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sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Os 5 conselhos cruciais do primeiro capítulo da “Imitação de Cristo”

 HEAD OF CHRIST,REMBRANDT

Afinal, "os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos de ouvir"

Um dos maiores clássicos da espiritualidade católica de todos os tempos é o livro "A Imitação de Cristo", escrito no século XV e atribuído ao padre alemão Thomas Hemerken, mais conhecido como Thomas de Kempis - Kempis é a forma latina do nome da sua cidade natal, Kempen.

Originalmente voltado aos clérigos de vida reclusa, o texto é um tesouro para todo e qualquer católico, tanto que chegou a ser um dos livros mais traduzidos no mundo, com milhares de cópias distribuídas pelas bibliotecas europeias mesmo antes da invenção da imprensa. Para exemplificar a sua capacidade de impacto na alma de uma pessoa, basta recordar que Santo Inácio de Loyola leu a obra durante o tempo de retiro espiritual que passou em uma gruta de Manresa, na Espanha, e foi esse texto que o inspirou a conceber os Exercícios Espirituais.

"A Imitação de Cristo" tem 4 partes, sendo as duas primeiras uma introdução à vida espiritual, a terceira um diálogo entre Cristo e a alma e a quarta é toda focada na Eucaristia.

Destacamos a seguir os 5 conselhos cruciais que encontramos em "A Imitação de Cristo", Livro 1, Capítulo 1:

1 | Devemos dedicar o máximo esforço a imitar a vida e os costumes de Jesus

"Quem me segue não anda nas trevas, diz o Senhor (Jo 8,12). São estas as palavras de Cristo, pelas quais somos advertidos que imitemos sua vida e seus costumes, se verdadeiramente queremos ser iluminados e livres de toda cegueira de coração. Seja, pois, o nosso principal empenho meditar sobre a vida de Jesus Cristo".

2 | Podemos venerar qualquer santo, mas devemos sempre priorizar Jesus

"A doutrina de Cristo é mais excelente que a de todos os santos, e quem tiver seu espírito encontrará nela um maná escondido. Sucede, porém, que muitos, embora ouçam frequentemente o Evangelho, sentem nele pouco enlevo: é que não possuem o Espírito de Cristo. Quem quiser compreender e saborear plenamente as palavras de Cristo, é-lhe preciso que procure conformar à dele toda a sua vida".

3 | Podemos cultivar conhecimento e sabedoria, mas devemos priorizar a vida virtuosa

"Que te aproveita discutires sabiamente sobre a Santíssima Trindade, se não és humilde, desagradando, assim, a essa mesma Trindade? Na verdade, não são palavras elevadas que fazem o homem justo; mas é a vida virtuosa que o torna agradável a Deus. Prefiro sentir a contrição dentro de minha alma, a saber defini-la. Se soubesses de cor toda a Bíblia e as sentenças de todos os filósofos, de que te serviria tudo isso sem a caridade e a graça de Deus? Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade (Ecl 1,2), senão amar a Deus e só a ele servir. A suprema sabedoria é esta: pelo desprezo do mundo tender ao reino dos céus".

4 | Devemos reconhecer o que é mera vaidade para não nos perdermos nela

"Vaidade é, pois, buscar riquezas perecedoras e confiar nelas. Vaidade é também ambicionar honras e desejar posição elevada. Vaidade, seguir os apetites da carne e desejar aquilo pelo que, depois, serás gravemente castigado. Vaidade, desejar longa vida e, entretanto, descuidar-se de que seja boa. Vaidade, só atender à vida presente sem providenciar para a futura. Vaidade, amar o que passa tão rapidamente, e não buscar, pressuroso, a felicidade que sempre dura".

