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quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Sagrado Coração de Jesus

 

Na festividade de São João Evangelista de 1673, uma menina de vinte e cinco anos, a Irmã Margarida Maria, recolhida em oração diante do Santíssimo Sacramento, teve o singular privilégio da primeira manifestação visível de Jesus, que se repetiria por outros dois anos, todas as primeiras sextas-feiras do mês.

Em 1675, durante a oitava do Corpus Domini, Jesus manifestou-se-lhe com o peito aberto e, apontando com o dedo seu coração, exclamou: 

"Eis o Coração que tanto amou os homens a ponto de nada poupar até se exaurir e se consumir para demonstrar-lhes o seu amor. E em reconhecimento não recebo senão ingratidão da maior parte deles, pelas suas irreverências e seus sacrilégios, e pelas friezas e os desprezos que têm para comigo neste sacramento de amor.
Mas aquilo que ainda é para mim mais doloroso é que são corações que me são consagrados que me tratam assim."

Santa Margarida Maria de Alacoque teve extraordinárias revelações por parte de Jesus Cristo, que a incumbiu pessoalmente de divulgar e propagar no mundo esta piedosa devoção. Jesus deixou doze grandes promessas às pessoas que, aproveitando-se da Sua Divina Misericórdia, participassem das comunhões reparadoras das primeiras sextas-feiras:

1. Dar-lhes-ei todas as graças necessárias ao seu estado de vida.
2. Estabelecerei a paz nas suas famílias.
3. Abençoarei os lares onde for exposta e honrada a imagem do Meu Sagrado Coração.
4. Hei-de consolá-los em todas as dificuldades.
5. Serei o seu refúgio durante a vida e em especial na hora da morte.
6. Derramarei bênçãos abundantes sobre todos os seus empreendimentos.
7. Os pecadores encontrarão no Meu Sagrado Coração uma fonte e um oceano sem fim de Misericórdia.
8. As almas tíbias tornar-se-ão fervorosas.
9. As almas fervorosas ascenderão rapidamente a um estado de grande perfeição.
10. Darei aos sacerdotes o poder de tocarem os corações mais empedernidos.
11. Aqueles que propagarem esta devoção terão os seus nomes escritos no Meu Sagrado Coração e d’Ele nunca serão apagados.
12. Prometo-vos, no excesso de Misericórdia do Meu Coração, que o Meu Amor Todo-Poderoso concederá, a todos aqueles que comungarem na Primeira Sexta-Feira de nove meses seguidos, a graça da penitência final; não morrerão no Meu desagrado nem sem receberem os Sacramentos: o Meu Divino Coração será o seu refúgio de salvação nesse derradeiro momento.
 

Depois das revelações em França, foi de Portugal que chegou até ao Vaticano o pedido para a Consagração do mundo ao Sagrado Coração de Jesus.

A condessa alemã Maria Droste zu Vischerig, depois Irmã Maria do Divino Coração em Portugal, ofereceu-se como vítima de expiação pelo país e seu clero, que vivia uma grande desordem. Nesse tempo, as promessas de Paray-le-Monial (Santa Margarida Maria Alacoque) estavam quase esquecidas…  

Nas Suas revelações à Irmã Maria do Divino Coração Droste zu Vischering, Jesus apresentou-lhe duas grandes e prodigiosas promessas:   

Promessa de graças por intercessão da Irmã Maria do Divino Coração
"Fica sabendo, Minha filha, que da caridade do Meu Coração, quero fazer descer torrentes de graças através do teu coração para dentro do coração dos outros. É esta a razão porque hão-de dirigir-se com confiança a ti; não são as tuas qualidades, mas sou Eu mesmo a causa disso. Nunca ninguém que se encontrar contigo se afastará sem que a sua alma seja de qualquer maneira consolada, aliviada ou santificada, ou sem haver recebido alguma graça, nem até o mais endurecido pecador… dele depende aproveitar-se desta graça."  

Promessa de graças a conceder na Igreja do Sagrado Coração de Jesus  
«Há muito tempo, como sabe, desejo construir no terreno do Bom Pastor uma Igreja. Indecisa sobre a invocação da mesma, rezei e consultei muitas pessoas sem chegar a qualquer conclusão. Na primeira Sexta-feira deste mês, pedi a Nosso Senhor que me iluminasse. Depois da Sagrada Comunhão, Ele disse-me: – "Quero que a Igreja seja consagrada ao Meu Coração. Deves erigir aqui um lugar de reparação; por Minha parte, será um lugar de graças. Distribuirei copiosamente graças a todos os habitantes desta casa [o Convento], os que nela vivem, os que nela viverão, e até às pessoas das suas relações." Depois disse-me que queria esta Igreja, sobretudo, como lugar de reparação pelos sacrilégios e para obter graças para o clero.» 

Em Roma, o Grande Papa Leão XIII era já de avançada idade. O seu pontificado tinha sido glorioso, mas faltava-lhe uma última pérola para a sua coroa de glória. Diz-se que ele próprio tinha recebido a inspiração directamente do Céu, mas não se atrevia a levá-la a cabo. Por isso, o Coração de Jesus renovou o pedido, já feito no íntimo de Leão XIII, à Irmã Maria do Divino Coração: a Consagração de todo o género humano ao Sagrado Coração de Jesus.

Maria do Divino Coração, nas cartas que escreveu ao Santo Padre sobre a necessidade da Consagração do mundo ao Coração de Jesus, não deixou de pedir que Sua Santidade reavivasse no espírito dos católicos a prática das Primeiras Sextas-Feiras.

