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quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

A paciência é uma virtude - São Francisco de Sales

 

A paciência, diz o Apóstolo, vos é necessária para que, fazendo a vontade de Deus, alcanceis o que Ele vos tem prometido. Sim, nos diz Jesus Cristo, possuireis vossas almas pela paciência.

O maior bem do homem consiste, Filoteia, em possuir o seu coração e tanto mais o possuímos quanto mais perfeita é nossa paciência; cumpre, portanto, aperfeiçoarmos nesta virtude. Lembra-te também que, tendo Nosso Senhor nos alcançado todas as graças da salvação pela paciência de Sua vida e de Sua morte, nós também no-las devemos aplicar por uma paciência constante e inalterável nas aflições, nas misérias e nas contradições da vida.

Não limites a tua paciência a alguns sofrimentos, mas estende-a universalmente a tudo o que Deus te mandar ou permitir que venha sobre ti. Muitas pessoas há que de boa mente querem suportar os sofrimentos que têm um certo cunho de honroso: ter sido ferido numa batalha, ter sido prisioneiro ao cumprir seu dever, ser maltratado pela religião, perder todos os seus bens numa contenda de honra, da qual saíram vencedores, tudo isso lhes é suave; mas é a glória e não o sofrimento o que amam.

O homem verdadeiramente paciente tolera com a mesma igualdade de espírito os sofrimentos ignominiosos como os que trazem honra. O desprezo, a censura e a deseducação dum homem vicioso e libertino é um prazer para uma alma grande; mas sofrer esses maus tratos de gente de bem, de seus amigos e parentes, é uma paciência heróica. Por isso aprecio e admiro mais o Cardeal São Carlos Borromeu, por ter sofrido em silêncio, com brandura e por muito tempo, as invectivas públicas que célebre pregador duma ordem reformada fazia contra ele do púlpito, do que ter suportado abertamente os insultos de muitos libertinos; pois, como as ferroadas das abelhas doem muito mais que as das moscas, assim as contradições procedentes de gente de bem magoam muito mais do que as que provêm de homens viciosos. Acontece, no entanto, muitas vezes que dois homens de bem, ambos bem intencionados, pela diversidade de opiniões, se afligem mutuamente não pouco.

Tem paciência não só com o mal que sofres, mas também com as suas circunstâncias e consequências. Muitos se enganam neste ponto e parecem desejar aflições, recusando, entretanto, sofrer suas incomodidades inseparáveis. Não me afligiria, diz alguém, de ficar pobre, contanto que a pobreza não me impedisse de ajudar a meus amigos, de educar meus filhos, e de levar vida honrosa. E eu, declarava um outro, pouco me inquietaria disso, se o mundo não atribuísse esta desgraça à minha imprudência. E eu, dizia ainda um terceiro, nada me importaria esta calúnia, contanto que não achasse crédito em outras pessoas. Muitos há que estão prontos a sofrer uma parte das incomodidades conjuntas aos seus males, mas não todas, dizendo que não se impacientam de estar doentes, mas do trabalho que causam aos outros e da falta de dinheiro para se tratar.

Digo, pois, Filoteia, que a paciência nos obriga a querer estar doentes, como Deus quiser, da enfermidade que Ele quiser, no lugar onde Ele quiser, com as pessoas e com todos os incómodos que Ele quiser; e eis aí a regra geral da paciência! Se caíres numa enfermidade, emprega todos os remédios que Deus te concede; pois esperar alívio sem empregar os meios seria tentar a Deus; mas, feito isso, resigna-te a tudo e, se os remédios fazem bem, agradece a Deus com humildade e, se a doença resiste aos remédios, bendize-o com paciência.

Sou do parecer de S. Gregório, que diz: Se te acusarem de uma falta verdadeira, humilha-te e confessa que mereces muito mais que esta confusão. Se a acusação é falsa, justifica-te com toda a calma, porque o exigem o amor à verdade e a edificação do próximo. Mas, se tua escusa não for aceita, não te perturbes, nem te esforces debalde para provar a tua inocência, porque, além dos deveres da verdade, deves cumprir também os da humildade. Assim, não negligenciarás a tua reputação e não faltarás ao afecto que deves ter à mansidão e humildade do coração.

Queixa-te o menos possível do mal que te fizeram; pois queixar-se sem pecar é uma coisa raríssima; nosso amor-próprio sempre exagera aos nossos olhos e ao nosso coração as injúrias que recebemos. Se houver necessidade de te queixares ou para abrandar o teu espírito ou para pedir conselhos, não o faças a pessoas fáceis de exaltar-se e de pensar e falar mal dos outros. Mas queixa-te a pessoas comedidas e tementes a Deus, porque, ao contrário, longe de tranquilizar a tua alma, a perturbarias ainda mais e, em lugar de arrancares o espinho do coração, o cravarias ainda mais fundo.

Muitos numa doença ou numa outra tribulação qualquer guardam-se de se queixar e mostrar a sua pouca virtude, sabendo bem (e isto é verdade) que seria fraqueza e falta de generosidade; mas procuram que outros se compadeçam deles, se queixem de seus sofrimentos e ainda por cima os louvem por sua paciência. Na verdade temos aqui um ato de paciência, mas certamente duma paciência falsa, que na realidade não passa dum orgulho muito subtil e duma vaidade refinada.

Sim, diz o Apóstolo, tem de que gloriar-se, mas não diante de Deus. Os cristãos verdadeiramente pacientes não se queixam de seus sofrimentos nem desejam que os outros os lamentem; se falam neles é com muita simplicidade e ingenuidade, sem os fazer maiores do que são; se outros os lamentam, ouvem-nos com paciência, a não ser que tenham em vista um sofrimento que não existe, porque, então, lhes declaram modestamente a verdade; conservam assim a tranquilidade da alma entre a verdade e a paciência, manifestando ingenuamente os seus sofrimentos, sem se queixarem.

