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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O Poço deleitoso

O poço da doutrina sagrada é recomendado por três razões: por sua grande autoridade, porque é dada pelo Espírito Santo; por sua doçura e suavidade: Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! (Sl.,118,103); por sua fertilidade e fecundidade, porque não somente se comunica ao sábio, mas também aos ignorantes


Senhor, tu não tens com que a tirar, e o poço é fundo (Jo 4,11)
Capela S. Pio X I. Pela altura ou profundidade do poço se entende a profundidade da Sagrada Escritura e da sabedoria divina: é grande sua profundidade: quem o poderá sondar? (Eccles.,7,25). A roldana com que se tira a água da sabedoria salvadora é a oração: Se algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e não lança em rosto, e ser-lhe-á concedida (Tg.,1,51). O poço da doutrina sagrada é recomendado por três razões: por sua grande autoridade, porque é dada pelo Espírito Santo; por sua doçura e suavidade: Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! (Sl.,118,103); por sua fertilidade e fecundidade, porque não somente se comunica ao sábio, mas também aos ignorantes.
II. Propriedades da Sagrada Doutrina.
É Água corrente. Quando diz: a água que eu lhe der, virá a ser nele uma fonte de água (Jo.,4,14), mostra que sua doutrina é água viva pelo movimento da própria água. Por isso se diz que é fonte que corre: O ímpeto do rio alegra a cidade de Deus (SI.,5,5).
É Água ascendente. Um é o curso da água material, isto é, para baixo; e outro o da água espiritual, pois se dirige para cima. Por essa razão se diz: a água material não sacia a sede; mas a água que eu dou, não somente sacia a sede, mas que é viva, porque está unida à fonte. Por isso se diz: virá a ser nele uma fonte.
É Água que sobe até o céu. Virá a ser nele uma fonte de água que salte para a vida eterna (Jo.,4,14). Uma fonte que conduz à vida eterna pelas boas obras. Por isso diz: água que salte, ou seja, que faz saltar até à vida eterna, onde não há sede. E em outro lugar diz o mesmo Evangelista: O que crê em mim, como diz a Escritura (Is.,44,3; 55,1; Ez.,47) do seu seio correrão rios de água viva (ou seja, de bons desejos) (Jo.,VII,38). E o Profeta Davi: Realmente em Ti está a fonte da vida (SI., 35,10), o Espírito Santo, que é o espírito de vida.
MEDITACIONES. S. Tomás de Aqulno

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Os bons efeitos da oração

Notemos que a oração produz três espécies de bens. 
Primeiramente, constitui um remédio eficaz contra todos os males. Livra-nos dos pecados cometidos: «Remistes, Senhor, a iniqüidade de meu pecado, diz o Salmista (Sl 31,5-6) por isso todo homem santo dirigirá a Vós sua prece». Assim pediu o ladrão sobre a cruz e obteve seu perdão, pois Jesus lhe respondeu: «Em verdade vos digo, hoje mesmo estareis comigo no paraíso». (Lc 23,43), Do mesmo modo rezou o publicano e voltou para casa justificado (cf. Lc 18,14). 
A oração nos liberta do medo dos pecados que virão, das tribulações e da tristeza. Alguém está triste entre vós? Reze com a alma tranqüila (Tg 5,3). 
A oração nos livra das perseguições dos inimigos. Está escrito no Salmo 108, 4: Em resposta ao meu afeto me fizeram mal; eu, porém, orava.
Em segundo lugar, a oração é um meio útil e eficaz para a realização de todos os nossos desejos. Tudo o que pedirdes na oração, diz Jesus, crede, recebereis. (Mc 11,24).
Se não somos atendidos, será porque — ou não pedimos com insistência: é preciso rezar sem descanso (Lc 18, 1) — ou então não pedimos o que é mais útil à nossa salvação. «O Senhor é bom, diz Santo Agostinho, muitas vezes não nos concede o que queremos, para nos dar os bens, que desejaríamos receber, se nossa vontade estivesse bem de acordo com a sua divina vontade». São Paulo é exemplo disso, pois, por três vezes, pediu para ficar livre de um forte sofrimento em sua carne e não foi atendido (cf. II Cor 12,8). 
Em terceiro lugar a oração é útil, porque nos torna familiares de Deus. Que minha oração suba até vós, como a fumaça do incenso, diz o Salmista (Sl 140, 2).
Sermão sobre o Pai Nosso – São Tomás de Aquino

sábado, 18 de julho de 2015

“…MAS LIVRAI-NOS DO MAL. AMÉM.”

