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segunda-feira, 9 de março de 2026

Os 12 degraus da Humildade

 

S. Tomás de Aquino, na Suma Teológica (II-IIae, q.161, a.6), resume os 12 degraus de humildade que se encontram na Regra de S. Bento, o pai do monaquismo ocidental:

1) Ter os olhos sempre baixos, manifestando humildade interior e exterior; 
2) Falar pouco e sensatamente, em voz baixa;
3) Não ser de riso pronto e fácil;
4) Manter-se calado, enquanto não for interrogado;

5) Observar o que prescreve a regra comum do mosteiro;
6) Reconhecer-se e mostrar-se o mais indigno de todos;
7) Julgar-se, sinceramente, indigno e inútil em tudo;
8) Confessar os próprios pecados;

9) Por obediência suportar, pacientemente, o que é duro e difícil;
10) Submeter-se, obedientemente, aos superiores;
11) Não se comprazer na vontade própria;
12) Temer a Deus e ter presente tudo o que ele mandou.

A humildade está, essencialmente, no apetite, na medida em que alguém refreia os impulsos do seu ânimo, para que não busque, desordenamente, as coisas grandes. Mas a regra da humildade está no conhecimento que impede que alguém se julgue melhor do que é. E o princípio e raiz dessas duas atitudes é a reverência que se presta a Deus. 

Por outro lado, da disposição interior do homem procedem alguns sinais exteriores de palavras, actos e gestos, que revelam o que está oculto no íntimo, como também ocorre com as outras virtudes, pois, "pelo semblante se reconhece o homem; pelo aspecto do rosto, a pessoa sensata". (Ecl. 19, 26), diz a Escritura. 

Por isso, nos alegados graus de humildade figura um que pertence à raiz dela, a saber, o 12º: "temer a Deus e ter presente tudo o que nos mandou". 

Mas nesses graus há também algo que pertence ao apetite, como o não buscar, desordenadamente, a própria superioridade, o que se dá de três modos. Primeiro, não seguindo a própria vontade (11º); depois, regulando-a pelo juízo do superior (10º) e, em terceiro lugar, não desistindo em face de situações duras e difíceis (9º).

Aparecem também graus relativos à estima em que alguém deve ter ao reconhecer os próprios defeitos. E isso de três modos: primeiro, reconhecendo e confessando os próprios defeitos (8º). Depois, em vista desses defeitos, julgando-se indigno de coisas maiores (7º). Em terceiro lugar, considerando os outros, sob esse aspecto, superiores a si (6º).

Finalmente, nessa enumeração já também graus relativos à manifestação externa. Um deles, quanto às acções, de modo que, em suas obras, não se afaste do caminho comum (5º). Outros dois referem-se às palavras, quer dizer, que não se fale fora do tempo (4º), nem se exceda no falar (2º). 

Por fim, há os graus ligados aos gestos exteriores, como, por exemplo, reprimir o olhar sobranceiro (1º) e coibir risadas e outras manifestações impróprias de alegria (3º).

sábado, 23 de novembro de 2019

"A humildade é a verdade" - Padre Pio



A humildade é a verdade, e a verdade é que eu sou somente nada. Portanto, tudo o que é bom em mim vem de Deus. Ora, acontece muitas vezes que desperdiçamos o que Deus pôs de bom em nós. Quando as pessoas me perguntam qualquer coisa, acontece-me não pensar no que posso dar-lhes, mas no que não sou capaz de dar, e consequentemente, tantas almas permanecem na sua sede, porque eu não tenho sabido transmitir o dom de Deus.

A ideia de que, em cada dia, o Senhor vem a nós e nos dá tudo deveria tornar-nos humildes. Ora, é o oposto que acontece, porque o demónio faz brotar dentro de nós ataques de orgulho. Isso em nada nos honra. Temos de lutar contra o nosso orgulho. Quando não pudermos mais, paremos um instante e façamos um acto de humildade; então Deus, que ama os corações humildes, virá ao nosso encontro." 

São Pio de Pietrelcina (Padre Pio)

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Os 12 degraus da humildade



S. Tomás de Aquino, na Suma Teológica (II-IIae, q.161, a.6), resume os 12 degraus de humildade que se encontram na Regra de S. Bento, o pai do monaquismo ocidental:

1) Ter os olhos sempre baixos, manifestando humildade interior e exterior; 
2) Falar pouco e sensatamente, em voz baixa;
3) Não ser de riso pronto e fácil;
4) Manter-se calado, enquanto não for interrogado;

5) Observar o que prescreve a regra comum do mosteiro;
6) Reconhecer-se e mostrar-se o mais indigno de todos;
7) Julgar-se, sinceramente, indigno e inútil em tudo;
8) Confessar os próprios pecados;

9) Por obediência suportar, pacientemente, o que é duro e difícil;
10) Submeter-se, obedientemente, aos superiores;
11) Não se comprazer na vontade própria;
12) Temer a Deus e ter presente tudo o que ele mandou.

A humildade está, essencialmente, no apetite, na medida em que alguém refreia os impulsos do seu ânimo, para que não busque, desordena mente, as coisas grandes. Mas a regra da humildade está no conhecimento que impede que alguém se julgue melhor do que é. E o princípio e raiz dessas duas atitudes é a reverência que se presta a Deus. 

Por outro lado, da disposição interior do homem procedem alguns sinais exteriores de palavras, actos e gestos, que revelam o que está oculto no íntimo, como também ocorre com as outras virtudes, pois, "pelo semblante se reconhece o homem; pelo aspecto do rosto, a pessoa sensata". (Ecl. 19, 26), diz a Escritura. 

Por isso, nos alegados graus de humildade figura um que pertence à raiz dela, a saber, o 12º: "temer a Deus e ter presente tudo o que nos mandou". 

Mas nesses graus há também algo que pertence ao apetite, como o não buscar, desordenadamente, a própria superioridade, o que se dá de três modos. Primeiro, não seguindo a própria vontade (11º); depois, regulando-a pelo juízo do superior (10º) e, em terceiro lugar, não desistindo em face de situações duras e difíceis (9º).

Aparecem também graus relativos à estima em que alguém deve ter ao reconhecer os próprios defeitos. E isso de três modos: primeiro, reconhecendo e confessando os próprios defeitos (8º). Depois, em vista desses defeitos, julgando-se indigno de coisas maiores (7º). Em terceiro lugar, considerando os outros, sob esse aspecto, superiores a si (6º).

Finalmente, nessa enumeração já também graus relativos à manifestação externa. Um deles, quanto às acções, de modo que, em suas obras, não se afaste do caminho comum (5º). Outros dois referem-se às palavras, quer dizer, que não se fale fora do tempo (4º), nem se exceda no falar (2º). 

