segunda-feira, 10 de abril de 2017

SEGUNDA-FEIRA SANTA – MEDITAÇÃO PARA A TARDE

Jesus preso à coluna e flagelado
Tunc ergo apprehendit Pilatus Iesum et flagellavit — “Pilatos tomou então a Jesus e o mandou açoitar”(Io. 19, 1).
Sumário: Contemplemos como os algozes pegam dos açoites e a um sinal dado começam a bater por toda a parte em nosso divino Redentor. Seu corpo virginal primeiro torna-se roxo; depois começa a correr o sangue, e com tão grande abundância, que ficam manchados, não só os açoites, senão também as vestes dos algozes e a própria terra. Pelo que o Senhor ficou transfigurado como um leproso, coberto de chagas desde a cabeça até aos pés. E nós continuaremos a acariciar esta carne rebelde?
Vendo Pilatos que falharam os dois meios empregados para não ter que condenar ao inocente Jesus, isto é, a remessa para Herodes e a apresentação ao lado de Barrabás, toma o alvitre de lhe dar um castigo qualquer e depois mandá-Lo embora. Convoca portanto os Judeus e lhes diz: “Apresentastes-me este homem como um agitador; não acho, porém, n’Ele culpa alguma, nem tampouco a achou Herodes. Todavia para vos contentar mandarei castigá-Lo e depois mandá-Lo-ei embora.” Ó Deus, que injustiça clamorosa! Declara-O inocente, e depois manda-O castigar!
Mas, qual é o castigo, ó Pilatos, a que condenas este inocente? Vais condená-Lo a ser açoitado? A um inocente infliges uma pena tão cruel e tão vergonhosa? Sim, foi o que se fez. Tunc ergo apprehendit Pilatus Iesum, et flagellavit (1) — “Então Pilatos tomou a Jesus e mandou que O açoitassem.” — Minha alma, contempla como, depois de uma ordem tão injusta, os algozes agarram furiosos o Cordeiro mansíssimo, e entre gritos e alaridos o levam ao Pretório e o prendem à coluna. E Jesus, que faz Jesus? Todo humilde e submisso, aceita por nossos pecados o tormento tão doloroso e ignominioso. Eis como os verdugos já pegam dos açoites, e ao sinal dado levantam os braços e começam a bater por toda a parte, na carne sagrada do Senhor. — Ó algozes, estais enganados, o criminoso não é Ele; fui eu que mereci esses castigos.
Ó minha alma, queres ser do número daqueles que indiferentes contemplam um Deus açoitado? Considera a dor, e mais ainda o amor com que o teu dulcíssimo Senhor padece por ti tão grande suplício. Com certeza, entre os açoites Jesus pensava em ti. Se Ele tivesse sofrido por amor de ti um golpe só, já deverias estar abrasado de amor para com Jesus e dizer: “Um Deus quis ser batido por amor de mim!” Jesus porém quis, para satisfação de teus pecados, que Lhe fossem rasgadas e dilaceradas todas as carnes, segundo a profecia de Isaías: Ipse autem vulneratus est propter iniquitates nostras (2) — “Ele foi ferido pelas nossas iniqüidades”.
O corpo virginal de Jesus primeiro torna-se todo roxo; depois o sangue começa a correr por toda a parte. Ó céus! Os algozes já Lhe rasgaram a carne toda, e sem piedade continuam a bater nas feridas e a ajuntar novas dores. Assim o mais famoso de todos os homens fica tão desfigurado, que impossível é reconhecê-Lo. Numa palavra, Jesus é reduzido a um estado tão lastimável, que parece como que um leproso, coberto de chagas desde a cabeça até aos pés: Et nos putavimus eum quasi leprosum (3) — “E nós o julgamos como que um leproso”. E para que tudo isso? Para me livrar dos suplícios eternos. Desgraçado e infeliz de quem não Vos ama, ó Deus de amor!
Mas enquanto os algozes O açoitam tão cruelmente, que faz o nosso amável Salvador? Não fala, não se queixa, não geme; mas paciente oferece tudo a Deus a fim de abrandá-Lo para conosco. Sicut agnus coram tondente se, sine voce, sic non aperuit os suum (4) — “Como um cordeiro diante do que o tosquia, emudeceu, e não abriu a sua boca”.
Ah, meu Jesus, Cordeiro inocente! Os bárbaros algozes Vos Tiram, já não a lã, mas, sim, a pele e a carne. É esse o batismo de sangue pelo qual suspirastes durante a vossa vida toda. Eia, minha alma, lava-te no sangue precioso de que foi embebida aquela terra ditosa. — Meu dulcíssimo Salvador, como poderei duvidar do vosso amor, vendo-Vos todo ferido e dilacerado por meu amor? Cada chaga é uma prova inegável do afeto que me tendes. Cada ferida pede-me que Vos ame. Uma só gota do vosso sangue era bastante para a minha salvação; mas Vós quereis derramá-lo todo sem reserva, a fim de que eu também me dê a Vós sem reserva. Sim, meu Jesus, sem reserva alguma me dou todo a Vós; aceitai-me e ajudai-me a ser-Vos fiel. Fazei-o pelas dores de vossa e minha querida Mãe Maria. (I 612.)
  1. Io. 19, 1
    2. Is. 53, 5.
    3. Is 53, 4.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso

SEGUNDA-FEIRA SANTA – MEDITAÇÃO PARA A MANHÃ

Jesus é levado a Pilatos e a Herodes e posposto a Barrabás.
Et vinctum adduxerunt eum, et tradiderunt Pontio Pilato praesidi — “E preso O conduziram e entregaram ao governador Pôncio Pilatos” (Matth. 27, 2).
Sumário. Imaginemos ver Jesus Cristo, que em meio de uma multidão de gentalha insolente é conduzido ao tribunal de Pilatos, depois ao de Herodes e afinal novamente ao de Pilatos. Este, para livrá-Lo, apresenta-O ao povo juntamente com um ladrão e assassino; mas o povo responde: Seja livre Barrabás, e Jesus seja crucificado. Ó céus! Todas as vezes que pecamos, fizemos o mesmo, pospondo nosso Deus a um vil interesse, a um pouco de fumo, a um vil prazer.
I. Ao amanhecer, os príncipes dos sacerdotes novamente declaram Jesus réu de morte, e depois conduzem-no a Pilatos, a fim de que este O condene a morrer crucificado. Pilatos, tendo interrogado diversas vezes tanto os Judeus como nosso Salvador, reconhece que Jesus é inocente e que todas as acusações são calúnias. Sai, pois, para fora e declara que não acha em Jesus culpa alguma para condená-Lo. Vendo, porém, que os Judeus se empenhavam sumamente em fazê-Lo morrer, e ouvindo que Jesus era da Galiléia, para tirar-se dos apuros, remisit eum ad Herodem (1) — “devolveu-O a Herodes”.
Herodes ficou muito contente ao ver Jesus levado à sua presença. Esperava ver um dos muitos milagres obrados pelo Senhor e dos quais tinha ouvido falar. Interrogou-O muito, mas Jesus se calou e não lhe deu resposta alguma; castigando assim a vã curiosidade daquele insolente: At ipse nuhil illi respondebat (2). Ai da alma a qual o Senhor não fala mais. — Meu Jesus, eu também tinha merecido este castigo, por ter resistido tantas vezes às vossas misericordiosas inspirações. Mas, meu amado Redentor, tende piedade de mim e falai-me: Loquere, Domine, quia audit servus tuus (3) — “Falai, Senhor, porque o vosso servo escuta”. Dizei-me o que desejais de mim; quero obedecer-Vos e contentar-Vos em tudo.
Herodes, vendo que Jesus não lhe respondia, desprezou-O e tratando-O como a um doido, fez escárnio d’Ele, mandando-O vestir uma túnica branca, e motejou dele com toda a sua corte, e assim desprezado e escarnecido mandou-O de novo a Pilatos. Eis que Jesus, vestido com aquele manto de escárnio, é levado pelas ruas de Jerusalém. — Ó meu desprezado Salvador, faltava-Vos ainda esta injúria, a de ser tratado como um doido. Cristão, vede como o mundo trata a Sabedoria eterna! Feliz de quem se compraz em ser considerado pelo mundo como doido, e não quer saber outra coisa senão a Jesus crucificado, amando os sofrimentos e os desprezos! Perante Deus terá mais valor um desprezo suportado em paz por amor d’Ele, do que mil disciplinas.
II. O povo israelítico tinha direito a exigir do governador romano no grande dia da Páscoa que deixasse ir livre um dos prisioneiros. Pelo que Pilatos lhes mostrou Jesus e Barrabás, homem criminoso, dizendo: Quem vultis dimittam, vobis, Barabbam an Iesum? (4) — “Qual quereis que vos solte, Barrabás ou Jesus?” Pilatos esperava que o povo com certeza preferiria Jesus a Barrabás, um celerado, homicida e salteador, que todos deviam detestar. Mas o povo, instigado pelos príncipes da sinagoga, de repente e sem deliberar, pede Barrabás. — Pilatos, surpreso e indignado ao ver um inocente posposto a tão grande malfeitor, diz: Quid igitur faciam de Iesu? — “Que farei então de Jesus?” Todos gritam: “Seja crucificado!” Pergunta outra vez Pilatos: “Mas, que mal fez Ele?” Eles porém gritam com mais força: “Seja crucificado!” Crucifigatur!
Assim como Jesus e Barrabás foram apresentados ao povo, assim também perguntou-se ao Pai Eterno, qual Ele queria que fosse salvo, seu Filho ou o pecador. E o Pai Eterno respondeu: Morra meu Filho e seja salvo o pecador. É o que nos afirma o Apóstolo (5); é o que nos diz Jesus Cristo mesmo: Sic Deus dilexit mundum, ut Flium suum unigenitum daret (6) — “Tanto amou Deus ao mundo, que lhe deu seu Filho unigênito”. — Mas, como é que os homens correspondem a estas supremas finezas do amor?
Ai de mim, meu Senhor! Todas as vezes que cometi o pecado, fiz como os Judeus. A mim também se perguntava o que desejava: a Vós ou ao vil prazer; e respondi: Quero o prazer e pouco se me dá perder o meu Deus. É assim que falei então; mas agora estou arrependido de todo o coração, e digo que prefiro a vossa graça a todos os prazeres e tesouros do mundo. Ó Bem infinito, ó meu Jesus, amo-Vos acima de todos os outros bens; só a Vós quero e nada mais. — Ó Mãe das dores, minha Mãe Maria, impetrai-me a santa perseverança. (I 610.)
  1. Luc. 23, 7.
    2. Luc. 23, 9.
    3. 1 Reg. 3, 10.
    4. Matth. 27, 21.
    5. Rom. 8, 32.
    6. Io. 3, 16.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso

O Martírio de Maria



A beleza de Jesus é inesgotável. Assim como a visão de Deus no Céu, ela é sempre variada e, todavia, sempre a mesma; sempre cara como uma jóia antiga e familiar e, no entanto, sempre um objeto de surpresa e refrigério para o espírito, como se fosse, na realidade, sempre nova. Jesus é belo sempre, belo em toda parte, tanto desfigurado pelos tormentos da Paixão, como entre os esplendores da Ressurreição; tanto nos horrores da Flagelação, como entre os encantos indescritíveis de Belém. Mas, sobretudo, Nosso Senhor é belo em Sua Mãe. Se nós amamos Jesus, devemos amar também Maria. É preciso que conheçamos a Mãe para conhecer o Filho. Assim como não há verdadeira devoção para com a Santa Humanidade do Salvador sem a fé em Sua Divindade, assim não teremos senão um amor insuficiente pelo Filho se O separamos de Sua Mãe, se deixamos Esta de lado, como se fosse um simples instrumento que Deus escolheu da mesma maneira que poderia escolher uma coisa inanimada, da qual não se olha nem a santidade nem a conveniência moral. Ora, amar a Jesus cada vez mais é a nossa tarefa de cada dia. Os anos seguem-se aos anos; a antiga sucessão das festas sempre se repete; as divisões bem conhecidas do ano cristão nos atingem, fazem sobre nós sua impressão e prosseguem seu curso. Quantas festas de Natal, Semana Santa, Pentecostes, nós já vimos passar, marcadas cada uma por algum acontecimento que as deixou marcadas em nosso espírito!

  Estas festas, passamo-las uma num local, outra noutro; aquelas em certas circunstâncias, estas em outras. Algumas dentre elas, graças a Deus, distinguiram-se por marcantes efusões do coração, na vida interior, de maneira a modificar ou a fortificar nossa devoção e a influenciar notavelmente nossas relações pessoais com Deus. Os fundamentos de numerosos edifícios, que não se elevariam sob o sol senão muito mais tarde, eram então lançados, embora quase imperceptíveis. Todavia, quaisquer que tenham sido as mudanças vistas ou operadas por essas festas, elas sempre nos encontraram ocupados com uma só e mesma obra, a saber, com nos esforçarmos por amar a Jesus cada vez mais. E, através de todas essas mudanças e de toda essa perseverança em nossa obra única, nossa experiência nos diz, com razão, que nós nunca avançamos tão rapidamente em nosso amor pelo Filho como quando passamos pela Mãe, e que o que nós edificamos mais solidamente para Jesus é o que há sido edificado com Maria. Não perdemos tempo na busca por Jesus, se vamos junto a Maria, pois Ele está sempre com Ela, sempre em Sua casa. A obscuridade dos mistérios de nosso Salvador se muda em claridade quando nos aproximamos da luz de Maria – que é a mesma luz de Seu Filho. Maria é a rota abreviada para chegar a Jesus. Ela tem um extremo acesso junto a Ele. Ela é a Sua Ester, e suas respostas às petições apresentadas por Ela são prontas e completas.

