segunda-feira, 31 de maio de 2021

O corpo na tumba

 tumulo

Subter te sternetur tinea, et operimentum tuum erunt vermes – “Debaixo de ti se estenderá por cama a polila, e a tua coberta serão os bichos” (Is 14, 11)

Sumário. Meu irmão, para ver melhor o que és, aproxima-te de um túmulo. Eis como daquele cadáver sai uma matéria infecta, na qual se gera uma multidão de vermes que se nutrem da carne. Caem as faces, os lábios, os cabelos. E finalmente, daquele corpo nutrido com tanta delicadeza, causa talvez de tantas ofensas do Senhor, não resta nada senão um esqueleto fétido, um punhado de pó. Quantos têm, à vista de um cadáver, deixado o mundo e entrado numa ordem religiosa!

I. Para melhor ver o que és, ó cristão, diz São João Crisóstomo: Perge ad sepulchrum – “vai visitar os túmulos”. Vê como esse cadáver se vai tornando de amarelo em negro. Em seguida aparece pelo corpo todo uma penugem branca e repelente. Sai dela uma matéria viscosa e infecta que corre pela terra. Nesse pus gera-se em breve uma multidão de vermes que se nutrem das carnes. Despegam-se e caem as faces, os lábios, os cabelos; e daquele corpo só resta finalmente um esqueleto fétido, que com o tempo se divide, destacando-se os ossos uns dos outros, e separando-se a cabeça do tronco. Redacta quasi in favillam aestivae areae, quae rapta sunt vento (1) – “Como a miúda palha, que o vento leva fora da eira em tempo de estio”. Tal é o homem, um pouco de pó arrastado pelo vento.

Onde está aquele cavalheiro, outrora encanto e alma da sociedade? Entra no seu quarto; já lá não está. Se procurares o seu leito, saberás que foi dado a outro. Os vestidos, as armas: outros já tomaram posse delas e as dividiram entre si. Se o queres ver, vai a essa cova, onde jaz em podridão e com os ossos descarnados. Ó Deus! A que estado ficou reduzido o corpo nutrido com tanta delicadeza, vestido com tanta pompa, cercado de tantos servos! Quantos têm, à vista de um cadáver, deixado o mundo e entrado numa ordem religiosa!

II. Santos do céu, como haveis sido prudentes, vós que pelo amor de Deus, a quem só amastes na terra, soubestes mortificar o vosso corpo. Agora, vossos ossos são conservados e honrados como relíquias santas em relicários de ouro, enquanto que vossas belas almas gozam de Deus, esperando o dia final em que vossos corpos irão também tomar parte na glória eterna, como tomaram parte na cruz durante a vida. É assim que se ama verdadeiramente o corpo, carregando-o neste mundo de aflições, afim de que seja eternamente feliz e recusando-lhe as doçuras que o tornariam infeliz na eternidade.

Aí está, meu Deus, o que deve ser um dia este corpo, pelo qual tanto Vos ofendi, presa dos vermes e da podridão! Mas não me aflijo, ó Senhor, antes me regozijo, de que assim se deve corromper e consumir esta carne, que me fez perder-Vos, ó soberano Bem. O que me aflige é ter-Vos dado tantos desgostos, só para alcançar mais algum prazer. Não quero, porém, desconfiar da vossa misericórdia. Vós esperastes por mim para me perdoar: Expectat Deus, ut misereatur vestri (2). Quereis perdoar-me, se eu me arrepender. Oh, sim! Eu me arrependo de todo o meu coração, de Vos haver desprezado, ó bondade infinita. Dir-Vos-ei com Santa Catarina de Gênova: Meu Jesus, nunca mais pecarei; não, nunca mais pecarei! Não, não quero mais abusar de vossa paciência.

Ó meu amor crucificado, não quero esperar para Vos abraçar até que me sejais apresentado pelo confessor no momento da morte. Desde já Vos abraço; desde já Vos recomendo a minha alma: In manus tuas, Domine, commendo spiritum meum (3). A minha alma entregou-se anos e anos ao mundo e não Vos amou: dai-me a luz e a força para Vos amar o resto de minha vida. Não quero, para Vos amar, esperar pela hora da morte; desde já Vos amo, Vos abraço, e Vos estreito ao coração; e prometo nunca mais abandonar-Vos.

– Ó Virgem Santíssima, ligai-me a Jesus Cristo e alcançai-me a graça de nunca mais o perder.

Referências:

(1) Dn 2, 35
(2) Is 30, 18
(3) Sl 30, 6

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 144-146)

sábado, 29 de maio de 2021

Maria Santíssima, modelo de castidade

 Virgem Maria, modelo de Castidade

Sicut lilium inter spinas, sic amica mea inter filias – “Como é a açucena entre os espinhos, assim é a minha amiga entre as filhas” (Ct 2, 2)

Sumário. A pureza da Santíssima Virgem foi tão grande, que o Verbo divino a elegeu para sua Mãe, afim de que servisse a todos de exemplo de castidade. Como recompensa da sua inefável virgindade, Maria tem o privilégio de preservar do pecado os seus devotos e de os levantar depois da queda. É necessário, porém, que da nossa parte ponhamos em prática os meios para vencer, especialmente o evitar as ocasiões, e praticar a oração, consagrando-nos à Virgem de manhã e à noite, e invocando o seu nome em cada assalto do inimigo infernal.