5 | Podemos desfrutar dos prazeres sadios, mas nunca sacrificar a vida da graça

"Lembra-te a miúdo do provérbio: Os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos de ouvir (Ecl 1,8). Portanto, procura desapegar teu coração do amor às coisas visíveis e afeiçoá-lo às invisíveis: pois aqueles que satisfazem seus apetites sensuais mancham a consciência e perdem a graça de Deus".

sábado, 9 de março de 2024

Renega-te a ti próprio, toma a tua cruz e segue Jesus

 

A muitos parece dura esta palavra : «Renega-te a ti próprio, toma a tua cruz e segue Jesus.» 

Por que temes levar a cruz, pela qual se vai ao Reino? Na cruz está a salvação; na cruz, a vida; na cruz, a protecção dos inimigos; na cruz se derrama toda a suavidade do alto; na cruz, a força do espírito; na cruz, a alegria da alma; na cruz, a suprema virtude; na cruz, a perfeição da santidade. Não há salvação da alma nem esperança da vida eterna senão na cruz. Pega, pois, na tua cruz e segue-O: caminharás para a vida eterna. Se morreres com Ele, também com Ele viverás (cf Rom 6,8). E, se fores seu companheiro no sofrimento, também o serás na glória.

Eis que tudo consiste na cruz; não há outro caminho para a vida e para a verdadeira paz interior. Anda por onde quiseres, procura o que desejares, não encontrarás mais elevado caminho no alto, nem mais seguro cá em baixo, do que o caminho da santa cruz.

Dispõe e ordena tudo segundo o que queres e vês; não encontrarás nada onde não haja que sofrer, voluntária ou necessariamente, e assim sempre encontrarás a cruz. Ou sofrerás dores no corpo, ou encontrarás tribulações na alma. Umas vezes serás abandonado por Deus, outras serás afligido pelo próximo e, pior ainda, muitas vezes pesar-te-ás a ti mesmo; e não poderás ser libertado ou aliviado com qualquer remédio ou consolação. Deus quer que aprendas a suportar o sofrimento sem consolações, que te submetas a Ele totalmente e te tornes mais humilde pela tribulação. 

E é necessário que tenhas paciência, se queres possuir a paz interior e merecer a coroa imortal.

in Imitação de Cristo, Livro II, capítulo 12

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Os 5 conselhos cruciais do primeiro capítulo da “Imitação de Cristo”

 

HEAD OF CHRIST,REMBRANDT

Rembrandt, Public domain, via Wikimedia Commons


Afinal, "os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos de ouvir"

Um dos maiores clássicos da espiritualidade católica de todos os tempos é o livro “A Imitação de Cristo”, escrito no século XV e atribuído ao padre alemão Thomas Hemerken, mais conhecido como Thomas de Kempis – Kempis é a forma latina do nome da sua cidade natal, Kempen.

Originalmente voltado aos clérigos de vida reclusa, o texto é um tesouro para todo e qualquer católico, tanto que chegou a ser um dos livros mais traduzidos no mundo, com milhares de cópias distribuídas pelas bibliotecas europeias mesmo antes da invenção da imprensa. Para exemplificar a sua capacidade de impacto na alma de uma pessoa, basta recordar que Santo Inácio de Loyola leu a obra durante o tempo de retiro espiritual que passou em uma gruta de Manresa, na Espanha, e foi esse texto que o inspirou a conceber os Exercícios Espirituais.

“A Imitação de Cristo” tem 4 partes, sendo as duas primeiras uma introdução à vida espiritual, a terceira um diálogo entre Cristo e a alma e a quarta é toda focada na Eucaristia.

Destacamos a seguir os 5 conselhos cruciais que encontramos em “A Imitação de Cristo”, Livro 1, Capítulo 1:

1 | Devemos dedicar o máximo esforço a imitar a vida e os costumes de Jesus

“Quem me segue não anda nas trevas, diz o Senhor (Jo 8,12). São estas as palavras de Cristo, pelas quais somos advertidos que imitemos sua vida e seus costumes, se verdadeiramente queremos ser iluminados e livres de toda cegueira de coração. Seja, pois, o nosso principal empenho meditar sobre a vida de Jesus Cristo”.