Por fim, há os graus ligados aos gestos exteriores, como, por exemplo, reprimir o olhar sobranceiro (1º) e coibir risadas e outras manifestações impróprias de alegria (3º).

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

O primeiro passo na busca da verdade é a Humildade



A carta 118 de Santo Agostinho é um texto dirigido a Dióscoro. No ponto 22 dessa carta, o Santo explica que sem humildade nenhuma ação pode ser boa:

O primeiro passo (na busca da verdade) é a humildade. O segundo, a humildade. O terceiro, a humildade. Se a humildade não preceder, acompanhar e seguir cada boa ação que fazemos - sendo ao mesmo tempo o nosso objectivo, o nosso apoio e a nossa moderação -  o orgulho retira-nos qualquer boa obra pela qual nos congratulamos. Todos os outros vícios podem ser facilmente detectados quando os temos, mas devemos temer o orgulho mesmo quando fazemos boas ações.

Santo Agostinho in Carta 118, 22

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Os três tipos de humildade segundo Santo Inácio de Loyola

primeiro tipo de humildade é necessário à salvação eterna. E consiste em me rebaixar e me humilhar tanto quanto me for possível, para obedecer em tudo à Lei de Deus Nosso Senhor. De tal modo que, mesmo que me tornassem senhor de todas as coisas criadas neste mundo ou mesmo que estivesse em risco a minha própria vida temporal, nunca pensaria em transgredir um mandamento, fosse ele divino ou humano.

segundo tipo de humildade é uma humildade mais perfeita que a primeira. E consiste nisto: encontro-me num ponto em que não desejo nem tendo a possuir a riqueza mais do que a pobreza, a querer a honra mais do que a desonra, a desejar uma vida longa mais do que uma vida curta, quando as alternativas não afectam o serviço de Deus Nosso Senhor e a salvação da minha alma.

terceiro tipo de humildade é a humildade mais perfeita: é quando, incluindo a primeira e a segunda, sendo iguais o louvor e a glória da Sua divina majestade, para imitar Cristo Nosso Senhor e me assemelhar a Ele mais eficazmente, desejo e escolho a pobreza com Cristo pobre em vez da riqueza, o opróbrio com Cristo coberto de opróbrios em lugar de honrarias; e desejo mais ser tido por insensato e louco para Cristo, que antes de todos foi tido como tal, do que «sábio e prudente» neste mundo (Mt 11, 25).

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

NECESSIDADE DA MANSIDÃO E DA HUMILDADE PARA O RELIGIOSO



Discite a me, quia mitis sum et humilis corde; et invenietis requiem animabus vestris – “Aprendei de mim que sou manso e humildade de coração e achareis descanso para vossas almas” (Matth. 11, 29)

Sumário. As virtudes que o Senhor exige particularmente dos religosos que vivem em comunidade, são a humildade e amansidão. Quem vive solitário nos desertos não precisa tanto delas; mas quem vive em comunidade, se não é manso e humilde, cairá cada dia em mil defeitos e passará uma vida inquieta, porque é impossível que não sofra ou repreensões do superior ou desgostos dos companheiros. Para que serve um religioso que não sabe suportar por Deus um desprezo, uma humilhação, uma contrariedade? Ele será sempre um soberbo ao qual a graça divina resistirá: Deus resiste aos soberbos.

O nosso amabilíssimo Redentor Jesus quis ser chamado Cordeiro, exatamente para significar quanto Ele era manso e humilde. Estas foram as virtudes que principalmente quis que de si aprendessem os seus discípulos: Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração. E são estas também as que Jesus exige particularmente dos religiosos, que fazem profissão de imitar sua vida sacrossanta. – Quem vive solitário nos desertos não tem tanta necessidade destas virtudes; mas quem vive em comunidade, é impossível que não sofra ou  repreensões dos superiores, ou desgostos dos companheiros. Pelo que um religioso que não ama a mansidão, cairá cada dia em mil defeitos, e passará uma vida inquieta.
O religioso é preciso que seja todo doçura para com todos, estranhos e companheiros, e ainda para com os súditos, se é superior; considerando, se é súdito, que lhe vale mais um ato de mansidão em suportar os desprezos e as repreensões, do que mil jejuns e disciplinas. – Dizia São Francisco, que muitos põem a sua perfeição nas mortificações externas e depois não sabem suportar uma palavra injuriosa; não compreendem que se adquire maior mérito pelo sofrimento das injúrias. Quantas pessoas – pondera ainda São Bernardo – , são todas doçura, quando não se diz ou não se faz nada contra o seu gênio; mas depois, nas ocasiões contrárias, fazem conhecer a sua pouca mansidão!
Quem é superior, note que aproveitará mais aos súditos uma repreensão feita com doçura do que cem outras feitas com aspereza. Mansuetus utilis sibi et aliis – “O manso é útil a si próprio e aos outros”, ensina São João Crisóstomo. – Em suma, como diz o mesmo Santo, o sinal mais certo de uma alma virtuosa é vê-la mansa nas ocasiões. Um coração manso faz as delícias do mesmo Deus que nele se compraz: Beneplacitum est illi fides et mansuetudo (1).
Para estar sempre disposto a suportar em paz as injúrias, é bom que o religioso nas suas meditações se represente os diversos encontros que lhe podem sobrevir e se arme contra eles; e depois, nas ocasiões, deve fazer-se violência, para não se perturbar, nem prorromper em impaciências. Por isso deve abster-se de falar, quando o ânimo está exaltado, até que veja que está acalmado. – Mas é sobretudo necessário ter um grande fundo de humildade. Quem é verdadeiramente humilde, não só não se perturba quando se vê desprezado, mas até com isso se alegra e se enche de júbilo (ainda que a carne ressinta), vendo-se tratado como julga que merece e feito semelhante a Jesus Cristo, que, sendo digno de toda a honra, quis por amor de nós ser saciado de opróbrios e injúrias. – Os santos foram mais ávidos de desprezos do que o são de aplausos e honras os mundanos. E para que serve um religioso que não sabe suportar um desprezo por Deus? Ele será sempre um soberbo, ou um humilde só de nome e fingido, ao qual a divina graça resistirá, como diz o Espírito Santo: Deus superbis resistit, humilibus autem dat gratiam (2) – “Deus resiste aos soberbos, mas dá a graça aos humildes”.
Ó meu humildíssimo Jesus, que por meu amor fostes tão humilhado e Vos fizestes obediente até à morte de cruz! Como tenho ânimo de me apresentar diante de Vós e chamar-me vosso imitador, vendo-me tão pecador e tão soberbo que não posso suportar sem ressentimento um só desprezo? D’onde me vem tão grande soberba, a mim, que pelos meus pecados tantas vezes mereci ser calcado eternamente aos pés dos demônios no inferno? Ah, meu Jesus desprezado, ajudai-me, fazei-me semelhante a Vós. Quero mudar de costumes. Vós, por meu amor, sofrestes tantos opróbrios; eu também por vosso amor quero suportar todas as injúrias.
Meu Redentor, fizestes muitos honrosos e desejáveis os desprezos, desde que os abraçastes em vossa vida com tão grande amor. Mihi absit gloriari, nisi in cruce Domini nostri Iesu Christi (3) – “Longe esteja de mim o gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo”. – Humildíssima Senhora e Mãe de Deus, Maria, vós que em tudo, mas particularmente no sofrer, fostes a mais semelhante a vosso Filho, alcançai-me a graça de suportar em paz todos os ultrajes que de hoje em diante me forem feitos. (IV 431.)
  1. Ecclus. 1, 34. 2. 1 Petr. 5, 5. 3. Gal. 6, 14.

Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III – Santo Afonso

Fonte:

sábado, 21 de maio de 2016

Os Doze Degraus da Humildade

 A Regra de São Bento estabelece doze degraus:
1) "ter os olhos sempre baixos, manifestando humildade interior e exterior";
2) "falar pouco e sensatamente, em voz baixa";
3) "não ser de riso pronto e fácil";
4) "manter-se calado, enquanto não for interrogado";
5) "observar o que prescreve a regra comum do mosteiro";
6) "reconhecer-se e mostrar-se o mais indigno de todos";
7) "julgar-se, sinceramente, indigno e inútil em tudo";
8) "confessar os próprios pecados";
9) "por obediência, suportar, pacientemente, o que é duro e difícil";
10) "submeter-se, obedientemente, aos superiores";
11) "não se comprazer na vontade própria";
12) "temer a Deus e ter presente tudo o que ele mandou";

"A humildade está, essencialmente, no apetite, na medida em que alguém refreia os impulsos do seu ânimo, para que não busque, desordenamente, as coisas grandes. Mas a regra da humildade está no conhecimento que impede que alguém se superestime. E o princípio e raiz dessas duas atitudes é a reverência que se presta a Deus. Por outro lado, da disposição interior do homem procedem alguns sinais exteriores de palavras, atos e gestos, que revelam o que está oculto no íntimo, como também ocorre com as outras virtudes, pois, "pelo semblante se reconhece o homem; pelo aspecto do rosto, a pessoa sensata" (Ecl XIX, 26), diz a Escritura.
Por isso, nos alegados graus de humildade figura um que pertence à raiz dela, a saber, o décimo segundo: "temer a Deus e ter presente tudo o que nos mandou".

Mas nesses graus há também algo que pertence ao apetite, como o não buscar, desordenadamente, a própria superioridade, o que se dá de três modos. Primeiro, não seguindo a própria vontade (11º); depois, regulando-a pelo juízo do superior (10º) e, em terceiro lugar, não desistindo em face de situações duras e difíceis (9º).

Aparecem também graus relativos à estima em que alguém deve ter ao reconhecer os próprios defeitos. E isso de três modos: primeiro, reconhecendo e confessando os próprios defeitos (8º). Depois, em vista desses defeitos, julgando-se indigno de coisas maiores (7º). Em terceiro lugar, considerando os outros, sob esse aspecto, superiores a si (6º).

Finalmente, nessa enumeração já também graus relativos à manifestação externa. Um deles, quanto às ações, de modo que, em suas obras, não se afaste do caminho comum (5º). Outros dois referem-se às palavras, quer dizer, que não se fale fora do tempo (4º), nem se exceda no falar (2º). Por fim, há os graus ligados aos gestos exteriores, como , por exemplo, reprimir o olhar sobranceiro (1º) e coibir risadas e outras manifestações impróprias de alegria (3º)" (resp.).
 
 Fonte: Santo Tomás de Aquino - (Suma Teológica, II-II, q.161, a.6)

sábado, 23 de janeiro de 2016

A Humildade - Por Santo Afonso de Ligório

Segui o exemplo de Sta. Catarina de Senna. Quando era tentada de vanglória, humilhava-se; e quando acometida de desânimo, confiava em Deus, pelo que o demônio lhe disse um dia com raiva: “Maldita tu e maldito quem te ensinou esse meio de me vencer. Não sei mais como te apanhar”. — Assim, pois, quando o inimigo vos disser que para vós não há perigo de cair, tremei, pensando que, se Deus vos deixa um instante, estais perdidas. Quando fordes tentadas de desânimo, dizei com Davi: Senhor, pus em vós todas as minhas esperanças, confio que não serei confundida, privada da vossa graça e feita escrava do inferno.

Considerai-vos como o maior pecador que existe na face da terra. As almas verdadeiramente humildes são mais esclarecidas da luz celeste, e como conhecem melhor as perfeições de Deus, também vêem melhor as suas misérias e os seus pecados. Dai vem que os santos, cuja vida era tão exemplar e tão diferente da dos mundanos, se diziam, não por exagero, mas com verdadeira convicção, os maiores pecadores do mundo. — Assim se julgava S. Francisco de Assis. — S. Tomas de Vilanova era continuamente assaltado de temor, pensando, dizia ele, nas contas que havia de dar a Deus pela sua má vida. — Sta. Gertrudes considerava um milagre não se abrir a terra debaixo de seus pés, para engoli-la por causa de seus pecados. — S. Paulo eremita derramava lágrimas, dizendo: “Ai de mim pecador, que não mereço ter sequer o nome de monge”. — O bem-aventurado padre Mestre Ávila refere a este propósito que uma pessoa de grande virtude, tendo rogado a Deus lhe fizesse ver qual era o estado de sua alma, obteve a graça pedida e a viu tão disforme e abominável, embora só tivesse cometido pecados veniais, que exclamou: Senhor, por misericórdia, tirai-me de diante dos olhos essa figura monstruosa.

Guardai-vos, pois, de vos preferir a quem quer que seja. Basta um julgar-se melhor do que os outros, para se tornar o pior de todos, assegura Trithemio. Assim também basta que alguém creia ter grandes merecimentos para perder os que tem e não ter mais nenhum. O principal merecimento da humildade consiste em crer um sinceramente que não tem nenhum direito adquirido e que não merece senão afrontas e castigos.

Os dons e graças que Deus vos tem concedido não serviriam senão para vos fazerem condenar com maior rigor no dia do juízo, se abusásseis desses dons, elevando-vos acima dos outros. Mas não basta não vos antepordes à nenhuma; é preciso, como já ficou dito, considerar-vos a última e a mais indigna de todos os vossos irmãos. E porque? Primeiramente, porque conheceis sem dúvida os muitos pecados que tendes cometido, e ignorais os pecados dos outros; e, ao contrário, sabeis que nada possuis, e não conheceis muitas virtudes ocultas. Além disso considerai que, com as luzes e graças que o Senhor vos prodigalizou, já devíeis ser um santo. Oh! se Deus houvesse dado tantas graças a um infiel, talvez fosse já um serafim; e vós ainda estais tão atrasado e tão cheio a imperfeições e defeitos! 