Nas contrariedades que te sobrevierem no caminho da devoção (pois que delas não hás de ter falta), lembra-te que nada de grande podemos conseguir neste mundo sem primeiro passarmos por muitas dificuldades, mas que, uma vez superadas, bem depressa nos esquecemos de tudo, pelo íntimo gozo que então temos de ver realizadas as nossas aspirações. Pois bem, Filoteia, queres absolutamente trabalhar para formar a Jesus Cristo, como diz o Apóstolo, em teu coração, como em tuas obras, pelo amor sincero de Sua doutrina e pela imitação perfeita de Sua vida. Há de custar-te algumas dores, sem dúvida; mas hão de passar e Jesus Cristo, que viverá em ti, há de encher tua alma duma alegria inefável, que ninguém te poderá furtar.

Se caíres numa doença, oferece as tuas dores, a tua prostração e todos os teus sofrimentos a Jesus Cristo, suplicando-Lhe de os aceitar em união com os merecimentos de Sua paixão. Lembra-te do fel que Ele bebeu por teu amor e obedece ao médico, tomando os remédios e fazendo tudo o que determinar por amor de Deus. Deseja a saúde para O servir, mas não recuses ficar muito tempo doente para obedecer-Lhe e mesmo dispõe-te a morrer, se for a Sua vontade, para ir gozar eternamente de Sua gloriosa presença.

Lembra-te, Filoteia, que as abelhas, enquanto fazem o mel, vivem dum alimento muito amargo e que nunca nós outros poderemos encher mais facilmente o coração desta santa suavidade, que é fruto da paciência, do que comendo com paciência o pão amargo das tribulações que Deus nos envia; e quanto mais humilhantes forem, tanto mais preciosa e agradável se tornará a virtude ao nosso coração.

Pensa muitas vezes em Jesus crucificado; considera-O coberto de feridas, saturado de opróbrios e dores, penetrado de tristeza até ao fundo de Sua alma, num desamparo e abandono completo, carregado de calúnias e maldições; verás então que tuas dores não se podem comparar às Suas, nem em quantidade, nem em qualidade, e que jamais sofrerás por Ele alguma coisa de semelhante ao que Ele sofreu por ti.

Compara-te aos mártires, ou, sem ires tão longe, às pessoas que sofrem actualmente mais do que tu e exclama, louvando a Deus: Ah! meus espinhos me parecem rosas e minhas dores, consolações, se me comparo àqueles que vivem sem socorros, sem assistência e sem alívio, numa morte contínua, opressos de dores e de tristezas.

São Francisco de Sales in Introdução à Vida Devota (Filoteia)

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

A importância de pertencer só a Deus

 

A Deus pertenceis vós sempre nesta vida mortal, servindo-o fielmente no meio dos trabalhos que tiverdes, levando a cruz, acompanhando-o na vida imortal, bendizendo-O eternamente com toda a corte celeste. É o grande bem das nossas almas o estarem com Deus; é o maior bem pertencer só a Deus.

Quem só pertence a Deus, não se entristece nunca senão por ter ofendido a Deus, e a sua tristeza neste ponto consiste numa profunda, mas tranquila e pacífica, humildade e submissão, depois da qual se eleva para a bondade divina por uma confiança doce e perfeita sem temor nem despeito.

São Francisco de Sales in Pensamentos Consoladores

Fonte:
https://senzapagare.blogspot.com/

São Francisco Sales sobre o amor às criaturas

 

Há certos amores que parecem extremamente grandes e perfeitos aos olhos das criaturas, e que diante de Deus são pequenos e de nenhum valor. E a razão é que estas amizades não estão fundadas na verdadeira caridade, que é a caridade para com Deus, mas apenas em certas tendências e inclinações naturais.

Pelo contrário, há outros amores que parecem extremamente reduzidos e vazios aos olhos do mundo, e que diante de Deus serão cheios e muito excelentes, porque os atos correspondentes se fazem apenas por Deus e em Deus, sem mistura do nosso interesse pessoal. Os atos de caridade que fazemos por aqueles que amamos desta maneira são mil vezes mais perfeitos, na medida em que tudo é puramente por Deus, mas os serviços e outras ajudas que prestamos àqueles que amamos por inclinação têm muito menos mérito, devido à grande complacência e satisfação que obtemos com a sua realização, e ao facto de, em geral, os fazermos mais por este movimento que por amor a Deus.

Há ainda outra razão que torna as primeiras amizades de que falámos menores que as segundas: o facto de não durarem, uma vez que, sendo a sua causa tão frágil, logo que surge um obstáculo, esfriam e alteram-se; coisa que não acontece àquelas que são apenas em Deus, porque a sua causa é sólida e permanente.

Os sinais de amizade que damos contra a nossa inclinação às pessoas pelas quais temos antipatia são melhores e mais agradáveis a Deus que aqueles que damos atraídos pelo afeto sensível. E a isto não deve chamar-se duplicidade nem dissimulação, porque o sentimento contrário que experimento reside na parte inferior de mim, e os atos que faço são feitos com a força da razão, que é a parte principal da minha alma.

Assim, aqueles que nada têm de amável são felizes, porque o amor que se lhes dá é excelente, pois vem de Deus.

São Francisco de Sales in 'Sobre o amor às criaturas'

domingo, 18 de dezembro de 2022

Santa caridade e amor imperfeito

 De um certo resto de amor que muitas vezes

fica na alma que perdeu a santa caridade



Certamente a vida de um homem que, todo desfalecido, vai morrendo pouco a pouco num leito, quase já não merece lhe chamemos vida: dado que, ainda que ela seja vida, está, todavia tão misturada com a morte, que não se saberia dizer se é uma morte ainda viva, ou uma vida moribunda. Ai! como é esse um lastimável espetáculo, Teótimo! muito mais lastimável é, porém, o estado de uma alma que, ingrata ao seu Salvador, vai de momento em momento para trásretirando-se do amor divino por certos graus de indevoção e de deslealdade, até que, havendo-O deixado totalmente, fica na horrível escuridão de perdição; e esse amor que está no seu declínio e que vai perecendo e desfalecendo, é chamado amor imperfeito; porquanto, ainda que esteja inteiro na alma, aí não está, ao que parece, inteiramente, isto é, quase não está mais aderente à alma, e está a ponto de abandoná-la. Ora, sendo a caridade separada da alma pelo pecado, múltiplas vezes fica nesta uma certa semelhança de caridade, que nos pode iludir e divertir em vão; e dir-vos-ei o que é.