2 | Podemos venerar qualquer santo, mas devemos sempre priorizar Jesus

“A doutrina de Cristo é mais excelente que a de todos os santos, e quem tiver seu espírito encontrará nela um maná escondido. Sucede, porém, que muitos, embora ouçam frequentemente o Evangelho, sentem nele pouco enlevo: é que não possuem o Espírito de Cristo. Quem quiser compreender e saborear plenamente as palavras de Cristo, é-lhe preciso que procure conformar à dele toda a sua vida”.

3 | Podemos cultivar conhecimento e sabedoria, mas devemos priorizar a vida virtuosa

“Que te aproveita discutires sabiamente sobre a Santíssima Trindade, se não és humilde, desagradando, assim, a essa mesma Trindade? Na verdade, não são palavras elevadas que fazem o homem justo; mas é a vida virtuosa que o torna agradável a Deus. Prefiro sentir a contrição dentro de minha alma, a saber defini-la. Se soubesses de cor toda a Bíblia e as sentenças de todos os filósofos, de que te serviria tudo isso sem a caridade e a graça de Deus? Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade (Ecl 1,2), senão amar a Deus e só a ele servir. A suprema sabedoria é esta: pelo desprezo do mundo tender ao reino dos céus”.

4 | Devemos reconhecer o que é mera vaidade para não nos perdermos nela

“Vaidade é, pois, buscar riquezas perecedoras e confiar nelas. Vaidade é também ambicionar honras e desejar posição elevada. Vaidade, seguir os apetites da carne e desejar aquilo pelo que, depois, serás gravemente castigado. Vaidade, desejar longa vida e, entretanto, descuidar-se de que seja boa. Vaidade, só atender à vida presente sem providenciar para a futura. Vaidade, amar o que passa tão rapidamente, e não buscar, pressuroso, a felicidade que sempre dura”.

5 | Podemos desfrutar dos prazeres sadios, mas nunca sacrificar a vida da graça

“Lembra-te a miúdo do provérbio: Os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos de ouvir (Ecl 1,8). Portanto, procura desapegar teu coração do amor às coisas visíveis e afeiçoá-lo às invisíveis: pois aqueles que satisfazem seus apetites sensuais mancham a consciência e perdem a graça de Deus”.

domingo, 21 de junho de 2020

Vive em paz quem não procura agradar aos homens nem teme desagradar-lhes

Filho, não te aflijas se alguém fizer de ti mau conceito ou disser coisas que não gostas de ouvir. Pior ainda deves julgar de ti mesmo, e avaliar-te o mais imperfeito de todos. Se praticares a vida interior, pouco te importarás de palavras que voam. 

É grande prudência calar-se nas horas da tribulação, volver-se interiormente a mim, e não se perturbar com os juízos humanos. Não faças depender a tua paz da boca dos homens; porque, quer julguem bem, quer mal de ti, não serás por isso homem diferente. 

Onde está a verdadeira paz e a glória verdadeira? Porventura não está em mim? Quem não procura agradar aos homens, nem teme desagradar-lhes, esse gozará grande paz. É do amor desordenado e do vão temor que nascem o desassossego do coração e a distração dos sentidos. 

in Imitação de Cristo, Livro II, Capítulo 28

sábado, 20 de junho de 2020

Imitação de Cristo: Desprezo de todas as vaidades do mundo


1. Quem me segue não anda nas trevas, diz o Senhor (Jo 8,12). São estas as palavras de Cristo, pelas quais somos advertidos que imitemos sua vida e seus costumes, se verdadeiramente queremos ser iluminados e livres de toda cegueira de coração. Seja, pois, o nosso principal empenho meditar sobre a vida de Jesus Cristo.


2. A doutrina de Cristo é mais excelente que a de todos os santos, e quem tiver seu espírito encontrará nela um maná escondido. Sucede, porém, que muitos, embora ouçam frequentemente o Evangelho, sentem nele pouco enlevo: é que não possuem o espírito de Cristo. Quem quiser compreender e saborear plenamente as palavras de Cristo é-lhe preciso que procure conformar à dele toda a sua vida.

