terça-feira, 15 de junho de 2021

10 sugestões de Santo António para fazer penitência pelos pecados

 

O pecado é sempre uma recusa do Amor, é virar as costas a Deus porque se considera que uma criatura ou uma coisa material pode substituir o Seu lugar no nosso coração. Para compensar essas falta de amor, e fortalecer a vontade para amar mais, Santo António dá algumas ideias:

1. Renúncia da própria vontade;

2. Abstinência de comida e bebida;

3. Rigor do silêncio;

4. Vigílias de oração durante a noite;

5. Derramamento de lágrimas;

6. Dedicação de tempo à leitura;

7. Trabalho físico exigente;

8. Ajudar generosamente os outros;

9. Vestir-se com modéstia;

10. Desprezar a própria vaidade.

Santo António de Lisboa in Sermão do Domingo de Pentecostes, 1§7

sábado, 12 de junho de 2021

CORAÇÃO DE MARIA, IMAGEM FIEL DO CORAÇÃO DE JESUS

 


Mater eius conservabat omnia verba haec in corde suo – “Sua Mãe conservava todas estas palavras em seu coração” (Luc. 2, 51).
Sumário. Todas as qualidades que nos dias anteriores contemplamos no Coração de Jesus acham-se, com as devidas proporções, também no Coração de Maria, sua Mãe. Durante os trinta anos que a Virgem Santíssima conviveu com Jesus, não fez senão estudar continuamente no livro do Coração do Filho. Se, pois, amamos deveras a Maria e queremos ser seus dignos filhos, estudemos igualmente o Coração de Jesus e aprendamos de Nossa Senhora a praticarmos a humildade e o amor para com Deus e para com o próximo.
Depois da Encarnação do Verbo, a ocupação habitual de Maria Santíssima foi estudar o grande livro do Coração amabilíssimo de Jesus e nesta escola divina fez progressos tão grandes, que se tornou uma imagem fiel de Jesus. Pelo que todos os dotes que nos dias anteriores contemplamos no Coração do Filho, acham-se também, observadas as devidas proporções, no Coração da Mãe.
Com efeito, que coração há mais amável que o Coração de Maria? Coração todo puro, santo, imaculado, perfeito; Coração, em suma, no qual Deus acha as suas delícias, as suas complacências. – Coração ao mesmo tempo tão amante dos homens, que, se todas as criaturas unissem as suas forças, nem de longe conseguiriam igualar o amor de Maria: Amat nos amore invicibili (1) – “Ela nos ama com amor inexcedível”. Este amor de Maria para com o gênero humano, rivalizando com o do Eterno Pai, levou-a a fazer o sacrifício doloroso, de entregar à morte seu Filho inocente. Leva-a continuamente a compadecer-se com ternura maternal das nossas misérias; a socorrer-nos generosamente em nossas necessidades; a ser-nos reconhecida e recompensar fielmente qualquer obra boa feita por seu amor, qualquer palavra dita para glória sua, cada bom pensamento que lhe agrada.
Como retribuição de todos os benefícios que a divina Mãe nos dispensou e ainda continuamente nos dispensa, não exige senão nosso amor; porquanto seu coração, à semelhança do de Jesus, é um coração desejoso de ser amado. – Vê, portanto, quanta aflição deve sentir vendo-se pago com desprezos. Não sejas tu do número daqueles ingratos que assim afligem a nossa terna Mãe.
Imitatores mei estote, sicut et ego Christi(2) – “Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo”; é o que, com mais razão do que São Paulo, nos diz a divina Mãe. Se, pois, amas a Maria, deves, à sua imitação, estudar continuamente no livro do Coração de Jesus Cristo, afim de nele aprender todas as virtudes, especialmente as que te sejam mais necessárias como, por exemplo, o desapego da terra, a humildade, a mansidão, a resignação e sobretudo o amor para com Deus e para com o próximo. – Se não tens a coragem de estudar em tão grande livro, pede-a à divina Mãe.
Ó Coração de Maria, Mãe de Deus e Mãe nossa; Coração amabilíssimo, objeto da complacência da adorável Trindade, de toda a veneração e amor dos anjos e dos homens; Coração mais semelhante ao de Jesus, do qual sois imagem perfeita; Coração cheio de bondade e todo compassivo com as nossas misérias: dignai-vos tirar a frieza de nossos corações e fazei que sejam transformados à semelhança do Coração do divino Salvador. Infundi-lhes o amor a vossas virtudes; abrasai-os no fogo feliz, que está continuamente ardendo em vosso Coração.
Abrangei a santa Igreja, guardai-a e sede-lhe sempre doce asilo e torre inexpugnável contra todos os assaltos dos seus inimigos. Sede-nos o caminho para irmos a Jesus e o canal pelo qual nos venham todas as graças necessárias para nossa salvação. Sede nosso socorro nas aflições, nosso conforto nas tentações, nosso refúgio nas perseguições, nosso auxílio em todos os perigos, especialmente nos últimos combates de nossa vida na hora da morte, quando todo o inferno se desencadear contra nós para roubar nossas almas, naquele momento terrível do qual depende a eternidade. Ó Virgem piedosíssima, deixai-nos experimentar então a doçura do vosso coração maternal e a eficácia do vosso poder para com o Coração de Jesus, abrindo-nos nesta fonte mesma da misericórdia um abrigo seguro, no qual possamos um dia chegar a bendizê-lo no paraíso por todos os séculos dos séculos.
Conhecidos, louvados, benditos, amados, servidos e glorificados, sejam sempre e por toda parte o diviníssimo Coração de Jesus e o puríssimo Coração de Maria.
  1. S. Petr. Dam.
    2. 1 Cor. 4, 16.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso

quinta-feira, 10 de junho de 2021

O poder do Rosário em todas as aparições de Nossa Senhora de Fátima

 




“Rezem o Rosário todos os dias para alcançar a paz no mundo e o fim da guerra”

Amensagem de Nossa Senhora de Fátima sobre o poder do Santo Rosário foi revelada já no primeiro dia das aparições, 13 de maio de 1917.

©Wikimedia

Na ocasião, a pequena Lúcia perguntou se ela e sua prima Jacinta iriam para o céu e Nossa Senhora confirmou que sim. Quando perguntou a respeito do pequeno Francisco, a Mãe de Deus respondeu:

“Também irá, mas tem que rezar antes muitos rosários”.

Nossa Senhora de Fátima abriu então as mãos e comunicou aos três uma luz divina muito intensa. As crianças caíram de joelhos e adoraram a Santíssima Trindade e o Santíssimo Sacramento. Depois, Nossa Senhora reforçou:

“Rezem o Rosário todos os dias para alcançar a paz no mundo e o fim da guerra”.

A segunda aparição da Virgem Maria em Fátima aconteceu justamente depois que eles rezaram o Santo Rosário.

Georges Perret-CC

Na terceira ocasião, Nossa Senhora lhes disse:

“Quando rezarem o Rosário, digam depois de cada mistério: ‘Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas todas para o céu, especialmente as que mais precisarem’”.

Na quarta vez, muitos já sabiam das aparições de Nossa Senhora aos pastorinhos. Jacinta perguntou à Mãe de Deus o que ela queria que fosse feito com o dinheiro que as pessoas deixavam na Cova da Iria. A Virgem Santíssima lhes respondeu que o dinheiro devia ser empregado na Festa de Nossa Senhora do Rosário e que o restante devia ser usado na construção de uma capela. Depois, com o rosto entristecido, a Virgem lhes pediu:

“Rezem, rezem muito e façam sacrifícios pelos pecadores, porque muitas almas vão para o inferno porque não têm quem se sacrifique e reze por elas”.
©Santuario de Fatima

No dia da quinta aparição, as crianças só conseguiram chegar à Cova da Iria com dificuldade, por causa das milhares de pessoas que lhes pediam para apresentar as suas necessidades a Nossa Senhora. Os pastorinhos rezaram o Rosário com as pessoas ali reunidas. Quando apareceu para os três pequenos, Nossa Senhora os incentivou mais uma vez a continuarem rezando o Santo Rosário pelo fim da guerra.


Na última aparição, em 13 de outubro de 1917, antes de acontecer o famoso Milagre do Sol, a Mãe de Deus pediu que fosse levantada naquele local uma capela em sua honra. Ela então se apresentou como a “Senhora do Rosário”. Depois, assumindo novamente uma feição de tristeza, ela completou com mais um pedido:

“Não ofendam mais a Deus, Nosso Senhor, que já está muito ofendido”.




 

quarta-feira, 9 de junho de 2021

ESTAIS SEGUROS DE VOSSA SALVAÇÃO?

