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quarta-feira, 1 de abril de 2026

Quarta Dor de Maria Santíssima – Encontro com Jesus, que carrega a cruz

 

Jesus se encontra com sua Mãe

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Primeira Meditação para a Quarta-feira Santa

Vidimus eum, et non erat aspectus, et desideravimus eum – “Vimo-Lo, e não havia nele formosura, e por isso nós O estranhamos” (Is 53, 2)

Sumário. Consideremos o encontro que no caminho do Calvário teve o Filho com sua Mãe. Jesus e Maria olham-se mutuamente, e estes olhares são como outras tantas setas que lhes traspassam o Coração amante. Se víssemos uma leoa que vai após seu filho conduzido à morte, aquela fera havia de inspirar-nos compaixão. E não nos moverá à ternura ver Maria que vai após o seu Cordeiro imaculado, enquanto o conduzem à morte por nós? Tenhamos compaixão, e procuremos também acompanhar a seu Filho e a ela, levando com paciência a cruz que nos dá o Senhor.

I. Medita São Boaventura que a Bem-aventurado Virgem passou a noite que precedia a Paixão de seu Filho sem tomar descanso e em dolorosa vigília. Chegada a manhã, os discípulos de Jesus Cristo vieram a esta aflita Mãe: um a referir-lhe os maus tratamentos feitos a seu Filho na casa de Caifás, outro os desprezos que recebeu de Herodes, mais outro a flagelação ou a coroação de espinhos. Numa palavra, cada um dava a Maria uma nova informação, cada qual mais dolorosa, verificando-se nela o que Jeremias tinha predito: Non est qui consoletur eam ex omnibus caris eius (1) — “Não há quem a console entre todos os seus queridos”.

Veio finalmente São João e lhe disse:

“Ah, Mãe dolorosa! Teu Filho já foi condenado à morte, e já saiu, levando Ele mesmo a sua cruz para ir ao Calvário. Vem, se O queres ver e dar-Lhe o último adeus, em alguma rua, por onde tenha de passar”.

Ao ouvir isto, Maria parte com João; e pelo sangue de que estava a terra borrifada conhece que o Filho já por ali tinha passado. A Mãe aflita toma por uma estrada mais breve e coloca-se na entrada de uma rua para se encontrar com o aflito Filho, nada se-lhe dando das palavras insultuosas dos judeus, que a conheciam como mãe do condenado. — Ó Deus, que causa de dor foi para ela a vista dos cravos, dos martelos, das cordas e dos outros instrumentos funestos da morte de seu Filho! Como que uma espada foi ao seu coração o ouvir a trombeta, que andava publicando a sentença pronunciada contra o seu Jesus.

Mais eis que já, depois de terem passado os instrumentos e os ministros da justiça, levanta os olhos e vê, ó Deus! Um homem todo cheio de sangue e de chagas, dos pés até a cabeça, com um feixe de espinhos na cabeça e dois pesados madeiros sobre os ombros. Olha para Ele, e quase não O conhece, dizendo então com Isaías: Vidimus eum, et non erat aspectus (2) — “Nós O vimus e não havia n’Ele formosura”. Mas finalmente o amor lho faz reconhecer e o Filho, tirando um grumo de sangue dos olhos, como foi revelado a Santa Brígida, encarou a Mãe e a Mãe encarou o Filho. Ó olhares dolorosos, com que, como tantas flechas, foram então traspassadas aquelas almas amantes!

Romance

II. Queria a divina Mãe abraçar a Jesus, como diz Santo Anselmo; mas os insolentes servos a repelem com injúrias, e empurram para diante o Senhor aflitíssimo. Maria, porém, segue — muito embora preveja que a vista de seu Jesus moribundo lhe causaria uma dor tão acerba, que a tornaria rainha dos mártires. O Filho vai adiante, e a Mãe tomando também a sua cruz, no dizer de São Guilherme, vai após Ele, para ser crucificada com Ele.

