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terça-feira, 21 de julho de 2026

A inveja, diz Santo Agostinho, é o ódio pela felicidade dos outros. (Homil. XX, inter L.)




A inveja foi, diz Santo Agostinho, o que afastou o Anjo do Céu e ao homem do Paraíso terrestre; foi ela que matou Abel; que muniu aos irmãos de José; lançou Daniel na cova dos leões; crucificou a Jesus Cristo. A inveja continua Ele, é o verme roedor da alma, sua mancha e seu verdugo, é uma víbora (De Morib.).
Pela inveja do diabo entrou a morte no mundo, diz a Sabedoria (Sb 2, 24). São João Crisóstomo chama a inveja de invenção de Satanás, a mais espantosa peste (Homil. XXII, in Gen.). A inveja, diz ainda São João Crisóstomo, é uma espécie de peste; e coloca ao homem na condição em que se encontra o demônio, e faz dele próprio um dos mais cruéis espíritos infernais. A primeira morte foi cometida pelas mãos da inveja; a inveja desconheceu o amor fraternal (Homil. XLI, in Matth.).
O invejoso tem olhos enfermos; tudo o que é brilhante e formoso, ofende-o e prejudica-o; está agitado, atormentado pela glória e a virtude dos demais; e sua inveja aumenta à medida que se acrescentam a glória e a virtude do próximo. A inveja tem por parentes o ódio, a maledicência, a calúnia, a alegria nas desgraças, e a tristeza nas prosperidades alheias. A inveja é um veneno lento que arruína a saúde.
A inveja chega mesmo a abater e consumir o corpo. Assim dizem os Provérbios que a inveja é câncer dos ossos (Pr 14, 30). A inveja é a mais cruel das enfermidades e a mais terrível morte do coração. O invejoso sofre porque outro possua tanto quanto ele; e sente por ter menos que o outro. Ó inveja, exclama São João Crisóstomo, manancial da morte, enfermidade que contém todas as enfermidades, e agudíssima lança que atravessa o coração! (Anton. in Meliss., lib. I, c. XXVI).
Os remédios contra a inveja são:
1.° A humildade:
A humildade faz a alma reconhecer que todo bem vem de Deus. Quem é humilde não sente necessidade de se comparar continuamente com os outros. Em vez de sofrer pelo bem do próximo, alegra-se porque Deus distribui Seus dons como Ele quer, com sabedoria e justiça. O humilde entende que os talentos, as graças, a inteligência, a beleza, os bens materiais e até as virtudes são dons recebidos, e não méritos absolutos próprios.
2.° A modéstia:
Muitas vezes a inveja nasce da vaidade: deseja-se possuir o que o outro possui para ser admirado como ele é admirado. A modéstia impede a alma de buscar constantemente chamar atenção, receber elogios ou exibir superioridade. A alma modesta aprende a contentar-se com o próprio estado de vida, vive com simplicidade e evita alimentar rivalidades inúteis.
3.° O desprezo da glória e dos bens temporais:
O mundo estimula competições constantes: quem possui mais, quem aparece mais, quem recebe mais reconhecimento. Enquanto o coração estiver preso à fama, às honras, ao dinheiro e às vantagens terrenas, estará continuamente exposto à inveja. Quando a alma compreende a vaidade das coisas terrenas, começa a perder o interesse em disputar posições e prestígios. Assim, a inveja perde alimento.
4.° O desejo dos bens eternos:
Quem deseja o Céu, a santidade, a graça divina e a união com Deus começa a olhar para os outros não como rivais, mas como irmãos de caminhada.
5.° A temperança em meio às riquezas exclui também a inveja:
A temperança ensina o uso moderado dos bens materiais. Ela gera equilíbrio interior. A pessoa aprende a usar os bens sem fazer deles sua fonte suprema de felicidade. Mesmo quando alguém possui riquezas ou conforto, deve conservar o coração desapegado. Quem vive dominado pelo desejo de possuir sempre mais inevitavelmente acabará invejando quem tem mais do que ele. Pois, a cobiça alimenta a inveja.
6.° a doçura, a mansidão, a bondade e a caridade também destroem a inveja:
A doçura afasta a amargura interior.
A mansidão impede os ressentimentos.
A bondade leva a desejar sinceramente o bem do outro.
A caridade faz amar o próximo por amor de Deus.
A caridade destrói completamente a inveja porque o amor verdadeiro não suporta entristecer-se com o bem daquele que ama. Como ensina São Paulo na Sagrada Escritura:
“A caridade não é invejosa.” — (1Cor 13,4)
Peçamos ao Senhor Jesus Cristo, por intercessão de Nossa Mãe Maria Santíssima e de nosso pai São José, a graça de um coração humilde, puro e cheio de caridade, para que sejamos livres de toda inveja. Que aprendamos a alegrar-nos com o bem do próximo, a desejar antes os bens eternos do que as glórias passageiras deste mundo, e a viver na mansidão, na bondade e no santo amor de Deus.
— Referência:
[Tesouro do Padre Cornélio a Lápide]
E as almas dos fiéis defuntos pela misericórdia de Deus descansem em paz!
℣. Dai-lhes Senhor, o descanso eterno.
℟. E a luz perpétua os ilumine.
Descansem em paz. Amém.
℣. Senhor, escutai a minha oração,
℟. E chegue até vós o meu clamor.
"Para Cristo,
por Maria e José,
em súplicas pelas
almas do purgatório".
🙏🏾
† Jesus e Maria eu vos amo, salvai almas!


