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terça-feira, 24 de julho de 2018

DESEJO DE JESUS DE SOFRER POR NÓS


Baptismo habeo baptizari: et quomodo coarctor, usque dum perficiatur? – “Tenho de ser batizado com um batismo: e quão grande não é a minha ansiedade até que ele se cumpra” (Luc. 12, 50).
Sumário. Sendo o sofrimento suportado pela pessoa amada a prova mais patente do amor, e o que mais cativa o amor da pessoa amada, nosso Senhor suspirou em todo o correr de sua vida pelo dia em que havia de ser batizado com o seu próprio sangue. Na véspera da sua Paixão foi ele mesmo ao encontro dos seus inimigos, como se viessem para o levarem, não ao suplício, mas à posse de um grande reino. Ó amor imenso de Jesus! E todavia, este amor é tão mal correspondido pela maior parte dos homens!
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É excessivamente terna, amorosa e constrangedora a declaração que o nosso Redentor fez acerca dos motivos da sua vinda à terra, quando disse que tinha vindo para acender nas almas o fogo do divino amor, e que tinha o vivíssimo desejo de ver esta santa chama acender-se em todos os corações dos homens: Ignem veni mittere in terram, et quid volo nisi ut accendatur?(1)
E porque o padecer pela pessoa amada patenteia melhor o amor do objeto amado, Jesus Cristo logo em seguida acrescentou que esperava ser batizado com o batismo do seu próprio sangue, afim de lavar os nossos pecados, pelos quais tinha vindo satisfazer com as suas penas: Baptismo habeo baptizari. Para nos fazer compreender todo o ardor do desejo que tinha de morrer por nós, disse, com as mais doces expressões de amor, que experimentava vivas ânsias pela chegada do tempo em que devia cumprir-se a sua Paixão: Et quomodo coarctor usque dum perficiatur!
Mas ouçamos o que disse o Senhor na noite bem-aventurada que precedeu a sua Paixão, na véspera de ser sacrificado sobre o altar da cruz: “Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco” – Desiderio desideravi hoc pascha manducare vobiscum (2). São Lourenço Justiniano, meditando nestas palavras, diz que elas foram todas expressões de amor. É como se nosso amável Redentor tivesse dito: Homens, sabei que esta noite começará a minha paixão e o tempo de minha vida pelo qual tenho suspirado mais, porque é agora que pelos meus padecimentos e pela minha morte cruel vos farei conhecer quanto vos amo, e assim vos obrigarei, o mais que me é possível, a me amardes. – Um autor diz que na Paixão de Jesus a onipotência divina se uniu com o amor. O amor quis amar o homem com toda a extensão da onipotência e a onipotência quis secundar o amor em toda a extensão de seu desejo.
O desejo que tinha Jesus de sofrer por nós foi tão grande que, na noite que precedeu a sua morte, não somente foi por sua livre vontade ao horto, onde sabia que os judeus haviam de o vir prender; mas ainda, sabendo que o traidor Judas se aproximava acompanhado dos soldados, disse a seus discípulos: Levantai-vos, vamos; eis aí que se aproxima o que me entregará: Surgite; eamus: ecce qui me tradet, prope est(3).
Estando já pregado na cruz, Jesus disse que tinha sede: Sitio. Com esta palavra, na explicação de Santo Tomás com São Lourenço Justiniano, nosso divino Salvador quis manifestar-nos menos a sede do seu corpo, que o desejo que tinha de padecer por nós, mostrando-nos por tantos sofrimentos o seu amor, juntamente com o desejo de ser amado por nós.
Ó Deus, abrasado em amor pelos homens, que podíeis dizer e fazer mais, para me por na necessidade de Vos amar? E que vantagem podia trazer-Vos o meu amor, se para o obter quisestes morrer e tanto suspirastes pela vossa morte? Se um dos meus servos houvesse somente desejado morrer por mim, teria ele adquirido o meu amor; e poderei viver sem Vos amar de todo o meu coração, a Vós, meu Rei e meu Deus, que morrestes por mim, e tanto desejastes morrer a fim de conquistar o meu amor?
Ó meu amabilíssimo Redentor, não quero mais resistir às finezas do vosso amor; eu Vos dou todo o meu amor. Entre todas as coisas, Vós sois e haveis de ser sempre o único bem amado de minha alma. Vós vos fizestes homem para terdes uma vida a dar por mim; eu queria ter mil vidas a sacrificar por Vós. Amo-Vos, bondade infinita, e quero amar-Vos com todas as minhas forças. Quero fazer tudo quanto possa para Vos agradar. Fortalecei, ó meu Jesus, este desejo que Vós mesmo me inspirais. Fazei-o pelo amor da vossa e minha querida Mãe, Maria. (*I 551.)
  1. Luc. 12, 49.
    2. Luc. 22, 15.
    3. Marc. 14, 52.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso

