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terça-feira, 9 de janeiro de 2018

O bom samaritano e o divino Redentor


Samaritanus quidam, iter faciens, venit secus eum; et videns eum, misericordia motus est – “Um Samaritano, que ia seu caminho, chegou perto dele, e quando o viu, moveu-se à compaixão” (Lc 10, 33)
Sumário. Sob a imagem do bom Samaritano do Evangelho de hoje, Jesus Cristo representou-se a si mesmo. Por nosso amor desceu sobre a terra e se fez homem; curou as chagas de nossa alma, derramando sobre elas o azeite de sua graça e o vinho de seu preciosíssimo sangue; pelo santo batismo levou-nos ao albergue da Igreja e confiou-nos aos pastores das almas. Como temos até agora correspondido a tanta graças? . . . Esforcemo-nos, ao menos, por amar a nosso Deus de todo o coração; e por amor d’Ele amemos também ao próximo como a nós mesmos.
I. Narra Jesus Cristo no Evangelho de hoje, que um homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu em mãos de salteadores. Estes o despojaram, feriram-no e deixaram-no quase morto. Aconteceu que um sacerdote vinha pela mesma estrada; ele viu este homem e passou adiante; um levita também o viu e seguiu. Mas um Samaritano, chegando perto, se moveu à compaixão; ligou-lhe as feridas, derramando nelas azeite e vinho, pô-lo sobre a sua própria cavalgadura e conduziu-o a uma hospedaria, onde, recomendando-o ao hospedeiro, disse: “Cuida deste homem, e tudo o que gastares na volta pagar-te-ei” — Curam illius habe.
Na explicação desta parábola, os Santos Padres veem na figura do homem que caiu nas mãos de assassinos, o gênero humano, que pela desobediência de Adão caiu no poder de Satanás e foi não somente despojado da justiça original, mas, além disso, enfraquecido pela concupiscência e ferido em todas as faculdades da alma. Nem o Sacerdote, nem o levita, que representam a Lei antiga, quiseram ou puderam auxiliar o infeliz em sua desgraça.
Mas o Filho de Deus, o verdadeiro Samaritano, quis, com grande pasmo do céu e da natureza, vir sobre esta terra e fazer-se homem por nosso amor; curou as feridas de nossa alma, derramando sobre elas o azeite da sua graça e o vinho de seu preciosíssimo sangue. Pelo santo Batismo levou-nos ao albergue de sua Igreja e entregou-nos aos médicos das almas, para o tratamento ulterior. — Paremos aqui para considerarmos um pouco o excesso da misericórdia de Jesus Cristo e para examinarmos o modo como lhe temos correspondido até agora.
II. Cum amet Deus, nihil aliud vult quam amari, escreve São Bernardo, querendo dizer que o amor não se paga senão com amor. Se, pois, irmão meu, quisermos corresponder ao amor que Jesus, o piedoso Samaritano, nos mostrou curando todas as feridas de nossa alma e livrando-nos da morte eterna, de hoje em diante, como preceitua o Evangelho, “amemos ao Senhor nosso Deus, de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, com todas as nossas forças, e de todo o nosso espírito; e, por amor d’Ele, amemos ao próximo como a nós mesmos”.
Ah, meu querido Redentor Jesus, estou envergonhado por ver que de vosso lado fizestes tudo para me obrigar ao vosso amor e que eu, por meu lado, fiz tudo, pela minha ingratidão, para vos obrigar a abandonar-me. Se pudessem voltar os anos de minha vida, quisera empregá-los todos em vosso serviço. Mas já que os anos não voltam mais, quero ao menos empregar o resto de minha vida em Vos amar e Vos agradar.
Ó misericordioso médico de minha alma, amo-Vos de todo o coração. Amo-Vos, ó bondade infinita, digna de um amor infinito e nada desejo nem procuro senão viver unicamente ocupado em Vos amar. “Ó Deus onipotente e misericordioso, de quem vem a graça de vossos servos vos servirem bem e louvavelmente, concedei-me que sem tropeço corra à consecução das vossas promessas.” (1) Aumentai sempre em mim o vosso amor, recordando-me o que haveis feito e padecido por mim e não permitais que eu torne a ofender-Vos. Deixai-me antes morrer.
— Doce Coração de Maria, sede minha salvação.
Referências:
(1) Or. Dom. curr.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 22-24)