Nos pedidos precedentes, o Senhor nos ensina a implorar o perdão dos pecados e nos mostra como escapar das tentações. Aqui nos ensina a pedir que sejamos preservados do mal.
Este é um pedido geral. Segundo Santo Agostinho, visa as diferentes espécies de males: pecados, doenças, aflições. Já falamos do pecado e da tentação; resta-nos tratar das outras categorias de males: todas as adversidades e aflições deste mundo. Deus nos livra delas de quatro maneiras.
Em primeiro lugar, Deus livra o homem das aflições, afastando-as dele; o que faz raramente. Neste mundo, os santos são afligidos. Todos os que quiserem viver piamente em Cristo Jesus, padecerão perseguição, diz São Paulo. (2 Tm 3, 12).
No entanto, às vezes, Deus concede a alguns não serem afligidos. Quando Deus sabe que uma pessoa não suporta a prova, age como um médico que evita dar remédios violentos a um doente muito mal. Eis, diz o Senhor, (Ap 3,8) que pus diante de ti uma porta aberta que ninguém pode fechar.
Na pátria celeste é lei geral que ninguém seja afligido. Está no Apocalipse: (7, 16-17) Já não terão fome nem sede, nem cairá sobre eles o sol nem calor algum. Porque o Cordeiro, que está no meio do trono, os guardará e os levará às fontes das águas da vida, e Deus enxugará toda lágrima dos seus olhos.
Em segundo lugar, Deus nos livra do mal, enviando-nos consolações no tempo das aflições. Sem as consolações divinas, o homem não pode subsistir no meio das provações. Diz-nos São Paulo: (2 Cor 1, 8) Fomos mal tratados desmedidamente, além de nossas forças, e acrescenta: (2 Cor 7, 6) Deus porém que consola os humildes, consolou-nos. E canta o Salmista: (93, 19) Segundo as muitas dores que provou meu coração, as tuas consolações alegraram a minha alma.
Em terceiro lugar, Deus cumula os aflitos de tantos benefícios, que chegam a esquecer seus males. Depois da tempestade vem a bonança, dizia Tobias (3, 32). Assim não devemos temer as aflições e tribulações do mundo, que são facilmente suportadas por causa das consolações que Deus mistura a elas e também por causa de sua pouca duração. Diz São Paulo (2 Cor 4, 17) A ligeira tribulação do momento presente prepara para nós um peso eterno de glória, além de toda medida. Pois é a tribulação que nos faz alcançar a vida eterna.
Em quarto lugar — e para estender a idéia do mal a todos os males — Deus tira o bem de todos os males, tentações e tribulações.
Jesus não nos faz dizer: livrai-nos da tribulação, mas: livrai-nos do risco do mal que essas tribulações trazem.
Com efeito, as tribulações são dadas aos santos, para seu bem, para que mereçam a coroa da glória. Por isso, ao invez de pedir para serem liberados das tribulações, os santos fazem suas as palavras do Apóstolo: (Rm 5, 3) Não só nos gloriamos na esperança e na glória de Deus, mas também nos gloriamos nas tribulações, sabendo que as tribulações produzem a paciência. E repetem a oração de Tobias: (3, 13) Bendito seja o teu nome, ó Deus de nossos pais, que no tempo da aflição, perdoas os pecados aos que te invocam.
Assim Deus livra o homem do mal e da tribulação, transformando o mal em bem, o que é o sinal da maior sabedoria, pois, com efeito, pertence ao sábio ordenar o mal ao bem. Deus atinge este objetivo, dando ao homem paciência nas tribulações. As outras virtudes se servem dos bens, mas a paciência é a única que tira proveito dos males. São eles que a fazem necessária e é por isso que sua necessidade só aparece no meio dos males, isto é, nas adversidades. Lemos nos Provérbios: (19, 11) A sabedoria do homem conhece-se pela sua paciência, o que faz com que ordene o mal para o bem.
É por isso que o Espírito Santo, pelo dom de Sabedoria, nos faz dirigir este pedido ao Pai. Graças a este dom, alcançaremos a bem-aventurança, para a qual nos ordena a paz. A paciência, com efeito, nos assegura a paz, na adversidade. E por isso os pacíficos são chamados filhos de Deus, pois, são semelhantes a Deus. A eles, como a Deus, nada pode perturbar, nem a prosperidade nem a adversidade. Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. (Mt 5, 9).
Amém é a reafirmação geral de todos os sete pedidos da Oração Dominical.
Sermões de São Tomás