 



Frei Gil, o bendito leigo franciscano, temendo pela sua salvação, abandonara o mundo. Uma gruta às margens de um rio ofereceu-lhe abrigo, e ali vivia todo consagrado ao serviço de Deus. A água cristalina matava-lhe a sede, e as árvores ofereciam-lhe seus frutos. O sol surpreendia-o em oração e as estrelas da noite eram testemunhas de suas assombrosas penitências.

Um dia, três cavaleiros, que andavam à caça, chegaram à gruta de Frei Gil. Este recebeu-os amavelmente, entreteve-se com eles sobre coisas espirituais e notou que, embora bons cristãos, gostavam mais do mundo do que de Deus.

Ao despedirem-se, um deles disse:

–  Santo bendito, desde hoje recomenda-nos a Deus.

–  Em verdade, senhores, vós é que haveis de pedir a Deus por mim, porque tendes mais fé e mais esperança do que eu.

–  Como assim? Nós?…

–  Sim, disse Frei Gil, porque estou aqui retirado de todo trato com os homens, vestido de burel, dormindo no chão, e sempre ando com medo de condenar-me; e vós, cercados de prazeres e comodidades, alimentando vícios e paixões, estais tão seguros de vossa salvação!… Tendes, na verdade, mais fé, mais esperança do que eu.

O Santo tinha razão. É preciso assegurar a nossa salvação por meio da penitência, pois a eterna Verdade diz: “Se não fizerdes penitência, perecereis”.

Tesouro de Exemplos – Vol. II – Pe. Francisco Alves


sábado, 5 de junho de 2021

QUANDO DOIS APÓSTOLOS DA MISSA, D. LEFEBVRE E PADRE PIO, SE ENCONTRAM

 

Pio

Em 27 de março de 1967, em San Giovanni Rotondo, o Padre Pio recebeu a bênção de Mons. Lefebvre, que foi lhe pedir orações. Os dois religiosos foram animados pelo mesmo amor pela Missa e pela Igreja.

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

O Embaixador da França junto à Santa Sé, Wladimir d’Ormesson, deu seu testemunho sobre uma Missa que assistiu, do Padre Pio:

Digo isso porque é verdade. Nunca na minha vida assisti a uma missa tão comovente. E, no entanto, muito simples. O Padre Pio agia apenas de acordo com os ritos tradicionais. Mas ele recitou os textos litúrgicos com tal clareza e convicção, tal intensidade emanava de suas invocações, seus gestos – por mais sóbrios que fossem – eram de tal grandeza que a Missa assumiu não sei quais proporções e se tornou – o que na realidade é e o que muitas vezes esquecemos que é – um ato absolutamente sobrenatural.[1]

Não foi em um piscar de olhos da Providência que o grande defensor da Santa Missa tradicional, Mons. Marcel Lefebvre, encontrou o Padre Pio? A 27 de março de 1967 (segunda-feira de Páscoa) Mons. Lefebvre, Superior Geral dos Espiritanos, foi a San Giovanni Rotondo para pedir-lhe que rezasse pelo Capítulo Geral de sua Congregação.[2]

A implementação forçada de reformas pós-conciliares estava em pleno andamento. Neste ambiente revolucionário, o Capítulo Geral não correu o risco de ser conduzido a um desastre? O Superior Geral dos Capuchinhos acabava de fazer o mesmo pedido que fez Mons. Lefebvre ao Padre: “Rogai pelo nosso Capítulo geral capuchinho que se abrirá em breve para redigir novas constituições.” Diante dessas palavras, o Padre fez um gesto colérico, exclamando: “Não são mais que intrigas e ruínas![3] E quando novas constituições foram anunciadas, Padre Pio teria tido a mesma reação brusca: “Mas o que estão fazendo em Roma? O que estão tramando? Querem mudar até mesmo a regra de São Francisco!”

No entanto, a conversa entre o prelado, acompanhado pelo Pe. Bárbara e outro padre, e o padre Pio apoiado por dois capuchinhos, foi muito breve e simples. O padre estigmatizado prometeu rezar pelo Capítulo Espiritano. Quando Mons. Lefebvre, movido por sua veneração, pediu sua bênção, o Padre Pio respondeu: “Não, Monsenhor, cabe ao senhor me abençoar! Foi assim que Mons. Lefebvre implorou a bênção celestial ao Padre Pio.

