segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Recompensa da devoção ao Sagrado Coração: a Perseverança

 

Neque creatura alia poterit nos separare a caritate Dei – “Nenhuma criatura nos poderá separar do amor de Deus” (Rm 8, 39)

Sumário. Pode-se dizer que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus é um penhor e sinal de predestinação, porque este Coração é o coração mais amante, mais reconhecido, mais misericordioso, mais desejoso da nossa salvação. É um Coração divino, criado de propósito para nos amar e ser amado por nós. Se os corações que se amam, buscam unir-se para não se separarem mais, o Coração de Jesus deve desejar imensamente unir-se às almas de uma maneira inseparável no céu.

I. Pode-se dizer sem exageração que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus é um penhor e sinal de predestinação. É evidente que este Coração é o coração mais amante: é todo amor para nós. O divino Salvador ama todos os homens, pois deu a sua vida por todos eles sem exceção; mas “Ama com afeto especial aqueles que O amam” — Ego diligentes me diligo (1). Que belo testemunho de amor é a devoção ao Sagrado Coração, que não é outra coisa senão um exercício de amor. Ora, se os corações que se amam, buscam unir-se para não se separarem mais, o Coração de Jesus deve desejar imensamente unir-se às almas de uma maneira inseparável, pela união perfeita e eterna do paraíso.

Demais, o Coração de Jesus é de tal modo reconhecido, que não pode deixar sem recompensa um copo de água fria dado por seu amor. Como poderia abandonar, na última hora, a quem o honrou por tantas orações, comunhões, boas obras feitas na intenção de Lhe agradar? Santo Hilarião, chegada a hora da morte, animava-se dizendo:

“Minha alma, que temes? Não serviste a Jesus Cristo durante setenta anos? Seu Coração, que é tão reconhecido, poderia te abandonar agora que tens tanta necessidade do seu socorro?”

Deveríamos, porventura, temer por causa dos nossos pecados passados? Mas temos de tratar com um Deus cujo Coração é tão misericordioso, que mais ardentemente deseja nos conceder o perdão dos nossos pecados, do que nós obtê-lo, segundo diz São João Crisóstomo. “Ele se gloria de usar misericórdia com os culpados”, diz o profeta (2) — Expectat Dominus, ut misereatur vestri, e perdoa-lhes, apenas lhe pedem perdão. Pois bem! Este Deus cheio de clemência, a quem fará misericórdia senão àqueles que tiverem honrado durante a vida o seu Coração, infinitamente misericordioso, e lhe tiverem oferecido tantos atos de reparação, tantas generosas satisfações, pelos seus próprios pecados e pelos dos outros?

II. Quão própria é a devoção ao Sagrado Coração para nos tranquilizar com relação ao Juízo. Porquanto, quem será o nosso Juiz? Consolemo-nos:

“A nosso Redentor mesmo é que o Padre Eterno confiou o poder de nos julgar” — Omne iudicium dedit Filio (3)

Também São Paulo nos anima dizendo: Quem é que vos condenará? É o mesmo Salvador que, para não nos condenar à morte eterna, condenou-se a si mesmo à morte por nós, e, não contente deste imenso benefício, continua ainda a interceder por nós no céu junto de Deus, seu Pai (4). Oh! Que sinal de predestinação é a devoção ao Sagrado Coração! Oh! Quão doce é morrer depois de ter sido discípulo fiel do Coração de Jesus.

Ah! Meu Jesus, quando virá o dia em que poderei dizer: Meu Deus, não posso mais Vos perder? Quando vos verei face a face e estarei certo de Vos amar com todas as minhas forças durante toda a eternidade? Ó meu Bem supremo, meu único amor, enquanto eu viver cá na terra, estarei sempre em perigo de Vos ofender e perder a vossa amável graça! Houve um triste tempo em que eu não Vos amava, em que desprezava o vosso amor, agora arrependo-me de toda a minha alma e confio que já me haveis perdoado; amo-Vos de todo o meu coração, desejo fazer tudo o que posso, para Vos amar e Vos agradar. Contudo, estou sempre exposto ao perigo de Vos recusar o meu amor e afligir o vosso divino Coração que tanto amor me tem.

Ah! Meu Jesus, vida e tesouro da minha alma, não o permitais. Se esta desgraça extrema tivesse de me suceder, fazei antes que eu morra neste momento do modo mais doloroso; eu o aceito e Vos darei as graças por isto. Eterno Pai, pelo amor de Jesus Cristo e pelos merecimentos do seu divino Coração, não me desampareis no meio dos perigos que me cercam. Castigai-me quanto quiserdes, mas preservai-me da desgraça de perder o vosso amor. Maria, minha boa Mãe, obtende-me do Coração tão generoso do vosso Filho a perseverança na sua amizade.

Referências:
(1) Pv 8, 17
(2) Is 30, 18
(3) Jo 5, 22
(4) Rm 8, 34

Voltar para o Índice de Meditações para as Primeiras Sextas-feiras do Mês, dedicadas ao Sagrado Coração de Jesus

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 462-464)

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

A Santa Missa


 Revmo. Sr. Pe. Samuel Bon, Priorado de São Pio X, Lisboa, Portugal

Resposta à pergunta: O que é a Santa Missa? Inscreva-se como Benfeitor da FSSPX Portugal, leia mais neste link: https://www.youtube.com/channel/UC_6V... Neste canal, você encontra homilias, transmissões ao vivo da Missa Tradicional, Formação Católica e meditações diversas, tudo em conformidade com a doutrina de dois mil anos da Santa Igreja Católica. Para conhecer o apostolado da Fraternidade de São Pio X na internet, visite também: Página do Facebook: https://www.facebook.com/FSSPX.Portugal/ Website: https://www.fsspx.es/pt?fbclid=IwAR0g... #SantaMissa #Sacerdote #Sacrifício

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

A PENA DA PERDA DE DEUS É O QUE FAZ O INFERNO

 



Iniquitates vestrae diviserunt inter vos et Deum vestrum – “As vossas iniquidades fizeram uma separação entre Vós e vosso Deus” (Is 59, 2)

Sumário. A malícia do pecado mortal consiste no desprezo da graça divina e na perda voluntária de Deus, o Bem supremo. Com toda a justiça, pois, a maior pena do pecador no inferno é tê-lo perdido, sem esperança de O tornar a achar. Se quisermos ter uma garantia de não incorrermos em tamanha desgraça, demo-nos inteiramente e sem reservas ao Senhor. O que não se dá inteiramente a Deus ou o serve com tibieza, corre grande risco de O perder para sempre.

I. A gravidade da pena deve corresponder à gravidade do delito. Os teólogos definem o pecado mortal por estas duas palavras: aversio a Deo — “aversão de Deus”. Eis, pois, em que consiste a malícia do pecado mortal: consiste no desprezo da graça divina e na perda voluntária de Deus, o Bem supremo. Pelo que com toda a justiça a maior pena do pecador no inferno é o ter perdido a Deus.

