domingo, 28 de fevereiro de 2021

A transfiguração de Jesus Cristo e as delícias do paraíso

 


Meditação para o 2º Domingo da Quaresma

Domine, bonum est nos hic esse – “Senhor, é bom estarmos aqui” (Mt 17, 4)

Sumário. Consideremos hoje a beleza do paraíso e raciocinemos assim: São Pedro e os seus felizes companheiros provaram apenas uma só gota da doçura celestial; não viram senão um raio da divindade. Todavia ficaram de tal modo arrebatados, que desejavam permanecer ali para sempre. O que será então de nós, quando nos saciarmos na fonte das delícias e virmos a Deus tal qual é, face a face? Para chegarmos a tão grande recompensa, devemos antes de mais nada combater e sofrer alguma coisa na terra.

I. No Evangelho de hoje, lemos que certo dia Nosso Senhor, querendo dar a seus discípulos um antegozo da beleza do paraíso, “tomou consigo a Pedro, a Tiago e a João seu irmão, e os conduziu de parte a um alto monte e transfigurou-se diante deles. O seu rosto ficou refulgente como o sol, e suas vestiduras se fizeram brancas como a neve. E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com Ele. E tomando a palavra, disse Pedro a Jesus: Senhor, bom é que estejamos aqui: se queres, façamos três tabernáculos, um para ti, outro para Moisés e outro para Elias: Domine, bonum est nos hic esse.

Detenhamo-nos também a considerar um pouco a beleza do paraíso e raciocinemos assim: São Pedro e os seus felizes companheiros provaram apenas uma só gota da doçura celestial e nem assim puderam conter-se que não rogassem a Jesus, lhes fosse concedido permanecerem sempre naquele lugar. Que será então de nós, quando o Senhor saciar os seus escolhidos da abundância de sua casa e os fizer beber na torrente das suas delícias? (1) São Pedro e os outros dois apóstolos não viram senão um único raio da divindade de Jesus Cristo, o qual transluziu da sua sagrada humanidade. Todavia, não podendo sustentar tão viva luz, ficaram deslumbrados, e como fora de si, caíram de bruços sobre a terra. Que será então quando o Senhor se deixar ver a seus escolhidos face a face, como é em si mesmo? — Tão bela sorte nos espera também a nós, meu irmão, se nos esforçamos por merecê-la ao menos no tempo de vida que ainda nos resta.

Ó doce esperança! Virá um dia em que nós também veremos a Deus como é, isto é, veremos a beleza incriada, que encerra, de modo infinitamente perfeito, todas as belezas espalhadas pelo universo: Similes ei erimus, quoniam videbimus eum sicuti est (2) — “Seremos semelhantes a Ele, porque O veremos como é.”

II. A glória de que gozaram os três venturosos discípulos foi de curta duração; porque “enquanto Pedro ainda falava, uma nuvem luminosa os envolveu. E logo saiu da nuvem uma voz que disse: Este é meu Filho amado, em quem pus toda a minha complacência: ouvi-O… Chegou-se a eles Jesus, tocou-os e lhes disse: Levantai-vos e não temais. Eles então, levantando os olhos, já não viram ninguém senão só Jesus: Neminem viderunt, nisi solum Iesum.

Com isso o Senhor nos quer dar a entender que as consolações que faz degustar a seus servos, tem por único fim animá-los ao trabalho, porquanto o tempo presente é um tempo de merecer e não de gozar. Eis porque no meio daquela visão celestial, Moisés e Elias não falaram senão das penas e ignomínias do Calvário: Dicebant excessum eius (3) — “Falavam da sua saída deste mundo”. São Pedro é de certo modo repreendido porque desejava ficar sempre no gozo daquelas delícias: Non enim sciebat quid diceret (4) — “Não sabia o que dizia.”

Animemo-nos portanto e procuremos sofrer com paciência as atribulações que Deus nos envia, oferecendo-as ao Senhor em união com as penas que Jesus Cristo sofreu por nosso amor. Quando as cruzes nos afligirem, levantemos os olhos ao céu e consolemo-nos com a esperança do paraíso. Tudo é pouco ou antes nada para merecermos o reino do céu.

Meu amado Redentor, agradeço-Vos as luzes que me dais agora! São sinais de que me quereis salvo a gozar um dia convosco no céu. Quero salvar-me, não tanto para gozar, como para Vos agradar e amar. Amo-Vos, † Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas. Pesa-me de Vos ter ofendido e proponho nunca mais tornar a ofender-Vos. Mas já que me vedes destituído de toda a força, amparai a minha fraqueza, a fim de que eu Vos seja fiel. “Guardai-me interior e exteriormente, para que me defendais de adversidades no corpo e limpeis a minha alma de maus pensamentos”. (5) † Doce Coração de Maria, sêde minha salvação.

Referências:

(1) Sl 35, 9
(2) 1 Jo 3, 2
(3) Lc 9, 31
(4) Mc 9, 5
(5) Or. Dom. curr.

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 316-318)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Quanto Jesus deseja unir-se conosco na santa Comunhão

 



Tire o maior proveito desta Meditação seguindo os passos
para se fazer a Oração Mental proposta por Santo Afonso!

Desiderio desideravi hoc Pascha manducare vobiscum, antequam patiar – “Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa, antes que padeça” (Lc 22, 15)

Sumário. Nenhuma abelha esvoaça com tanta avidez sobre as flores para lhes sorverem o mel, como Jesus vai morar nas almas que o desejam. Eis porque no Evangelho nos convida tantas vezes a que nos aproximemos dele na santa Comunhão. Faz tantas promessas e tantas ameaças, para manifestar o grande desejo que tem de unir-se conosco. Que ingratidão, pois, se não correspondemos a tão grande amor!