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Um excelente e interessante post a ser lembrado: SAN GIOVANNI ROTONDO CEDE, DE FORMA PERPÉTUA, A MITENE DE PADRE PIO À FSSPX

Notas:

  1. Padre Pio – O estigmatizado, Yves Chiron, Edições Tempus Perrin, 2004, pág. 248
  2. Lefebvre – Uma vida, Bernard Tissier de Mallerais, Clovis, 2002, pág. 391-392
  3. Reação relatada pelo Pe. Jean, Capuchinho de Morgon, na Carta aos Amigos de São Franciscon ° 17, 2 de fevereiro de 1999; Fideliter n° 129, pág.52

 

quinta-feira, 3 de junho de 2021

SOLENIDADE DE CORPUS CHRISTI

 Clique aqui e ouça o belíssimo ofício Adoro Te Devote, composto por Santo Tomás de Aquino a pedido do Papa Urbano IV, no século XIII, por ocasião da promulgação da Festa de Corpus Christi através da Bula “Transiturus de hoc mundo”.

Jesus Cristo habita conosco no Santíssimo Sacramento?

Ó sagrado convite em que se recebe a Cristo:
renova-se a memória de sua Paixão;
a alma se plenifica de graça,
e nos é dado um penhor da glória futura.

Fonte: Hojitas de Fe, 200, Seminário Nossa Senhora Corredentora, FSSPX
Tradução: 
Dominus Est

Nas Vésperas da festa de Corpus Christi cantamos esta linda antífona, escrita (como todo o Ofício do Santíssimo Sacramento) por Santo Tomás de Aquino, e carregada de significado teológico.

Com efeito, Santo Tomás nos ensina na Suma Teológica (III, 60, 3) que todo sacramento, especialmente o da Eucaristia, é um sinal sensível que significa a nossa santificação, na qual podemos considerar três coisas: 1º a própria causa da santificação, que é a Paixão de Cristo; 2º sua essência mesma, que é a graça; 3º seu fim último, que é a vida eterna.

E assim, a Sagrada Eucaristia é um sinal rememorativo da Paixão de Cristo; um sinal demonstrativo do que se realiza em nossas almas pela Paixão de Cristo, a saber, a graça; e um sinal prenunciativo da glória futura. Consideremos, pois, cada um desses três pontos.

1º A Sagrada Eucaristia – sinal rememorativo da Paixão de Cristo

Esta é uma das verdades fundamentais que se nos quer fazer esquecer hoje, quando nos apresentam a Sagrada Eucaristia somente sob o aspecto da comunhão ou de ceia. No entanto, a Sagrada Eucaristia deve ser apreciada e considerada também sob outro aspecto, mais importante, que é o de sacrifício. A Sagrada Eucaristia não é tão somente uma comunhão com o Corpo e Sangue de Cristo; é, antes de tudo, a renovação incruenta do Sacrifício do Calvário. Ambos os aspectos são inseparáveis. Sem Sacrifício não haveria Sacramento: uma vez que Cristo faz-se presente sob as espécies de pão e vinho para ser imolado. Da mesma forma, sem Sacramento não há Sacrifício: porque, para que haja sacrifício, é necessária a presença da Vítima e porque a integridade do Sacrifício exige a comunhão com a Vítima sob o aspecto de Sacramento.

E para nos mostrar de maneira sensível a íntima união entre os dois aspectos, a Igreja sempre manteve juntos o sacrário e o altar. Desgraçadamente, por quase cinquenta anos agora, nas igrejas passou-se a separar o tabernáculo do altar; o Santíssimo, que anteriormente tinha seu trono solene no meio da igreja, no centro, onde todos os olhos imediatamente o viam, foi relegado para o lado, às vezes para um canto, quando não há que se voltar para tentar localizar a lâmpada que indica sua presença. Querem fazer-nos esquecer que a Eucaristia é, em primeiro lugar, sacrifício. Qual é a triste consequência disso? Uma vez destruída a noção católica da Missa, uma vez perdida a ideia de sacrifício, acaba mesmo por perder-se a noção de presença real. Já não se crê na presença eucarística; reduziu-se a uma simples presença espiritual, uma simples memória…

É fundamental que compreendamos esta verdade: a Sagrada Eucaristia é Adoração, é Expiaçãopelos nossos pecados, é Ação de Graças e é Súplica de tudo quanto necessitamos, porque é Sacrifício: o Sacrifício de Jesus Cristo, Deus feito homem, renovado todos os dias nos altares, para devolver-nos a amizade de Deus e alcançarmos os dons celestiais.