Já no Séc. VI, o Papa São Gregório Magno († 604 AD) disse: "Aprendei do Coração de Deus e nas próprias palavras de Deus, para poderdes aspirar ardentemente às coisas eternas."

Santa Gertrudes, a Grande (1256-1302), compôs esta Oração expressando o seu Amor: "Eu Vos saúdo, ó Sagrado Coração de Jesus, Fonte viva e vivificante de Vida Eterna, Tesouro infinito da Divindade, Fornalha Ardente do Amor de Deus…".

O Papa Leão XIII disse que a Devoção ao Sagrado Coração de Jesus era "uma forma por excelência de religiosidade (…) Esta devoção, que recomendamos a todos, será para todos proveitosa." – "No Sagrado Coração está o símbolo e a imagem expressa do Amor Infinito de Jesus Cristo, que nos leva a retribuir-Lhe esse Amor."

Ainda, mais tarde, o Papa Pio XII - "A fim de que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus produza frutos mais abundantes na família cristã e ainda em toda a humanidade, procurem os fiéis unir a ela a devoção ao Coração Imaculado da Mãe de Deus."
Leão XIII não só fez a Consagração do mundo em 11 de Junho de 1899, como ordenou antes um Tríduo durante o qual foram cantadas as Ladainhas do Coração de Jesus, doravante em pé de igualdade com as do Santíssimo Nome de Jesus. Escreveu igualmente uma Encíclica, chamada Annum Sacrum, promulgada dias antes da consagração, a 25 de maio, com o anúncio oficial da consagração:

"E uma vez que existe no Sagrado Coração um símbolo e uma imagem sensível do amor infinito de Jesus Cristo, que nos move a pagar amor com amor, é tanto mais conveniente consagrar-se ao Seu Sacratíssimo Coração - um acto que é nada mais do que uma oferta e uma ligação de si mesmo a Jesus Cristo, visto que toda a honra, amor e veneração que é dada a este divino Coração é real e verdadeiramente dada ao próprio Cristo."[1]

"Tal acto de consagração, uma vez que pode estabelecer ou esboçar mais estreitamente os laços que ligam naturalmente as nações com Deus, dá aos Estados a esperança de coisas melhores. Nestes últimos tempos, especialmente, a política tem feito de tudo para levantar uma espécie de parede entre a Igreja e a sociedade civil. Na constituição e administração dos Estados, a autoridade da sagrada e divina lei tem sido absolutamente desconsiderada, com o objectivo de fazer com que a religião não tenha parte constante na vida pública. Esta política quase tende à remoção da fé cristã do nosso meio, e, se isso fosse possível, ao banimento do próprio Deus da terra."[2]

"Daí deriva a violência dos males que, há tempo, estão implantados entre nós, e que reclamam urgentemente que busquemos a ajuda do único que tem poder para os afastar. E quem pode ser este senão Jesus Cristo, o filho unigénito de Deus? Pois "em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos." (Actos 4,12). Cumpre recorrer a Ele, que é o caminho, a verdade e a vida"[3]:

«Ó Dulcíssimo Jesus, ó Redentor do género humano, lançai um olhar sobre nós, humildemente prostrados diante do vosso Altar! Somos vossos e vossos queremos ser; e para podermos viver mais estreitamente unidos a Vós, eis que cada um de nós se consagra ao vosso Sacratíssimo Coração. Muitos, porém, já não vos conhecem; muitos, ao desprezar os vossos Mandamentos, repudiam-Vos. Ó Benigníssimo Jesus, tende piedade de uns e de outros; e atraí todos ao vosso Coração Santíssimo. 

Ó Senhor, sede o Rei não só dos fiéis que não se distanciaram de Vós, mas também destes filhos pródigos que Vos abandonaram; fazei com que estes retornem à Casa Paterna o quanto antes para não morrerem de miséria e fome. Sede o Rei de todos os que vivem no engano do erro ou que por discordarem de Vós se separaram; chamai-os ao Porto da Verdade e da Unidade da Fé para que assim, em breve, não haja mais que um só rebanho sob um só Pastor. 

Sede finalmente o Rei de todos os que estão envoltos nas superstições do paganismo e não recuseis tirá-los das trevas para traze-los à Luz do Reino de Deus. 

Obtende, ó Senhor, a integridade e liberdade segura para a vossa Igreja; dai a todo o povo a tranquilidade da ordem; fazei com que de uma extremidade à outra da Terra ressoe esta única voz: “Seja louvado este Coração do qual provém a nossa salvação! A Ele a Honra e a Glória pelos séculos! Ámen!”»     (Fórmula da Consagração de toda a humanidade ao Sagrado Coração de Jesus - Leão XIII)

Cor Iesu Sacratissimum, miserere nobis!

PF

Notas:

[1] Leão XIII, Carta enc. Annum Sacrum DE HOMINIBUS SACRATISSIMO CORDI IESU DEVOVENDIS, p. 8

[2] Leão XIII, Carta enc. Annum Sacrum DE HOMINIBUS SACRATISSIMO CORDI IESU DEVOVENDIS, p. 10

[3] Leão XIII, Carta enc. Annum Sacrum DE HOMINIBUS SACRATISSIMO CORDI IESU DEVOVENDIS, p. 11

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

É mister apartar do mundo o coração, se queremos imitar o Coração de Jesus

 


Jesus. - Ai do mundo, filho! Ai do coração apegado às suas seduções e vaidades!