  Mas Maria é um mundo que nós não podemos abraçar com um único olhar. Devemos nos devotar a Seus mistérios particulares. Devemos pôr em destaque certas regiões deste mundo da graça e concentrar nossa atenção sobre elas. Devemos examiná-las e descrevê-las com exatidão antes de passar a outras, e então aprenderemos muito, ao passo que uma vista apenas geral nos impossibilitaria obter um conhecimento suficiente e encher nossas almas de riquezas espirituais, riquezas ao mesmo tempo de ciência e amor, capazes de nos aproximar eternamente de Nosso Senhor por uma união mais íntima com Ele. Como a Vontade bendita de Deus persevera em nos conservar a vida e nos reter, por Seus
misericordiosos desígnios, em meio a este desalento e a esta angustiante possibilidade de pecar, determinemo-nos, ao menos, a não nos ocupar senão de Deus, pois, afinal, há muito que não temos uma outra ocupação que valha a pena. Há ainda, mesmo na extensa sombra dos tristes desertos do mundo, milhares de oásis, onde podemos trabalhar ao ruído de águas vivas e conversar com Ele nas horas frescas do dia; e podemos errar de um oásis a outro segundo a fraqueza ou a força do nosso amor nos levar. Quanto ao presente, vamos nos deter no jardim das dores de Maria. É um dos mais prezados jardins de Deus e não podemos aí trabalhar senão à sombra de Sua presença e com o amor de Jesus maravilhosamente tomando posse de nossa alma. Pois o amor de Jesus está no ar puro deste jardim, nas emanações de seu chão lavrado, no odor de suas flores, no burburinho de suas folhas, no canto de seus pássaros, no brilho de seu sol, no ruído tranqüilo das cascatas que jorram de suas rochas. Por amor ao Senhor é aí que nos prenderemos algum tempo como num claustro, e o mundo, para o qual somos de pouca importância, e que é, ele mesmo, de menos importância ainda para nós do que nós para ele, deixará durante uma temporada de nos encontrar em nosso posto.

  A lei da Encarnação é uma lei de sofrimento. Nosso Senhor foi o Homem das Dores, e por Seus sofrimentos é que Ele resgatou o mundo. Sua Paixão não foi um mistério isolado do resto de Sua Vida; ela foi simplesmente o fim e o desenlace que mais convinha. O Calvário não difere de Belém ou Nazaré: ele lhes sobrepassa em intensidade, mas sem diferir em natureza. Os 33 anos da Vida de Nosso Senhor foram passados num sofrimento contínuo, embora variado em espécie e intensidade. Esta mesma lei de sofrimento, que diz respeito a Jesus, atinge também todos aqueles que d’Ele se aproximam; ela os envolve na proporção mesma da santidade deles, e reclamando uma posse completa. Os Santos Inocentes não eram, nos conselhos de Deus, mais que os contemporâneos de Nosso Senhor, e esta proximidade bastou para os mergulhar num mar de sofrimentos. É pela lei que mencionamos que eles perecem duramente, nos braços de suas mães desesperadas, para receber em recompensa as coroas e as palmas eternas; feliz troca, magnífica fortuna tão rapidamente achada e tão maravilhosamente assegurada! A mesma lei envolverá cada um dos Apóstolos sobre os quais tombar a inefável escolha do Verbo Encarnado. Será uma cruz para Pedro e seu irmão André, uma espada para Paulo, uma espada para Tiago; será a faca que arrancará toda a pele de Bartolomeu, e para João o óleo fervente e os longos anos duma dolorosa espera. Qualquer que seja a forma exterior, há sempre o sofrimento interior. Este os seguiu em todas as suas contrariedades, os cobriu com sua sombra em todas as suas vicissitudes. Marchava com eles pelas estradas romanas, como se fôra um anjo guardião.      Acompanhava-os nas galés sobre as águas perigosas do Mediterrâneo. Como Apóstolos, eles tinham de ser semelhantes ao seu Mestre, tinham, pois, de passar pela escuridão do Calvário, fosse em Roma ou em Bactres, na Espanha ou em outros lados. A mesma lei há envolvido os Mártires de todos os tempos. Suas “paixões” eram reflexos vivos da grande Paixão, e o sangue que eles derramavam mesclava seus fluxos ao Preciosíssimo Sangue do Redentor, o Rei dos Mártires. E o mesmo se diga dos Santos todos, quer tenham sido bispos ou doutores, virgens ou matronas, leigos ou religiosos; um amor extraordinário, uma graça extraordinária sempre lhes chegava sob a forma duma provação extraordinária e dum extraordinário sofrimento. Eles também deviam ser mergulhados na escuridão do Calvário, para que pudessem ver, e ver de perto, a Face do Crucificado. E assim tem sido para todos os eleitos, cada um segundo a sua medida. É preciso que eles estejam compreendidos pelo menos nas bordas da escura nuvem que deve, ao passar, cobri-los com sua sombra, talvez mais de uma vez, para assegurar-lhes a salvação de suas almas, em lhes proporcionando uma semelhança suficiente com seu Mestre. Que deveríamos pensar, portanto, da Mãe de Jesus, que, de todas as criaturas, é a que mais perto se encontra a Ele?