2º Santa Eucaristia – sinal demonstrativo e causa da graça.

A Sagrada Eucaristia, em virtude da Paixão de Cristo, aumenta e fortalece em nós a graça santificante. No entanto, não o faz como os outros sacramentos, nos quais se nos comunica uma graça criada; este Sacramento supera a todos em excelência, porque nele se nos comunica o autor mesmo da graça. E que graça quer conceder Nosso Senhor pessoalmente à nossa alma? O evangelho da festa de Corpus Christi nos mostra muito bem. Nosso Senhor nele nos diz:

  • “A minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida”. Ou seja, do mesmo modo que a vida corporal necessita de alimento, assim também a vida espiritual. Mas o que é realmente maravilhoso, é que Jesus Cristo não se conformou em dar-nos qualquer alimento; Ele mesmo quis ser o alimento de nossas almas, o alimento de nossa vida sobrenatural. Assim já o manifestaram as figuras da Sagrada Eucaristia no Antigo Testamento, sendo quatro as principais, todas elas sob a forma de alimento: 1º a árvore da vida; 2º o sacrifício de Melquisedec; 3º o maná; 4º o cordeiro pascal. E assim como na vida corporal “o alimento sustenta, acrescenta, restaura e deleita”, como Santo Tomás assinala, assim Nosso Senhor Jesus Cristo quer, através deste sacramento, sustentar nossa vida sobrenatural para que ela não pereça, acrescentá-la para que se desenvolva, restaurá-la para devolver-lhe as forças que podem se perder pelo pecado, e deleitá-la para nos plenificar de gozo e de amor de Deus.
  • “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele”. Ou seja, se Nosso Senhor quer ser nosso alimento, é para unir-se a nós, e para unir-nos a Ele. O fruto próprio deste sacramento é a união a Jesus Cristo e a união entre todos os fiéis. Por quê? Porque neste sacramento Nosso Senhor realiza e aperfeiçoa nossa incorporação a Ele, conforme já nos ensinara: “Eu sou a videira, vós sois os ramos”. Por esta razão, na Secreta da Missa da festa de Corpus Christi, a Igreja pede a Deus o dom da unidade: “Concedei-nos propício, Senhor, à vossa Igreja os dons da unidade e da paz, misticamente representados pelos dons que vos oferecemos”.
  • “Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim”. Com efeito, se Nosso Senhor quer nos unir a Si, é para fazer-nos viver de sua vida, é para ser nossa vida: “Para mim o viver é Cristo”; é para transformar-nos n’Ele. “O unigênito Filho de Deus – diz Santo Tomás nas Matinas do dia de Corpus Christi – querendo fazer-nos partícipes de sua divindade, tomou nossa natureza, para que sendo homem, fizesse aos homens deuses”. E para isso, continua Santo Tomás, “entrega-se como resgate por nós na cruz, e como alimento na Sagrada Eucaristia”. De modo que, por meio da Sagrada Comunhão, Nosso Senhor vem estabelecer em nossas almas: • “uma comunhão de vida: possuímos, realmente e sem figura, a própria vida de Cristo; • uma comunhão de mistérios: Nosso Senhor nos faz participar de todos os estados de sua vida mortal, e apropriar-nos de sua própria virtude, para que continuemos reproduzindo-o em nós; • uma comunhão de sentimentos: dando-nos uma perfeita conformidade de visões, de julgamentos, de vontades, de sofrimento, de ação; • uma comunhão, enfim, do que Jesus Cristo tem de mais íntimo: sua qualidade de Filho de Deus.

3º A Santa Eucaristia – sinal prenunciante da glória futura.

Essa união que Jesus Cristo contrai conosco através da Eucaristia não desaparece quando as espécies sacramentais de pão e vinho deixam de existir, mas deve durar por toda a eternidade. A Sagrada Eucaristia comunica às nossas almas uma vida divina e imortal, que nos fará viver para sempre, e que já coloca em nosso corpo uma semente da ressurreição gloriosa: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia”.

