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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Você sabe ser Santo nas pequenas coisas?



Quem nunca ouviu de alguém, na paróquia, ou de um sacerdote que nós devemos ser Santos nas pequenas atitudes? Bom isso parece fácil assim só falando não é? Mas você realmente sabe o que isso significa? 

Eu lembro muitas vezes de ouvir de determinadas "catequistas" que devemos ser santos nas pequenas coisas, e que São João Bosco era alegre e vivia feliz! Na maneira que foi dita deu a entender que "bastava sorrir" e tudo tava resolvido, assim num estalar de dedos a gente pode se "tornar santos em pequenas coisas". Bom será que é assim mesmo? Ou é algo muito mais profundo que isso? É esta reflexão que quero propor aqui com esse pequeno artigo.

Primeiro vamos pensar em uma coisa muito importante. É possível ser Santo, em estado de pecado mortal? Não. O Pecado mortal é algo que os Santos abominavam. Segundo Santo Afonso de Ligório¹ o pecado mortal nos afasta de Deus. Quando o cometemos o próprio homem vira as coisas para Deus, é uma ofensa, uma afronta, e merecemos então, o inferno. O Catecismo da Igreja Católica traz a seguinte descrição sobre a gravidade dos pecados:

1. Pecado Mortal: destrói a caridade no coração do homem por uma infração grave da lei de Deus; desvia o homem de Deus, que é seu fim último e sua bem-aventurança, preferindo um bem inferior.

Condições necessárias para um pecado ser mortal: 
- Matéria séria;
- Reflexão suficiente;
- Pleno consentimento da vontade.

2. Pecado Venial: deixa subsistir a caridade, embora a ofenda e fira, (Pecado leve).

Já dizia Santa Teresa de Jesus"Rezar pelos que estão em pecado mortal é uma esmola muito grande."

Catecismo traz ainda que existem três requisitos para que o pecado seja, de fato, considerado mortal. Vejamos:

"É pecado mortal todo pecado que tem como objeto uma matéria grave, e que é cometido com plena consciência e deliberadamente. A matéria grave é precisada pelos Dez Mandamentos [...]"

São Pe. Pio de Pietrelcina dizia: "Cuide de estar sempre em estado de graça."

E agora Santo Agostinho: "O homem não pode, enquanto está na carne, evitar todos os pecados, pelo menos os pecados leves. Mas esses pecados que chamamos leves, não os consideres insignificantes, se os consideras insignificantes ao pesá-los, treme ao contá-los. Um grande número de objetos leves faz uma grande massa; um grande número de gotas enche um rio; um grande número de grãos faz um montão. Qual é então nossa esperança? Antes de tudo, a confissão..." 

E ainda o Catecismo de São Pio X² diz que os membros da Igreja que estão em pecado mortal são membros mortos!

Já percebemos que não podemos de maneira nenhuma sermos Santos em estado de pecado mortal. O Pecado mortal é gravíssimo, e quando o cometemos não estamos em estado de graça. O Pecador que comete fica merecendo o inferno, e se morrer sem confissão deste pecado, sem arrependimento, a Igreja ensina que irá diretamente para o inferno. Pois o pecado mortal nos afasta completamente de Deus. Portanto, não podemos "Ser Santos nas pequenas coisas" se estivermos em estado de pecado grave.

Vendo a vida dos Santos, principalmente Santa Teresinha do menino Jesus é chamada de "Santa das pequenas coisas". Pois vemos que ela não fez uma obra extremamente grande, mas foi santa em suas atitudes pequenas, chegando a passar a vida toda sem ter cometido um único pecado mortal e obviamente evitando os pecados veniais deliberados. Chegamos ao ponto crucial: evitar os pequenos pecados nos torna Santos das pequenas coisas. Mas como vamos evitar os pequenos se cometemos os grandes?

Ser Santo nas pequenas coisas exige renúncias de nossa parte! Com certeza não é esta primeira atitude da catequista que citei no primeira parágrafo! Hoje em dia é comum confiar numa "santidade" superficial, onde basta sorrir, ir em bailes, "balada Santa" e pronto, vivendo o modernismo nos tornamos "santos" nas pequenas coisas. Não! Nem pensar! Isso não é santidade verdadeira. 

Humildade, obediência, submissão. São coisas que nos levam a sermos um pouco melhores. A aspirar a santidade nos pequenos detalhes. Mas não existe maneira de chegarmos a este ponto sem profunda oração, jejum, perseverança, e principalmente: Evitar qualquer espécie de pecado, principalmente os mortais. 

Tem muitos exemplos de Santos que também falavam isso: São João Bosco por exemplo. Porém citarei e outro artigo. Como já dissemos todo pecado mortal nos leva ao Inferno, e são principalmente os que vão contra os 10 mandamentos, vamos relembrar os mais comuns?

1. Fornicação (impureza, adultério, sexo fora do casamento, imodéstia, sodomia, lesbianismo, pornografia, masturbação, pensamentos impuros consentidos etc).
2. Faltar a Missa aos domingos e dias de festa (dias de Preceito).
3. Utilizar qualquer método contraceptivo (camisinha, DIU, Pílula convencional, pílula do dia seguinte e o Método billings sem ter motivos para usa-lo). Sobre o método billings ele é lícito, porém sem o pensamento de contracepção, portanto recomendamos a leitura  deste artigo do Padre Daniel Pinheiro no Link, para maiores esclarecimentos.

4. Para os solteiros: é pecado grave qualquer ato ou carícia entre namorados que inicie o ato sexual. Ou seja, que excite. Porque isso é uma prática apenas de pessoas unidas pelo santo matrimônio. A época do namoro é um tempo de conhecer a alma do outro, e não seu corpo. Deixo alguns artigos para melhor compreensão do assunto: Trecho do Livro Descobrindo a castidade do Padre Luiz Carlos Lodi da Cruz /Pequeno Catecismo do Namoro (Fsspx) / Carícias permitidas no namoro (Padre Paulo Ricardo) /Namoro Católico - Parte I (Padre Daniel Pinheiro).
5. Aborto / Homicídio voluntário, dentre outros.

6. E qualquer outro pecado que viole os dez mandamentos, é pecado mortal!

Aqui neste outro Link temos um bom artigo sobre como realizar uma boa confissão. Acompanhem!

