terça-feira, 5 de abril de 2016

A EDUCAÇÃO DA VONTADE

Três coisas têm grande influência sobre a vontade: o sentimento, a imaginação e o temperamento. Não somos totalmente senhores deles; o “livre arbítrio” do homem não é, pois, completo em nós. Tu mesmo deves ter notado que um dia te levantas triste e abatido, e que no dia seguinte, ao invés, estás tão alegre que terias vontade de dançar; e não podes dizer a razão nem do abatimento de ontem, nem da alegria de hoje.
O mesmo ocorre com a imaginação. De repente, e sem causa alguma, as recordações de um acontecimento passado emergem na tua memória, ou entãopor sob os vincos da tua fronte, idéias absurdas e imagens enganadoras se desenham. Donde vêm? Por que é que se apresentam naquele minuto preciso? Não saberias dizê-lo … E é de frequente que a nossa imaginação assim nos jogueteia, é a miúdo que nos mostra dificuldades imensas e obstáculos insuperáveis no caminho dos nossos trabalhos, para nos desgostar deles. Se tens um dente para mandar extrair ou tratar, não é o trabalho do dentista que é o mais doloroso; é a meia hora que passas na sala de espera, deixando livre campo à tua imaginação que te mostra, exagerando-o atrozmente, o sofrimento que te aguarda.
Pois bem, meu filho, se não somos totalmente senhores dos nossos sentimentos e da nossa imaginação, cumpre-nos entretanto tentar estender o reino da nossa vontade até à atividade deles; cumpre-nos velar sobre os sentimentos e tomar as rédeas à imaginação. Acordaste de mau humor? Não importa! Trata de sorrir e de cantar, já estarás vitorioso, – em parte ao menos.
Tens um trabalho de álgebra que fazer. Tua imaginação pinta-o sob imagens assustadoras: “Escuta, esse problema é tão difícil que vais suar frio!” Pois bem , contradize-a! Dize-lhe: “Não é verdade! És uma mentirosa, minha querida imaginação! A solução não é tão terrível assim; tu aumentas as dificuldades; para que pareçam maiores do que são … pois afronto-as”.
Como vês, a educação da vontade é um trabalho pertinaz, no intuito de sujeitar todas as faculdades intelectuais que nela influem, tais como: a inteligência, o sentimento, a memória, a imaginação, etc. Não basta, portanto, exercitar e fortalecer a vontade; é preciso, sobretudo, esforço para colocá-la, tão completamente quanto possível, a serviço dos fins espirituais mais elevados, isto é, pô-la sem reserva sob o império da alma.
Aquele que quer tornar-se um caráter firme deve exercitar-se em governar seus sentimentos, na medida em que pode. A causa de muitos pecados, dureza, pensamentos de inveja e maldade, ofensas irrefletidas, brigas, – estas sobretudo – não está numa vonatde má, mas numa vontade fraca que ainda não sabe erguer-se ante os sentimentos que surgem de imprevisto. Não há mister esforços extraordinários para vencer um pequeno mau humor, por exemplo; e contudo, quantos preferem sofrê-lo, demasiado preguiçosos que são, a se entregarem a este pequeno trabalho!
O exercício dos sentimentos é, pois, ao mesmo tempo exercício da vontade. A influência do sentimento sobre a vontade não consiste só em aliciá-la à ação; faz-se sentir até sobre o seu exercício e sobre a sua perseverança. Quem, pois, ousará negar que um benefício brota, cem vezes mais, do calor do coração, do que do frio lume da razão? – E um motivo a mais, ainda, para educar os sentimentos, é que a vontade, obrando sem o coração, poderia facilmente transformar-se numa máquina de querer, insensível, egoísta e teimosa; – o que não faria de ti mais que uma vil caricatura do jovem de caráter impecável que queres ser.
O homem de reflexão esforça-se não só por vencer seus sentimentos tristes e substituí-los por outros mais alegres, – mas também por conservar sempre a paz de sua alma.
O corpo e a alma estão estreitamente unidos em nós … Quando te sentires desanimado, quando vires a tristeza invadir-te a alma sem que saibas porque, tenta por um sorriso nos lábios, esfrega jovialmente as mãos, e verás que a tristeza dá de desaparecer. Quando sofreres de uma dor física, ocupa tua mente com pensamentos alegres, e esquecerás em parte os sofrimentos.
Mesmo se uma desventura te sobrevier procura tirar dela proveito espiritual. Deficiendo discamus – Aproveitemos até mesmo as nossas faltas. Roubaram-te a carteira no ônibus? Não te encolerizes, mas reflete um pouco: Como pudeste estar tao distraído que o não notaste, e que precauções tomarás no futuro, para que isso não mais te aconteça? Alguém te pisou o pé? Não deixes escapar o “Arre!” furioso que te queima os lábios, mas dize baixinho: “Esta dorzinha vale-me ao menos um pouco de domínio de mim mesmo”.
Queres, pois, ser um rei onipotente?
Domina-te a ti mesmo, virilmente!
Senhorear sempre os próprios sentimentos e nunca se deixar arrastar por eles, é alto grau de perfeição espiritual.
O moço de caráter –  Mons. Tihamer Toth

