes, a quem perguntaram qual era a melhor sorte neste mundo, respondeu: Uma boa morte. Que dirá, pois, um cristão, que sabe pela fé que então começa a eternidade, de forma que lhe cabe uma das duas sortes, ou a que traz a eterna alegria ou a que traz consigo o eterno sofrimento? – Se metessem num saco dois bilhetes, um com a palavra inferno, outro com a palavra céu e vos mandassem tirar a sorte, que precaução não tomaríeis para tirar a que vos desse direito ao céu? Como os desgraçados, condenados a jogar a vida, tremem ao estender a mão para lançar os dados, de cuja sorte depende a sua vida ou a sua morte!


Quais serão as tuas agonias, quando te aproximares desse último momento, quando tiveres de dizer: Do instante que se avizinha, depende a minha vida ou a minha morte eterna! Vai ser decidido se serei feliz para sempre ou desesperado para sempre! – São Bernardino de Sena conta que um príncipe, ao expirar, disse muito consternado: Eu que possuo tantas terras e palácios no mundo, não sei qual será a minha morada se vier a morrer esta noite! – meu Jesus, que será de mim no último instante da minha vida? Ah! Não me permitais que me perca e fique privado de Vós, meu único Bem.


II. Meu irmão, se acreditas que hás de morrer, que há uma eternidade, e que se morre só uma vez, porque não tomas a resolução de começar desde já, à hora em que lês estas reflexões, a fazer tudo que puderes para alcançares uma boa morte? Tremia um Santo André Avellino, dizendo: Quem sabe qual a sorte que me espera na outra vida? Tremia um São Luiz Bertram, e tremia de tal sorte, que não podia conciliar o sono, quando lhe vinha este pensamento: Quem sabe, se não te condenarás? – E tu, que tens talvez muitos pecados, não tremes?


Procura remediar em tempo e decide a dar-te a Deus com todas as veras; começa desde já uma vida que não te aflija, mas console na morte. Aplica-te à oração, frequenta os sacramentos, evita as ocasiões perigosas, e, se preciso for, deixa até o mundo, segura enfim a tua salvação eterna, e persuade-te de que, para segurar a tua salvação, não há precaução que seja exagerada.


Ó meu amado Salvador, quanto Vos sou obrigado! Como é que pudestes prodigalizar tantos benefícios a um ingrato, a um traidor, como eu tenho sido? Vós me criastes e, criando-me, já prevíeis as injúrias que Vos faria um dia. Morrendo por mim resgatastes-me e desde então prevíeis as minhas futuras ingratidões para convosco. Apenas entrado no mundo, voltei-Vos as costas e assim me entreguei à morte; mas Vós, por vossa graça, me restituístes à vida. Era cego, e Vós me iluminastes; tinha-Vos perdido, e Vós Vos deixastes achar por mim; era vosso inimigo e fizestes-me vosso amigo.


Ó Deus de misericórdia, fazei-me conhecer as obrigações que Vos tenho; e fazei-me chorar as ofensas que Vos fiz! Ah! Vingai-Vos de mim, dando-me uma grande dor dos meus pecados e não me castigueis privando-me da vossa graça e do vosso amor. – Ó Pai Eterno, aborreço e desteto soberanamente todas as injúrias que Vos fiz. Tende piedade de mim, por amor de Jesus Cristo. – Maria, minha Rainha e minha Mãe, ajudai-me com a vossa intercessão.

sábado, 3 de julho de 2021

Maria Santíssima, modelo de obediência

 


Ecce ancilla Domini: fiat mihi secundum verbum tuum – “Eis aqui a escrava do Senhor: faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38)

Sumário. A obediência de Maria foi incomparavelmente mais perfeita que a dos outros santos; porque, imune de todo labéo de culpa, ela era como que uma roda que pronta se movia a cada inspiração divina. Pelo mérito desta virtude Maria remediou o dano que causou Eva com sua desobediência. E tu como é que obedeces a teus superiores? Como é que observas as leis de Deus e da Igreja e os deveres próprios do teu estado? Lembra-te de que a virtude de obediência faz entrar os bem-aventurados na glória.