I. Jesus Cristo chama hora sua a noite em que devia começar a sua paixão. Mas como é que pode chamar uma hora tão funesta a sua hora? É porque foi a hora por ele almejada em toda a sua vida, visto que havia determinado que naquela noite havia de nos deixar a santa Comunhão, destinada a consumar a sua união com as almas diletas, pelas quais devia em breve dar o sangue e a vida. Eis aqui o que naquela noite Jesus disse a seus discípulos: Desiderio desideravi hoc pascha manducare vobiscum ― «Tenho desejado ansiosamente comer esta Páscoa convosco». Palavra pela qual o Redentor nos quis dar a entender o desejo ansioso que tinha de unir-se conosco neste santíssimo Sacramento de amor: desiderio desideravi ― «desejei ansiosamente»; estas palavras, diz São Lourenço Justiniani, saíram do Coração de Jesus abrasado em imenso amor.

Ora, a mesma chama que então ardia no Coração de Jesus, ainda está ardendo ali até ao presente; e a todos nós renova o convite feito então aos apóstolos de o receberem: Accipite et comedite, hoc est corpus meum (Mt 26, 26) ― «Tomai e comei: isto é o meu corpo». Além disso, para atrair-nos a recebê-lo com amor, promete o paraíso: Qui manducat meam carnem, habet vitam aeternam (Jo 6, 55) ― «Quem como a minha carne, tem a vida eterna». No caso contrário ameaça-nos com a morte eterna: Nisi manducaveritis carnem Filii hominis, non habebitis vitam in vobis (Jo 6, 54) ― «Se não comerdes a carne do Filho do homem, não tereis a vida em vós».

Estes convites, estas promessas, estas ameaças nasceram todas do desejo que tem Jesus Cristo de se unir conosco na santa comunhão, e este desejo nasce do amor que nos tem. «Não há abelha», disse um dia o Senhor a Santa Matilde, «que com tanta avidez esvoace sobre as flores para lhes sorver o mel, como eu anseio entrar nas almas que me desejam». Porque Jesus nos ama, quer ser amado de nós, e porque nos deseja seus, quer ser desejado, como diz São Gregório: Sitit sitiri Deus. Bem-aventurada a alma que se aproxima da mesa da comunhão com grande desejo de se unir a Jesus Cristo!

II. Adorável Jesus meu, não podeis dar-nos maiores provas de amor par anos fazer compreender quanto nos amais. Destes vossa vida por nós; ficastes no Santíssimo Sacramento, para que venhamos aí alimentar-nos de vossa carne, e quão grande desejo tendes que Vos recebamos! Como podemos ser sabedores de tantas finezas de vosso amor, sem ficarmos abrasados no vosso amor? Longe de mim, afetos terrenos, saí de meu coração; vós é que me impedis de arder por Jesus como ele arde por mim. Ó meu Redentor, que outros testemunhos de afeto posso eu ainda esperar, depois dos que me tendes dado? Por meu amor sacrificastes a vossa vida inteira; por meu amor abraçastes uma morte tão amarga e ignominiosa; por meu amor chegastes, por assim dizer, a aniquilar-Vos, reduzindo-Vos na Eucaristia a estado de alimento, para Vos dardes todo a mim. Ah, Senhor! não permitais que eu seja ingrato a tão grande bondade.

Graças vos dou pelo tempo que me concedeis para chorar minhas ingratidões e Vos amar. Arrependo-me, ó soberano Bem, de ter tantas vezes desprezado o vosso amor. Amo-Vos, ó Bondade infinita; amo-Vos, ó Tesouro infinito; amo-Vos, ó Amor infinito, digno de infinito amor. + Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas. Por piedade, ajudai-me, ó meu Jesus, a banir do meu coração todos os afetos que não são para Vós, para que daqui por diante não deseje, não busque e não ame senão a Vós. Meu amado Redentor, fazei com que eu Vos ache sempre e sempre Vos ame. Apoderai-Vos de toda a minha vontade, para que queira somente o vosso beneplácito. Meu Deus, meu Deus, a quem então amarei, se não amo a Vós em quem se encontram todos os bens? Só a Vós quero, e nada mais.

― Ó Maria, minha Mãe, tomai meu coração e enchei-o de perfeito amor a Jesus.

 

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 308-311)


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

São Leão Magno explica-nos a Quaresma

 

Há muitas batalhas dentro de nós: a carne contra o espírito, o espírito contra a carne. Se, na luta, são os desejos da carne que prevalecem, o espírito perderá vergonhosamente a sua dignidade própria e isto será uma grande infelicidade. De rei que deveria ser, torna-se escravo. Se, ao contrário, o espírito se submete ao seu Senhor, põe a sua alegria naquilo que vem do céu, despreza os atrativos das volúpias terrestres e impede o pecado de reinar sobre o seu corpo mortal, a razão manterá o ceptro que lhe é devido. 

Nenhuma ilusão dos maus espíritos poderá derrubar os seus muros; porque o homem só tem paz verdadeira e a verdadeira liberdade quando a carne é regida pelo espírito, seu juiz, e o espírito governado por Deus, seu mestre.

É, sem dúvida, uma preparação que deve ser feita em todos os tempos: impedir, através de vigilância constante, a aproximação dos espertíssimos inimigos. Mas é preciso aperfeiçoar essa vigilância com ainda mais cuidado, e organizá-la com maior zelo, nesta época do ano, quando os nossos pérfidos inimigos redobram também a astúcia das suas manobras. Eles sabem muito bem que esses são os dias da santa Quaresma e que passamos a Quaresma a castigar todas as molezas, a apagar todas as negligências do passado; usam então todo o poder da sua malícia para induzir em alguma impureza aqueles que querem celebrar a santa Páscoa do Senhor; mudar para ocasião de pecado o que deveria ser uma fonte de perdão.

Meus caros irmãos, entramos na Quaresma, isto é, numa fidelidade maior ao serviço do Senhor. É como se entrássemos e num combate de santidade. Então preparemos as nossas almas para o combate das tentações e saibamos que quanto mais zelosos formos pela nossa salvação, mais violentamente seremos atacados pelos nossos adversários. 


Mas aquele que habita em nós é mais forte do que aquele que está contra nós. A nossa força vem d’Aquele em quem pomos a nossa confiança. Pois se o Senhor se deixou tentar pelo tentador foi para que tivéssemos, com a força do seu socorro, o ensinamento do seu exemplo. Acabaste de ouvi-lo. Ele venceu o seu adversário com as palavras da lei, não pelo poder de sua força: a honra devida à Sua humanidade é maior, maior também é a punição do Seu adversário se Ele triunfa sobre o inimigo do género humano não como Deus, mas como homem.