3. Que te aproveita discutires sabiamente sobre a SS. Trindade, se não és humilde, desagradando, assim, a essa mesma Trindade? Na verdade, não são palavras elevadas que fazem o homem justo; mas é a vida virtuosa que o torna agradável a Deus. Prefiro sentir a contrição dentro de minha alma, a saber defini-la. Se soubesses de cor toda a Bíblia e as sentenças de todos os filósofos, de que te serviria tudo isso sem a caridade e a graça de Deus? Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade (Ecle 1,2), senão amar a Deus e só a ele servir. A suprema sabedoria é esta: pelo desprezo do mundo tender ao reino dos céus.

4. Vaidade é, pois, buscar riquezas perecedoras e confiar nelas. Vaidade é também ambicionar honras e desejar posição elevada. Vaidade, seguir os apetites da carne e desejar aquilo pelo que, depois, serás gravemente castigado. Vaidade, desejar longa vida e, entretanto, descuidar-se de que seja boa. Vaidade, só atender à vida presente sem providenciar para a futura. Vaidade, amar o que passa tão rapidamente, e não buscar, pressuroso, a felicidade que sempre dura.

5. Lembra-te a miúdo do provérbio: Os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos de ouvir (Ecle 1,8). Portanto, procura desapegar teu coração do amor às coisas visíveis e afeiçoá-lo às invisíveis: pois aqueles que satisfazem seus apetites sensuais mancham a consciência e perdem a graça de Deus.”

Padre Tomás de Kempis in Imitação de Cristo


Leia também;



O Verbo de Deus virá a nós





domingo, 24 de novembro de 2019

Meditação da Morte - Imitação de Cristo

A diferença entre morrer em estado de graça ou em pecado mortal




1. Bem depressa a tua vida terminará na terra; por isso vê como te conduzes: hoje vive o homem e amanhã já não existe. E em desaparecendo aos olhos, também depressa se apaga da lembrança.

Oh! loucura e dureza do coração humano, que só pensa no presente, e não prevê o futuro! De tal modo te devas portar em todas as obras e pensamentos, como se hoje houvesses de morrer. Se tivesses boa consciência, não recearias muito a morte. Melhor fora evitar o pecado, do que fugir da morte. Se hoje não estás preparado, como o estarás amanhã? O dia de amanhã é incerto; e quem sabe se te será concedido?

2. De que serve viver muito tempo, quando tão pouco nos emendamos? Ai! a vida longa nem sempre leva à emenda; muitas vezes aumenta mais as culpas. Prouvera a Deus, que, ao menos, tivéssemos vivido bem um só dia neste mundo! Não falta quem conte os anos da sua conversão; mas a quantos terão eles servido para se emendarem. Se é terrível morrer, talvez seja mais perigoso viver muito.

Bem-aventurado aquele que tem sempre diante dos olhos a hora da sua morte, e que todos os dias se prepara, para morrer. Se já viste morrer alguém, considera que também tu hás-de passar por aquela hora.

3. Quando amanhecer, pensa que não chegarás à noite. E quando anoitecer, não ouses contar com a manhã seguinte. Por isso anda sempre preparado, e vive de tal modo, que nunca a morte te encontre desprevenido. 

Muitos morrem repentina e inesperadamente. Porque o Filho do Homem há-de vir, na hora em que menos se espera. Quando essa última hora chegar começarás a julgar de modo muito diferente de toda a tua vida passada, e muito te arrependerás de teres sido tão negligente e remisso.

4. Quão feliz e prudente é aquele, que se esforça por ser na vida, como deseja que a morte o venha encontrar! (...) Agora é o tempo mais precioso; agora são os dias da salvação; agora é o tempo propício.