Enquanto está em nós, a caridade produz muitas ações e amor para com Deus, por cujo freqüente exercício nossa alma adquire um certo hábito e costume de amar a Deus, que não é a caridade, mas apenas um vinco e inclinação que a multidão das ações deu ao nosso coração. 

Depois de adquirir um longo hábito de pregar ou de dizer missa por eleição, múltiplas vezes nos acontece em sonho falar e dizer as mesmas coisas que diríamos pregando ou celebrando, de tal sorte que o costume ou hábito adquirido por eleição e virtude é de alguma sorte praticado depois sem eleição e sem virtude, visto como, geralmente falando, as ações feitas dormindo só têm da virtude uma aparente imagem, e são meros simulacros e representações dela. Assim a caridade, pela multidão dos atos que produz, imprime em nós uma certa facilidade de amar, que ela nos deixa mesmo depois que somos privados da sua presença.


Quando jovem escolar, vi que numa aldeia próxima de Paris, em certo poço havia um eco (1) que repetia várias vezes palavras que pronunciávamos lá ao pé. E, se algum idiota sem experiência tivesse ouvido aquelas repetições de palavras, teria crido que havia no fundo do poço algum homem que as fazia. Mas, pela filosofia, nós já sabíamos não haver ninguém no poço que repetisse as nossas palavras, mas ali haver apenas algumas concavidades, sendo numa das quais as nossas vozes colhidas, e, não podemos passar além, para não perecer de todo e empregarem as forças que lhes restavam produziam segundas vozes, e essas segundas vozes colhidas noutra concavidade produziam terceiras, e essas terceiras de igual maneira quartas, e assim consecutivamente até onze: de tal sorte que aquelas vozes feitas no poço já não eram mais as nossas vozes, porém simples semelhanças e imagens delas. 

(1) o que o autor diz de uma aldeia dos arredores de Paris existia em Paris mesmo; consoante os antiquários, seria essa a origem da rua do Puits-qui-parle, bairro do Panthléon.

E, de fato, muito havia que dizer entre as nossas vozes e aquelas; porque, quando nós dizíamos uma grande série de palavras, elas só repetiam algumas, encurtavam a pronúncia das sílabas que elas passavam muito depressa, e com tons e acentos completamente diferentes dos nossos, e assim só começavam a formar essas palavras depois de havê-las acabado de pronunciar. Em suma, não eram palavras de um homem vivo, mas, por assim dizer, palavras de um rochedo, de um rochedo oco e vazio, as quais, todavia representavam tão bem a voz humana de que se haviam originado, que com elas se teria um ignorante divertido e equivocado. 

Ora, quero agora dizer assim. Quando o santo amor de caridade encontra uma alma manejável, e faz nela alguma longa estada, produz nela um segundo amor que não é um amor de caridade, posto que provenha da caridade; mas é um amor humano, o qual, não obstante, se assemelha tanto à caridade, que, embora depois esta pereça na alma, parece nela estar sempre, visto haver deixado nela após si essa sua imagem e semelhança que a representa; de sorte que um ignorante se enganaria nisso, tal como os pássaros fizeram na pintura das uvas de Zêuxis, as quais eles cuidaram ser verdadeiras uvas, com tanta propriedade havia a arte imitado a natureza. E, todavia há muita diferença entre a caridade e o amor humano que ela produz em nósporquanto a voz da caridade pronuncia, intima e opera todos os mandamentos de Deus dentro dos nossos corações; o amor humano que fica após ela di-los realmente e os intima às vezes todos, mas nunca os opera todos, e sim alguns apenas: a caridade pronuncia e reúne todas as sílabas, isto é, todas as circunstâncias dos mandamentos de Deus; esse amor humano deixa sempre para trás alguma delas, e, sobretudo a da reta e pura intenção. E, quanto ao tom, a caridade o tem muito uniforme, doce e gracioso; mas esse amor humano vai sempre ou alto demais nas coisas terrenas ou baixo demais nas celestes, e nunca começa a sua tarefa senão depois que a caridade cessou de fazer a sua. 

Porque, enquanto a caridade está na alma, serve-se desse amor humano, que é a sua criatura, e emprega-o para facilitar as suas operações; de tal sorte que, durante esse tempo, as obras desse amor, como de um servo, pertencem à caridade, que lhes é a dona. Estando, porém, a caridade afastada, então as ações desse amor são totalmente dele, e não têm mais a estima e valor da caridade; pois, assim como o bastão de Eliseu, na ausência deste, embora na mão do servo Giezi, que o recebera da mão de Eliseu, não fazia nenhum milagre, assim também as ações feitas na ausência da caridade, pelo simples hábito do amor humano, não são de nenhum mérito nem de valor algum para a vida eterna, posto que da caridade tenha esse amor humano aprendido a fazê-las e seja apenas o servo dela. E isso assim se faz porque, na ausência da caridade, esse amor humano não tem mais nenhuma força sobrenatural para levar a alma à excelente ação do amor de Deus sobre todas as coisas. 

Quanto é perigoso esse amor imperfeito

Ai! meu Teótimo, vede, peço-vos, o pobre Judas, depois que traiu seu Mestre, como vai levar de novo o dinheiro aos Judeus, como reconhece seu pecado, como fala honrosamente do sangue daquele Cordeiro imaculado. Eram efeitos do amor imperfeito, que a precedente caridade passada lhe deixara no coração. 

Desce-se à impiedade por certos graus, e quase ninguém chega ao extremo da malícia num instante. 

Os perfumistas, conquanto já não estejam nas suas lojas, trazem longo tempo o odor dos perfumes que manejaram. Assim os que estiveram nos laboratórios dos ungüentos celestes, quer dizer, na santíssima caridade, guardam-lhe ainda o cheiro por algum tempo depois. Quando o veado passou a noite em algum lugar, mesmo pela manhã o cheiro e a exalação dele ainda ali está fresco: à tarde ele já é mais difícil de sentir, mas à medida que suas pegadas vão ficando velhas e duras, os cães vão também perdendo conhecimento.


Quando a caridade reinou algum tempo numa alma, achamos nesta as suas passadas, a sua pista, as suas pisadas, o seu cheiro por algum tempo depois que ela a deixou; mas pouco a pouco enfim tudo isso se dissipa, e perde-se toda sorte de conhecimento de que alguma vez a caridade nela tenha estado. 