Depois de evitar todos os pecados mortais, para ser santo nas pequenas coisas é preciso também evitar todos os pecados veniais deliberados. Segundo Santo Afonso de Ligório (doutor da Igreja) ¹ existem dois tipos de pecados veniais: Os deliberados (aqueles que cometemos sabendo que é pecado venial e ainda assim o fazemos, conscientes do erro - aquele pensamento errado que as vezes temos: "Ah é pecado venial apenas, então não tem problema cometer"), e também existem os pecados veniais indeliberados, que são aqueles que cometemos sem nos darmos conta! Porque o ser humano é tão pequeno e pecador, que peca até sem se dar conta, as vezes até em pensamentos. Abaixo, cito um trecho do livro citado de Santo Afonso sobre o assunto:

"Os pecados veniais ou são deliberados, ou indeliberados. Estes são os que o homem comete sem pleno consentimento e claro conhecimento; os deliberados são os que se cometem com vontade livre e com olhos abertos. Não falamos aqui dos primeiros, isto é, dos que se cometem por pura fragilidade humana: destes nenhum homem fica isento: "Em muitas coisas nós todos caímos" (Tgo 3,2). Todos os homens, mesmo os santos, cometem faltas. (...) Tratamos aqui, portanto, só dos pecados veniais que são cometidos com plena deliberação. Estes, com o auxílio de Deus, podemos evitá-los todos, e assim procedem muitas almas santas que estão resolvidas a antes morrer que cometer um só pecado venial deliberadamente. S. Catarina de Gênova dizia que, para uma alma que está unida a Deus por um puro amor, o menos pecado, é mais intolerável que o mesmo inferno e de si atestava que desejaria antes ser lançada num mar de fogo do que cometer deliberadamente um só pecado venial. E com razão falam assim os santos, pois, iluminados pela luz divina, conhecem claramente que a menor ofensa de Deus é um mal maior que a morte e a aniquilação de todos os homens e anjos. "Quem terá a ousadia de dizer: isto é só um pecado venial, e, portanto não é um grande mal? pergunta S. Anselmo. Se Deus é ofendido, como se poderá afirmar que isso é um pequeno mal?" Se um súdito dissesse a seu rei: Em outras coisas obedecer-te-ei, mas neste ponto não, porque não é de grande importância, que castigo e repreensão não mereceria? S. Teresa dizia: Provera a Deus que temêssemos tanto os pecados veniais como tememos o demônio, pois eles nos podem prejudicar mais que todos os demônios do inferno. E a Santa repetia muitas vezes às suas filhas: Deus nos guarde de todo, mesmo do mínimo pecado venial deliberado".(Escola da Perfeição Cristã - Leia o artigo completo clicando aqui). 

São Francisco de Sales é outro doutor da Igreja que também diz que devemos evitar todos os pecados veniais deliberados e não te nenhum afeto a eles. Leia o artigo do santo clicando aqui

Resumindo: ser santo nas pequenas coisas, segundo os Santos doutores da Igreja, consiste basicamente em:

1 - Evitar todos os pecados mortais;
2 - Evitar todos os pecados veniais deliberados e não ter nenhum apego a eles;
3 - Não ter apego a nossas imperfeições.

Temos imperfeições, que as vezes nem chegam a ser pecado, é apenas a miséria do ser humano. E sobre nossas imperfeições não devemos ter apego, devemos antes, detesta nossas imperfeições. São Francisco de Sales em seu livro Filoteia³ também fala sobre isso. Por exemplo, a tendência a IRA é uma imperfeição. Se você tiver controle sobre você mesma, não chega a ser pecado, mas uma imperfeição.

Finalizamos o artigo com a certeza de que demos sempre que aspirar a Santidade, lembrando que o caminho que nos leva ao céu é realmente estreito, e não é largo como o caminho do mundo. Não é fácil seguir uma vida Santa, porém é nosso dever como Cristãos batizados, e vale a pena para maior glória de nosso amado Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Ser santo nas pequenas coisas não é apenas "sorrir" e ir a Missa. É devoção interior! É um profundo amor a Deus, que faz evitar todo tipo de pecado, até os menores. Porque quem ama não quer ofender o Amado, quer apenas agradá-lo, e portanto se preocupa com  o MENOR pecado que seja. Segundo Santo Afonso de Ligório, alguns santos preferiam a morte a cometer um pecado venial deliberado. [4]

Finalizo com uma citação bíblica e uma imagem que vale mais que mil palavras:

"Entrai pela porta estreita, porque grande e larga é a estrada que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela. Estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos são os que o encontram." 

(Mateus 7, 13.14).



Salve Maria Puríssima.

(1) Escola da Perfeição Cristã - Santo Afonso de Ligório.
(2) Catecismo de São Pio X
(3) Filoteia - São Francisco de Sales.
(4) A Prática do Amor a Jesus Cristo - Santo Afonso de Ligório.

Fonte:

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Os 10 mandamentos da Internet ou Sobre o uso virtual da Internet



Por: Padre Jean-Michel Gomis (FSSPX)



Revolução social! Essa é nossa impressão quando examinamos o alcance do fenômeno internet sobre a sociedade. Em menos de vinte anos a tela conectada passou a fazer parte da vida do homem. Usa-se para tudo: comprar, vender, aprender, distrair-se, encontrar uma alma gêmea etc. Sem sair de casa, 2.200 milhões de usuários têm acesso a mais de 660 milhões de sites que oferecem tudo o que o homem moderno pode desejar.


Pois bem, a seguinte questão se coloca ao católico que quer salvar a sua alma: a internet me ajuda ou não a alcançar a vida eterna? Quais são as regras morais que devo seguir a respeito dessa extraordinária ferramenta tecnológica?

A pergunta não é de pouca importância, principalmente se levarmos em conta a quantidade de horas que frequentemente se passa todos os dias na rede (‘web’, em inglês) navegando pelo ciberespaço. Por isso, pareceu-nos útil apresentar um “decálogo” da internet, como normas morais concretas para guiar os católicos nesta questão. Deus queira que os pais de família levem suficientemente a sério este assunto para o maior bem espiritual de suas famílias.

NEM BOM NEM MAU EM SI MESMO: TUDO DEPENDE DO USO

Quando falamos da bondade ou malícia de uma ação humana concreta, devem-se considerar três realidades: a ação em si mesma, a intenção de quem a realiza e as circunstâncias concretas em que essa ação se realiza.

A ação em si mesma pode ser moralmente boa, má ou indiferente.

Boa, quando o seu objeto for bom em si mesmo, como rezar ao Deus verdadeiro.