sexta-feira, 30 de março de 2018

SEXTA-FEIRA SANTA – MEDITAÇÃO PARA A TARDE


Sexta Dor de Maria Santíssima – Jesus é descido da Cruz.
Ioseph, deponens eum, involvit sindone — “José, depondo-O da cruz, O amortalhou no sudário” (Marc. 15, 46).
Sumário. Consideremos como, depois da morte do Senhor, dois dos seus discípulos, José e Nicodemos, o descem da cruz e O depõem nos braços da aflita Mãe, que com ternura O recebe e O aperta contra o peito. Se Maria fosse ainda capaz de dor, que pena sentiria vendo que os homens, tendo visto seu Filho morto por amor deles, continuam a maltratá-Lo com os seus pecados? Não atormentemos mais a nossa aflita mãe, e se pelo passado nós também a temos afligido com as nossas culpas, voltemos arrependidos ao Coração aberto de seu Jesus.
I. Temendo a Mãe dolorosa, que depois do ultraje da lançada outras injúrias fossem feitas a seu amado Filho, pede a José de Arimatéia, obtivesse de Pilatos o corpo de seu Jesus, a fim de que ao menos morto O pudesse guardar e livrar dos ultrajes. Foi José ter com Pilatos e expôs-Lhe a dor e o desejo da aflita Mãe, e diz Santo Anselmo que a compaixão para com ela enterneceu Pilatos e o moveu a conceder-lhe o corpo do Salvador.
Eis que descem Jesus da cruz. Foi revelado a Santa Brígida, que para o descimento encostaram à cruz três escadas. Primeiro, os santos discípulos despregaram as mãos e depois os pés, e os cravos foram entregues a Maria, como refere Metaphrastes. Depois, segurando um o corpo de Jesus por cima, e outro por baixo, o desceram da cruz. Bernardino de Bustis medita como a aflita Mãe se levanta sobre as pontas dos pés, e, estendendo os braços, vai receber o querido Filho; abraça-O e depois senta-se debaixo da cruz.
Vê a boca aberta e os olhos escurecidos; examina aquelas carnes dilaceradas, aqueles ossos descarnados; tira-Lhe a coroa e examina o estrago feito pelos espinhos naquela santa cabeça; observa as mãos e os pés traspassados, e diz: Ah, meu Filho! A que estado te reduziu o amor para com os homens! Que mal lhes fizeste para assim te maltratarem? Ah! Meu Filho, vê como estou aflita, olha-me e consola-me; mas já não me vês. Fala, dize-me uma palavra e consola-me; mas já não falas, porque estás morto… Ó espinhos cruéis, cravos atrozes, bárbara lança, como pudestes atormentar assim o vosso Criador? Mas, que espinhos, que cravos! Ah, pecadores, exclamava, assim tendes maltratado o meu Filho!
II. Ó Virgem Santíssima, depois que vós com tanto amor destes ao mundo o vosso Filho para a nossa salvação, eis que o mundo já vo-Lo restitui. — Mas, ó Deus! Como mo restituis tu? Dizia então Maria ao mundo. Dilectus meus candidus et rubicundus (1). Meu Filho era branco e vermelho, não pela cor, mas pelas chagas que Lhe tens aberto. Ele era belo, agora, em vez de belo, é todo deforme; Ele encantava com o seu aspecto, agora causa horror a quem O vê.
Assim se expressava então Maria e se queixava de nós. Mas se agora fosse ainda capaz de dor, que diria? E que pena sentiria, ao ver que os homens, depois da morte de seu Filho, continuam a maltratá-Lo e crucificá-Lo com os seus pecados? Não continuemos, pois, a atormentar esta dolorosa Mãe, e se pelo passado nós também a temos afligido com as nossas culpas, façamos o que ela mesma nos diz: Redite, praevaricatores, ad cor (2): Pecadores, voltai ao Coração ferido de meu Jesus; voltai arrependidos, e Ele vos acolherá. — Revelou a mesma Bem-aventurada Virgem a Santa Brígida, que ao Filho descido da cruz ela fechou os olhos, mas não pode fechar-Lhe os braços, dando com isso Jesus Cristo a entender que queria ficar com os braços abertos, para acolher todos os pecadores arrependidos, que voltam para Ele.
Ó Virgem dolorosa, ó alma grande nas virtudes e grande também nas dores, pois que tanto estas como aquelas nascem do grande incêndio de amor que tendes a Deus. Ah, minha Mãe! Tende piedade de mim, que não tenho amado a Deus e O tenho ofendido. As vossas dores me dão grande confiança para esperar o perdão. Mas isto não me basta; quero também amar o meu Senhor, e quem me pode alcançar isto melhor do que vós, que sois a Mãe do belo amor? Ah Maria! Vós consolais a todos; consolai-me também a mim. (*I 249.)
  1. Cant. 5, 10.
    2. Is. 46, 8.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso

quinta-feira, 29 de março de 2018

SEXTA-FEIRA SANTA – MEDITAÇÃO PARA A MANHÃ



Morte de Jesus.
Et inclinato capite, tradidit spiritum — “E inclinando a cabeça, rendeu o espírito” (Io. 19, 30).
Sumário. Contempla como depois de três horas de agonia, pela veemência das dores, as forças faltam a Jesus; entrega o corpo ao próprio peso, deixa cair a cabeça sobre o peito, abre a boca e expira. Alma cristã, dize-me: não merece porventura todo o nosso amor um Deus que, para nos salvar da morte eterna, quis morrer no meio dos mais atrozes tormentos? Todavia, como são poucos os que amam e muitos os que, em vez de O amarem, Lhe pagam com injúrias e ultrajes.
I. Considera que o nosso amável Redentor é chegado ao fim da sua vida. Amortecem-se-Lhe os olhos, o seu belo rosto empalidece, o coração palpita debilmente, e todo o sagrado corpo é lentamente invadido pela morte. Vinde, anjos do céu, vinde assistir a morte do vosso Deus. Vós, ó Mãe dolorosa, Maria, chegai-vos mais próxima à cruz, levantai os olhos para vosso Filho, e contemplai-O atentamente, porque está prestes a expirar.
Pater, in manus tuas commendo spiritum meum (1) — “Pai em vossas mãos entrego o meu espírito”. É esta a última palavra que Jesus profere com confiança filial e perfeita resignação com a vontade divina. Foi como se dissesse: Meu Pai, não tenho vontade própria; não quero nem viver nem morrer. Se é vossa vontade que eu continue a padecer sobre a cruz, eis-me aqui, estou pronto para obedecer; em vossas mãos entrego o meu espírito; fazei de mim segundo a vossa vontade. — Tomara que nós disséssemos o mesmo, quando temos alguma cruz, deixando-nos guiar pelo Senhor, conforme o seu agrado. Tomara que o repetíssemos especialmente no momento da morte! Mas para bem o fazermos então, devemos praticá-lo muitas vezes em nossa vida.
Entretanto, Jesus chama a morte, que por deferência não ousava aproximar-se do autor da vida, e lhe dá licença para lhe tirar a vida. E eis que finalmente, enquanto treme a terra, se abrem os túmulos e se rasga o véu do templo, eis que pela veemência da dor faltam as forças ao Senhor moribundo, baixa o calor natural, falha a respiração. Jesus abandona o corpo ao próprio peso, deixa cair a cabeça sobre o peito, abre a boca e expira: Et inclinato capite, tradidit spiritum (2). — Parti, ó bela alma do meu Salvador, parti e ide nos abrir o paraíso, fechado até agora, ide apresentar-Vos à Majestade divina, e alcançai-nos o perdão e a salvação.
As pessoas presentes, voltadas para Jesus Cristo, por causa da força com que proferiu as suas últimas palavras, contemplam-No com atenção silenciosa, vêem-No expirar, e notando que não se move mais, dizem: Morreu, morreu. Maria ouve que todos o dizem, e ela também exclama: Ah, Filho meu, já morreste; estais morto.
II. Morreu! Ó Deus! Quem é que morreu? O Autor da vida, o Unigênito de Deus, o Senhor do mundo. Ó morte, que fizeste pasmar o céu e a natureza! Um Deus morrer pelas suas criaturas! — Vem, minha alma, levanta os olhos e contempla esse Homem crucificado. Contempla o Cordeiro divino já imolado sobre o altar da dor; lembra-te de que Ele é o Filho dileto do pai Eterno, e que morreu pelo amor que te tem dedicado. Vê esses braços abertos para te acolherem; a cabeça inclinada para te dar o ósculo de paz; o lado aberto para te receber. Que dizes? Não merece ser amado um Deus tão bom e tão amoroso? Ouve o que do alto de sua cruz te diz o Senhor: Meu Filho, vê se há alguém no mundo que te tenha amado mais do que eu, teu Deus!
Ah meu Jesus, já que para minha salvação não poupastes a vossa própria pessoa, lançai sobre mim esse olhar afetuoso com que me olhastes um dia, quando estáveis em agonia sobre a cruz; olhai-me, iluminai-me, e perdoai-me. Perdoai-me em particular a ingratidão que tive para convosco no passado, pensando tão pouco na vossa paixão e no amor que nela me haveis mostrado. Dou-Vos graças pela luz que me concedeis de compreender através de vossas chagas e de vossos membros dilacerados, como por entre umas grades, o afeto tão grande e tão terno que ainda guardais para comigo.
Ai de mim, se depois de receber estas luzes deixasse de Vos amar, ou amasse outra coisa que não a Vós. Morra eu, assim Vos direi com São Francisco de Assis, morra eu por amor de vosso amor, ó meu Jesus, que Vos dignastes morrer por amor de meu amor. Ó Coração aberto de meu Redentor, ó morada feliz das almas amantes, não Vos dedigneis receber agora minha misera alma.
Ó Maria, ó Mãe de dores, recomendai-me a vosso Filho, a quem vedes morto sobre a cruz. Vede as suas carnes dilaceradas, vede o seu Sangue divino derramado por mim, e conclui disto quanto lhe agrada que lhe recomendeis a minha salvação. A minha salvação consiste em que eu O ame, e este amor vós mo deveis impetrar, mas um amor grande, um amor eterno. (*I 623)
  1. Luc. 23, 46.
    2. Io. 19, 30.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso

A Paixão de Jesus Cristo, nossa Consolação



Recogitate eum qui talem sustinuit a peccatoribus adversum semetipsum contradictionem, ut ne fatigemini, animis vestris deficientes – “Não deixeis de pensar naquele que dos pecadores suportou contra si uma tal contradição; para que não vos fatigueis, desfalecendo em vossos ânimos” (Hb 12, 3)
Sumário. O Senhor chama com razão a si todos aqueles que sofrem e gemem sob o peso das tribulações; porque neste vale de lágrimas ninguém nos pode consolar tanto como Jesus crucificado. Em todas as perseguições, calúnias, desprezos, enfermidades, misérias, especialmente em vendo-nos opressos pelos sofrimentos e abandonados por todos, lancemos um olhar sobre a cruz de Jesus, lembremo-nos do muito que Ele sofreu por nós, unamos os nossos sofrimentos aos de Jesus e teremos achado o remédio mais eficaz para todos os nossos males.
I. Neste vale de lágrimas, quem nos pode consolar melhor do que Jesus crucificado? Nos remorsos de consciência, suscitados pela lembrança de nossos pecados que poderá melhor suavizar as nossas angústias, do que a certeza de que Jesus Cristo se quis entregar à morte a fim de satisfazer pelas nossas culpas? Dedit semetipsum pro peccatis nostris — “(Jesus) se deu a si mesmo pelos nossos pecados” (1). Em todas as perseguições, calúnias, desprezos, privações de bens e dignidades que nos sobrevêm na nossa vida, quem nos poderá melhor fortalecer, para sofrermos com paciência e resignação, do que Jesus Cristo desprezado, caluniado e pobre, que morre numa cruz nu e abandonado por todos?
Quando estamos doentes, deitamo-nos numa cama bem arranjada; quando, porém, Jesus estava enfermo na cruz na qual morreu, não teve outro leito senão um rude lenho, em que foi pregado com três cravos; nem teve outro travesseiro senão a coroa de espinhos, que continuou a atormentá-lo até ao último suspiro. Quando estamos doentes, vemos o leito rodeado de parentes e amigos, que se compadecem de nós, e nos procuram distrair; Jesus morreu cercado de inimigos, que ainda na hora da sua agonia e da morte já próxima o injuriavam e escarneciam como a um malfeitor e sedutor.
Nada consola tanto um enfermo nas dores que sofre, especialmente quando na sua enfermidade se vê abandonado por todos os mais, como a vista de Jesus crucificado. Ah! O alívio maior que então pode experimentar um pobre enfermo, é unir os próprios sofrimentos aos de Jesus Cristo. — Ainda nas angústias mais acerbas da morte, tais como os assaltos do inferno, a vista dos pecados cometidos e as contas que em breve se terá que dar ao Juiz divino, a única consolação que pode haver um moribundo, já nas vascas da morte, é abraçar o Crucifixo e dizer: Meu Jesus e meu Redentor, Vós sois o meu amor e a minha esperança.
II. Toda a verdadeira consolação que podemos desejar, todas as graças que Deus nos concede, todas as luzes, inspirações, santos desejos, bons afetos, dor dos pecados, bons propósitos, amor de Deus, esperança do céu: todos estes bens são frutos e dons que nos veem da Paixão de Jesus Cristo. Pelo que São Boaventura nos anima dizendo que “aquele que se aplica a meditar com devoção na vida e paixão santíssima do Senhor, acha ali tudo de que precisa; e nada terá que buscar fora de Jesus”. E Santo Agostinho acrescenta que para obtermos graças celestes especiais vale mais uma só lágrima derramada em memória da Paixão do Senhor, do que uma peregrinação a Jerusalém e um ano de jejum a pão e água.
Mas quem mais ânimo nos inspira, é nosso divino Redentor: Venite ad me omnes, qui laboratis et onerati estis; et ego reficiam vos (2) — “Vinde a mim todos os que vos achais em sofrimentos e sobrecarregados; e eu vos aliviarei”. Meus queridos filhos, diz Jesus, vós que gemeis sob o peso das culpas próprias e sois combatidos pela concupiscência e corrupção do homem velho, ah! Não percais o ânimo. Chegai-vos à minha cruz, recorrei a mim e eu vos livrarei de todo o mal; persuadi-vos de que em nenhuma parte achareis remédio tão eficaz, como na meditação de minhas chagas.
Ó meu Jesus, que esperança me poderia restar, a mim, que tantas vezes Vos voltei as costas e mereci o inferno? Que esperança poderia ainda nutrir, de um dia, entre tantas virgens inocentes, entre tantos santos mártires, entre os apóstolos e serafins, ir gozar no céu de vossa bela face, se Vós, meu Salvador, não tivésseis morrido por mim? É a vossa Paixão que, apesar dos meus pecados, me faz esperar de um dia ir na companhia dos Santos e de vossa santíssima Mãe, cantar as vossas misericórdias, agradecer-Vos e amar-Vos para sempre no paraíso. Meu Jesus, assim espero. Misericordias Domini in aeternum cantabo (3) — “Eu cantarei eternamente as misericórdias do Senhor”.
— Ó Maria, Mãe de Deus, rogai a Jesus por mim.
Referências:
(1) Gl 1, 4
(2) Mt 11, 28
(3) Sl 88, 2

