sábado, 15 de março de 2025

Segunda dor de Maria Santíssima – Fugida para o Egito

 

Fugida para o Egito

Tire o maior proveito desta Meditação seguindo os passos

Accipe puerum et matrem eius, et fuge in Aegyptum – “Toma o Menino e sua Mãe, e foge para o Egito” (Mt 2, 13)

Sumário. A profecia de São Simeão acerca da Paixão de Jesus e das dores de Maria começou desde logo a realizar-se na fugida que teve de fazer para o Egito, a fim de subtrair o Filho à perseguição de Herodes. Pobre Mãe! Quanto não devia ela sofrer tanto na viagem como durante a sua permanência naquele país entre os infiéis! Vendo a Sagrada Família na sua fugida, lembremo-nos que nós também somos peregrinos sobre a terra. Para sentirmos menos os sofrimentos do exílio, à imitação de São José tenhamos conosco no coração a Jesus e Maria.

I. Como cerva, que ferida pela flecha, aonde vai leva a sua dor, trazendo sempre consigo a flecha que a feriu; assim a divina Mãe, depois da profecia funesta de São Simeão, levava sempre consigo a sua dor com a memória contínua da paixão do Filho. Tanto mais, que aquela profecia começou desde logo a realizar-se na fugida que o Menino Jesus teve de fazer para o Egito, a fim de se subtrair à perseguição de Herodes: Surge et accipe puerum et matrem eius et fuge in Aegyptum — “Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe, e foge para o Egito.”

Que pena, exclama São João Crisóstomo, devia causar ao Coração de Maria, o ouvir a intimação daquele duro exílio com seu Filho! “Ó Deus”, disse então Maria suspirando, como contempla o Bem-aventurado Alberto Magno, “deve, pois fugir dos homens aquele que veio a salvar os homens?”

Cada um pode considerar quanto padeceu a Santíssima Virgem naquela viagem. A estrada, conforme à descrição de São Boaventura, era áspera, desconhecida, cheia de bosques, pouco frequentada, e sobretudo muito longa, de modo que a viagem foi ao menos de trinta dias. O tempo era de inverno; por isso tiveram de viajar com neves, chuvas e ventos, por caminhos arruinados cheios de lama, sem terem quem os guiasse ou servisse. Maria tinha então quinze anos, e era uma donzela delicada, não acostumada a semelhantes viagens. Que dó fazia ver aquela Virgenzinha com o Menino nos braços e acompanhada somente de São José!

Pergunta São Boaventura: Quomodo faciebant de victu? Ubi nocte quiescebant? — “De que alimentavam-se? Onde passavam as noites?” E de que outra coisa podiam alimentar-se, senão de um pedaço de pão duro, trazido por São José, ou mendigado? Onde deviam dormir, especialmente no extenso deserto pelo qual deviam passar, senão sobre a terra, ao relento, com perigo de ladrões ou de feras em que abunda o Egito? Oh! Quem tivera encontrado aqueles três grandes personagens, por quem as haveria então reputado senão por três pobres mendigos e vagabundos?

II. Opina Santo Anselmo que os santos peregrinos no Egito habitaram a cidade de Heliópolis. Considere-se aqui a grande pobreza em que deviam viver nos sete anos que ali permaneceram, como afirma Santo Antônio com Santo Tomás e outros. Eram estrangeiros, desconhecidos, sem rendimentos, sem dinheiro, sem parentes. Como diz São Basílio, chegaram com dificuldade a sustentar-se com os seus pobres trabalhos. Escreve Landolfo de Saxônia (e isto seja dito para consolação dos pobres), que Maria se achava em tão grande pobreza, que algumas vezes não tinha nem sequer um pouco de pão, que o Filho lhe pedia, obrigado pela fome.

Ver assim Jesus, Maria e José andarem fugitivos, peregrinando por este mundo, ensina-nos que também devemos viver nesta terra como peregrinos, sem que nos apeguemos aos bens que o mundo oferece, pois que em breve os havemos de deixar e de ir para a eternidade: Non habemus hic manentem civitatem, sed futuram inquirimus (1) — “Não temos aqui cidade permanente, mas procuramos a futura”. Demais, ensina-nos que abracemos as cruzes, já que neste mundo não se pode viver sem cruz. — A Bem-aventurada Verônica de Binasco, Agostiniana, foi levada em espírito a acompanhar Maria com o Menino Jesus na viagem ao Egito, finda a qual lhe disse a divina Mãe: “Filha, acabas de ver com quantas fadigas chegamos a este país; sabe, pois, que ninguém recebe graças sem padecer.”