São grandes as demais penas do inferno: o fogo que devora, as trevas que obcecam, os uivos dos condenados que ensurdecem, o mau cheiro que faria morrer aqueles desgraçados se pudessem morrer, a estreiteza que os oprime e lhes tolhe a respiração; mas todas estas penas nada são comparadas com a perda de Deus. No inferno os réprobos choram eternamente, mas o objeto mais amargoso do seu choro é o pensar que perderam a Deus pela sua culpa.

Ó Deus, que grande bem perderam eles! Durante esta vida os objetos que nos rodeiam, as paixões, as ocupações temporais, os prazeres dos sentidos, as contrariedades não nos deixam contemplar a beleza e bondade infinita de Deus. Mas uma vez que a alma sai do corpo, reconhece logo que Deus é um bem infinito, infinitamente formoso, e digno de amor infinito. E sendo que foi criada para ver e amar esse Deus, quisera logo elevar-se a Ele e com Ele unir-se. Como, porém, está em pecado, acha levantado um muro impenetrável, quer dizer, o pecado mesmo que lhe fecha para sempre o caminho para Deus: As vossas iniquidades fizeram uma separação entre vós e o vosso Deus.

— Meu Senhor, graças Vos dou, porque não me foi ainda fechado este caminho, como tinha merecido, e porque posso ainda ir para Vós. Peço-Vos, não me repilais! Meu Jesus, com Santo Inácio de Loyola Vos direi: Aceito toda a pena, mas não a de ser privado de Vós.

II. Se quisermos ter uma garantia de que não perderemos o nosso Deus, consagremo-nos inteiramente a Ele. O que não se dá todo a Deus corre sempre o risco de Lhe virar as costas e de O perder. Uma alma, porém, que resolutamente se desapega de todas as coisas e se dá toda a Deus, não O perde mais; porquanto, Deus mesmo não consentirá que uma alma que se Lhe deu de todo o coração Lhe volte as costas e O perca. Pelo que um grande Servo de Deus dizia que, em lendo-se a queda de alguns que primeiro levaram vida santa, se deve concluir que eles nunca se deram a Deus com todas as véras.

— Demo-nos, pois, ao Senhor sem reserva e roguemos-Lhe sempre pelos merecimentos de Jesus Cristo que nos livre do inferno. Especialmente deve pedir isso aquele que na sua vida já perdeu a Deus por algum pecado grave.

Ai de mim, ó Senhor, que pelo desprezo da vossa graça mereci estar para sempre separado de Vós, meu Bem supremo, e odiar-Vos para sempre. Agradeço-Vos o me haverdes suportado quando estava na vossa inimizade: se então tivesse morrido, que seria de mim? Mas já que me prolongastes a vida, fazei que dela nunca me sirva para Vos ofender de novo, mas unicamente para Vos amar e para chorar os desgostos que Vos dei.

Meu Jesus, d’oravante sereis Vós o meu único amor; e o meu único temor será o de Vos ofender e de me separar de Vós. Nada, porém, posso, se não me ajudardes. Prendei-me sempre mais a Vós pelos laços de vosso santo amor; reforçai as santas e doces correntes de salvação, que me liguem mais e mais convosco. Pelos méritos de vosso Sangue espero que me ajudareis para ser sempre vosso, ó meu Redentor, meu amor, meu tudo: Deus meus et omnia.

— Ó grande Advogada dos pecadores, Maria, ajudai um pecador que se recomenda a vós e em vós confia.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 324-326)

sábado, 21 de novembro de 2020

FESTA DA APRESENTAÇÃO DE NOSSA SENHORA NO TEMPLO

 



En dilectus meus loquitur mihi: Surge, propera, amica mea, columba mea, formosa mea, et veni: — “Eis aí o meu amado que me diz: Levanta-te, apressa-te, amiga minha, pomba minha, formosa minha, e vem” (Cant. 2, 10).

Sumário. Afiguremo-nos ver a santa Menina que, acompanhada dos seus pais e de numerosos anjos, se põe a caminho de Jerusalém. Chegada que é aos degraus do templo, beija, de joelhos, as mãos de São Joaquim e de Santa Anna, pede-lhes a benção, e, sem mais olhar para traz, despede-se do mundo e consagra-se irrevogavelmente ao seu Deus. Felizes de nós, se pudéssemos oferecer hoje ao Senhor os primeiros anos da nossa vida! Ofereçamos-lhe ao menos os poucos que ainda nos restam; pois, melhor é começar tarde do que nunca.

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I. A santa Menina Maria, apenas chegada à idade de três anos, rogou a seus santos pais, que, conforme a sua promessa, a levassem a encerrar-se no templo. Quando chegou o dia marcado, eis que parte de Nazaré a imaculada Virgenzinha com São Joaquim e Santa Ana e com uma multidão de anjos, que acompanham a santa Menina destinada a ser a Mãe do seu Criador. Vai, pois, lhe diz São Germano, vai, ó Virgem santa, vai à casa do Senhor, e espera a vinda do Espírito Santo, que te fará Mãe do Verbo Eterno.

Chegada que foi a santa comitiva ao templo de Jerusalém, a santa Menina se volta para seus pais, e, de joelhos, beijando suas mãos, pede-lhes a benção, e depois, sem mais olhar para traz, sobe os degraus do templo, e, despedindo-se então do mundo, e renunciando a todos os bens que o mundo lhe podia prometer, oferece-se e consagra-se inteiramente ao Criador.

A vida de Maria no templo não foi senão um ato contínuo de amor e de consagração de si mesma ao Senhor: ela ia crescendo de hora em hora, ou antes, de instante em instante, nas santas virtudes, auxiliada, sim, pela graça divina, mas também trabalhando com todas as suas forças para cooperar com a graça. — Ela mesma se mostrou um dia à virgem Santa Isabel e lhe disse: “Pensas, porventura, que obtive as graças e as virtudes sem fadiga? Sabe que não obtive graça alguma de Deus sem grande trabalho, oração contínua, desejo ardente e muitas lágrimas e penitências.”

II. A vida da Virgenzinha Maria no templo foi uma oração contínua. Vendo o gênero humano perdido e em inimizade com Deus, orava principalmente pela vinda do Messias, como desejo de ser serva da virgem feliz que viria a ser Mãe de Deus. — Imaginemos que então alguém lhe tivesse dito: Ó santa Menina, sabe que movido pelas tuas preces o Filho de Deus já se apressa a vir e remir o mundo; e sabe que és tu a bendita, escolhida para ser sua mãe.