Mas ai! porque não empregas mais utilmente este tempo, em que podes ganhar merecimentos para a vida eterna? Tempo virá, em que hás-de querer um dia ou uma hora para te emendares, e não sei se a conseguirás.

6. Ah! meu irmão, de quantos perigos te poderias livrar, e quão grande temor evitar, se nesta vida andasses sempre penetrado do temor e desconfiança da morte! Procura agora viver de tal modo, que à hora da morte mais tenhas motivos para te alegrar, do que para temer. 

Aprende agora a morrer para o mundo, para então começares a viver com Cristo. Aprende agora a desprezar todas as coisas, para então poderes ir livremente para Cristo. Castiga o teu corpo pela penitência, para então poderes ter sólida confiança.

7. Oh! louco! Como pensas que hás-de viver largos anos, se nem sequer um dia tens seguro Quantos, julgando viver muito tempo, se enganaram, e foram inesperadamente arrancados ao corpo? (...) Faz agora, meu irmão, o que puderes; porque não sabes quando morrerás, e ignoras também o que será de ti depois da morte.

Enquanto tens tempo, entesoura para ti riquezas imortais. Não penses em mais nada, senão da tua salvação; trata tão somente das coisas de Deus.

9. Considera-te sobre a terra como peregrino e hóspede, que nada se preocupa com os negócios do mundo. Conserva o teu coração livre e levantado para Deus, porque não tens aqui morada permanente.

Dirige ao Céu com lágrimas as orações e gemidos de cada dia, para que a tua alma, depois da morte, mereça passar ditosamente ao Senhor. Ámen.

in Imitação de Cristo (Livro I - cap. XXIII)

sexta-feira, 8 de março de 2019

Filho, desci do céu para tua salvação




COMO, A EXEMPLO DE CRISTO, SE HÃO DE SOFRER COM IGUALDADE DE ÂNIMO AS MISÉRIAS TEMPORAIS



Jesus: Filho, desci do céu para tua salvação; tomei tuas misérias, não levado pela necessidade, mas pelo amor, para ensinar-te a paciência e a suportar com resignação as misérias temporais. Porque, desde a hora do meu nascimento até à morte na cruz, nunca estive um instante sem sofrer. Padeci grande penúria dos bens terrestres: ouvi muitas vezes grandes queixas de mim; sofri com brandura injúrias e opróbrios; recebi, pelos benefícios, ingratidões, pelos milagres, blasfêmias, pela doutrina, repreensões.
A alma: Senhor, já que fostes tão paciente em vossa vida, cumprindo nisso principalmente a vontade de vosso Pai, justo é que eu, mísero pecador, me sofra a mim com paciência, conforme quereis, e suporte por minha salvação o fardo desta vida corruptível. Porque, se bem que a vida presente seja pesada, torna-se, contudo, com a vossa graça, muito meritória e, com vosso exemplo e o de vossos santos, mais tolerável e leve para os fracos. É também muito mais consolada do que outrora, na lei antiga, quando a porta do céu estava fechada, e bem poucos tratavam de buscar o reino dos céus. Nem os justos sequer e predestinados podiam entrar no reino celeste antes da vossa paixão e resgate da vossa sagrada morte.
Oh! Quantas graças vos devo render, por vos terdes dignado mostrar a mim e a todos os fiéis o caminho direito e seguro para vosso reino eterno! Porque vossa vida é o nosso caminho e pela santa paciência caminhamos para vós, que sois nossa coroa. Sem vosso exemplo e ensino, quem cuidaria de vos seguir? Ah! Quantos ficariam atrás, bem longe, se não vissem vossos luminosos exemplos! E se ainda andamos tíbios, com tantos prodígios e ensinamentos, que seria se não tivéssemos tantas luzes para vos seguir?
Imitação de Cristo – Tomás de Kempis

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Quando alguém se humilha por causa dos seus defeitos acalma os outros

Quando um homem se humilha por causa dos seus defeitos, acalma os outros facilmente e satisfaz sem custo os que consigo se iravam. Deus protege e liberta o humilde, ama-o e consola-o. 