Não basta expulsar do coração a Satanás. Ainda é mister daí banir o mundo. Se nutrires no íntimo da alma amor ao mundo, de pouco valerá tudo o que fizeres para tua completa emenda.

O mundo, continuando a envenenar-te o coração, sem dúvida conseguirá perverter-te e por fim entregar-te ao poder do demônio. Que é o mundo senão o amor desordenado e perverso dos prazeres, riquezas e honras, pelo qual seus sequazes são seduzidos e se tornam corrompidos e corruptores?

Se queres saber o que deves pensar a seu respeito, considera como Eu o julguei. Passei distribuindo Meus benefícios a todos. Amei os inimigos que Me perseguiam. Pregado ao madeiro da Cruz, orei pelos que Me crucificaram. Pelo mundo, porém, não rezei.

O mundo procede do diabo e acha-se todo sob o poder do maligno. Não pode possuir o Meu Espírito, assim como a mentira não pode encerrar a verdade, nem a corrupção a pureza.

O mundo por si mesmo prova não só a realidade, mas também a necessidade do inferno.

Que há de comum entre o mundo e o Meu Coração, quando o mundo aberta e ocultamente favorece todos os vícios; meu Coração, porém, só aspira santidade?

O mundo, de acordo com Satanás, seu chefe, procura perder eternamente as almas, enquanto o Meu Coração deseja salvá-las todas. Não podes, por conseguinte, servir, ao mesmo tempo, ao mundo e a Mim. Pois, sendo amigo do mundo, tornas-te inimigo do Meu Coração.

Se seguires o mundo, com ele perecerás. Se aderires ao Meu Coração, irás para a vida eterna. Se expulsares do coração o mundo e os princípios mundanos, afim de oferecer-Me um coração puro, tua oblação ser-Me-á grata e honrosa, e reverterá em tua glória e mérito. Os anjos e santos aplaudirão o teu proceder e o mundo mesmo ver-se-á forçado a admirar tua heroica grandeza de alma.

Bem-aventurado, Meu filho, é o que aparta do mundo os seus afetos para consagrá-los só a Mim!

Que encontras no mundo para amá-lo? Tudo o que nela há é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e orgulho da vida, cujo fim é a morte e o inferno.

Com efeito, se amas o mundo ou as coisas que lhe pertencem, caís na eterna perdição. Que bem te fez o mundo para lhe consagrares teus afetos? Nunca te fez nem fará outra coisa senão o mal. Como podes, então, dar-lhe teu coração?

Não confies, Meu filho, nas lisonjas e aplausos do mundo, que só exprimem o secreto desejo de iludir-te e perder-teObedece, porém, aos convites do Meu Coração desejoso de livrar-te da eterna desgraça que o mundo te prepara. Se não abandonares o mundo, serás por ele abandonado, depois de haveres consumido as forças em servi-lo. Rirá com escárnio à hora da tua morte, e, quando mais necessitares de auxílio, ver-te-ás só e impotente. Reflete com frequência se, prestres a entrar na eternidade, desejarias ter seguido a Mim ou ao mundo.

Por isso, faze agora com mérito o que dontro modo sem mérito deverás fazer. Esforça-te por desapegar o coração do amor aos bens terrenos e triunfa do mundo por separação perfeita.

Confiança, filho, Eu venci o mundo. Se quiseres, vencê-lo-á também. Após a vitória, dar-te-ei morada aprazível em Meu Coração.

Discípulo. - Ó Senhor! Quão insensato foi o meu proceder! Quão perversa a minha vida! Seduzido de bom grado pela aparência de prazeres, lucros e honras, abandonei-Vos para escravizar-me ao mundo, Vosso inimigo. Deixando a fonte de todos os bens, desci ao pântano pestífero do mundo, Inebriei-me em suas águas envenenadas. Louco e insensato, despojei-me de tudo. Esquecido de Vós, meu Deus e meu tudo, entreguei-me inteiramente ao mundo, e profanei em seu serviço os Vossos dons: meus sentidos externos e minhas faculdades internas. Tornei-me em extremo culpado.

Minha alma foi repleta de males; minha vida aproximou-se do inferno.

Vossa cólera passou sobre mim e o terror perturbou-me, de modo que dia e noite me sentia infeliz (Sl 87, 4.17).

Ah! bom Jesus! Mesmo quando, impelido pelo excessivo pavor do Vosso julgamento e pelo medo do inferno, decidira viver bem, qual não foi minha fatal ilusão! Quão pernicioso não foi o meu erro! Dividi o meu coração entre Vós e o mundo, que, querendo servir juntamente a ambos. Que grave injúria Vos fiz, igualando-Vos ao mundo!

Assim, não consegui satisfazer nem a Vós nem ao mundo e sentia-me infelicíssimo, pois, não me contentando conVosco nem com o mundo, em nenhum dos dois encontrava a verdadeira felicidadeAgora, porém, que me abristes os olhos e me tocastes o coração, ó Senhor Jesus, só a Vós servirei. E desde há Vos consagro todo o meu coração para sempre.

Tirai, eu vo-lO rogo, desse meu coração todo amor do mundo. Transformai para mim em verdadeiro amargor toda a sua aparente doçura. Enchei o meu coração com a suavidade do Vosso amor, e o mundo inteiro com todas as suas vaidades tornar-se-á insípido para mim.