Se víssemos uma leoa que vai após o filho conduzido à morte, aquela fera nos causaria compaixão. E não nos inspirará compaixão o ver Maria, que vai após o seu Cordeiro imaculado, enquanto o levam a morrer por nós? Tenhamos compaixão por ela, e procuremos também acompanhar o Filho e a Mãe, levando com paciência a cruz que nos envia o Senhor. — Pergunta São João Crisóstomo, porque nas outras penas Jesus Cristo quis ser só, mas a levar a Cruz quis ser ajudado pelo Cirineu? E responde: Ut intelligas, Christi crucem non sufficere sinne tua: Não basta para nos salvar só a cruz de Jesus Cristo, se nós não levamos com resignação até a morte também a nossa.

Minha dolorosa Mãe, pelo merecimento da dor que sentistes ao ver o vosso amado Filho levado à morte, impetrai-me a graça de levar também com paciência as cruzes que Deus me envia. Feliz de mim, se souber acompanhar-vos com a minha cruz até a morte! Vós e Jesus, sendo inocentes, levastes uma cruz muito pesada, e eu pecador, que tenho merecido o inferno, recusarei a minha? Ah, Virgem imaculada, de vós espero socorro, para sofrer com paciência as cruzes.

Referências:

(1) Lm 1, 2
(2) Is 53, 2

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 405-408)

terça-feira, 31 de março de 2026

Jesus é condenado e vai ao Calvário

 

Cristo carregando a Cruz

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Segunda Meditação para a Terça-feira Santa

Tunc ergo tradidit eis illum ut crucifigerunt – “Então entregou-lhes Jesus, para ser crucificado” (Jo 19, 16)

Sumário. Imaginemos ver Jesus Cristo que escuta a injusta sentença de morte, aceita-a por nosso amor, e abraçando a cruz, se encaminha para o Calvário. Os judeus temendo que a cada momento expire, e desejosos de O ver morrer crucificado, obrigam a Simão Cirineu a levar a cruz atrás de Jesus. Unamo-nos ao ditoso Simão, e abraçando com resignação a nossa cruz, carreguemo-la atrás de Jesus, que no-la manda para nosso bem.

I. Considera como Pilatos, depois de proclamar diversas vezes a inocência de Jesus, finalmente a torna a proclamar, lavando as mãos e protestando que é inocente do sangue daquele justo. Se, pois, havia de morrer, os judeus deveriam responder por Ele. Em seguida lavra a sentença e condena Jesus à morte. Ó injustiça nunca mais vista no mundo! O Juiz condena o acusado ao mesmo tempo que o declara inocente!

Romance

Lê-se a iníqua sentença de morte na presença do Senhor condenado; este escuta-a, e todo conformado com o decreto de seu Eterno Pai, que o condena à cruz, aceita-a humildemente, não pelos delitos que os judeus lhe imputavam falsamente, mas pelas nossas culpas verdadeiras, pelas quais se tinha oferecido a satisfazer com a sua morte. Na terra, Pilatos diz: Morra Jesus; e o Pai Eterno confirma a sentença no céu dizendo: Morra meu Filho. E o mesmo Filho acrescenta: Eis-me aqui, obedeço e aceito a morte, e a morte de cruz: Humiliavit semetipsum, factus obediens usque ad mortem, mortem autem crucis (1) — “Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz.”

Meu amado Redentor, aceitais a morte que eu devia sofrer, e pela vossa morte me alcançais a vida. Agradeço-Vos, ó amor meu, e espero ir ao céu para cantar eternamente as vossas misericórdias: Misericordias Domini in aeternum cantabo (2) Mas, já que Vós inocente aceitais a morte de cruz, eu pecador aceito de boa vontade a morte que me destinais; aceito-a com todas as penas que a tenham de preceder ou de acompanhar, e desde agora ofereço-a a vosso Eterno Pai em união com a vossa santa morte. Vós morrestes por meu amor, eu quero morrer por vosso amor.

Cristianismo

II. Lida a sentença, o povo desgraçado levanta um brado de júbilo e diz: “Felizmente Jesus é condenado à morte! Vamos depressa, não percamos tempo, prepare-se a cruz, e façamo-Lo morrer antes do dia de amanhã, que é a Páscoa.” — E no mesmo instante agarram a Jesus, tiram-Lhe o manto vermelho dos ombros e entregam-Lhe os seus próprios vestidos; a fim de que, segundo diz Santo Ambrósio, fosse reconhecido pelo povo por aquele mesmo impostor (assim o chamavam) que poucos dias antes fora recebido como Messias. Depois tomam duas rudes traves, que compõem em forma de cruz, e mandam-Lhe com insolência que a leve sobre seus ombros até o lugar do suplício. Ó Deus, que crueldade, carregar com tamanho peso um homem tão maltratado e enfraquecido!