Má, quando o seu objeto for intrinsecamente mau, como abortar, mentir, adorar um ídolo.

Indiferente, quando o objeto da ação não for intrinsecamente bom nem mau, como pintar, comprar, cortar a grama etc.

No caso da internet, trata-se claramente de uma ação indiferente em si mesma. Navegar na ‘web’ não é bom nem mau em si mesmo.

É uma simples ferramenta que se pode usar para o bem, por exemplo, para difundir a boa palavra, ou para o mal, buscando coisas inúteis ou perigosas.

A intenção do agente deve ser reta, ou seja, deve buscar o bem moral e a salvação da alma.

Uma intenção má necessariamente vicia a obra, ainda que se trate de uma ação boa em si mesma. É isso o que ensina Nosso Senhor Jesus Cristo com a parábola do fariseu, que rezava para ser admirado pelos demais e não para honrar a Deus.

As circunstâncias concretas das pessoas, lugares e tempo também influem sobre a bondade ou malícia moral das ações humanas.

Desse modo, olhar por dever de estado páginas úteis em um momento adequando é algo totalmente diferente de olhar por curiosidade páginas perigosas quando se deveria estar cumprindo o dever de estado etc.

Dito isto, podemos enunciar os seguintes “mandamento” da ‘web’.

1º QUANDO LIGARES O COMPUTADOR, PENSARÁS NOS NOVÍSSIMOS E ROGARÁS A DEUS E A SUA MÃE

“Nas tuas obras lembre-te do teu fim e não pecarás jamais” (Eclesiastes: 7,40). Esta recomendação do Espírito Santo se aplica de modo particular ao nosso assunto. Antes de abrir alguma página, antes de fazer uma busca no “Google”, perguntemos a nós mesmos: esta pesquisa ou este trabalho, que estou fazendo, é realmente bom? Ajuda-me a alcançar a vida eterna? Quando tiver que comparecer perante Deus para prestar contas da minha vida, poderei me lembrar sem nenhuma vergonha desses minutos passados em frente ao computador? Qual é minha intenção real?


Se virmos claramente que não somos movidos pelo bom espírito, abandonemos sem demora o nosso propósito. Mas se realmente nos parecer que temos uma intenção reta, encomendemo-nos a Deus e a sua Mãe para pedir seu amparo.



Alguns têm o bom costume de colocar ao lado da tela do computador um santinho ou uma imagem piedosa para se manterem na presença de Deus e assim elevar sua alma até Ele enquanto usam o computador. É uma prática altamente aconselhável.



2º SE PRECISARES CONECTAR-SE EM CASA, COLOCARÁS A TELA EM LOCAL BEM VISÍVEL

Conectar-se à internet se torna cada vez mais necessário. As exigências se multiplicam tanto no âmbito profissional quanto no universitário. Mas não nos esqueçamos que ter internet em casa continua sendo uma clara ocasião de pecado! Chamamos ocasião de pecado (grave ou leve) a qualquer objeto, pessoa ou lugar que é motivo para alguém ofender a Deus. Por exemplo, diz-se que uma boate é ocasião grave de pecado porque implica um ambiente (bebida, música, luzes, danças sensuais) que irresistivelmente levam a ofender gravemente a Deus. Desse modo, parece supérfluo dizer que a internet representa um grave perigo para as almas: falsas religiões e doutrinas, satanismo, materialismo, pornografia, consumo massivo, exacerbação das três concupiscências etc, todos os vícios estão ao alcance de um só clique! Por isso, antes de conectar o computador familiar à intenet, deve-se examinar seriamente em que medida se precisa dela em casa. Muitas famílias não a tem e sobrevivem perfeitamente sem ela!

No caso da conexão ser realmente necessária, existe a obrigação grave de limitar o perigo espiritual o máximo possível. Com este fim se deve colocar o computador em um lugar público da casa, evitando definitivamente os quartos, e deixar a porta aberta quando se está conectado.

3º DO LAZER CIBERNÉTICO TE ABSTERÁS

O mundo da internet é realmente fascinante! Pode-se acessar facilmente a tantas coisas. Por isso, muitos a usam como recreio, para “matar o tempo” ou para se divertir. Mas não nos esqueçamos nunca do perigo inerente à navegação cibernética. Com uma ocasião de pecado não se brinca! Temos numerosos motivos para não utilizar a internet como passatempo.



Já dissemos, mas devemos insistir: navegar na ‘web’ é uma atividade perigosa para a alma, que quase sempre estimulará pelo menos uma das três concupiscências.

A SOBERBA DA VIDA:  “Sereis como deuses!”, dizia a Serpente a Eva para convidá-la a comer o fruto proibido. Com a internet, de certa maneira nos propõe o mesmo: conhecer a tudo como Deus e julgar tudo como Deus. Além disso, dá-nos a possibilidade de lançar a voz ao mundo inteiro. Essa impressão de poder e juízo quase absoluto alimenta nossa soberba e vanglória.

A CONCUPISCÊNCIA DOS OLHOS: a ‘web’ nos apresenta todos os objetos possíveis e imagináveis, fomentando assim a cobiça, com a qual rendemos culto ao deus Mamom.

A CONCUPISCÊNCIA DA CARNE: segundo as estatísticas oficiais, 12% dos sites do mundo são pornográficos!

Nem falemos dos abundantes vídeos, fotos, imagens, piadas ou propagandas que estimulem a sensualidade.

Imaginando que (milagrosamente) alguém pudesse estar a salvo dos estímulos da concupiscência; muito facilmente se chega a perder tempo em detrimento do dever de estado. A navegação na ‘web’ exerce uma forte atração que pode deixar de lado – e muitas vezes impedir – o dever de estado. Começa-se navegando para se divertir um pouco e termina-se deixando o dever, hipnotizado pela internet. Muitos são os casos. Quantas donas de casa atrasam suas tarefas ao olhar as últimas notícias no ‘Facebook’? Quantos empregados perdem tempo durante o trabalho buscando notícias ou resultados dos jogos de futebol? Quantas crianças ficam sem aprender sua lição porque estavam no ‘MSN’ com os amigos? Quantos pais de família descuidam da atenção devida a sua esposa e filhos porque estão jogando on-line? Todos se sentaram diante da tela dizendo: “somente cinco minutinhos e nada mais!” Passou uma hora e continuam navegando.