O Espírito Santo nos dá esse aviso: Há alguns que se fazem de humildes, só serem tidos e louvados por humildes e para não serem repreendidos e humilhados. — Mas, diz S. Bernardo, procurar louvores das humilhações não é humildade, porém destruição da humildade; porque, deste modo, a mesma virtude torna-se uma fonte de soberba. 

Na teoria, dizia S. Vicente de Paulo, a humildade tem uma boa aparência, mas na prática é horrenda, porque a verdadeira humildade consiste em amar as objeções e desprezos. Pelo que notou S. João Clímaco, que, para ser humilde não basta dizer que se é mau, mas também é preciso alegrar-se de ser tido por tal pelos outros e de ser por isso desprezado. Eis as suas palavras: “É bom que tu digas mal de ti, mas é melhor que, quando ouvires dizer isto por outrem, tu o confirmes, não te ressentindo, e até alegrando-te com isso. — Antes já o escrevera S. Gregório: “O verdadeiro humilde confessa-se pecador, e quando lhe censuram as faltas, não as nega mas reconhece”.
Enfim, S. Bernardo exprime o mesmo pensamento nestes termos: O verdadeiro humilde não pretende ser louvado por humilde, mas quer ser tido por vil, defeituoso e desprezível e se compraz de se ver humilhado e tido na conta em que se estima. Dai vem que a humilhação o torna mais humilde, diz o mesmo Santo doutor: Muda a humilhação em humildade.

Santo Afonso de Ligório no livro A Verdadeira Esposa de Cristo.


Visto em:

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Começar por dentro (humildade)

São Bento se propõe a educar os monges, adultos ou crianças, que se apresentam à porta do mosteiro. Como o faz? Ele lhes repete a palavra do Evangelho: “O que se humilhar será exaltado e o que se exaltar será humilhado” (Lc. 14, 11) e ele faz preceder esta citação destas palavras: “A Sagrada Escritura, meus irmãos, nos faz ouvir este grito:”.

 São Bento quer assim atrair toda a nossa atenção para este ponto decisivo de toda educação. É preciso fazer-se pequeno se se quer que o bom Deus se encarregue de nós e nos faça grandes pela participação de sua natureza divina. Eis a educação beneditina: o aprendizado da santidade.
 

E o que diz São Bernardo, nos colocará ainda melhor no bom caminho. O santo abade de Claraval define a humildade como a virtude que 
faz com que nos desprezemos, em consequência de um verdadeiro conhecimento de nós mesmos. A humildade é a verdade, dizia Santa Teresa d’Ávila.

São Francisco de Sales concorda plenamente com esta maneira de proceder de São Bento. Eis o que ele diz:  
“Eu não poderia jamais aprovar o método que, para mudar o homem, começasse pelo exterior, pelos modos, pelos hábitos, pelos cabelos. Parece-me, ao contrário, que é necessário começar pelo interior, porque quem tem Jesus Cristo em seu coração, logo depois O tem em todas as suas ações exteriores.”

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domingo, 11 de outubro de 2015

Do humilde sentir de si mesmo

Todo homem tem desejo natural de saber; mas que aproveitará a ciência, sem o temor de Deus? Melhor é, por certo, o humilde camponês que serve a Deus, do que o filósofo soberbo que observa o curso dos astros, mas se descuida de si mesmo. Aquele que se conhece bem se despreza e não se compraz em humanos louvores. Se eu soubesse quanto há no mundo, porém me faltasse a caridade, de que me serviria isso perante Deus, que me há de julgar segundo minhas obras?
Renuncia ao desordenado desejo de saber, porque nele há muita distração e ilusão. Os letrados gostam de ser vistos e tidos por sábios. Muitas coisas há cujo conhecimento pouco ou nada aproveita à alma. E mui insensato é quem de outras coisas se ocupa e não das que tocam à sua salvação. As muitas palavras não satisfazem à alma, mas uma palavra boa refrigera o espírito e uma consciência pura inspira grande confiança em Deus.
Quanto mais e melhor souberes, tanto mais rigorosamente serás julgado, se com isso não viveres mais santamente. Não te desvaneças, pois, com qualquer arte ou conhecimento que recebeste. Se te parece que sabes e entendes bem muitas coisas, lembra-te que é muito mais o que ignoras. Não te presumas de alta sabedoria (Rom 11,20); antes, confessa a tua ignorância. Como tu queres a alguém te preferir, quando se acham muitos mais doutos do que tu e mais versados na lei? Se queres saber e aprender coisa útil, deseja ser desconhecido e tido por nada.
Não há melhor e mais útil estudo que se conhecer perfeitamente e desprezar-se a si mesmo. Ter-se por nada e pensar sempre bem e favoravelmente dos outros, prova é de grande sabedoria e perfeição. Ainda quando vejas alguém pecar publicamente ou cometer faltas graves, nem por isso te deves julgar melhor, pois não sabes quanto tempo poderás perseverar no bem. Nós todos somos fracos, mas a ninguém deves considerar mais fraco que a ti mesmo.
Imitação de Cristo – Tomás de Kempis

sábado, 17 de janeiro de 2015

Esforce-se por ser humilde do coração.

- Santo Afonso Maria de Ligório

"(...)A segunda coisa, em que principalmente consiste a doçura, é na paciência em sofrer os desprezos. 

Dizia S. Francisco de Assis que muitas pessoas fazem consistir a sua perfeição em recitar muitas orações, ou fazer muitas mortificasses corporais, ao passo que não pode suportar uma palavra injuriosa. 

Não compreendem elas, ajuntava o santo, quanto lhes é mais proveitoso suportar as afrontas. 

Maior mérito haverá em receber em paz uma injúria, que em jejuar dez dias a pão e água.

Segundo S. Bernardo, há três graus de virtude a que deve aspirar quem quer santificar-se: o primeiro é não querer dominar sobre os outros; o segundo querer estar sujeito a todos; o terceiro sofrer com paciência as injúrias.

Vereis, por exemplo, que se concede aos outros o que a vós se recusa; que o que os outros dizem é escutado; e o que vós dizeis escarnecido; que os outros são louvados, escolhidos para empregos honrosos e negócios importantes, e que de vós se não faz caso. 

Tudo quanto fazeis vos atrai censuras e remoques; então, diz S. Doroteu, sereis verdadeiramente humildes, se aceitardes em paz todas estas humilhações, e se recomendardes a Deus, como vossos maiores benfeitores, os que assim vos tratam, curando o vosso orgulho, — a mais perigosa moléstia, capaz de vos dar a morte."