Se, de fato, esta união é interrompida, é somente por culpa nossa, porque Deus nos dá de sua parte quantas graças são necessárias para que esta união seja perpétua. Com efeito, por este Sacramento, Jesus Cristo nos dá força para evitar o pecado e nos preserva das culpas; sustenta e fortalece a vida da graça para que dure sempre; e nos une a Si, para que nós já nesta vida o possuamos como o possuem os bem-aventurados no céu.

De modo que Deus dá um mesmo manjar aos santos do céu e aos homens neste vale de lágrimas, mas preparado e acomodado ao estado de cada um. Esse manjar único é a divindade e a humanidade de Cristo, que os bem-aventurados veem claramente, e nas quais se embriagam e encontram toda felicidade; e que também a nós se nos entrega neste Sacramento, mas acomodado ao nosso estado de peregrinos, ou seja, sob o véu e obscuridade da fé.

Nosso Senhor prometeu: “Quem comer a minha carne e beber o meu sangue viverá eternamente”. Portanto, a alma que frequentemente recebe a Jesus na Comunhão, que se prepara para recebê-lo fervorosamente e que, alimentada por esse manjar, leva uma verdadeira vida cristã, está moralmente seguro de sua salvação eterna, pois através deste sacramento receberá as forças necessárias para vencer todos os obstáculos e alegremente atravessar as portas da eternidade. E lá, no céu, a união final e total da alma com Jesus Cristo será consumada, uma união já iniciada nesta vida através do sacramento da Eucaristia.

Conclusão

A recepção frequente da Eucaristia obriga-nos a levar uma vida santa. Nós não podemos, nós que recebemos a Jesus tantas vezes, viver como os outros homens. Devemos levar a mesma vida de Jesus: “Aquele que comer a minha carne viverá por mim”. Por isso:

  • Antes de tudo, devemos guardar, a todo custo, o estado da graça santificante, que Jesus Cristo nos comunica através deste sacramento, e tratar de cultivá-lo com a união a Deus através da oração e dos sacramentos.
  • Depois, devemos lembrar que a Eucaristia obriga-nos a reproduzir a paixão de Cristo, ou seja, obriga-nos a morrer definitivamente ao pecado e a unir todos os nossos sofrimentos e sacrifícios aos de Jesus.
  • Finalmente, devemos nos esforçar em viver desde agora uma vida de anjos, uma vida que esteja em consonância com a glória futura que Cristo nos promete, amando as coisas do céu e aprendendo a desprezar as da terra, onde estamos apenas de passagem.

“Beija-me com um beijo de tua boca”, desejava a esposa do Cantares: a Igreja, até então beijada pela boca dos patriarcas e dos profetas, já deseja que o mesmo Deus em pessoa, fazendo-se homem, viesse a ela para unir-se a Ele. E por isso alegra-se ao vê-lo finalmente chegar: “ Ei-lo que aí vem, saltando sobre os montes, pulando sobre as colinas”. Admiremos os saltos do Verbo de Deus para unir-se a nós: do seio do Pai, salta ao seio de Maria, daí para a Cruz, da Cruz para o sepulcro, do sepulcro para o céu; mas antes de nos deixar, Ele inventa a maneira de permanecer entre nós, não sendo capaz de separar-se das almas que tanto ama.

Assombremo-nos com a maravilhosa condescendência de um Deus que, apesar de tantas ingratidões e rudezas como as que há neste mundo, ainda assim quer permanecer presente entre nós! Celebremos, pois, alegremente, a presença de Jesus Cristo entre nós, e peçamos-lhe a graça de apreciar tão grande benefício, aproveitando quanto pudermos do Sacramento de seu Amor: “Oh Deus, que neste sacramento admirável nos deixaste o memorial da vossa Paixão, fazei, nós Vo-lo suplicamos, que veneremos o vosso Corpo e Sangue de tal modo que mereçamos sentir constantemente os efeitos da vossa Redenção”. (Colecta da festa de Corpus Christi).

Que a Santíssima Virgem nos ajude a compreender a grandeza da Eucaristia: da Missa e do Sacramento. Queremos um segredo para assistir com grande fruto a Santa Missa, para comungar com fervor? Unamo-nos a Ela, peçamos-lhe que nos empreste seus sentimentos, os mesmos que Ela teve quando ofereceu seu Filho no altar da Cruz e quando o recebia em seu peito pela comunhão das mãos de São João. Seja Ela a mestra que nos ensine a amar tão grande Sacramento.

Publicado originalmente em 31/05/2018