Quem deseja sentir menos os trabalhos desta vida, deve, à imitação de São José, tomar consigo Jesus e Maria: Accipe puerum et matrem eius — “Toma o Menino e sua Mãe”. A quem pelo amor traz no coração este Filho e esta Mãe, se lhe tornam leves, quiçá doces e estimáveis, todas as penas. Amemo-los, pois, e consolemos a Maria acolhendo o seu Filho dentro dos nossos corações, que ainda hoje é continuamente perseguido pelos homens com os seus pecados.

Referências:

(1) Hb 13, 14

Voltar para o Índice de Meditações

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 313-316)

sexta-feira, 14 de março de 2025

Comemoração da Lança e dos Cravos de Nosso Senhor Jesus Cristo

 

Jesus ferido pela Lança

Tire o maior proveito desta Meditação seguindo os passos

Unus militum lancea latus eius aperuit, et continuo exivit sanguis et aqua – “Um dos soldados abriu-Lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água” (Jo 19, 34)

Sumário. Sendo o coração um dos primários órgãos da vida, claro está que tem parte principal nos afetos do homem, tanto nos bons como nos maus. Exatamente para sarar esta raiz viciada dos pecados, quis Jesus Cristo que seu Coração fosse traspassado pela lança, assim como pouco antes, para expiar a culpa de Adão em estender a mão ao fruto vedado, e para reparar os abusos da liberdade, quis que as mãos e os pés lhe fossem traspassados pelos cravos. Ó inventos admiráveis do amor de Deus! E nós não amaremos?

I. Reflete um devoto escritor que na Paixão de Jesus Cristo tudo foi excesso assombroso. Hebreus e Gentios, sacerdotes e seculares, todos juntos conspiraram para fazê-Lo, como o predissera Isaías, o homem de dores e de desprezos. Causa horror a consideração do complexo de maus tratos e injúrias que fizeram Jesus sofrer em menos da metade de um dia, desde a captura até à morte. Mas quem não esperaria que ao menos depois da morte teriam deixado de ultrajá-Lo? Todavia não sucedeu assim.

Refere São João, que os Judeus, para não deixarem os corpos na cruz durante o sábado de Páscoa, pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas aos supliciados e que os fizessem descer da cruz (1). Eis que Maria, enquanto está chorando a morte do Filho, vê alguns homens, armados de barras de ferro, que se avizinham de Jesus. À tal vista, primeiramente tremeu de espanto, depois disse assim, como medita São Boaventura: Parai; ah! Meu Filho já está morto! Deixai de o injuriar e deixai também de me atormentar mais a mim, sua pobre Mãe! Mas, enquanto está assim falando, vê, ó Deus! Um soldado que vibra com ímpeto uma lança e com ela abre o lado de Jesus: Unus militum lancea latus eius aperuit.

A esse golpe tremeu a cruz, o Coração de Jesus ficou dividido e saiu sangue e água. Não havia mais sangue além daquelas gotas restantes, que o Salvador também quis derramar, para nos fazer entender que não tinha mais sangue para nos dar. A injúria daquela lançada foi de Jesus, mas a dor foi toda de Maria Santíssima.

Minha alma, aproxima-te enternecida da cruz, une as tuas penas com as de tua querida Mãe e prostra-te assim aos pés do Senhor, a fim de que corra sobre ti esse sangue divino.

II. Sendo o coração um dos primários órgãos e como que princípio da vida, claro está que ele tem parte principal nos afetos do homem, segundo o que está escrito: Do coração saem os maus pensamentos, os homicídios, os furtos e as maledicências (2). Foi exatamente para sarar esta raiz viciada dos pecados, que Jesus quis ser ferido em seu sacratíssimo Coração, assim como pouco antes, para expiar a culpa de Adão em estender a mão para o fruto vedado, e para reparar os abusos da liberdade humana, quis que Lhe fossem traspassadas as mãos e os pés. ― Por isso é que a Igreja não hesita em venerar a Lança e os Cravos que tiveram a ventura de ser tintos com o sangue do Senhor. No Ofício, em sua honra exclama saudando-os: “A perfídia judaica escolheu-vos para instrumentos de perversidade; mas o Deus do céu vos transformou em ministros de graça. Pelo que das chagas que abristes no corpo sacrossanto de Jesus, como de outras tantas fontes, nos brotam as graças celestes” (3).

