sexta-feira, 22 de setembro de 2017

INDIFERENTES À MISSA NOVA?



Dois ritos diferentes coexistindo para a celebração da Missa. Realmente devemos considerá-los como duas expressões de uma mesma coisa? Certamente isso não é uma questão de gosto: é a fé católica que está em jogo. Lembremo-nos de como devemos julgar a missa reformada de 1969.
Fonte: FSSPX/Distrito da América do Sul – Tradução: Dominus Est 
Muitos problemas seriam resolvidos se fossemos ao menos indiferentes à Nova Missa. De Roma não nos pedem outra coisa. De tantos católicos perplexos com a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, muitos acreditaram que o mal do novo rito viria apenas da maneira de celebrá-lo e os peregrinam pelas paróquias buscando padres, sempre escassos, que celebrem com piedade e não deem a comunhão nas mãos. Outros, melhor informados, sabem que a diferença não está nos modos do sacerdote, senão no próprio rito e reivindicam a Missa tradicional argumentando, com alguma hipocrisia, o enriquecimento que implica a pluralidade de ritos: o novo é bom, mas o antigo também, melhor então ficar com os dois!
Embora não haja tolos em Roma, eles deixaram correr essa desculpa para os grupos tradicionais que se amparam na Comissão “Ecclesia Dei”. Além disso permitiram para os Padres tradicionalistas da diocese de Campos, no Brasil, que ficassem com seu rito tradicional mesmo dizendo que a Nova Missa é “menos boa”. Mas em Roma perturba nossa Fraternidade porque não só não se diz que é boa, mas que a combate como perversa, perturbando a perplexidade que depois de quarenta anos de Concílio tantos católicos não deixam de sofrer. Se, ao menos, fôssemos indiferentes – que os outros rezem como queiram – Roma nos deixaria em paz. 
Podemos ser indiferentes à Nova Missa?
Na véspera de sua Paixão, havendo chegado a hora de oferecer seu sacrifício redentor a seu Pai, Nosso Senhor fez uma aliança com Sua Igreja: Hæc quotiescumque feceritis, em mei memoriam facietis (Lembre-se de que morri por vossos pecados, que me lembrarei de vós na presença do Pai). E, sendo Deus, nos deixou o imenso mistério da Missa, pelo qual seu Sacrifício permanece sempre vivo, sempre novo, permitindo-nos assistir como ladrões arrependidos: Memento Domine, famulorum famularumque tuarum (Lembra-te Senhor de nós agora que estais em seu Reino).
A memória viva da Paixão que se renova pela dupla consagração graças aos poderes do Sacerdócio, a união misteriosa com a Vítima Divina que se realiza pela comunhão é a única maneira que tem o coração duro do homem para retornar ao amor de Deus, porque nada chama tanto ao amor como conhecer-se muito amado, e a Paixão de Nosso Senhor foi a maior demonstração de amor: ninguém ama mais do que aquele que dá a vida por seu amigo. É por isso que a obra da Redenção que Cristo realizada na Cruz não se faz eficaz para nós senão graças ao Sacrifício da Missa.
Agora, assim como não pode haver indiferença perante a Cruz de Cristo, tampouco pode haver perante o rito que renova seu Sacrifício. Quem não está comigo está contra mim, disse Nosso Senhor, e esta lei foi imposta pela Paixão. Posso passar direto por um vendedor se penso não necessitar do que ele oferece; mas não posso passar direto por um homem ferido porque ele precisa de mim. Não é um pecado patente a indiferença ante a Jesus dos Milagres, pois posso dizer com São Pedro: afaste-se de mim, pois sou pecador; mas é uma traição horrível dizer: não conheço aquele homem, ante Jesus Crucificado. É a Cruz de Nosso Senhor que nos obriga a tomar partido, não me é permitido deixar de lado Aquele que morre pelos meus pecados!
O novo rito criado sob Paulo VI para substituir o bimilenar rito romano da Santa Missa, suprimiu o escândalo da Cruz: evacuatum est scandalum crucis! A intenção imediata que guiou a reforma da missa foi o ecumenismo: criar um rito suficientemente ambíguo para ser aceito pelos protestantes mais “próximos” ao catolicismo; mas a intenção final foi suprimir a espiritualidade dolorosa da Cruz, porque sua negatividade supostamente repele o homem moderno.
É surpreendente, mas se nossa religião remove o escândalo da Cruz, cessa a perseguição e os judeus são os primeiros a aceitar o diálogo ecumênico. São Paulo apontava esse mistério aos Gálatas, tentados a judaizar, acreditando que fosse necessário circuncidar-se:
“Se eu ainda prego a circuncisão, por que ainda sou perseguido, se já acabou o escândalo da cruz!? “
Como mostra o livrinho sobre o problema da reforma litúrgica, da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, a teologia subjacente à missa de Paulo VI obscurece a Paixão de Nosso Senhor para permanecer apenas com as alegrias da Ressurreição: supera o Mistério da Cruz com a nova estratégia do Mistério Pascal. Se volta a repetir o que aconteceu quando Jesus anunciou pela primeira vez sua paixão:
“Pedro, tomando-Lhe a parte, se pôs a interpelá-lo dizendo: Não queira Deus, Senhor, que isso aconteça!” (Mt 16, 22)
Visto com olhos muito humanos, com Cristo ressuscitado a Igreja pode entrar no mercado deste mundo, que morre em todos os lugares, com um produto de luxo: a esperança da ressurreição; mas com o Crucificado, todos os sermões devem começar como o primeiro de São Pedro, reprovando perigosamente aos poderosos deste mundo: “Vós o matastes” (Atos 2:23 ). Mas, qual foi a reação de Nosso Senhor ante a mudança de estratégia de mudança que lhe proporia seu Vigário?