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 329-331)

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

É por amor nosso e por causa do pecado que Jesus foi coberto de chagas



Capítulo XXV

Ipse autem vulneratus est propter iniquitates nostras, attritus est propter scelera nostra – “Foi coberto de chagas por causa de nossas iniquidades; foi dilacerado para expiar os nossos crimes” (Is 53, 5)
O mínimo tormento sofrido por nosso Salvador era seguramente mais que suficiente para satisfazer à justiça de Deus, e apagar os pecados do mundo: mas o amor que nos tinha não se pôde contentar com isso. Afim de expiar os nossos crimes e até para nos provar a grandeza da sua ternura para conosco, o nosso Redentor quis ser, na frase de Isaías, vulneratus e attribus, isto é, coberto de chagas desde os pés até à cabeça, de tal sorte que o seu adorável corpo não oferecia parte alguma sã. Assim Isaías o compara a um leproso: Et dos putavimus eum quasi leprosum, et percussum a Deo et humilhatum (Is 53, 4).
Quando com os olhos da fé se considera Jesus todo coberto de chagas, quando se contempla o seu corpo horrivelmente rasgado e a cair em pedaços ensanguentados, é fácil compreender quão grande é o amor deste divino Salvador por nós.
Ó homem, exclama Santo Agostinho, reconhece quanto vales, aprende que reconhecimento não deves ao teu Deus; aprende qual é a tua dignidade pelo que lhe custou a resgatar-te: vê agora quão infame seria ultraja-lo ainda com teus pecados; sabe pôr um freio às tuas paixões e um termo ás tuas desordens.
Jesus foi despedaçado para expiar os meus crimes. Jesus, o inocente Jesus, do pecado não tinha mais do que a aparência; e ainda assim a justiça do seu divino Pai pesou sobre ele, e ei-lo despedaçado pelos golpes, coroado de espinhos, pregado num infame patíbulo.
“Ó céu! Se assim se trata o pau verde, que será do seco?”
Que será de mim, pobre pecador; de mim cujas inumeráveis iniquidades se amontoaram todas sobre a minha cabeça; de mim, que até ao presente só vivi para vos ofender, meu Deus?… Ó Jesus, misericordioso Jesus, tende piedade de mim!
“Jesus foi despedaçado para expiar os meus crimes”
Deu-me este bom Mestre uma excelente lição: ensinou-me por tão horrendos tormentos que o pecado não podia ficar impune; é necessário que seja punido ou pelo pecador, ou pelo próprio Deus! Se choro os pecados que cometi, se deles faço penitencia, se exerço contra mim mesmo uma santa cólera, dou-lhes a punição que merecem; se, porém, eu mesmo não quero punir por este modo, Deus, que será o meu juiz, os punirá. Mas, desgraçado de mim! porque “é terrível cair nas mãos de Deus vivo”. Para evitar a desgraça de ser apresentado com uma alma manchada de crimes a esse juiz formidando, desde hoje devo trabalhar e os apagar por uma séria penitencia e marchar sobre os vestígios do meu Salvador. Mas, ó vergonha! A vida de Jesus Cristo foi um sofrimento contínuo, a minha passa-se nos cômodos e doçuras do repouso! Acaso ignorava eu até agora a necessidade em que estou de fazer penitencia neste mundo, ou faze-la no outro, no meio das chamas do inferno? Não sabia, porventura, que um pecador não pode ir ao céu senão pelas tribulações e sofrimento? Que é isto! Jesus chorou as minhas iniquidades, e eu não as chorarei! Ah! Tal não será, gemerei sobre tantos pecados que desde minha tenra infância cometi; castigarei o meu corpo; mortificar-me-ei sem cessar, e nas minhas penitencias irei cobrar alento na penitencia de Jesus e de todos os santos. Imitarei David que, já assegurado do perdão das suas faltas gemia continuamente; como ele, a lembrança de haver perdido a graça do meu Deus, dia e noite me fará derramar torrentes de lágrimas; como ele, sempre terei presente a meu espírito os pecados da minha vida; como ele, enfim, direi a todo instante:
“Senhor, esquecei os pecados da minha mocidade”
Meu Deus! que diferença acho entre o meu modo de obrar e o proceder dos santos? Pedro não peca mais que uma vez, e chora sempre; eu peco frequentemente, e não choro nunca. Um santo solitário dizia:
“Em qualquer lugar que esteja, não vejo senão os meus pecados; olho-me como uma vitima do inferno onde vejo uma infinidade de almas menos culpáveis do que eu; atiro-me então por terra, suspiro, choro diante do meu Juiz”
E eu penso apenas neste inferno, que tenho merecido, e nada faço para lá não cair. Todos os santos procuram pelos rigores da penitencia expiar os seus pecados: “uns submetiam-se ás chufas, aos açoites, ás prisões; eram outros serrados, lapidados; passaram por ferro e fogo e foram entregues à morte; aqueles outros internaram-se em medonhos desertos”: e eu de tudo isto não faço nada, nada sofro. Pobre e desafortunado de mim! Qual é a meta que me proponho tocar? É para o céu, para esse belo céu, que eles tão caro compraram, que eu dirijo a minha carreira? Sim… Pois bem! Devo tomar como eles o verdadeiro caminho; é estreito, o meu Mestre já m’o advertiu: Arcta est via quae ducit ad vitam. Devo, como eles, chorar as minhas iniquidades passadas; devo implorar o perdão delas, não algumas semanas somente, não alguns meses, mas toda a minha viva. Ai! Quem sabe se o meu Deus me perdoou? Quem sabe se o meu Pai do céu me restituiu o vestido da minha inocência? Espero-o da sua misericórdia, porém certeza não tenho. Devo, pois, sempre fazer penitencia, chorar sempre: e ainda mesmo que um anjo do céu viesse anunciar-me da parte de Deus que os meus pecados me estão perdoados, deveria ainda assim chorar à vista das chagas de que cobriam o meu divino Salvador. Mas estas chagas do meu Jesus não me conduzirão somente à penitencia e ao arrependimento dos meus pecados, excitar-me-ão ainda à confiança e ao amor. Nestas chagas ir-me-ei refugiar, para ai achar um doce repouso. Ai estarei tanto mais ao abrigo de todo o perigo quanto Jesus é mais potente para me salvar. Brama o mundo em volta de mim, faz-me o corpo uma guerra de morte, cerca-me o demônio de seus laços? não cairei, porque estou apoiado sobre Jesus. Cai na desgraça de cometer algum grande pecado, e acha-se perturbada a minha consciência? não me abandonarei ao desespero, porque me recordarei das chagas do meu Senhor. Que mal será tão incurável que não possa ser curado pela morte de um Deus? No meio de minhas misérias espirituais lançarei um olhar sobre as chagas de Jesus, e a vista de um tão poderoso remédio me restituirá a paz e a confiança.
Ó alma minha! Tu que és tão fraca, tão pobre, tão lânguida, vai lançar-te nos braços do teu bom Mestre; porque ele é tudo para ti; nele possuis todas as coisas. Queres curar as profundas chagas que te abriu o pecado, ele é o teu medico; estás vergada ao peso de tuas iniquidades, ele é a justiça e a santidade; tens necessidade de socorros entre os teus inimigos, ele é a força e o poder; queres ir para o céu, ele é o caminho; foges das trevas, é a luz; procuras alimento, ele mesmo é o sustento que te pode conservar a vida. Sim, minha alma, em Jesus Cristo acharás tudo; será a tua ancora e a tua força, e se quando te vires atacada do lobo infernal, fores fiel em te ocultares nas suas chagas, infalivelmente te protegerá contra ele, e sairás vitoriosa da luta.
Ó meu bom amado Jesus! Porque estais vós tão coberto de chagas lívidas e ensanguentadas? Quem vos pôs num tão miserável estado? Ah! Compreendo-vos: são meus pecados que dilacerara o vosso adorável corpo; são eles que cravaram essa coroa de espinhos sobre vossa cabeça. Ó bom Jesus! A que excessos vos levou o amor por nós? Era a mim que a pena era devida por minhas iniquidades, e vós sois que a levais! Fazei-me a graça de sofrer alguma coisa neste mundo por vós para reconhecer uma ternura tão excessiva: dai-me a graça de me mortificar, de me desprezar, de me humilhar em todos os recontros, e de nada omitir para vos provar que não sou um ingrato. À vista do que tanto sofrestes por mim, não posso viver sem sofrimentos. Feri, Senhor, feri neste mundo, mas perdoai-me na eternidade. Vulnerai o meu pobre coração, vulnerai-a com as setas do vosso amor! Sofra, sim, mas amei-vos. Sim, amei-vos, Deus meu, faça-vos amar sempre, sempre, sempre! Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS

Amor da Solidão

Hoje, meu caro Teótimo, toma e conserva toda a tua vida o santo habito de te retirar frequente¬mente em espírito ás chagas de nosso Senhor, e principalmente ao seu sagrado Coração. Nele faze uma solidão para onde possas fugir no tempo da tentação. Para o que, começa por te arrancar ao tumulto do mundo, tanto quanto t’o permitirem os teus deveres: ama o viver no retiro e no silencio. Ó meu Deus! Quantas almas não fazem progresso algum no amor de Jesus porque não sabem o que é a calma do retiro! Dizem estas almas que queriam viver no recolhimento, na união com nosso Senhor, fazem, e fazem precisamente o que as deve apartar deste fim; procuram companhias numerosas, divertimentos mundanos, efusões de coração que tem muito de humano, e fogem da solidão. Dir-se-ia que teem medo de se acharem a sós com Deus. Meu caro Teótimo, não os imites; se queres achar Deus, procura-o na solidão. Nunca estou menos só, dizia São Bernardo, do que quando estou só. Oh! E como isto é verdade! Na solidão achamos a Deus; na solidão pensamos em nossos deveres, em nossos pecados, choramo-los, detestamo-los; na solidão compreendemos a brevidade de tempo, a duração da eternidade, a vaidade das coisas do mundo, das honras, dos prazeres, das riquezas; na solidão falíamos com Deus e Deus conosco: entretemo-nos com ele coração a coração, exaltamos as suas grandezas, bem- dizemos as suas misericórdias, saboreamos as doçuras do seu amor; na solidão pensamos no céu, e desprendemo-nos de todas as criaturas. Ó doce solidão! Feliz quem te conhece e ama! mas mais feliz ainda aquele que descobriu o segredo de estar a sós com Deus no meio das mais numerosas companhias! Pede ao Senhor, meu caro Teótimo, que te dê esta solidão de coração, a qual faz que até mesmo no meio do tumulto dos homens e das ocupações, estejamos recolhidos, unidos a Deus, e atentos à sua presença: pede-a ao Senhor, mas não te esqueças que para a obter deves o mais que puderes viver retirado também na solidão exterior, sem nunca faltar por isto ao que os deveres de teu estado pedem. É possível gostar muito de sair fora sem necessidade ou utilidade do próximo, e ao mesmo tempo estar recolhido e unido a Deus.
(Pinnard, Abade Dom. As Chamas do Amor de Jesus ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção. Traduzido pelo Rev. Padre Silva, 1923, p. 184-190)

terça-feira, 16 de maio de 2017

Acerca da oração e da agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras

I. Considera o Meu divino Filho, Jesus, no Jardim das Oliveiras. Dirigindo a Seu Pai uma oração muito fervorosa, entra numa agonia mortal. Cai de face contra a terra. De todas as partes do Seu sagrado corpo corre um suor de sangue tão abundante que banha todo o solo em torno dEle. Prodígio estranho e inaudito até então.

Qual foi a causa ó Minha filha? A cruel catástrofe da Sua Paixão, que neste momento se Lhe apresentou completa ao Seu espírito; as bofetadas, os desprezos, as injúrias, que os ímpios Lhe deviam fazer sofrer; os açoites, os espinhos, os pregos e a cruz que se Lhe preparava, a lança que devia abrir-Lhe o lado, a traição de Judas, a renegação de Pedro, o abandono dos discípulos e dos apóstolos, o assassino que se Lhe devia preferir, o ódio e o furor que iam desenvolver contra Ele os homens a quem esperava salvar e remir: tudo concorria a assaltá-lO com tanta força, que O teve reduzido a uma agonia mortal.

Deixando a Sua humanidade gozar as consolações que manava para ela da sua união pessoal com a divindade, teria podido impedir para Si todo sofrimento. Mas então a maldade dos homens e a raiva do inferno não mais teriam sobre ela poder algum. Ora, o sacrifício deste Cordeiro sem mancha era necessário para abrandar a justiça de Deus irritado contra o homem pecador. Deixando a Sua humanidade sentir todas dores, esta Vítima divina foi tão aterrada por um acervo de males tão espantoso, que desfaleceu dele. Teria querido distanciar dos Seus lábios um cálice tão amargo. Mas a vontade de Seu Pai e o amor do homem que devia remir, triunfaram nEle toda a repugnância e submeteu-Se dirigindo a Seu Pai estas humildes palavras “Que a Vossa vontade seja feita e não a Minha”. Assim, Aquele que devia pelo tempo adiante conceder aos mártires tão prodigiosas consolações para aliviar seus sofrimentos, obrou prodígios para aumentar os Seus.

Que dizes tu agora, Minha filha, imitas esta resignação, tu que não podes sofrer a menor dor? Confunda-te a tua extrema repugnância em sofrer enquanto tanto o mereces por causa dos teus pecados.