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

"Ninguém vai ao Pai senão por Mim."

 

"Eu sou o caminho, a verdade e a vida." Cristo parece dizer-nos: "Por onde queres passar? Eu sou o caminho. Onde queres chegar? Eu sou a verdade. Onde queres ficar? Eu sou a vida." Caminhemos pois em plena segurança por este caminho; e, fora do caminho, tenhamos cuidado com as armadilhas. Porque dentro do caminho o inimigo não ousa atacar - o caminho é Cristo -, mas fora do caminho monta os seus ardis. [...]


O nosso caminho é Cristo na sua humildade; Cristo verdade e vida é Cristo na sua grandeza, na sua divindade. Se seguires o caminho da humildade, chegarás ao Altíssimo; se, na tua fraqueza, não desprezares a humildade, permanecerás cheio de força no Altíssimo. Porque foi que Cristo tomou o caminho da humildade? Foi por causa da tua fraqueza, que era um obstáculo intransponível; foi para te libertar dela que tão grande médico veio a ti. Tu não podias ir até ele; por isso, veio Ele até ti. Veio ensinar-te a humildade, que é um caminho de regresso, porque era o orgulho que nos impedia de retornar à vida que o mesmo orgulho nos tinha feito perder. [...]

Assim, tornando-Se nosso caminho, Jesus grita-nos: "Entrai pela porta estreita!" (Mt 7,13). O homem esforça-se por entrar, mas o inchaço do orgulho impede-o de tal. Aceitemos o remédio da humildade, bebamos esse medicamento amargo, mas salutar. [...] O homem inchado de orgulho pergunta: "Como poderei entrar?" Cristo responde-lhe: "Eu sou o caminho, entra por Mim. Eu sou a porta (Jo 10,7), porque procuras noutro sítio?" Para que não te percas, Ele fez-Se tudo por ti e diz-te: "Sê humilde, sê manso" (Mt 11,29).   

Santo Agostinho in Sermão 142

terça-feira, 30 de maio de 2023

Ninguém vai ao Pai senão por Mim

 

"Eu sou o caminho, a verdade e a vida." Cristo parece dizer-nos: "Por onde queres passar? Eu sou o caminho. Onde queres chegar? Eu sou a verdade. Onde queres ficar? Eu sou a vida." Caminhemos pois em plena segurança por este caminho; e, fora do caminho, tenhamos cuidado com as armadilhas. Porque dentro do caminho o inimigo não ousa atacar - o caminho é Cristo -, mas fora do caminho monta os seus ardis. [...]