Fonte:

quarta-feira, 29 de março de 2017

Quem ama a Jesus Cristo só a Ele ambiciona




"A caridade não é ambiciosa".
 Quem ama a Deus, não anda à busca de afeição das pessoas. Seu único desejo é estar bem com Deus, o único objeto de seu amor. Escreve Santo Hilário que as honrarias deste mundo são negócios do demônio. É isso mesmo, porque ele negocia para o inferno quando introduz na alma os desejos de estima. Perdendo a humildade, qualquer pessoa se coloca em risco de abraçar todos os males. Deus, ao dar suas graças, abre sua mão aos humildes e a fecha aos orgulhosos: Deus resiste aos orgulhosos, isto é, nem sequer escuta suas orações.
 Entre  os atos de orgulho, certamente um é este: ambicionar a afeição dos homens e tornar-se vaidoso com as honras recebidas deles.

 Muito espantoso foi o exemplo de Frei Justino. Ele tinha adquirido um grande grau de conhecimento de Deus, mas possivelmente ou certamente alimentava dentro de si o desejo de ser estimado pelo mundo. Eis o que lhe aconteceu. Um dia, o Papa Eugênio IV mandou chamá-lo. Pela fama que tinha de sua santidade, recebeu-o com muitas honras, abraçando-o e fazendo com que se assentasse junto dele. Depois deste fato. Frei Justino encheu-se de vaidade, de tal forma que São João Capistrano lhe disse: 'Frei Justino, você foi lá como um anjo e voltou como um demônio'. Deu fato, crescendo dia a dia em seu orgulho, pretendendo ser tratado como julgava merecer, chegou até a matar um frade com um punhal. Depois perdeu a fé e morreu, apóstata, numa prisão. 

 Por isso, quando ouvimos ou lemos que caíram certos cedros do Líbano, um Salomão, um Tertuliano, um Osio, é sinal que eles não se deram totalmente a Deus. É sinal que interiormente alimentavam em si sentimentos de orgulho e por isso caíram.

 Tremamos de medo, portanto, quando sentirmos aparecer em nós qualquer desejo de aparecer e de ser estimado pelo mundo. Quando as pessoas nos homenagearem, cuidado para não nos comprazermos nessas honras. Elas poderão ser a causa de nossa ruína.

 Vida oculta


 Cuidemo-nos especialmente de andar buscando pequenas honras. Dizia Santa Teresa: 'Onde há pequenos pontos de honra, não haverá espírito interior'. 

 Muitas pessoas dizem ter vida espiritual, mas idólatras da estima própria. Mostram exteriormente certas virtudes, mas ambicionam ser louvadas por tudo o que fazem e quando não há ninguém que as louve, louvam-se a si mesmas. Procuram, enfim, parecer melhores do que os outros e, se por acaso alguém as machuca em algum ponto de honra, perdem a paz, deixam de comungar, abandonam todas as suas devoções. Não ficam sossegadas enquanto não lhes parecer que readquiririam a fama perdida. 

 Aqueles que amam a Deus de verdade não fazem assim. Fogem de falar em seu próprio louvor, não se comprazem nas palavras elogiosas que lhe dizem. Longe de tudo isso, eles se entristecem com tais elogios e se alegram quando são desprezados pelas pessoas. 