(A Jesus os corações ou imitação do Sagrado Coração de Jesus pelo Pe. Pedro Arnoudt S.J, editora Vozes LTDA Petrópolis, ano de edição 1941)

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Blindagem espiritual contra o mal: a poderosa consagração ao Sagrado Coração de Jesus






Repita com fé esta oração de Santa Margarida Maria Alacoque

Entrego-me ao Sagrado Coração de Nosso Senhor Jesus Cristo, consagro – sem reservas – minha pessoa, minha vida, minhas obras, minhas dores e sofrimentos.
Este é meu propósito imutável: ser eternamente seu e fazer todas as coisas por Seu amor. Ao mesmo tempo, renuncio, de todo coração, aquilo que lhe desagrada.
Sagrado Coração de Jesus, quero ter-te como único objeto de meu amor. Sê, pois, meu protetor nesta vida e a garantia da vida eterna. Sê fortaleza na minha debilidade e inconstância.
Coração cheio de bondade, sê para mim o refúgio na hora da minha morte e meu intercessor diante de Deus Pai. Desvia de mim o castigo da justa ira. Coração de amor, em Ti deposito toda a minha confiança.
Tira de mim, Senhor, tudo o que te desagrada ou possa me afastar de Ti. Que teu amor se imprima tão profundamente no meu coração que eu jamais seja capaz de te esquecer e de separar-me de Ti.
Senhor e Salvador meu, te rogo, pelo amor que tens em mim, que meu nome fique gravado em teu Sagrado Coração; que minha felicidade e minha glória sejam viver e morrer a Teu serviço.
Amém.

(Santa Margarida Maria Alacoque)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

O Sagrado Coração, Reservatório de Graças


Haurietis aquas in gaudio de fontibus Salvatoris – “Tirareis com alegria águas das fontes do Salvador” (Is 12, 3)
Sumário. O Coração de Jesus é verdadeiramente o reservatório de todos os favores divinos. Podemos considerar quatro fontes no Coração de Jesus: a primeira de misericórdia; a segunda de paz e consolação; a terceira de devoção; e a quarta de amor. Aquele que vai haurir nestas felizes fontes que temos no Coração de Jesus terá sempre águas de alegria e de salvação. Se não recebeste, até agora, graças mais copiosas, é porque te descuidaste de vir tomá-las no Coração de Jesus.

I. Achamos no Coração de Jesus todos os bens e socorros que podemos desejar. Nele, diz São Paulo, sois ricos em toda a sorte de bens; de modo que não vos pode faltar graça alguma (1). Este Coração é, pois, verdadeiramente o reservatório de todos os favores divinos; deste Coração generoso é que correm esses rios inexauríveis de graças de que fala o profeta Isaías: Vos tirareis com alegria aguas das fontes do Salvador.

A primeira é uma fonte de misericórdia, na qual nos podemos purificar de todas as manchas dos nossos pecados. Esta fonte foi formada para nós com as lágrimas e o sangue do nosso divino Redentor.
Dilexit nos, et lavit nos a peccatis nostris in sanguine suo — “Ele nos amou e lavou os nossos pecados com o seu sangue” (2)
Eis ai até onde chegou o amor de Jesus para conosco.
A segunda é uma fonte de paz e consolação nas nossas penas. Se alguém tem sede das verdadeiras consolações, ainda nesta vida, diz Jesus Cristo, venha ao meu Coração, e receberá o que deseja (3). Aquele que prova das águas do meu amor, desprezará para sempre as delícias passageiras do mundo, e será plenamente satisfeito, quando entrar na morada dos eleitos; porque a água da minha graça o fará subir da terra para o céu (4). A paz que o Senhor dá às almas de que Ele é amado, não é a alegria que o mundo promete nos prazeres sensuais, os quais deixam após si mais amargura do que felicidade; a paz que Deus dá, excede todos os prazeres dos sentidos (5). Bem-aventurados aqueles que tem sede dessa fonte divina (6).
A terceira é uma fonte de devoção. Oh! Como se torna piedoso e pronto a obedecer a Deus, como se cresce sem cessar de virtudes em virtudes, quando se medita muitas vezes o que o Coração de Jesus fez por amor de nós. Aquele que segue esta prática, tornar-se-á semelhante a uma arvore plantada junto da corrente das águas (7).
II. A última fonte do Coração de Jesus é uma fonte de amor. Quando se meditam os padecimentos e as humilhações do Coração de Jesus por nosso amor, é impossível não nos sentirmos inflamados por este belo fogo, que Ele veio acender sobre a terra. Assim, segundo a palavra do Profeta, aquele que vai haurir nestas felizes fontes que temos no Coração de Jesus, terá sempre aguas de alegria e de salvação: Tirareis com alegria aguas das fontes do Salvador.
Portanto, se, no passado, não haveis recebido mais graças, diz o Senhor, não o imputeis a mim, mas a vós mesmos, que vos descuidastes de vir tomá-las no meu Coração: Pedi e recebereis. Oh! Quanto é rico e generoso o Coração de Jesus para com aqueles que o invocam: Dives in omnes qui invocant illum (8). Basta rogar-Lhe para ser atendido, porque, se o Coração de Jesus é a fonte de onde fluem todos os regatos de graças, o vaso para recebê-las é a oração. Mas para que a oração surta o seu efeito, é preciso que tenha as condições requeridas: humildade, confiança e perseverança.
Meu Jesus, com a Samaritana Vos direi: Domine, da mihi hanc aquam (9). Dai-me dessas águas que correm do Vosso divino Coração, a fim de que não viva mais senão para Vós, ó amabilidade infinita! Minha alma é terra árida, que só produz abrolhos e espinhos de pecados: ah! Dignai-Vos regai-a com as águas da Vossa graça, a fim de que dê algum fruto que sirva para a Vossa glória, antes que a morte me faça sair deste mundo. Ó Fonte de água viva, ó Bem supremo, quantas vezes Vos deixei pelas águas lodosas, que me privaram do Vosso amor! No futuro, não quero mais senão a Vós, meu Deus; socorrei-me, e fazei que eu seja fiel em recorrer ao Vosso divino Coração pela oração.
— O Maria, minha Advogada e minha Mãe, intercedei por mim.
Referências:
(1) 1 Cor 1, 5
(2) Ap 1, 5
(3) Jo 7, 37
(4) Jo 4, 13
(5) Fl 4, 7
(6) Mt 5, 6
(7) Sl 1, 3
(8) Rm 10, 12
(9) Jo 4, 15