O nosso caminho é Cristo na sua humildade; Cristo verdade e vida é Cristo na sua grandeza, na sua divindade. Se seguires o caminho da humildade, chegarás ao Altíssimo; se, na tua fraqueza, não desprezares a humildade, permanecerás cheio de força no Altíssimo. Porque foi que Cristo tomou o caminho da humildade? Foi por causa da tua fraqueza, que era um obstáculo intransponível; foi para te libertar dela que tão grande médico veio a ti. Tu não podias ir até ele; por isso, veio Ele até ti. Veio ensinar-te a humildade, que é um caminho de regresso, porque era o orgulho que nos impedia de retornar à vida que o mesmo orgulho nos tinha feito perder. [...]

Assim, tornando-Se nosso caminho, Jesus grita-nos: "Entrai pela porta estreita!" (Mt 7,13). O homem esforça-se por entrar, mas o inchaço do orgulho impede-o de tal. Aceitemos o remédio da humildade, bebamos esse medicamento amargo, mas salutar. [...] O homem inchado de orgulho pergunta: "Como poderei entrar?" Cristo responde-lhe: "Eu sou o caminho, entra por Mim. Eu sou a porta (Jo 10,7), porque procuras noutro sítio?" Para que não te percas, Ele fez-Se tudo por ti e diz-te: "Sê humilde, sê manso" (Mt 11,29).   

Santo Agostinho in Sermão 142

quarta-feira, 8 de julho de 2020

"Ninguém vai ao Pai senão por Mim."



"Eu sou o caminho, a verdade e a vida." Cristo parece dizer-nos: "Por onde queres passar? Eu sou o caminho. Onde queres chegar? Eu sou a verdade. Onde queres ficar? Eu sou a vida." Caminhemos pois em plena segurança por este caminho; e, fora do caminho, tenhamos cuidado com as armadilhas. Porque dentro do caminho o inimigo não ousa atacar - o caminho é Cristo -, mas fora do caminho monta os seus ardis. [...]

O nosso caminho é Cristo na sua humildade; Cristo verdade e vida é Cristo na sua grandeza, na sua divindade. Se seguires o caminho da humildade, chegarás ao Altíssimo; se, na tua fraqueza, não desprezares a humildade, permanecerás cheio de força no Altíssimo. Porque foi que Cristo tomou o caminho da humildade? Foi por causa da tua fraqueza, que era um obstáculo intransponível; foi para te libertar dela que tão grande médico veio a ti. Tu não podias ir até ele; por isso, veio Ele até ti. Veio ensinar-te a humildade, que é um caminho de regresso, porque era o orgulho que nos impedia de retornar à vida que o mesmo orgulho nos tinha feito perder. [...]

Assim, tornando-Se nosso caminho, Jesus grita-nos: "Entrai pela porta estreita!" (Mt 7,13). O homem esforça-se por entrar, mas o inchaço do orgulho impede-o de tal. Aceitemos o remédio da humildade, bebamos esse medicamento amargo, mas salutar. [...] O homem inchado de orgulho pergunta: "Como poderei entrar?" Cristo responde-lhe: "Eu sou o caminho, entra por Mim. Eu sou a porta (Jo 10,7), porque procuras noutro sítio?" Para que não te percas, Ele fez-Se tudo por ti e diz-te: "Sê humilde, sê manso" (Mt 11,29).   

Santo Agostinho in Sermão 142

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

O primeiro passo na busca da verdade é a Humildade



A carta 118 de Santo Agostinho é um texto dirigido a Dióscoro. No ponto 22 dessa carta, o Santo explica que sem humildade nenhuma ação pode ser boa:

O primeiro passo (na busca da verdade) é a humildade. O segundo, a humildade. O terceiro, a humildade. Se a humildade não preceder, acompanhar e seguir cada boa ação que fazemos - sendo ao mesmo tempo o nosso objectivo, o nosso apoio e a nossa moderação -  o orgulho retira-nos qualquer boa obra pela qual nos congratulamos. Todos os outros vícios podem ser facilmente detectados quando os temos, mas devemos temer o orgulho mesmo quando fazemos boas ações.