Jesus abraça a cruz com amor e encaminha-se para o Calvário. O seu aspecto naquele caminho é tão lastimoso, que as mulheres de Jerusalém, ao vê-Lo, O acompanham, chorando e lamentando tamanha crueldade. Mas, nem assim os pérfidos judeus são levados à compaixão! Ao contrário, desejando, por um lado, ver Jesus crucificado, e, por outro, temendo que expirasse no caminho, visto que caía quase a cada passo, tiraram-Lhe a cruz dos ombros e obrigaram certo homem, de nome Simão, a carregá-la. — Minha alma, une-te ao ditoso Cirineu; abraça a tua cruz por amor de Cristo, que por teu amor padece tanto. Vê como Ele vai adiante e te convida a segui-Lo: Qui vult venire post me, tollat crucem suam, et sequatur me (3) — “Se alguém quiser vir após mim, tome a sua cruz e siga-me”.

Não, meu Jesus, não quero deixar-Vos; quero seguir-Vos até morrer. Pelos merecimentos desse caminho doloroso, dai-me força para carregar com paciência a cruz que quiserdes mandar-me. Ah! Vós nos fizestes nimiamente amáveis os sofrimentos e os desprezos, abraçando-os por nós com tanto amor! Ó Mãe de dores, Maria, rogai a vosso Filho por mim.

Referências:

(1) Fl 2, 8
(2) Sl 88, 2
(3) Mt 16, 24

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 403-405)

Jesus é coroado de espinhos e apresentado ao povo

 

Coroação de Espinhos de Nosso Senhor Jesus Cristo

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Primeira Meditação para a Terça-feira Santa

Et plectentes coronam de spinis, posuerunt super caput eius – “E entrançando uma coroa de espinhos Lha puseram na cabeça” (Jo 19, 1)

Sumário. Depois de terem açoitado a Jesus, os algozes, tratando-O como rei de comédia, atiram-Lhe sobre os ombros um manto de púrpura, colocam-Lhe um caniço na mão, e põem-Lhe na cabeça uma coroa de espinhos, na qual batem fortemente com o caniço, a fim de que penetre mais. O Senhor ficou reduzido a tão triste estado, que Pilatos julgou que comoveria de compaixão os próprios inimigos, só com apresentá-Lo. Contemplemo-Lo também, e pensando que foi tão maltratado por nosso amor, não tenhamos a crueldade de dizer com os judeus: Crucifigatur — “Seja crucificado”.

I. Contemplemos os outros bárbaros suplícios que os soldados infligiram a nosso Senhor já tão atormentado. Instigados, e, como afirma São João Crisóstomo, subornados pelo dinheiro dos Judeus, reúnem ao redor de Jesus toda a corte, põem-Lhe aos ombros um manto vermelho a servir de manto real, nas mãos colocam-Lhe um caniço a servir de cetro e na cabeça um feixe de espinhos a servir de coroa. Os espinhos estavam entrelaçados em forma de capacete, de modo que Lhe cobria a cabeça toda: Et plectentes coronam de spinis, posuerunt super caput eius.

Romance

Mas, porque os espinhos com a força das mãos não penetravam bastante na cabeça sagrada, já tão ferida pelos açoites, tomam-Lhe o caniço, e enquanto Lhe escarravam também no rosto, batem com toda a força sobre a cruel coroa, de sorte que rios de sangue corriam da cabeça ferida pelo rosto e sobre o peito. Ah, espinhos ingratos! É assim que atormentais o vosso Criador? — Mas, para que acusar os espinhos? Ó pensamentos perversos dos homens, sois vós que transpassastes a cabeça do meu Redentor.