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até à Undécima Semana depois de Pentecostes Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 367-369)

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

O Coração de Jesus é um abismo de misericórdia e de força


"O Coração de Jesus, escreve, é um abismo em que encontrareis tudo. É principalmente um abismo de amor, no qual devemos sepultar todo o nosso orgulho, com os seus maus efeitos, que são o respeito humano e o desejo de nos satisfazermos e nos elevarmos. Submergindo estas inclinações no abismo do amor divino, encontrareis todas as riquezas necessárias nas diversas situações em que estiverdes. Se vos achais desolados e acabrunhados pelas privações, é o Coração Divino abismo de toda a consolação, dentro do qual cumpre que entremos sem desejarmos sentir-lhe a doçura. Se vos encontrais num abismo de aridez e de franqueza, ide internar-vos no Coração de Jesus, abismo de potência e de amor, sem vos importardes de experimentar-lhe a suavidade, senão quando a Ele aprouver. Se num abismo de pobreza, atirai-vos ao Coração de Jesus: deixando-o agir, Ele vos enriquecerá. Se num abismo de fraqueza, de recaídas e de misérias, procurai com frequência o Coração de Jesus; Ele é um abismo de misericórdia e de fortaleza: levantar-vos-á e vos dará forças. Se em um abismo de soberba, vanglória e estima de vós mesmos, descei logo às humilhações profundas do Coração de Jesus, oceano de humildade. Se em um abismo de ignorância e de trevas, o Sagrado Coração é um mar de sabedoria e de luz. Se num abismo de morte, ide ao Coração Divino e achareis ama fonte de vigor; atingireis aí uma vida nova, na qual já não olhareis com outros olhos senão com os de Jesus Cristo; não vos movereis senão pelo seu movimento, não falareis senão com a sua língua e não amareis senão com o seu Coração dulcíssimo. Se num abismo de agitação, impaciência e cólera, ide ao Coração do Redentor, que é um abismo de mansidão e doçura. Se num abismo de profunda melancolia, mergulhai-a no Coração de Jesus, que é um mar de doçura celeste e tesouro inexaurível de todas as delícias dos santos e dos anjos. Se vos encontrais num profundo abismo de amarguras e penas, uni-as ao abismo das penas infinitas do Coração de Jesus e d'Ele aprendereis a sofrer contente" 
Assim escrevia a santa Maria Margarida Maria Alacoque , inebriada de santo amor para convidar a todos, principalmente aos pecadores e aos tíbios, a se prostrarem diante do Coração Divino.  


Santa Margarida Maria Alacoque, A esposa do Sagrado Coração de Jesus, HISTORIA DA SUA VIDA. Compilada pelo Servo de Deus P. ANDRÉ BELTRAMI da Pia Sociedade Salesiana

domingo, 21 de janeiro de 2018

Jesus manso de Coração

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Jesus é a mesma Bondade e Sua mansidão é cativante e prende os corações. Os povos, falando dEle, diziam: "Vamos à suavidade".

1.º - Mansidão de Jesus na linguagem. Não Lhe agradam discussões ou contendas. Sua palavra é modesta, doce como Seu Coração. Jamais pronuncia uma palavra injuriosa, jamais Lhe saem dos lábios palavras orgulhosas. Calmo, bom, sincero, Jesus é sempre o Bom Mestre.

Imita a Jesus, ó minha alma, evitando cuidadosamente palavras vivas e impetuosas, prenúncios duma alma agitada. Não te permitas tampouco palavras de gracejo, palavras maliciosas, mortificantes, críticas ou arrogantes. Jesus é tão bom para ti. Deves sê-lo também para com os outros. Se queres que te tratem com bondade e doçura, saibas tratar teu próximo da mesma forma.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

PRIMEIRA SEXTA-FEIRA DO MÊS DE JULHO DEDICADA AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS - MÊS DO PRECIOSÍSSIMO SANGUE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO



«Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei.»
(Santa Gertrudes de Helfta [1256-1301], monja beneditina Exercícios 7)

A Ti, que por mim fizeste tão grandes e belas coisas, que me obrigaste a ficar ao teu serviço para sempre, que Te darei por tão grandes benefícios? Que louvores, que ações de graças poderia oferecer-Te, ainda que me gastasse mil vezes? O que sou eu, pobre criatura, em comparação contigo, que és a minha abundante redenção? Assim, pois, oferecer-Te-ei por inteiro a minha alma que Tu resgataste, entregar-Te-ei o amor do meu coração. Sim, transporta a minha vida em Ti, leva-me toda inteira em Ti e, encerrando-me em Ti, faz com que eu seja uma única coisa contigo.