I. Pelo afeto que Maria consagrava à virtude de obediência, não quis, quando São Gabriel lhe veio anunciar a maternidade divina, chamar-se com outro nome senão com o de escrava: Eis aqui a escrava do Senhor. Sim, diz Santo Tomás de Villanova, porque esta fiel escrava, nem com suas obras nem com o pensamento contradisse jamais ao Senhor; mas, despida de toda a vontade própria, viveu sempre e em tudo obediente à divina vontade.

Observa São Bernardino de Sena que a obediência de Maria foi muito mais perfeita que a dos outros santos, porque todos os homens, por causa da inclinação ao mal pelo pecado original, sentem dificuldade em fazer o bem. Maria, ao contrário, imune, como era, de todo o labéo de culpa, foi como que uma roda que prontamente se movia a cada inspiração divina e outra coisa não fazia senão observar e executar o que agradava a Deus. – Dela é que foi dito: Anima mea liquefacta est, ut dilectus meus locutus est (1) – “A minha alma se derreteu, assim que meu amado falou”; porque, na explicação de Ricardo, a alma da Virgem era como que um metal derretido, disposta a tomar todas as formas que Deus queria.

Quanto era pronta para obedecer, mostrou-o claramente Maria quando, para agradar a Deus, quis obedecer também ao imperador romano, fazendo a viagem a Belém, em tempo de inverno, grávida e tão pobre que se viu obrigada a dar à luz numa gruta. – Foi igualmente pronta quando São José a avisou, que se pusesse a caminho na mesma noite, para viagem mais longa e perigosa ao Egito.

Mas, sobretudo, demonstrou a sua heróica obediência quando, para obedecer à divina vontade, ofereceu seu Filho à morte, com tão grande constância, que, como disse Santo Ildefonso, estaria pronta a crucificar o Filho se faltassem os algozes. – pelo que São Beda, o Venerável, escreveu que Maria foi mais feliz pela sua obediência à vontade divina do que por ter sido feita Mãe do mesmo Deus. E Santo Agostinho conclui dizendo que a divina Mãe com sua obediência remediou o dano que fez Eva com a sua desobediência.

II. Muito agradam a Maria aqueles que são amantes da obediência, e ela mesma repreendeu certo dia um religioso que, tocando-se o sino para certo exercício da comunidade, se demorou para terminar certas devoções privadas. – Falando a Santíssima Virgem com Santa Brígida a respeito da segurança que há em obedecer ao pai espiritual, lhe disse que é a obediência que faz entrar os bem-aventurados na glória. Acrescentou que, pelo merecimento da sua obediência, obteve do Senhor que todos os pecadores que arrependidos a ela recorrerem, obtenham perdão.

Se, pois, queres agradar a Maria Santíssima e assegurar a salvação da tua alma, faze hoje o firme propósito de imitar sempre a sua obediência e de cumprir exatamente todos os deveres do teu estado. – Entretanto, pede a seu Filho perdão das culpas que no passado cometeste contra tão bela virtude.

Ah meu Jesus! Por minha salvação fostes obediente até à morte e até à morte de cruz, e eu, ingrato, para não me privar de alguma miserável satisfação, tantas vezes Vos desrespeitei e Vos desobedeci. Meu Senhor, tende paciência comigo; não me abandoneis como merecia. Arrependo-me de todos os desgostos que Vos dei e quisera morrer de dor. Ouço vossa divina voz que me convida a vosso amor; não quero mais resistir. Eis-me aqui, entrego-me a Vós; não recuseis aceitar-me.

Dizei-me o que tenho de fazer para Vos agradar; estou pronto para tudo. (Renovo meus votos de Pobreza, de Castidade e de Obediência.) Prometo que de hoje em diante nunca mais resistirei às ordens de meus superiores. Amo-Vos, † Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas, e porque Vos amo, quero fazer tudo para Vos agradar. Dai-me o vosso auxílio para executar esta resolução. – E Vós, minha Rainha e Mãe Maria, rogai a Jesus por mim, e pelo merecimento da vossa obediência, obtende-me a graça de obedecer a sua santa vontade e às ordens do meu Pai espiritual.

Referências:

(1) Ct 5, 6

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 230-232)