sábado, 23 de julho de 2016

A ruína de Jerusalém e o fim de uma alma descuidada


Ut appropinquavit (Iesus) videns civitatem, flevit super illam – “Quando (Jesus) chegou perto, ao ver a cidade chorou sobre ela” (Lc 19, 41)


Sumário. Infeliz da alma que se obstina no pecado ou na tibieza. Adiando a sua conversão de dia para dia, achar-se-á na hora da morte, assim como Jerusalém, cercada de inimigos, que serão os remorsos da consciência, os assaltos dos demônios e os receios da condenação eterna. Desta sorte a sua ruína será quase certa e irreparável. Meu irmão, para que não te suceda tamanha desgraça, reconhece agora o tempo da visitação amorosa do Senhor e obedece prontamente a seu convite. Quem sabe se não é este o último?

I. Refere São Lucas que:

“quando Jesus chegou perto de Jerusalém, ao ver a cidade chorou sobre ela e disse: Ah! se ao menos neste dia, que agora te é dado, conhecesses ainda tu o que pode trazer-te a paz! Mas por ora tudo está encoberto a teus olhos. Porque virão dias para ti, em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, e te sitiarão, e te apertarão por todos os lados. E te derribarão por terra a ti e a teus filhos, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porquanto não conheceste o tempo da tua visitação: Eo quod non cognoveris tempus visitationis tuae“.

Sob a figura da Jerusalém material, os Santos Padres veem a alma do pecador obstinado ou ainda a alma do que é tíbio. Estas almas descuidadas, semelhantes aos desgraçados habitantes daquela cidade infeliz, desprezam o tempo da visitação do Senhor e se obstinam em não quererem obedecer à voz de Deus, que por meio dos superiores, dos diretores espirituais ou das inspirações interiores os excita a emendarem a sua vida desregrada.
Os desgraçados! O Redentor tem muita razão em derramar por causa deles lágrimas copiosas, porque mais cedo ou mais tarde lhes tocará a mesma sorte da ímpia cidade de Jerusalém: Circumdabunt te inimici tui vallo (1) – “Os teus inimigos te cercarão de trincheiras”. Eles vão adiando a sua conversão de dia para dia, e afinal, na hora da morte, ver-se-ão cercados pelos seus inimigos, isso é, pelos remorsos da consciência, pelos assaltos dos demônios e pelos receios da condenação eterna, de tal forma que a sua ruina será quase certa e irreparável. Infeliz, pois, de quem se obstina no pecado ou na tibieza.
II. Meu irmão, afim de que na hora da morte não te suceda tamanha desgraça, reconhece agora o tempo da visitação amorosa do Senhor e obedece de pronto ao seu convite. Quem sabe se a leitura desta meditação não é para ti a última. Quero supor que estejas na graça de Deus; porém, olha que não sejas do número daqueles tíbios, que pelas suas negligências habituais causam a Deus tão grande náusea que começa a vomitá-los de sua boca. Quia tepidus es, neque frigidus, neque calidus, incipiam te evomere ex ore meo (2) – “Já que és tíbio, e não frio nem quente, começarei a vomitar-te de minha boca”.

Meu amabilíssimo Jesus, não quero esperar até a hora da morte para recorrer a Vós, meu Bem infinito. Reconheço que pela minha tibieza mereci ser abandonado de Vós, privado de vossa luz e desamparado de vossa graça. Mas ao ver que hoje me visitais tão amorosamente, mostrando-me as lágrimas que derramais sobre a minha ruína eterna; ao ouvir também a vossa voz, que por meio desta meditação de novo me convida ao vosso amor, não quero desanimar e volto arrependido a lançar-me em vossos braços paternais.
Perdoai-me, ó Senhor, já que abomino e detesto, acima de todos os males, as ofensas, quer grandes quer pequenas, que Vos fiz. Antes tivesse eu morrido mil vezes do que cometê-las. Proponho para o futuro amar-Vos sempre de todo o coração e cumprir em todas as coisas a vossa santíssima vontade. Dai-me a santa perseverança.
– “Rogo-Vos, ó Senhor, que os ouvidos de vossa misericórdia estejam sempre abertos às minhas preces; e, para que me possais conceder sempre o que Vos peço, fazei que eu só peça o que for do vosso agrado.” (3)
Suplico-Vos esta graça pelos vossos merecimentos e pela intercessão da minha querida Mãe, Maria.