Santo Agostinho in Carta 118, 22

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

12 Ensinamentos de Santo Agostinho sobre o Pecado


1 – É desígnio de Deus que toda alma desregrada seja para si mesma o seu castigo. A amizade deste mundo é adultério contra Vós.
2 – Eu pecava, porque em vez de procurar em Deus os prazeres, as grandezas e as verdades, procurava-os nas suas criaturas: em mim e nos outros. Por isso precipitava-me na dor, na confusão e no erro.
3 – Quanto mais for destruído o reino da concupiscência, tanto mais aumentará o da caridade.
4 – Há desde o início do gênero humano e haverá até o fim dos séculos duas cidades, uma dos iníquos, outra dos santos.
5 – Haveis de ver muitos ébrios, avaros, trapaceiros, jogadores, adúlteros, fornicadores; verás a muitos que se atam com remédios sacrílegos, ou se entregam aos encantadores, astrólogos e adivinhos de quaisquer artes ímpias.
6 – Se a tristeza se apoderar de nós por um erro ou pecado nosso, lembremo-nos de que um coração esmagado pela dor é um sacrifício digno de Deus.
7 – Um homem bom é livre, mesmo quando é escravo. Um homem mau é escravo, mesmo quando é rei. Não serve a outros homens mas a seus caprichos. Tem tantos senhores quantos vícios. Quando começas a detestar-te pelo pecado que Deus detesta em ti, começas a amar a Deus como és.
8 – O homem é a moeda de Cristo, porém manchada e embaçada pelo pecado… Cristo, com sua vinda, tornou a esculpir sua imagem nela. E, desde então, o homem é moeda de Cristo que ostenta sua imagem, seu nome, sua graça e porte.
9 – Não temo a impureza da comida, mas a do apetite.
10 – O homem se faz réu do pecado no mesmo momento em que se decide a cometê-lo. Pouco vale não realizá-lo apenas por temor ao castigo. Ou destróis o pecado que há em ti ou ele te destruirá.
11 – Toda corrupção leva o homem à própria destruição. Pecar é desmoronar o próprio ser e caminhar para o nada.
12 – Quando a alma abandona o corpo, acontece a morte física. Quando a alma abandona a Deus, dá-se a morte espiritual.

Como rezar o Terço

Aprenda pelo link abaixo;


sexta-feira, 19 de maio de 2017

Máximas e Pensamentos de Sto. Agostinho - SOBRE DEUS


“Quereis ter o coração reto? Fazei o que Deus quer e não desejeis que Ele faça o que vós quereis”



Pe. Júlio Barteris (*) — FSSPX, Capela S. Pio X, Calendário Litúrgico: Quantas vezes tereis desejado o ouro sem poder talvez consegui-lo! Desejai a Deus, e o possuireis com certeza. (Conc. 2 de 2 parte ps. 32).
A Deus não falta bem algum, Ele mesmo é o soberano bem; d’Ele igualmente procedem todos os bens. (Cap. 2 de 2 parte ps. 66).
Além das coisas que Deus indistintamente concede aos bons e aos maus, há uma que só reserva aos bons. Que lhes reserva? Ele próprio. (In ps. 72).
Quem espera de Deus um prêmio, e não quer, entretanto servir a Deus tem maior estima por esse prêmio, do que pelo próprio Deus de quem o espera. Não se pode então pedir nenhuma recompensa a Deus? Nenhuma, a não ser Ele próprio. A recompensa de Deus é Deus mesmo. (In ps. 72).
Não pode acontecer que Deus puna a obra de suas mãos. Pune o mal que fazeis, para livrar a sua obra. (In ps. 91).
Deus não me satisfaria plenamente, se não me prometesse a posse de Si mesmo. (Serm. 16).
Como ninguém pode tirar-nos os dons de Deus, só a Ele devemos temer. (In ps. 15).
Que obra de Deus poderá contentar-vos, se Ele próprio não vos pode satisfazer? (In ps. 31).
Deus não exige de vós mais do que vos deu. (In ps. 36).
Os homens queixam-se dos castigos de Deus, mas não detestam a causa do castigo. (In ps. 37).
Deus se nos dará a Si mesmo em herança; nós o possuiremos e seremos d’Ele por toda a eternidade. (In ps. 62).
Temei a Deus, e nada tereis que recear dos homens. (In ps. 63).
Quereis ter o coração reto? Fazei o que Deus quer e não desejeis que Ele faça o que vós quereis. (In ps. 124).
Vida de S. Agostinho. P. Júlio Barteris.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