Ó amor, o teu ardor divino abriu-me o doce coração do meu Jesus. Ó coração fonte de doçura, coração transbordante de bondade, coração superabundante de caridade, coração de onde corre, gota a gota, a benevolência, coração cheio de misericórdia [...], coração tão amado, peço-te que absorvas todo o meu coração em ti. Pérola preciosíssima do meu coração, convida-me para o teu festim que dá vida; serve-me os vinhos da consolação [...], a fim de que as ruínas do meu espírito se encham da tua caridade divina, e de que a abundância do teu amor supra a pobreza e a miséria da minha alma.

Ó coração amado acima de todas as coisas [...], tem piedade de mim. Suplico-Te que a doçura da tua caridade dê coragem ao meu coração. Que, pela tua bondade, as entranhas da tua misericórdia se comovam a meu favor; porque os meus deméritos são numerosos, e nulos são os meus méritos. Meu Jesus, que o mérito da tua morte preciosa, que foi o único que teve o poder de compensar a dívida universal, me redima de todo o mal que fiz [...]; que ele me atraia a Ti de maneira tão poderosa, que, totalmente transformada pela força do teu amor divino, eu encontre graça a teus olhos. [...] E concede-me, querido Jesus, que Te ame só a Ti em todas as coisas, que a Ti me ligue com fervor, que espere em Ti e não coloque limites à minha esperança.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Como o Coração de Jesus é o princípio da vida do Homem-Deus, da vida da Mãe de Deus, e da vida dos filhos de Deus

Semelhante àquela fonte misteriosa que brotava no meio do Paraíso terrenal para derramar-se dali por toda a terra e fecundá-la, assim o Coração de Jesus está no meio da Igreja como a fonte universal de santidade, da qual brotam as águas vivas do Espírito Santo, águas que se derramam sobre nós para a vida eterna


Mons. de Ségur (*) | Tradução Sensus fidei: Há outra razão para admirar e adorar profundamente o Coração de Jesus: tal é a de que Ele mesmo é o princípio de sua vida, e, portanto, o princípio da vida de sua Mãe e de todos os fiéis.
Jesus é a vida. Ele mesmo o disse: Eu sou a Vida: Ego sum Vita.[1] Seu Coração, que é a parte mais excelente Dele mesmo, é portanto a mais excelente, a mais viva que há Naquele que é a Vida. Este Coração divino pode ser considerado em relação ao corpo de Jesus e em relação à sua alma; sendo para um e outra como o princípio da vida.
É considerado como princípio da vida do corpo de Nosso Senhor, porque dele, como de uma fonte vivificante, derrama-se por todos os membros o sangue divino que é absolutamente necessário para a vida deste adorável corpo. O Espírito Santo o disse: “A vida da carne está no sangue”.[2] O calor da vida reside no sangue e o sangue parte do coração.
O Coração espiritual de Jesus, ou seja, sua alma santíssima, unida a seu coração de carne e considerado no que tem de mais sublime, a inteligência e o amor, é igualmente a base e o princípio da vida de Jesus; desta vida que por razão da união hipostática da natureza humana com a natureza divina na pessoa do Verbo, pode com toda propriedade chamar-se vida divina, vida de um Deus. Deste Coração deífico partem, para difundir-se na alma de Jesus, todos as torrentes da luz divina e do divino amor.
O Sagrado Coração é, pois, em Jesus o princípio de sua vida todos os pensamentos e afetos que o Filho de Deus teve neste mundo por nossa salvação, todas as palavras que disse, todas as obras que fez, todas as dores que se dignou sofrer, a santidade e o amor incompreensíveis com que fez e sofreu todas estas coisas, em uma palavra, tudo nEle procedia de seu divino Coração, como os riachos provêm de sua fonte.
Ao Sagrado Coração de Jesus somos, pois, devedores de tudo; do Coração de Jesus provém nossa salvação. Que faremos para dar-Vos as devidas graças, oh bom Jesus? Oferecemo-Vos esse Coração adorável que haveis dignado fazer nosso. Sim, ofereço-Vos com confiança em união de amor infinito que inspirou tantas coisas admiráveis para a minha redenção.
O Coração de Jesus é ademais o princípio da vida da Mãe de Deus; pois, assim como o virginal Coração desta Mãe admirável foi o princípio da vida corporal e natural de seu Filho, enquanto o levava em seu casto seio, assim também o Coração deste adorável Filho foi, por sua vez, o princípio da vida espiritual e sobrenatural de sua Santíssima Mãe. O Coração deífico do Filho de Maria foi, portanto, o princípio de todos os piedosos pensamentos e afetos de sua bem-aventurada Mãe, de todas as suas santas palavras, de todas as suas boas ações, de todas as suas virtudes, e da santidade maravilhosa com que sofria tantas penas e dores, cooperando com seu Filho na obra de nossa redenção.
Oh, Jesus, Salvador meu! Louvado seja eternamente vosso divino Coração! Em ação de graças pelo que vossa Santíssima Mãe e nossa Mãe se dignou fazer por nós, ofereço-Vos o que mais amais no mundo depois de vosso Pai: o Coração Imaculado de Maria, todo abrasado de amor por Vós.
Em terceiro lugar, o Coração de Jesus é o princípio da vida espiritual e sobrenatural de todos os filhos de Deus. Esta vida sobrenatural é como uma expansão, uma difusão da vida inteiramente divina que Jesus comunica à sua Mãe.
Sendo o Coração de Jesus o princípio da vida da cabeça, é também o princípio da vida dos membros. E sendo o princípio da vida da Mãe, é pelo mesmo princípio da vida dos filhos.
Semelhante àquela fonte misteriosa que brotava no meio do Paraíso terrenal para derramar-se dali por toda a terra e fecundá-la, assim o Coração de Jesus está no meio da Igreja como a fonte universal de santidade, da qual brotam as águas vivas do Espírito Santo, águas que se derramam sobre nós para a vida eterna.
O Coração de Jesus é o princípio, a origem de todos os bons pensamentos que formaram e formarão até o fim dos séculos e até à eternidade as almas de todos os cristãos; o princípio e origem de todas as santas palavras que saíram e sairão de sua boca; de todas as obras de piedade que fizeram e farão suas mãos; de todas as virtudes que praticaram e praticarão; e, por fim, de todos os méritos que adquiriram e possam adquirir trabalhando, sofrendo, morrendo por Jesus Cristo.
Fazei, Salvador meu, que todas estas coisas se convertam em louvores eternos ao vosso Santíssimo Coração! E, pois, haveis-me dado este mesmo Coração para que seja o princípio de minha vida, fazei, se é de vosso agrado, que seja o único princípio de todos os meus sentimentos e afetos; que com sua ardentíssima caridade vivifique e mova, como com um sangue místico, todas as potências de minha alma, de sorte que não eu, mas ele senão ele viva em mim. Fazei, finalmente, que seja vosso Coração a alma de minha de minha alma, o espírito de meu espírito, o coração de meu coração.
Oh, Coração de Jesus Cristo, princípio de todo o bem! Glória a Vós no céu e na terra, no tempo e na eternidade!
[1] João. XI, XIV.
[2] Anima enim omnis carnis in sanguine est. (Levit. XVII, 11,14.).
(*) Monsenhor de Ségur. El Sagrado Corazon de Jesus. pp. 81-85 Casa Editorial de Manuel Galindo y Bezares. 1888.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