Referências:
(1) Lc 19, 43
(2) Ap 3, 15
(3) Or. Dom. curr.


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 285-287)

Visto em:

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Orientações para Boa Educação dos Filhos - Por Santo Afonso Maria de Ligório



"É obrigação dos pais vigiar também seus filhos; devem sempre saber onde se acham e com quem andam os filhos. De forma alguma pois, se poderá desculpar aqueles mães que, para verem suas filhas em breve casadas, consentem que sejam visitadas a toda hora por seus namorados que pouco se importam que vivam em estado de pecado ou de graça de Deus. Estas são aquelas mães de que fala David, que sacrificam suas filhas ao demônio por proveitos materiais. ´E imolaram ao demônio seus filhos e suas filhas' (Sl 105, 37). Algumas mães introduzem pessoalmente rapazes em suas casas, para que se entretenham com suas filhas, e, finalmente, emaranhados nas redes do pecado, vêem-se obrigados a contrair casamento com elas. Estas mães infelizes não veem que assim se acorrentam ao inferno com outras tantas cadeias quantos sãos os pecados cometidos nestas ocasiões. (...) Os pais são igualmente obrigados a dar bom exemplo a seus filhos. Estes principalmente quando pequenos, imitam tudo o que veem, com a agravante de seguirem mais facilmente o mal, ao qual nos sentimos inclinados por natureza, que o bem, que contraria nossas inclinações perversas. Como poderão os filhos comportar-se irrepreensivelmente se ouvirem seus pais blasfemar a miúdo, falar mal do próximo, injuriá-lo e desejar-lhe mal, prometer vingar-se, conversar sobre coisas indecentes e defender máximas ímpias, como estas: Deus não é tão severo como dizem os padres; ele é indulgente com certos pecados, etc? O que se tornará a filha que ouve sua mãe dizer: 'É preciso deixar-se ver no mundo e não se enclausurar como uma freira em casa? Que bem se pode esperar dos filhos que veem seu pai o dia inteiro sentado na taberna e, depois chegar bêbado a casa, ou então visitar casas suspeitas, confessando-se uma só vez no ano ou só muito raramente? S. Tomás diz que tais pais, de certo modo, obrigam seus filhos a pecar. Este é um sinal de que se origina a perdição de muitas almas, pois os filhos imitam o mau exemplo dos pais e dão, mais tarde, por sua vez, mau exemplo a seus filhos, e desta maneira pais, netos e gerações inteiras perdem-se miseravelmente.

Muitas vezes queixam-se os pais que os filhos são maus, mas como ser poderá colher uvas de espinhos? pergunta o divino salvador. Como poderão os filhos ser bons, se os pais não prestam? Só por milagre.

Um pai de família que quiser bem governar a sua família deverá, antes de tudo cuidar em afastar o mal de sua casa e em promover o bem. Quanto ao primeiro ponto, atenda ao seguinte: 1) Impeça que os seus filhos convivam com maus companheiros ou criados corruptos, ou que se empreguem em casas de pessoas que não tenham boa fama; 2) Afaste de sua casa todos os criados ou criadas que possam ser ocasião de pecados para seus filhos ou filhas. Um bom pai evita ajustar criadas moças quando tem filho púberes. 3) Não permita em sua casa NENHUM livro que contenha coisas indecentes ou histórias amorosas: tais livros são uma peste para os jovens. Certo rapaz, objeto de admiração e veneração de uma cidade inteira, leu por acaso um livro imoral, e tornou-se tão depravado que, para evitar escândalo público, viu-se o magistrado forçado a desterrá-lo. Um outro jovem, que se esforçava em vão por vencer a virtude de uma moça, conseguiu o seu intento dando-lhe a ler um romance amoroso. - Maior seria ainda a desgraça, se um pai de família permitir em sua casa livros que atacam a fé, e impugnam a Santa Igreja. 4) Retire de sua casa todos os quadros inconvenientes e, particularmente, ou indecentes; 5) Proíba severamente a seus filhos tomar parte em divertimentos que oferecem ocasião de pecado.