sexta-feira, 17 de julho de 2015

“…E NÃO NOS DEXEIS CAIR EM TENTAÇÃO…”

Há pecadores que desejam obter o perdão de seus pecados; confessam-se e fazem penitência, mas não se aplicam como devem, para não recaírem no pecado. São inconseqüentes consigo mesmos, pois choram e se arrependem de seus pecados, para em seguida caírem novamente nos mesmos pecados e assim acumularem motivo para lágrimas futuras. A propósito disto, diz o Senhor em Isaias: (1, 16) Lavai-vos, purificai-vos, tirai de diante de meus olhos a malignidade de vossos pensamentos: deixai de fazer o mal.
É por isso que Cristo, como dissemos, nos ensina, no pedido anterior, a implorar o perdão de nossos pecados e neste, a graça de evitar o pecado dizendo: e não nos deixeis cair em tentação, pois é verdadeiramente a tentação que nos induz ao pecado.
Neste pedido três questões atraem nossa atenção:
a) Que é a tentação?
b) Como e por quem o homem é tentado?
c) Como se livra da tentação?
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a) Que é a tentação?
Tentar não quer dizer mais do que: por à prova. Assim, tentar o homem, é por à prova sua virtude. A tentação pode ser de duas maneiras, segundo as exigências da virtude humana. Uma, quanto à perfeição da obra e outra, que o homem se guarde de todo o mal. É o que diz o Salmista: (Sl 33, 15) Evita o mal e fazes o bem.
A virtude do homem será pois provação, tanto do ponto de vista da excelência de se agir, quanto do seu afastamento do mal.
Se sois provados para saber, se estais prontos para praticar o bem, como, por exemplo, jejuar, e estais efetivamente prontos para o bem, grande é a vossa virtude.
Deste modo Deus prova o homem, não porque Ele não conhece sua virtude, mas para que assim todos a fiquem conhecendo e o tenham como exemplo. Deste modo Deus tentou Abraão (Gn 22) e Jó. Por isso Deus envia tribulações aos justos; se suportam com paciência, sua virtude é manifesta e progridem na virtude. O Senhor vosso Deus vos tenta, para se fazer manifesto se o amais ou não, dizia Moisés aos Hebreus (Dt 13, 3). Portanto Deus tenta o homem, provocando-o a fazer o bem.
O segundo modo de tentar a virtude do homem é incitá-lo ao mal. E se o homem resiste fortemente e não consente, sua virtude é grande, mas se ele não resiste, onde está sua virtude?
Deus nunca tenta o homem deste modo, pois nos diz São Tiago: (1, 13): Ninguém, quando é tentado, diga que Deus é que o tenta, pois Ele é incapaz de tentar para o mal. Mas quem tenta o homem é a própria carne, o diabo e o mundo.
b) Como e por quem é o homem tentado?
A carne tenta o homem de dois modos.
Primeiro, instigando o homem para o mal, pela procura dos gozos carnais, que são sempre ocasião de pecado. Quem permanece nos gozos carnais, negligencia as coisas espirituais. Diz-nos São Tiago: Cada um é tentado por sua própria concupiscência que o arrasta e seduz (Tg 1, 14).
Em segundo lugar, a carne nos tenta, desviando-nos do bem. Pois o espírito, por si mesmo, se deleita sempre com os bens espirituais; mas o peso da carne entrava o espírito. O corpo que se corrompe faz pesada a alma, diz o Livro da Sabedoria (9, 15) e São Paulo escreve aos romanos (7, 22): Pois me deleito na lei de Deus, segundo o homem interior; sinto, porém, nos meus membros outra lei, que repugna à lei de meu espírito e que me prende à lei do pecado, que está em meus membros.
Esta tentação da carne é muito forte porque a carne, nossa inimiga, está ligada a nós. E como disse Boécio: «Nenhuma peste é tão nociva, quanto um inimigo familiar». Por isto é preciso estar vigilante contra a carne. Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. (Mt 26, 41).
Ora, uma vez a carne dominada, outro inimigo aparece, o diabo, contra quem é enorme nossa luta. Diz-nos São Paulo: (Ef 6, 12) — não temos que lutar contra a carne e o sangue apenas, mas sim contra os principados e potestades, contra os dominadores do mundo das trevas, contra os espíritos de malícia, espalhados pelos ares. Donde é o diabo expressamente chamado o tentador, como nos mostra São Paulo: (1 Ts 3,5): Não vos haja tentado aquele que tenta.