segunda-feira, 4 de abril de 2016

NECESSIDADE DA PERSEVERANÇA

Qui autem perseveraverit usque in finem, hic salvus erit — “Quem perseverar até o fim, será salvo” (Matth. 24, 13).
Sumário. Meu irmão, puseste agora mãos à obra; começaste a viver bem. Dá por isso graças ao Senhor. Lembra-te, porém, que ao que começa a recompensa é apenas prometida, mas é dada somente ao que persevera até ao fim. Quantos começarem bem, talvez melhor do que tu, mas depois acabaram mal e agora ardem no inferno! Para obteres a perseverança, deves em primeiro lugar pedi-la a Deus, e de teu lado deves empregar os meios mais apropriados.
São muitos os que começam, diz São Jerônimo, mas são poucos os que perseveram. Um Saul, um Judas, um Tertuliano começaram bem, mas acabaram mal, porque não perseveram no bem. Devemos saber, continua o mesmo Santo, que Deus não pede somente o começo de vida boa, mas quer também o fim: o fim é que alcançará a recompensa. — Diz São Boaventura que a coroa se dá somente à perseverança: Sola perseverantia coronatur. Pelo que São Lourenço Justiniani chama a perseverança porta do céu: coeli ianuam. Ora, não poderá entrar no paraíso quem não der com a porta.
Agora, meu irmão, abandonaste o pecado, e crês com razão ter recebido o perdão. És, pois, amigo de Deus; sabe todavia que não estás ainda salvo. E quando estarás salvo? Quando tiveres perseverado até ao fim: Que perseveraverit usque in finem, hic salvus erit. Começaste a viver bem: agradece-o ao Senhor; mas avisa-te São Bernardo que a recompensa celeste é somente prometida ao que principia, mas é somente dada ao que persevera. Não basta olhar só ao fim: é preciso ir após ele até alcançá-lo, segundo a expressão do Apóstolo: Sic currite, ut comprehendatis (1) — “Correi de tal modo que o alcanceis”.
Já meteste a mão ao arado, principiaste a viver bem; mas agora, mais do que nunca, teme e treme: “Empenhai-vos na obra de vossa salvação com temor e tremor” (2), diz o Apóstolo. E por quê? Porque se olhares para trás — o que não permita Deus! — e voltares para a vida de pecado, Deus te declarará excluído do céu: Nemo mittens manum ad aratrum et respiciens retro, aptus est regno Dei (3) — “Nenhum que mete a sua mão ao arado e olha para trás é apto para o reino de Deus”.
A perseverança tão necessária para a salvação é um dom todo gratuito de Deus, que nós nunca podemos merecer. Mas, como ensina Santo Agostinho, obtê-la-ão da misericórdia divina todos os que lh’a pedem e por seu lado empregam os meios próprios para levar uma vida bem ordenada. — Se queres perseverar e salvar-te, freqüenta os santíssimos Sacramentos; faze todos os dias uma meditação e ouve uma santa missa; visita todos os dias a Jesus sacramentado e examina a tua consciência. Tem sobretudo grande devoção a Nossa Senhora, que se chama a Mãe da perseverança. Consagra-te também muitas vezes inteiramente ao Senhor, e dize-Lhe com ternura, especialmente de manhã, antes de te dares às ocupações:
† “Ó Deus eterno, eis-me aqui prostrado em presença de vossa infinita majestade, e adorando-Vos humildemente, consagro-Vos todos os meus pensamentos, palavras e obras deste dia, e tenho tensão de fazer tudo por vosso amor, para vossa glória, para cumprir a vossa divina vontade, para Vos servir, louvar, e bendizer, para ser iluminado acerca dos mistérios de nossa santa fé, para assegurar a minha salvação e esperar na vossa misericórdia, para satisfazer à vossa divina justiça pelos meus muitos e gravíssimos pecados, em sufrágio das almas santas do purgatório e para obter para todos os pecadores a graça de uma verdadeira conversão.
“Numa palavra, tenho a intenção de fazer tudo em união com as intenções puríssimas que em sua vida tiveram Jesus e Maria, todos os santos do céu e todos os justos da terra. Quisera que me fosse possível assinar esta minha intenção com o meu próprio sangue e repeti-la a cada instante tantas vezes, quantos são os instantes de toda a eternidade. Recebei, ó meu Deus amado, esta minha boa vontade; dai-me a vossa santa benção com a graça eficaz de nunca cometer um pecado mortal em toda a minha vida, e particularmente neste dia, no qual desejo e tenciono ganhar todas as indulgências que possa ganhar, e assistir a todas as missas que hoje vão ser celebradas no mundo inteiro, aplicando-as todas em sufrágio das almas santas do purgatório, a fim de que sejam livradas daquelas penas. Assim seja.” (4) (*II 141.)
  1. I Cor. 9, 24.
    2. Phil. 2, 12.
    3. Luc. 9, 62.
    4. Indulg. de 100 dias cada dia, e indulgência plenária para quem a recitar durante um mês inteiro, com tanto que se confesse, comungue e ore segundo as intenções do Sumo Pontífice.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso

domingo, 3 de abril de 2016

EDUCAÇÃO LITÚRGICA

Chama-se Liturgia o culto oficial da Igreja nos seus ritos, nas suas fórmulas, nos seus cânticos. Tem um sentido litúrgico quem compreende este culto e quer tomar parte nele. Importa muitíssimo orientar, bem cedo, as crianças nas formas de devoção seguidas pela Igreja. Numa palavra, é necessário educá-las para a compreensão e participação litúrgica.
Note-se a mãe uma verdade: há na alma infantil um eco para as cerimônias e devoções litúrgicas. Cuide de aproveitá-lo sabiamente. Aqui terá a leitora umas normas largamente traçadas.
A primeira inicação – Um dia o nenêzinho descobre no seu quarto o Crucificado. A mãe lhe disse: É Jesus, filhinho! Ele o repete. Passa depois a lhe dar bom-dia e boa-noite, a lhe atirar beijinhos. Mais tarde o ensina a dizer: perdão, Jesus; não faço mais, quando fez artes, foi manhoso, etc. Vem o sinal da cruz, vem a Mãe do Céu. É bom que a criança veja a mamãe rezando, toda série. Essa seriedade a impressiona, arrasta-a à imitação.
O Natal com o presépio – Não sefala à criança nessa coisa tola e inexpressiva de Papai Noel. Fale-se-lhe singelamente: “Filho, amanhã é aniversário do nascimento do Menino Deus; foi nesse dia que ele veio ao mundo para trazer alegria para todos”. Os presentes sejam motivados por essa alegria. Nós temos o presépio tão instrutivo e atraente para a criança. Para que substituí-lo por uma árvore toda cheia de luzes e presentes, mas sem a poesia dos pastores e carneirinhos, da gruta e de seu boizinho, ao lado da caminha tão pobre do Menino Deus? Como tudo isso enche a alma infantil de poesia e encanto! Aos pés do recém-nascido irá a criança depor seus brinquedos, como presentes ao Menino Deus. Este, por sua vez, mandará a mãe devolvê-los à criança. Já o coração infantil se abriu para o desprendimento.
Enquanto está erguido o presépio, continuam as lições que a mãe dá ao filhinho, contando-lhe a história do nascimento de Jesus, a visita dos pastores, da chegada dos Reis Magos, etc. Depois desarma-se o presépio e eis chegado, dentro de poucas semanas, o
Tempo da Quaresma – A criança vai tomar cinza, já ensinada pela mãe do que se trata. Durante a quaresma ela ouvirá a hstória da paixão de Nosso Senhor, será exercitada em fazer suas pequenas renúncias. Sobretudo a mãe tratará de despertar na alma infantil uma viva compaixão perante os sofrimentos do Salvador. Um domingo – o de ramos – marca o começo de uma semana mais séria, mais quieta, toda cheia de visitas à igreja, de comunhões, de acompanhamento de procissões. Quantos dias cheios de aulas práticas para o coração da criança!
Na igreja, a mãe lhe explica o que significa o altar, a lâmpada, a pia de batismo, o púlpito, o confessionário. Diz-lhe por que o vigário se veste diferente dos outros quando celebra a Santa Missa …
Tempo de Pentecostes e Advento – Vem aí a missão do Espírito Santo, dando ensejo de preparar a criança para o sacramento da crisma. Aparecem as festas de Nossa Senhora, cada uma trazendo o colorido de um fato de sua vida. Passam as festas dos apóstolos – dos chefes da Igreja – favorecendo lições de amor ao sucessor dos apóstolos, ao Papa, em Roma.
Quanta oportunidade para uma mãe esclarecida ir ensinando e formando a alma do filhinho ou do filho já crescido e irriquieto! Quanta razão para dele exigir sacrifícios, pureza e fé!
Os quadros dos santos, as cenas dos Livros Santos são verdadeiros tesouros para a cristã que quer formar um cristão. A criança aprecia tanto as figuras; quer saber de todas as minúcias do quadro e deve receber resposta.
As três chamas do Lar – Pe. Geraldo Pires de Souza