Quanto ao segundo ponto, observe o seguinte: 1) Cuide que todos os que lhe são sujeitos peçam a Deus, pela manhã, a graça de não cometerem pecado algum durante o dia e que rezem, nessa intenção três Ave-Marias, pedindo a proteção da Virgem; 2) Cuide que seus filhos se aproximem no tempo conveniente, dos santos sacramentos. Não os obrigue, contudo, a se confessarem e comungarem amiudadas vezes, nem lhes imponha a obrigação de se confessarem com determinado confessor, para se evitarem sacrilégios.

Para que se acostumem a cumprir com o que lhes é rigorosamente prescrito, é muito útil acostumá-los a exercícios de piedade, que não são propriamente de preceito, como a recitação cotidiana do terço e das ladainhas de Nossa Senhora, o exame de consciência, à noite, recitação dos atos de fé, esperança e caridade, visitar o SS. Sacramento, fazer novenas em preparação às festas de Nossa Senhora, praticar pequenas mortificações e privações, como deixar de comer frutas, doces, etc. nos sábados. Não deixe de mandar à Igreja seus filhos, quando há pregações ou exposição do  SS. Sacramento, retiros, ou qualquer outra devoção.

O Espírito Santo diz: "Tens filhos? Instruí-os e dobra-os desde a sua meninice" (Ecle 7,25). S. Luís, rei da França, costumava fazer o sinal da cruz antes de começar qualquer ação. "Isto me ensinou minha mãe, dizia ele, quando era ainda pequeno."

Oxalá que todos os pais incutissem bons costumes a seus filhos; infelizmente cuidam eles mais em procurar para os filhos bens temporais que espirituais e eternos, e, assim perdem uns e outros. 3) Empenhe-se em inculcar a seus filhos máximas cristãs, por exemplo, a necessidade de fugir das más companhias e ocasiões perigosas, a conformidade com a vontade divina, o paciente sofrimento das adversidades da vida, a insignificância das riquezas e prazeres terrestres, etc. Ponha muitas vezes diante de seus olhos a desgraça imensa dos que vivem em pecado mortal e a importância do negócio de nossa salvação. Previna-os contra a vaidade do mundo, lembre-lhes a hora da morte, com a qual tudo se acaba, mostre-lhes a grande importância da devoção a SS. Virgem.

Impressas no espírito ou coração dos filhos estas verdades, começarão a agir conforme elas e acostumar-se-ão a regular cristãmente sua vida.

Santo Afonso de Ligório - Escola de Perfeição Cristã.


quinta-feira, 21 de julho de 2016

Há dois tipos de arrependimento – O Perfeito: por amor de Deus e o Imperfeito: por medo do inferno.


A confissão é algo essencial para a vida espiritual..