Assim, Ele combateu para que combatêssemos como Ele; Ele venceu para que também nós vencêssemos da mesma forma. Pois, meus caríssimos irmãos, não há atos de virtude sem a experiência das tentações, a fé sem a provação, o combate sem um inimigo, a vitória sem uma batalha. A vida passa-se no meio das emboscadas, no meio dos combates. Se não quisermos ser surpreendidos, é preciso vigiar; se quisermos vencer, é preciso lutar. 


Eis por que Salomão, que era sábio, diz: "Meu filho, se entrares para o serviço de Deus, prepara a tua alma para a provação." (Ecl. 2,1). Cheio da sabedoria de Deus, sabia que não há fervor sem combate laborioso; prevendo o perigo desses combates, anunciou-os de antemão para que, advertidos dos ataques do tentador, estivéssemos preparados para aparar os seus golpes.

São Leão Magno, Papa - Sermão sobre a Quaresma

Contas que terá de dar a Jesus Cristo quem não segue a vocação

 




Tire o maior proveito desta Meditação seguindo os passos

Auferetur a vobis regnum Dei, et dabitur genti facienti fructus eius – “Ser-vos-á tirado o reino de Deus, e será dado a um povo que faça os frutos dele” (Mt 21, 43)

Sumário.Avivemos a nossa fé. A graça que o Senhor nos concedeu chamando-nos a viver em sua casa é muito mais excelente do que se nos tivesse chamado a sermos rei do reino mais extenso da terra. Quanto maior, porém, a graça, tanto mais o Senhor se irritará contra nós, se não Lhe tivermos correspondido; tanto mais rigoroso será o vosso julgamento no dia das contas. Ai de nós, se não obedecermos à chamada divina, ou se por nossa culpa perdermos a vocação!

I. A graça da vocação ao estado religioso não é uma graça ordinária; ela é muito rara e Deus a poucos a concede: Non fecit taliter omni nationi (1) — “Não fez assim a todas as nações”. Oh! Esta graça de ser chamado à vida perfeita e a ser doméstico de Deus em sua casa, quanto é superior à de ser chamado a ser rei do reino mais extenso do mundo! Pois, que comparação pode haver entre um reino temporal na terra e o reino eterno do céu?

Quanto maior, porém a graça, tanto mais o Senhor se irritará contra quem não lhe tiver correspondido, e tanto mais rigoroso será o seu julgamento no dia das contas. Se um rei chamasse um pastorzinho para seu palácio, a fim de o servir entre os nobres de sua corte, quão grande não seria a indignação daquele príncipe, se o súdito recusasse o seu favor, para não deixar o seu pobre redil e o seu pequeno rebanho?

Deus bem conhece o preço das suas graças; por isso castiga rigorosamente àquele que as despreza. Ele é o Senhor: quando chama, quer ser obedecido, e obedecido prontamente; pelo que, quando com a sua luz chama uma alma à vida perfeita, e esta não corresponde, priva-a de sua luz e abandona-a no meio das trevas. Oh! Quantas almas desgraçadas veremos reprovadas no dia do juízo, porque não quiseram obedecer à voz de Deus!

II. Agradece portanto ao Senhor, ter-te convidado a segui-Lo; mas treme, se não correspondes à graça. Chamando-te Deus a servi-Lo mais de perto, é sinal que Deus te quer salvo; mas só te quer salvo pelo caminho que te indica e escolhe. Se queres salvar-te seguindo o caminho que tu mesmo te escolhes, corres grande perigo de o não obteres. Pois, ficando no século ou a ele voltando, quando Deus te quer religioso, não receberás de Deus aqueles auxílios eficazes que te havia preparado em sua casa, e sem os quais não te salvarás. Oves meae vocem meam audiunt (2) — “As minhas ovelhas ouvem a minha voz”. Quem não quer obedecer à voz de Deus, dá sinal de que não é ovelha de Jesus, mas será condenado com os bodes no vale de Josafá.

Senhor, Vós tivestes para comigo este excesso de bondade, de escolher-me de entre tantos outros, para me colocar entre os vossos servos prediletos e fazer-me morar na vossa casa. Conheço quanto esta graça é grande, e quanto eu dela era indigno. Eis-me aqui: quero corresponder a tamanho amor, quero obedecer-Vos. Já que Vós fostes tão generoso para comigo, chamando-me, quando eu não Vos procurava, e além disso Vos era tão ingrato, não permitais que eu venha a cair nesta outra ingratidão suprema, de deixar-Vos, a Vós que por meu amor derramastes o vosso sangue e destes a vida, para novamente me entregar ao mundo, meu inimigo, que no passado tantas vezes me tem feito perder a vossa graça e a minha eterna salvação. Pois que me chamastes, dai-me a força para obedecer.

Já prometi obedecer-Vos, e de novo vo-Lo prometo; mas se Vós não me concedeis a graça da perseverança, não Vos posso ser fiel. A Vós peço esta perseverança, quero-a e espero-a pelos vossos merecimentos. — Dai-me a coragem de vencer as paixões da carne, com que o demônio quer que eu Vos atraiçoe. Amo-Vos, meu Jesus, e me consagro todo a Vós. Já sou vosso e vosso quero ser para sempre. — Maria, Mãe e esperança minha, Vós sois a Mãe da perseverança, que só com a vossa intercessão é concedida; vós ma haveis de alcançar; em vós confio.