(Livro: A Selva - Santo Afonso Maria de Ligório)
 
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"Esforce-se por ser humilde do coração. Muitos há que são humildes de palavras, mas não do coração; dizem que são os maiores pecadores do mundo, que merecem mil infernos; apesar disso, querem ser preferidos, estimados e louvados. 

Quando ninguém os aplaude, a si próprios se louvam; ambicionam os empregos mais altos, e não podem sofrer uma palavra de desprezo.Não procedem assim os humildes de coração: nunca falam dos seus talentos, da sua nobreza, das suas riquezas, nem de coisa alguma que os distinga.

Amará pois os empregos e serviços mais humildes e obscuros. Receberá as afrontas sem se perturbar, e até interiormente se comprazerá nelas, por se tornar assim semelhante a Jesus Cristo, que foi saturado de opróbrios.Será prestável a todos, e cuidará em especial de fazer bem a quem lhe tiver feito mal, pelo menos recomendando-o a Deus; é a vingança dos santos." 

(Regras Espirituais para um Padre que Aspire à Perfeição - 
Santo Afonso Maria de Ligório)

sábado, 21 de junho de 2014

Prática da humildade

93875583_oVamos agora à prática: vejamos o que temos a fazer para sermos verdadeiramente humildes, não de nome mas de fato.
1. Ter horror ao orgulho
Primeiro que tudo, devemos conceber um grande horror pelo orgulho, porque Deus, como acima vimos, resiste aos orgulhosos e priva-os das suas graças. Um padre, sobretudo para se conservar casto, necessita duma assistência particular de Deus; como pois, se for orgulhoso, poderá guardar a castidade, quando o Senhor lhe retirar o auxílio, em castigo do seu orgulho?
O orgulho, diz o Sábio, é o sinal duma ruína próxima. Por isso Sto. Agostinho chega a dizer que, de certo modo, é proveitoso aos orgulhosos caírem nalgum pecado manifesto, para que aprendam a humilhar-se e a desprezar- se a si próprios. Assim Davi caiu em adultério, por falta de humildade, como depois confessou nestes termos: Pequei antes de ser humilhado.
Diz S. Gregório que o orgulho produz a impudicícia; porque a carne precipita no inferno os que se deixam enfatuar pelo espírito de orgulho. Está no meio deles o espírito de fornicação… E a arrogância de Israel se ostenta no seu rosto. Perguntai a um impudico porque recai sempre nas mesmas torpezas: Respondebit arrogantia: responderá por ele o orgulho, apresentando-se como causa; porque o Senhor castiga a audácia presunçosa do orgulhoso, permitindo- lhe que se afunde nas suas baixezas. Como diz o Apóstolo, foi o castigo infligido outrora ao orgulho dos sábios do mundo: Por isso os entregou Deus aos desejos do seu coração, à impureza, para que desonrassem o seu próprio corpo. O demônio não teme os orgulhosos. Refere Cesário (Dial. l. 4. c. 5) que um dia um possesso, tendo sido levado a um mosteiro de Citeaux, o abade chamou para junto de si um jovem religioso, com grande fama de virtude, e disse ao demônio: Se este religioso te mandasse sair, ousarias tu resistir? — “Desse não tenho eu medo, porque é orgulhoso, respondeu o espírito maligno”. — S. José Calasâncio dizia que um padre orgulhoso é nas mãos do demônio como uma péla de jogar, que ele arremessa e faz cair onde lhe apraz.
Sempre os santos têm temido mais o orgulho e a vanglória que todo os males temporais. Conta Súrio (8 de jan. V. S. Sever.) que um santo homem, a quem os seus milagres atraíam a estima e veneração de todo o mundo, pediu ao Senhor que o tornasse possesso do demônio, para se pôr a salvo das freqüentes tentações de vanglória, que o assaltavam; foi ouvido, e permaneceu possesso durante cinco meses, passados os quais foi livre do espírito infernal, e ao mesmo tempo do espírito de vaidade que o atormentava. Neste intuito permite Deus que os próprios santos estejam expostos às tentações de impureza e, apesar das suas súplicas, persistam no combate. Foi o que aconteceu a S. Paulo, como ele escreveu: Para que a grandeza destas revelações me não fizesse orgulhar, foi-me dado o aguilhão da carne, um anjo de Satanás que me prega bofetadas. Por essa causa três vezes pedi a Deus que me livrasse dele; e respondeu-me: Basta-te a minha graça; porque a virtude aperfeiçoa-se na fraqueza. Assim, diz S. Jerônimo, foi dado a S. Paulo o aguilhão da carne, como despertador para o conservar na humildade. Donde S. Gregório conclui que, para se conservar a castidade em toda a sua integridade, é necessário confiá-la à guarda da humildade.
Façamos aqui uma reflexão: Para humilhar o orgulho do povo egípcio, mandou-lhe o Senhor como tormento, não ursos ou leões, mas rãs. Que quer isto significar? Que algumas vezes permite Deus que sejamos atormentados por certas palavras insignificantes que ouvimos, por pequenas aversões, por coisas de nada, para que reconheçamos a nossa miséria e nos humilhemos.
2. Não se gloriar do bem praticado
Em segundo lugar é necessário que estejamos prevenidos contra a vaidade, por qualquer bem de que sejamos instrumentos, — nós principalmente que nos achamos erguidos à sublime dignidade do sacerdócio. Como são altos os nossos ministérios! Foi-nos confiada a augusta função de oferecer a Deus o seu próprio Filho. Como diz S. Paulo, foi-nos conferida a missão de reconciliar os pecadores com Deus, pela pregação e administração dos sacramentos.