sábado, 2 de abril de 2016

CONFORMIDADE COM A VONTADE DE DEUS A EXEMPLO DE JESUS CRISTO

Descendi de coelo, non ut faciam voluntatem meam, sed voluntatem eius qui misit me — “Eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Io. 6, 38).
Sumário. É tão agradável a Deus o sacrifício da nossa própria vontade, que Jesus Cristo desceu sobre a terra para nos ensinar a maneira de o fazer e em toda a sua vida não fez outra coisa senão dar-nos disso as mais sublimes lições com as suas palavras e com os seus exemplos. Eis, portanto, o que devemos ter em mira em todas as nossas ações: conformar a nossa vontade com a divina, especialmente no que mais repugna ao amor próprio. Vale mais um Bendito seja Deus, dito nas adversidades, do que mil agradecimentos na prosperidade.
É certo que a nossa salvação consiste em amar a Deus, nosso supremo Bem; porque a alma que não O ama, já não vive, mas está morta (1). A perfeição, porém, do amor consiste em conformar a nossa vontade com a divina; pois que, como diz o Aeropagita, o efeito principal do amor é unir as vontades dos que se amam, de sorte que não tenham senão um só coração e uma só vontade.
É isto o que antes de mais nada com as suas palavras e com os seus exemplos veio ensinar-nos Jesus Cristo, que nos foi dado por Deus tanto para ser nosso Salvador como nosso modelo. Pelo que o Apóstolo escreve que as primeiras palavras de Jesus, ao entrar no mundo, foram estas:Ecce venio ut faciam, Deus, voluntatem tuam (2) — “Eis que venho para fazer, ó Deus, a tua vontade”. Meu Deus, recusastes as hóstias e oblações dos homens; não Vos agradaram os holocaustos que Vos ofereciam pelos seus pecados. Quereis que Vos sacrifique morrendo este meu corpo, que Vós mesmo me haveis dado. Eis-me aqui, Senhor, estou pronto para fazer a vossa santíssima vontade.
No correr de sua vida, Jesus Cristo tem manifestado diversas vezes a sua submissão e conformidade de vontade, dizendo: Eu desci do céu não para fazer a minha vontade, senão a d’Aquele que me enviou. Quis que conhecêssemos o grande amor a seu Pai pelo ver ir à morte por obediência à vontade d’Este. Por isso disse aos apóstolos: Para que conheça o mundo que amo ao Pai, e assim como me ordenou o Pai, assim faço: Levantai-vos; vamo-nos d´aqui (3).
Depois no horto de Getsêmani, parece que o Senhor, opresso pelo temor, pelo aborrecimento e pela tristeza, não sabe fazer outra oração senão esta: Meu Pai, não seja como eu quero, mas sim como Tu (4). Meu Pai, se não pode passar este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade(5). — Numa palavra, é tão grande a excelência da conformidade com a vontade de Deus, e Jesus Cristo exige tão rigorosamente que a pratiquemos, que protesta ter por seus discípulos somente aqueles que cumprem a vontade divina (6).
Se agrada tanto o Deus o sacrifício de nossa vontade, que enviou à terra seu próprio Filho para nos ensinar a maneira de a sacrificarmos, tinha razão o santo abade Nilo de dizer que nas nossas orações não devemos pedir a Deus que faça o que nós queremos, mas que nos dê a graça para bem fazermos o que Ele quer. — É a isso que se devem dirigir todos os nossos desejos, devoções, meditações e comunhões: o cumprimento da vontade divina, especialmente naquilo que repugna mais ao nosso amor próprio. Lembremo-nos sempre do que costumava dizer o Bem-aventurado João de Ávila: Um só Bendito seja Deus, nas adversidades, vale mais do que mil agradecimentos na prosperidade.
Toda a minha desgraça, ó meu Deus, foi não querer sujeitar-me no passado à vossa santa vontade. Detesto e amaldiçôo mil vezes esses dias e momentos em que, para seguir a minha vontade, me opus à vossa, ó Deus de minha alma. Eu Vô-la consagro agora sem reserva e quero unir esta minha oferta à que vosso divino Filho fez de si mesmo e continua a fazer sobre os nossos altares. Recebei-a, ó meu Senhor, e ligai-me de tal modo ao vosso amor, que nunca mais me possa revoltar contra Vós.
Amo-Vos, bondade infinita, e pelo amor que Vos tenho me ofereço todo a Vós. Disponde de mim, e de tudo o que me pertence, como Vos aprouver. Resigno-me em tudo à vossa divina vontade. Preservai-me da desgraça de contrariar as vossas disposições, e depois fazei de mim segundo a vossa vontade. Pai Eterno, pelo amor de Jesus Cristo, atendei-me. Meu Jesus, escutai-me pelos merecimentos da vossa Paixão. E vós, o Maria Santíssima, ajudai-me; obtende-me a graça de executar a vontade divina, na qual consiste toda a minha salvação e nada mais de vós desejo. (*III 465.)
  1. 1 Io. 3, 14.
    2. Hebr. 10, 9.
    3. Io. 14, 31.
    4. Matth. 26, 39.
    5. Matth. 26, 42.
    6. Matth. 12, 50.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso

sexta-feira, 1 de abril de 2016

A SIMPLICIDADE

Um dia os Apóstolos discutiam para saber qual deles teria o primeiro lugar no reino dos céus. Tomando então uma criança, Nosso Senhor colocou-a no meio deles, e depois disse: “Em verdade vos digo, se não vos fizerdes semelhantes a esta criança, não entrareis no reino dos céus!”
Que é que mais notamos na criança? Não é a candura, a simplicidade? Ela não tem nenhuma astúcia, diz o que pensa, acredita o que lhe dizem, anda simplesmente, francamente, direitinho. Eis aí o vosso moldelo.
1º – O QUE É A SIMPLICIDADE
Poder-se-ia defini-la: uma virtude pela qual se vai direito a Deus, direto à verdade, direto ao dever.
a)Ir direto a Deus
Quer dizer não ver em tudo senão a Sua santa vontade, sem se preocupar com o juízo dos homens. Tudo por Deus! Ele é o princípio e o fim das nossas ações; deve-se viver como se houvesse só Ele e nós neste mundo. A alma simples vai a Deus “direto como uma bala de canhão“.
b)Ir direto à verdade
Como Nosso Senhor nos ensina quando nos recomenda falarmos assim: “Isto é, isto não é, tudo o que se acrescenta bem do Mau”, deveríeis ter a tal ponto essa franqueza, que a vossa palavra equivalesse a um juramento! É tão belo achar uma pessoa bem franca e ler-lhe toda a alma no olhar claro e límpido!
c) Ir direto ao dever
É sacrificar tudo por Ele. O dever é uma coisa sagrada, é a senha! Deve-se ir a ele através de tudo, e lançar-se nele com toda a alma, com todo o coração, mesmo se o sofrimento ou a dor deverem achar-se no caminho.
d)A alma simples é aberta, leal, cândida
Faz-se amar por todos e em toda parte, porquanto, segundo o pensamento de São Vicente de Paulo, ela não usa nem de finura, nem de astúcia, age simplismente e fala sinceramente, mesmo observando a dicrição que a prudência exige.
A alma simples é cheia de clarividência e de limpidez; vê depressa e vê claro. Não suspeitando nem os artifícios nem as astúcias, desconcerta-os, dissipa-os, e passa através, forte de sua retidão e da sua fraqueza.
A alma simples faz a sua obra arrediamente, desdenhosa do louvor  do arruído, como a roseira que produz sua flor, ao sol sem dúvida, mas longe do mundo e dos seus tumultos.
A alma simples vive tranquila e calma, como o ribeiro no seu leito, deslizando ao longo das ribas; vê-se o céu mirar-se-lhes nas águas. Já não houve, com efeito, quem dissesse ser a simplicidade filha da inocência? ela é também irmã da caridade.
Sede, pois simples:
1 – Nos pensamentos, indo direto ao fim, sem colear, sem procurar enganar os outros nem enganar a vós mesma.