II. Mas esta agonia, ó Minha filha, nada era a par da angústia opressiva em que O lançaram os teus pecados. Neste momento todas as iniquidades passadas e futuras, que a Sua presciência divina Lhe tornava presentes, pesaram sobre Ele com tanto peso e força que, oprimido sob esse peso, suou um suor de sangue e água, e a Sua alma foi contristada até se sentir morrer. Pensa, ó Minha filha, na confusão que sentirias se te visses de súbito coberta em público das manchas e infâmias de outrem, e compreenderás qual foi a confusão do Meu divino Filho. Ele que conhecia perfeitamente toda a torpeza do pecado, que, como Deus de santidade, como santidade por essência, tinha por eles um horror-infinito, comparecer coberto de pecados em presença dos anjos e do Seu divino Pai! Quem pode conceber o horror e a vergonha que o Seu coração devia sentir!

Mas demais conhecia Ele a maldade infinita do pecado e concebeu dela uma dor proporcionada para compensar a ofensa feita à majestade infinita de Deus.

A dor dos pecados compreendida no momento por Meu divino Filho, excede, pois muito o arrependimento que têm se tido todos os penitentes, e os Seus sofrimentos ultrapassaram dum modo indizível todos os sofrimentos padecidos pelos mártires nos seus suplícios. Calcula agora Minha filha, se podes, o imenso peso de dores, tormentos e angústias que Ele suportou. Oh! que grande parte têm tido as tuas impiedades nesta dolorosa agonia. Enquanto uma compaixão natural leva a aliviar as dores dos que sofrem, tu não te tens aplicado até ao presente senão aumentar as de Jesus por teus contínuos pecados. Sejam-te eles confusão e vergonha, ó Minha filha, e chora a Seus pés tua crueldade.

III. Estes amargos sofrimentos teriam sido mitigados pela previsão da sua utilidade para homens reconhecidos. Mas Ele previa, sabia claramente que o Seu sangue correria sem fruto para uma infinidade de pessoas, que não serviria mais que selar a sua eterna condenação, que a sua maldade transformaria em remédio divino em veneno mortal. Quem pode exprimir, ó Minha filha, quem pode imaginar a dor que este conhecimento Lhe ajuntou a todos os outros sofrimentos?

Ingratidão humana, como tu és monstruosa! Um Deus feito homem, que morre pelos homens Seus inimigos, a fim de conciliá-los com Deus; que paga pelo derramamento do Seu sangue um preço infinito, capaz de remi-los completamente, e que se vê desprezado, calcado aos pés por homens que persistem em serem Seus inimigos para sempre, ah! Eis aí, sobretudo, Minha filha, o que Lhe deu a beber a amargura: eis aí o que Lhe roubou toda a força e vigor, e que o faz cair por terra nessa inexprimível agonia, o que O fez lamentar-se assim: a Minha alma está triste até á morte. Teve necessidade da Sua onipotência para não expirar. Uma mãe que, depois de cruéis dores, dá ao mundo um belo menino cheio de vida anima-se e olvida todos os seus sofrimentos passados com a consolação que lhe faz sentir o nascimento desse filho. Mas que horrível dor, se, depois de ter sofrido tanto, apenas dá á luz uma criança morta!

Esta comparação não pode dar-te uma fraca idéia das angústias experimentadas pelo Meu divino Filho, que previa a morte, não duma alma, mas de milhões delas, que fazem por morrer eternamente. Minha filha, que previu Ele a teu respeito? Tens mitigado os Seus sofrimentos? Tens diminuído as suas penas fazendo-Lhe prever o teu arrependimento e a tua salvação eterna, ou tens-los aumentado sem medida, fazendo-Lhe prever a tua obstinação e condenação eterna?

Afetos. Ó Mãe compassiva, o meu coração comove-se de piedade quando penso acerca dos sofrimentos de meu Redentor agonizante no Jardim das Oliveiras. Mas estorce-se de dor quando medito que os meus pecados foram a causa disso.

Não posso deixar de me voltar para Ele e dizer-Lhe: - Ó meu Salvador agonizante, eis diante de Vós a mais indigna criatura, que até ao presente não tem feito mais que derramar o mais amargo fel no cálice da Vossa dolorosa Paixão. Por minha resistência às Vossas graças, por minhas traições e ingratidões, cujas Vós bem tínheis previsto, quanto não tenho aumentado o peso cruel dos Vossos sofrimentos?

Ó Salvador amorosíssimo, já que tanto tendes feito por uma ingrata que Vos não orava, e aumentava a Vossa cólera fazendo-Vos antever os crimes que devia cometer, escutai agora as súplicas que Vos dirige com um coração traspassado pela dor, e os olhos banhados pelas amargas lágrimas do arrependimento.

Perdoai-me todas as iniquidades pelos merecimentos da Vossa agonia e desse sangue que derramastes para a minha redenção. Senhor, até ao presente não tenho sido senão muito cega e insensata. Mudarei de vida e de proceder para não mais afligir o Vosso amor, farei penitência dos meus erros passados.

Ó boa e terna Mãe que me assistis e instruis com tanta caridade, juntai às minhas lágrimas a Vossa intercessão e serei seguramente atendida.

(Maria falando ao coração das donzelas pelo Abade A.Bayle, 1917)