Somos os embaixadores e vigários de Jesus Cristo, órgãos de Espírito Santo. São as mais altas montanhas, diz S. Jerônimo, que estão mais expostas aos ventos impetuosos; assim, quanto mais sublime é o nosso ministério, tanto mais sujeitos estamos aos assaltos da vanglória. Todos nos estimam, e nos olham como sábios e santos; facilmente se perturba a cabeça dos que estão em grandes alturas. Quantos padres, por falta de humildade, caíram no precipício! Montano chegou a fazer milagres, e depois a ambição fez dele um heresiarca. Taciano compôs muitos e belos escritos contra os idólatras, e o orgulho fê-lo cair também na heresia. O irmão Justino, franciscano, foi precipitado pelo orgulho, dos mais altos graus da contemplação, na apostasia, e morreu como réprobro. Na Vida de S. Palemon se lê que um monge, caminhando sobre carvões ardentes se gloriava e dizia: “Qual de vós pode caminhar sobre brasas, sem se queimar?” S. Palemon repreendeu-o, mas o desgraçado encheu-se de orgulho, caiu num pecado e morreu em mau estado. Dominado pelo orgulho, o homem espiritual é o mais culpado de todos os bandidos, porque o que ele arrebata não são bens de terra, é a glória do Céu. S. Francisco tinha o costume de fazer esta súplica: “Senhor! guardai vós mesmo os bens que me derdes; de contrário, eu vo-los roubaria”. Tal é a oração que também nós, os padres devemos fazer. Digamos sempre com S. Paulo: Tudo quanto sou, à graça de Deus o devo. De fato, segundo o mesmo Apóstolo, somos incapazes, não só de boas obras, mas até de termos de nós mesmos um bom pensamento. Daí a advertência que o Senhor nos faz:
Uma vez cumprido o que vos é prescrito, dizei: Somos servos inúteis; só fizemos o que era do nosso dever. Que podem aproveitar a Deus todas as nossas obras? que necessidade pode ele ter dos nossos bens? Sois vós o meu Deus, dizia Davi, não careceis dos meus bens. Em Jó lê-se: Se fizerdes o bem, o que é que lhe dais? Que dádiva podeis oferecer a Deus, que o torne mais rico? Somos ainda servos inúteis, porque tudo quanto fazemos nada é, para um Deus que merece um amor infinito e tanto sofreu por nosso amor. Razão por que o Apóstolo dizia de si mesmo: Se pregar o Evangelho, não tenho que me gloriar disso, porque é dever meu fazê-lo43. Por dever e também por gratidão estamos obrigados a fazer por Deus o que pudermos, e tanto mais que tudo o que fazemos é mais obra sua do que nossa. “Quem não mofaria das nuvens, se elas se gloriassem da chuva que nos dão?” É S. Bernardo quem assim fala, e acrescenta que nas obras dos santos os louvores devem ir menos para os que as fazem, do que para Deus, que se serve deles para as fazer. No mesmo sentido diz Sto. Agostinho, dirigindo-se a Deus: Se algum bem há, grande ou pequeno, é de vós que ele promana; da nossa parte só há mal. E noutro lugar: Quem vos apresentar como seus alguns merecimentos, que vos apresentará senão os vossos dons?
Assim, quando fazemos algum bem, devemos dizer ao Senhor: O que das vossas mãos temos recebido, é o que vos retribuímos. Quando Sta. Teresa fazia ou via fazer alguma obra boa, louvava a Deus, dizendo que dele derivava todo o bem. Dali esta advertência de Sto. Agostinho, — que, se a humildade não caminhar na vanguarda, tudo quanto fizermos de bem se tornará presa do orgulho. Está o orgulho como de emboscada para fazer perecer as nossas boas obras. É o que fazia dizer a S. José Calasâncio: quanto mais Deus nos favorece com graças particulares, tanto mais nos devemos humilhar, se não queremos perder tudo.
Por um pouco de estima própria se compromete tudo. Multiplicar atos de virtude, sem a humildade, é o mesmo que lançar poeira ao vento, diz S. Gregório. E Tritêmio ajunta: Se desprezais os outros, tornais-vos piores que todos.
Nunca os santos se gloriam das suas vantagens, antes procuram fazer conhecer aos outros o que pode redundar em confusão sua. O Pe. Vilanova, da Companhia de Jesus, não tinha nenhuma repugnância em dizer a toda agente que o seu irmão era um pobre artista. O Pe. Sacchini, da mesma Companhia, encontrando em público seu pai, que era um pobre almocreve, correu logo a abraçá-lo, exclamando: “Ó! eis o meu pai!” Cuidemos de ler as Vidas dos santos, e perderemos o orgulho: nelas encontramos atos heróicos, e cuja vista coraremos de tão pouco havermos feito.
3. Manter-se na desconfiança de si mesmo
Em terceiro lugar, é necessário que vivamos numa contínua desconfiança de nós mesmos. Se Deus nos não assistir, não poderemos conservar-nos na sua graça: Se Deus não guardar a cidade, debalde vigiará o que a guarda.
Há santos que, com pouca ciência, converteram povos inteiros. Santo Inácio de Loyola fazia em Roma discursos familiares, e até cheios de expressões impróprias; apesar disso, como eram palavras que saíam dum coração humilde e abrasado do amor de Deus, produziam um tal fruto, que os ouvintes iam logo confessar-se com tantas lágrimas que mal podiam falar.
Pelo contrário, há sábios que pregam e, com toda a sua ciência e eloqüência, não convertem uma só alma. É sobre eles que recai esta palavra de Oséas: Dá-lhes um seio estéril e peitos sem leite. Inchados com o seu saber, tais pregadores são mães estéreis, mães apenas de nome e sem filhos. E, se os filhos dos outros vem pedir-lhes leite, morrerão à míngua, porque os orgulhosos só estão cheios de vento e fumo; só têm a ciência que incha5 Tal a desgraça a que os sábios estão expostos. É difícil, como escrevia o cardeal Belarmino a seu sobrinho, que um sábio seja muito humilde, que não despreze os outros, que não critique as suas ações; que não se apegue ao seu próprio juízo, e se sujeite de boa vontade ao pensar dos outros e às suas correções.