O diabo age astutamente nas tentações. Assim como um general de exército, que sitia uma fortaleza, considera os pontos fracos que quer atacar, o diabo considera onde o homem é mais fraco para aí tentá-lo. E por isso tenta-o nos vícios a que o homem, subjugado pela carne, é mais inclinado, como o vício da ira, da soberba e outros vícios espirituais. Vosso adversário, o demônio, como um leão a rugir anda ao redor de vós, procurando a quem devorar, diz-nos São Pedro. (1 Pd 5, 8).
O demônio usa de suas táticas em suas tentações. No primeiro momento da tentação não propõe ao homem nada de declaradamente mau, mas alguma coisa que ainda tenha a aparência de um bem. Assim, de início, desvia ligeiramente o homem de sua orientação geral interior, o suficiente para, em seguida, levá-lo facilmente a pecar. Sobre isto escreve o Apóstolo aos Coríntios: (2 Cor 11, 14): O próprio Satanás se transfigura em anjo da luz.
Depois de ter induzido o homem ao pecado, prende-o para não permitir que ele se liberte de suas faltas.
Assim o demônio faz duas coisas: engana o homem e o conserva enganado em seu pecado.
O mundo por sua vez nos tenta de duas maneiras. Em primeiro lugar, por um desejo desmesurado das coisas temporais. A cupidez é raiz de todos os males, diz o Apóstolo (Tm 6, 10).
Em segundo lugar, o mundo nos incita ao mal por medo das perseguições e dos tiranos. Estamos envolvidos pelas trevas (Jo 37, 19) Pois todos os que quiserem viver piamente em Cristo Jesus sofrerão perseguição, escreve São Paulo (2 Tm 3, 12). E o Senhor recomenda a seus discípulos: (Mt 10, 20) Não temais os que matam o corpo.
c) Até aqui mostramos o que é a tentação e como o homem é tentado. Vejamos agora como o homem se livra da tentação.
Sobre isso é preciso notar que Cristo nos ensinou não a pedirmos para não sermos tentados, mas para não cairmos em tentação. Com efeito, é vencendo a tentação que o homem merece a coroa da glória. (cf. 1 Cor 9,25); (Pd 5, 4) É por isso que São Tiago (1, 2) declara: Meus irmãos, tende em conta da maior alegria o passardes por diversas tentações. E o Eclesiástico nos adverte: (2, 1): Filho, quando entrares no serviço de Deus… prepara tua alma para a tentação. Diz ainda São Tiago (1, 12) Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque depois de ser provado, receberá a coroa da vida. Assim Jesus nos ensina a pedir ao Pai para não cairmos em tentação, dando a esta nosso consentimento. Diz-nos São Paulo: (1 Cor 10, 13) Não vos sobreveio nenhuma tentação, que não seja humana. Ser tentado é humano, mas consentir é ter parte com o diabo.
Poderão objetar: uma vez que o Cristo disse explicitamente: Não nos induzi em tentação, isto é, não nos façais cair em tentação, não se deve deduzir daí, que é o próprio Deus, mais do que o diabo, que nos empurra ativamente para o mal?
Respondo assim:
É pelo fato de permitir o mal e não levantar contra ele obstáculo que Deus, por assim dizer, leva o homem a praticar o mal. Assim Deus será dito induzir o homem em tentação, quando retira dele sua graça, por causa dos inúmeros pecados anteriores deste homem; o que terá por efeito fazer o homem cair em novo e pior pecado. Para ser preservado desse mal, o Salmista pede a Deus em sua prece: (Sl 70, 90): Quando minhas forças faltarem, não me desampares.
Por outro lado, graças ao fervor da caridade, dado por Deus, o homem é ajudado de tal modo que não é induzido em tentação no sentido acima (n° 82, 83). A caridade, por menor que seja, resiste a qualquer pecado. As muitas águas não puderam extinguir a caridade, diz o Cântico dos Cânticos (8, 7).
Assim como Deus nos dirige pela luz da inteligência, também pela inteligência nos mostra as obras que devemos realizar. Segundo Aristóteles, todo pecador é um ignorante. Diz o Senhor (Sl 31, 8): Inteligência te darei e te instruirei neste caminho. E Davi pede esta luz, para bem agir (Sl 12, 4-5): Ilumina meus olhos, para que eu não durma jamais na morte. Para que o meu inimigo não venha a dizer: Eu prevaleci contra ele.
Esta luz nos vem pelo Dom da Inteligência.
Se recusamos nosso consentimento à tentação, guardamos a pureza de coração santificada por Jesus: (Mt 5, 8): Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus; e nós chegaremos à visão de Deus.
Que Deus a ela nos conduza efetivamente.
Sermões de São Tomás