A revelação do Sagrado Coração feita no século XVII não foi coisa inaudita na Igreja

Quatro séculos antes das revelações de Jesus Cristo à venerável Alacoque, Santa Gertrudes havia recebido de Nosso Senhor, acerca do Sagrado Coração, revelações não menos esplêndidas do que as de Paray-le-Monial. Jesus mesmo lhe ordenara que as pusesse por escrito


Santa Gertrudes por Miguel Cabrera, 1763










Monsenhor de Ségur (*) | Sensus fidei: Os jansenistas acusavam de “novidade”, de “coisa nunca ouvida”, o culto ao Sagrado Coração. Crasso erro.
Como já dissemos, quatro séculos antes das revelações de Jesus Cristo à venerável Alacoque, Santa Gertrudes havia recebido de Nosso Senhor, acerca do Sagrado Coração, revelações não menos esplêndidas do que as de Paray-le-Monial. Jesus mesmo lhe ordenara que as pusesse por escrito. “Não deixarás este mundo — disse-lhe num dia em que sua humildade a fazia vacilar — não deixarás este mundo sem que hajas terminado de escrever. Quero que os teus escritos sejam para os últimos tempos, uma prenda de minha divina bondade. Por meio deles farei grande bem em muitas almas. Enquanto escreveres, terei teu coração junto ao meu, e verterei nele gota a gota o que deves dizer”. E o admirável livro de Santa Gertrudes a constituiu em muito íntima evangelista do Sagrado Coração de Jesus.
Tinha a Santa particularíssima devoção ao apóstolo São João, e assistindo a Matinas em um dia de sua festa, aparece-lhe o Discípulo amado de Jesus, envolto de uma glória incomparável. “Amorosíssimo Jesus, disse Santa Gertudes para Jesus Cristo, como apresentais a mim, indigna criatura, Vosso discípulo amado?”-“Eu o quero, disse Jesus, entre tu e ele estabelecerei uma amizade íntima: ele agora estará no céu como teu fiel protetor.”
Falando a Santa Gertrudes, São João disse: “Venha, esposa de meu Mestre, descansemos plenamente nossas cabeças sobre o peito muito suave do Senhor: nele estão contidos todos os tesouros do céu”. E Santa Gertrudes tendo inclinado a cabeça sobre o lado direito do peito do Salvador, enquanto João apoiava-se sobre o lado esquerdo, o discípulo amado continuou: “Este é o Santo dos Santos: todos os bens da terra e do céu são atraídos para ele como ao centro.”
Os batimentos do coração de Jesus agradaram a alma de Gertrudes. “Amado do Senhor, ela perguntou a São João, estes batimentos harmoniosos, que encantam a minha alma, alegraram-te quando repousastes durante a Última Ceia, no peito do Salvador? — Sim, respondeu o Apóstolo, sim, eu ouvi, e sua suavidade me penetrou as profundezas da alma. — Então, onde é que em teu Evangelho insinuastes os segredos amorosos do Coração de Jesus Cristo? — Meu ministério, naqueles primeiros dias da Igreja, devia limitar-se a falar sobre a Palavra incriada, o Filho eterno do Pai, poucas palavras frutíferas que a inteligência humana sempre pudesse meditar, sem jamais esgotar as riquezas, mas aos últimos tempos foi reservada a graça de ouvir a voz eloquente dos batimentos do Coração de Jesus; essa voz que irá rejuvenescer o mundo envelhecido; ele sairá do seu torpor e o calor do amor divino o acenderá novamente.”
Em outra parte de seu livro, Gertrudes nos faz ouvir um eco destes celestiais batimentos do Coração de Jesus Cristo. A Santa percebeu a pressa de suas Irmãs para ir à igreja assistir ao sermão; a doença a mantinha em sua cela. “Ah! meu querido Senhor, disse ela a gemer, como eu iria de todo o meu coração assistir ao sermão, se eu não estivesse doente. — “Que queres, minha amada, que Eu mesmo pregue para ti? Respondeu imediatamente Nosso Senhor. — De bom grado, ingenuamente respondeu Gertrudes. Então Jesus inclinou a alma de Gertrudes ao Seu Sagrado Coração, e ela logo percebeu dois batimentos muito suaves de se ouvir.
“Em um desses batimentos, disse-lhe Jesus, opera a salvação dos pecadores; em outro, a santificação dos justos. O primeiro batimento fala incansavelmente a meu Pai para que apazigue sua justiça e atraia a sua misericórdia. Pelo mesmo batimento, Eu falo a todos os Santos, pedindo-lhes que roguem perdão pelos pecadores, com a indulgência e o zelo de um bom irmão, e instando-os a interceder por eles. O mesmo batimento é o apelo incessante que dirijo misericordiosamente aos próprios pecadores, com inexprimível desejo de vê-los voltarem para mim, que nunca me canso de esperar por eles.