Inclina-Se para ele e dá-lhe grande graça; e, depois do seu abatimento, eleva-o à glória. Revela os seus segredos ao humilde, arrasta-o e convida-o docemente para Si. E ele, mesmo na confusão, vive em paz, porque se firma em Deus e não no mundo. [...]

Mantém-te tu em paz; e só então poderás pacificar os outros. O homem pacífico é mais útil do que o muito instruído. O apaixonado, porém, converte o bem em mal e acredita facilmente neste. O homem bom e pacífico converte todas as coisas em bem.

Aquele que está verdadeiramente em paz não suspeita mal de ninguém. Mas o que é descontente e inquieto é agitado por várias suspeitas. Nem descansa, nem deixa descansar os outros. Diz muitas vezes o que não devia dizer e omite fazer o que devia.

Preocupa-se com o que os outros têm de fazer, mas desleixa o que lhe compete. Tem, antes de tudo, cuidado contigo, e poderás então zelar pelo teu próximo.

in Imitação de Cristo (Tratado espiritual do século XV), Livro II - Caps. 2 e 3 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

DA IMITAÇÃO DE CRISTO E DESPREZO DE TODAS AS VAIDADES DO MUNDO

Quem me segue não anda nas trevas, diz o Senhor (Jo 8,12). São estas as palavras de Cristo, pelas quais somos advertidos que imitemos sua vida e seus costumes, se verdadeiramente queremos ser iluminados e livres de toda cegueira de coração. Seja, pois, o nosso principal empenho meditar sobre a vida de Jesus Cristo.
A doutrina de Cristo é mais excelente que a de todos os santos, e quem tiver seu espírito encontrará nela um maná escondido. Sucede, porém, que muitos, embora ouçam frequentemente o Evangelho, sentem nele pouco enlevo: é que não possuem o espírito de Cristo. Quem quiser compreender e saborear plenamente as palavras de Cristo é-lhe preciso que procure conformar à dele toda a sua vida.
Que te aproveita discutires sabiamente sobre a SS. Trindade, se não és humilde, desagradando, assim, a essa mesma Trindade? Na verdade, não são palavras elevadas que fazem o homem justo; mas é a vida virtuosa que o torna agradável a Deus. Prefiro sentir a contrição dentro de minha alma, a saber defini-la. Se soubesses de cor toda a Bíblia e as sentenças de todos os filósofos, de que te serviria tudo isso sem a caridade e a graça de Deus? Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade (Ecle 1,2), senão amar a Deus e só a ele servir. A suprema sabedoria é esta: pelo desprezo do mundo tender ao reino dos céus.
Vaidade é, pois, buscar riquezas perecedoras e confiar nelas. Vaidade é também ambicionar honras e desejar posição elevada. Vaidade, seguir os apetites da carne e desejar aquilo pelo que, depois, serás gravemente castigado. Vaidade, desejar longa vida e, entretanto, descuidar-se de que seja boa. Vaidade, só atender à vida presente sem providenciar para a futura. Vaidade, amar o que passa tão rapidamente, e não buscar, pressuroso, a felicidade que sempre dura.
Lembra-te a miúdo do provérbio: Os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos de ouvir (Ecle 1,8). Portanto, procura desapegar teu coração do amor às coisas visíveis e afeiçoá-lo às invisíveis: pois aqueles que satisfazem seus apetites sensuais mancham a consciência e perdem a graça de Deus.
Imitação de Cristo – Tomás de Kempis

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Vive em paz quem não procura agradar aos homens nem teme desagradar-lhes



Filho, não te aflijas se alguém fizer de ti mau conceito ou disser coisas que não gostas de ouvir. Pior ainda deves julgar de ti mesmo, e avaliar-te o mais imperfeito de todos. Se praticares a vida interior, pouco te importarás de palavras que voam. 