quinta-feira, 16 de julho de 2015

“…PERDOAI AS NOSSAS DÍVIDAS ASSIM COMO NÓS PERDOAMOS AOS NOSSOS DEVEDORES…”

Muitas vezes, a grandeza da ciência e da sabedoria tornam o homem tímido, e então é preciso ter força no coração, para que o homem não desanime diante das necessidades.
O Senhor, diz Isaías (40, 29), dá força aos cansados e vigor aos que são fracos. E Ezequiel (2, 2) também diz: Entrou em,mim o Espírito, e me firmou sobre os meus pés.
O Espírito Santo, de um lado, dá força para impedir que o homem desfaleça com o medo de não ter o necessário, e por outro lado, para que o homem creia firmemente que Deus o proverá de tudo que precisar.
Assim o Espírito Santo, dispensador desta força, nos ensina a dizer: O pão nosso de cada dia nos dai hoje. E o chamamos Espírito de força.
É preciso saber, que nos três pedidos precedentes do «Pai Nosso», pedimos bens espirituais, cuja possessão começa neste mundo, mas só será perfeita na vida eterna.
Com efeito, quando pedimos a santificação do nome de Deus, pedimos que reconheçamos Sua santidade; pedindo a vinda de Seu reino, pedimos alcançar a vida eterna; pedir para que a vontade de Deus seja feita é pedir que Deus cumpra Sua vontade em nós. Todos esses bens, parcialmente realizados neste mundo, só o serão perfeitamente, na vida eterna.
Também é necessário pedir a Deus alguns bens indispensáveis, cuja possessão perfeita é possível na vida presente. Por isso, o Espírito Santo nos ensina a pedir estes bens, necessários à vida presente e perfeitamente possuídos aqui em baixo.
Ao mesmo tempo nos faz mostrar que é Deus que nos provê em nossas necessidades temporais, quando dizemos: «O pão nosso de cada dia nos dai hoje».
Por estas palavras, Jesus nos ensina a evitar os cinco pecados que se comete habitualmente por um desejo imoderado das coisas temporais.
O primeiro destes pecados é que o homem, insaciável, quanto às coisas que convêm a seu estado e a sua condição, e impelido por um desejo desregrado, pede bens que estão acima de sua condição. Age como um soldado que se queira vestir de oficial ou um clérigo, como um bispo.
Este vício desvia o homem das coisas espirituais, porque o prende excessivamente a coisas temporais.
O Senhor nos ensina a evitar tal pecado, mandando-nos pedir somente o pão, quer dizer, os bens necessários a cada um nesta vida, segundo a sua condição particular: sob o nome de «pão», estão compreendidos todos esses bens. O Senhor não nos ensinou a pedir coisas delicadas, variadas e exóticas, porém pão, sem o qual o homem não pode viver e que é o alimento comum a todos. O essencial da vida do homem, diz o Eclesiástico (29, 28), é a água e o pão. E o Apóstolo escreveu a Timóteo (1,6, 8): Tendo pois com que nos sustentar e com que nos cobrirmos, contentemo-nos com isso.
Um segundo vício consiste em cometer-se injustiças e fraudes na aquisição dos bens temporais.
Este é um vício perigoso, porque é difícil restituir os bens roubados e, segundo Santo Agostinho, «tal pecado não é perdoado, se não restituímos o que foi roubado».
O Senhor nos ensina a evitar este vício, pedindo para nós, não o pão de outrem, mas o nosso. Os ladrões comem o pão dos outros e não o seu próprio.
O terceiro pecado é a solicitude excessiva para com os bens terrenos. Há pessoas que nunca estão satisfeitas com o que têm e querem sempre mais.
Senhor, não me deis nem a Pobreza nem a riqueza: dai-me somente o que for necessário para viver, dizem os Provérbios (30, 8).