2 – Nas palavras, só dizendo o que tiverdes no coração, e coisa alguma que seja contrária a Deus ou ao próximo, evitando também o que possa enaltecer-vos.
3- Para com Deus: Ide a Ele com um coração desinteresado, que se compraza em amá-lO sobretudo por Ele mesmo; fazei passar este motivo à frente de outros que sejam bons, lícitos e até mesmo recomendados; mostrai-Lhe, porém, a disposição que pressupõe sempre este pedido do Padre-Nosso: “Seja feita a Vossa vontade!”

4- Para com o próximo. Há uma simplicidade ingênua que não é virtude e que atrai as zombarias; a boa simplicidade, que será a vossa, é acompanhada de discernimento e de juízo, mostra-se para com todos franca, sincera, leal, forte de toda a força da verdade, mas nunca esquecendo uma reserva digna.

Mormente nos nossos dias, certas pessoas vêem na simplicidade uma virtude de superfetação, que parece constrangê-las e mesmo diminuí-las. Que erro!
“Se teu olho é simples, disse o Mestre, todo o teu corpo será luminoso“.
Essa virtude porá luz na vossa vida; ela implica a ascensão calma e tranquila da alma para a verdade e para o bem, e mesmo se não se tem de praticá-la, não se pode deixar de admirá-la nos outros.
e) Vantagens que essa virtude proporciona
Eis, pois, uma alma simples, reta; ela tem só uma visão, só um olhar, só uma intenção, só um desejo, só um escopo: Deus e a Sua vontade, isto é, o Dever!
Não tem dois modos de pensar  nem de agir; fala como pensa, o seu procedimento é o mesmo em toda parte e sempre. A sua fé é simples, sem raciocínio nem hesitação. A sua esperança é simples: ela se abandona à divina Providência como uma criança nas mãos de seu pai. Seu amor é simples: ela refere tudo a Deus, amorosamente, candidamente. Não diz: “Que pensarão os homens?”, mas sim: “Que pensará Deus?”
Como é bela essa alma! como é boa! como é grande!
1 – Deus a ama
Porque “é com os simples que Ele gosta de conversar“, a tal ponto que Jesuss, no Evangelho, agradece abertamente a Seu Pai o lhes haver revelado a Sua doutrina, a eles os “pequenos“, de preferência aos sábios e aos prudentes do século.

2- Toda gente a ama
Porque mesmo as naturezas mais falsas são subjugadas pela reta e nobre simplicidade, cujo encanto arrebata e atrai.

3 – Ela é cheia de segurança
Porque há nela confiança, coragem, tranquilidade, intrepidez. Ela segue seu caminho, bem direto, sem temer coisa alguma; ao passo que a alma que vai por caminhos oblíquos tem sempre medo de ser descoberta, de se ver reconhecida e desprezada.