Ó Maria, Filha amadíssima de Deus, Menina santa, que rogais por todos, rogai também por mim. Vós vos consagrastes inteiramente desde criança ao amor do vosso Deus; oh! Não poder eu do mesmo modo, neste dia, oferecer-vos as primícias da minha vida e dedicar-me inteiramente ao vosso serviço, ó minha santa e dulcíssima Soberana! Não é mais tempo disto, pois, desgraçadamente perdi tantos anos servindo o mundo e os meus caprichos, sem pensar em vós nem em Deus. Maldigo o tempo em que não vos amei! Mas é melhor começar tarde do que nunca. Eis-me aqui, ó Maria; apresento-me hoje a vós e me ofereço inteiramente ao vosso serviço, para o resto de minha vida; como vós, renuncio a todas as criaturas, e me dedico sem reserva ao amor do meu Criador. Consagro-vos, pois, ó minha Rainha, o meu espírito para pensar sempre no amor que mereceis, a minha língua para vos bendizer, o meu coração para vos amar.

Acolhei, ó Virgem santa, a oferta que vos faz um miserável pecador; acolhei-a, eu vos suplico pelo prazer que experimentou o vosso coração, no momento em que vos dáveis a Deus no templo. Se tarde começo a servir-vos, justo é que redima o tempo perdido redobrando o meu zelo e o meu amor. — “E Vós, ó Deus, que no dia presente quisestes que no templo fosse apresentada a bem-aventurada sempre Virgem Maria, digna morada do Espírito Santo: concedei-me que pela sua intercessão mereça ser apresentado no templo da vossa glória.” (1) Fazei-o pelo amor de Jesus Cristo. (*I 344).

Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III – Santo Afonso

terça-feira, 17 de novembro de 2020

E-BOOK GRATUITO: EXAME DE CONSCIÊNCIA

 



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quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Reinado Social de Cristo ou do demónio?

 


Revmo. Sr. Pe. Samuel Bon, Priorado de São Pio X, Lisboa, Portugal Por ocasião d0 23º Domingo depois de Pentecostes 2020 Inscreva-se como Benfeitor da FSSPX Portugal, leia mais neste link: https://www.youtube.com/channel/UC_6V... Neste canal, você encontra homilias, transmissões ao vivo da Missa Tradicional, Formação Católica e meditações diversas, tudo em conformidade com a doutrina de dois mil anos da Santa Igreja Católica. Para conhecer o apostolado da Fraternidade de São Pio X na internet, visite também: Página do Facebook: https://www.facebook.com/FSSPX.Portugal/ Website: https://www.fsspx.es/pt?fbclid=IwAR0g... #FSSPX #Reinadosocial #JesusCristo

terça-feira, 10 de novembro de 2020

NECESSIDADE DA ORAÇÃO

 



Oportet semper orare et non deficere – “É preciso orar sempre e não deixar de o fazer” (Lc 18, 1)

Sumário. É certo que Deus, excetuando as primeiras graças, tais como a vocação para a fé ou penitência, nenhuma outra graça concede em regra geral (e menos ainda a perseverança) senão àquele que ora. Pelo que a oração é necessária aos adultos por necessidade de meio, de modo que o que ora, certamente se salva e o que não ora, certamente se condena. Este será o maior motivo de desespero para os réprobos, verem que tão facilmente se podiam salvar pela oração e que não há mais tempo para orar. Meu irmão, como usaste até hoje deste grande meio?

I. Afirma São João Crisóstomo que, assim como um corpo sem alma está morto, assim está morta a alma sem a oração. Diz ainda que, assim como a água é necessária às plantas para não murcharem, assim nos é necessária a oração para não nos perdermos.

— Omnes homines vult salvos fieri (1) — Deus quer que todos os homens se salvem e não quer que ninguém se perca; mas ao mesmo tempo exige que lhe peçamos as graças necessárias para nos salvarmos, pois, por um lado, não podemos observar os preceitos divinos e salvar-nos sem a assistência atual do Senhor; e por outro, não nos quer Ele dar graças (ordinariamente falando), se lh´as não pedirmos. O santo Concílio de Trento declarou que Deus não nos impõe ordens impossíveis, visto dar-nos, ou a graça próxima e atual para as cumprirmos, ou a graça de lhe pedirmos essa graça atual.

Ensina-nos Santo Agostinho que, à exceção das primeiras graças, tais como a vocação para a fé ou conversão, Deus nenhuma outra concede (e especialmente a perseverança) senão àquele que ora. — D´aqui concluem os teólogos, com São Basílio, Santo Agostinho mesmo, São João Crisóstomo, Clemente de Alexandria e outros, que a oração é necessária aos adultos por necessidade de meio, de modo que sem a oração é impossível salvarem-se. E o sábio Lessio diz que esta doutrina se deve considerar artigo de fé.

As Sagradas Escrituras são claras: Oportet semper orare — “É preciso orar sempre”. Orate, ut non intretis in tentationem (2) — “Orai, para não cairdes em tentação”. Petite et accipietis (3) — “Pedi e recebereis”. Sine intermissione orate (4) — “Rezai sem cessar”. Estes termos: é preciso, orai, pedi, segundo a opinião comum dos teólogos, de acordo com Santo Tomás (5), têm força de preceito que obriga sob pecado grave, particularmente em três casos: quando se está em pecado, quando se está em perigo de morte e quando se está em grande risco de pecar. Os teólogos ensinam que ordinariamente o que passa um mês ou, quando muito, dois, sem rezar, não está livre de pecado mortal. A razão é que a oração é um meio sem o qual não podemos obter os socorros necessários para nos salvarmos.

II. O que pede, obtém; por consequência, diz Santa Teresa, o que não pede, não obtém. E o mesmo fora declarado muito antes por São Tiago: Non habetis, propter quod non postulastis (6) — “Não tendes nada, porque não pedistes”. A oração é particularmente necessária para obter a virtude de pureza:

“Sabendo que não podia ser continente, sem que Deus o desse, recorri ao Senhor e lh´o pedi.” (7)

— Numa palavra, concluamos: O que reza, certamente se salva; o que não reza, certamente se condena. Todos os que se salvaram, salvaram-se pela oração todos os que se condenaram, condenaram-se porque não rezaram. O seu maior motivo de desespero no inferno será o verem que tão facilmente se podiam salvar pela oração e que não há mais tempo para rezar.

Ó meu Redentor, como pude viver no passado tão esquecido de Vós? Estáveis pronto a conceder-me todas as graças que Vos pedisse; esperáveis somente que Vos suplicasse; mas eu só pensava em contentar os meus sentidos, pouco se me dando de ficar privado do vosso amor e da vossa graça. Senhor, não vos lembreis de tantas ingratidões minhas e tende piedade de mim. Perdoa-me todos os desgostos que Vos dei; dai-me a perseverança, dai-me a graça de pedir sempre o vosso auxílio para nunca mais Vos ofender, ó Deus de minha alma.

Não permitais, Senhor, que no futuro seja tão descuidado como no passado. Dai-me luz e força para sempre me recomendar a Vós, especialmente quando meus inimigos me tentarem para de novo Vos ofender. Meu Deus, concedei-me esta graça pelos merecimentos de Jesus Cristo e pelo amor que lhe tendes. Bastante Vos ofendi; quero amar-Vos o resto de meus dias. Dai-me o vosso santo amor e que esse amor me faça pedir o vosso auxílio, todas as vezes que me vir em perigo de Vos perder pelo pecado.

