quarta-feira, 22 de março de 2017

Quem ama a Jesus Cristo ama a mansidão


"A caridade é benigna". O espírito de mansidão é próprio de Deus. "Meu espírito é mais doce do que o mel"1. A pessoa que ama a Deus, ama a todos os que são amados por Deus, isto é, todos os homens. Por isso procura sempre socorrer, consolar, contentar a todos na medida do possível. Eis o que diz São Francisco de Sales, mestre e modelo da mansidão: "A humilde mansidão é a virtude das virtudes que Deus tanto nos recomendou. É necessário praticá-la sempre e em toda parte". Dá-nos ainda a seguinte regra: "Quando vedes alguma coisa que se pode fazer com amor, fazei-o; o que não se pode fazer sem discussões, deixai-o”2. Isso se refere ao que podemos deixar sem ofender a Deus, porque, quando existe ofensa a Deus, esta deve ser impedida sempre e depressa por aquele que é obrigado a impedi-la.

A mansidão deve ser praticada especialmente com os pobres, os quais normalmente, por causa da sua pobreza, são tratados asperamente pelos homens. Deve-se ainda usar da mansidão particularmente com os doentes que se encontram aflitos e, as mais das vezes, recebem pouco cuidado dos outros. Devemos exercer a mansidão principalmente com os inimigos. É preciso “vencer o mal com o bem"3, isto é, o ódio com o amor, a perseguição com a mansidão. Assim fizeram os santos e por esse meio conseguiram o afeto de seus maiores inimigos. 

Diz São Francisco de Sales: "Não há nada que tanto edifique o próximo como a caridosa benignidade no trato"4. Ele tinha ordinariamente o sorriso nos lábios. “Sua aparência, suas palavras, suas maneiras respiravam mansidão”5. São Vicente de Paulo afirmava jamais ter conhecido um homem mais manso, parecendo-lhe ver a imagem viva da bondade de Jesus Cristo. Mesmo quando sua consciência o obrigava a negar alguma coisa, o santo mostrava tanta benevolência com as pessoas, que elas iam embora contentes, embora não tivessem obtido o que desejavam6. Era manso para com todos, com os superiores e com seus iguais, com seus inferiores, com as pessoas de casa e de fora7. Era bem diferente dos que, segundo sua expressão, parecem anjos na rua e demônios em casa8. No trato com seus empregados, não se queixava nunca de suas faltas; advertia-os apenas e sempre com bondade9. Coisa muito louvável em todos os superiores!

O superior deve usar de toda mansidão com os seus súditos. Ao lhes impor alguma coisa, deve antes pedir que mandar. Dizia São Vicente de Paulo “Para os superiores, não há melhor meio de se fazer obedecer do que a mansidão"10. "Experimentei todos os meios de governar - dizia Santa Joana de Chantal - e não encontrei nenhum melhor do que o modo bondoso e paciente"11

A bondade e a mansidão

O superior deve mostrar-se benigno mesmo nas repreensões que tem a fazer. Uma coisa é repreender com energia e outra repreender com aspereza. É preciso, às vezes, repreender com energia, quando a falta é grave, principalmente em caso de repetição da falta e depois de a pessoa ter sido avisada. Mas evitemos repreender com aspereza e com raiva; quem repreende com raiva faz mais mal do que bem. Esse é o zelo errado que São Tiago reprova. Há quem se glorie de dominar assim sua família ou comunidade, e pensa que é assim que se deve governar. São Tiago não pensa assim: "Se tendes um zelo amargo, não vos glorieis”12.

Se em algum caso raro houvesse necessidade de dizer uma palavra áspera para que alguém percebesse a gravidade de seu erro, é preciso temperar a dureza, terminando com alguma palavra mais mansa. É preciso curar as feridas, a exemplo do bom samaritano, com vinho e óleo. São Francisco de Sales dizia: “Assim como o óleo fica boiando quando despejado num copo de água, assim em todos nossos atos deve ficar por cima a bondade"13. Se a pessoa a ser repreendida está alterada, convém deixar a repreensão para outra hora e esperar que passe a raiva, caso contrário mais a irritaríamos. "Quando uma casa pega fogo não se deve jogar mais lenha na fogueira"14.

"Não sabeis de que espíritos sois". Foi esta a resposta que Jesus deu a Seus discípulos Tiago e João, quando eles queriam que fossem castigados os samaritanos, que os tinham expulsado da sua cidade: 

- Que espírito é esse? Não é o Meu! O Meu espírito é de bondade e mansidão; "não vim para perder, mas para salvar as pessoas"15 e estais querendo que Eu as perca? Calai-vos e não Me façais semelhantes pedidos, porque não é esse o Meu espírito!

De fato, com que mansidão tratou Jesus a mulher adúltera: 

- "Mulher, ninguém te condenou? Nem Eu te condenarei. Vai e não peques mais"16.

Contentou-Se apenas em admoestá-la a não mais pecar e a mandou em paz. Com quanta bondade procurou converter e converteu a samaritana. Começou pedindo-lhe água. Depois lhe disse: 

- "Se soubesses quem é que te pede de beber!" 