Provoca verdadeiros vícios. No ano 2000 criou-se uma sessão em um hospital de Paris (‘Centre Médical Marmottan’) para casos de vícios cibernéticos! Nele se diagnosticam quatro grandes categorias de ‘ciberdependência’: gastos compulsivos em sites comerciais ou jogos com dinheiro; vício em jogos on-line; sexualidade patológica, chamada vício ao cibersexo; dependência das ‘redes sociais’ (MSN, Facebook, Twitter, listas de discussão etc).


Estas novas drogas apresentam sintomas em comum com as drogas clássicas: aumento progressivo do tempo dedicado a elas; isolamento progressivo em detrimento da vida familiar (inversão do ciclo dia/noite, refeições sozinho, relações conflituosas) e profissional (ausentismo); mentiras sobre o tempo passado na internet; desejo de doses cada vez mais fortes para chegar às mesmas sensações (cenas eróticas cada vez mais obscenas, necessidade de jogar com mais dinheiro, de encontrar jogos cada vez mais sofisticados etc.); por último, síndrome de abstinência e frustração em caso de não poder estar conectado.

Por último, provoca a dispersão da mente e torna mais difícil a vida de oração. A acumulação de conhecimentos superficiais e de imagens inúteis (ou até mesmo perigosas) dificultam a elevação da alma até o bem espiritual que é Deus. Um paroquiano me afirmava que sua vida interior começou a progredir de verdade quando limitou o uso da internet ao necessário. É isso mesmo. Os mestres da vida espiritual certificam que a mortificação da imaginação e da memória é absolutamente necessária para se ter uma vida espiritual profunda. Por isso, deve-se afirmar que a curiosidade cibernética, por causa da agitação interior que provoca, é um verdadeiro obstáculo à vida de oração.

4º NÃO DEIXARÁS OS TEUS FILHOS ACESSO LIVRE À INTERNET

Não chamaríamos “irresponsável” ou “louco” o pai de família que deixasse seus filhos brincarem com uma arma carregada? Isso, e muito pior, é o que fazemos, uma vez que se trata de alma, quando deixamos nossos filhos navegarem com liberdade na ‘web’! Em qualquer momento se pode cair morto espiritualmente.


Por isso, deve-se ter muito cuidade, observando as seguintes regras:

Os filhos menores não podem ter acesso livre à internet, seja para estudo, diversão etc. Deixá-los navegar pela internet sem controle constitui uma imprudência grave.

Em casa não deve existir rede sem fio: ‘wi-fi’ ou celular conectado à internet. Recordemos um episódio da vida de Santo Antônio, ermitão: frequentemente lhe aparecia o demônio em diversas formas sensíveis, convidando-o à gula ou à sensualidade. Atualmente o espírito das trevas não precisa mais de tanto trabalho. Com o celular conectado à internet, todos têm seu diabinho de bolso! Os pais responsáveis não podem deixar seus filhos conviverem com semelhante perigo.

Até os doze anos uma criança não tem motivo para usar internet. Recém chegado à adolescência, ele poderá iniciar progressivamente o uso virtuoso do computador, sempre na presença de um adulto.

Mas, padre, e o ‘Facebook’? Os pais também têm um dever grave de vigiar as amizades dos seus filhos. Quantas más amizades se criaram na internet por meio das chamadas ‘redes sociais’! Nem falemos das imprudências cometidas pelas crianças, que revelam dados particulares a desconhecidos, cujas consequências todos conhecemos: sequestros, estupros, roubos etc.

Para limitar e controlar o acesso ao computador pode-se utilizar um sistema com senhas, embora não se deva confiar demais na eficácia do mesmo: lembro do caso de uma criança de dez anos que me ensinou como descobrir a senha do computador de casa.

5º GERALMENTE DESCONFIARÁS DO QUE SE LÊ NA ‘WEB’

Deixa-nos surpresos escutar às vezes nas conversas o argumento final: “Mas eu li na internet!” A ‘Wikipedia’ ou qualquer site de informação se tornam, assim, a suprema autoridade intelectual e moral, quase acima do Magistério da Igreja. Sem dúvida, muitas informações publicadas na internet são juízos pessoais, que valem o que seu autor vale. Para emitir um juízo prudente, o católico deve conservar a prudência e o espírito sobrenatural.

A PRUDÊNCIA: antes de reconhecer alguma informação como verdadeira, examinemos bem o assunto: quem difunde a informação? Conhece do tema? Tem autoridade para fazê-lo?

O ESPÍRITO SOBRENATURAL: não deixemos que as notícias cibernéticas perturbem a paz da nossa alma e nos levem a alguma reação passional, tal como a ira, o ressentimento, a tristeza, um entusiasmo eufórico etc.

Para emitir um juízo verdadeiramente prudente se deve conservar a serenidade. É uma condição necessária para que possamos receber as luzes que o Espírito Santo nos envia.

Por isso, evitemos cuidadosamente a ira ou a indignação imoderada que – segundo São Basílio – traz consigo grandes males: “A ira é um grande mal. É uma enfermidade da alma, um obscurecimento da razão, um afastamento de Deus, um desprezo dos nossos amigos. É um começo de guerra, uma fonte de males, a raiz das inimizades e discórdias, o cúmulo da miséria, um demônio, um hóspede imprudente e nocivo dentro de nós mesmos para arruinar todo o nosso interior e fechar sua entrada ao Espírito Santo.”

6º NÃO TERÁS CONVERSAS VÃS OU PERIGOSAS POR MESSENGER, FACEBOOK OU SKYPE


O êxito das ‘redes sociais’ manifesta a importância que estão tomando as conversas cibernéticas. Mas como qualquer relação humana, é preciso seguir as regras das virtudes: caridade, justiça, temperança etc. Podem-se distinguir duas categorias de conversações que não respeitam essa regra:

AS CONVERSAS INÚTEIS. Basta entrar no ‘Facebook’ para comprovar a inutilidade de muitos comentários. Fala-se de tudo... e de nada. Sem nenhuma dúvida, Nosso Senhor Jesus Cristo afirma que deveremos prestar contas de qualquer palavra ociosa: “Eu digo-vos que de qualquer palavra ociosa que tiverem proferido os homens, darão conta dela no dia do juízo” (São Mateus: 12,36).

AS CONVERSAS PERIGOSAS: não falamos aqui das conversas abertamente imorais, que atentam contra a fé ou a moral. Sua malícia é evidente. A este respeito, a experiência nos mostra que a impessoalidade dos ‘chats’, geralmente se tem mais liberdade no tratamento e, portanto, é preciso ter uma vigilância particular.