  Não há como nos surpreendermos, pois, se Maria sofre mais do que qualquer pessoa, depois de Jesus. A imensidade de Suas dores não será para nós um escândalo, nem uma surpresa; será antes a conclusão natural de tudo o que sabemos do grande mistério da Encarnação. A amplidão de Seus sofrimentos serve como medida da magnificência do amor de Seu Filho por Ela. E a profundeza de Suas penas será o mais seguro meio de sondar o abismo de Seu amor por Seu Filho. O imenso oceano de Suas dores dará a medida da grandeza de Sua santidade. É a altura de Sua divina Maternidade que elevará Seus sofrimentos às alturas da divina Paixão. Isenta do pecado, Ela parecerá quase submetida à mesma lei vivificante de expiação [que os pecadores]. A união da Mãe com o Filho torna inseparáveis a Compaixão de Maria e a Paixão de Jesus, apesar das muitas razões pelas quais manifestamente se distinguem uma da outra.
  A Mulher revestida do sol será envolvida de todos os lados pela brilhante escuridão deste terrível destino que Jesus se digna fixar e, em seguida, aceitar como a grande lei de Sua Encarnação. Devemos assim estar preparados, pois, para o fato de que as dores de Maria sobrepassam a capacidade de nossa imaginação, indo além de toda descrição. Nós podemos somente contemplá-las com os instrumentos que nos fornecem a fé e o amor, e observar a beleza e a estranheza de tantos fenômenos que não podemos compreender senão imperfeitamente. É nos possível, assim, particularmente, aumentar nossa devoção à Paixão, da qual várias regiões desconhecidas são momentaneamente esclarecidas para nós pelo contato das dores de Maria, do mesmo modo que, no eclipse de Júpiter, este luminoso planeta, ao atingir com seu raio a porção obscura da Lua, projeta, como uma revelação, uma linha momentânea de luz ao longo do lado invisível do astro da noite, provando, assim, a realidade do que não se vê.


  Mas, antes de pedir a São João Evangelista que nos tome pela mão e desça conosco às profundezas deste Coração sofrido, que ele, o santo do Sagrado Coração, conhece melhor que os outros, iremos lançar uma vista geral sobre as dores da Santa Virgem, como quando nos familiarizamos primeiro com o plano geral da geografia de um país antes de lhe conhecer os detalhes. Há sete pontos sobre os quais nos é necessária alguma explicação antes de podermos estudar com proveito os mistérios distintos de suas eminentes dores. Explicaremos, pois, como nos for possível, a imensidão das dores de Maria, o porquê Deus as permitiu, quais as suas causas, suas características, como Maria podia se alegrar em meio a elas, como a Igreja no-las apresenta, e qual deve ser o espírito de nossa devoção para com elas. São estas as questões que buscaremos responder, e as respostas, ainda que imperfeitas, serão para nós uma espécie de introdução ao tema.



Ao pé da Cruz ou As Dores de Maria, Padre Frederick William Faber.

Fonte: A grande Guerra

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Livrai-nos de nós!

Triste observar como cresceu, com a tecnologia, o progresso e as heresias, a solidão humana. À espantosa proporção de sorrisos distribuídos em selfies vem diametralmente oposta a infelicidade dos sorridentes


Frei Zaqueu (freizaqueu@gmail.com): Este artigo o dedico de forma especial às Ordens Contemplativas e de Clausura, escândalo de um mundo escandaloso e escandalizável.
Maria é a obra-prima por excelência do Altíssimo, cuja posse e conhecimento Ele reservou para si. Maria é a Mãe admirável do Filho o qual quis humilhá-la e escondê-la durante a vida para favorecer a sua humildade. Para este fim tratava-a pelo nome de “Mulher” (Jo 2, 4; 19, 26), como a uma estranha, embora no seu Coração a estimasse mais do que a todos os anjos e a todos os homens.
(Tratado da Verdadeira Devoção)