Referências:

(1) Sl 147, 20
(2) Jo 10, 27

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 306-308)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Quanto é doce a morte do justo

 

A morte do Justo e a morte do Pecador

Tire o maior proveito desta Meditação seguindo os passos

Iustorum animae in manu Dei sunt, et non tanget illos tormentum mortis – “As almas dos justos estão na mão de Deus, e não os tocará o tormento da morte” (Sb 3, 1)

Sumário. É assim: os tormentos, que na morte afligem os pecadores, não afligem os santos, porque já antes desse tempo deixaram pelo afeto os bens terrestres, consideraram as honras como fumo e vaidade e viveram desapegados dos parentes, amando-os só em Deus. D’outra parte, que felicidade morrer entregando-se nos braços de Jesus Cristo, que quis sofrer uma morte tão amarga, a fim de nos obter uma morte doce e cheia de consolação! Irmão meu, se na primeira noite a morte te colhesse, qual seria a tua morte, a do justo ou a do pecador?

I. É assim: os tormentos que na morte afligem os pecadores, não afligem os santos: Non tanget illos tormentum mortis ― “Não os tocará o tormento da morte”. Os santos não se abalam com esse Proficiscere, anima ― “Parte, ó alma”, que tanto assusta os mundanos. Os santos não se afligem com o terem de deixar os bens da terra, porque nunca lhes tiveram o coração ligado. Deus é o Senhor do meu coração, diziam eles sempre, a minha porção é Deus para sempre ― Deus cordis mei et pars mea Deus in aeternum (1). Sois felizes, escrevia o Apóstolo a seus discípulos que pela causa de Jesus Cristo tinham sido despojados de seus bens, sois felizes, porque suportastes com alegria a rapina dos vossos bens, sabendo que tender um cabedal melhor e permanente: Cognoscentes vos habere meliorem et manentem substantiam (2).

Os santos não se afligem por deixarem as honras, porque desde muito as desprezaram e tiveram na conta do que efetivamente são, fumo e vaidade. Só estimaram a honra de amarem a Deus e de serem por Ele amados. Nem se afligem por deixarem os parentes, porque só os amaram em Deus; morrendo, recomendam-nos ao Pai celeste que os ama mais do que eles o podiam, e como esperam salvar-se, pensam que o melhor lhes poderão valer na pátria celestial do que ficando na terra. Em suma, o que disseram durante toda a vida: Deus meus et omnia ― “Meu Deus e meu tudo”, repetem-no com mais consolação e ternura no momento da morte.

Quem morre no amor de Deus não se inquieta com as dores que acompanham a morte; antes, nelas se compraz pensando que a vida vai acabar e que depois não lhe resta mais tempo para sofrer por Deus e testemunhar-Lhe outras provas do seu amor. Por isso, oferece-Lhe com afeto e paz estes últimos restos da sua vida e consola-se unindo o sacrifício da sua morte ao sacrifício que Jesus Cristo ofereceu um dia por ele na cruz ao seu eterno Pai. E assim morre feliz, dizendo: In pace in idipsum dormiam et requiescam (3) ― “Em paz dormirei nele e repousarei”. Oh! que felicidade morrer entregando-se e repousando nos braços de Jesus Cristo, que nos amou até à morte e quis sofrer uma morte tão dolorosa, a fim de nos obter uma morte doce e cheia de consolação! ― Meu irmão, quais seriam os teus sentimentos se tivesses de morrer neste instante?

II. Ó meu amado Jesus, que para me obter uma morte suave, quisestes sofrer uma morte tão cruel no Calvário, quando é que Vos verei? A primeira vez que Vos terei de ver, ver-Vos-ei como meu Juiz no próprio lugar em que expire. Que Vos direi então? Que me direis? Não quero esperar até então para pensar nisso; quero meditá-lo agora. Dir-Vos-ei:

Meu caro Redentor, sois Vós aquele que morreu por mim? Houve um tempo em que Vos ofendi; fui ingrato para convosco e não merecia perdão; mas, ajudado pela vossa graça, entrei em mim mesmo, e no resto da vida chorei os meus pecados, e Vós me haveis perdoado. Perdoai-me agora novamente, que estou a vossos pés, e dai-me a absolvição geral das minhas faltas. Não merecia mais amar-Vos tendo desprezado o vosso amor; mas pela vossa misericórdia me tendes atraído o coração, o qual, se Vos não amou segundo o vosso mérito, amou-Vos pelo menos sobre todas as coisas, deixando tudo para Vos agradar. Que me dizeis agora? Verdade é que gozar o paraíso e possuir-Vos no vosso reino é uma felicidade grande demais para mim. Não tenho, porém, coragem de viver longe de Vós, mormente agora, que me deixastes ver o vosso amável e belo rosto. Peço-Vos, pois, o paraíso, não para ter mais gozo, mas para melhor Vos amar.

Mandai-me para o purgatório todo o tempo que Vos aprouver. Manchado, como ainda estou, não quero entrar nessa pátria de pureza e ver-me entre essas almas puras. Mandai-me ao purgatório, mas não me expulseis para sempre da vossa presença. Basta-me que no dia que Vos aprouver, me chameis ao paraíso para nele cantar eternamente as vossas misericórdias. Por ora, ó meu amado Juiz, levantai a mão, abençoai-me e dizei-me que sou vosso e que Vós sois e sereis sempre meu. Eu sempre Vos amarei, e Vós sempre também me amareis. Agora vou para longe de Vós, vou para o fogo; mas vou contente, porque vou para Vos amar, meu Redentor, meu Deus, meu tudo. Vou contente, sim; mas sabei que, enquanto estiver longe de Vós, a minha maior pena será esse apartamento. Vou, Senhor, contar os instantes que decorrerão até que me chameis. Tende piedade de uma alma que Vos ama com todas as suas forças e deseja ver-Vos para melhor Vos amar.

É assim, Jesus meu, que espero então falar-Vos. Peço-Vos entretanto que me deis a graça de viver de modo que possa dizer-Vos então o que agora pensei. Dai-me a santa perseverança, dai-me o vosso amor. Fazei-o pelo amor de Maria Santíssima.

Referências:

(1) Sl 72, 26
(2) Hb 10, 34
(3) Sl 4, 8

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 303-306)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

BEM-AVENTURADO O QUE NÃO QUER OUTRA COISA SENÃO A DEUS

 



Beati pauperes spiritu, quoniam ipsorum est regnum coelorum ― “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Matth. 5, 3).