Temos visto jovens bem criados no amor de Deus os quais, desencaminhando-se, ficaram por algum tempo no meio da sua infeliz decadência sem que se deixassem de ver neles grandes sinais da sua virtude passada; e, repugnando ao vício presente o hábito adquirido no tempo da caridade, durante alguns meses a gente custava a discernir se eles estavam fora da caridade ou não, e se eram virtuosos ou viciosos, até que o progresso fazia claramente conhecer que aqueles exercícios virtuosos não tiravam sua origem da caridade presente, mas da caridade passada; não do amor perfeito, mas do amor imperfeito que a caridade deixara após si, como sinal da habitação que fizera naquelas almas. 

Ora, esse amor imperfeito é bom em si mesmo, Teótimo, porque, sendo criatura da santa caridade, e como que do seu séquito, não pode deixar de ser bom e apto a servir fielmente a caridade enquanto ela permanece dentro da alma, e está sempre pronto a servi-la se ela voltar à alma; e, se ele não pode fazer as ações do amor perfeito, nem por isso, entretanto, é para desprezar, porque tal é a condição da sua natureza. Assim as estrelas, que em comparação com o sol são muito imperfeitas, são, todavia extremamente belas, olhadas em particular; e, não tendo lugar na presença do sol, têm no na sua ausência. 

Todavia, embora esse amor imperfeito seja bom em si, contudo nos é perigoso, por isto que muitas vezes nos contentamos com ter a ele só; pois, tendo vários traços exteriores e interiores da caridade, pensando ser a ela mesma que temos, nós nos divertimos, e pensamos ser santos; ao passo que nessa vã persuasão os pecados que no privaram da caridade crescem, aumentam e se multiplicam tanto, que afinal se tornam senhores do nosso coração. 

Se Jacob não tivesse abandonado a sua perfeita Raquel e se houvesse sempre conservado junto a ela no dia de suas núpcias, não teria sido enganado como foi; mas, pela haver deixado ir sem ele ao quarto, no dia seguinte ficou admiradíssimo de achar que em lugar dela tinha apenas a imperfeita Lia, que não obstante ele acreditava ser sua cara Raquel; assim, porém, o enganara Labão. Ora, do mesmo modo nos ilude o amor-próprio. Por pouco que deixemos a caridade ele introduz na nossa estima esse hábito imperfeito; e nos achamos nosso contentamento nele como se ele fosse a verdadeira caridade, até que alguma clara luz nos faça ver estarmos iludidos. 

Ó Deus! não é uma grande pena ver uma alma que se lisonjeia nessa imaginação de ser santa, ficando em repouso como se tivesse a caridade, verificar, todavia finalmente que a sua santidade é fingida, e que o seu repouso não passa de letargia, e a sua alegria de mania? 

Meio de reconhecer esse amor imperfeito

Mas, dir-me-eis, que meio para discernir se é Raquel, ou Lia, a caridade ou o amor imperfeito, que me dá os sentimentos de devoção de que sou tocado? Se, examinando em particular os objetos dos desejos, dos afetos e dos desígnios que tendes presentemente algum achásseis pelo qual quisésseis contravir à vontade e ao beneplácito de Deus, pecando mortalmente, é fora de qualquer dúvida que todo o sentimento toda a facilidade e presteza que tendes em servir a Deus não tem outra fonte senão o amor humano e imperfeitoporque, se o amor perfeito reinasse em vós, ó Senhor Deus! Romperia todo afeto, todo desejo, todo desígnio cujo objeto fosse tão pernicioso, e não poderia sofrer que o olhasse o vosso coração. 

Mas notai que eu disse dever esse exame ser feito dos afetos que tendes presentemente; porquanto não há necessidade de imaginardes os que poderiam nascer depois, visto bastar que sejamos fiéis nas ocorrências presentes, segundo a diversidade dos tempos, e ter cada estação bastante com seu trabalho e sua pena.
           
E se, todavia quisésseis exercitar o vosso coração na valentia espiritual, pela representação de diversos recontros e de diversos assaltos, poderíeis utilmente fazê-la, contanto que, após os atos dessa valentia imaginária que o vosso coração tivesse feito, não vos julgásseis mais valente. Porquanto os filhos de Efraim, que faziam maravilhas em bem desferir seus arcos nos ensaios de guerra que entre si faziam, quando chegou a ocasião de mostrá-lo, no dia da batalha, deram as costas (SI 77 9), e não tiveram sequer ânimo de disparar suas flechas, nem de olhar a ponta das de seus inimigos. 

Quando, pois, se faz a prática dessa valentia para as ocorrências futuras ou meramente possíveis, se se tem um sentimento bom e fiel, agradece-se por ele a Deus; pois esse sentimento é sempre bom; mas, no entanto deve a gente ficar com humildade entre a confiança e a desconfiança, esperando que, mediante a assistência divina faríamos na ocasião o que imaginamos, e receando, todavia que, segundo a nossa miséria ordinária, talvez não fizéssemos nada e perdêssemos ânimo; mas, se a desconfiança se tornasse tão desmedida que nos parecesse não termos nem força, nem coragem, e que, portanto nos adviesse desespero sobre o objeto das tentações imaginadas, como se não estivéssemos na caridade e graça de Deus, então, apesar do nosso sentimento e desânimo devemos tomar resolução de sermos realmente fiéis em tudo o que nos suceder até a tentação que nos aflige, e esperar que, quando ela chegar, Deus multiplicará Sua graça, redobrará Seu socorro, e prestar-nos-á toda a assistência necessária; e que, não nos dando a força para uma guerra imaginária, e não necessária, dar-no-Ia-á quando isso se tornar necessário. Porque, assim como muitos perderam a coragem no assalto, muitos também nele perderam o temor, e tomaram coragem e resolução na presença do perigo e da necessidade, coragem e resolução que nunca teriam sabido tomar na ausência dele.


E assim muitos servos de Deus, representando-se as tentações ausentes espantaram-se com elas quase ao ponto de perderem ânimo, os quais, todavia, em as vendo presentes, se comportaram mui corajosamente. 