Em seguida revelou-lhe que era o Messias esperado. 

Com quanta bondade procurou converter o traidor Judas. Deixou que ele comesse com Ele no mesmo prato. Lavou-lhe os pés e o admoestou no momento da traição: 

- "Judas, é com um beijo que Me trais? Com um beijo trais o Filho do Homem?" 

Como é que mais tarde converteu Pedro, depois de ter sido renegado por ele? "O Senhor voltou-Se e olhou para Pedro”17. Ao sair da casa do pontífice, sem censurar o seu pecado, lançou sobre ele um olhar de ternura e o converteu. E converteu de tal forma que Pedro durante toda a vida não deixou de chorar a grave ofensa que fizera ao seu Mestre. 

A força da mansidão

É certo, ganha-se mais sendo manso do que severo. Dizia São Francisco de Sales que não há nada mais amargo que a noz; mas quando bem preparada, torna-se doce e agradável. O mesmo se dá com as repreensões; embora sejam em si desagradáveis, contudo quando feitas com amor e bondade, são bem aceitas e produzem maior proveito18

São Vicente de Paulo dizia que, no governo de seu instituto, fizera apenas três repreensões severas, acreditando ter boas razões para agir assim. Mas depois sempre se arrependeu porque nenhuma surtira efeito, ao passo que as correções feitas com mansidão sempre tiveram bom resultado19

São Francisco de Sales, por sua mansidão, alcançava dos outros tudo o que desejava. Assim conseguiu levar para Deus os pecadores mais endurecidos20. A mesma coisa fazia São Vicente de Paulo que ensinava a seus missionários esta regra: "A afabilidade, o amor e a humildade têm uma força maravilhosa para ganhar os corações dos homens, e levá-los a abraçar as coisas mais desagradáveis à natureza humana"21. Uma vez mandou um grande pecador a um de seus padres para que o convertesse. Mas o missionário, vendo inúteis todos seus esforços, pediu ao santo que lhe dissesse alguma coisa. Ele o fez e o pecador se converteu. Este declarou depois que a singular bondade e extrema caridade do santo lhe ganharam o coração. Por isso o santo não admitia que seus missionários tratassem os seus penitentes com dureza, e lhes dizia que o espírito infernal se serve do rigor de alguns para causar maior dano às almas22.

É preciso praticar a benignidade com todos, em todas as circunstâncias e em todo o tempo. Adverte São Bernardo que alguns são mansos enquanto as coisas correm de acordo com sua vontade. Mas quando atingidos por alguma contrariedade ou dificuldade, logo se inflamam, e começam a fumegar como um vulcão23. Pode-se chamá-los muito bem de carvões acesos escondidos debaixo de cinzas. Quem quer ser santo, deve ser nesta vida como o lírio entre espinhos. Embora nasça entre eles, não deixa de ser lírio, isto é, sempre igualmente suave e benigno! Quem ama a Deus conserva sempre a paz no coração e a deixa transparecer no rosto, apresentando-se sempre o mesmo, tanto nas dificuldades como na prosperidade: “As várias solicitações das criaturas não o perturbam na incessante luta da vida. Seu coração é como um santuário onde vive sempre em paz, unido a Deus"24

Ser manso...

Conhecemos o espírito de uma pessoa nas horas difíceis. São Francisco de Sales amava com ternura a Ordem da Visitação que lhe custara tantos trabalhos. Muitas vezes, por causa das perseguições que sofria, viu-a em perigo. Conservou, porém, sempre a mesma paz, contente até mesmo em vê-la destruída, se essa fosse a vontade de Deus. Foi então que ele disse estas palavras: "De algum tempo para cá, as numerosas oposições e contradições que me têm acontecido me dão uma paz incomparável e muito suave. São sinais da união próxima de minha alma com Deus, e sinceramente, essa é a única ambição de meu coração"25

Quando nos acontece ter que responder a quem nos maltrata, tenhamos cuidado em responder sempre com mansidão. "Uma resposta branda aplaca o furor"26. Uma resposta suave basta para apagar todo o fogo da raiva. Se nos sentimos aborrecidos, é melhor calar, porque nesse momento nos parece justo dizer o que nos vem na cabeça, mas depois, acalmada a paixão, veremos que todas as palavras que proferimos foram erradas. 

Quando nos acontece cometer alguma falta, é preciso que usemos de mansidão para conosco mesmos; irritar-se contra nós mesmos, após uma falta, não é humildade, mas refinada soberba, como se nós não fôssemos fracas e miseráveis criaturas. Dizia Santa Teresa: “A humildade de que inquieta nunca vem de Deus, mas do demônio”27.