Mas deixemos isso de lado e concentremos nossa atenção nas conversas perigosas sem ser claramente imorais. Chamamos conversa perigosa aquela que apresenta um perigo espiritual para a santificação da alma.

Nesta categoria devemos incluir o trato familiar com as pessoas desconhecidas, tão frequentes na ‘web’.

Por exemplo: fulano recebe um aviso: “Beltrano quer ser seu amigo no Facebook”. “Por que não?”, pensa fulano.

E começa uma amizade cibernética com beltrano: recebe seus comentários, fotos, avisos etc., que nem sempre serão um convite à virtude. Mais perigoso ainda caso se trate de uma beltrana.

Sem cair em escrúpulos, recordemos aqui que as conversas inúteis com pessoas do outro sexo estimulam inutilmente a imaginação e a sensibilidade. Por este motivo, a moral católica ensina que elas constituem, pelo menos, uma falta leve contra a temperança. Este princípio tem uma importância particular para pessoas casadas: o anonimato da ‘web’ permite trair secretamente e com mais facilidade as promessas do matrimônio.

Examinemo-nos cuidadosamente antes de estabelecer uma conversação com alguma pessoa nas redes sociais. Pensemos que um dia teremos que prestar contas de cada palavra dita ou escrita!

7º DAS DISCUSSÕES DOS BLOGUES E FÓRUNS FUGIRÁS

Guardar o modo virtuoso durante uma conversa sempre requer uma boa dose de mansidão e de caridade. Lamentavelmente são virtudes muito pouco presentes nos fóruns e blogues. Quanta arrogância e soberba se veem nos comentários! Pontifica-se, fala-se de tudo e de todos sem matizes, com juízos imediatos e, frequentemente, temerários. Quantas trocas de palavras muito poucos caridosas nos fóruns! Estamos longe da busca sincera e virtuosa da verdade. Por isso, devemos seguir a recomendação dos Provérbios (22,24): “Não tenhas amizade com o homem colérico, nem andes com o furioso, para não suceder que aprendas o seu proceder, e dês à tua alma ocasião de ruína.”

O católico deve evitar essas discussões intermináveis e escutar as palavras de São Paulo aos Efésios (4,31):  “Toda amargura, ira, raiva, gritaria, maledicência, com todo o gênero de malícia, sejam banidas de entre vós. Pelo contrário, sede benignos uns com os outros, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou por Cristo”. Deste modo, seremos verdadeiros filhos de Deus; “Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus” (São Mateus: 5,9).


8º SE PUBLICAR ALGO NA WEB, NÃO CAIRÁS NO PRURIDO DE FALAR NEM NO EXIBICIONISMO DOENTIO

PRURIDO DE FALAR: “Ter-se sinceramente e de coração como último dos homens, evitar a singularidade, conservar o silêncio e o não falar se não formos perguntados...” Assim diz São Bento em sua Regra, referindo-se aos seus famosos doze graus de humildade. São conselhos geralmente desprezados pelas publicações na ‘web’: a jactância, a loquacidade e a vanglória são, lamentavelmente, a regra geral. “Eu acho... eu creio... eu faria assim... na minha opinião... não entendo por que...” e outras expressões parecidas são muito comuns. Eu, eu, eu... Estamos longe da humildade praticada pelos Santos, que fugiam do juízo próprio e procuravam ser desconhecidos, segundo convida a “Imitação de Cristo”: “Se queres aprender e saber algo proveitosamente, procura ser desconhecido e tido por nada” (Livro I, Capítulo 2).


EXIBICIONISMO DOENTIO: além do prurido de falar, a ostentação é outro grande perigo nas publicações cibernéticas. Publicam-se milhares de fotos de alguém, com o perigo de se cair no narcisismo. Às vezes, pisoteia-se a virtude da modéstia de forma assombrosa; frequentemente se cai no espírito do mundo e das três concupiscências. Não faltam exemplos como este: Fulana é tradicionalista. Vai à Missa todos os domingos; veste véu e está absorta em oração durante a Santa Missa. Mas no ‘Facebook’ ou no ‘Fotolog’ aparece na festa, dançando imodestamente, com vestido provocativo, ou talvez na praia com o “namorado”... Há nisso uma profunda incoerência e um grave escândalo.

9º QUANDO TRATARES SOBRE A FÉ OU MORAL, CONSULTARÁS O SUPERIOR ECLESIÁSTICO

Os católicos de hoje vivem em uma situação realmente muito particular. Como aconteceu com Dom Lefebvre em seu tempo, para conservar a fé e a pregação da fé somos obrigados a estar em oposição com a autoridade eclesiástica. Mas esta situação de crise traz graves perigos espirituais: pode estimular um espírito de independência diante de qualquer autoridade; leva a pensar que somos livres e independentes para publicar o que quisermos em matéria de fé e de moral, e que nenhuma autoridade pode nos exigir ou limitar a esse respeito. Cuidado! Estaríamos em plena liberdade de expressão revolucionária, condenada várias vezes pelo Magistério da Igreja.

Nós que temos a graça imensa de viver na Tradição da Igreja, temos o dever de nos dirigir ao nosso superior eclesiástico quando queremos publicar algo relativo à fé e à moral. Os fiéis aos seus sacerdotes, os sacerdotes aos seus superiores. Deste modo, pedimos conselho a quem tem graça de estado para nos guiar, evitaremos juízos apressados, imprudentes ou claramente falsos sobre matérias tão importantes e delicadas.

10º QUANDO SENTIRES A TENTAÇÃO EM TUA ALMA, SAIRÁS DA PERIGOSA REDE IMEDIATAMENTE

É uma regra de ouro! Não brinquemos com o demônio! Advertiu-nos Nosso Senhor Jesus Cristo claramente: “Se a tua mão ou o teu pé é ocasião de escândalo ou pecado, arranca-o e lança-o para longe de ti; porque é melhor para ti entrar na vida eterna manco ou coxo, do que tendo as duas mãos ou os dois pés ser precipitado no fogo eterno. E se o teu olho é para ti ocasião de escândalo, arranca-o e lança-o para longe de ti; porque é melhor para ti entrar na vida eterna com um só olho, do que ter os dois e ser lançado ao fogo do inferno.” Isso se aplica perfeitamente ao computador. Quando sentimos que o espírito das trevas se aproxima e nos ataca, larguemos imediatamente o computador. Mais vale entrar sem internet na vida eterna do que ir com ela para o fogo eterno.