Enfim, nesses espantos sentidos pela representação dos assaltos futuros, quando nos parece que o ânimo nos falta, basta desejarmos coragem e confiarmos em Deus, e Ele no-la dará quando for tempo. Por certo, nem sempre Sansão tinha a sua coragem: antes, está assinalado na Escritura que, vindo a ele furiosamente e rugindo o leão das vinhas de Tamnata, o espírito de Deus possuiu-o (Juiz 14, 5-6); quer dizer, Deus deu-lhe o movimento de uma nova força e de uma nova coragem, e ele estraçalhou o leão como o teria feito a um cabrito (Juiz 15), e do mesmo modo quando desbaratou os mil Filisteus que queriam derrotá-lo na campina de Lechi. 

Assim, meu caro Teótimo, não é necessário que tenhamos sempre o sentimento e movimento da coragem requerida para vencer o leão rugidor que anda para cá e para lá rondando para nos devorar (1 Ped 5, 8); isso poderia dar-nos vaidade a presunção. Basta, sim, que tenhamos bom desejo de combater valentemente, e uma perfeita confiança de que o Espírito divino nos assistirá com seu socorro quando se apresentar a ocasião de empregá-lo. 

(Tratado do amor de Deus, São Francisco de Sales, livro quarto, capítulos IX, X e X
I)

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Meio geral para aplicar as nossas obras no serviço de Deus

 Meio geral para aplicar 

as nossas obras no serviço de Deus
(São Francisco de Sales)


Tudo o que fizerdes e seja o que for que fizerdes em palavras e em obras,
fazei-o tudo em nome de Jesus Cristo. 
Quer comais quer bebais, quer façais alguma outra coisa, 
fazei-o tudo para a glória de Deus
(Col. 3, 17; 1 Cor 10, 31). 

São as próprias palavras do divino Apóstolo, as quais, como diz o grande São Tomás explicando-as, são suficientemente praticadas quando temos o hábito da santíssima caridade, pela qual, embora não tenhamos uma intenção expressa e atenta de fazer cada obra por Deus, essa intenção está contida implicitamente na união e comunhão que temos com Deus, pela qual tudo o que podemos fazer de bom é dedicado conosco à Sua divina bondade. Não há necessidade de que um filho, ficando na casa e no poder de seu pai, declare que o que adquire é adquirido para seu pai, porquanto, sendo de seu pai a sua pessoa, tudo o que dele depende lhe pertence também. Basta também que sejamos filhos de Deus por dileção, para tornarmos tudo o que fazemos inteiramente destinado à Sua glória. 

Verdade é, pois, Teótimo, que, como dissemos noutro lugar, tal qual como a oliveira plantada perto da vinha lhe dá o seu sabor, assim também a caridade, achando-se junto das outras virtudes, comunica-lhes a sua perfeição. Mas, como também é verdade que, se se enxerta a vinha na oliveira, ela não lhe comunica apenas mais perfeitamente o seu gosto, porém a torna ainda participante do seu suco, não vos contenteis também de ter a caridade, e com ela a prática das virtudes, mas fazei que seja por meio dela e por causa dela que a pratiqueis, a fim de que elas possam ser-lhe justamente atribuída. 

Quando um pintor segura e conduz a mão do aprendiz, o traço que provém dela é atribuído principalmente ao pintor, porque, embora o aprendiz tenha contribuído com o movimento da sua mão e com a aplicação do pincel, seja como for o mestre de sua parte também entremeou de tal sorte o seu movimento ao do aprendiz, que, imprimindo nele a honra daquilo que está bem no traço, essa honra lhe é especialmente deferida, ainda que não se deixe de louvar o aprendiz por causa da brandura com que acomodou o seu movimento à direção do mestre. Oh! como são excelentes as ações das virtudes quando o divino amor lhes imprime o seu sagrado movimento, isto é, quando se fazem pelo motivo da dileção! 

Mas isto se faz diferentemente. 

O motivo da divina caridade derrama uma influência de perfeição particular sobre as ações virtuosas dos que se dedicaram especialmente a Deus para o servirem para sempre. Tais são os bispos e sacerdotes, que, por uma consagração sacramental e por um caráter espiritual, que não pode ser delido, se votam, como servos estigmatizados e marcados, ao perpétuo serviço de Deus. Tais os religiosos que, pelos seus votos, ou solenes ou simples, são imolados a Deus na qualidade de hóstias vivas e racionais (Rom. 12, 1). Tais todos os que se alistam nas congregações pias, dedicadas para sempre à glória divina. Tais, ainda, todos os que de caso pensado se proporcionam profundas e poderosas resoluções de seguir a vontade de Deus, fazendo para isso retiros de alguns dias, a fim de, por diversos exercícios espirituais, excitarem suas almas à inteira reforma da sua vida; método santo, familiar aos antigos cristãos, porém depois quase completamente abandonado, até que o grande servo de Deus Inácio de Loyola o repôs em uso no tempo de nossos pais. 

Sei que alguns não acham que essa oblação tão geral de nós mesmos estenda a sua virtude e leve a sua influência sobre as ações que praticamos depois, senão à medida que no exercício delas nós aplicarmos em particular o motivo da dileção, dedicando-as especialmente à glória de Deus. Mas, não obstante, todos confessam com São Boaventura, louvado por cada um neste assunto, que, se eu no meu coração resolvi dar cem escudos por Deus, embora depois faça com vagar a distribuição dessa soma, tendo o espírito distraído e sem atenção, sem embargo toda a distribuição não deixará de ser feita por amor, visto proceder do primeiro intuito que o divino amor me fez de dar tudo isso. 

Mas, dizei-me, Teótimo, que diferença há entre quem oferece a Deus cem escudos e quem oferece todas as suas ações? Certamente, não há diferença, a não ser que um oferece uma soma de dinheiro e o outro uma soma de ações. E, pergunto-vos, por que então não serão eles um como o outro considerados como tendo feito a distribuição das moedas de suas somas, em virtude dos seus primeiros propósitos e fundamentais resoluções? E se, distribuindo seus escudos sem atenção, não deixa um de gozar da influência do seu primeiro intento, por que então o outro, distribuindo as suas ações, não há de gozar do fruto da sua primeira intenção? Aquele que destinadamente se tornou escravo amigável da divina bondade dedicou-lhe consequência todas as suas ações. 