A Curiosidade - Santo Agostinho



À tentação sobredita junta-se outra, mais perigosa sob múltiplos aspectos. Além da concupiscência da carne – que vegeta na deleitação de todos os sentidos e prazeres, e mata a todos os que a servem, isto é, àqueles que se afastam para longe de Vós – pulula na alma, em virtude dos próprios sentidos do corpo, não um apetite de se deleitar na carne, mas um desejo de conhecer tudo, por meio da carne. Este desejo curioso e vão, disfarça-se sob o nome de “conhecimento” e de “ciência”. Como nasce da paixão de conhecer tudo, é chamado nas divinas Escrituras a concupiscência dos olhos(1), por serem estes os sentidos mais aptos para o conhecimento.

É aos olhos que propriamente pertence o ver. Empregamos, contudo, este termo, mesmo em relação aos outros sentidos, quando os usamos para obter qualquer conhecimento. Assim, não dizemos: “ouve como brilha”, “cheira como resplandece”, “saboreia como reluz”, “apalpa como cintila”. Mas já podemos dizer que todas essas coisas se vêem. Por isso não só dizemos: “vê como isto brilha” – pois só os olhos o podem sentir, – mas também: “vê como ressoa, vê como cheira, vê como sabe bem, vê como é duro”. É por isso, como já disse, que se chama concupiscência dos olhos à total experiência que nos vem pelos sentidos. Apesar do ofício da vista pertencer primariamente aos olhos, contudo os restantes sentidos usurpam-no por analogia, quando procuram um conhecimento qualquer.

Daqui se vê claramente quanto a volúpia e a curiosidade agem em nós pelos sentidos: o prazer corre atrás do belo, do harmonioso, do suave, do saboroso, do brando; a curiosidade, porém, gosta às vezes de experimentar o contrário dessas sensações, não para se sujeitar a enfados dolorosos, mas para satisfazer a paixão de tudo examinar e conhecer.

Que gosto há em ver um cadáver dilacerado, a que se tem horror? Apesar disso, onde quer que esteja, toda a gente lá acorre ainda que, vendo-o, se entristeça e empalideça. Depois, até em sonhos temem vê-lo, como se alguém os tivesse obrigado a ir examiná-lo, quando estavam acordados, ou como se qualquer anúncio de beleza os tivesse persuadido a lá irem.

O mesmo se dá com os outros sentidos. Iríamos longe se os percorrêssemos a todos. Por causa desta doença da curiosidade, exibem-se no teatro cenas monstruosas de superstição. Dela nasce o desejo de perscrutar os segredos preternaturais que afinal nada nos aproveita conhecer, e que os homens anseiam saber, só por saber. 

É ainda a curiosidade que, com o mesmo intuito de alcançar uma ciência perversa, faz recorrer o homem às artes mágicas. Enfim é ela que, até na religião, nos arrasta a tentar a Deus, pedindo-Lhe milagres e prodígios, não porque os exija a salvação das almas, mas só porque se deseja fazer a experiência.

Neste bosque imenso, repleto de tantas insídias e perigos, cortei e expulsei da minha alma muitos males. Vós assim me o concedestes, ó Deus da minha salvação. Mas quando no meio de tantas tentações desta espécie, que por todos os lados me circundam a vida quotidiana, ousarei afirmar que nenhuma delas me há de ver, nem me ei de deixar arrastar por nenhuma curiosidade vã?