Jesus nos ensina a evitar este pecado pelas palavras: «de cada dia nos dai hoje», quer dizer, o pão de um só dia ou de uma só unidade de tempo.
58. — O quarta vício, causado pela apetite desmesurado das coisas daqui de baixa, consiste numa insaciável avidez das bens terrenas, uma verdadeira voracidade.
Querem consumir em um só dia o que é suficiente para muitas dias. Estes não pedem o pão de um dia, mas o de dez. Gastando sem medida, chegam a dissipar todas os seus bens, segundo a palavra dos Provérbios (23, 21): Passando o tempo a beber e a comer se arruínam, e segunda esta outra palavra (Ecl. 19, 1): O operário dado ao vinho não enriquecerá.
O deseja desregrada dos bens terrestres engendra um quinto pecado, a ingratidão.
Este é o deplorável vício do homem que se orgulha de suas riquezas e não reconhece que as deve a Deus, autor de todos os bens espirituais e temporais, segunda a palavra de Davi (I Par. 29, 14): Teu é tudo e o recebemos de tua mão.
Para afastar esse vício e fixarmos que todos esses bens vêm de Deus, Jesus nos faz dizer: «Dai-nos nosso pão».
Recolhamos a lição da experiência e das Sagradas Escrituras a respeito do caráter perigosa e nociva das riquezas.
Quantas vezes se possui grandes riquezas e não se tira qualquer utilidade delas, mas, ao contrário, males espirituais e temporais.
Há homens que morrem par causa de suas riquezas. Há ainda um mal que tenho visto debaixo do sol, diz o Eclesiastes (6, 1-2), e ordinário por certo entre os homens: um homem a quem Deus deu riquezas, bens e honra; nada falta à sua alma de tudo o que pode desejar, e Deus não lhe concedeu o poder de gozar destes bens, mas virá um homem estranho a devorar suas riquezas. E diz ainda o Eclesiastes (5, 12): Ainda há outra enfermidade bem má debaixo do sol: as riquezas acumuladas em detrimento de seu dono.
Devemos, portanto, pedir a Deus que nossas riquezas nos sejam úteis. Quando dizemos: «Dai-nos o nosso pão», é isso que pedimos, que os nossos bens nos sejam úteis e que não se verifique conosco o que está escrito do homem mau (Jo 20, 14,15): o pão, em suas entranhas, se converterá em fel de áspides. Vomitará as riquezas que devorou e Deus lhas fará sair das entranhas.
Voltando ao vício de uma solicitude excessiva em relação aos bens terrenos, vemos homens que se inquietam hoje com o pão de um ano inteiro, e se chegam a possuí-lo, nem por isso, deixam de se atormentar. Mas o Senhor lhes diz (Mt 6, 31): Não vos inquieteis, pois, dizendo: que comeremos ou o que beberemos ou com que nos vestiremos? Também Deus nos ensina a pedir para hoje o pão nosso, quer dizer, o necessário para o momento presente.
Existem além do pão, alimento do corpo, duas outras qualidades de pão. O pão sacramental e o da palavra de Deus.
Na Oração Dominical também pedimos nosso pão sacramental que é todo dia preparado na Igreja e que recebemos como sacramento, como penhor de nossa salvação.
Jesus declarou aos Judeus (Jo 6,5): Eu sou o Pão vivo que desceu do céu. — Quem come deste pão, e bebe do cálice do Senhor indignamente, come e bebe para si a condenação (1 Cor 11, 29).
Pedimos também na Oração Dominical este outro pão que é a palavra e Deus. Deste pão disse Jesus (Mt 4, 4): Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus.
Pedimos assim que nos dê pão, isto é, o Verbo de Deus, de onde provém para o homem a bem-aventurança da fome e sede de justiça. Quanto mais bens espirituais possuímos, mais desejamos e este desejo aguça o apetite e a fome, que será saciada na vida eterna.
Sermões de São Tomás