I. Depois da queda de Adão e de os sentidos se haverem rebelado contra a razão, a virtude da castidade tornou-se a mais difícil de ser praticada. Mas, seja para sempre louvado o Senhor, que em Maria nos deu um grande modelo desta virtude. Diz o Bem-aventurado Alberto Magno que Maria é chamada com razão Virgem das virgens; pois que, sendo ela a primeira, sem conselho nem exemplo de ninguém, a oferecer a sua virgindade a Deus, deu ao mesmo Deus todas as virgens que depois a imitaram, segundo a profecia de Davi: Adducentur Regi virgines post eam (1) – “Serão apresentadas ao Rei virgens depois dela”. E São Sofrônio acrescenta que Deus escolheu esta Virgem puríssima por Mãe, exatamente para que ela servisse a todos de modelo de castidade. Pelo que Santo Ambrósio lhe dá o belo título de Porta-bandeira da virgindade.

Por motivo desta sua pureza foi a Santíssima Virgem chamada pelo Espírito Santo bela como a rola (2); como também açucena: sicut lilium inter spinas. E aqui adverte Dionísio Cartusiano, que ela foi chamada açucena entre os espinhos, porque todas as demais virgens foram espinhos para si próprias ou para os outros; Maria Santíssima, ao contrário, não o foi nem para si nem para os outros. Segundo observa Santo Tomás, a beleza de Maria inspirava a todos amor à pureza e só ao ser vista infundia pensamentos e afetos castíssimos.

Numa palavra, diz um autor que a Bem-aventurada Virgem foi tão amante desta virtude, que, para a conservar, estaria disposta a renunciar ainda à dignidade de Mãe de Deus. Isto se colige das mesmas palavras que dirigiu ao Arcanjo e das que por fim acrescentou: Fiat mihi secundum verbum tuum (3) – “Faça-se em mim segundo a tua palavra”; significando que dava o seu consentimento porque o Anjo lhe assegurava que devia ser mãe unicamente por obra do Espírito Santo.

II. Os que são castos, tornam-se anjos, como já disse o Senhor: Erunt sicut angeli Dei (4) – “Eles serão como anjos de Deus”. Mas os impuros fazem-se odiosos a Deus como os demônios. Quantos homens caem todos os dias no inferno por causa da impureza! Diz São Bernardo: “Este vício arrasta quase o mundo todo ao suplício” – Hoc peccatum quasi totum mundum trahit ad supplicium.

Como recompensa de sua pureza singular a Santíssima Virgem obteve de Jesus Cristo o privilégio de poder preservar os seus devotos desde vício e de os erguer da queda, se por ventura viessem a cair. Ela quer, porém, que ponhamos em prática os meios de que ela mesma usou, posto que não tivesse necessidade disso. Estes meios são três: a mortificação dos sentidos, em particular da gula e da vista; a fuga das ocasiões e a oração.

Será sobretudo utilíssimo para a conservação da pureza, que tomemos o hábito tão louvável de rezar de manhã e à noite três Ave-Marias com o rosto em terra, de nos consagrarmos inteiramente a esta divina Mãe, de recorrer com confiança a ela nos momentos da tentação; de lhe recordar que somos seus filhos, e de repetir os dulcíssimos Nomes de Jesus e Maria, enquanto durar a tentação. Oh! quantas almas, que deviam estar no inferno, estão agora no céu por terem tomado este hábito tão salutar! E ao contrário, quantas almas, que atualmente estão ardendo no abismo, teriam sido grandes santos no céu, se tivessem seguido tão bela prática!

† “Ó minha Senhora e Mãe, eu me ofereço todo a vós, e como prova de minha devoção, vos consagro hoje os meus olhos, os meus ouvidos, a minha boca, o meu coração, todo o meu ser. E já que sou vosso, ó boa Mãe, guardai-me, defendei-me como coisa e propriedade vossa (5). – Ó minha Senhora e Mãe, lembrai-vos de que sou vosso; salvai-me, defendei-me como propriedade vossa”(6).

Referências:

(1) Sl 44, 14
(2) Ct 1, 9
(3) Lc 1, 38
(4) Mt 22, 30
(5) Indulgência de 100 dias, para quem reza de manhã e à noite uma Ave-Maria com esta oração.
(6) Indulgência de 40 dias nos momentos da tentação.

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 139-141)

quinta-feira, 27 de maio de 2021

São Luís de Montfort: O rebanho que segue Jesus fala de penitência, de oração e de desprezo do mundo. Os mundanos, pelo contrário, para se encorajarem a perseverar nas suas maldades, todos os dias gritam: Vivamos a vida, divirtamos-nos!

 Seja por sempre e em todas partes conhecido, adorado, bendito, amado, servido e glorificado o diviníssimo Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria.

n/d


Não estareis vós, sem perceber, no caminho largo do mundo, que é o caminho da perdição? Vós sabeis, mesmo, que há uma via que parece reta e segura ao homem e que conduz à morte? Vós distinguis, de fato, entre a voz de Deus e da graça e a do mundo e da natureza? Vós escutais realmente a voz de Deus, nosso bom Pai, que, depois de ter dado sua tríplice maldição a todos os que seguem a concupiscência do mundo: “vae, vae, vae habitantibus in terra” [ai ai ai aos habitantes da terra], vos grita amorosamente, estendendo-vos aos braços: separai-vos, meu povo escolhido, caros amigos da cruz de meu filho; separai-vos dos mundanos malditos por minha majestade, excomungados por meu filho e condenados por meu Santo Espírito“. Tomai cuidado de não vos sentar em sua cátedra empestada (cf. Sl. 1,1 ss); não permaneçais nas sua assembleias, nem mesmo pareis nos seus caminhos. Fugi do meio da grande e infame babilônia; não escuteis mais que a voz, não sigais senão as pegadas de meu filho bem amado, que vos dei para ser vosso caminho, vossa verdade, vossa vida e vosso modelo,”ipsum audite” [escutai-o].