COMO FAZER UM ATO DE CONTRIÇÃO PERFEITO
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P
ouco antes da eclosão da II Guerra Mundial, São Maximiliano Kolbe escreveu uma carta aos seus dirigidos.
O objetivo desta carta era exortar os seus discípulos a se prepararem para a festa da Imaculada Conceição, 8 de dezembro, que se aproximava.
Mas também mostrou-lhes como receber o perdão para os pecados, na guerra que se avizinhava, onde os padres eram escassos e era difícil receber a confissão sacramental.
Ele escreveu:
“Quem pode, deve receber o sacramento da Penitência. Quem não pode, por causa das circunstâncias que impedem, deve purificar  a sua alma por atos de contrição perfeita.
Isto é, a tristeza de uma criança amorosa que não considera tanto a dor ou recompensa quando ela pede o perdão de seu pai e de sua mãe, a quem ele deu descontentamento.”
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Esta é uma magnífica fórmula e lição sobre como fazer um ato de contrição perfeita.
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Como a maioria das pessoas sabe, existem dois tipos de contrição:
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– Perfeito: por amor de Deus;
– Imperfeito: por medo do inferno.
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A Doutrina católica distingue um duplo ódio do pecado. Um, a contrição perfeita, decorrente do amor de Deus, que foi gravemente ofendido; o outro, a contrição imperfeita.
Esta resulta principalmente por causa de outros motivos, tais como a perda do céu, o medo do inferno, a hediondez do pecado, etc. (Concílio de Trento, Sess. XIV, cap. iv de Contritione). 
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Quando fazemos a confissão sacramental (com um sacerdote), a contrição imperfeita é suficiente para recebermos  o perdão de nossos pecados.
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No entanto, em circunstâncias extraordinárias em que não podemos fazer a confissão sacramental, devemos fazer um ato de contrição perfeita, o que é suficiente para ter nossos pecados perdoados.
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Importante:
 O ato de contrição perfeita inclui o desejo do sacramento da Penitência (ou reconciliação) e da intenção de receber a confissão sacramental na primeira oportunidade.
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NOTA:
 Aquele que está consciente de pecado mortal não pode receber a Santa Eucaristia sem prévia confissão sacramental.
O fato de que podemos sempre fazer um ato de contrição perfeita, em qualquer circunstância e em qualquer momento, é muito consolador e muito importante dele lembrarmos frequentemente.
Sobretudo quando pensamos em nossos soldados que estão em perigo. Eles podem não ter um capelão junto da tropa, antes de entrar em ação.
Nesse caso, eles devem sempre dizer um ato de contrição perfeita.
Na verdade, não é só em circunstâncias extraordinárias que devemos fazer atos de contrição perfeita.
A qualquer momento, se tivermos a infelicidade de cometer um pecado mortal, devemos procurar reconciliar-nos com Deus, logo que possível;
Por um ato de contrição perfeita, antes de ir para o trabalho.
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Além disso, mesmo não tendo incorrido em pecado grave, devemos fazer frequentes atos de contrição perfeita para pedir perdão pelos pecados graves do passado, e dos pecados veniais do presente.
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Ao fazê-lo, manifestamos nosso amor por Deus. E provamos nossa aversão ao pecado, que O ofende. Procedendo assim, certamente receberemos as graças mais abundantes para não mais pecar.
Uma prática altamente recomendada é incluir um ato de contrição em nossas orações de “antes de dormir”.
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Ato de Contrição
Ó meu Deus, sinceramente me arrependo de ter-vos ofendido; detesto todos os meus pecados, porque temo a perda do céu, e as consequentes penas do inferno, mas;
Acima de tudo, porque eles ofendem a Vós, meu Deus, que sois tudo de bom e merecedor de todo o meu amor.
Estou firmemente resolvido, com a ajuda da vossa graça, a confessar os meus pecados, para fazer penitência, e para mudar de vida para não mais pecar. Amém.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

SANTA TERESA DO MENINO JESUS E A SANTÍSSIMA VIRGEM



Quem folheia os escritos de Santa Teresa (Teresinha) do Menino Jesus facilmente se convencerá da grande devoção e amor que ela nutre por Nossa Senhora. Facilmente se constata como Teresa se sente protegida por Maria e como ela se sente filha da Virgem de um modo terno e profundo.

Antes de começar a escrever o Manuscrito A, no ano de 1895, Teresa diz: “Antes de pegar na pena, ajoelhei-me diante da imagem de Maria (aquela que me deu tantas provas das maternais preferências da Rainha do Céu para com a nossa família), supliquei-lhe que guie a minha mão a fim de eu não traçar uma única linha que não lhe agrade” (Ms A 2r).