— Maria, minha esperança, de vós espero a graça de, em minhas tentações, me recomendar sempre a vós e a vosso Filho. Atendei-me, ó minha Rainha, pelo grande amor que tendes a Jesus Cristo.

Referências:

(1) 1Tm 2, 4
(2) Lc 22, 40
(3) Jo 16, 24
(4) 1Ts 5, 17
(5) Suma Teológica P. 3, q. 29, a. 5.
(6) Tg 4, 2
(7) Sb 8, 21

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 230-233)

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

DAS PENAS DO INFERNO

 


Omnis dolor irruet super eum – “Toda a sorte de dores virá sobre ele” (Jó 20, 22)

Sumário. É artigo de fé que há um inferno, isto é, uma prisão miserabilíssima toda cheia de fogo, onde cada sentido e cada faculdade do réprobo sofrem uma pena particular. Enquanto fazemos esta meditação, tantos cristãos desgraçados, talvez da mesma idade que nós, talvez conhecidos nossos, estão ardendo nessa fornalha ardente, sem a mínima esperança de saírem de lá. Reflete agora, meu irmão: qual é o estado de tua consciência? Se o Senhor te deixasse morrer na primeira noite, para onde iria a tua alma?

I. Considera que o inferno é uma prisão miserabilíssima, toda cheia de fogo. Nesse fogo estão submergidos os réprobos, tendo um abismo de fogo acima de si, um abismo ao redor de si e um abismo abaixo de si. Fogo há nos olhos, fogo na boca, fogo por todos os lados.

Cada um dos sentidos sofre a sua pena própria. Os olhos são cegados pela fumaça e pelas trevas, e aterrados pela vista dos outros condenados e réprobos. Os ouvidos ouvem dia e noite urros, gemidos e blasfêmias. O olfato é empestado pelo mau cheiro daqueles inumeráveis corpos infectos. — O gosto é atormentado por uma sede ardentíssima e uma fome devoradora sem jamais obter uma gota de água nem um pedaço de pão. Por isso os desgraçados prisioneiros, ardendo em sede, devorados pelo fogo, cruciados por toda a espécie de tormentos, choram, urram e se desesperam. Mas não há, nem haverá jamais, quem os alivie ou console. Oh inferno, oh inferno! Como é que alguns não querem crer em ti, senão quando se veem precipitados dentro de ti!

Considera depois as penas que sofrerão as faculdades da alma. A memória será atormentada pelo remorso de consciência. O remorso é aquele verme que está roendo sempre no condenado ao pensar que se condenou por culpa própria, por uns poucos prazeres envenenados. Oh meu Deus! Como se lhe afigurarão aqueles prazeres momentâneos depois de cem, depois de mil milhões de anos? O verme do remorso lhe recordará o tempo que Deus lhe deu para salvação; a facilidade que teve de se salvar; os bons exemplos dos companheiros; as resoluções tomadas, mas não cumpridas. Verá então que não pode mais remediar a sua ruína eterna. Oh meu Deus, meu Deus! Que inferno no inferno será este! — A vontade será sempre contrariada; não terá nada do que deseja e terá sempre aquilo que não quer, isto é, toda a espécie de tormentos. O entendimento conhecerá o grande bem que perdeu, a saber: Deus e o paraíso. – Ó Senhor, perdoai-me, pelo amor de Jesus Cristo!

II. Meu irmão, dize-me se agora tivesses de morrer, para onde iria a tua alma? Não sabes suportar uma centelha caída de uma vela sobre tua mão e poderá suportar a permanência num abismo de fogo devorador, desolado e desamparado de todos, por toda a eternidade? — Ah! Quantos da mesma idade que tu, talvez conhecidos e companheiros teus, estão agora ardendo naquela fornalha ardente, sem a mínima esperança de poderem remediar a sua desgraça!

Agora talvez não te importe perder o paraíso e Deus; conhecerás porém a tua cegueira, quando vires os bem-aventurados em triunfo e no gozo do reino dos céus, e tu, como um cão lazarento, fores excluído daquela pátria feliz, da bela presença de Deus, da companhia de Maria Santíssima, dos Anjos e dos Santos. Então gritarás enfurecido: Ó paraíso de felicidades, ó Deus, Bem infinito, não sois nem sereis jamais para mim! — Ânimo, pois, faze penitência, muda de vida; não esperes que não haja mais tempo para ti. Pede a Jesus, pede a Maria que tenham piedade de ti.

Aqui tendes, Senhor, a vossos pés, o desgraçado que tão pouco caso fez da vossa graça e dos vossos castigos. Ai de mim! Quanto anos já devia estar abandonado por Vós e ardendo na fornalha do inferno! Mas vejo que me quereis salvar a todo o preço, porquanto com tamanha bondade me ofereceis o perdão, se eu quiser detestar os meus pecados; ofereceis-me a vossa graça e o vosso amor, se eu Vos quiser amar. Sim, meu Jesus, quero sempre chorar as ofensas que Vos fiz e amar-Vos de todo o meu coração. — Fazei-me saber o que quereis; quero satisfazer-Vos em tudo. Permiti que eu viva e morra em vossa graça; não me mandeis ao inferno onde não Vos poderia mais amar e disponde de mim segundo a vossa vontade.

— Ó Maria, minha esperança, guardai-me sob a vossa proteção e não permitais que eu venha ainda a perder o meu Deus.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 228-230)


sábado, 7 de novembro de 2020

MARIA SANTÍSSIMA, MODELO DE ORAÇÃO

 



Oportet semper orare et non deficere – “Importa orar sempre e não cessar de o fazer” (Lc 18, 1)

Sumário. Desde o instante em que a Santíssima Virgem recebeu a vida, e com esta o uso perfeito da razão, começou também a orar e nunca mais deixou de orar até ao seu último suspiro. Se Maria, tão santa e imaculada, foi tão amante da oração, quanto mais nós a devemos amar, que estamos tão propensos ao mal e temos inimigos tão fortes que combater? À imitação de nossa querida Mãe, habitemos com os nossos afetos no céu, nunca percamos de vista a eternidade e seja a oração o nosso único ornato.

I. Jamais existiu neste mundo quem com tanta perfeição como a Santíssima Virgem executasse o grande preceito de nosso Salvador: Importa orar sempre e não cessar de o fazer. Pelo que diz São Boaventura, que ninguém melhor que Maria nos pode servir de exemplo e ensinar a necessidade que temos de perseverar na oração.

Primeiramente, como escreve Dionísio o Cartusiano, a oração da Virgem foi toda recolhida e sem distração alguma. Isenta como ficara do pecado original, estava também livre de qualquer afeto terrestre e de todo o movimento desordenado, e todos os seus sentidos estavam sempre em harmonia com o seu bendito espírito. Assim a sua bela alma, livre de todo o empecilho, elevava-se incessantemente a Deus, amava-O sempre e crescia sempre no amor.