Ouvireis vós este amável Jesus que vos clama, carregando sua cruz: vinde após mim; aquele que me segue não anda em trevas, tende confiança, eu venci o mundo! Tendes aí, meus queridos associados, tendes aí os dois partidos que se apresentam a vós todos os dias: o partido de Jesus Cristo e o partido do mundo. À vossa direita tendes o partido do nosso amável Salvador. Este, avança por uma estrada bem mais estreita e dificultosa devido à corrupção do mundo. À testa da fila vai o divino Mestre, de pés nus, com a cabeça coroada de espinhos, como o corpo coberto de sangue e carregando pesadíssima Cruz. Só um punhado de pessoas O seguem, e essas, são, efetivamente, corajosas. Quanto às restantes, ou a sua voz não chega até elas devido aos tumultos do mundo, ou então não se tem coragem de Segui-lo na pobreza, na dor, na humilhação e nas outras cruzes que todos os dias da vida é obrigatoriamente necessário carregar com Ele. À vossa esquerda tendes o partido do demônio. À primeira vista este é mais numeroso, mais esplêndido e atraente do que o outro. A elite dos indivíduos corre atrás dele, acotovelando-se, apesar dos seus serem caminhos largos e espaçosos devido às multidões que por lá passam como torrentes: é uma estrada toda coberta de flores, rodeada de diversões e prazeres, coberta de ouro de prata. À direita, o “pequeno rebanho” que segue Jesus Cristo fala só de lágrimas, de penitência, de oração e de desprezo do mundo. Os mundanos, pelo contrário, para se encorajarem a perseverar nas suas maldades sem escrúpulos, todos os dias gritam os seus slogans:


“A vida! A vida! Vivamos a vida” Paz! Alegria! Comamos, cantemos, dancemos, divirtamos-nos ! Deus é Pai de misericórdia e não nos criou para depois nos condenar; Deus não nos proíbe o divertimento; por isso não seremos condenados; nada de escrúpulos, portanto! Não, não morrereis!”. Na realidade, toda perfeição cristã consiste nisso: a) na firme vontade de tornar-se santo: “se alguém quiser vir após Mim…” b) na conversão: “renegue-se a si mesmo…” c) na mortificação: “tome a sua cruz…” d) na ação: “e siga-Me”. O mistério da Cruz é desconhecido pelos Gentios, é repelido pelos Hebreus e desprezado pelos maus católicos. Aquele que entre vós, que melhor souber carregar a sua própria cruz, ainda que não saiba mais que o A e o B, é sem dúvida, o mais sábio de todos. Escutai o grande apóstolo Paulo. Após a sua experiência mística em que pôde conhecer de perto mistérios desconhecidos pelos próprios anjos, exclamou que não queria saber ou conhecer mais nada fora de Jesus Cristo, e este crucificado. Alegra-te, pois, tu, pobre homem inculto ou tu, mulher, também sem qualquer preparação ou cultura, Se souberdes carregar a cruz com alegria, sabereis mais do qualquer professor da Sorbonne que não saiba sofrer assim, como vós. Que grande honra serdes membros de Jesus Cristo! Uma honra, porém, que exige também a nossa participação no carregamento da cruz. Se a cabeça é coroada de espinho, será que os membros quereriam coroar-se de rosas?


Se a cabeça está escarrada e coberta de lama a caminho do Calvário será que os membros deveriam cobrir-se de perfumes num trono real? Quantos cristãos há, verdadeiramente ingênuos. Julgam-se membros do Salvador e, pelo contrário, são os seus maiores traidores porque, enquanto fazem com a mão o sinal da cruz, mas no coração são inimigos. Vós sois os templos do Espírito Santo. Já o sabeis. E sabeis também que, como “pedras vivas” devereis ser usados por este Deus de amor para a construção de Jerusalém celeste. Disponde-vos, pois, a ser talhados, cortados e cinzelados pelo martelo da cruz; caso contrário permaneceríeis pedras toscas que não são utilizadas para nada, que são rejeitadas e repelidas para longe. Se, pelo contrário, não aceitardes sofrer com paciência e carregar a cruz com resignação, como os predestinados, tereis que carregá-la com murmurações e impaciência, como sucede com os condenados. Quer se queira quer não, predestinados ou réprobos, todos deverão carregar a própria cruz de bom grado ou de má vontade. Tende presente os quatro versos seguintes:


Escolhe uma das cruzes que vês no Calvário. Escolhe bem, escolhe sabiamente, já que sofrer como um santo, ou Como um penitente, é necessário. Ou então terás que sofrer como um réprobo, sempre descontente. E isto quer dizer que, se não quiserdes sofrer com alegria como Jesus Cristo, ou com paciência como o bom ladrão; devereis sofrer forçosamente como mau ladrão; devereis beber até ao fundo do cálice mais amargo, sem receberdes qualquer consolação da graça, e devereis carregar todo o peso da cruz, sem o auxílio poderoso de Jesus Cristo. Mais ainda, devereis até mesmo carregar o peso que o demônio, inevitavelmente, se encarregará de acrescentar à vossa cruz, devido à impaciência em que vos lançará, de tal forma que, depois de terdes sido infelizes na terra, como o mau ladrão, tereis ainda que ir juntar-vos a ele nas chamas –