Meu irmão, unamos os nossos afetos aos de nossa boa Mãe, a Igreja. Peçamos ao Senhor perdão do abuso que nós também temos feito da liberdade. Roguemos-Lhe que virando contra nós aqueles cravos e aquela lança, tire a vingança das ofensas que Lhe fizemos, ferindo-nos o coração, as mãos e os pés. Os pés, para que de hoje em diante sejam impotentes em nos expor às ocasiões perigosas; as mãos, para que deixem de praticar o mal; o coração, para que, livre de todo apego desordenado às criaturas, arda sempre de amor divino: Omnisque corde e saucio profanus ardor exeat (4).

Eis o que Vos peço, ó meu Deus! “A Vós, que na fraqueza da natureza humana quisestes ser traspassado com cravos e ferido pela lança, suplico-Vos, concedei-me, que venerando na terra a memória desses cravos e dessa lança, eu vá depois alegrar-me no céu pelo glorioso triunfo de vossa vitória” (5). Fazei-o por amor do Coração aflitíssimo de Maria.

Referências:

(1) Jo 19, 31
(2) Mt 15, 19
(3) Hymn. Matut.
(4) Hymn. Laud.
(5) Or. festi. curr.

Voltar para o Índice de Meditações

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 311-313)

quinta-feira, 13 de março de 2025

Quanto Jesus deseja unir-se conosco na santa Comunhão

 

Adoração Eucaristica

Tire o maior proveito desta Meditação seguindo os passos

Desiderio desideravi hoc Pascha manducare vobiscum, antequam patiar – “Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa, antes que padeça” (Lc 22, 15)

Sumário. Nenhuma abelha esvoaça com tanta avidez sobre as flores para lhes sorverem o mel, como Jesus vai morar nas almas que o desejam. Eis porque no Evangelho nos convida tantas vezes a que nos aproximemos dele na santa Comunhão. Faz tantas promessas e tantas ameaças, para manifestar o grande desejo que tem de unir-se conosco. Que ingratidão, pois, se não correspondemos a tão grande amor!

I. Jesus Cristo chama hora sua a noite em que devia começar a sua paixão. Mas como é que pode chamar uma hora tão funesta a sua hora? É porque foi a hora por ele almejada em toda a sua vida, visto que havia determinado que naquela noite havia de nos deixar a santa Comunhão, destinada a consumar a sua união com as almas diletas, pelas quais devia em breve dar o sangue e a vida. Eis aqui o que naquela noite Jesus disse a seus discípulos: Desiderio desideravi hoc pascha manducare vobiscum ― «Tenho desejado ansiosamente comer esta Páscoa convosco». Palavra pela qual o Redentor nos quis dar a entender o desejo ansioso que tinha de unir-se conosco neste santíssimo Sacramento de amor: desiderio desideravi ― «desejei ansiosamente»; estas palavras, diz São Lourenço Justiniani, saíram do Coração de Jesus abrasado em imenso amor.

Ora, a mesma chama que então ardia no Coração de Jesus, ainda está ardendo ali até ao presente; e a todos nós renova o convite feito então aos apóstolos de o receberem: Accipite et comedite, hoc est corpus meum (Mt 26, 26) ― «Tomai e comei: isto é o meu corpo». Além disso, para atrair-nos a recebê-lo com amor, promete o paraíso: Qui manducat meam carnem, habet vitam aeternam (Jo 6, 55) ― «Quem como a minha carne, tem a vida eterna». No caso contrário ameaça-nos com a morte eterna: Nisi manducaveritis carnem Filii hominis, non habebitis vitam in vobis (Jo 6, 54) ― «Se não comerdes a carne do Filho do homem, não tereis a vida em vós».

Estes convites, estas promessas, estas ameaças nasceram todas do desejo que tem Jesus Cristo de se unir conosco na santa comunhão, e este desejo nasce do amor que nos tem. «Não há abelha», disse um dia o Senhor a Santa Matilde, «que com tanta avidez esvoace sobre as flores para lhes sorver o mel, como eu anseio entrar nas almas que me desejam». Porque Jesus nos ama, quer ser amado de nós, e porque nos deseja seus, quer ser desejado, como diz São Gregório: Sitit sitiri Deus. Bem-aventurada a alma que se aproxima da mesa da comunhão com grande desejo de se unir a Jesus Cristo!