A oração da Bem-aventurada Virgem foi além disso continua e perseverante. Desde o primeiro momento em que juntamente com a vida ela recebeu o uso perfeito da razão, começou também a fazer oração. Para melhor se aplicar à oração quis, sendo menina de três anos, encerrar-se no templo, e ali, além das outras horas destinadas à oração, levantava-se sempre à meia noite, como ela mesma disse à santa virgem Isabel, para orar diante do altar do templo.

Com tal fim também, e para sempre meditar nas penas de Jesus, como diz Odilon, Maria, depois da Ascensão do Senhor, visitava muitas vezes os lugares santos da Palestina, ora a Gruta de Belém, onde o Filho nasceu; ora a casa de Nazaré, onde o Filho viveu tantos anos, pobre e desprezado, ora o horto de Getsêmani, onde o filho começou a sua Paixão; ora o pretório de Pilatos, onde foi açoitado e coroado de espinhos; ora o Calvário, onde o viu expirar; e, finalmente, o sepulcro, no qual o acomodou com as suas próprias mãos. — Numa palavra, toda a vida da Santíssima Virgem foi uma oração contínua. E, como conclui o Bem-aventurado Alberto Magno, ela foi excelentíssima nesta virtude, e depois de Jesus Cristo a mais perfeita de todos quantos tem existido, existem ou existirão. Felizes de nós se a soubermos imitar!

II. Se Maria, toda santa e imaculada como era, foi sempre tão amante da oração, para se conservar e crescer na graça divina, com muito mais razão devemos nós amar e praticar esta virtude, nós que tão fracos somos, tão propensos ao mal, e que temos inimigos tão poderosos para combater e vencer. — Tratemos, pois, de imitar o espírito de oração de nossa boa Mãe, e procuremos reproduzir em nós o que o devoto Taulero diz da Santíssima Virgem: Mariae cella fuit coelum — “A morada de Maria foi o céu”. Seja o céu também a nossa habitação, e fixemos nele pelo afeto a nossa morada contínua. Schola aeternitas — “A sua escola foi a eternidade”. Nunca percamos de vista a eternidade, vivendo sempre desapegados dos bens terrestres. Paedagogus divina veritas — “Seu mestre foi a verdade divina”. Tomemos por nosso mestre aquele que é a verdade essencial, e guiemo-nos em nossas ações pela luz divina. Speculum divinitas — “O seu espelho foi a divindade”. Sirva-nos a divindade de espelho; tenhamos sempre Deus em mira, para nos conformarmos com a sua vontade. Ornatus eius devotio — “O seu adorno foi a devoção”. Seja também a devoção o nosso ornato, e estejamos sempre prontos a fazer a vontade de Deus. Numa palavra, façamos consistir a nossa paz na união com Deus, e seja Deus todo o repouso e todo o tesouro de nossa alma: Quies, unitas cum Deo.

Ó grande Mãe de Deus, proponho-me sempre a imitar os vossos santos exemplos e especialmente o vosso espírito de oração. Vós, porém, que conheceis a minha fraqueza e inconstância no bem, ajudai-me pela vossa intercessão. Fazei-me pontual em recomendar-me sempre a vós e a vosso Filho em todas as minhas necessidades, sobretudo nos perigos de ofender o meu Senhor. Minha Rainha, atendei-me; fazei-o pelo grande amor que tendes a Jesus Cristo.

Referências:

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 223-225)

QUEM AMA VERDADEIRAMENTE A JESUS CRISTO

 




— Quem ama a Jesus Cristo, de verdade, ama o sofrimento porque descobre sua dimensão salvífica e purificadora.
— Quem ama a Jesus Cristo não tem inveja dos grandes e poderosos do mundo, mas inveja tão somente os que o amam ardentemente.
— Quem ama a Jesus Cristo é manso, porque procura retratar em sua vida aquilo que luziu na pessoa de Jesus Cristo, a mansidão: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração”.
— Quem ama a Jesus Cristo foge da tibieza e mediocridade, porque estas coisas empestam e apagam o amor.
— Quem ama a Jesus Cristo ama aquilo que ele muito amou: a humildade. Amar é ser humilde.
— Na vida de quem ama a Jesus Cristo não existe ambição desmedida pelas coisas materiais. Sua ambição é o próprio Jesus Cristo.
— O desprendimento, o desapego das coisas desse mundo é a força daquele que ama realmente a Jesus Cristo.
— Quem ama a Jesus Cristo não conhece o egoísmo, mas é totalmente desprendido de si mesmo.
— A irritação, a ira não cabe no coração de quem ama a Jesus Cristo.
— Fazer única e exclusivamente o que Jesus quer que seja feito é a marca daquele que o ama de verdade.
— Quem ama de fato a Jesus Cristo é capaz de suportar todo e qualquer sofrimento por amor a ele.
— Crer no que diz a pessoa amada é crer na própria pessoa. E soquem ama, crê. Então crerem tudo que Jesus disse é amá-lo.

Quem ama a Jesus Cristo, dele espera tudo e nunca o deixa de amar.
Olhe e veja: que sinal ainda falta em você para que você ame mesmo a Jesus Cristo?

(Prática de Amor a Jesus Cristo - Santo Afonso Maria de Ligório)

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

O QUE TENHA DE FAZER A ALMA NA PRESENÇA DE JESUS NO SANTÍSSIMO SACRAMENTO

 



Delectare in Domino, et dabit tibi petitiones cordis tui – “Deleita-te no Senhor, e te outorgará as petições do teu coração” (Sl 36, 4)

Sumário. Estas palavras ensinam-nos como temos de nos haver na presença de Jesus no Santíssimo Sacramento. Diante do tabernáculo, agradeçamos ao Senhor os muitos benefícios que nos fez, especialmente o querer Ele ficar conosco sobre o altar; amemo-Lo com todas as nossas forças e ofereçamo-nos a Ele sem reserva. Afinal supliquemos a Jesus Cristo as graças de que necessitamos, principalmente o aumento do amor e a união à sua vontade divina. Oh! Se nós soubéssemos aproveitar bem da companhia de nosso divino amante, em breve seríamos todos santos.

I. A condessa de Feria, feita religiosa de Santa Clara, escolheu uma cela donde se avistava o altar do Santíssimo Sacramento, e aí se demorava quase todo o tempo, de dia e de noite. Perguntada sobre o que fazia durante longas horas na igreja, respondeu:

“Ah! Eu ficaria ali durante toda a eternidade. Que é o que se faz diante do Santíssimo Sacramento? Agradece-se, ama-se e pede-se.”

— Eis ai, meu irmão, um belo método para aproveitares bem o tempo na presença de Jesus no Santíssimo Sacramento.

Em primeiro lugar, agradece-se. És tão agradecido a um parente que veio de longe para te visitar, e não tens uma palavra de gratidão para Jesus Cristo, que desceu do céu, não só para te visitar, mas para estar sempre contigo? Quando, pois, o visitares, antes de mais nada aviva a tua fé, adora o Esposo de tua alma e rende-Lhe graças pela bondade com que por teu amor fixou a sua morada sobre esse altar.