Eia, minha alma, prostra-te aos pés de teu Senhor coroado; detesta ali os teus consentimentos pecaminosos, e roga-Lhe que te traspasse com um daqueles espinhos, consagrados pelo seu preciosíssimo sangue, a fim de que não o tornes mais a ofender. — Enquanto os bárbaros algozes, juntando o escárnio à dor, o tratam como rei de comédia, d’Ele motejam e o esbofeteiam, tu, pelo menos, reconhece-O pelo Supremo Senhor de tudo, como na verdade é; feito agora Rei de dor por amor dos homens.

II. Voltando outra vez Jesus ao pretório de Pilatos, depois da flagelação e coroação de espinhos, este, ao vê-Lo todo dilacerado e desfigurado, capacitou-se de que comoveria o povo à compaixão, só com mostrá-Lo. Saiu, pois, para a varanda com o nosso aflito Salvador, e disse: Ecce homo — “Eis aqui o homem”. Como se dissesse: Judeus, contentai-vos com o que este inocente tem sofrido até agora; vede a que estado se acha reduzido. Que medo ainda podeis ter que Ele queira fazer-se vosso rei, visto que não pode mais viver? Deixai-O ir morrer em sua casa. Exivit ergo Iesus, portans coronam spineam, et purpureum vestimentum (1) – “Jesus saiu coroado de espinhos e vestido de um manto de púrpura”.

Minha alma, tu também contempla naquela varanda a teu Senhor, ligado e arrastado por um algoz. Vê-O, como ali está meio despido, se bem que coberto de chagas e sangue, com as carnes todas rasgadas, com aquele farrapo de manto purpúreo, que serve tão somente para escarnecê-Lo, e com a cruel coroa que continuamente o atormenta. Vê a que estado se acha reduzido o teu Pastor, para te achar, a ti, sua ovelha perdida.

Ah meu Jesus! Quantos papéis de teatro fazem-Vos os homens representar, mas todos eles de dor e de ignomínia. Ó dulcíssimo Redentor, inspirais compaixão às próprias feras, mais aí não achais piedade! Ouve o que aquele povo responde Crucifige, crucifige eum! (2) — “Crucifica-o, crucifica-o!” Mas, ó Senhor meu, o que dirão no último dia, quando Vos virem na glória, sentado como Juiz num trono de luz? Ai de mim! Jesus meu, houve um tempo em que eu também disse: “Crucifica-o, crucifica-o!” Foi quando Vos ofendi pelos meus pecados.

Agora arrependo-me deles mais que de todos os outros males e amo-Vos sobre todas as coisas, ó Deus de minha alma. Perdoai-me pelos merecimentos de vossa Paixão. — Ó Mãe de dores, Maria, fazei que no dia do juízo eu veja vosso Filho aplacado e não irado para comigo.

Referências:

(1) Jo 19, 5
(2) Jo 19, 6

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 400-403)

segunda-feira, 30 de março de 2026

Jesus é levado a Pilatos e a Herodes, e posposto a Barrabás

 

Jesus e Pilatos

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Primeira Meditação para a Segunda-feira Santa

Et vinctum adduxerunt eum, et tradiderunt Pontio Pilato praesidi – “E preso O conduziram e entregaram ao governador Pôncio Pilatos” (Mt 27, 2)

Sumário. Imaginemos ver Jesus Cristo, que em meio de uma multidão de gentalha insolente é conduzido ao tribunal de Pilatos, depois ao de Herodes e afinal novamente ao de Pilatos. Este, para livrá-Lo, apresenta-O ao povo juntamente com um ladrão e assassino; mas o povo responde: Seja livre Barrabás, e Jesus seja crucificado. Ó céus! Todas as vezes que pecamos, fizemos o mesmo, pospondo nosso Deus a um vil interesse, a um pouco de fumo, a um vil prazer.

I. Ao amanhecer, os príncipes dos sacerdotes novamente declaram Jesus réu de morte, e depois conduzem-no a Pilatos, a fim de que este O condene a morrer crucificado. Pilatos, tendo interrogado diversas vezes tanto os Judeus como nosso Salvador, reconhece que Jesus é inocente e que todas as acusações são calúnias. Sai, pois, para fora e declara que não acha em Jesus culpa alguma para condená-Lo. Vendo, porém, que os Judeus se empenhavam sumamente em fazê-Lo morrer, e ouvindo que Jesus era da Galiléia, para tirar-se dos apuros, remisit eum ad Herodem (1) — “devolveu-O a Herodes”.