São Luis Maria Grignion de Montfort, “Carta aos amigos da Cruz”

segunda-feira, 24 de maio de 2021

A pena dos sentidos no inferno

 

The Last Judgement, Hell (Fra Angelico, 1431)

The Last Judgement, Hell (Fra Angelico, 1431)

Quantum glorificavit se et in deliciis fuit, tantum date illi tormentum et luctum – “Quanto se glorificou e esteve em delícias, tanto lhe dai de tormento e pranto” (Ap 18, 7)

Sumário. É com razão que o inferno é chamado um lugar de tormentos, porque ali todos os sentidos e todas as faculdades do condenado terão o seu tormento próprio; e quanto mais tiver ofendido a Deus com algum dos sentidos, tanto mais terá de sofrer nesse sentido. Meu irmão, vê se a vida que levas te inspira confiança de não caberes naquele abismo. Quantos cristãos meditaram no inferno como tu, mas, porque não quiseram romper com o pecado e abusaram da divina misericórdia, estão agora queimando ali para sempre!

I. É um ponto da fé que há um inferno, horrível prisão destinada a punir os que se revoltaram contra Deus. O que é o inferno? Um lugar de tormentos: locus tormentorum, como o chama o mau rico condenado (1). É um lugar de tormentos, onde todos os sentidos e todas as faculdades do condenado terão o seu tormento próprio e quanto mais alguém tiver ofendido a Deus com algum dos sentidos, tanto mais terá a sofrer neste mesmo sentido: Quantum in deliciis fuit, tantum date illi tormentum.

A vista será atormentada pelas trevas. Que compaixão não sentiríamos, se soubéssemos que um pobre homem está encerrado num cárcere escuro por toda a vida, por quarenta ou cinqüenta anos! O inferno é um abismo fechado de todos os lados, onde nunca penetrará um raio de sol ou de qualquer outra luz. O fogo mesmo que na terra ilumina, no inferno deixará de ser luminoso, tão somente arderá.

O olfato terá também o seu suplício. Quanto não sofreríamos se estivéssemos num quarto junto com um cadáver em putrefação? De cadaveribus eorum ascendet foetor (2) – “De seus cadáveres levantar-se-á grande fedor”. O condenado deve ficar no meio de milhões e milhões de cadáveres, vivos com relação aos sofrimentos, mas verdadeiros cadáveres pelo mau cheiro que exalam. Diz São Boaventura que o corpo de um só condenado, se fosse atirado à terra, bastaria com a infecção para fazer morrer todos os homens.

E ainda há insensatos que dizem: “Se for para o inferno, não me hei de achar só“. Infelizes, quantos mais lá encontrarem, tanto mais sofrerão, por causa da infecção, dos gritos e do aperto, porque os réprobos estarão no inferno tão juntos uns dos outros, como ovelhas encerradas no curral durante a tempestade: Sicut oves in inferno positi sunt (3) – “Como ovelhas são postos no inferno“. Para melhor dizer, serão como uvas esmagadas no lagar da cólera de Deus. – Daí nasce o suplício da imobilidade. Da maneira como o condenado cair no inferno no último dia, estará sempre, sem nunca poder mudar de situação, sem nunca poder mexer pés nem mãos, enquanto Deus for Deus.

II. No inferno será também atormentado o ouvido, pelos rugidos e queixas daqueles infelizes desesperados. Como não se sofre quando se quer dormir e se ouvem os gemidos contínuos de um enfermo, o ladrar de um cão ou o choro de uma criança? Qual não será então o tormento dos condenados obrigados a ouvir incessantemente durante toda a eternidade estes ruídos e clamores insuportáveis?

O gosto será atormentado pela fome. O condenado sentirá uma fome canina: Famem patientur ut canes (4), mas nunca terá nem uma só migalha de pão. Terá uma tal sede, que nem todas as águas do mar bastariam para lh’a apagar; mas nem terá uma só gota. O mau rico pediu-a, mas nunca a obteve e nunca a obterá, nunca.

Aqui, Senhor, tendes aos vossos pés aquele desgraçado que tão pouco caso fez das vossas graças e dos vossos castigos! Ai de mim, se não tivésseis tido piedade! Quantos anos teria passado já nessa fornalha infecta, onde ardem tantos dos meus semelhantes! Ó meu Redentor, quanto este pensamento me abrasa no vosso amor! Como poderei no futuro pensar em Vos ofender? Ah, não! Meu bom Jesus, nunca isso aconteça; fazei-me antes mil vezes morrer.

Já que haveis começado, acabai a vossa obra. Tirastes-me do lodaçal dos meus muitos pecados e convidastes-me a Vos amar. Fazei com que empregue o tempo, que ainda me dais, todo para Vós. Com que ardor não desejariam os condenados um dia, uma hora desse tempo, que me concedeis! E eu continuarei a consumi-lo em coisas que Vos desagradam? Não, meu Jesus, peço-Vos, pelos merecimentos de vosso Sangue, que não o permitais.

– Amo-Vos, soberano Bem, e porque Vos amo, pesa-me de Vos haver ofendido. Não quero mais ofender-Vos, mas sim, amar-Vos sempre. – Minha Rainha e minha Mãe, Maria, rogai a Jesus por mim, e obtende-me o dom da perseverança e do seu santo amor.