Em segundo lugar, ama-se. Quando São Filipe Neri na sua doença viu o santo Viático em seu quarto, exclamou todo abrasado em amor: Eis ai o meu amor! Eis ai o meu amor! Assim dize tu também, quando vires a sagrada Custódia; multiplica então os atos de amor que tanto agradam a Jesus, e renunciando a toda vontade própria consagra-te a Ele todo e sem reserva, dizendo: Senhor, fazei com que eu sempre Vos ame, e depois disponde de mim como Vos agradar.

Por fim, pede-se. O Venerável Padre Alvarez viu no Santíssimo Sacramento Jesus com as mãos cheias de graças, mas sem achar a quem distribuí-las, porque ninguém ia pedi-las. Portanto, pede-as tu; roga-lhe que te dê força para resistir às tentações, para te emendar de qualquer defeito, para te livrar de alguma paixão… Pede-lhe em particular que aumente em teu coração a chama de seu amor e te conserve bem unido a sua santa vontade, fazendo-te sofrer em paz todos os desprezos e contrariedades. Ah! Se todas as almas fizessem assim e soubessem aproveitar-se bem da companhia de seu divino Esposo, em breve todas se tornariam santas.

II. Ó meu Jesus, eu vos adoro no Santíssimo Sacramento do altar. Vós sois o mesmo Jesus que um dia por meu amor sacrificastes a vossa vida divina sobre a cruz e agora estais encerrado na Custódia, como em uma prisão de amor. Entre tantos outros que Vos ofenderam menos do que eu, quisestes escolher-me para Vos fazer companhia sobre a terra, a fim de que depois Vos vá amar e gozar sem véu no paraíso. Além disso me convidais a alimentar-me muitas vezes na santa comunhão com a vossa santa carne, afim de me unir todo a Vós e me fazer todo vosso. Meu amado Redentor, que Vos poderei dizer? Agradeço-Vos e espero ir um dia agradecer-Vos no céu por toda a eternidade: Miserircordias Domini in aeternum cantabo (1) — “Eu cantarei eternamente as misericórdias do Senhor”. Sim, meu Jesus, assim espero pelos vossos merecimentos.

Declaro que estou mais contente por ter deixado por vosso amor o mundo e o pouco de que no mundo podia gozar, do que por ser rei de toda a terra. Arrependo-me de Vos ter dado até agora em vossa casa tantos desgostos pelos quais merecia ser expulso. Perdoai-me, ó meu Jesus; com o vosso auxílio d´oravante não será mais assim. Não me quero mais afastar de vossos pés, quero visitar-Vos muitas vezes. A vossa presença me dará forças para desprender-me de todo o afeto que não seja para Vós; perto de Vós lembrar-me-ei sempre da obrigação que tenho de Vos amar e de recorrer a Vós em todas as minhas necessidades. Desejo permanecer sempre a vossos pés e receber-Vos freqüentemente na comunhão, a fim de Vos amar sempre mais e unir-me convosco, meu amado Salvador.

Amo-vos, ó meu Deus, oculto no Santíssimo Sacramento. Por amor meu é que ficais continuamente neste altar; por vosso amor, quero ficar o mais que puder na vossa presença. Aqui encerrado me amais sem cessar e eu também Vos quero amar sem cessar; assim, meu Jesus e meu tudo, estaremos sempre juntos aqui durante a minha vida e depois durante a eternidade no paraíso.

— Ó Maria, minha Mãe, rogai a Jesus por mim e consegui-me um grande amor ao Santíssimo Sacramento.

Referências:

(1) Sl 88, 2

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 217-220)

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

AJUDE NA CONSTRUÇÃO DA CAPELA DE PASSOS EM MINAS GERAIS

 







Seguem fotos do projeto de como ficará.
A capela é dedicada ao Sagrado Coração de Jesus e ficará sob a guarda da Fraternidade Sacerdotal São Pio X.


DOAÇÕES podem ser feitas na conta:

Associação Religiosa e Cultural São Pio X
Caixa Econômica Federal
Agência 1374
Conta Poupança (operação 013) 402134-6
CNPJ 09.385.198/0001-43

Telefone da Capela: (35) 99904-5596
Endereço da Capela: Rua Nebraska, 526 - Eldorado - Passos - MG
e-mail: capelasagradocj.fsspx@gmail.com

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

02 de Novembro: Dia dos Fiéis Defuntos

 



É o dia dos fiéis defuntos em toda Igreja. Uma lembrança dos que já passaram e dormem o sono da paz. Qui dormiunt in somno pacis.

Toda a Liturgia recorda o dogma do purgatório e pede-nos orações pelos nossos mortos. A Igreja se cobre de luto e os sacerdotes podem, neste dia, celebrar três vezes o Santo Sacrifício. As multidões afluem aos cemitérios. É a lembrança de nossos mortos despertada. Avivam-se as saudades. Finados! Dia dos mortos! Lembramo-nos deles apenas com algumas flores e umas lágrimas que com o tempo se vão estancando, ou procuramos sufragar-lhes as pobres almas que talvez ainda estejam sofrendo no purgatório? Este dia nos foi dado pela Igreja, não para as pompas e manifestações de um sentimentalismo estéril, mas para sufrágio dos mortos. Como se esquecem disto muitos cristãos! Multidões que enchem os cemitérios, sorrindo e até brincando muitas vezes, sem orações, sem um pensamento sobrenatural dos mortos! Santifiquemos este dia. Seja, sim, o dia da nossa saudade, mas principalmente seja o do nosso sufrágio.

A Igreja, nossa Mãe, neste dia abre-nos os tesouros das suas indulgências em favor dos mortos. Permite a celebração das três Santas Missas desde a Constituição Apostólica de 15 de Agosto de 1915, de Bento XV. Duas Missas pertencem: uma aos fiéis defuntos em geral e outra nas intenções do Sumo Pontífice. Concede uma grande indulgência, semelhante à da Porciúncula, em favor dos defuntos. Aos que visitarem uma igreja ou oratório público ou semi-público, indulgência plenária cada vez aos que entrarem na igreja e rezarem seis Pai-Nossos e seis Ave-Marias nas intenções do Sumo Pontífice, contanto que tenham se confessado e recebido a Santa Comunhão. (P. P. O. 544.) (1)

Que tesouro de indulgência em favor das pobres almas! Mais ainda, todas as Santas Missas celebradas no dia de finados pelos mortos, e durante a oitava gozam do altar privilegiado. A visita ao cemitério também neste dia tem uma indulgência plenária. Porque nos abre assim a Igreja estes tesouros? Para nos estimular a devoção aos mortos e o zelo pelo sufrágio das almas.

Tudo no Ofício Divino deste dia nos fala da miséria humana, pelas lamentações dolorosas de Jó, e repetem gemidos que parecem vir das profundezas do abismo: Miseremini mei! Miseremini mei! Saltem vos amici mei quia manus Domini tetigit me! Tende piedade de mim, tende piedade de mim, pelo menos vós que sois meus amigos, porque a mão de Deus me feriu. Sim, a mão da Justiça de Deus feriu as pobres almas para santificá-las, purificá-las e torná-las dignas do céu.