Zangar-se contra nós mesmos, após uma falta, é uma falta maior do que a cometida, e trará consigo muitas outras, pois nos fará deixar as práticas de piedade, a oração, a comunhão; e, se as fazemos, serão mal feitas. Dizia São Luís Gonzaga que não se enxerga na água turva e nela pesca o demônio28. Uma alma perturbada pouco conhece a Deus e aquilo que deve fazer. É preciso, portanto, quando caímos em alguma falta, voltarmo-nos para Deus com humildade e confiança e, pedindo-Lhe perdão, dizer, como Santa Catarina de Gênova: 

- Senhor, estas são as ervas do meu jardim!29. Amo-Vos de todo o coração e me arrependo de Vos ter dado esse desgosto. Não quero mais fazê-lo, dai-me o Vosso auxílio.  

ORAÇÃO


 Felizes correntes, que ligais o homem a Deus, atai-me também e uni-me a Deus de maneira que não possa mais me separar de Seu amor, Meu Jesus, eu Vos amo; sim, eu Vos amo, tesouro e vida de minha alma e a Vós me prendo e entrego todo meu ser, Não quero deixar, meu amado Senhor, de Vos amar. Para apagar os meus pecados, consentistes em ser preso como um criminoso e assim ser conduzido à morte pelas ruas de Jerusalém; quisestes ser pregado na cruz e de lá descer só depois de nela deixar a vida. Pelos méritos de tantos sofrimentos, não permitais que eu me separe de Vós. 

Arrependo-me de todo coração de ter me afastado de Vós; com Vossa graça estou resolvido a antes morrer do que Vos tornar a ofender. 

Meu Jesus, em Vós me abandono, amo-Vos de todo o coração, amo-Vos mais do que a mim mesmo. Na vida passada eu Vos ofendi, mas agora eu me arrependo e quisera morrer de arrependimento. Eu Vos peço, atraí-me todo a Vós; renuncio a todas as consolações sensíveis, quero só a Vós e nada mais. Farei que Vos ame, farei de mim o que mais Vos agradar. 

Maria, minha esperança, uni-me a Jesus e fazei que eu passe minha vida unido a Ele, e unido com Ele morra, para assim chegar um dia no céu, onde já não existirá o medo de me ver separado do Seu santo amor!
Santo Afonso Maria de Ligório. 
A Prática do Amor a Jesus Cristo, 
Capítulo VI.

Notas:

  1. Eclo 24,27
  2. S. Francisco de Sales, Lettre 1539, Julho-outubro 1619, à Madame de Villesavin, Oeuvres, XVIII, 417; Lettre 1254, 10 de novembro 1616, à Madame Grillet de Monthoux. Oeuvres, XVII, 305, 306.
  3. Rm 12,21
  4. S. Francisco de Sales, Lettre 1223, à Mère de Bréchard. 22 de julho 1616, Oeuvres, XVII, 260
  5. Sta. Joana de Chantal, Déposition pour la beátification et canonisation de S. François, a. 32. (Procès d’Annecy, 1627). Vie et Oeuvres, XVII, 260
  6. Abelly, Vie, 1.3, c.12
  7. Sta. Joana de Chantal, Déposition pour la beátification et canonisation de S. François, a. 27. Vie et Oeuvres de la Sainte, III, 130
  8. S. Francisco de Sales, Introduction à la vie dévote, p.3, c. 8 
  9. Camus (Ed. Abrégée Collet), p.5, c.10
  10. S. Vicente de Paulo, cfr. Abelly, Vie, 1.3, c. 24, s. 1
  11. Mére de Chaugy, Mémoires sur la vie et lês vertus de S. Jeanne de Chantal, p. 3, c. 19. Vie et Oeuvres de la Saint, 1, p. 466
  12. Tg 3,14
  13. S. Francisco de Sales, Introduction à la vie devote, partie 3, c.8
  14. Surio, De probatis sanctorum historiis, 10 outubro, Vita S. Joannis (prior do monastério de Bridlington) 
  15. Lc 9, 55-56 
  16. Jo 8, 10-11 
  17. Lc 22,48-61
  18. Camus, Esprit de S. François de Sales (Ed. Abrégée Collet), partie 1, c.3. Lettre 2090 (Fragments), c, à la Mère de Chantal, 1615-1617. Oeuvres, XXI, 176
  19. Abelly, Vie, livre 3, c.12
  20. Camus, Esprit de S. François de Sales: partie 3, c. 11 e 21, partie 10, c.2, 4,5; partie 14, c.13
  21. Abelly, Vie, livre 3, c.12
  22. Acami, dell’Oratorio di Roma, Vita, Roma, 1677, I. 1, c.11
  23. S. Bernardo, De adventu Domini, sermo 4, nº 5. ML 183-49
  24. Petrucci Matteo, bispo de Jesi (1681), cardeal (1686). – Poesie sacre, morali e spirituali (Iesi, 1685), p.143
  25. S. Francisco de Sales, Oeuvres, XIV, 177, 178
  26. Pr 15,1
  27. Sta. Teresa, Livro de la Vida, c.30
  28. S. Luís Gonzaga: Vita (Cepari), 2ª parte, c. 7; c.8
  29. Sta. Catarina de Gênova, Vita (Marabotto e Vernazza, c.16)

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