Sobre esta verdade cada um deveria uma vez na vida fazer um bom retiro, para nele purgar bem a sua alma de todo pecado, e para em seguida formar uma íntima e sólida resolução de viver todo para Deus, conforme ensinamos na primeira parte da Introdução á vida devota; depois, ao menos uma vez no ano. Fazer a revista da sua consciência, e a renovação da primeira resolução que assinalamos na quinta parte daquele livro, ao qual sobre este ponto vos encaminho.

De certo, São Boaventura confessa que um homem que adquiriu tamanha inclinação e costume de fazer o bem, que muitas vezes o faz sem atenção especial, não deixa de merecer muito por tais ações, enobrecidas como são pela dileção de que provêm, raiz e fonte originária desse feliz hábito, facilidade e presteza.

(Tratado do amor de Deus, capítulo  VIII, Livro Décimo segundo)

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

MEDITAÇÃO SOBRE O FIM DO HOMEM

Resultado de imagem para rezando igreja PREPARAÇÃO
  1. Põe-te na presença de Deus.
  2. Pede a Deus que te inspire.
CONSIDERAÇÃO
1 – Não foi por nenhum motivo de interesse que Deus nos criou, pois nós Lhe somos absolutamente inúteis; foi unicamente para nos fazer bem, em nos facultando, com Sua graça, participar de Sua glória; e foi por isso, Filotéia, que Ele te deu tudo o que tens: o entendimento, para O conheceres e adorares; a memória, para te lembrares dEle; a vontade, para O amares; a imaginação, para te representares os Seus benefícios; os olhos, para admirares as Suas obras; a língua, para O louvares, e assim as demais potências e faculdades.
2 – Sendo esta a intenção que Deus teve, em te criando, com certeza deves abominar e evitar todas as ações que são contrárias a este fim; e quanto àquelas que não te conduzem a Ele, tu as deves desprezar, como vãs e supérfluas.
3 – Considera quão grande é a infelicidade do mundo, que nunca pensa nestas coisas; a infelicidade, digo, dos homens que vivem por ai, como se estivessem persuadidos de que seu fim neste mundo é edificar casas, construir jardins deliciosos, acumular riquezas sobre riquezas e ocupar-se de divertimentos frívolos.
AFETOS E RESOLUÇÕES
1 – Confunde-te considerando a miséria de tua alma e o esquecimento destas verdades. Ah! De que se tem ocupado o meu espírito, ó meu Deus, quando não pensei em Vós? De que me lembrava, quando Vos esqueci? Que amava eu, quando Vos não amava? Ah! Eu me devia alimentar da verdade e fui saturar-me na vaidade. Como escravo que eu era do mundo, eu o servia, a esse mundo, que foi feito para me servir e me ensinar a Vos conhecer e amar.
2 – Detesta a vida passada. Eu vos renuncio e aborreço, máximas falsas, vãos pensamentos, reflexões inúteis, recordações detestáveis. Eu vos abomino, amizades infiéis e criminosas, vãos apegos ao mundo, serviços perdidos, miseráveis afabilidades, generosidade falsa que, para servir aos homens, me levastes a uma imensa ingratidão para com Deus; eu vos detesto de toda a minha alma.
3 – Volta-te para Deus. E Vós, ó meu Deus, ó meu Salvador, Vós sereis dora em diante o único objeto de meus pensamentos; não darei atenção a nada que Vos possa desagradar; minha memória se encherá todos os dias da grandeza e doçura de Vossa bondade para comigo; Vós sereis as delícias de meu coração e toda a suavidade de meu interior.
Sim, assim seja; tais e tais divertimentos com que me entretinha, estes e aqueles exercícios vãos que ocuparam meu tempo, estas e aquelas afeições que prendiam meu coração, tudo isso será um objeto de horror para mim; e, para conservar-me nestas disposições, empregarei tais e tais meios.
CONCLUSÃO
1 – Agradece a Deus. Eu Vos dou graças, ó meu Deus, porque me destinastes para um fim tão sublime e útil, qual é o de Vos amar nesta vida e gozar eternamente na outra da intensidade de Vossa glória. Como serei digno dele? Como Vos bendirei quanto mereceis?
2 – Oferece-te a Deus. Eu Vos ofereço, ó meu amabilíssimo Criador, todos estes propósitos e afetos com todo o meu coração e com toda a minha alma.
3 – Ora humildemente a Deus. Eu Vos suplico, ó meu Deus, que Vos agradeis de meus desejos e votos, de dar à minha alma a Vossa santa bênção, para que sejam levados a efeito, pelos merecimentos de Vosso Filho, que por mim derramou todo o Seu sangue na cruz. Pai-Nosso, Ave-Maria.

Filotéia – São Francisco de Sales

Fonte:
http://catolicosribeiraopreto.com

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Exame de consciência antes de dormir - São Francisco de Sales



Escolhe alguns minutos antes de dormir e prostra-te diante do teu Deus aos pés do crucifixo, lembrando-te contigo mesmo da dissipação do dia. Reacende no teu coração o fogo da meditação da manhã por actos de profunda humilhação, por suspiros de ardente amor a Deus, e aprofunda-te, abrasado deste amor, nas chagas do amantíssimo Salvador, ou então vai repassando em teu espírito e no fundo do teu coração tudo quanto saboreaste na oração, a não ser que prefiras ocupar-te de um novo objeto.

Quanto ao exame de consciência, que devemos fazer antes de nos deitarmos, não há ninguém que ignore.

1. Devemos agradecer a Deus de nos ter conservado durante o dia.

2. Examinam-se todas as acções, uma a uma, e as suas circunstâncias.

3. Achando-se alguma coisa de bom, feita nesse dia, dá-se graças a Deus; se, ao contrário, se lhe tem ofendido por palavras, por pensamentos e por obras; pede-se-lhe perdão por um acto de contrição, que deve abranger a dor dos pecados cometidos, o bom propósito de corrigi-los e boa vontade de confessá-los na primeira ocasião.

4. Depois disso, recomenda-se a divina Providência o corpo e a alma, a Igreja, os parentes e amigos; invoca-se a Santíssima Virgem, os Santos e os Anjos da Guarda, pedindo-lhes de velar sobre nós. Feito isso, com a bênção de Deus, vamos tomar o repouso que ele quer que tomemos.