II. Adorável Jesus meu, não podeis dar-nos maiores provas de amor par anos fazer compreender quanto nos amais. Destes vossa vida por nós; ficastes no Santíssimo Sacramento, para que venhamos aí alimentar-nos de vossa carne, e quão grande desejo tendes que Vos recebamos! Como podemos ser sabedores de tantas finezas de vosso amor, sem ficarmos abrasados no vosso amor? Longe de mim, afetos terrenos, saí de meu coração; vós é que me impedis de arder por Jesus como ele arde por mim. Ó meu Redentor, que outros testemunhos de afeto posso eu ainda esperar, depois dos que me tendes dado? Por meu amor sacrificastes a vossa vida inteira; por meu amor abraçastes uma morte tão amarga e ignominiosa; por meu amor chegastes, por assim dizer, a aniquilar-Vos, reduzindo-Vos na Eucaristia a estado de alimento, para Vos dardes todo a mim. Ah, Senhor! não permitais que eu seja ingrato a tão grande bondade.

Graças vos dou pelo tempo que me concedeis para chorar minhas ingratidões e Vos amar. Arrependo-me, ó soberano Bem, de ter tantas vezes desprezado o vosso amor. Amo-Vos, ó Bondade infinita; amo-Vos, ó Tesouro infinito; amo-Vos, ó Amor infinito, digno de infinito amor. + Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas. Por piedade, ajudai-me, ó meu Jesus, a banir do meu coração todos os afetos que não são para Vós, para que daqui por diante não deseje, não busque e não ame senão a Vós. Meu amado Redentor, fazei com que eu Vos ache sempre e sempre Vos ame. Apoderai-Vos de toda a minha vontade, para que queira somente o vosso beneplácito. Meu Deus, meu Deus, a quem então amarei, se não amo a Vós em quem se encontram todos os bens? Só a Vós quero, e nada mais.

― Ó Maria, minha Mãe, tomai meu coração e enchei-o de perfeito amor a Jesus.

 

Voltar para o Índice de Meditações

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 308-311)

quarta-feira, 12 de março de 2025

Contas que terá de dar a Jesus Cristo quem não segue a vocação

 

Monges Beneditinos em Oração

Tire o maior proveito desta Meditação seguindo os passos

Auferetur a vobis regnum Dei, et dabitur genti facienti fructus eius – “Ser-vos-á tirado o reino de Deus, e será dado a um povo que faça os frutos dele” (Mt 21, 43)

Sumário.Avivemos a nossa fé. A graça que o Senhor nos concedeu chamando-nos a viver em sua casa é muito mais excelente do que se nos tivesse chamado a sermos rei do reino mais extenso da terra. Quanto maior, porém, a graça, tanto mais o Senhor se irritará contra nós, se não Lhe tivermos correspondido; tanto mais rigoroso será o vosso julgamento no dia das contas. Ai de nós, se não obedecermos à chamada divina, ou se por nossa culpa perdermos a vocação!

I. A graça da vocação ao estado religioso não é uma graça ordinária; ela é muito rara e Deus a poucos a concede: Non fecit taliter omni nationi (1) — “Não fez assim a todas as nações”. Oh! Esta graça de ser chamado à vida perfeita e a ser doméstico de Deus em sua casa, quanto é superior à de ser chamado a ser rei do reino mais extenso do mundo! Pois, que comparação pode haver entre um reino temporal na terra e o reino eterno do céu?

Quanto maior, porém a graça, tanto mais o Senhor se irritará contra quem não lhe tiver correspondido, e tanto mais rigoroso será o seu julgamento no dia das contas. Se um rei chamasse um pastorzinho para seu palácio, a fim de o servir entre os nobres de sua corte, quão grande não seria a indignação daquele príncipe, se o súdito recusasse o seu favor, para não deixar o seu pobre redil e o seu pequeno rebanho?

Deus bem conhece o preço das suas graças; por isso castiga rigorosamente àquele que as despreza. Ele é o Senhor: quando chama, quer ser obedecido, e obedecido prontamente; pelo que, quando com a sua luz chama uma alma à vida perfeita, e esta não corresponde, priva-a de sua luz e abandona-a no meio das trevas. Oh! Quantas almas desgraçadas veremos reprovadas no dia do juízo, porque não quiseram obedecer à voz de Deus!