4 – É feliz
Uma alma simples recebe muitas graças e luzes; vai à verdade, ao bem, ao dever, facilmente, nobremente, com todas as veras. E, quando Deus a chama a Si, ela morre como viveu, simplesmente.

2º – INIMIGOS DA SIMPLICIDADE
a) Vaidade
É este um inimigo perigoso das jovens. Cativa-as por suas bagatelas, torna-as inaptas para as mais nobres aspirações, e desvia do bem, não raro do dever, aquelas que a ela se deixam arrastas. Muitas poucas almas se elevam até ao orgulho, a maior parte vegeta numa tola e oca vaidade.
Comprazem-se em si mesmas, nos seus talentos, nas suas qualidades. Achamo-las em adoração perpétua diante da sua pessoínha, enquanto uma garridíce não raro requintada as impede de agradar aos outros.
Alphonse Karr disse:
“Para muitas mulheres, a religião consiste em ir à missa no domingo, para mostrar o vestido e criticar os vestidos das outras”.Esta reflexão mordaz não parecerá injusta a todas.
Beleza, vestidos, talentos, “toilettes”, tudo isso bem pouco é. Infelizmente essas “vaidades” se tornam com freqüência preocupações estorvantes, que perseguem a donzela até aos pés dos altares. Quanta pequenez há, pois, nessa procura exagerada do enfeite! que falta de simplicidade também!
Tomai uma bela rosa que desabrocha no meio de um canteiro, e, no pretexto de torná-la ainda mais bela, guarnecei-a de fitas, de lentejouras, e vertei-lhe na corola um perfume precioso. Que tereis feito? … tereis estragado uma coisa bem fresca, e lhe tereis tirado a sua verdadeira beleza.
Aplicai a comparação a vós mesma.
Em plena juventude, nessa hora matinal da vossa vida em que ainda tendes as frescuras da primavera, buscar fora o exagero de certos ornamentos não é confessar que as graças recebidas da natureza não vos bastam? não é querer tomar emprestado à arte garridices que vos afeiam, e muitas vezes cair numa extravagância ridícula?
Deixai a rosa florescer e embalsamar o jardim; e vós,tende a simplicidade de ficar sendo vós mesma.
b) Mentira
Uma coisa está no direito de impressionar um observador atento: a honestidade mais elementar impede de pagar uma compra com moeda falsa, corar-se-ia disso; e entretanto por um nada, nas relações sociais, dar-se-á a mentira em lugar da verdade.
Um prelado escreve:
“O que prova o quanto a mentira é feia é não haver nada de que se tenha vergonha em igual grau. A confusão suprema consiste em ser pegado em flagrante delito de mentira. A mentira é o pecado dos fracos, dos que, para se safarem do embaraço, para se defenderem ou se vingarem, só têm esse processo hipócrita, injusto, caviloso, essa tenebrosa covardia equívoca, oblíqua, que rasteja na sombra, que se mascara e abusa da confiança de um próximo por demais leal para suspeitar tal baixeza e não se deixar enganar. 

Deixai para outras almas menos corajosas, e menos delicadas do que as vossas, todas as ‘mentiras de necessidade’, mentiras alegres ou oficiosas que, ao mal que se faz em enganar o próximo, acrescentam o mal não menor de enganar a própria consciência. É dar prova de um caráter bem pequeno o não ter a coragem daquilo que se pensa, ou daquilo que se quer, ou daquilo que se faz. É coisa baixa e vil, quando se fala, não ousar fazê-lo conformemente ao próprio pensamento … Nunca uma jovem pode enveredar pela trilha da desonra a não ser pisando antes a verdade. Aquele que é bastante desgradado para mentir, por isso mesmo é capaz de todas as vilanias.

Determinando-o o temor dos homens a fazer, por sua mentira, injúrias à verdade, à sua consciência e a Deus, doravante nada mais pode retê-lo no declive do mal, de vez que ele achou meios de escapar aos homens com desprezar a Deus, a consciência e a verdade!”