Com a Igreja, nossa Mãe vestida de luto, vamos chorar nossos mortos, e, rezando por eles, reafirmar nossa fé na imortalidade de nossa alma e na ressurreição da carne. Digamos de coração: Requiem aeternam dona eis Domine, et lux perpetua Iuceat eis. Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno, e brilhe para elas a luz perpétua!

Origem do Dia dos Mortos
A oração pelos mortos é tão antiga como a Igreja, ou como está já provado, tão antiga como o Antigo Testamento, pois quem não se recorda da oração e dos sacrifícios ordenados por Judas Macabeus e a expressão: é útil e salutar orar pelos mortos? Sempre na Igreja se fizeram preces e foi oferecido o Augustíssimo Sacrifício dos Altares pelo alívio dos mortos. Todavia, não existiu sempre um dia especialmente dedicado aos sufrágios e à lembrança piedosa dos fiéis defuntos. A comemoração dos fiéis defuntos de 2 de Novembro vem do tempo de Santo Odilon, célebre abade de Cluny de 994 a 1049. Antes deste grande Santo, já muitos mosteiros tinham um dia especialmente consagrado ao sufrágio dos monges falecidos, segundo se depreende dos martirológios e necrológios. Eram comemorações reservadas apenas ao Mosteiro, em caráter particular. A iniciativa de Santo Odilon consistiu em estender a todos os fiéis defuntos os benefícios e sufrágios destas comemorações particulares e reservadas só aos monges de determinados mosteiros.

Segundo o monge Jotsald na obra “De vita et virtutibus sancti Odilonis abbatis”, houve um fato extraordinário que determinou esta comemoração geral. Um peregrino de Rodez, que conhecia muito bem as virtudes e os trabalhos de Santo Odilon, na volta de uma peregrinação a Jerusalém, naufragou e foi dar numa ilha deserta. Lá teve umas visões misteriosas de grandes incêndios, e ouvia gritos e gemidos de pobres almas do purgatório que diziam:

“Somos aliviadas pelas orações e pela caridade do servo de Deus Odilon e pelos monges de Gluny”

O peregrino logo que se viu salvo, procurou o Mosteiro de Cluny e contou o que ouvira. Donde a origem da comemoração dos mortos, pois Santo Odilon daí por diante trabalhou para estendê-la a toda a Igreja. No século XI já era conhecida e praticada em toda Igreja do Ocidente. Com o tempo foi se tornando mais solene, até que nos últimos anos obteve os ricos tesouros de indulgências e missas de que já falamos.

Na vida de Santo Odilon, tirada das Acta Sanctorum ordinis Sancti Benediciti, se encontra o decreto da Instituição da Comemoração dos Mortos. Ei-lo:

“Pelo nosso beato Pai Dom Odilom e consentimento e súplica de todos os padres de Cluny, foi decretado: ‘Como nas igrejas de Deus que se erguem em todo o orbe terrestre se celebra no dia das kalendas de Novembro a festa de Todos os Santos, assim entre nós se fará, segundo o costume das festas, comemoração de todos os fiéis defuntos que viveram desde o começo do mundo até o fim, de tal maneira: no mesmo dia acima dito, depois do Capítulo farão esmola de pão e vinho a todos os pobres que aparecerem como é costume fazer na ceia do Senhor. Neste mesmo dia, depois da assembleia das Vésperas, soarão todos os sinos e se cantarão as Vésperas pelos defuntos. No dia seguinte, depois de Matinas, tocarão de novo todos os sinos e se fará o ofício pelos defuntos, etc’”

E desde então começou, até ser hoje o que vemos, a Solenidade da Comemoração dos Fiéis Defuntos.

Resoluções
Façamos o propósito de guardar bem as lições deste dia, gravadas em nossa alma.

A lembrança dos mortos há de ser embalsamada pelo perfume da oração e a caridade do sufrágio. Seja o Dia de Finados o dia da nossa grande dedicação para com os mortos. Ouvir a Santa Missa, receber a Santa Comunhão e visitar o cemitério, se possível. Podemos carinhosamente adornar de flores os túmulos queridos. Todavia, que estas flores simbolizem a nossa oração e venham depois ou juntas com nossos sufrágios. Flores e lágrimas sentimentais e estéreis, nada aproveitam aos mortos, já o dissemos e repetimos. Não se deixe o essencial pelo acessório. O útil pelo supérfluo. Vamos ao cemitério sem vaidades e com espírito de fé. Lá procedamos como verdadeiros cristãos, com todo respeito. Meditemos seriamente em nosso destino eterno. Digamos como São Camilo de Lellis:

“Ó, se estes que aqui estão nos túmulos pudessem voltar, como haviam de ser santos e trabalharem pela sua salvação! Estes já foram e eu também irei um dia! Mais tarde me visitarão também num cemitério!”

Estou preparado? A morte virá quando eu menos pensar. Meu Deus! Tende piedade daqueles que talvez estejam sofrendo no purgatório por minha causa!

Enfim, quanta reflexão grave e decisiva não pode nos vir num cemitério!

São Silvestre, abade, se converteu e se santificou à vista do cadáver em corrupção, cadáver de um grande amigo que viu ele num túmulo aberto, em estado lamentável de corrupção. A oração do Santo no Breviário, lembra esta passagem quando assim reza:

“Ó clementíssimo Deus, que vos dignastes chamar à solidão o Santo abade Silvestre, quando ele meditava piedosamente sobre a vaidade deste mundo, em um túmulo aberto, assim como o ornastes com os méritos de uma vida ilustre, humildemente vos suplicamos que imitando o seu exemplo, desprezemos os bens terrenos a fim de gozarmos eternamente a vossa companhia”

É o que precisamos fazer no dia dos mortos: contemplar os túmulos e procurar a solidão de uma meditação grave. Pensarmos em nossa vida futura. Não é mister que se abram os túmulos e presenciemos, como São Silvestre, o espetáculo horrível da corrupção a que havemos de chegar um dia. Sobre os túmulos fechados há muito que meditar, há muita lição que aprender num cemitério! Tomemos a resolução, pois, repito, de visitarmos os mortos para aprendermos a viver. Façamos do dia de finados o dia da nossa grande e generosa caridade para com os fiéis defuntos.