O homem nunca se nutriu tão visceralmente do desejo de ser visto, ser notado, ser quisto ou comentado de alguma maneira, qualquer que seja, pelo motivo que seja. O comprovam o estado islâmico, o pcc e certo vulto eneadáctilo. O comprovam o corpo recém atropelado, agora por segunda vez pelas câmeras celulares de amadores jornalistas, ou ainda o escovar de dentes e a hora das necessidades íntimas tornados notícia do dia em redes sociais. O homem deseja ser visto pela necessidade de ser notado, e ser notado pela necessidade de ser quisto. Porque já não se vê, já não se nota, e não se quer. Isto posto, vamos ao que interessa.
†
Relendo estes dias o Tratado de S. Luis de Montfort, o extrato acima chamou-me a atenção por um detalhe pequeninamente relevante, e este é que Deus, pelo verdadeiro amor, preserva aos que ama pela omissão. Ele, não raro, os omite, esconde, apaga os holofotes, abrigando-os assim “sob suas asas” dos perigos que diuturnamente os ronda. E considerando a matéria de que somos feitos e de que matéria o demônio o é, isso não nos deveria entupir de barbitúricos, fazer com que socássemos uma bala na cabeça ou na melhor das hipóteses tornar-nos bulímicos, muito ao contrário. Ocorre que à maioria dos homens modernos – e ao usar homens recordo, como elementarmente o fez em dada entrevista o ainda hoje necessário Eneias Carneiro à jornalista Marília Gabriela, que o termo é plural genérico; em que pese as transitórias presidentas que passam atravancando os caminhos da gramática e de milhões de brasileiros – vem surgindo algo curioso digno de atenção: nunca o paladar foi tão alterado com o doce já bem amargo, e o amargo tão adocicado. E vamos metendo dedo na goela para acabar com o que não existe.
Dada a nada desprezível quantidade de complexos que incidem sobre o homem moderno, penso que todos possuam uma raiz comum. Com essa onda de morte ao Criador rondando a um certo tempo, a criatura não vem fazendo outra coisa que tapar simultaneamente nariz e boca obstruindo assim o livre trânsito do que lhe confere a vida e o mantém de olho aberto, mas piscando. E como nada se pode destruir se não for substituído, como dizia Napoleão, lógico é que ao tentar preencher o lugar do Moribundo dar-se-á com a cara no muro, porque se existe algo essencialmente necessário este é a Essência por excelência, recordando a um Boi mudo[1] medieval mais eloquente que as gralhas e hienas modernas. Mas o homem (plural genérico) não aprende, e como é pouco inteligentemente mais empacado que a mula (que quando empaca é por um bom motivo) vai tentando a todo custo e de modo patético substituir o Insubstituível, contingenciar o Necessário. Porém, como 2 + 2 não são nem 3,9 ou 4,1, não serão plásticas ou notas de rodapé que darão jeito. Não adianta querer evoluir neste sentido como não adianta botar a si mesmo, a namorada provocante, o vizinho sarado, a meretriz de luxo, o trabalho frenético, o Padre simpático, as mil e uma diversões ou o programa do Amaury Júnior como ersatz do Criador, cuja existência o comprova a existência de ateus. Pode-se ainda tentar insistir com viagens, baile funk, tabefe no mendigo da rua, horóscopo do dia, dilações do sr. Dawkins, sessão do descarrego, maracanã na segunda-feira ou gurus sob encomenda + novela das 7[2], e é aí que a coisa degringola. Na esteira do santo bispo de Hipona, ao se preterir o Doador pelos bens doados, ainda que legítimos, mantendo-se a devida distância da Essência, perde-se por inteiro uma coisa chamada identidade, sem chance de se obter uma segunda via; ou se cai em um crônico caso de amnésia existencial: “já não se sabe de onde veio ou para onde foi destinado. Melhor dizer, de Quem e para Quem..”[3]. Por isso o “Deus nos acuda”, uma vez que a medida da decepção é a da expectativa. E a cada novo paliativo, nova frustração. Não se acha mais o que agrade, pois o Objeto do agrado se inumou mais fundo que os sete palmos estipulados. Até que se dê conta de que tudo traz consigo o prazo de validade. A insatisfação vem simplesmente porque fomos feitos imagem e semelhança, e uma vez que “fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração inquieto está enquanto não repousa em Ti”[4]… “para onde fugirei?”[5].
Tenho a impressão de que a compulsão de ser vistos, comentados e quistos diária e freneticamente vem de mãos dadas a certo medo de escuro e solidão infantis nas crianças cuja inocência e pureza fazem parte do passado. Naquelas cujo Amigo Invisível (também conhecido como Anjo da Guarda) cedeu lugar ao Hellboy e seus comparsas. A questão é que já não se suporta estar na companhia da boa solidão, vivida e decantada em prosa e verso pelos santos. Porque já não cogitam os ego cogito sum modernos uma solidão que seja boa e benéfica, por isso receitada.