 Dizia S. Francisco de Assis: 'Sou aquilo que sou diante de Deus'. Que valor ser estimado pelas pessoas deste mundo, se diante de Deus somos nada? Ao contrário, o que importam os desprezos do mundo, se somos agradáveis e queridos aos olhos de Deus? Escreveu S. Agostinho: 'O elogio do adulador não cura a má consciência; nem as injúrias de quem ofende ferem a consciência boa'. Dessa forma, quem nos louva não nos livra do castigo de nossas más ações e quem nos condena não nos tira o merecimento de nossas boas ações. Dizia S. Teresa: 'Que nos importa sermos julgados como culpados pelas pessoas, tidos por ordinários, se diante de Deus somos grandes e inocentes?'. Os santos desejavam viver desconhecidos e desconsiderados por todos. Escreve São Francisco de Sales: 'Que mal as pessoas nos fazem quando tem uma fraca opinião de nós, se nós mesmos a devemos ter? Talvez saibamos que somos maus e pretendemos que os outros nos tenham por bons?'. 

Vida Simples


 Como é segura a vida escondida para aqueles que querem amar de todo o coração a Jesus Cristo! Jesus mesmo nos deu o exemplo disso, vivendo desconhecido e desprezado durante trinta anos numa oficina. Por isso os santos, fugindo à estima dos homens, foram viver nos desertos e nas grutas. Dizia S. Vicente de Paulo: 'O gosto de aparecer, de ser elogiado, o desejo de que seja louvado o comportamento, de que se diga que somos bem sucedidos e que fazemos maravilhas, é um mal. Fazendo-nos esquecer de Deus, prejudica nossas ações mais santas e torna-se para nós o vício mais pernicioso ao progresso da vida espiritual. 

 Aquele, portanto, que quer crescer no amor a Jesus Cristo, precisa fazer morrer em si mesmo o amor à própria estima.

  - Como se faz morrer a própria estima?

 Diz-nos Santa Maria Madalena de Pazzi: 

 - 'A Vida da própria estima é a boa reputação na qual os outros nos têm. Portanto, a morte da própria estima consiste em nos escondermos para não sermos conhecidos de ninguém. Enquanto não chegarmos a morrer desse modo, não seremos verdadeiros servos de Deus.'

 Portanto, para nos fazemos agradáveis aos olhos de Deus, é preciso afastar de nós o desejo de aparecer e de agradar aos outros homens. Principalmente refrear o desejo de dominar os outros. Santa Teresa preferia que o seu mosteiro, com todas as religiosas, fosse devorado pelo fogo, antes que entrasse lá essa maldita ambição. Se, por acaso, uma das suas religiosas pretendesse ser superiora, queria que fosse expulsa do convento ou, no mínimo, encarcerada para sempre. Santa Maria Madalena de Pazzi dizia: 'A honra de uma pessoa desejosa da vida espiritual está em ser colocada depois de todos os outros e em ter horror de ser preferida aos outros. A ambição de uma pessoa que ama a Deus deve ser a de superar a todos na humildade: 'nada fazendo por competição ou vanglória, mas com humildade.

 Resumindo, quem ama a Deus não deve ter outra ambição senão Deus.


S. Afonso de Ligório, livro: A Prática do Amor a Jesus Cristo. 

Fonte:

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

QUANTO DEVEMOS AMAR A JESUS CRISTO


Jesus Cristo, sendo Deus, merece todo nosso amor. Ele nos amou de tal modo que nos colocou, por assim dizer, na necessidade de amá-lo ao menos por gratidão por tudo que fez e padeceu por nós. Muito nos amou para ser amado por nós [1]. É isso que Moisés declarava a seu povo: “E agora, ó Israel, o que te pede o Senhor, senão que temas o Senhor Deus... e o ames? Por isso o primeiro mandamento que nos deu foi este: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo teu coração” (Dt 10,12; 6,5).

Diz São Paulo: “O amor é o pleno cumprimento da Lei” (Rm 13,10). O cumprimento da Lei de Deus é o amor. Mas quem poderia deixar de amar um Deus crucificado, que morre por nosso amor? Os espinhos, os pregos, a cruz, as chagas, o sangue de Cristo clamam por nosso amor! Querem que amemos aquele que muito nos amou. Um coração é pouco para amar um Deus que nos amou tanto. Para retribuir o amor de Jesus Cristo, seria preciso que um outro Deus morresse por seu amor. São Francisco de Sales exclamava: “Por que não nos lançamos sobre Jesus crucificado para morrer na cruz com ele, ele que desejou morrer por nós?” [2]. São Paulo nos lembra que Jesus Cristo quis morrer por todos nós, para que não vivamos mais para nós, mas somente para Deus! “Ele morreu por todos, a fim de que os que vivem já não vivam para si, mas para aquele que por eles morreu” (2Cor 5,15).