É grande prudência calar-se nas horas da tribulação, volver-se interiormente a mim, e não se perturbar com os juízos humanos. Não faças depender a tua paz da boca dos homens; porque, quer julguem bem, quer mal de ti, não serás por isso homem diferente. 

Onde está a verdadeira paz e a glória verdadeira? Porventura não está em mim? Quem não procura agradar aos homens, nem teme desagradar-lhes, esse gozará grande paz. É do amor desordenado e do vão temor que nascem o desassossego do coração e a distracção dos sentidos. 

in Imitação de Cristo, Livro II, Capítulo 28

domingo, 16 de julho de 2017

PROCURAR DEUS COM RETA INTENÇÃO, DIANTE DA INSTABILIDADE DO CORAÇÃO


(Outra valiosa exortação à vida interior de Tomás de Kempis, com a reflexão e oração de São Francisco de Sales) 

         JESUS: Filho, não te fies nos teus afetos pessoais, que depressa em outros se mudarão, enquanto viveres, estarás, sujeito ao varável, ainda que não queiras, ora te acharás alegre, ora triste, ora sossegado, ora perturbado, umas vezes fervoroso, outras tíbio, já diligente, já preguiçoso, agora sério, logo leviano. O sábio, porém, e instruído na vida espiritual, está acima desta inconstância, não cuidando do seus sentimentos, nem de que parte sopra o vento da instabilidade, mas concentrando todo esforço de sua alma no devido e almejado fim. Porque assim poderá permanecer sempre o mesmo inabalável, dirigindo a mim, sem cessar, a mira de sua intenção, entre todas as vicissitudes que lhe sobrevierem.

        Quanto mais pura for tua intenção, porém, tanto mais constante serás durante as diversas tempestades. Mas em muitos se escurece o olhar da pura intenção, porque depressa o volvem para qualquer objeto deleitável que se lhes depare. Poucos há inteiramente livres da pecha do egoísmo. Assim, o judeus foram um dia a Betânia, em casa de Maria e Marta, não só por amor de Jesus, mas também para verem Lázaro (Jo 12,9). Cumpre, pois, purificar a intenção, para que seja simples e reta e se dirija a mim acima de tudo que há de permeio.

                                                  REFLEXÃO
         Deus continua o ser supremo desse grande mundo em perpétua mudança, pela qual o dia se transforma sempre em noite, a primavera em verão, o verão em outono, outono em inverno e o inverno em primavera. E um dos dias jamais se assemelha perfeitamente ao outro: há dias nebulosos, chuvosos, secos, ventosos, variedade que dá uma grande beleza a este universo. Acontece o mesmo com o ser humano que é, segundo a opinião dos antigos, um resumo do mundo. Porque jamais ele está no mesmo estado (Jó 14,2), e sua vida escoa nesta terra como as águas, flutuando e ondulando numa perpétua diversidade de movimentos que ora o elevam às esperanças, ora o abaixam pelo medo, ora o inclinam à direita pela consolação, ora à esquerda pela aflição; e jamais um só de seus dias se assemelha ao outro, nem mesmo uma de suas horas se parece inteiramente com a outra.

         Daí  esta grave advertência: devemos esforçar-nos para manter uma contínua e inviolável igualdade de coração numa tão grande desigualdade de acidentes; e embora todas as coisas mudem e variem diversamente à nossa volta, devemos permanecer constantemente imóveis para sempre ter em vista tender e pretender ao nosso Deus (Introduction à la vien dévote, parte IV, Cap. XIII, I, 253).
          
                                                  ✞ ORAÇÃO ✞

         Ó dulcíssima vontade de meu Deus, que sejais feita para sempre! Ó desígnios eternos da vontade de meu Deus, eu vos adoro, consagro e dedico minha vontade para querer para sempre, eternamente, o que eternamente quisestes! Que eu faça, portanto, hoje e sempre, e em todas as coisas, vossa divina vontade, ó meu amável Criador! Sim, Pai Celeste, porque foi este o vosso prazer em toda eternidade. Assim seja (Opusc. III, 151).
          