Sumário. Persuadamo-nos bem de que só Deus pode contentar-nos; mas não contenta senão àqueles que são pobres de espírito, isso é, de desejos terrestres, e nada querem fora dele. Se, portanto, nós também queremos achar a verdadeira felicidade, desfaçamo-nos de todo o afeto à terra, entreguemo-nos a Deus sem reserva e digamos freqüentes vezes: Senhor, disponde de mim, e de tudo que é meu, segundo o vosso agrado; eu não quero senão o que Vós quereis.

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Pelos pobres de espírito entendem-se aqueles que são pobres de desejos terrestres e nada querem fora de Deus. Estes são pobres nos desejos, mas não na realidade, porque desde a presente vida vivem contentes. Por isso o Senhor não diz:Deles será, mas:deles é o reino dos céus: Ipsorum est regnum coelorum; porquanto já nesta terra são ricos em bens espirituais que de Deus recebem. Apesar de pobres em bens temporais, vivem contentes em seu estado, em contraste com os ricos em desejos terrestres, que na vida presente sempre são pobres e vivem descontentes, por grandes que sejam as suas riquezas. ― Jesus Cristo, como diz o Apóstolo (1), quis ser pobre, para com o seu exemplo nos ensinar o desprezo dos bens terrestres e desta forma nos tornar ricos em bens celestes, que são imensamente mais preciosos e de duração eterna. Eis porque declara que, quem não renuncia a tudo quanto possui na terra com certo apego, não pode ser seu verdadeiro discípulo (2).

Persuadamo-nos de que só Deus faz contentes, mas não faz plenamente contentes senão aquelas almas que o amam de todo o coração. Que lugar pode o amor de Deus achar num coração cheio de coisas terrestres? Muitas almas se queixam de que na meditação, na comunhão, nos outros exercícios de devoção não acham a Deus. Santa Teresa lhes diz: Desprende o teu coração das criaturas e acharás Deus.

Desfaçamo-nos, portanto, de todo o afeto terrestre e especialmente da vontade própria; demos a Deus toda a nossa vontade sem reserva e digamos-Lhe: Senhor, disponde de mim e de tudo que é meu, segundo o vosso agrado. Não quero senão o que Vós quereis, e sei que não quereis senão o que é melhor para mim. Fazei que eu Vos ame sempre e nada mais desejo.

O único meio para nos desprendermos das criaturas é a aquisição de um grande amor a Deus. Em quanto o amor divino não ficar sendo senhor de toda a nossa vontade, nunca chegaremos a ser santos. O meio, pois, para adquirirmos esse amor divino predominante é a santa oração. Roguemos, portanto, sempre a Deus que nos dê o seu amor e assim nos veremos desprendidos de todas as coisas criadas. ― O amor divino é um roubador que santamente nos tira todos os afetos terrestres. Como não há força capaz de resistir à morte, assim tampouco há impedimento, por insuperável que se nos afigure, que possa resistir ao amor divino. O amor vence tudo. Pelo seu amor a Deus os santos mártires venceram os tormentos mais atrozes e a morte mais dolorosa.

Por outro lado, se uma alma não chega a dar-se toda a Deus, acha-se sempre em perigo de abandoná-lo e perder-se; como, ao contrário, quem deveras se deu todo a Deus, pode estar certo de que não mais o abandonará, porque o Senhor é liberal e fiel para com o que se Lhe dá sem reserva. Donde vem que algumas pessoas, que de primeiro levavam vida santa, vieram depois a cair tão profundamente, que deixaram bem pouca esperança acerca de sua salvação? Donde vem isso? Vem, respondo, de que não se tinham dado inteiramente a Deus; a sua própria queda é o sinal certo disso.

Meu Deus e meu verdadeiro amador: não permitais que minha alma, criada para Vos amar, ame qualquer coisa senão a Vós e não seja toda vossa, visto que me resgatastes com o vosso sangue. Ah, Jesus meu, como será possível que depois de ter conhecido o vosso amor para comigo, eu ame alguma coisa fora de Vós? Peço-Vos, que me queirais atrair sempre mais ao íntimo do vosso Coração. Fazei com que me esqueça de tudo, a fim de não buscar nem desejar senão o vosso amor. Jesus meu, em Vós confio. ― Ó Maria, Mãe de Deus, em vós pus as minhas esperanças. Desprendei-me de tudo que não seja Deus, para que Ele seja o único objeto de todo o meu amor e de minha felicidade eterna. (II 304.)

1. I Cor. 8, 9.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso 2. Luc. 14, 33

Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso

domingo, 21 de fevereiro de 2021

PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA: JESUS NO DESERTO E AS TENTAÇÕES DAS ALMAS ESCOLHIDAS

 


Iesus ductus est in desertum a spiritu, ut tentaretur a diabolo — “Jesus foi levado pelo espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo” (Matth. 4, 1).

Sumário. Meu irmão, se o Senhor permite que sejas tentado, não desanimes, porquanto vê nisso um sinal de que Ele te ama e te quer fazer mais semelhante a Jesus Cristo, que, como refere o Evangelho de hoje, foi também tentado. Esforça-te, porém, a exemplo do próprio Redentor, por empregar todos os meios para seres vencedor. Especialmente refreia as tuas pequenas paixões desordenadas, mortificando-as pela penitência e recorre sempre a Deus pela oração contínua.

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I. Os trabalhos que mais afligem nesta vida às almas amantes de Deus, não são tanto a pobreza, a enfermidade e as perseguições, como as tentações e as securas espirituais. Quando a alma goza da amorosa presença de Deus, todas as tribulações, em vez de a afligirem, mais a consolam, fornecendo-lhe a ocasião para oferecer a Deus algum penhor de seu amor. Mas ver-se pela tentação em perigo de perder a graça divina e temer na secura que já a perdeu, é isso uma pena demasiado amarga para quem ama deveras a Deus. — Observemos, porém que é esta a sorte comum das almas santas: Quia acceptus eras Deo, necesse fuit, ut tentatio probaret te (1) — “Porque eras aceito de Deus, por isso foi necessário que a tentação te provasse”.