quarta-feira, 15 de julho de 2015

“…O PÃO NOSSO DE CADA DIA NOS DAI HOJE…”

Muitas vezes, a grandeza da ciência e da sabedoria tornam o homem tímido, e então é preciso ter força no coração, para que o homem não desanime diante das necessidades.
O Senhor, diz Isaías (40, 29), dá força aos cansados e vigor aos que são fracos. E Ezequiel (2, 2) também diz: Entrou em,mim o Espírito, e me firmou sobre os meus pés.
O Espírito Santo, de um lado, dá força para impedir que o homem desfaleça com o medo de não ter o necessário, e por outro lado, para que o homem creia firmemente que Deus o proverá de tudo que precisar.
Assim o Espírito Santo, dispensador desta força, nos ensina a dizer: O pão nosso de cada dia nos dai hoje. E o chamamos Espírito de força.
É preciso saber, que nos três pedidos precedentes do «Pai Nosso», pedimos bens espirituais, cuja possessão começa neste mundo, mas só será perfeita na vida eterna.
Com efeito, quando pedimos a santificação do nome de Deus, pedimos que reconheçamos Sua santidade; pedindo a vinda de Seu reino, pedimos alcançar a vida eterna; pedir para que a vontade de Deus seja feita é pedir que Deus cumpra Sua vontade em nós. Todos esses bens, parcialmente realizados neste mundo, só o serão perfeitamente, na vida eterna.
Também é necessário pedir a Deus alguns bens indispensáveis, cuja possessão perfeita é possível na vida presente. Por isso, o Espírito Santo nos ensina a pedir estes bens, necessários à vida presente e perfeitamente possuídos aqui em baixo.
Ao mesmo tempo nos faz mostrar que é Deus que nos provê em nossas necessidades temporais, quando dizemos: «O pão nosso de cada dia nos dai hoje».
Por estas palavras, Jesus nos ensina a evitar os cinco pecados que se comete habitualmente por um desejo imoderado das coisas temporais.
O primeiro destes pecados é que o homem, insaciável, quanto às coisas que convêm a seu estado e a sua condição, e impelido por um desejo desregrado, pede bens que estão acima de sua condição. Age como um soldado que se queira vestir de oficial ou um clérigo, como um bispo.
Este vício desvia o homem das coisas espirituais, porque o prende excessivamente a coisas temporais.
O Senhor nos ensina a evitar tal pecado, mandando-nos pedir somente o pão, quer dizer, os bens necessários a cada um nesta vida, segundo a sua condição particular: sob o nome de «pão», estão compreendidos todos esses bens. O Senhor não nos ensinou a pedir coisas delicadas, variadas e exóticas, porém pão, sem o qual o homem não pode viver e que é o alimento comum a todos. O essencial da vida do homem, diz o Eclesiástico (29, 28), é a água e o pão. E o Apóstolo escreveu a Timóteo (1,6, 8): Tendo pois com que nos sustentar e com que nos cobrirmos, contentemo-nos com isso.
Um segundo vício consiste em cometer-se injustiças e fraudes na aquisição dos bens temporais.
Este é um vício perigoso, porque é difícil restituir os bens roubados e, segundo Santo Agostinho, «tal pecado não é perdoado, se não restituímos o que foi roubado».
O Senhor nos ensina a evitar este vício, pedindo para nós, não o pão de outrem, mas o nosso. Os ladrões comem o pão dos outros e não o seu próprio.
O terceiro pecado é a solicitude excessiva para com os bens terrenos. Há pessoas que nunca estão satisfeitas com o que têm e querem sempre mais.
Senhor, não me deis nem a Pobreza nem a riqueza: dai-me somente o que for necessário para viver, dizem os Provérbios (30, 8).
Jesus nos ensina a evitar este pecado pelas palavras: «de cada dia nos dai hoje», quer dizer, o pão de um só dia ou de uma só unidade de tempo.