“Pelo segundo batimento, não cesso de manifestar a meu Pai quanto me felicito por haver dado meu sangue para resgatar tantos justos, em cujos corações experimento delícias sem conta. Convido à Corte celestial a admirar comigo a vida dessas almas perfeitas, e a dar graças a Deus por todos os bens que lhe foi dado, já, ou que se lhes prepara. Finalmente, este batimento de meu Coração é o trato habitual e familiar que tenho para com os justos, já para testificar lhes deliciosamente meu amor, já para repreender-lhes por suas faltas e fazer-lhes progredir dia após dia e hora após hora.
“Assim como nenhuma ocupação exterior, nem distração alguma da vista nem do ouvido interrompem os batimentos do coração humano, assim tampouco o governo providencial do universo poderá, até o fim dos séculos deter, interromper ou retardar um instante estes dois batimentos de meu Coração”.
Outro dia, tendo seu Coração nas mãos, Jesus o apresentou à Santa Gertrudes, e lhe disse: “Olha meu dulcíssimo Coração, harmonioso instrumento cujos acordes embelezam a Santíssima Trindade! Eu O dou a ti, e ele estará às tuas ordens como um servidor fiel e solícito para suprir tuas imperfeições. Faze segundo meu Coração te ordenar, e tuas obras encantarão o olhar e o ouvido de Deus”.
Deste modo Gertrudes viveu, até seu último suspiro, uma vida de amor, de ternura, de sacrifícios no Sagrado Coração de seu Deus. Em sua agonia, em 17 de novembro de 1292, a Irmã a quem a Santa Abadessa havia ditado seu livro, viu como Nosso Senhor se acercava da moribunda, com o rosto radiante de alegria, tendo à sua direita a beatíssima Virgem Maria, e à sua esquerda o Discípulo amado, São João. Em torno deles se agrupava uma multidão de Anjos, Virgens e Santos.
Junto ao leito da Santa moribunda, liam o Evangelho da Paixão; e ao chegar a estas palavras: “E inclinando a cabeça, entregou seu espírito”, Jesus se inclinou para Gertrudes, entreabriu com ambas as mãos seu próprio Coração, e derramou suas chamas naquela alma bem-aventurada.
Momentos antes de expirar, Jesus lhe disse com amor: “Finalmente chegou o momento de dar em tua alma o ósculo que deve uni-la comigo; finalmente meu Coração poderá apresentar-te a meu Pai celestial!”
Nesse instante, a alma bem-aventurada de Gertrudes, rompendo o laço que a unia a seu corpo, elevou-se resplandecente para Jesus e penetrou no santuário de seu dulcíssimo Coração.
Este mesmo mistério de amor, de misericórdia e de santificação era o que Jesus devia revelar quatrocentos anos mais tarde para ser nos últimos tempos a prenda de sua divina bondade.
Adoremo-lo e bendigamo-lo com todo nosso coração; elevemos a Ele nosso espírito, e digamos-lhe com Santa Gertrudes:
“Aqui me tendes perto de Vós, ó meu Deus, que sois um fogo consumidor; fazei que pela força, pela violência, pela abundância de vosso ardor me abrase a chama de vosso amor, e que, não sendo mais do que um grão de pó, sinta-se minha alma completamente devorada, consumida e perdida em Vós.
“Dai-me, meu Senhor Jesus Cristo, a graça de amá-Lo com todo meu coração, de unir-me a Vós com toda minha alma, de empregar-me em vosso amor e em vosso serviço com todas as minhas forças, de viver segundo vosso Coração; e fazei que na hora de minha morte, dando-me Vós mesmo as disposições necessárias, possa entrar sem mancha em vosso nupcial festim.
“Oh amor de Jesus! Absorvei-me à maneira que a plenitude de um mar profundo absorve uma pequena gota de água. Outorgai-me a graça de abandonar-me em Vós e confundir-me em Vós de tal maneira, que jamais volte a encontrar-me senão em Vós, oh Jesus, meu doce amor, bem de minha vida! Assim seja”.
Nota:

(*) Monsenhor de Ségur. El Sagrado Corazon de Jesus. pp. 25-30. Casa Editorial de Manuel Galindo y Bezares. 1888.

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