Quem foi mais santo do que Jesus Cristo? Todavia ele foi levado pelo espírito ao deserto para ser tentado pelo diabo. Em primeiro lugar, foi tentado de gula, porque “tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, teve fome. E chegando-se a Ele o tentador, disse: Se és Filho de Deus, dize que estas pedras se convertam em pães.”

Depois foi tentado de presunção, porque “o diabo o transportou à cidade santa e O pôs sobre o pináculo do templo e Lhe disse: Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, porque está escrito: Recomendou-te aos seus anjos, e eles te levarão nas palmas das mãos, a fim de que nem sequer tropeces numa pedra.” Finalmente foi tentado de idolatria; porque o diabo, vendo-se vencido uma outra vez, “o transportou ainda a um monte muito alto, e mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a glória deles e Lhe disse: Todas estas coisas te darei, se prostrado me adorares.”

Uma alma, pois, por se ver tentada, não deve ainda temer como se já tivesse caído no desagrado de Deus, que a quer tornar mais semelhante a seu Filho unigênito e dar-lhe ocasião para adquirir grandes méritos para o céu. Quoties vincimus, toties coronamur — “Cada vitória é uma nova coroa”, diz São Bernardo.

II. Os meios de que nos devemos servir para vencer as tentações são os mesmos que nosso divino Redentor nos ensina com o seu exemplo no Evangelho de hoje. — Cum ieiunasset quadraginta diebus – Jesus jejuou quarenta dias. Para vencermos todas as tentações, e em particular a dos sentidos, é mister que nós também, especialmente neste tempo de Quaresma, mortifiquemos a carne pelo jejum, pela penitência, e pelo recolhimento, e que ao mesmo tempo avigoremos o espírito com meditações e orações, porque não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.

Non tentabis Dominum Deum tuum — “Não tentarás ao Senhor teu Deus”. Para vencermos as tentações, devemos em segundo lugar evitar as ocasiões de pecado. Aqueles que se expõem voluntariamente aos perigos e não pretendem cair, tentam Deus para fazer milagres. A custódia dos anjos, diz São Bernardo, é prometida a quem caminha nos caminhos de Deus,viis suis, e não àquele que se expõe voluntariamente ao perigo de cair num abismo. — Vade, Satana – “Vai-te, Satanás”.

Finalmente o terceiro meio para sairmos vencedores, consiste em expulsarmos o demônio inteiramente de nossa alma e em estarmos resolvidos a adorar a Deus nosso Senhor, e servi-Lo a Ele só. Ó! Quantos há que não cuidam em refrear as suas paixões nascentes e que imaginam poder servir a dois senhores. Mas depois, ao primeiro assalto mais forte de qualquer tentação, acabam por cair e perder-se eternamente!

Ó meu amabilíssimo Jesus, vejo que no passado caí e recaí tão miseravelmente, porque me descuidei de imitar os vossos divinos exemplos. Arrependo-me de todo o coração; peço-Vos perdão e prometo que para o futuro serei mais cuidadoso. Mas fortalecei a minha fraqueza. Eu Vo-lo peço pela mortificação que praticastes, abstendo-Vos por quarenta dias de toda a alimentação, e pela humildade que mostrastes, permitindo ao demônio que Vos tentasse como a qualquer outro filho de Adão. “Ó Deus, que purificais a vossa Igreja com a anual abstinência quaresmal: concedei à vossa família, que com boas obras execute o que de Vós deseja obter com a sua abstinência.” (2) † Doce Coração de Maria, sêde minha salvação. (*I 837.)

  1. Tob. 12, 13.
    2. Or. Dom. curr.

    Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso


sábado, 20 de fevereiro de 2021

PRIMEIRA DOR DE MARIA SANTÍSSIMA – PROFECIA DE SIMEÃO


 


Tuam ipsius animam pertransibit gladius ― “Uma espada transpassará a tua alma” (Luc. 2, 35).

Sumário. O Senhor usa esta compaixão conosco, de não nos deixar ver as cruzes que nos esperam, a fim de que as tenhamos de sofrer uma só vez. Maria Santíssima, ao contrário, depois da profecia de São Simeão, tinha sempre diante dos olhos e padecia continuamente todas as penas que a esperavam na Paixão do Filho. Mas se Jesus e Maria inocentes tanto padeceram por nosso amor, como ousaremos lamentar-nos, nós que somos pecadores, quando temos de padecer um pouco por amor deles?

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Neste vale de lágrimas, cada homem nasce para chorar e cada um deve padecer sofrendo aqueles males que diariamente lhe acontecem. Mas quanto mais triste seria a vida, se cada um soubesse também os males futuros que o têm de afligir! O Senhor usa esta compaixão conosco, de não nos deixar ver as cruzes que nos esperam, a fim de que, se as temos de padecer, ao menos as padeçamos uma só vez. ― Mas Deus não usou semelhante compaixão para com Maria, a qual, porque Deus quis que fosse Rainha das dores e toda semelhante ao Filho, teve sempre de ver diante dos olhos e de padecer continuamente todas as penas que a esperavam; e estas foram as penas da paixão e morte de seu amado Jesus.

Eis que no templo de Jerusalém, Simeão, depois de ter recebido o divino Infante em seus braços, lhe prediz que aquele seu Filho devia ser alvo de todas as contradições e perseguições dos homens e que por isso a espada de dor devia traspassar-lhe a alma: Et tuam ipsius animam pertransibit gladius. ― Davi, no meio de todas as suas delícias e grandezas reais, quando ouviu que o Profeta Natan lhe anunciava a morte do filho, não tinha mais paz: chorava, jejuava, dormia à terra nua. Não é assim que fez Maria. Com suma paz recebeu ela a nova da morte do Filho e com a mesma paz continuou a sofrê-la; mas ainda assim, que dor não devia sentir o seu Coração!

Nem serviu para lha mitigar o conhecimento que já de antemão tinha do sacrifício a fazer, pois que, como foi revelado a Santa Teresa, a bendita Mãe conheceu então em particular e mais distintamente todas as circunstâncias dos sofrimentos, tanto exteriores como interiores, que haviam de atormentar o seu Jesus na sua Paixão. Numa palavra, a mesma Bem-Aventurada Virgem disse a Santa Matilde, que a este aviso de São Simeão toda a sua alegria se converteu em tristeza.