quinta-feira, 13 de abril de 2017

QUINTA-FEIRA SANTA – MEDITAÇÃO PARA A TARDE

Quinta Dor de Maria Santíssima – Morte de Jesus.
Et erit vita tua quasi pendens ante te — “A tua vida estará como suspensa diante de ti” (Deut, 28, 66).
Sumário. Contemplemos a acerba dor de Maria Santíssima no Calvário, obrigada a assistir a Jesus moribundo e ver todas as penas que Ele padecia, sem, contudo, Lhe poder dar alívio. Então a aflita Mãe não cessou de oferecer a vida do Filho à divina justiça pela nossa salvação. Lembremo-nos que pelo merecimento de suas dores cooperou para nos fazer nascer para a vida da graça. Por isso todos nós somos seus filhos. Ó, como a Virgem exerceu sempre e ainda exerce bem o ofício de Mãe! Mas como nos vemos nós como filhos?
I. Fogem as mães da presença dos filhos moribundos; e se por acaso alguma mãe se vê obrigada a assistir um filho que está para morrer, procura-lhe todos os alívios que pode dar. Concerta-lhe a cama, para que esteja em posição mais cômoda; serve-lhe refrescos, e assim a própria mãe procura mitigar a própria dor. Ah, mãe a mais aflita de todas as mães, ó Maria! Incumbe-vos o assistir a Jesus moribundo, mas não vos é permitido dar-Lhe algum alívio.
Maria ouviu o Filho dizer: Sitio — tenho sede; mas não lhe foi permitido dar uma gota de água para Lhe mitigar a sede. Só pode dizer-Lhe, como contempla São Vicente Ferrer: Filho, não tenho senão a água de minhas lágrimas.  Fili, non habeo nisi aquam lacrimarum. Via que sobre aquele leito de morte, Jesus, pregado com três cravos de ferro, não achava repouso. Queria abraçá-Lo para Lhe dar alívio, ao menos para O deixar expirar entre seus braços; mas não podia. Via o pobre Filho, que naquele mar de aflições buscava quem O consolasse, como Ele já tinha predito pela boca do profeta Isaías (1). Mas quem entre os homens O desejava consolar, se todos eram seus inimigos? Mesmo sobre a cruz um O blasfemava e escarnecia de uma maneira, outro de outra, tratando-O como um impostor, ladrão, usurpador sacrílego da divindade, digno de mil mortes.
O que mais aumentou a dor de Maria e a sua compaixão para com o Filho, foi ouvi-Lo sobre a cruz lamentar-se de o Eterno Pai também O ter abandonado: Deus, Deus meus, ut quid dereliquisti me? (2) — “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?” Palavras, como disse a Bem-aventurada Virgem à Santa Brígida, que não puderam nunca mais sair-lhe da idéia, enquanto viveu. De modo que a aflita Mãe via o seu Jesus atormentado de todas as partes; queria aliviá-Lo mas não podia. Pobre Mãe!
II. Pasmavam os homens, diz Simão de Cássia, vendo que a divina Mãe guardava o silêncio, sem se queixar no meio da sua grande dor. Mas, se Maria guardava o silêncio com a boca, não o guardava com o coração, porquanto naquelas horas não fazia se não oferecer à justiça divina a vida do Filho pela nossa salvação. Saibamos, pois, que pelo mérito de suas dores ela cooperou para nos fazer nascer para a vida da graça e por conseguinte somos filhos de suas dores: Mulier, ecce filius tuus (3) — “Mulher, eis aí teu filho”.
Naquele mar de amargura era este o único alívio que então a consolava: o saber que por meio de suas dores nos conduzia à salvação eterna. — Desde então começou Maria a exercer para conosco o ofício de boa Mãe; pois que, como atesta São Pedro Damião, foi pelas súplicas de Maria que o bom ladrão se converteu e se salvou, querendo a divina Mãe recompensá-lo assim pela delicadeza que outrora lhe mostrou na viagem ao Egito. E o mesmo ofício de mãe tem a Bem-aventurada Virgem continuado sempre e continua a exercer. Nós, porém, com as nossas obras mostramo-nos deveras seus dignos filhos?
Ó Mãe, a mais aflita de todas as mães! Morreu, enfim, vosso Filho, tão amável e que tanto vos amava! Chorai; que tendes razão para chorar. Quem jamais poderá consolar-vos? Só vos pode consolar o pensamento que Jesus com sua morte venceu o inferno, abriu o céu fechado aos homens, e ganhou tantas almas. Do trono da cruz reinará sobre tantos corações que, vencidos pelo amor, com amor Lhe servirão. Não recuseis entretanto, ó minha Mãe, que vos acompanhe a chorar convosco, já que mais que vós tenho razão de chorar pelas ofensas que tenho feito a Vosso Filho. Ah, Mãe de Misericórdia! Em primeiro lugar pela morte de seu Redentor, e depois pelos merecimentos de vossas dores, espero o perdão e a salvação eterna. (*I 245.)
  1. Is. 63, 5.
    2. Math. 27, 46
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso

QUINTA-FEIRA SANTA – MEDITAÇÃO PARA A MANHÃ

O dia do amor.
Sciens Iesus quia veni hora eius, ut transeat ex hoc mundo ad Patrem, cum dilexisset suos, qui erant in mundo, in finem dilexit eos — “Sabendo Jesus que era chegada a hora de passar deste mundo ao Pai, como tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim” (Io. 13, 1).
Sumário. Embora Jesus Cristo em todo o curso de sua vida mortal nos tivesse amado ardentemente e nos tivesse dado mil provas de seu amor infinito, todavia, quando chegou ao termo dos seus dias, quis dar-nos a prova mais patente pela instituição do Santíssimo Sacramento. Aí o Senhor se faz não só nosso constante companheiro, mas ainda nosso sustento e se nos dá todo inteiro. Com muita razão, portanto, Santa Maria Madalena de Pazzi chamava a quinta-feira santa o dia do amor.
I. Um pai amoroso nunca patenteia melhor a sua ternura e o seu afeto para com os filhos do que no fim da sua vida , quando os vê em torno do seu leito, aflitos e com os olhos em pranto, e pensa que em breve deve abandoná-los. Tira do seu coração e põe sobre os seus lábios o resto de sua vida prestes a extinguir-se, abraça aqueles penhores queridos do seu amor, exorta-os a serem sempre bons, imprimi-lhes no rosto os mais ternos beijos, e misturando as suas lágrimas com a dos filhos, lança-lhes a sua benção. Depois manda trazer o que mais precioso possui e dando a cada um uma última lembrança: Tomai, diz, e lembrai-vos sempre do amor que vos tenho dedicado.
Foi exatamente assim que quis fazer conosco Jesus Cristo, verdadeiro Pai da nossa alma e Pai tão amante, que na terra não tem havido, nem jamais haverá outro igual. Embora em todo o curso da sua vida mortal nos tivesse amado com amor ardente, e nos tivesse dado mil provas de seu amor infinito, todavia, quando chegou ao termo de seus dias, quis dar-nos a prova mais patente, pela instituição do Santíssimo Sacramento. E por isso, na mesma noite em que devia ser traído, reuniu os seus discípulos ao redor de si, instituiu a Santíssima Eucaristia, e disse-lhes para os consolar de sua próxima partida: Filhos meus, vou morrer por vós, para vos mostrar o amor que vos tenho. Posto que, escondido debaixo das espécies sacramentais, deixo-vos o meu corpo, a minha alma, a minha divindade, a mim mesmo todo. Numa palavra, não quero nunca estar separado de vós, enquanto estiverdes na terra: Ecce ego vobiscum sum, usque ad consummationem saeculi (1) — “Eis que estou convosco, até a consumação dos séculos”. — Meu irmão, que tal te parece esta extrema fineza de Jesus Cristo? Não tinha razão Santa Maria Madalena de Pazzi de chamar a quinta-feira santa o dia do amor?
II. Jesus Cristo não satisfez o seu amor, fazendo-se nosso constante companheiro; quis ainda fazer-se nosso sustento, a fim de se unir intimamente à nossa alma, e santificá-la com a sua presença. E nesta manhã, qual amante apaixonado, que deseja ser correspondido de dentro da Hóstia consagrada, onde nos observa sem ser visto, está espreitando todos os que se preparam para alimentar-se com a sua carne divina observa em que pensam, o que amam, o que desejam e as ofertas que irão apresentar-lhe.
Irmão meu, prepara-te para recebê-Lo com as devidas disposições. Aviva a tua  na presença real de Jesus Cristo neste inefável mistério; dilata o teu coração pela confiança, lembrando-te que te pode fazer todo o bem, muito te ama e vem a ti exatamente pra te enriquecer com as suas graças. Humilha-te profundamente diante da sua divina majestade, e lembrando-te que no passado, em vez de amares um Deus tão bom, o tens magoado, voltando-lhe as costas e desprezando a sua amizade, pede-lhe perdão e toma a resolução de que para o futuro antes quererás morrer do que tornar a ofendê-Lo. — Mas prepara-te sobretudo para receber Jesus Cristo com amor, e convida-o pelo desejo.
Vinde, ó meu Jesus, vinde depressa e não tardeis. Ó meu único e infinito Bem, meu tesouro, minha vida, meu paraíso, meu amor, meu tudo, quisera receber-Vos com aquele amor com que Vos receberam as almas mais santas e mais amantes, com que Vos recebeu Maria Santíssima. Uno a minha comunhão de hoje com as sua. — Santísima Virgem e minha Mãe Maria, eis que vou receber o vosso Filho. Quisera ter o vosso coração e o amor com que recebieis a santa comunhão. Dai-me hoje o vosso Jesus, assim como o destes aos pastores e aos santos Magos. Desejo recebê-Lo de vossas mãos puríssimas. Dizei-lhe que sou vosso servo devoto, porque assim me olhará com olhar mais amoroso e me apertará mais estreitamente contra o seu Coração, quando vir a mim. (*I 406)
  1. Matth. 28, 20.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso

quarta-feira, 12 de abril de 2017

QUARTA-FEIRA SANTA – MEDITAÇÃO PARA A TARDE

Jesus é crucificado entre dois ladrões.
Crucifixerunt eum, et cum eo alios duos, hinc et hinc, medium autem Iesum — “Crucificaram-No e com Ele outros dois, um de uma parte, e outro da outra, e no meio Jesus” (Jo, 19, 18).
Sumário. Imaginemos que junto com a divina Mãe presenciamos a crucifixão de Jesus Cristo. Eis que, plantada já a cruz, o Filho de Deus está neste patíbulo infame, suspenso em suas próprias feridas, e sofre tantas mortes, quantos momentos durou aquela longa agonia. Ó Deus! Jesus pensou então em cada um de nós, e a previsão de nossas culpas tornava-Lhe a morte mais dolorosa. Unamo-nos em espírito com a Santíssima Virgem, e aproximemo-nos para beijar a preciosa Cruz com coração contrito e amante.
I. Logo que Jesus chegou ao Calvário, todo exausto de dores e de cansaço, deram-Lhe a beber o vinho misturado com fel, que era costume dar aos condenados à cruz, para diminuir neles o sentimento da dor. Jesus, porém, querendo morrer sem alívio, provou apenas e não quis beber. Depois, tendo-se a multidão colocado em círculo ao redor de Nosso Senhor, os soldados arrancaram-Lhe as vestes, pegadas ao corpo todo chagado e dilacerado, e com as vestes Lhe arrancaram também pedaços da carne. Em seguida deitaram-no sobre a cruz. Jesus estende as sagradas mãos e oferece ao Eterno Pai o grande sacrifício de si mesmo e pede-Lhe que O aceite pela nossa salvação.
Os soldados furiosos tomam os pregos e os martelos, e traspassando as mãos e os pés de nosso Salvador, pregam-no na cruz. Afirma São Bernardo que na crucifixão de Jesus os algozes se serviram de pregos sem ponta, para que causassem dor mais violenta. O som das marteladas ressoa pelo monte, e chega aos ouvidos de Maria, que se achava perto, acompanhando o Filho. — Ó mãos sagradas, que com vosso tato curastes tantos enfermos, porque vos traspassam agora sobre a cruz? Ó pés sacrossantos, que vos cansastes tantas vezes na busca das ovelhas perdidas, que somos nós, porque vos pregam com tanta dor nesse patíbulo?
Quando se toca apenas num nervo do corpo humano, é tão aguda a dor, que causa desmaios e convulsões mortais. Quão grande não terá sido, pois, a dor de Jesus, quando Lhe traspassaram com cravos as mão e pés, partes cheias de ossos e nervos? Ó meu dulcíssimo Salvador, quanto Vos custou a minha salvação e o desejo de ser amado por mim, miserável verme! E, ingrato como sou, tantas vezes Vos tenho recusado o meu amor e virado as costas!
II. Eis que levantam a cruz com o Crucificado, e a deixam cair com força no buraco aberto no rochedo. Enchem-no em seguida com pedras e paus, e Jesus fica suspenso na cruz entre dois ladrões até deixar a vida, como havia predito Isaías: Et cum sceleratis reputatus est (1) — “Ele foi posto no número dos malfeitores”. Ó Deus, quanto padece na cruz o nosso Salvador moribundo! Cada parte de seu corpo tem as suas dores; e uma não pode aliviar a outra, porque as mãos e os pés estão pregados fortemente. Ó céus, a cada instante Ele sofre dores mortais. Ora faz firmeza nas mãos, ora nos pés, mas em qualquer parte que seja, sempre se Lhe aumenta a dor, porque o sacrossanto corpo de Jesus se apoiava nas próprias feridas.
Se ao menos, no meio de tantas dores, os presentes se compadecessem de Jesus e o acompanhassem com as lágrimas na sua agonia amargosa! Não, ao contrário, os Escribas e os Fariseus injuriam-No e prorrompem em escárnios e blasfêmias. E os algozes, feita a partilha das vestes de Jesus e tirada a sorte a túnica, sentam-se indiferentes debaixo do patíbulo, esperando a morte do Salvador.
Minha alma, no meio de suas convulsões e de tantos opróbrios o Senhor pensava em ti e via que tu também um dia te havias de juntar a seus inimigos, para Lhe tornar a morte mais dolorosa. Mas não desanimes por isso; chega-te humilhada e enternecida à cruz, junta-te a tua Mãe Maria, e beija o altar no qual morre o teu amantíssimo Redentor. Coloca-te a seus pés e faze que aquele divino sangue corra sobre ti. Roga ao Eterno Pai, dizendo, mas em sentido diferente daquele com que o disseram os judeus: Sanguis eius super nos (2) — “O seu sangue caia sobre nós”. Senhor, venha sobre nós este sangue, e lave-nos dos nossos pecados! Este sangue não Vos pede vingança, como o sangue de Abel, mas pede para nós misericórdia e perdão. — Ó Mãe de dores, Maria, rogai a vosso Filho por nós. (* I 619)
  1. Is. 53, 12.
    2. Matth. 27, 25.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso

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