Os teatros, é certo, já me não arrebatam nem procuro conhecer o curso dos astros, nem nunca a minha alma esperou as respostas das sombras de que se vale a magia para as suas respostas. Detesto todos estes ritos sacrílegos. Mas, ó Senhor meu Deus, a quem devo servir na humilhação e simplicidade, com quantas maquinações me incita o inimigo a pedir-Vos um sinal! Contudo suplico-Vos pelo nosso Chefe e nossa Pátria – a pura e casta Jerusalém – que assim como até agora esteve longe de mim este consentimento, assim continue a estar cada vez mais. Quando Vos peço a salvação de alguém, o fim do meu intento é muito diferente. Concedei-me agora e no futuro a graça de Vos servir jubilosamente fazendo Vós o que quiserdes.

Contudo, quem poderá contar as insignificantes e desprezíveis misérias que todos os dias tentam a nossa curiosidade, e o número de vezes em que escorregamos? Quantas e quantas vezes não ouvimos contar banalidades! Ao princípio toleramo-las, só para não ofender os fracos; mas depois ouvimo-las com gosto sempre crescente!

Já não contemplo um cão a correr atrás duma lebre quando isso sucede no circo. Mas se a caçada for no campo, que eu casualmente atravesso, talvez ela me distraia de um pensamento importante e, se me não obriga a mudar de caminho para a seguir a cavalo, sigo-a ao menos com um desejo de coração; se imediatamente por meio da minha já tão conhecida fraqueza, me não avisardes que me liberte desse espetáculo. E se eu me não elevar até Vós com alguma consideração, ou desprezando-o por completo ou passando adiante, ficarei loucamente absorvido.

Quando estou sentado em casa não me prende também, muitas vezes a atenção, um estelião(2) a caçar moscas, ou uma aranha enredando as que se atiram às suas teias? Acaso, por serem animais pequenos, a curiosidade deixará de ser a mesma? É certo que disto me aproveito para Vos louvar, ó Criador admirável e Coordenador de todas as coisas. Mas não é isso o que primeiro me desperta a atenção. Uma coisa é levantar-me após a queda, e outra coisa é não cair nunca.

De tais misérias está repleta a minha vida. A minha única esperança é a Vossa infinita misericórdia. Como o nosso coração é recipiente de todas estas misérias e porque traz essa imensa multidão de vaidades, muitas vezes as nossas orações interrompem-se e perturbam-se.

Enquanto na Vossa presença elevamos até junto de Vossos ouvidos a voz da nossa alma, não sei donde provêm tantos pensamentos fúteis, que se despenham sobre nós e nos cortam a atenção em coisa tão importante.

(1) I Jo. II, 16
(2) Espécie de lagartixa do Norte da África que no dorso apresenta manchas parecidas a estrelas.

sábado, 17 de novembro de 2012

"Se alguém quiser seguir-Me..."



«Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida, tem de perdê-la; mas quem perder a vida por minha causa salvá-la-á. Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder-se ou arruinar-se a si próprio?».

"Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me." (Mt 16,24).

Parece dura e pesada a ordem do Senhor: quem quiser segui-Lo, tem que renunciar a si mesmo. Mas não é duro nem pesado quem ordena, pois Ele próprio nos ajuda a cumprir o Seu preceito.

Assim como é verdade o que Lhe dizem no salmo: Seguindo as palavras dos vossos lábios, percorri duros caminhos (Sl 16,4), também é verdade o que Ele nos disse: O meu jugo é suave e meu fardo é leve (Mt 11,30). A caridade torna leve tudo quanto é duro no preceito.

Que significa: "Tome a sua cruz"?

Quer dizer: suportar tudo o que custa, e então segui-Lo. Na verdade, quem começar a seguir os Seus exemplos e preceitos, encontrará muitos que o critiquem, que o impeçam, que tentem dissuadi-lo, mesmo entre os que parecem discípulos de Cristo. Andavam com Cristo os que proibiam os cegos de clamar por Ele.