II. Agradece portanto ao Senhor, ter-te convidado a segui-Lo; mas treme, se não correspondes à graça. Chamando-te Deus a servi-Lo mais de perto, é sinal que Deus te quer salvo; mas só te quer salvo pelo caminho que te indica e escolhe. Se queres salvar-te seguindo o caminho que tu mesmo te escolhes, corres grande perigo de o não obteres. Pois, ficando no século ou a ele voltando, quando Deus te quer religioso, não receberás de Deus aqueles auxílios eficazes que te havia preparado em sua casa, e sem os quais não te salvarás. Oves meae vocem meam audiunt (2) — “As minhas ovelhas ouvem a minha voz”. Quem não quer obedecer à voz de Deus, dá sinal de que não é ovelha de Jesus, mas será condenado com os bodes no vale de Josafá.

Senhor, Vós tivestes para comigo este excesso de bondade, de escolher-me de entre tantos outros, para me colocar entre os vossos servos prediletos e fazer-me morar na vossa casa. Conheço quanto esta graça é grande, e quanto eu dela era indigno. Eis-me aqui: quero corresponder a tamanho amor, quero obedecer-Vos. Já que Vós fostes tão generoso para comigo, chamando-me, quando eu não Vos procurava, e além disso Vos era tão ingrato, não permitais que eu venha a cair nesta outra ingratidão suprema, de deixar-Vos, a Vós que por meu amor derramastes o vosso sangue e destes a vida, para novamente me entregar ao mundo, meu inimigo, que no passado tantas vezes me tem feito perder a vossa graça e a minha eterna salvação. Pois que me chamastes, dai-me a força para obedecer.

Já prometi obedecer-Vos, e de novo vo-Lo prometo; mas se Vós não me concedeis a graça da perseverança, não Vos posso ser fiel. A Vós peço esta perseverança, quero-a e espero-a pelos vossos merecimentos. — Dai-me a coragem de vencer as paixões da carne, com que o demônio quer que eu Vos atraiçoe. Amo-Vos, meu Jesus, e me consagro todo a Vós. Já sou vosso e vosso quero ser para sempre. — Maria, Mãe e esperança minha, Vós sois a Mãe da perseverança, que só com a vossa intercessão é concedida; vós ma haveis de alcançar; em vós confio.

Referências:

(1) Sl 147, 20
(2) Jo 10, 27

Voltar para o Índice de Meditações

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 306-308)

terça-feira, 11 de março de 2025

Quanto é doce a morte do justo

 A morte do Justo e a morte do Pecador

A morte do Justo e a morte do Pecador

Tire o maior proveito desta Meditação seguindo os passos

Iustorum animae in manu Dei sunt, et non tanget illos tormentum mortis – “As almas dos justos estão na mão de Deus, e não os tocará o tormento da morte” (Sb 3, 1)

Sumário. É assim: os tormentos, que na morte afligem os pecadores, não afligem os santos, porque já antes desse tempo deixaram pelo afeto os bens terrestres, consideraram as honras como fumo e vaidade e viveram desapegados dos parentes, amando-os só em Deus. D’outra parte, que felicidade morrer entregando-se nos braços de Jesus Cristo, que quis sofrer uma morte tão amarga, a fim de nos obter uma morte doce e cheia de consolação! Irmão meu, se na primeira noite a morte te colhesse, qual seria a tua morte, a do justo ou a do pecador?

I. É assim: os tormentos que na morte afligem os pecadores, não afligem os santos: Non tanget illos tormentum mortis ― “Não os tocará o tormento da morte”. Os santos não se abalam com esse Proficiscere, anima ― “Parte, ó alma”, que tanto assusta os mundanos. Os santos não se afligem com o terem de deixar os bens da terra, porque nunca lhes tiveram o coração ligado. Deus é o Senhor do meu coração, diziam eles sempre, a minha porção é Deus para sempre ― Deus cordis mei et pars mea Deus in aeternum (1). Sois felizes, escrevia o Apóstolo a seus discípulos que pela causa de Jesus Cristo tinham sido despojados de seus bens, sois felizes, porque suportastes com alegria a rapina dos vossos bens, sabendo que tender um cabedal melhor e permanente: Cognoscentes vos habere meliorem et manentem substantiam (2).