A dor de Maria não achou alívio com o correr do tempo; ao contrário, ia sempre aumentando, à medida que Jesus,crescendo em sabedoria, em idade e em graça, junto de Deus e junto dos homens(1), se tornava mais amável aos olhos de sua Mãe, e se avisinhava mais o tempo da sua amargosa Paixão. Eis o que a própria divina Mãe revelou a Santa Brígida: “Cada vez que eu olhava para meu Filho, sentia o meu coração oprimido de nova dor e enchiam-se meus olhos de lágrimas”.

Ruperto abade contempla Maria dizendo ao Filho enquanto o alimentava: “Fasciculus myrrhae dilectus meus mihi; inter ubera mea commorabitur (2). Ah, Filho meu, eu te aperto entre meus braços porque muito te amo; mas quanto mais te amo, tanto mais para mim te transformas em ramalhete de mirra e de dor, pensando em tuas penas. Tu és a fortaleza dos Santos, e um dia entrarás em agonia; és a beleza do paraíso, e um dia serás desfigurado; és o Senhor do mundo, mas um dia serás preso como um réu; és o Criador do universo, mas um dia te verei lívido pelas pancadas; numa palavra, tu és o Juiz de todos, a glória dos céus, o Rei dos reis, mas um dia serás sentenciado, desprezado, coroado de espinhos, tratado como rei de escárnio e pregado num infame patíbulo. E eu, que sou tua Mãe, eu, que te amo mais que a mim mesma, terei de ver-te morrer de dor, sem te poder dar o menor alívio: Fasciculus myrrhae dilectus meus mihi ― O meu amado é para mim um ramalhete de mirra”.

Se, pois, Jesus, nosso Rei, e Maria, nossa Mãe, bem que inocentes, não recusaram por nosso amor padecer durante toda a sua vida uma pena tão atroz, não é justo que nós nos lamentemos, se padecemos um pouco; nós que porventura muitas vezes temos merecido o inferno. (*I 232)

1. Luc. 2, 52.
2. Cant 1, 12. 

Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Amor de Jesus Cristo em dar-se a nós como alimento

 Santa Comunhão - Eucaristia

Tire o maior proveito desta Meditação seguindo os passos
para se fazer a Oração Mental proposta por Santo Afonso!

In funiculis Adam traham eas, in vinculis caritatis… et declinavi ad eum ut vescerentur – “Eu as atrairei com as cordas com que se atraem os homens, com as prisões da caridade… inclinei-me para ele, para que comesse” (Os 11, 4)

Sumário. Quanto se julgaria distinguido o súdito a quem o príncipe mandasse algumas iguarias da sua mesa? Jesus Cristo, porém, na santa comunhão, nos dá para sustento, não só uma parte da sua mesa, mas o seu próprio corpo, a sua alma e a sua divindade. Será porventura uma pretensão exagerada da parte do Senhor, se, em compensação de tão grande dom, nos pede o nosso pobre coração todo inteiro? Todavia quantos cristãos não há que Lho recusam completamente ou Lho querem dar, mas dividido entre Ele e as criaturas?

I. Jesus Cristo não satisfez o seu amor, sacrificando a sua vida por nós num oceano de ignomínias e dores, a fim de patentear o amor que nos tinha. Além disso, e para nos obrigar mais fortemente a amá-Lo, quis, na véspera da sua morte, deixar-se todo a nós como nosso alimento na santíssima Eucaristia. ― Deus é todo-poderoso, mas depois de dar-se a uma alma neste Sacramento de amor, não lhe pode dar mais. Diz o Concílio de Trento que Jesus, dando-se aos homens na santa comunhão, derramou (por assim dizer) neste único dom todas as riquezas de seu amor infinito: Divitias sui erga homines amoris velut effudit.

Como não se julgaria honrado, escreve São Francisco de Sales, o vassalo a quem o príncipe enviasse algumas iguarias da sua mesa! E que seria se lhe desse para sustento alguma coisa da sua própria substância? Jesus Cristo, porém, na santa comunhão, nos dá para sustento, não só uma parte de sua mesa, não só uma parte da sua carne sacrossanta, mas o seu corpo inteiro: Accipite et comedite: hoc est corpus meum (1) ― “Tomai e comei, isto é o meu corpo”. E com o corpo nos dá também a alma e a divindade. Numa palavra, diz São João Crisóstomo, Jesus Cristo dando-se a si próprio no Santíssimo Sacramento, dá tudo o que tem e não Lhe resta mais nada para dar: Totum tibi dedit, nihil sibi reliquit.

É pois com razão que este dom é chamado por Santo Tomás: sacramento e penhor de amor, e por São Bernardo: amor dos amores: amor amorum, porque Jesus Cristo reúne e completa neste sacramento todas as outras finezas do seu amor para conosco. Pelo mesmo motivo Santa Maria Madalena de Pazzi chamava o dia em que Jesus instituiu este sacramento, o dia do amor. Ó maravilha e prodígio do amor divino! Deus, o Senhor de todas as coisas, se faz todo nosso!

II. Praebe, fili mi, cor tuum mihi (2) ― “Meu filho, dá-me teu coração”. Eis o que Jesus Cristo nos diz lá de dentro do santo Tabernáculo: Meu filho, em compensação do amor que te mostrei, dando-te o dom inapreciável do Santíssimo Sacramento, dá-me o teu coração e ama-me de hoje em diante com todas as tuas forças, com toda a tua alma. ― Parece-te porventura, meu irmão, que o nosso Salvador é exigente demais, depois de se ter dado a si próprio sem reserva? Todavia, quantos cristãos não há que recusam por completo seu coração a Jesus, ou querem dividi-lo entre Ele e as criaturas!