58. — O quarta vício, causado pela apetite desmesurado das coisas daqui de baixa, consiste numa insaciável avidez das bens terrenas, uma verdadeira voracidade.
Querem consumir em um só dia o que é suficiente para muitas dias. Estes não pedem o pão de um dia, mas o de dez. Gastando sem medida, chegam a dissipar todas os seus bens, segundo a palavra dos Provérbios (23, 21): Passando o tempo a beber e a comer se arruínam, e segunda esta outra palavra (Ecl. 19, 1): O operário dado ao vinho não enriquecerá.
O deseja desregrada dos bens terrestres engendra um quinto pecado, a ingratidão.
Este é o deplorável vício do homem que se orgulha de suas riquezas e não reconhece que as deve a Deus, autor de todos os bens espirituais e temporais, segunda a palavra de Davi (I Par. 29, 14): Teu é tudo e o recebemos de tua mão.
Para afastar esse vício e fixarmos que todos esses bens vêm de Deus, Jesus nos faz dizer: «Dai-nos nosso pão».
Recolhamos a lição da experiência e das Sagradas Escrituras a respeito do caráter perigosa e nociva das riquezas.
Quantas vezes se possui grandes riquezas e não se tira qualquer utilidade delas, mas, ao contrário, males espirituais e temporais.
Há homens que morrem par causa de suas riquezas. Há ainda um mal que tenho visto debaixo do sol, diz o Eclesiastes (6, 1-2), e ordinário por certo entre os homens: um homem a quem Deus deu riquezas, bens e honra; nada falta à sua alma de tudo o que pode desejar, e Deus não lhe concedeu o poder de gozar destes bens, mas virá um homem estranho a devorar suas riquezas. E diz ainda o Eclesiastes (5, 12): Ainda há outra enfermidade bem má debaixo do sol: as riquezas acumuladas em detrimento de seu dono.
Devemos, portanto, pedir a Deus que nossas riquezas nos sejam úteis. Quando dizemos: «Dai-nos o nosso pão», é isso que pedimos, que os nossos bens nos sejam úteis e que não se verifique conosco o que está escrito do homem mau (Jo 20, 14,15): o pão, em suas entranhas, se converterá em fel de áspides. Vomitará as riquezas que devorou e Deus lhas fará sair das entranhas.
Voltando ao vício de uma solicitude excessiva em relação aos bens terrenos, vemos homens que se inquietam hoje com o pão de um ano inteiro, e se chegam a possuí-lo, nem por isso, deixam de se atormentar. Mas o Senhor lhes diz (Mt 6, 31): Não vos inquieteis, pois, dizendo: que comeremos ou o que beberemos ou com que nos vestiremos? Também Deus nos ensina a pedir para hoje o pão nosso, quer dizer, o necessário para o momento presente.
Existem além do pão, alimento do corpo, duas outras qualidades de pão. O pão sacramental e o da palavra de Deus.
Na Oração Dominical também pedimos nosso pão sacramental que é todo dia preparado na Igreja e que recebemos como sacramento, como penhor de nossa salvação.
Jesus declarou aos Judeus (Jo 6,5): Eu sou o Pão vivo que desceu do céu. — Quem come deste pão, e bebe do cálice do Senhor indignamente, come e bebe para si a condenação (1 Cor 11, 29).
Pedimos também na Oração Dominical este outro pão que é a palavra e Deus. Deste pão disse Jesus (Mt 4, 4): Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus.
Pedimos assim que nos dê pão, isto é, o Verbo de Deus, de onde provém para o homem a bem-aventurança da fome e sede de justiça. Quanto mais bens espirituais possuímos, mais desejamos e este desejo aguça o apetite e a fome, que será saciada na vida eterna.
Sermões de São Tomás

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