Herodes ficou muito contente ao ver Jesus levado à sua presença. Esperava ver um dos muitos milagres obrados pelo Senhor e dos quais tinha ouvido falar. Interrogou-O muito, mas Jesus se calou e não lhe deu resposta alguma; castigando assim a vã curiosidade daquele insolente: At ipse nuhil illi respondebat (2). Ai da alma a qual o Senhor não fala mais.

— Meu Jesus, eu também tinha merecido este castigo, por ter resistido tantas vezes às vossas misericordiosas inspirações. Mas, meu amado Redentor, tende piedade de mim e falai-me: Loquere, Domine, quia audit servus tuus (3) — “Falai, Senhor, porque o vosso servo escuta”. Dizei-me o que desejais de mim; quero obedecer-Vos e contentar-Vos em tudo.

Herodes, vendo que Jesus não lhe respondia, desprezou-O e tratando-O como a um doido, fez escárnio d’Ele, mandando-O vestir uma túnica branca, e motejou dele com toda a sua corte, e assim desprezado e escarnecido mandou-O de novo a Pilatos. Eis que Jesus, vestido com aquele manto de escárnio, é levado pelas ruas de Jerusalém.

— Ó meu desprezado Salvador, faltava-Vos ainda esta injúria, a de ser tratado como um doido. Cristão, vede como o mundo trata a Sabedoria eterna! Feliz de quem se compraz em ser considerado pelo mundo como doido, e não quer saber outra coisa senão a Jesus crucificado, amando os sofrimentos e os desprezos! Perante Deus terá mais valor um desprezo suportado em paz por amor d’Ele, do que mil disciplinas.

Romance

II. O povo israelítico tinha direito a exigir do governador romano no grande dia da Páscoa que deixasse ir livre um dos prisioneiros. Pelo que Pilatos lhes mostrou Jesus e Barrabás, homem criminoso, dizendo: Quem vultis dimittam, vobis, Barabbam an Iesum? (4) — “Qual quereis que vos solte, Barrabás ou Jesus?” Pilatos esperava que o povo com certeza preferiria Jesus a Barrabás, um celerado, homicida e salteador, que todos deviam detestar. Mas o povo, instigado pelos príncipes da sinagoga, de repente e sem deliberar, pede Barrabás. — Pilatos, surpreso e indignado ao ver um inocente posposto a tão grande malfeitor, diz: Quid igitur faciam de Iesu? — “Que farei então de Jesus?” Todos gritam: “Seja crucificado!” Pergunta outra vez Pilatos: “Mas, que mal fez Ele?” Eles porém gritam com mais força: “Seja crucificado!” Crucifigatur!

Assim como Jesus e Barrabás foram apresentados ao povo, assim também perguntou-se ao Pai Eterno, qual Ele queria que fosse salvo, seu Filho ou o pecador. E o Pai Eterno respondeu: Morra meu Filho e seja salvo o pecador. É o que nos afirma o Apóstolo (5); é o que nos diz Jesus Cristo mesmo: Sic Deus dilexit mundum, ut Flium suum unigenitum daret (6) — “Tanto amou Deus ao mundo, que lhe deu seu Filho unigênito”. — Mas, como é que os homens correspondem a estas supremas finezas do amor?

Ai de mim, meu Senhor! Todas as vezes que cometi o pecado, fiz como os Judeus. A mim também se perguntava o que desejava: a Vós ou ao vil prazer; e respondi: Quero o prazer e pouco se me dá perder o meu Deus. É assim que falei então; mas agora estou arrependido de todo o coração, e digo que prefiro a vossa graça a todos os prazeres e tesouros do mundo. Ó Bem infinito, ó meu Jesus, amo-Vos acima de todos os outros bens; só a Vós quero e nada mais. — Ó Mãe das dores, minha Mãe Maria, impetrai-me a santa perseverança.

Referências:

(1) Lc 23, 7
(2) Lc 23, 9
(3) 1Rs 3, 10
(4) Mt 27, 21
(5) Rm 8, 32
(6) Jo 3, 16

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 395-397)

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