Ó meu caro Jesus, que mais podeis executar para nos atrair a vosso amor? Ah! Dai-nos a conhecer por que excesso de amor Vos reduzistes a estado de alimento, para Vos unir a pobres e vis pecadores como somos? Ó meu Redentor, vossa ternura para comigo tem sido tão grande, que não recusastes dar-Vos muitas vezes todo a mim na santa comunhão; e eu, quantas vezes tive a ingratidão de Vos expulsar da minha alma! Mas não é possível que desprezeis um coração contrito e humilhado. Por mim Vos fizestes homem, por mim morrestes e chegastes a Vos fazer meu alimento; após isto, que Vos fica ainda por fazer no intuito de conquistardes meu amor? Ah! Não poder eu morrer de dor, cada vez que me lembro de ter assim desprezado vossa graça! Ó meu Amor, arrependo-me de todo o meu coração de Vos ter ofendido. Amo-Vos, ó Bondade infinita; amo-Vos, ó Amor infinito. Nada mais desejo senão amar-Vos, e nada mais temo senão viver sem Vos amar.

Meu amado Jesus, não recuseis vir à minha alma. Vinde, porque estou resolvido a morrer antes mil vezes, que repelir-Vos de novo, e quero fazer tudo para Vos agradar. Vinde e abrasai-me todo no vosso amor. Fazei com que me esqueça de todas as coisas, para não mais pensar senão em Vós, e só a Vós buscar, meu único e soberano Bem. ― Ó Maria, minha Mãe, rogai por mim, e, por vossas orações, tornai-me reconhecido para com Jesus Cristo, que tanto amor me tem.

Referências:

(1) I Cor 11, 24
(2) Pv 23, 26

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 290-292)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

A lembrança da morte e o jejum quaresmal

 


“Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar”
Tire o maior proveito desta Meditação seguindo os passos


Meditação para Quarta-feira de Cinzas

Memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris – “Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar” (Gn 3, 19)
Sumário. Os insensatos que não creem na vida futura estimulam-se com o pensamento da morte a passarem bem a vida. De maneira bem diferente devemos nós proceder, os que sabemos pela fé que a alma sobrevive ao corpo. Nós, lembrando-nos de que em breve temos que morrer, devemos cuidar da nossa eternidade e por meio de oração e penitência aplacar a justiça divina. É com este intuito que a Igreja, depois de por as cinzas sobre a cabeça, nos ordena o jejum da Quaresma.
I. Para compreendermos em toda a sua extensão o sentido destas palavras, imaginemos ver uma pessoa que acaba de exalar o último suspiro. Ó Deus, a cada um que vê este corpo, inspira nojo e horror. Não passaram bem nem vinte e quatro horas depois que aquela pessoa morreu e já o mau cheiro se faz sentir. É preciso abrir as janelas e queimar bastante incenso, a fim de que o fedor não infeccione a casa toda. Os parentes com pressa mandam levar o defunto para fora da casa e entregar à terra.
Metido que foi o cadáver na sepultura, vai se tornando amarelo e depois preto. Em seguida, aparece em todos os membros uma lanugem branca e repelente, donde sai um pus infecto que corre pela terra e donde se gera uma multidão de vermes. Os ratos veem também procurar o pasto neste cadáver, roendo-o uns por fora, ao passo que outros entram na boca e nas entranhas. Despegam-se e caem as faces, os lábios, os cabelos; escarnam-se os braços e as pernas apodrecidas, e afinal os vermes, depois de consumidas todas as carnes, consomem-se a si próprios. E deste corpo só restará um esqueleto fétido, que com o tempo se divide, ficando reduzido a um punhado de pó.
Eis aí o que é o homem, considerado como criatura mortal. Eis aí o estado a que tu também, meu irmão, serás, talvez em breve, reduzido: um punhado de pó fedorento. Nada importa ser alguém moço ou velho, são ou enfermo: a todos caberá a mesma sorte, o que a Igreja recorda pondo as cinzas bentas indistintamente sobre a cabeça de todos: Memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris — “Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar”.
II. Os insensatos que não creem na vida futura e têm as verdades eternas por fábulas, estimulam-se, com a lembrança da morte, a levar vida folgada e a gozarem. Comedamus et bibamus; cras enim moriemur (1) — “Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”. De maneira bem diferente, porém, diz Santo Agostinho, deve proceder o cristão, que pela fé sabe que a alma sobrevive ao corpo e que, depois da morte deste, terá de dar contas rigorosíssimas de tudo quanto tiver feito. — O cristão, que se lembra que em breve deverá deixar o mundo, cuidará da sua eternidade e procurará aplacar a justiça divina com penitências e orações. É por isso exatamente que a Igreja, depois de nos ter posto as cinzas sobre a cabeça, ordena a seus ministros que notifiquem aos fiéis o jejum quaresmal: Canite tuba in Sion: sanctificate ieiunium (2) — “Fazei soar a trombeta em Sião, santificai o jejum”.
Conformemo-nos, portanto, com as intenções de nossa boa Mãe; e como ela mesma o ordena, sejamos no santo tempo da Quaresma “mais sóbrios em palavras, na comida, na bebida, no sono, nos divertimentos” (3); e, o que é mais necessário, afastemo-nos mais de toda a culpa por meio de uma vida recolhida e consagrada à oração, porquanto, no dizer de São Leão, “sem proveito se subtrai o alimento ao corpo, se o espírito não se afasta mais da iniquidade”.
Ó meu amabilíssimo Redentor, consenti que eu una a minha salutar abstinência com a que Vós com tanto rigor por mim quisestes observar no deserto. Consenti também que nesta união eu a ofereça a vosso Pai Divino, como protestação de minha obediência à Igreja, em desconto de meus pecados, pela conversão dos pecadores e em sufrágio das almas santas do purgatório. Tenho intenção de renovar esta oferta todos os dias da Quaresma. “Vós, porém, ó Senhor, concedei-me a graça de começar este solene jejum com devida piedade e de continuá-lo com devoção constante” (4), a fim de que, chegada a Páscoa, depois de ter ressurgido convosco para a vida da graça, seja digno se ressuscitar também para a vida da glória. Fazei-o pelo amor de Maria Santíssima.
Referências:
(1) Is 22, 13
(2) Joel 2, 15
(3) Hymn. Quadr.
(4) Or. Fer. curr.


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 288-290)