CONCLUSÃO: NÃO NOS DEIXEMOS ENGOLIR!

Podemos resumir com três palavras as disposições de alma para usar virtuosamente a internet: oração, vigilância e mortificação.

ORAÇÃO: para pedir a graça de usar santamente essa ferramenta.

VIGILÂNCIA: para evitar qualquer ocasião de tropeço.

MORTIFICAÇÃO: da curiosidade, que constitui a grande armadilha espiritual da ‘web’.

Não nos deixemos engolir pelo computador. Usemos com moderação, limitando o máximo possível ao trabalho e ao estudo. Antes de cada confissão examinemo-nos a esse respeito: quanto tempo uso o computador e a internet por dia? Para quê? Caí na curiosidade? Faltei ao meu dever de estado: trabalho, atenção à minha família, estudo, vida de oração etc, por ficar tempo demais em frente do computador? Coloquei-me em perigo inutilmente?

Não nos esqueçamos: muitas almas não progridem na vida espiritual por causa do uso excessivo do computador! QUE NÃO SEJA O NOSSO CASO.



sexta-feira, 11 de abril de 2014

Meios para alcançar o amor de Deus e a santidade.




Desideria occidunt pigrum... qui autem iustus est tribuet, et non cessabit — “Os desejos matam o preguiçoso; porém, o que é justo dará e não cessará” (Prov. 21, 25 26).

I. Quem mais ama a Deus é mais santo. Dizia São Francisco Borges que a oração faz entrar o amor divino no coração, ao passo que a mortificação dele remove a terra e fá-lo apto a receber aquele fogo sagrado. Quanto mais espaço a terra ocupa no coração, tanto menos lugar achará ali o santo amor: Sapientia... nec invenitur in terra suaviter viventium (1) — “A sabedoria... não se acha na terra dos que vivem em delícias”. — Por isso é que os Santos sempre procuraram mortificar, o mais possível, o seu amor próprio e os seus sentidos. “Os santos são poucos, mas devemos viver com os poucos, se nos quisermos salvar com os poucos”, escreve São João Clímaco: Vive cum paucis, si vis regnare cum paucis. E São Bernardo diz: “Quem quer levar vida perfeita, deve levar vida singular: Perfectum non potest esse nisi singulare.”

Para sermos santos, devemos, antes de mais nada, ter o desejo de nos tornarmos santos: desejo e resolução. Alguns sempre desejam, mas nunca começam a por mãos à obra. “De semelhantes almas irresolutas”, dizia Santa Teresa, “o demônio não tem medo. Ao contrário, Deus é amigo das almas generosas.”

É, pois, um engano do demônio, no dizer da mesma seráfica Santa, fazer-nos pensar que há orgulho em se querer tornar santo. Seria orgulho e presunção se metessemos a nossa confiança em nossas obras ou resoluções; mas não, se esperamos tudo de Deus, que então nos dará a força que nos falta. — Desejemos, portanto, e ardentemente, chegar a um grau sublime de amor divino e digamos com coragem: Omnia possum in eo qui me confortat (2) — “Eu posso tudo naquele que me fortalece”. Se não achamos em nós tão grande desejo, peçamo-lo instantemente a Jesus Cristo, que não deixará de no-lo dar.

II. Devemo-nos, portanto, alentar, tomar uma resolução e começar; lembrando-nos de que, na perfeição cristã, segundo a expressão de São Francisco de Sales, vale muito mais a prática do que a teoria. O que não podemos fazer com as nossas próprias forças, ser-nos-á possível com o auxílio de Deus, que prometeu dar-nos tudo o que Lhe pedíssemos: Quodcumque volueritis, petetis, et fiet vobis (3).

Ó meu amado Redentor, Vós desejais o meu amor e me mandais que Vos ame de todo o coração. Sim, Jesus meu, quero amar-Vos de todo o meu coração. Não, meu Deus — assim Vos direi, confiado em vossa misericórdia, — não me assustam os pecados que cometi, porque agora detesto-os e abomino-os mais do que qualquer outro mal, e sei que Vos esqueceis das ofensas da alma que se arrepende e Vos ama. Porque Vos ofendi mais do que os outros, quero, com o auxílio que de Vós espero, amar-Vos mais do que os outros.

Senhor meu, Vós me quereis santo, e eu quero tornar-me santo, não tanto para gozar no paraíso, como para Vos agradar. Amo-Vos, bondade infinita! † Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas, e me consagro todo a Vós, vós sois o meu único bem, o meu único amor. Aceitai-me, ó meu amor, e fazei-me todo vosso, e não permitais que ainda Vos dê desgosto. Fazei com que eu me consuma todo por Vós, assim como Vós Vos consumistes todo por mim. — Ó Maria, ó Esposa mais amável do Espírito Santo, e a mais amada, obtende-me amor e fidelidade. Alcançai-me somente, ó minha Mãe, que eu seja sempre vosso devoto servo; porquanto quem se distingue na devoção para convosco, distingue-se também no amor a vosso divino Filho. (II 400.)

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1. Iob. 28, 13.
2. Phil. 4, 13.
3. Io. 15, 7.

(Santo Afonso Maria de Ligório. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Primeiro: Desde o primeiro Domingo do Advento até Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 360-362.)

FONTE: São Pio V

terça-feira, 8 de abril de 2014

Os Três Tipos de Santidade


Pe. Garrigou-Lagrange, O.P.,
L’éternelle Vie et la Profondeur de l’Ame

A doutrina revelada sobre a morte, sobre o juízo particular, sobre o inferno, sobre o purgatório e o céu, leva-nos a pressentir o que é a outra vida e manifesta-nos a grandeza da alma humana que só Deus visto face a face pode irresistivelmente atrair e encher. O que nos faz tender para o céu, nosso destino, é a graça santificante, germe de vida eterna, e as virtudes infusas que dela derivam, sobretudo a fé, a esperança e a caridade acompanhadas dos sete dons do Espírito Santo.

Note-se, que estas três grandes virtudes teologais são hoje, por vezes, completamente desfiguradas. A fé em Deus, a esperança em Deus e o amor a Deus e às almas por ele, foram substituídas em muitos meios modernos pela fé e esperança na humanidade, pelo amor teórico da humanidade. Nesses meios, a fraseologia ocupou o lugar da doutrina sagrada. A arte de fazer frases substituiu a doutrina revelada acerca de Deus e da alma. Quando é assim, a falsidade não tem remédio.