Referências:

(1) Lc 16, 28
(2) Is 34, 3
(3) Sl 48, 15
(4) Sl 58, 15

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 128-130)


domingo, 23 de maio de 2021

A salvação é o negócio mais importante e o mais descuidado

 Cristo Ressuscitado, salvação para todos os homens

Quam dabit homo commutationem pro anima sua? – “Que dará o homem em troca da sua alma?” (Mt 16, 26)

Sumário. Coisa estranha! Ninguém quer passar por negligente nos negócios do mundo e muitos não tem pejo de descuidar o negócio da eternidade, o mais importante de todos. Muitos fazem até tudo para perderem a alma e a maior parte dos cristãos vivem como se as verdades eternas fossem outras tantas fábulas. Nós ao menos não sejamos tão insensatos e pensemos seriamente de que nada nos serviria ganharmos o mundo inteiro, se depois viéssemos a perder a nossa alma. Perdida alma, está tudo perdido, e para sempre!

I. A salvação eterna é certamente o negócio que sobre todos os outros mais nos interessa, porque dele depende a nossa eterna felicidade ou desgraça. Todavia é deste negócio que os cristãos menos se ocupam. Não se poupa nenhum cuidado, nem se perde nenhum momento, para chegar a tal dignidade, ganhar tal demanda, concluir tal negócio; que de conselhos então, que de providenciais! Não se come, não se dorme. Mas depois, que se faz para assegurar a salvação eterna? Como é que se vive? Não se faz nada, ou, para melhor dizer, faz-se tudo para a perder e a maior parte dos cristãos vive como se a morte, o juízo, o inferno, o céu e a eternidade não fossem verdades da fé, mas sim fábulas inventadas pelos poetas.

Que mágoa não sentimos quando se perde uma demanda, uma colheita! Quantos cuidados para reparar o prejuízo! Quando se perde um cavalo, um cão, quantas diligências para os reaver! Perdemos a graça de Deus e dormimos e gracejamos e rimos! – Coisa estranha! Cada um tem pejo de passar por negligente nos negócios do mundo; e são inúmeros os que não têm pejo de se descuidar do negócio da salvação, o mais importante de todos! Confessam que os Santos foram verdadeiros sábios, porque só trabalharam para se salvarem e eles mesmos ocupam-se de todas as cosias do mundo com exceção da sua própria alma!

Mas vós, diz são Paulo, ao menos vós, meus irmãos, aplicai-vos ao grande negócio da vossa salvação eterna, que é o negócio que mais vos interessa: Rogamus vos, ut vestrum negotium agatis (1). “Porquanto”, exclama Jesus Cristo, “de que serve ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca de sua alma? (2)” Perdida a alma está tudo perdido, e perdido para sempre.

II. Persuadamo-nos de que a salvação eterna é para nós o negócio mais importante, por ser irreparável se não o realizarmos. Portanto, afim de o levarmos a feliz êxito, não receemos trabalhos nem fadigas. “O reino eterno”, diz são Bernardo, “não se da aos preguiçosos, mas aos que se houverem valorosamente no serviço de Jesus Cristo.

Ah! Meu Deus, graças Vos dou por me achar ainda aqui aos vossos pés e não no inferno, tantas vezes por mim merecido. Mas de que me serviria a vida que me concedeis, se eu continuasse a viver privado da vossa graça? Nunca mais isto me suceda! Virei-Vos as costas e Vos perdi, ó meu supremo Bem. Arrependo-me de todo o coração e antes tivesse morrido mil vezes! Eu Vos perdi; mas o Profeta me diz que sois todo bondade e Vos deixais achar pela alma que Vos busca: Bonus est Dominus animae quarenti illum (3) . Se no passado tenho fugido de Vós, ó Rei de meu coração, agora Vos busco e só a Vós quero buscar.

Amo-Vos, † Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas, com todo o afeto da minha alma. Aceitai-me e não desprezeis o amor de um coração que algum tempo Vos desprezou. Doce me facere voluntatem tuam (4) – “Ensinai-me a fazer a vossa vontade.” Dizei-me o que devo fazer para Vos agradar; quero fazer tudo que desejardes. Meus Jesus, salvai a minha alma, pela qual destes o sangue e a vida; dai-me a graça de Vos amar sempre nesta vida e na outra.

Espero tudo pelos vossos merecimentos. Confio também em vossa intercessão, ó grande Mãe de Deus e minha Mãe, Maria.

Referências:

(1) 1 Ts 4, 11
(2) Mt 16, 26
(3) Lm 3, 25
(4) Sl 142, 10

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 126-128)

sábado, 22 de maio de 2021

Amor de Deus para com os homens na missão do Espírito Santo

 



Domingo de Pentecostes

Et repleti sunt omnes Spirit Sancto, et coeperunt loqui variis linguis – “E foram todos cheios do Espírito Santo, e começaram a falar em várias línguas” (At 2, 4)

Sumário. No sacramento da Confirmação todos nós recebemos o mesmo Espírito Santo que Maria Santíssima e os apóstolos receberam hoje tão abundantemente. Consideremos o amor que neste sublime mistério nos mostraram as três Pessoas divinas apesar dos maus tratos que o mundo infligiu a Jesus Cristo. Já que o amor se paga com amor, roguemos ao Espírito divino, que nos abrase o coração com suas felizes chamas, e nos conceda que com a língua louvemos a Deus e o façamos louvar pelos outros.

I. Antes de partir desta terra, o divino Redentor prometeu várias vezes aos apóstolos, que, uma vez voltado para o céu, havia de pedir ao Pai lhes mandasse outro Consolador, o Espírito de verdade, que ficaria sempre com eles. Eis que hoje Jesus cumpre fielmente a sua promessa.