Exemplo: O livreiro de Colônia
Guilherme Freyssen foi um célebre livreiro de Colônia, do qual se contam duas graças extraordinárias alcançadas pela devoção às santas almas do purgatório. Ele havia narrado estas graças numa carta escrita no ano de 1649 ao Revmo. Pe. Tiago de Monfort, da Companhia de Jesus. Eis a carta:

“Meu Padre, eu vos escrevo esta para vos contar a dupla cura de minha mulher e de meu filho. Durante os dias feriados em que fechei minha livraria e tipografia, fiquei recolhido em casa e tomei um livro bom e piedoso, para leitura. Eram os originais de uma obra que ia imprimir sobre as almas do purgatório. Estava ocupado nesta leitura, quando me vieram dizer que meu filho estava com os sintomas de uma doença muito grave. A doença progrediu rapidamente e a criança estava em perigo sério de vida. Os médicos não deram mais esperanças. Já se pensava mesmo nos funerais. Nesta grande aflição e vendo baldados todos os recursos humanos, resolvo fazer um pedido ao Senhor pelas almas do purgatório e fiz uma promessa: distribuiria gratuitamente cem exemplares do livro que tratava do purgatório e recomendava a devoção às santas almas. Uma grande esperança encheu meu coração. Entrei logo no quarto do filho e o encontrei muito melhor. No dia seguinte, contra toda expectativa, o menino estava completamente curado e restabelecido. Cumpri meu voto. Fiz logo propaganda da obra. Passaram-se três semanas e uma doença grave veio atingir minha mulher. Tremia ela por todo corpo e se atirava ao chão, em convulsões, até ficar sem sentidos. Chegou a perder o uso da palavra. Empregaram-se todos os meios possíveis para salvá-la, mas tudo inutilmente. O confessor que a assistia só tinha palavras de consolo. Quanto a mim, não perdi a esperança. Tinha grande confiança nas benditas almas do purgatório. Voltei à Igreja e prometi distribuir, desta vez, duzentos exemplares do livro a fim de conquistar muitas almas para a devoção às santas almas. Mal saía da Igreja quando os criados me vieram dar a notícia feliz de que minha mulher estava bem melhor. E assim era. Encontrei minha mulher mais bem disposta, e poucos dias depois estava perfeitamente curada. Fui fiel em dar os livros prometidos e sempre fui muito grato às almas do purgatório.”. (Hautin, Puteus defunctorum Lib. I – C. V. Art. 3.).

Observações:
(1) Para lucrar as indulgências, seguir conforme foi apresentado no Índice deste livro, uma vez que não é mais usado a questão de anos/dias para indulgências.

(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! 30 Meditações e Exemplos sobre o Purgatório e as Almas. 1948, p. 19-25)

domingo, 1 de novembro de 2020

Solenidade de Todos os Santos

 




“Vidi turbam magnam, quam dinumerare nemo poterat, ex omnibus gentibus, et tribubus et populis et linguis” — “Vi uma grande multidão, que ninguém poderia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Apoc 7, 9).

Sumário. São três os fins principais que a Igreja tem em mira mandando celebrar a solenidade de todos os Santos. Quer em primeiro lugar que honremos os seus filhos que já triunfam no céu e especialmente àqueles que no correr do ano não tiveram uma festa própria. Para que as nossas homenagens nos aproveitem, ela quer em segundo lugar, que nos excitemos à prática do bem, pela esperança do céu. Finalmente quer a nossa boa Mãe aumentar a nossa confiança, dando-nos a entender que esses nossos bem-aventurados Irmãos se empenham para nos obter os favores divinos. Que fins tão nobres e consoladores!

I. Considera os fins nobilíssimos que a Igreja tem em mira, fazendo-nos celebrar hoje a solenidade de todos os Santos. Quer em primeiro lugar que honremos os seus Filhos, que já estão de posse do céu em companhia do Esposo divino, e especialmente àqueles que no correr do ano não tiveram uma festa própria. Ao mesmo tempo, quer que em nome do Santos demos graças a Deus.

Desejando que estas homenagens nos sejam proveitosas, quer a Igreja que nos sirvam para elevarmos o nosso espírito ao céu e nos excitemos à prática das virtudes pela contemplação dos bens eternos que lá em cima nos esperam, se perseverarmos. — Tanto mais que entre os milhões de Santos que hoje veneramos, há muitos de nossa idade e condição, e talvez, como nós, grandes pecadores. Parece que a Igreja nos diz hoje com Santo Agostinho: “Não poderás tu fazer o que puderam fazer eles?” Tu non poteris quod isti et istae?

Finalmente, com a solenidade presente, a Igreja quer aumentar a nossa confiança, recordando-nos o dogma da comunicação dos santos, e ensinando-nos que todos esses bem-aventurados irmãos querem empenhar a nosso proveito todo o poder de que gozam junto do Rei da glória. — Oh, que verdade tão consoladora! Os Santos do céu, lá no meio do seu triunfo, não se esquecem das nossas misérias, e oferecem-nos o seu auxílio. No dizer de São Bernardo, já que os Santos nada mais têm que pedir para si mesmos, porque são plenamente felizes, têm um vivo desejo de interceder por nós, e se não nos tornamos indignos pelas nossas faltas, obtêm-nos de Deus tudo o que querem. Que verdade tão consoladora! Que fins sublimes da parte da Igreja na instituição da festa de todos os Santos!

II. Entrando nas vistas sublimes de nossa Madre, a santa Igreja, elevemos hoje os nossos corações ao céu, onde reina um Deus onipotente, todo solícito em beatificar as almas, suas queridas filhas. Contemplemos como esses bem-aventurados Compreensores gozam ali delícias tais, que a linguagem humana não pode exprimir. Alegremo-nos com eles, rendamos em seu nome graças a Deus, e tomemos ânimo ao pensar que para nós também terminarão um dia os temores, as doenças, as perseguições, todas as cruzes; mais ainda, se nos viermos a salvar, tudo isso será para nós motivo de júbilo e glória no céu.

Animados, pois, pelo desejo que os Santos têm de nos ajudar, lancemo-nos em espírito aos seus pés e exponhamos-lhes confiadamente as nossas necessidades. Não nos esqueçamos também de rogar a eles pelos pobres pecadores e pelo livramento das almas do purgatório, a fim de que amanhã, no dia da sua comemoração, possam em grande número ir a gozar com os Santos no céu.

Ó Santos e Santas de Deus, ó bem-aventurados Espíritos angélicos, que estais abismados nos resplendores da glória divina! eu, vosso humilde servo, vos saúdo deste vale de lágrimas, venero-vos com amor, e dou graças ao Senhor vos ter sublimado a tão alta beatitude. Mas vós, lá dos vossos tronos excelsos, dignai-vos volver a mim vossos olhos piedosos. Vede os perigos que corro de me perder eternamente. Pelo amor de Deus, que é a vossa grande recompensa, obtende-me a graça de seguir fielmente as vossas pegadas, de imitar corajosamente os vossos exemplos, de copiar em mim as vossas virtudes; a fim de que, de admirador que sou, chegue a ser um dia o vosso companheiro na glória imortal.

“Onipotente e eterno Deus, que me concedeis a graça de venerar em uma só festividade os méritos de todos os vossos Santos, concedei-me também que, multiplicados os meus intercessores, obtenha a plenitude das vossas misericórdias.” (1) Fazei-o pelo amor de Jesus e de Maria.”

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1. Or. festi.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 382- 384.)