Os santos não se afligem por deixarem as honras, porque desde muito as desprezaram e tiveram na conta do que efetivamente são, fumo e vaidade. Só estimaram a honra de amarem a Deus e de serem por Ele amados. Nem se afligem por deixarem os parentes, porque só os amaram em Deus; morrendo, recomendam-nos ao Pai celeste que os ama mais do que eles o podiam, e como esperam salvar-se, pensam que o melhor lhes poderão valer na pátria celestial do que ficando na terra. Em suma, o que disseram durante toda a vida: Deus meus et omnia ― “Meu Deus e meu tudo”, repetem-no com mais consolação e ternura no momento da morte.

Quem morre no amor de Deus não se inquieta com as dores que acompanham a morte; antes, nelas se compraz pensando que a vida vai acabar e que depois não lhe resta mais tempo para sofrer por Deus e testemunhar-Lhe outras provas do seu amor. Por isso, oferece-Lhe com afeto e paz estes últimos restos da sua vida e consola-se unindo o sacrifício da sua morte ao sacrifício que Jesus Cristo ofereceu um dia por ele na cruz ao seu eterno Pai. E assim morre feliz, dizendo: In pace in idipsum dormiam et requiescam (3) ― “Em paz dormirei nele e repousarei”. Oh! que felicidade morrer entregando-se e repousando nos braços de Jesus Cristo, que nos amou até à morte e quis sofrer uma morte tão dolorosa, a fim de nos obter uma morte doce e cheia de consolação! ― Meu irmão, quais seriam os teus sentimentos se tivesses de morrer neste instante?

II. Ó meu amado Jesus, que para me obter uma morte suave, quisestes sofrer uma morte tão cruel no Calvário, quando é que Vos verei? A primeira vez que Vos terei de ver, ver-Vos-ei como meu Juiz no próprio lugar em que expire. Que Vos direi então? Que me direis? Não quero esperar até então para pensar nisso; quero meditá-lo agora. Dir-Vos-ei:

Meu caro Redentor, sois Vós aquele que morreu por mim? Houve um tempo em que Vos ofendi; fui ingrato para convosco e não merecia perdão; mas, ajudado pela vossa graça, entrei em mim mesmo, e no resto da vida chorei os meus pecados, e Vós me haveis perdoado. Perdoai-me agora novamente, que estou a vossos pés, e dai-me a absolvição geral das minhas faltas. Não merecia mais amar-Vos tendo desprezado o vosso amor; mas pela vossa misericórdia me tendes atraído o coração, o qual, se Vos não amou segundo o vosso mérito, amou-Vos pelo menos sobre todas as coisas, deixando tudo para Vos agradar. Que me dizeis agora? Verdade é que gozar o paraíso e possuir-Vos no vosso reino é uma felicidade grande demais para mim. Não tenho, porém, coragem de viver longe de Vós, mormente agora, que me deixastes ver o vosso amável e belo rosto. Peço-Vos, pois, o paraíso, não para ter mais gozo, mas para melhor Vos amar.

Mandai-me para o purgatório todo o tempo que Vos aprouver. Manchado, como ainda estou, não quero entrar nessa pátria de pureza e ver-me entre essas almas puras. Mandai-me ao purgatório, mas não me expulseis para sempre da vossa presença. Basta-me que no dia que Vos aprouver, me chameis ao paraíso para nele cantar eternamente as vossas misericórdias. Por ora, ó meu amado Juiz, levantai a mão, abençoai-me e dizei-me que sou vosso e que Vós sois e sereis sempre meu. Eu sempre Vos amarei, e Vós sempre também me amareis. Agora vou para longe de Vós, vou para o fogo; mas vou contente, porque vou para Vos amar, meu Redentor, meu Deus, meu tudo. Vou contente, sim; mas sabei que, enquanto estiver longe de Vós, a minha maior pena será esse apartamento. Vou, Senhor, contar os instantes que decorrerão até que me chameis. Tende piedade de uma alma que Vos ama com todas as suas forças e deseja ver-Vos para melhor Vos amar.

É assim, Jesus meu, que espero então falar-Vos. Peço-Vos entretanto que me deis a graça de viver de modo que possa dizer-Vos então o que agora pensei. Dai-me a santa perseverança, dai-me o vosso amor. Fazei-o pelo amor de Maria Santíssima.

Referências:

(1) Sl 72, 26
(2) Hb 10, 34
(3) Sl 4, 8

Voltar para o Índice de Meditações

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 303-306)

s

Postagens mais visitadas