Deus, como dito acima, não poucas vezes nos deixa escondidos para nos manter preservados. Ou retira talentos, bens e dons para não perdermos coisa maior, ao modo dos pais que ao retirar a faca da mão de seus pequenos não lhes lesam, preservam. Ou dos pais que ao dar o devido corretivo no menino que muito insiste em brincar de boneca não lhe retira os direitos humanos, o humaniza. E nisto a máxima do santo de Montfort vem (muito) bem a calhar. A Virgem Maria, a mais bela e perfeita criatura, foi também (justamente por isso) a mais escondida, ainda que dela seja difícil se pensar em extração de dons. Muito simplesmente porque o muito belo muito se cobiça e nem sempre com a melhor das intenções.
Santa Teresa de Jesus certa vez reclamou da forma de tratamento dispensado por Jesus Cristo aos seus amigos dizendo à Sua Majestade – como O tratava – que por isso Ele os tinha em tão pouco número. Ao que respondeu o bom Mestre nada afeito a quantitativos: “É assim que trato a quem amo”. Não necessariamente nessa ordem foi a conversa, mas que nos sirva a moral da história. E essa moral é a de que a forma do tratamento divino se dá –não podia deixar de sê-lo – de forma muito justa, afinal poucos desejam abrir mão do supérfluo em proveito do essencial, que naturalmente é “invisível aos olhos” e custa caro.
O que recobra o magnifico exemplo da jovem Mãe que, antes, durante e depois, a si preferiu o escondimento por saber que muita luz ofusca e mesmo cega. Optou pela solidão repleta de presença porque tempranito entendeu que “só Deus basta”. E elegeu dar luz à Luz ao querer brilhar por conta e risco, posto ser é efêmero e fugaz. Maria foi assim uma menina e uma mulher incomum, tornando-se por isso modelo de felicidade. Ouçamo-la todos os bulímicos, carentes, violentos, afetados, afeminados, autossuficientes, revoltados, maliciosos, covardes, ignorantes e… soberbos; em uma palavra: nós. E preferencialmente antes de ser ainda suicidas. Seu ensino é simples: fazei o que Ele manda, como Ele o fez. De outra forma: que não há precisão de aparecer, basta com fazer reaparecer o que fizemos desaparecer e então desaparecerá o medo de não aparecer. Não ser visto ou notado, não ser noticiado ou quisto, ou ainda aplaudido e recompensado será então o menor dos problemas e o maior dos prazeres. Utopia? Quimera? Masoquismo? Visitemos um verdadeiro Claustro contemplativo; ou uma verdadeira Missa em latim. Rezemos com simplicidade honesta e deixemos selfies e facebooks uma semana que seja. E teremos a resposta.
Digo isto porque há o escondimento e há as razões. O primeiro pode ser quisto e buscado por várias segundas. Por isso há o escondimento do eremita e o do avestruz; há o da recatada, que se esconde da coisificação e da superficialidade, e o da exibida, que se oculta da virtude e da dignidade; como há ainda o medo do pecado e o da polícia, conduzindo obviamente a distintos claustros. Mas é ainda o santo de Montfort quem atesta, ao que busca o escondimento para se ver livre da escravidão travestida de liberdade, que jamais se estará sozinho neste esconderijo de Deus, posto estar situado em um Seio:
Santo Agostinho… afirma que os predestinados, para se tornarem conformes à imagem do Filho de Deus, vivem neste mundo escondidos no seio da Santíssima Virgem. Lá são guardados, alimentados, sustentados e criados por esta boa Mãe, até que Ela os gere para a glória depois da morte. Este é propriamente o dia do seu nascimento, pois é assim que a Igreja chama a morte dos justos.
Neste bem-aventurado Seio não há “luzes, câmera e ação” ou colunas sociais, porque a lógica é bastante outra. Ali, mais aparece quem mais se esconde, menos cresce quem menos diminui, mais se exalta quem menos se ensoberbece. Nele, por isso, não são necessárias selfies, mãos aplaudindo, caretas ovacionando ou kkk’s. Flores, corações e músicas romanticamente tristes ou tristemente românticas são perfeitamente dispensáveis. Manchetes, flashes, comentários e palavras cheias de sentido algum, tudo se torna muito bem descartável; pois – para ficar em um exemplo – fosse isto solução para o desespero, a tristeza, o sem sentido ou o crescente desejo não de encontrar, mas de sumir do mapa, muitas estrelas não teriam sumido do mapa hollywoodiano ou global, caído como relâmpagos, apagadas por todo o sempre (que o bom Deus tenha piedade de sua alma) amém.
O sábio aconselha ter mil como amigos, mas somente a um abrir o coração[6]. Buscamos no entanto com certo desespero escancarar o coração ao mundo sem importar uma única amizade fiel e desinteressada. Nisto há, penso, certa desconfiança de que já não haja em nós algo que nos agrade, porque esquecemos que somos casa, lar, abrigo. Mais: que esse lar foi pré-projetado para dar abrigo a Quem o projetou, elevando-o da condição de casa a de templo. Mas com o esquecimento, o que antes era casa vira depósito, não raro de lixo. Quiçá por isso já nos custe preservar casas, prédios, cidades, estados, países e mesmo o planeta, nossa casa comum…