Nunca se deve omitir esta oração da noite, assim como a da manhã; pois como, pela oração da manhã se abrem as janelas da alma para o Sol da justiça, assim pela oração da noite elas se fecham para as trevas do inferno.

São Francisco de Sales in 'Filoteia ou a Introdução à Vida Devota'

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

O PECADO DOS SANTOS E A MISERICÓRDIA DE DEUS



Todo homem, por mais santo que seja, tem imperfeições, visto que foi feito do nada. De forma que não prejudicamos aos santos se, ao narrarmos as suas virtudes, contamos também os seus pecados e imperfeições. Aqueles que ocultam os defeitos e faltas dos santos com o pretexto de os honrar, fazem mal, porque não contam o princípio da sua conversão com medo que diminua assim a estima em que temos a sua santidade. Todos os grandes santos, escrevendo as vidas de outros santos, narraram sempre as faltas e imperfeições, pensando, e com razão, dar nisto tanta glória a Deus e aos seus mesmos santos como narrando as suas virtudes.
O grande São Jerônimo, escrevendo em epitáfio os louvores e as virtudes de Santa Paula, explica claramente as suas imperfeições, condenando com toda a lisura muitas das suas ações e sendo sempre claro e sincero ao escrever as suas virtudes e defeitos, pois sabia que uma coisa lhe era tão útil como a outra, porque vendo os defeitos dos santos e a sua vida basta-nos para conhecermos a vontade de Deus, que lhes perdoou e nos ensina a evitá-los e a fazer deles penitência como os santos fizeram, assim como lemos as suas virtudes para o imitar.
Quando os mundanos querem elogiar as pessoas que estimam, contam sempre as suas graças, virtudes, perfeições e excelências, dando-lhes todos os títulos e dignidades honrosas, procurando encobrir os seus pecados e imperfeições, e esquecendo tudo o que os poderia tornar desprezíveis. Mas a Santa Igreja nossa mãe faz o contrário; porque embora ame muito os seus filhos, contudo, quanto os quer louvar e exaltar, conta exatamente os pecados que cometeram antes da conversão, para dar mais honra e glória à majestade d’Aquele que os santificou, fazendo brilhar sobre eles a sua infinita misericórdia, pela qual os levantou da sua miséria e pecados, enchendo-os de graça e dando-lhes o seu santo amor, a fim de chegarem à santidade.
É fora de dúvida que a Igreja, contando e escrevendo os pecados dos santos, não tem intenção senão de nos mostrar que não quer que nos admiremos e aterremos com os pecados passados e as misérias presentes, contanto que tenhamos uma resolução firme e inabalável de pertencer a Deus, e de abraçar a perfeição, e todos os meios que nos podem adiantar no amor divino, fazendo com que esta resolução seja eficaz, e produza obras. As nossas misérias e fraquezas, em vez de nos aterrarem, devem-nos humilhar e lançar nos braços da misericórdia divina, que será tanto mais glorificada, quanto maiores forem as misérias, contanto que delas nos emendemos; o que devemos esperar mediante a graça de Nosso Senhor.
O grande São Crisóstomo, falando de São Paulo, louva-o o mais que pode e fala dele com tanta honra e estima, que é coisa admirável a narração das virtudes, graças, prerrogativas, excelências e perfeições de que Deus encheu a alma daquele santo apóstolo; mas, após isto, este mesmo Doutor, para mostrar que estas graças não vêm dele mas da infinita bondade de Deus, fala também dos seus defeitos, e narra com exatidão os seus pecados e imperfeições.
Vede, diz ele, como este grande perseguidor da Igreja, Deus fez um vaso de eleição, e como transformou este grande pecador, fazendo dum lobo uma ovelha; vede como encheu de graças a este ambicioso e iracundo, tornando-o tão submisso, que chega a dizer: “Senhor! que vos agrada que eu faça?” e tão humilde, que diz ser o menor dos apóstolos e o maior dos pecadores; que se faz tudo para todos, é para os ganhar para Jesus: “Quem está doente, diz ele, com o qual eu não esteja doente? Quem está triste, com o qual eu não me entristeça? Quem está alegre, com o qual eu não me alegre também? Quem se escandaliza, com que eu não me escandalize?” Os antigos Padres, ao contarem a vida dos santos, eram exatos em contar os pecados e faltas deles, para exaltarem e glorificarem a bondade divina, fazendo ver a eficácia da graça por cujo meio se converteram.
[Por São Francisco de Sales]

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

COMBATE ESPIRITUAL


Fatigantes são os combates do espirito,
 é verdade; mas como é consolador 
e glorioso sair deles vitorioso! 


 Se Adão e Eva não tivessem desobedecido ao Senhor e não nos tivessem transmitido o seu primeiro pecado com todas as suas consequências funestas, ter-nos-ia sido coisa muito fácil e deleitosa cumprir neste mundo a vontade de Deus alcançar a nossa perfeição espiritual. Em tal hipótese, ter-nos-íamos visto adornados com o dom de integridade; as nossas paixões teriam estado sujeitas, sem esforço, à razão; a razão, a Deus, e não experimentaríamos em nós esta revolta, esta luta da parte inferior contra a parte superior, da carne contra o espírito; luta de que se lamentava o grande Apóstolo, pois nem mesmo ele se viu livre dos estímulos da concupiscência .




 Por consequência, não temos outro remédio senão combater, se queremos evitar o pecado, cumprir a vontade de Deus e, assim, santificarmo-nos e salvarmo-nos. Ninguém será coroado senão o que combater devidamente, afirma S. Paulo . E Nosso Senhor Jesus Cristo disse-nos : O reino dos céus precisa de violência, e só os que a praticarem o conseguirão . Nesta luta, nesta violência que temos de ter com nós próprios e que temos de sustentar contra todos os nossos inimigos espirituais, consiste a mortificação ou abnegação cristã, que o nosso divino Salvador exige daqueles que O querem seguir e ser seus discípulos. Pretender, pois, piedoso leitor, alcançar a perfeição sem te negares a ti mesmo, sem violentar-te, sem combater denodadamente, seria uma ilusão, seria pretender um Impossível.