Sem dúvida, quem prega não deve falar ao acaso; é necessário que tenha meditado e estudado; mas, depois de termos preparado o nosso discurso, e depois de o pronunciarmos com clareza e facilidade, devemos dizer: Servi inutiles sumus. O fruto dele não devemos esperá-lo do nosso trabalho, mas da graça de Deus. Com efeito, que proporção pode haver entre as nossas palavras e a conversão dos pecadores? Poderá gloriar-se o machado, em detrimento de quem se serve dele?Terá direito a dizer-lhe: Fui eu que cortei esta árvore; não foste tu? Somos como bocados de ferro incapazes de nos movermos, se o próprio Deus nos não imprimir o movimento. Disse o divino Mestre: Sem mim, nada podeis; o que Sto. Agostinho comenta assim: Não diz: Sem mim pouco podeis; mas diz: Nada podeis. E de si mesmo diz o Apóstolo: Por nós mesmos, nem um bom pensamento podemos formas. Se nem um bom pensamento podemos ter, quanto menos fazer uma boa obra! Nem o que planta, nem o que rega é coisa alguma, só é tudo Deus, que dá o crescimento. Não são o pregador e o confessor que por suas palavras fazem crescer as almas na virtude; é Deus quem faz tudo. Donde S. João Crisóstomo conclui: Reconheçamos a nossa inutilidade, para que nos tornemos úteis. Assim, quando nos louvarem, devolvamos logo a honra para Deus, único a quem ela pertence e digamos: Só a Deus a honra e a glória! E, quando a obediência nos impuser algum cargo, ou mandar alguma ação, não nos deixemos ir à desconfiança, considerando a nossa incapacidade; confiemos em Deus que, falando-nos pela boca do superior nos diz: Eu estarei na vossa boca.
O Apóstolo dizia: De bom grado me gloriarei nas minhas enfermidades, para que a virtude de Jesus Cristo habite em mim. É o que nós devemos também dizer: devemos gloriar-nos no conhecimento da nossa fraqueza, para adquirirmos a virtude de Jesus Cristo, a santa humildade. Ó! que grandes coisas podem levar a cabo os humildes! Nada lhes é difícil, diz S. Leão. De fato, os humildes, confiando em Deus, operam com o braço de Deus e conseguem quanto querem. Os que operam no Senhor crescerão em força. S. José Calasâncio dizia: “Quem quer que Deus se sirva dele para grandes coisas, deve procurar ser o mais humilde de todos”. Só ao humilde pertence dizer: Posso tudo naquele que me conforta. Esse, à vista duma empresa difícil, não perde a coragem, antes diz confiado: Com o auxílio de Deus faremos grandes coisas. Para converter o mundo, não quis Jesus Cristo escolher homens poderosos e sábios, mas pescadores pobres e ignorantes, porque eram humildes e não confiavam nas suas próprias forças: Escolheu Deus as coisas fracas do mundo, para confundir os fortes… para que nenhuma carne se glorie na sua presença.
Não nos deve lançar no desalento a consideração dos nossos defeitos.
Por dolorosa que seja a facilidade com que recaímos nas mesmas faltas, apesar das resoluções tomadas e das promessas que fazemos a Deus, não nos abandonemos à desconfiança, como o demônio nos insinua, para nos precipitar em pecados mais graves. Então mais que nunca devemos avivar a nossa confiança em Deus, servindo-nos dos próprios defeitos para mais confiarmos na misericórdia divina, conforme a palavra do Apóstolo: Todas as coisas concorrem para o nosso bem. A Glosa acrescenta: “Até os nossos pecados”. Por vezes permite o Senhor que se caia, ou se recaia em certa falta, para que se aprenda a não confiar nas próprias forças, mas sim no socorro divino. Era o que fazia dizer a Davi: Senhor, permitiste as minhas quedas para meu bem.
4. Aceitar as humilhações
Em quarto lugar, para adquirir a humildade, é necessário acima de tudo que aceitemos as humilhações, que nos advierem, ou de Deus ou dos homens, dizendo então com sinceridade: Tenho pecado, sou verdadeiramente culpado, e não tenho sido castigado como merecia. Pessoas há, nota S. Gregório, que se dizem pecadoras e dignas de todo o desprezo, mas não se crêem tais; porque apenas são desprezadas ou repreendidas logo se irritam.
São muitos os que têm as aparências da humildade, diz igualmente Sto. Ambrósio, mas sem terem dela a realidade73. Fala Cassiano74 dum certo monge que protestava em altas vozes que era um grande pecador, indigno de permanecer sobre a terra. Na mesma ocasião foi repreendido duma falta considerável pelo abade Serapion: era de andar ocioso pelas celas dos outros, em vez de estar na sua, conforme o preceito da regra. Mas logo esse monge se perturbou, dando sinais exteriores de sua agitação. Então lhe disse o abade: “Como é isso, meu filho! Acabaste de te declarares digno de todos os opróbrios, e dás-te por magoado com a advertência caridosa que te fiz?” O mesmo acontece a muitos que desejariam ser tidos por humildes, mas que não querem sofrer nenhuma humilhação. Homem há, diz o Sábio, que se humilha com vistas humanas, mas tem o coração cheio de malícia. Procurar ser louvado pela sua humildade, dizia S. Bernardo, não é efeito, mas ruína da humildade. É isso alimentar o orgulho com a ambição de ser humilde. Quem é verdadeiramente humilde, não contente com ter de si mesmo uma baixa idéia, quer ainda que os outros a tenham também. É humilde, diz S. Bernardo, quem muda a humilhação em humildade. Quer isto dizer que o homem verdadeiramente humilde, ao receber desprezos, se humilha ainda mais, dizendo que bem os mereceu.
Pensemos enfim que, se não formos humildes, não só não faremos nenhum bem, mas nem mesmo chegaremos a salvar-nos: Se não vos converterdes, e não vos tornardes como pequeninos, não entrareis no reino dos céus. É necessário portanto, para entrarmos no Céu, fazermo-nos como criancinhas, não pela idade, mas pela humildade. Segundo S. Gregório, assim como o orgulho é um sinal da reprovação, a humildade é um sinal de predestinação. E S. Tiago nos dá estes aviso: Resiste Deus aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes. Para os orgulhosos fecha o Senhor a sua mão e retém as suas graças; mas abre-as para os humildes. — Sê humilde, diz o mesmo Eclesiástico, e espera da mão de Deus todas as graças que desejares. E o nosso Salvador diz: Na verdade, na verdade vos digo, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer nela, permanecerá só e estéril; mas se morrer produzirá muito fruto. O padre que morre ao orgulho, há de fazer muito fruto; o que não morre a si mesmo, o que é sensível aos desprezos, ou confia nos seus talentos, ipsum solum manet, esse permanecerá só, e nenhum fruto produzirá, nem para si, nem para os outros. 
A Selva – Sto Afonso de Ligório