Tu, portanto, no meio das ameaças, de carinhos ou proibições, sejam quais forem, se quiseres seguir a Cristo, transforma tudo em cruz: suporta, carrega e não desistas!

(...)

Esta palavra não deve ser ouvida como dirigida apenas às virgens e não às esposas; nem só para as viúvas e não para as casadas; nem só para os monges e não para os maridos; nem só para os clérigos e não para os leigos. Pois toda a Igreja, todo o corpo, todos os seus membros, diferentes e distribuídos segundo suas próprias tarefas, devem seguir Cristo.

Siga-O toda a Igreja que é uma só, siga-O a pomba, siga-O a esposa, redimida e dotada pelo sangue do Esposo. Nela encontra lugar tanto a integridade das virgens como a castidade das viúvas e o pudor dos casais.

Estes membros, que nela encontram o seu lugar, sigam Cristo, cada um segundo a sua vocação, posição ou medida.

Renunciem a si mesmos, isto é, não se vangloriem; tomem a sua cruz, quer dizer, suportem no mundo, por amor de Cristo, tudo o que lançarem contra eles.

Amem o único que não ilude, o único que não é enganado nem engana; amem-nO, porque é verdade aquilo que promete. Como as Suas promessas tardam, a fé vacila.

Mas sê constante, perseverante, suporta a demora e terás tomado a tua cruz.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Jesus, humilde de Coração



Jesus, meu Mestre, não quer ensinar-me, diz Santo Agostinho, a criar mundos, a causar admiração geral por milagres e prodígios, a me celebrizar por virtudes brilhantes. Mas Ele me diz: "Aprendei de mim que sou manso e humilde de Coração".

A humildade de Jesus, eis, ó minha alma, o ensinamento divino do Mestre. A humildade, eis o caráter da santidade, a condição que exige para conceder Seus dons. "Deus só dá a Sua Graça aos humildes."

Deus medirá as Suas Graças pela minha humildade.

A humildade é a regra da virtude, os alicerces do edifício espiritual da perfeiçãoSe eu a tiver, terei a todas as virtudes e se não a tiver, minhas virtudes se tornarão em vícios e minhas boas obras em obras mortas.

Para chegar-se a mim, Deus só me pede a humildade e quanto maior for esta na terra, mais elevado será, no Céu, o meu lugar. Mas como me tornar humilde?

Imitando a Jesus e Maria

1º. - Só devo ter sentimentos humildes de mim mesmo, do meu nada. Tudo quanto tenho de bom, quer na ordem natural, quer na sobrenatural, me vem de Deus e a Deus pertence. Senhor meu que é, não abre mão do que é Seu. Só me resta, pois, em plena propriedade, o meu nada. Ora, que vale o nada? Que pode fazer? Que poder tem?

Ai de mim! - e que humilhação para mim! Esse meu nada pode, na verdade, produzir alguma coisa: o pecado, o pecado mortal. Pode, portanto, merecer-me o inferno, enquanto me leva a perder o Céu, pela ofensa feita à Infinita Bondade de Deus. Ora, esse nada culpado merece ser desprezado e grandemente. Tivesse causado um único pecado, já por isso mereceria o desprezo dos Anjos e dos homens. Não são os galés, embora convertidos e mesmo perdoados, desprezados por todos? Ah! Que desprezo mereço eu! Quantos pecados cometi! Quanto ofendi a Deus!

Quantas marcas diabólicas imprimi no corpo e na alma! Devo, pois, ser humilde, é de simples justiça. É a homenagem prestada à verdade do meu estado.