Aqui vem, a propósito, a recomendação: “Não esqueçais os benefícios daquele que se responsabiliza por ti, pois ele deu a vida por ti” (Eclo 29,20). Não te esqueças do teu fiador, que para satisfazer teus pecados, quis pagar com sua morte a pena que mereces! Quanto agrada a Jesus Cristo a recordação frequente de sua Paixão!

Quanto se sente se dela nos esquecemos! Se alguém sofre ofensas, maus tratos e prisão por seu amigo, fica muito triste ao saber que o amigo não se lembra nem quer que se fale desse assunto. Ao contrário, quanto lhe agradaria saber que o amigo sempre fala disso com ternura e gratidão! Assim Jesus Cristo fica muito contente que nos recordemos com reconhecimento de amor das suas dores e da morte que sofreu por nós.

Antes de sua vinda à terra, Jesus Cristo era muito desejado pelos antigos patriarcas e por todos os povos. Agora ele deve ser mais ainda o nosso único desejo e nosso único amor pois sabemos que ele veio até nós, sabemos o que ele fez por nós até morrer na cruz por nosso amor.

Por isso Jesus instituiu o sacramento da Eucaristia na véspera de sua morte, recomendando que nos recordássemos de sua morte cada vez que nos alimentássemos de seu corpo: “Tomai e comei, fazei isto em minha memória... Cada vez que comerdes deste pão... recordareis a lembrança da morte do Senhor” (1Cor 11, 24-26). A Santa Igreja repete o mesmo em suas preces: “Deus, que neste admirável mistério nos deixastes a lembrança de vossa Paixão...” Há também um canto que diz: “Ó Banquete sagrado, em que recebemos Jesus Cristo e onde se renova a lembrança de sua Paixão” [3]. Percebemos então, o quanto agrada a Jesus Cristo quem medita sempre em sua Paixão. De propósito ele deixou o seu corpo e sangue no sacramento da Eucaristia para que tivéssemos contínua e grata memória do que sofreu por nós, e assim crescesse sempre em nós o amor para com ele. São Francisco de Sales chamou o Calvário de “Montanha dos que amam” [4]. Não é possível pensar no Calvário, sem amar a Jesus Cristo, que lá quis morrer por nosso amor.

E por que os homens não amam este Deus que fez tanto para ser amado por eles? Antes da Encarnação do Verbo, o homem podia duvidar se Deus o amava com verdadeiro amor. Mas depois da vinda do Filho de Deus, e depois que ele morreu por amor dos homens, como poderíamos ainda duvidar? Santo Tomás de Vilanova diz: “Olha aquela cruz, aqueles sofrimentos, aquela morte cruel de Jesus por ti. Após tantas e tão grandes provas de amor não podes duvidar que ele te ama e te ama muito” [5]. E São Bernardo diz que da cruz e das chagas de nosso Redentor sai um grito para nos fazer entender o amor que ele nos tem [6].



[1] S. Bernardo, In Cantica, sermo 83, n° 4. ML 133-1083
[2] Traité de l'amour de Dieu, I, 7, c.8
[3] Antigo Ofício de Corpus Christi, ant. do Magnificat
[4] Traité de l'amour de Dieu, I. 12, c.13
[5] In Dominicam XVII post Pentec., concio 3, n° 7
[6] S. Bernardo, In Cantica, sermo 61, n° 4. ML 183-1072


(Fonte: livro “A Prática do Amor a Jesus Cristo”, Capítulo IV [transcrição parcial], Santo Afonso Maria de Ligório, tradução Pe. Gervásio Fabri dos Anjos, C.SS.R, Editora Santuário, 7ª edição/1996, pp. 46 a 49)
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