Em certas lojas maçônicas lê-se nas paredes: “Fides, spes, caritas”. Chesterton afirmou sobre este ponto: “Grandes ideias que se tornaram loucas”.

Propriamente falando, não foram as ideias que se tornaram loucas, mas sim as pessoas, em consequência de perturbações fisiológicas e psíquicas, e, quanto mais elevada era a inteligência destas pessoas, mais esta loucura aflige e toma proporções que correspondem às das suas faculdades e da sua cultura. É por isso que a loucura religiosa e a mais difícil de curar, porque não se pode apelar para um motivo mais elevado; a inteligência perde-se no que tem de mais nobre. Nessa altura ela engana-se habitualmente, não quanto ao valor dos objetos mais ordinários, mas quanto ao das ideias mais elevadas, como a ideia de Deus, a das suas perfeições infinitas, a sua justiça, a sua misericórdia.

“As grandes ideias tornadas loucas” são as ideias religiosas que perderam significado superior e vieram a desarticular-se e a desequilibrar-se de todo. É o que acontece quando se substitui a fé em Deus, que não pode enganar-se nem nos enganar, pela fé na humanidade, apesar de todas as suas aberrações. E assim como a verdadeira fé, esclarecida pelos dons do Espírito Santo, pelos dons da inteligência e da sabedoria, constitui o principio da contemplação mística, a fé degenerada e desarticulada torna-se o principio de uma falsa mística, aprovada na paixão pelo progresso da humanidade, como se este progresso, pudesse ir até o infinito, como se fosse o próprio Deus que convertesse a nós. Quando alguém perguntava a Renan: “Deus existe?” ele respondia: “Ainda não”, sem se aperceber bem de era um blasfemo.

A antiguidade clássica não conheceu um tão profundo desequilíbrio. Depois dela, veio o Cristianismo, a elevação sobrenatural do Evangelho, e, quando alguém se separa dele, a queda é tanto mais rápida quanto se cai de mais alto.

A descida começou com Lutero, pela negação do sacrifício da Missa, do valor da absolvição sacramental, e, portanto, da confissão, pela negação, também, da necessidade de cumprir os mandamentos de Deus para obter a salvação. A queda acelerou-se depois, com os enciclopedistas e filósofos do século XVIII, com o “cristianismo corrompido” de Jean Jacques Rousseau, que subtraiu ao Evangelho o seu caráter sobrenatural e reduziu a religião ao sentimento natural que se encontra mais ou menos alterado em todas as religiões. A Revolução Francesa propagou por toda parte estas ideias. Na mesma época, Kant sustenta que a razão especulativa não pode provar a existência de Deus. Fichte e Hegel ensinam que Deus não existe fora e acima da humanidade; surge em nós e por nós e não é outra coisa senão o próprio progresso da humanidade, como se este, de tempos em tempos, não fosse acompanhado de um terrível retrocesso para a barbárie.

Liberalismo pretende ocupar, entre o Cristianismo e estes erros monstruosos, uma posição eclética e não chega a conclusão alguma válida para a ação. Vê-se logo substituído pelo radicalismo na negação, depois, pelo socialismo e, finalmente, pelo comunismo materialista e ateu, como previa Donoso Cortès (1).

Este comunismo representa a negação de Deus, da família, da propriedade, da pátria e conduz a uma servidão universal, graças a mais terrível das ditaduras. A descida é acelerada com a queda dos graves.

***

Só há um caminho para voltar a subir: a verdadeira santidade. Mas é preciso encará-la de uma maneira realista. A santidade, como demonstra Santo Tomás (2), tem dois caracteres essenciais: a ausência de toda mancha, isto é, ausência de todo pecado, e uma firmíssima união com Deus.

Esta santidade atinge sua perfeição no céu, mas começa na terra. Manifesta-se concretamente, sobre as quais queremos insistir aqui. Realmente, há três grandes deveres para com Deus: conhecê-Lo, amá-Lo e servi-Lo. Cumpri-los é ganhar a vida eterna. Há almas que tem, sobretudo, por missão, amar a Deus e fazer com que ele seja muito amado; são as almas de vontade forte, que recebem graças de amor ardente. Há outras que tem por missão dá-Lo a conhecer; nelas predomina claramente a inteligência e recebem, sobretudo, graças de luz. Finalmente, há almas que tem por missão, sobretudo, servir a Deus mediante a fidelidade ao dever cotidiano. É o caso da maioria dos bons cristão, que empregam a memória e a atividade prática para serem fiéis ao dever de cada dia.

Estas três formas de santidade parecem estar representadas em três apóstolos privilegiados: São Pedro, São João e São Tiago.

***

As almas em que predomina a vontade recebem bastante cedo certas graças de amor ardente. Perguntam a si mesmas: Que devo fazer por Deus? Que obra empreenderei eu para sua glória? Sentem o desejo de sofre, de se mortificar, para provarem a Deus seu amor, para repararem as ofensas que Ele sofre, para salvarem os pecadores; e é secundariamente que elas se aplicam a melhor conhecerem a Deus.

A este grupo pertencem o profeta Elias, tão notável pelo seu zelo; São Pedro, tão profundamente dedicado a Jesus que, por humildade e por amor, quis ser crucificado de cabeça para baixo; os grandes mártires, Santo Inácio de Antioquia e São Lourenço. Mais próximos de nós, o seráfico São Francisco de Assis e Santa Clara. Mais tarde São Carlos Borromeu, São Vicente de Paula, a transbordar de caridade para com o próximo, Santa Margarida Maria Alacoque e o Santo Cura d’Ars.

O perigo dessas almas reside na energia de sua vontade, que pode degenerar em rigorismo, tenacidade, obstinação; nas menos fervorosas, o defeito dominante será um zelo pouco esclarecido, pouco paciente e pouco suave; por vezes, dedicar-se-ão demasiado às obras ativas em detrimento da oração.

As humilhações que o Senhor lhes envia tendem, sobretudo, a abrandá-las, a quebrar, por vezes, a sua vontade, quando ela se torna muito rígida, para se tornar inteiramente dócil à inspiração do Espírito Santo e para que o seu zelo ardente seja cada vez mais humilde, esclarecido, paciente e suave. Aí têm elas a encosta que vai dar no cume da perfeição.