E Jesus, para animar-me, faz-Se humilde. Ouve, ó minha alma, a prova sublime que nos dá da Sua humildade: "O Filho do homem nada pode fazer por si, mas somente aquilo que vê o Pai fazer. As palavras que vos digo, não as digo por mim mesmo. O Pai que permanece em mim opera por si essas obras". Jesus coloca-Se no último lugar da humanidade. Chama-se, nas palavras do profeta Isaías, um verme, o último dos homens. E não nos diz São Paulo que Ele Se humilhou e Se aniquilou até revestir a forma de escravo? E eu teria medo de descer ao Seu encontro!...

2º. - A humildade verdadeira rende a Deus toda a glória das Suas obras, não guardando para si senão a humilhação inerente às suas imperfeições. Não se vangloria dos êxitos felizes. Não se lastima dos infelizes. Não se glorifica das qualidades, dos talentos, da posição. Tudo a Deus pertence.

Não fala em si. Receia a glória e o renome, temendo que lhe sejam a recompensa única. E, em vez de ver o que tem, vê o que lhe falta. Em vez de virtudes, vê as culpas. Em vez da força, vê a fraqueza. Conserva-se, portanto, sempre recolhida em si mesma, qual a criança que se considera a última de todas. Tal a lei da humildade.

Jesus, ó minha alma, é teu modelo. Chamado, independente de Deus Pai, de bom Mestre, reclama que só Deus é Bom. Ante o povo que O quer proclamar rei, foge para o deserto. Se Lhe louvam os milagres, Ele devolve ao Pai toda a Glória. Seu único desejo é procurar a Glória paterna pela Sua própria abjeção, pelo Seu próprio aniquilamento. E vede quão humilde é Maria! Enquanto o anjo a chama de Mãe de Deus, cheia de Graça, Ela a Si mesma se chama de serva, de escrava.

3º. - A humildade perfeita procura a humilhação e os desprezos que, para a alma verdadeiramente humilde, são um tesouro, uma glóriaÉ o aproximar-se de Jesus humilhado, coberto de opróbrios, tanto em Jerusalém como no Calvário.

Que bela ocasião de dar uma prova de amor, de honrá-lO pelo ato mais perfeito de que dispõe o homem. Mais vale a humilhação do que o sofrimento físico, do que o sacrifício dos bens temporais.

Um só ato de humilhação feito por amor de Deus, eleva a alma até Jesus Cristo, libertando-a da escravidão da vaidade e da vã estima das criaturas.

Deus só raramente concede essas belas ocasiões. Feliz da alma que sabe aproveitá-las.

4º. - A humildade é o triunfo máximo da alma sobre o demônio, que só tem poder sobre nós na medida do nosso orgulho. Daí a palavra do Espírito Santo: "O princípio de todo pecado é o orgulho". A alma, portanto, que for humilde, será como que impecável, e o demônio não terá poder algum sobre ela. Um ato de humildade amedronta-o logo de início e, caso volte à carga, será para atacar a alma pela sua mesma humildade, que lhe é barreira e couraça.

5º. - A humildade triunfa do próprio Deus. Ele não saberá resistir à alma que, culpada, se humilhar aos Seus pésA humildade desarma-O, arrebatando-Lhe as Graças. Nas provações que envia, nas desolações interiores, a alma que souber humilhar-se, fará violência a Deus, qual o santo homem Jó no seu monturo.

Então, para que Se vingue da derrota, Deus lhe pagará o cêntuplo, elevando-o a um alto grau de oração e à união íntima com Ele.

Se não puderes, portanto, ó minha alma, praticar grandes penitências, consola-te. Podes sempre ser humilde e a humildade supera toda penitência. Se não puderes fazer grandes coisas para Deus, não te aflijas. Podes sempre humilhar-te em Sua Presença. A humildade rende maior glória a Deus do que a conversão do mundo inteiro, sem humildade.

Não sabes orar? Humilha-te e farás a melhor das orações. Não sabes dizer a Deus o teu amor? Humilhante aos Seus pés com Madalena. Grande então terá sido o teu amor enquanto te tornarás como ela, a casta amante do Senhor.

(A Divina Eucaristia, Escritos e Sermões de Sermões de São Pedro Julião Eymard, volume III)

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