Estremecei, pois, a verdade, a lealdade, a franqueza e a simplicidade. Não tenhais medo de dizer sim, se é sim, e não, se é não; a menos que, sem o deixardes parecer nem trairdes uma justa reserva, necessário se torne saberdes guardar para vós o vosso pensamento.
A limpidez das vossas palavras será, ordinariamente, o melhor testemunho da limpidez do vosso coração aos olhos de Deus.
Há a mentira vaidosa, inspirada pelo desejo de se pôr logo na frente para atrair a atenção dos outros.
Há a mentira gabola, em que a pessoa inventa relatos nos quais, naturalmente, dá a si o lugar de honra.
Há a mentira interesseira, tão depressa achada por quem quer descupar-se, escusar-se ou sair do embaraço para evitar uma humilhação ou uma punição.
Há enfim, a mentira perniciosa, que procura positivamente prejudicar os outros.
Isso são vulnerações da retidão da consciência e da retidão moral, que é uma das primeiras formas da honestidade. Quando não puderdes dizer toda a verdade, jamais digais coisa alguma que lhe seja contrário.
Lembrai-vos sempre de que:
1º – A mentira é a arma dos fracos; a criança a ela recorre espontaneamente quando acredita poder com isso evitar algum aborrecimento.
2º – A mentira vos tornaria desprezível, porque é uma vilania.
3º – Ser pegado em flagrante delito de mentira é uma das piores humilhações que vos possam suceder.
4º – Sois filha d’Aquele que disse: “A Verdade, sou eu!” Quanto ao demônio, deram-lhe o nome de pai da mentira!

c) Hipocrisia
Dizer de alguém que é hipócrita é fazer-lhe a injúria mais cruenta. Vimos, mais acima, o quanto a mentira é alvitante. Pela hipocrisia mente-se de maneira particularmente odiosa, pois se oculta a própria malícia, que se coloreia de todas as aparências da virtude. Onde quer que ela reine, tudo é falso. Em vendo uma donzela escrava desse vício, diríeis uma santinha; mas devassai os mil estratagemas de que ela serve para enganar, que acharíeis? uma alma baixa, vil, má, um sepulcro caiado!
Esquadrinhai bem os folhos e os refolhos da vossa consciência, e vede se não tendes nada desse mal; do contrário, mister seria extirpar-lhe até o último germe, pois ele só vos cobre de uma virtude de empréstimo para não deixar perceber o vosso orgulho!
Aos olhos de todos parecei, pois, o que sóis na realidade. Tende a franqueza de mostrar-vos tal qual sois! Não podeis enganar a Deus; quanto ao próximo, não o enganareis muito tempo. Olham-vos, sois encantadora; reviram-vos, perscrutam-vos, sois terrível! Pareceis-vos com essas águas tranquilas que a gente mal sente correrem, mas que escondem profundezas onde a gente se afoga! 
Não; rasgai essas máscara vós mesma, se não quiserdes que Deus venha fazê-lo com mão forte, ou que sobrevenha um incidente que ostente aos olhos de todos a vossa alma negra e os vossos vícios floridos.
d) Moça “modern style”
Um moço muito mundano respondia a uma senhora que lhe propunha em casamento uma jovem “estilo moderno”: “Só me casarei com uma mulher que seja mui simplesmente mulher.”
Não faltam moças atormentadas pelo desejo extravagante de serem “modernas”, de serem “do seu tempo“! Palavras ridículas, fórmulas ocas, frases sonoras, que mal encobrem uma tendência para a insubordinação, para a frivolidade, para a dissipação, para o gênero “garçonnier”.
Acaso não se ouve nos nossos dias umas doudivanas vos dizerem francamente: Tenho vinte anos, quero trabalhar com minhas mãos, mas não como se ensina às moças! cozinhar, fazer doces, cuidar da casa! Não! não! Quero viver livre e fazer meu caminho na vida como um homem! Eu, não quero me casar;porque casar é ser escrava, e eu sou livre!…

Pobres loucas! ao invés de partides para a conquista dos “direitos da mulher”, tão decepcionantes, senão mais, do que os direitos do homem, reivindicai para vós o direito de servir e de vos dedicardes. Foi para isso que Deus criou a mulher esposa e mãe!
A formação da donzela – Pe. J. Baeteman

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