Esta imagem a que se refere Teresa é muito significativa para ela. Trata-se da “Virgem do sorriso” que a curou de uma doença nervosa que teve lugar na sua infância e que ela conta no Ms A, 29v-31r. Esta mesma imagem acompanhou-a na sua agonia na enfermaria do convento de Lisieux.

No dia 13 de Maio de 1883, Nossa Senhora a presenteou com um sorriso encantador: “Não encontrando na terra nenhum auxílio, a pobre Teresinha voltara-se também para a sua Mãe do Céu; pediu-lhe com todo o coração que tivesse finalmente piedade dela... De- repente, a Santíssima Virgem pareceu-me bela, tão bela como nunca vira nada tão belo: o seu rosto irradiava uma bondade e uma ternura inefáveis; mas o que me penetrou até ao fundo da alma foi o «encantador sorriso da Santíssima Virgem»” (Ms 30r).

No dia da sua primeira comunhão, 8 de Maio de 1884, Teresa consagra-se a Maria como filha órfã: “De tarde, fui eu que pronunciei o ato de consagração à Santíssima Virgem. Era muito justo que eu falasse em nome das minhas companheiras à minha Mãe do Céu, eu que tinha sido privada tão nova da minha mãe da terra... Pus todo o meu coração em lhe falar, em me consagrar a ela, como uma criança que se lança nos braços da sua mãe e lhe pede para velar por ela. Parece-me que a Santíssima Virgem deve ter olhado a sorrir para a sua Florzinha. Acaso não tinha sido ela que a tinha curado com um sorriso visível?...” (Ms A, 35v).

No dia 4 de Novembro de 1887, na Basílica de Nossa Senhora das Vitórias, em Paris, Teresa recebe uma grande graça: “A Santíssima Virgem fez-me sentir que tinha sido verdadeiramente ela que me tinha sorrido e me tinha curado. Compreendi que ela velava por mim, que eu era sua filha, e sendo assim, já não podia dar-lhe outro nome senão o de «Mamã», pois me parecia mais terno ainda que o de «mãe»...” (Ms A, 56v e s).

Já no Carmelo, é Nossa Senhora que a prepara para a entrega a Jesus como esposa no dia da sua Profissão Religiosa a 8 de Setembro de 1890. Tratava-se da festa da Natividade de Nossa Senhora: “Que bela festa a da Natividade de Maria para me tornar Esposa de Jesus! Era a pequena Santíssima Virgem, de um dia, que apresentava a sua pequena Flor ao pequeno Jesus...” (Ms A, 77r).

Tanto na sua missão de ajudante de mestra de noviças como nos momentos mais difíceis da sua vida, Teresa sente a proximidade de Maria e a sua ajuda: “A Santíssima Virgem [...] nunca deixa de me proteger logo que a invoco. Se tenho qualquer inquietação, uma dificuldade, volto-me depressa para ela, e como a mais terna das mães, encarrega-se sempre dos meus interesses. Quantas vezes me aconteceu, ao falar às noviças, invocá-la e sentir os benefícios da sua maternal protecção!...” (Ms c, 26r).

Uns dias antes de fazer a sua Oferenda ao Amor Misericordioso lê o texto diante duma imagem de Nossa Senhora das Vitórias. Com este gesto Teresa quer manifestar que o seu oferecimento é todo ele feito a Deus por mediação de Maria, como aparece na oração: “Ofereço-Vos, ó Bem-aventurada Trindade, o Amor e os méritos da Santíssima Virgem, minha querida Mãe: é a ela que entrego o meu oferecimento, pedindo-lhe que Vo-lo apresente” (Oração 6).

E ao aproximar-se a hora da sua morte, em agonia, Teresa dirige-se com filial confiança a Maria em agonia: “Querida Santíssima Virgem, vinde em meu auxílio” (Ultimas conversas 39.9.1897).