 Mas, se bem que não se possa negar que a luta espiritual é dura, também não se deve exagerar essa dificuldade. E necessária, sim, a abnegação: é preciso contrariar as nossas inclinações. e desejos; mas entenda-se bem: nem todos os nossos desejos, nem todas as nossas inclinações, somente os maus desejos e aquelas inclinações que sejam desordenadas, por exemplo, a inclinação à vingança, a inclinação à murmuração, à impureza, à vanglória, etc.; pois temos muitas inclinações boas, por exemplo, a inclinação ao trabalho, ao estudo, à piedade, à caridade, e outras que, longe de abafá-las ou destruí-las, devemos cultivar e sobrenaturalizar, acomodando-as aos impulsos da graça, a qual, por sua vez, costuma acomodar-se à natureza no que esta tem de recto e ordenado, aperfeiçoando-a e santificando-a.

 Do mesmo modo temos inclinação para outras coisas, também das que agradam à natureza sensível, tais como, o comer, o dormir, o recrearmos-nos ... , e não obstante não é preciso contrariar em absoluto ou matar essa inclinação, senão contê-Ia dentro dos justos limites para não incorrermos em excessos. De igual modo temos de lutar, quem o duvida? contra Inimigos formidáveis do exterior, a saber, o mundo e o demônio; mas afinal de contas, estes são menos poderosos que a graça de Deus, a qual há-de ser a nossa principal arma de combate. 

 Não disse Cristo Nosso Senhor que o seu jugo era leve e a sua carga ligeira ? Estas palavras do Salvador dão a entender que, ainda que a luta espiritual seja de si muito difícil e custosa, Ele com a ajuda da sua graça toma-a suave e tolerável. 

Com efeito não combatemos, sozinhos, mas a graça de Deus juntamente connosco. Grande, esforçado era o combate que o Apóstolo S. Paulo sustentava contra a revolta da sua carne, que o esbofeteava, como ele mesmo disse, e contra toda a espécie de inimigos interiores e exteriores, e não obstante, Nosso Senhor disse-lhe: Não temas, basta-te a minha graça: «Sufficit tibi gratia mea» ; e encorajado com estas palavras, e apoiado firmemente nessa graça divina, exclamava depois, cheio de confiança: Tudo posso naquele que me conforta.
 Igualmente, nós poderemos tudo com a graça de Deus e com ela alcançaremos a perfeição a que aspiramos. Não tens, pois, por que desanimar, alma devota, ante as dificuldades da luta, mas, pelo contrário, deves dispor-te a ela com ânimo esforçado, tanto mais quanto maiores forem os obstáculos e mais encarniçados os inimigos com os quais tenhas de lutar. E se alguma vez, apesar dos teus esforços e resoluções fores ferida no combate, não desanimes, nem abandones o campo de batalha declarando-te vencida; humilha-te na presença de Deus, pede-lhe perdão e misericórdia, desconfia mais de ti e confia mais n'Ele, e revestida de ânimo novo, propõe ser mais firme para o futuro. Repara no que S. Francisco de Sales disse: 

«Antes morrer que pecar, está bem; mas, se tivermos a desgraça de cometer um pecado, antes perder tudo que perder a esperança, o ânimo e os bons propósitos. O desânimo é a pior tentação, porque, quando o inimigo chega a fazer-nos perder o valor que necessitamos para avançarmos na virtude, conseguiu muito de nós e põe-nos logo no precipício. Não percais nunca a confiança em Deus; se permite que caiais, não é para vos abandonar, mas para permitir que para o futuro sejais mais humildes e cautelosos».

 «Medita bem - diz o livro da Imitação - os exemplos heroicos dos servos de Cristo, e repara como serviram ao Senhor na fome e na sede, no frio e na nudez, nos trabalhos e fadigas, em vigílias e jejuns, em orações e santas meditações, em perseguições e em muitos opróbrios. Oh ! quantas e quão graves tribulações padeceram os Apóstolos, mártires. confessores, virgens e todos os outros mais que quiseram seguir as pisadas do Salvador . . . Quão graves e fortes tentações padeceram ! Quão frequentemente foram atormentados pelo inimigo ! Que dura guerra tiveram de sustentar para dominar os vícios ! Ainda hoje os sinais que deixaram dão testemunho de que foram verdadeiramente varões santos e perfeitos, que combatendo esforçadamente venceram o mundo, o demônio e a si mesmos. Deus pô-los como modelo de perfeição, e deve-nos mover mais o seu exemplo para avançar na virtude, que a abundância dos tíbios para afrouxar e decair de ânimo»
 Por conseguinte, resolve-te a combater valorosamente como combateram os Santos, e nunca desanimes, como eles nunca desanimaram: imita-os, -sê firme e constante na luta até morrer, pois como disse Nosso Senhor Jesus Cristo, só o que perseverar até ao fim será salvo. Ouve as palavras de Deus no Apocalipse: Sê fiel até à morte e dar-te-ei a coroa da vida. A coroa da vida ! Oh, quão grande é este prêmio que nos espera ! O gozo e a posse de Deus por toda a eternidade ! Os soldados e os gladiadores - dizia S. Paulo - vão ao combate e impõem-se toda a espécie de privações e sacrifícios para alcançarem um vão aplauso, uma efêmera coroa; quanto mais nos devemos animar a combater e vencer nas lutas do espírito para alcançarmos uma coroa imortal !
 Levanta os teus olhos ao céu; olha para Jesus Cristo com todos os seus Santos. No seu século tiveram que sustentar grandes combates; mas aquilo passou já: agora, em troca, começaram os gozos que não acabarão mais; agora regozijam-se em Deus e estão consolados e seguros: agora descansam em paz, e permanecerão felizes eternamente. Mil vezes ditosos os trabalhos que são remunerados com prêmio tão grande.
RESOLUÇÃO : Confiando não em minhas próprias forças, senão na graça de Deus, que nunca me há--de faltar, resolvo lutar como lutaram os Sentas contra os inimigos da minha alma, e especialmente comigo mesmo. contra o meu amor-próprio. as minhas paixões e inclinações más, sem nunca desanimar com a duração  com as dificuldades da luta.
Jaculatória : Assisti-me, meu Deus, nos meus combates. Dai-me o triunfo contra todos os meus inimigos espirituais e concedei-me, no fim das lutas desta vida, a coroa da glória.

(A PERFEIÇÃO CRISTA Segundo o espirito de S. FRANCISCO DE SALES, EMÍLIO GONZALEZ  )

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