Refere São Lucas que “quando se completaram os dias de Pentecostes, todos os discípulos estavam juntos no mesmo lugar e perseveravam unanimamente na oração com as mulheres e Maria, a Mãe de Jesus. E veio de repente do céu um ruído, como de vento que soprasse com ímpeto e encheu toda a casa onde estavam sentados. E lhes apareceram repartidas umas como que línguas de fogo que repousaram sobre cada um deles. E foram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em várias línguas conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem“.

Consideremos aqui o amor que Deus nos mostrou em tão sublime mistério, porquanto no sacramento da Confirmação nós temos recebido o mesmo Espírito Santo, o Consolador, que Maria Santíssima e os apóstolos receberam hoje tão abundantemente e de um modo tão admirável. O Pai Eterno, não satisfeito de nos ter dado seu Filho divino, quis ainda dar-nos o Espírito Santo afim de que habitasse sempre em nossas almas e conservasse nelas aceso o fogo sagrado do amor. O mesmo faz o Filho Eterno, não obstante os maus tratos que os homens lhe infligiram na terra.

O Espírito Santo, pois, desce ao Cenáculo em forma de línguas de fogo, para nos ensinar que por nosso amor assumiu o ofício amoroso de dirigir as línguas dos apóstolos e dos seus sucessores, na pregação do Evangelho. Apareceu também em forma de chamas, para insinuar que alumiará os espíritos, purificará os corações e estimulará as vontades de todos os fiéis, para trabalharem na santificação própria e na dos outros. Oh! Que grande amor da parte da Santíssima Trindade!

II. Amor se paga com amor. Visto, pois, que ao mistério deste dia toda a Santíssima Trindade se esmerou em nos patentear o amor que Deus nos tem, justo é que o amemos com todas as nossas forças. Roguemos, portanto, ao Espírito Santo queira ascender em nossos corações as chamas sagradas do seu amor.

Ó Espírito Santo, divino Paráclito, pai dos pobres consolador dos aflitos, santificador das almas, eis-me aqui prostrado em vossa presença, para Vos adorar com a mais perfeita submissão. Creio firmemente que sois Deus eterno, da mesma substância com o Pai e o Filho divino, e amo-Vos com todos os meus afetos sobre todas as coisas. Ingrato e insensível a vossas santas inspirações, tantas vezes Vos ofendi pelos meus pecados. Peço-Vos humildemente perdão e pesa-me sumamente ter-Vos desagradado, ó Bem supremo.

Ofereço-Vos o meu pobre coração e peço-Vos queirais purificá-lo com a água de vida eterna, e fertilizá-lo com o orvalho celestial, afim de que seja morada digna de Deus e só em Deus ache repouso. Sois fogo; abrasai-me de vosso santo amor; sois um laço, prendei-me com os laços de caridade; sois força; dai-me forças contra os espíritos malignos. Sois finalmente o tesouro de todo o bem; enriquecei-me com todos os vossos dons celestiais, assim como enriquecestes a alma de Maria Santíssima e dos santos apóstolos.

A mesma graça peço-a de Vós, ó Eterno Pai. “Vós, que no presente dia ensinastes os corações dos fiéis com a luz do Espírito Santo, dai-nos pelo mesmo Espírito o conhecimento e o amor do que é reto, e que sempre gozemos da sua consolação” (1). Fazei-o pelo amor de Jesus e Maria.

Referências:

(1) Or. Dom. curr.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 123-125)

A oração e a pureza estiveram sempre presentes na vida de D. Bosco

 

D. Bosco rezava sempre. Nele, a união com Deus era contínua. Quem se aproximava dele percebia logo estar diante de um serafim. Era-o tal quando rezava de joelhos; era-o ao celebrar a Santa Missa; era-o no caminhar grave e sereno; tal era quando nas conversações sabia elevar-se a Deus por mais comum que fosse o argumento sem que por isso se tornasse enfadonho ou aborrecido; fazia-o com uma naturalidade incrível. 

A sua palavra, os seus gestos, a sua atitude, em suma, qualquer acção de D. Bosco respiravam uma candura e um aroma tão virginal que arrebatava e edificava a quem quer que se aproximasse dele, fosse embora um desencaminhado. O ar angélico que lhe transparecia no rosto tinha um atractivo especial para conquistar os corações. Dos seus lábios jamais saiu uma palavra que se pudesse taxar de menos própria. 

No seu exterior evitava qualquer gesto ou qualquer movimento que parecesse mundano. Quem o conheceu nos momentos mais íntimos de sua vida, o que achou nele de mais extraordinário foi sem dúvida a suma atenção que sempre usou na prática dos mais vivos cuidados para não lesar a modéstia. 

"Estou absolutamente convencido – declara o Cónego Berrome – que D. Bosco conduziu à tumba a estola da inocência baptismal. Lia-se a virtude da castidade no seu olhar, na sua atitude, na sua palavra e em todos os seus actos; bastava fixá-lo para sentir o perfume desta virtude."