É a própria Teresa a dizer que desde o seu nascimento até à sua morte, amava Maria: “Desde a primavera da minha vida, à Virgem Maria e a S. José eu amava” (Poesia 18).

Estas são as últimas palavras escritas por Teresa: 

“Ó, Maria, se eu fosse a Rainha do céu e vós fosseis Teresa, quisera ser Teresa a fim de que vós fosseis a Rainha do céu”.

terça-feira, 19 de julho de 2016

NADA ABSOLUTAMENTE PREFIRAM A CRISTO


(Da Regra de São Bento, abade - Séc. VI - Prologus, 4-22;cap.72,1-12:CSEL75,2-5.162-163)

Antes de tudo, quando quiseres realizar algo de bom, pede a Deus com oração muito insistente que seja plenamente realizado por ele. Pois já tendo se dignado contar-nos entre o número de seus filhos, que ele nunca venha a entristecer-se por causa de nossas más ações. Assim, devemos em todo tempo pôr a seu serviço os bens que nos concedeu, para não acontecer que, como pai irado, venha a deserdar seus filhos; ou também, qual Senhor temível, irritado com os nossos pecados nos entregue ao castigo eterno, como péssimos servos que o não quiseram seguir para a glória.

Levantemo-nos, enfim, pois a Escritura nos desperta dizendo: Já é hora de levantarmos do sono (cf. Rm 13,11). Com os olhos abertos para a luz deífica e os ouvidos atentos, ouçamos a exortação que a voz divina nos dirige todos os dias:Oxalá, ouvísseis hoje a sua voz: não fecheis os corações (Sl 94,8); e ainda: Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas (Ap 2,7).

E o que diz ele? Meus filhos, vinde agora e escutai-me: vou ensinar-vos o temor do Senhor (Sl 33,12). Correi, enquanto tendes a luz da vida, para que as trevas não vos alcancem (cf. Jo 12,35).

Procurando o Senhor o seu operário na multidão do povo ao qual dirige estas palavras, diz ainda: Qual o homem que não ama sua vida, procurando ser feliz todos os dias? (Sl 33,13). E se tu, ao ouvires este convite, responderes: Eu, dir-te-á Deus: Se queres possuir a verdadeira e perpétua vida, afasta a tua língua da maldade, e teus lábios, de palavras mentirosas. Evita o mal e faze o bem, procura a paz e vai com ela em seu caminho (Sl 33,14-15). E quando fizeres isto, então meus olhos estarão sobre ti e meus ouvidos atentos às tuas preces; e antes mesmo que me invoques, eu te direi: Eis-me aqui (Is 58,9).

Que há de mais doce para nós, caríssimos irmãos, do que esta voz do Senhor que nos convida? Vede como o Senhor, na sua bondade, nos mostra o caminho da vida!

Cingidos, pois, os nossos rins com a fé e a prática das boas ações, guiados pelo evangelho, trilhemos os seus caminhos, a fim de merecermos ver aquele que nos chama a seu reino (cf. 1Ts 2,12). Se queremos habitar na tenda real do acampamento desse reino, é preciso correr pelo caminho das boas ações; de outra forma, nunca chegaremos lá.

Assim como há um zelo mau de amargura, que afasta de Deus e conduz ao inferno, assim também há um zelo bom, que separa dos vícios e conduz a Deus. É este zelo que os monges devem pôr em prática com amor ferventíssimo, isto é,antecipem-se uns aos outros em atenções recíprocas (cf. Rm 12,10). Tolerem pacientíssimamente as suas fraquezas, físicas ou morais; rivalizem em prestar mútua obediência; ninguém procure o que julga útil para si, mas sobretudo o que o é para o outro; ponham em ação castamente a caridade fraterna; temam a Deus com amor; amem o seu abade com sincera e humilde caridade; nada absolutamente prefiram a Cristo; e que ele nos conduza todos juntos para a vida eterna.

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