Fonte:

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Humildade e mansidão

Fonte: Mãe Cristã

A virtude evangélica por excelência, a que sustenta todas as outras e de algum modo as substitui, quando elas faltam, é a humildade.
               A gente pode santificar-se e entrar no céu, diz São Clímaco, sem nunca ter feito milagres, nem ações brilhantes; mas ninguém será jamais admitido na celeste pátria, sem ter sido manso e humilde de coração, a exemplo de N. S. Jesus Cristo.
               O cume das montanhas fica estéril porque as águas do céu não se demoram nele e descem, ao contrário, para banhar e fertilizar os vales. Assim também os raios do Altíssimo, resvalando apenas nas almas presunçosas, vão pousar sobre os humildes para os iluminar e enriquecer. Está escrito que Deus resiste aos soberbos e não concede a Sua graça e a Sua luz senão aos humildes.
               O conhecimento experimental de nós mesmo deve produzir a humildade. Entregues unicamente as nossas forças e aos nossos próprios pensamentos, seriamos impotentes e incapazes de virtude, de progresso e de perfeição.
               Acrescente a isso o peso de nossa natureza terrestre que gravita incessantemente para o mal e desde a infância, instintos funestos se insurgem contra as atrações nobres de uma natureza mais elevada.
               Reconhecer estes fatos, encará-los sob todos os seus aspectos e confessá-los sem restrição e sem fingimento, é permanecer na verdade e fazer justiça a si mesmo, eis no que consiste a humildade.
               Sem dúvida que, no íntimo, geralmente se testemunha isto. Consente-se mesmo em confessar algumas verdades a face do mundo, dizendo-se por exemplo: Eu sou fraco e incapaz; não tenho virtudes, nem talento! Mas porventura esta linguagem é sincera? Não; e a prova de que a vossa confiança não se acha de acordo com as vossas palavras, é que vós não suportais na boca dos outras a mesma opinião a vosso respeito.               Nós, de bom grado, afirmamos as nossas fraquezas, exageramo-las mesmo; mas com a condição de que os outros o não acreditem, ou de que acreditem justamente o contrário. Salvo o caso de uma completa obcecação, nós sabemos muito bem quão pouco valemos; mas não queremos que os outros o saibam e ainda menos que se atrevam a dizê-lo.
               Somos pequenos e queremos parecer grandes; somos ignorantes e queremos parecer instruídos; somos pobres, e queremos parecer ricos; somos obscuros, e queremos a todo o preço atrair a atenção e as homenagens do mundo. A verdadeira humildade condena estas enganadoras aparências; ela mantém na simples verdade os sentimentos inferiores e os põe em harmonia com as palavras e com as obras.
               A humildade é o princípio de todos os atos de N. S. Jesus Cristo. Ela é que O faz descer do céu sobre a terra; que O faz nascer em um presépio; que O faz obscuro e submisso em Nazaré, penitente no deserto e confundido sob as vestes ignominiosas dos crimes do homem. Ela inspira todas as Suas palavras, dirige todas as ações da Sua vida pública, e O rebaixa aos olhos do mundo inteiro sobre o Calvário. E é porque Ele Se aniquilou até ao ponto de se fazer semelhante ao último dos homens, que o Seu nome tem sido exaltado acima de todos os nomes.
               A Virgem santa, sempre unida aos sentimentos de N. S. Jesus Cristo, era penetrada de uma humildade não menos profunda. Ela própria nos revelou a causa da Sua grandeza quando a Sua boca pronunciou esta frase do sublime cântico: “Respexit humilitatem ancilǽ suǽ”.
De onde se vê que a humildade, longe de ser um baixeza, é ao contrário a condição da elevação e da dignidade cristã. Nota-se contudo que a humildade é, dentre todas as virtudes, justamente aquela cujo exercício deveria ser mais fácil para nós, e ao contrário dificílimo para Nossa Senhora; porquanto, se ela se funda sobre a consciência de nossas imperfeições, basta a cada um lançar os olhos sobre si mesma, para se tornar humilde. Estas imperfeições não existiam na Virgem Imaculada. Ela foi concebida sem pecado, viveu sem mácula, e era em tudo pura e perfeita. E entretanto não Se atribuía nenhuma das graças de que tinha à plenitude: era humilde de coração, humilde de espírito, humilde nos Seus pensamentos, humilde nas Suas palavras e em todos os atos de Sua vida.
               E nós que, segundo a Escritura, fomos “concebidos na iniqüidade e nascidos no pecado”, que estamos sujeitos a todas as misérias morais que degradam a natureza humana, e que em milhares de circunstâncias, quase a cada instante do dia, damos uma triste prova da nossa fraqueza, nós todavia não temos humildade, exaltamo-nos a nós mesmos, e erguemos em face de Deus uma fronte soberba!
               Quando nos trazem a Virgem das virgens para exemplo e nos convidam a imitar as Suas admiráveis virtudes, não imaginemos que este modelo está acima de nosso alcance. Pelo lado da humildade ele é bem acessível a nós; é tornando-se humildes e mansas que almas cristãs se assemelham a sua mãe do céu.
               A humildade solidamente adquirida desenvolve por sua vez e salvaguarda todas as outras virtudes; ela só por si atrai a Graça que as fecunda e as bênçãos que a coroam. A humildade é a guarda da fé porque exclui a presunção que sonda temerariamente os mistérios da ordem divina. Ela teria vergonha de elevar-se acima dos ensinamentos sagrados da Igreja; e submissa e confiante, aceita sem hesitação os incontestáveis testemunhos da palavra revelada.
               A humildade, além disso, protege a caridade.
               Oh! Como as almas humildes conservam facilmente relações com toda a sorte de pessoas!
           Despidas de amor próprio elas não se irritam, nem se formalizam; posto que isentam de certas susceptibilidades, abstêm-se, com delicadeza, de ferir os outros; desculpam com sinceridade os defeitos alheios, porque estes lhes recordam seus próprios defeitos; e são indulgentes, enfim, porque elas mesmas tem necessidade de indulgência. Perdoam para que se lhes perdoe; e desinteressadas e generosas, dão de boa vontade o bem pelo mal. Amam, não para serem amadas, o que seriam um ato de amor próprio, mas amam para amar, com esse desinteresse e magnanimidade que caracterizam o verdadeiro amor.
               A humanidade sustem principalmente a esperança.
              O que é que muitas vezes extingue este sentimento da alma do pecador? O que é que perturba, até sobre o leito da morte, a paz do cristão? É a lembrança das faltas cometidas, é a imperfeição das obras; é a pobreza dos méritos. Mas a alma humilde não se aterra, nem se aflige com isso.

               Ela bem sabe que por si mesma nenhum titulo tem as celestes recompensas e não conta em nada com seu mérito pessoal. Contando, porém, com a virtude do sangue de Jesus Cristo que a justifica e a santifica, ela crê, ama e espera; e com o publicano do Evangelho lança-se cheia de humilde confiança no seio do pai das misericórdias. Não é o ouro, nem a ciência, nem são os títulos de nobreza, que dão glória e felicidade. A verdadeira grandeza sai da humildade. Jesus Cristo no-lo diz: “Aquele que se humilha será exaltado”; e quanto mais a alma cristã se abaixa perante Deus, confiada n'Ele, tanto mais força adquire em seu vôo para o céu. A mãe, compenetrada desta virtude terá nela um preservativo contra todas as tentações e um remédio infalível nas mais graves circunstâncias da vida. Todavia, a inseparável companheira da humildade, sua irmã gêmea, por assim dizer, é a mansidão. Uma não anda sem a outra e ambas mutuamente se auxiliam e se abraçam. A verdadeira mansidão não reside senão numa alma forte, e a força sobrenatural provêm da humildade. Só a fraqueza se enfurece ou se exalta. Não se pode por em prática a verdadeira mansidão, a mansidão evangélica, quando não se tem energia para resistir ao mal e fazer o bem.
               As almas humildes tendem ao seu fim com firmeza e suavidade, “Suaviter et fortite”. Elas são dotadas de uma virtude oculta, atrativa, vitoriosa, que toca o coração de Deus e o coração dos homens.“Bem aventurados os mansos, porque estes possuirão a terra”, o que quer dizer que se fordes brandas e humildes conquistareis tudo que vos cerca e sereis na sociedade, como em vossas famílias, os anjos do aperfeiçoamento e da salvação.



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