V. Sinistrero in 'Dom Bosco nos guia à Pureza' (Niterói: Escolas Profissionais Salesianas, 1940, pp. 120-124)

quinta-feira, 20 de maio de 2021

A ilusão da misericórdia sem conversão

 



"Pode ser que haja, no meio de vós, meus irmãos, alguém que se encontre com a alma carregada de pecados e que -- longe de pensar em se livrar deles pela confissão e penitência -- não cessa de cometer novos pecados, se sobrecarregando ainda mais. Este, certamente, abusa da misericórdia divina; pois, a que fim nosso Deus tão bom deixa que este pecador viva senão para que ele se converta e, por consequência, escape da desgraça de perder sua alma?
"Ele merece as severas censuras que o Apóstolo dirigiu ao povo judeu impenitente: 'Porventura desprezas as riquezas da bondade, da paciência e da longanimidade de Deus? Ignoras que Sua bondade te convida à penitência? Mas que na tua dureza e coração impenitente, acumulas para ti um tesouro de ira no dia da ira e da manifestação do justo juízo de Deus' (Rom II 4,5).

"Eu quero vos afastar, meus irmãos, desse funesto abuso, e vos preservar da desgraça de cair na morte eterna do inferno. A esse propósito, chamo vossa atenção para a seguinte verdade: Quando uma alma abusa da misericórdia divina, a misericórdia divina está bem próxima de a abandonar...

"Santo Agostinho observa que, para enganar os homens, o demônio emprega ora o desespero, ora a confiança.

Após o pecado, o demônio nos mostra o rigor da justiça de Deus para que desconfiemos de Sua misericórdia. Entretanto, antes do pecado, o demônio nos coloca diante dos olhos a grande misericórdia de Deus, a fim de que o receio dos castigos, devidos ao pecado, não nos impeça de satisfazer nossas paixões...

"Essa misericórdia sobre a qual vós contais para poder pecar, dizei-me, quem vo-la prometeu? Não Deus, certamente, mas o demônio, obstinado em vos perder. Cuidado!, diz São João Crisóstomo, de dar ouvidos a este monstro infernal que vos promete a misericórdia celeste...

"'Deus é cheio de misericórdia, eu pecarei e em seguida confessar-me-ei'. Eis aí a ilusão, ou antes, a armadilha que o demônio usa para arrastar tantas almas ao inferno!...

"Nosso Senhor, aparecendo um dia a Santa Brígida, queixou-Se: 'Eu sou justo e misericordioso, mas os pecadores não querem ver senão minha misericórdia' (Ego sum justos et misericors; peccatores tantum misericordem me existimant - Rev. 1. I. c. 5). Não duvideis, diz São Basílio, que Deus é misericordioso, mas saibamos que Ele é também justo, e estejamos bem atentos para não considerar apenas uma metade de Deus. Uma vez que Deus é justo, é impossível que os ingratos escapem do castigo.... Misericórdia! Misericórdia! Sim, mas para aquele que teme a Deus, e não para aquele que abusa da paciência divina!".


Fonte: Sermons de S. Alphonse de Liguori, Analyses, commentaires, exposé du système de sa prédication, par le R.P. Basile Braeckman, de la Congrégation du T. S. Rédempteur, Tome Second. Jules de Meester-Imprimeur-Éditeur, Roulers, pp. 55-60, apud Revista Catolicismo, número 572, agosto/1998, pág. 37

Mais interessa a virtude do que a reputação

 

As pessoas que são frágeis e sensíveis em relação à sua reputação assemelham-se às que, ao mais leve sinal de incómodo, tomam medicamentos, pois pensam que assim mantêm a sua saúde, enquanto, na prática, a deterioram. Aquelas que querendo manter tão delicadamente a sua reputação a perdem inteiramente, porque, com esta sensibilidade, se tornam bizarras, obstinadas, insuportáveis e provocam a malícia dos maledicentes.

A reputação é simplesmente como uma insígnia que dá a conhecer onde está alojada a virtude. Portanto, a virtude deve ser preferida em tudo e em toda parte. Se as pessoas dizem que és um hipócrita porque te submetes à devoção; se és tido como homem de pouca fibra porque perdoaste a injúria, não faças caso de tudo isto. 

Porque esses julgamentos são feitos por pessoas néscias e estúpidas na tentativa que a pessoa perca a sua reputação, mas nem por isso deve abandonar a virtude nem afastar-se do seu caminho, tanto mais que se deve preferir o fruto às folhas, isto é, o bem interior e espiritual a todos os bens exteriores. É preciso ser zeloso, mas não idólatra de nossa reputação; e como não se deve ofender os olhos dos bons, também não se deve querer contentar o dos malignos.

São Francisco de Sales in 'Introduction à la vie dévote' (III, cap. VII, I, 120-121)

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Para avançar na virtude é importante calar

 

O Pai celeste disse uma única palavra: o seu Filho. Disse-a eternamente e num eterno silêncio. É no silêncio da alma que Ele Se faz ouvir. 

Falai pouco e não vos metais em assuntos sobre os quais não fostes interrogados.  Não vos queixeis de ninguém; não façais perguntas ou, se for absolutamente necessário, que seja com poucas palavras. Procurai não contradizer ninguém e não vos permitais nenhuma palavra que não seja pura. 

Quando falardes, que seja de modo a não ofender ninguém e não digais senão coisas que possais dizer sem receio diante de toda a gente. Tende sempre paz interior e uma atenção amorosa para com Deus; e, quando for necessário falar, que seja com a mesma calma e a mesma paz. Guardai para vós o que Deus vos diz e lembrai-vos desta palavra da Escritura: «O meu segredo é meu» (Is 24,16). 

Para avançar na virtude, é importante calar e agir, porque, falando, as pessoas distraem-se, ao passo que, guardando silêncio e trabalhando, recolhem-se. Depois de aprendermos com alguém o que é preciso para o nosso progresso espiritual, não lhe peçamos que continue a falar: ponhamos mãos à obra, com seriedade e silêncio, com zelo e humildade, com caridade e desprezo de nós mesmos. 