Deus ao se fazer Homem não teve medo de ficar só, não só em função de sua autopreservação como Homem, mas também da nossa, dando-nos o exemplo. Não por acaso passou três décadas escondido com a Mãe e só três anos aberto ao entorno, bastando somente três horas na cruz para consumar tudo e salvar a Humanidade, como ouvi recentemente de um sacerdote de Deus.
Triste observar como cresceu, com a tecnologia, o progresso e as heresias, a solidão humana. À espantosa proporção de sorrisos distribuídos em selfies vem diametralmente oposta a infelicidade dos sorridentes. Tive neste sentido a oportunidade de presenciar um fato repleto de semântica e semiologia.  Estava em um passeio em local público quando, junto a um grupo de gente simples, separam-se em minha direção duas mocinhas do grupo ainda na idade da infância, com suas simples, pobres mas pouco decente indumentárias. Pararam a uma distância de uns dois metros. A maior delas tira então do bolso de seu shorts um celular notadamente menos simples e pobre que sua (pouca) roupa para uma selfie com a menor. As caretas e os sorrisos notoriamente artificiais produzidos para a ocasião e que duraram o tempo de um clic manifestaram, através daquelas crianças, uma categoria de felicidade até então para mim desconhecida ao menos na forma do neologismo que me vem à mente, o da “felicidade fotográfica”. O que quero dizer é que concluído o registro o fake sorriso se desfez numa fração de segundos, dando lugar ao que já estava ao modo de estado natural: semblantes insatisfeitos, enfadados, dotados de uma rudeza, feiura e tristeza incomuns às tenras fisionomias tão caras ao Redentor. Eram já crianças, ao que indicava, automatizadas e insensíveis ao bem, ao belo e ao verdadeiro. Mas algo ficou patente: ali estavam duas crianças carentes de serem vistas, notadas, quistas, ainda que por um objeto… que mui provavelmente equivaleria a umas boas cestas básicas em suas mesinhas deixando-as assim um pouco mais feliz ainda que sem selfies.
Estamos em que o mundo, a carne e o demônio desejam e oferecem purpurina, fantasia, arrepio e histerismo, em uma intensidade maior que de costume. Que eles nos sorriem com seus dentes de hiena. Que onde mais procuramos companhia, existem interesses. Que as presenças são a cada dia mais efêmeras e estéreis, feitas somente para a alegria não para a tristeza; apenas para a saúde não para a doença; exclusivamente para a riqueza não para a pobreza. Solitários quanto menos solidários, mendigando olhos que já não se veem a si mesmos, sorrisos que já não sorriem para si ou o sorriem à velocidade de um flash… E nisso estamos.
Mas como o tema é este e não outro deixemos que seja Ela a apontar à Luz ao fim do túnel: a Virgem com seu solitário sorriso pleno de solidariedade; sua laetitia manifestamente oculta; sua plena satisfação anônima e seu silêncio mais eloquente que o mundo. É tempo – enquanto o temos – de olhar à esta Virgem que por ter-se ocultado e permitido ser ocultada hoje é vista, notada e quista – e notícia! –, ainda que disto nunca fizesse questão. Porque a Menina optou por diminuir para que o Menino crescesse. Porque apontou ao Filho, da forma que o faria também um seu cavernoso e santo parente nada dado a suscetibilidades humanas. Porque abriu o coração à Vida, cobrindo seu corpo santo compreendido como templo e abrigo. E assim compreendendo, não teve dificuldade em perceber que todo hogar destelhado, com portas e janelas escancaradas, faz com que seus habitantes mais facilmente se molhem e sejam roubados. Daí que navegar não é assim tão preciso: religar é preciso.
Talvez hoje careçamos como nunca suplicar a que o bom e silencioso Deus, por isso, nos livre de nós, nossos maiores inimigos, devolvendo-nos assim a nós a dignidade perdida, a de seus maiores amigos.
Causa nostrae laetitia: ora pro nobis!
Em 16 de janeiro do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2017.
Frei Zaqueu
Notas
[1] Santo Tomás de Aquino, monge dominicano. Assim apodado por seus confrades por ser grande e corpulento, e falar pouco. Esta, uma característica geralmente associada aos que sabem e fazem muito.
[2] Aqui também utilizado como plural genérico.
[3] Frei Zaqueu: O Casamento Tem Cura.
[4] Santo Agostinho de Hipona, Bispo e Doutor.
[5] Sl CXXXIX.
[6] Eclo VI, 6.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Mortificação das quatro paixões naturais

Para mortificar as quatro paixões naturais que são: gozo, tristeza, temor e esperança, aproveita o seguinte:

Inclina sempre não ao mais fácil, mas ao mais difícil;
Não ao mais saboroso, mas ao mais insípido;
Não ao mais gostoso, mas ao que não dá gosto;
Não se inclinar ao que é descanso, mas ao mais trabalhoso;
Não ao que é consolo, mas ao que não é consolo;
Não ao mais, mas ao menos;
Não ao mais alto e precioso, mas ao mais baixo e desprezado;
Não ao que é querer algo, mas o que é não querer nada;
Não andar procurando das coisas o melhor, mas o pior; e por Jesus Cristo ter, para com todas as coisas do mundo, desnudez, vazio e pobreza.

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