(Fonte: livro “Imitação de Cristo com Reflexões e Orações de São Francisco de Sales”, Editora Vozes, 2ª edição, excertos do Livro II, Cap. 33, p. 199 e 201 – O título é nosso)

sábado, 20 de maio de 2017

DA FAMILIAR E VALOROSA AMIZADE COM JESUS



(Uma valiosa exortação à vida interior de Tomás de Kempis, com a oração de São Francisco de Sales)

Quando Jesus está presente, tudo é suave e nada é dificultoso; mas, quando Jesus está ausente, tudo se torna penoso. Quando Jesus não fala ao coração, nenhuma consolação tem valor; mas se Jesus fala uma só palavra, sentimos grande alívio. Porventura não se levantou logo Maria Madalena do lugar onde chorava, quando Marta lhe disse: O Mestre está aí e te chama? (Jo 11,28). Hora bendita quando Jesus te chama das lágrimas para o gozo do espírito! Que seco e árido és sem Jesus! Que néscio e vão, se desejas outra coisa, fora de Jesus! Não será isso maior dano que se perdesse o mundo inteiro?

Que te pode dar o mundo sem Jesus? Estar sem Jesus é terrível inferno, estar com Jesus é doce paraíso. Se Jesus estiver contigo, nenhum inimigo te ofender. Quem acha Jesus, acha precioso tesouro, ou, antes, o bem superior a todo bem; quem perde a Jesus, perde muito mais do que se perdesse a todo mundo. Paupérrimo é quem vive sem Jesus, e riquíssimo quem está bem com Jesus.

Grande arte é saber conversar com Jesus, e grande prudência conservá-lo consigo. Sê humilde e pacífico, e contigo estará Jesus; sê devoto e sossegado, e Jesus permanecerá contigo. Depressa podes afugentar a Jesus e perder a sua graça, se te inclinares às coisas exteriores; e se o afastas e o perdes, aonde irás e a quem buscarás como amigo? Sem amigo não podes viver, e se não for Jesus teu amigo acima de todos, estarás mui triste e desconsolado. Logo, loucamente procedes se em qualquer outro confias e te alegras. Antes ter o mundo todo por adversário, que ofender a Jesus. Acima de todos os teus amigos seja, pois, Jesus amado dum modo especial.

Sê livre e puro no teu interior, sem apego a criatura alguma. É mister desprenderes-te de tudo e ofereceres a Deus um coração puro, se queres sossegar e ver como é suave o Senhor. E, com efeito, tal não conseguirás, se não fores prevenido e atraído por sua graça, de modo que, deixando e despedindo tudo mais, com ele só estejas unido. Pois, quando lhe assiste a graça de Deus, de tudo é capaz o homem; e quando ele se retira, logo fica pobre e fraco, como que abandonado aos castigos. Ainda assim, não deves desanimar nem desesperar, antes resignar-te na vontade de Deus, e sofrer tudo que te acontecer, por honra de Jesus; pois ao inverno sucede o verão, depois da noite volta o dia, e após a tempestade reina a bonança.

ORAÇÃO

Ó Senhor Jesus! … estreitai, prensai e uni para sempre meu espírito ao vosso seio paternal! Oh! Uma vez que fui feito de vós, por que não estou em vós? Abismai esta gota de espírito que mês destes no mar de vossa bondade, da qual ela procede. Ah! Senhor, uma vez que o vosso coração me ama, por que não me arrebata a si, pois é o que mais quero? Levai-me e vou correr atrás de vossos atrativos, para jogar-me nos vossos braços partenos e jamais sair de lá pelos séculos dos séculos. Amém (Amour de Dieu, 1, VII, cáp. III, II, 157)



(Fonte: livro “Imitação de Cristo com Reflexões e Orações de São Francisco de Sales”, Editora Vozes, 2ª edição, excertos do Livro II, Cáp. 8, p. 104 e 105 – O título foi alterado por nós)


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