Antes de tudo, é necessário e conveniente servir a Deus no silêncio das tendências desordenadas e da língua, a fim de só ouvir palavras de amor. 

São João da Cruz in 'Conselhos e Máximas'

terça-feira, 18 de maio de 2021

OS DEMÔNIOS DISSERAM AO SANTO QUE O ROSÁRIO LEVAVA O ESPANTO A TODO O INFERNO.

 




Conta São Luís Maria Grignion de Montfort, em seu livro ‘O Segredo Admirável do Santíssimo Rosário’;

Que em uma ocasião, São Domingos de Gusmão estava pregando;

E levaram a ele um herege albigense possuído por demônios, a quem exorcizou na presença de uma grande multidão.

O santo fez aos malignos várias perguntas e, por obrigação;


Disseram-lhe que eram 15.000 os que estavam no corpo desse homem;


Durante o exorcismo, os demônios disseram ao santo que com o Rosário que pregava;


Levava o terror e o espanto a todo o inferno;


E que ele era o homem que mais odiavam no mundo por causa das almas que lhes tirava com esta devoção.

São Domingos lançou seu Rosário ao pescoço do homem e perguntou-lhes;

Qual dos santos do céu temiam mais e qual devia ser o mais amado e honrado pelos homens.

Os inimigos, diante dessas perguntas, deram gritos tão espantosos que muitos dos que estavam ali presentes caíram em terra pelo susto.

Os malignos, para não responder, choravam, lamentavam-se e pediam pela boca do homem a São Domingos que tivesse piedade deles.

O santo, sem se alterar, disse que não pararia de atormentá-los até que respondessem o que lhes tinha perguntado.

Então, eles disseram que o diriam, mas em segredo, ao ouvido e não diante de todos.

O santo, ao contrário, ordenou-lhes que falassem alto, mas os diabos não quiseram dizer nenhuma palavra.


“Oh excelentíssima Virgem Maria, pela virtude de teu saltério e Rosário, ordena a estes inimigos do gênero humano que respondam a pergunta”.


Em seguida, uma chama ardente saiu das orelhas, nariz e boca do homem possuído.

Os demônios rogaram a São Domingos que;

Pela paixão de Jesus Cristo e pelos mistérios de sua Santa Mãe e de todos os santos;

Os permitisse sair desse corpo sem dizer nada, porque os anjos o revelariam em qualquer momento que quisesse.

Mais tarde, o santo voltou a se ajoelhar e elevou outra prece:


“Oh digníssima Mãe de Sabedoria, sobre cuja saudação, de que forma se deve rezar, este povo já está instruído;

Peço-vos para a saúde dos fiéis aqui presentes, que obrigueis a esses vossos inimigos a abertamente confessar aqui a verdade completa e honesta”.


Apenas terminou de pronunciar estas palavras, o santo viu perto dele uma multidão de anjos e a Virgem Maria que golpeava o demônio com uma vareta de ouro, enquanto lhe dizia:


“Responda a pergunta de meu servidor Domingos”.


Deve-se levar em consideração que o povo não via, nem ouvia a Virgem, somente São Domingos.

Os demônios começaram a gritar:


“Oh! inimiga nossa! Oh! ruína e confusão nossa!

Por que viestes do céu para atormentar-nos de forma tão cruel?

Será preciso que por vós, oh advogada dos pecadores, a quem livrais do inferno;

Oh caminho seguro do céu, sejamos abrigados – para nosso pesar – a confessar diante de todos o que é causa de nossa humilhação e ruína?

Ai de nós! Maldição a nossos príncipes das trevas!”.


“Ouçam, pois, cristãos!

Esta Mãe de Deus é onipotente e pode impedir que seus servos caiam no inferno.

Ela, como um sol, dissipa as trevas de nossas astutas maquinações.

Descobre nossas intrigas, rompe nossas redes e reduz à inutilidade todas nossas tentações.

Vemo-nos obrigados a confessar que ninguém que persevere em seu serviço se condena com nós”.


“Um só suspiro que ela apresente à Santíssima Trindade vale mais que todas as orações, votos e desejos de todos os santos.


Temos mais medo dela do que de todos os bem-aventurados juntos e nada podemos contra seus fiéis seguidores”.

Do mesmo modo, os malignos confessaram que muitos cristãos que a invocam ao morrer e que deveriam ser condenados, segundo as leis ordinárias, se salvam graças à sua intercessão:


“Ah, se esta Mariazinha – assim a chamaram em sua fúria – não houvesse oposto aos nossos desígnios e esforços;

Há tempos teríamos derrubado e destruído a Igreja, e levado ao erro e à infidelidade toda sua hierarquia!”.


Em seguida, acrescentaram que:

 

“Ninguém que persevere na reza do Rosário se condenará.

Por que ela obtém para seus fiéis devotos a verdadeira contrição dos pecados, para que os confessem e alcancem o seu perdão”.


Foi então que São Domingos fez todo o povo rezar o Rosário muito lenta e devotamente e;

A cada Ave Maria que rezavam, saíam do corpo do homem possuído uma grande multidão de demônios em forma de carvões incendiados.


Quando todos os inimigos saíram e o herege ficou livre, a Virgem Maria, de maneira invisível, deu sua bênção a todo o povo, que experimentou grande alegria.


“Este milagre foi causa da conversão de grande número de hereges, que, aliás, se inscreveram na Confraria do Santo Rosário”, concluiu São Luís Maria Grignion de Montfort.