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As almas em que predomina a inteligência têm outras encostas a subir. Recebem, muito cedo, certas graças de luz, que as leva à contemplação, e a grandes vistas de conjunto, apanágio da sabedoria. Só através da razão o seu amor aumenta. Sentem menos que as precedentes a necessidade de agir, ou de reparar. Mas, se são fiéis, atingirão o amor heroico para com Deus, que as anima.

A este grupo pertencem os grandes Doutores, Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino, São Francisco de Sales, que lamentava a sua lentidão em seguir as luzes que tinha recebido.

O perigo destas almas é contentarem-se com estas luzes e não conformarem suficientemente com elas a sua conduta. Ao passo que a sua inteligência é muito esclarecida, falta à sua vontade certo ardor.

Estas almas sofrem, sobretudo com o erro, com as falsas correntes que extraviam a inteligência. As provações purificam-se e, quando as suportam com resignação, atingem um grande amor a Deus. Uma alma luminosa, fiel, estará mais unida a Deus que uma alma ardente, porém infiel.

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Finalmente, encontram-se almas em que a atividade predominante é a memória e a atividade prática. Têm, sobretudo por missão servir a Deus mediante a fidelidade ao dever cotidiano. Pertence a este numero a maioria das almas cristãs. A memória leva-as a evocar fatos particulares, são impressionadas por uma faceta da vida de um santo, por uma palavra da liturgia; a inspiração divina torna-as atentas aos diversos meios de perfeição. Se forem fieis, podem elevar-se, como as precedentes, aos mais altos graus de perfeição.

A este grupo de almas parece pertencer o apóstolo São Tiago, os grandes pastores da Igreja primitiva, inteiramente dedicados ao martírio e à direção da sua diocese; e, modernamente, Santo Inácio, atento aos meios mais práticos de santificação e desejoso de considerar os homens tais como são e não apenas tais como deveriam ser; Santo Afonso de Ligório, totalmente preocupado com a moral e com o apostolado prático, cuja necessidade se fazia sentir tanto para lutar contra o jansenismo e contra a incredulidade.

O perigo para estas almas estará em ligarem-se demasiado às boas obras em si mesmas, mas que só indiretamente conduzem a Deus. Algumas delas insistiram na austeridade, outra na devoção, outras, nos seus trabalhos habituais, outras, ainda, na recitação infindável de fórmulas. Talvez venha a encontra como inimigos a minucia e os escrúpulos, que tornarão mais demorado o acesso à contemplação a que o Senhor as chama e prejudicará a intimidade da sua união com Ele. Atêm-se a métodos e a meios que lhe serviram num determinado momento, mas que mais tarde as afastam da contemplação simples e amorosa de Deus.

As provações destas almas encontram-se, sobretudo, na prática da caridade fraterna e no apostolado; sofrerão muito com os defeitos do próximo, mas, se são fieis, no meio de todas estas dificuldades, acabarão por alcançar uma união íntima com Nosso Senhor.

Eis as três principais formas de santidade, correspondentes aos nossos três grandes deveres para com Deus: conhece-Lo, amá-Lo e servi-Lo.

Jesus mostrou-nos a excelência destas três formas de santidade na sua vida oculta, na sua vida apostólica e na sua vida dolorosa.

Na sua vida oculta, na solidão de Nazaré, na sua casa de carpinteiro, ele foi o exemplo da fidelidade ao dever cotidiano,mediante a prática de atos aparentemente sem valor, mas apreciáveis pelo amor que as inspira e até de um valor infinito.

Na sua vida apostólica aparece como a Luz do mundo: “O que me segue não anda nas trevas, mas terá a luz da vida”(Jo VIII, 12). Não é que Ele acredite no que ensina sobre a vida eterna e sobre os meios para alcançá-la; vê-o imediatamente na essência divina (3). Funda a Igreja e confia-a a São Pedro. Diz a seus apóstolos: “Vós sois a luz do mundo” (Mt V, 14) e envia-os a ensinar todos os povos, e levar-lhes o batismo, a absolvição, a eucaristia (Mt XVI, 18, 19; XVIII, 19). E volta a insistir em tudo isso após a ressurreição (Mt XXVIII, 19).

Na sua vida dolorosa, Jesus manifesta-nos todo o ardor do seu amor para com o Pai e para conosco. Este amor leva-o a morrer por nós na Cruz, para reparar a ofensa feita a Deus e para salvar as almas.

Uma vez que Jesus possui eminentemente estas três formas de santidade, domina todos os perigos que nelas encontram outras almas. Possui todo o ímpeto do amor, sem rigidez nem tenacidade. Nunca seu amor foi mais ardente nem manifestou maior suavidade que na Cruz: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”.

Jesus goza da contemplação mais luminosa e mais elevada, mas não se perde nesta contemplação, não se mostra alheio, fora do mundo como um santo em êxtase. Jesus está acima do êxtase e, sem deixar de contemplar o Pai e de estar intimamente unido a Ele, entretém-se com os apóstolos acerca dos próprios pormenores da vida apostólica.

Finalmente, se Jesus está atento às menores coisas que dizem respeito ao serviço de Deus, não corre o perigo de parar muito tempo nelas, perdendo de vista as coisas maiores. Não deixam de ver tudo em Deus, as coisas do tempo e as da eternidade.

A alma santa de Jesus aparece maior quando se compara com os maiores santos, da mesma maneira que a luz branca é superior às sete cores do arco-íris que dela procedem. Guardadas as devidas proporções, deve observar-se o mesmo a respeito da santidade eminente de Maria Santíssima, Mãe de Deus e cheia de graça. Aí temos os mediadores que Deus nos concedeu por causa de nossa fraqueza. Deixemo-nos conduzir humildemente por eles e eles nos conduzirão infalivelmente à vida da eternidade. A vida da graça é já a vida eterna começada, inchoatio quaedam vitae aeterne.


Notas:

  (1)       – Cfr. Oeuvres de Donoso Cortès, tradução francesa, Paris, 2a. ed. t. II, p. 272 e segs. O principio gerador dos mais graves erros dos nossos dias, carta de trinta páginas escrita em 1862, para ser apresentada a Pio IX. – Discursos sobre a situação geral da Europa, ibid., t. I, p. 399 § segs. Item, t. III, p. 279 e segs.
  (2)       II, II, q. 81, a. 8.
  (3)       Cfr. Santo Tomás, III, q. 9, a. 2; q. 10.

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