Afasta-te de mim, Satanás, porque não tens senso para as coisas de Deus, mas para as dos homens”.
Em todos esses anos de resistência às transformações litúrgicas, dentre a fila dos perplexos emergiram muitos paladinos – bem ou mal intencionados, só Deus sabe – que, fazendo uso da boa teologia, defenderam que a reforma não é tão ruim quando a pintamos. Nós até vimos publicada uma piedosa explicação da Missa Nova em que se mostra a história dos ritos como se nada tivesse acontecido entre Paulo VI e São Gregório Magno.
Por que, então, esperneamos tanto! O que aconteceu foi que ficaram perplexos justamente os católicos que não conheciam muito bem as correntes subterrâneas da teologia modernista que, apesar de condenadas e perseguidas pelos papas antes do Concílio, foram ganhando terreno até instalarem-se no Vaticano, graças ao apoio de João XXIII e Paulo VI.
O pensamento que guiou as reformas, na sua raiz e na sua coerência interna, é verdadeiramente satânico, e infelizmente, não exageramos! É verdade que os materiais com os quais o novo rito foi construído vêm, em sua maior parte, da demolição do antigo; e, por isso, ante um olhar superficial – muito superficial! – parecem semelhantes: ato penitencial, leituras, repetição das palavras de Cristo, comunhão, benção final, tudo em castelhano português e de forma confusa, mas, de qualquer maneira, acaso é tão diferente?
Sim, é totalmente diferente. Se tantos católicos que batizamos com o insultante, mas merecido título de “linha média”, vissem claramente como é e o porquê do rito da Nova Missa, certamente deixariam a indiferença sob a qual esconderam para juntarem-se ao clamor para que os altares das igrejas voltem a ser Calvários.
O livrinho sobre a Reforma que mencionamos, mostra compendiosamente qual é a teologia que anima a Nova Missa. O primeiro (satanico) princípio é que Deus, sendo imutável, não recebe danos pelos nossos pecados, de modo que não importa o quanto pecamos, não deixamos de ser filhos amados, e basta que nos arrependamos para que tudo seja esquecido, sem exigir de nós reparação ou satisfação alguma por danos e prejuízos.
É muito interessante. Imagine um banqueiro com capital infinito: basta que peçamos perdão e fiquemos com a coisa roubada, porque em suas contas nunca aparece a subtração. Este pequeno sofisma imediatamente remove a necessidade da Cruz – e também da própria Encarnação – porque o Verbo se fez homem e morreu por nós para reparar nossos pecados. O rito tradicional está profundamente marcado pela dívida da justiça que temos com Deus, é uma liturgia de “publicanos” sempre necessitados da redenção:
Ó Deus, tenha misericórdia de mim, porque sou pecador! “(Lc 18, 13).
O novo rito, por outro lado, removeu todas as expressões com finalidade propiciatória, considerando que os fiéis, depois de pedir o perdão inicial, já estão santificados, podendo fazer sua a oração do fariseu: “Ó Deus, dou-Lhe graças porque não sou como os demais homens!”  Ele que olha para o novo rito com medo de vê-lo mal, pode facilmente negar essa intenção, porque a liturgia não prega sua doutrina em linguagem científica senão encarnada em gestos e imagens. Mas vá para os livros dos teólogos que a fizeram e poderá comprovar com quantas advertências dirigiram essas mudanças.
Como a paixão e a morte de Cristo perdem o sentido se o pecado não exige reparação, se foi escondido sob o conceito de Páscoa ou “passagem”, ou seja, a morte não seria mais do que a passagem para a Ressurreição. A consequência litúrgica é que a Missa não é mais um rito sacrificial que renova o Calvário, mas um duplo banquete que antecipa o gozo  dos ressuscitados.
Às vezes nos custa aceitar que até haja sacerdotes que não reconheçam a enorme diferença que há entre o antigo rito sacrificial e o novo banquete. O rito tradicional tem uma parte preparatória ou ante-missa, que termina no Credo, e há três partes integrais: o oferecimento ou ofertório, a imolação pela dupla consagração e a comunhão com a Vítima Divina.
“Não é muito diferente o tratamento que Jesus Cristo sofreu em sua Via crucis com o que agora sofre com a comunhão na mão”
O novo rito, no entanto, desenvolve algo absolutamente diferente: consiste em duas partes paralelas, a liturgia ou a “mesa” da Palavra e a mesa da Eucaristia, da qual a primeira não é a menos importante. Isto já é uma novidade absoluta, como uma simples preparação pode substituir em importância o que era propriamente a Missa?
E as três partes da liturgia da Eucaristia já não são as de um sacrifício, mas uma refeição: apresentação dos alimentos, ação de graças e a refeição propriamente dita. O que tem de semelhante com o Santo Sacrifício da Missa? São somente os materiais de demolição. As “palavras da consagração” não são mais consideradas como tais, mas agora são apenas uma recordação dos gestos e palavras de Cristo, por cuja “memória” se faria objetivamente presente o Kyrios, o Senhor da glória com seus mistérios. É muito difícil para aqueles que foram formados na doutrina clássica entender essa nova linguagem – sabemos por experiência – e lhes custa acreditar que se pense o rito de forma tão diferente. É assim entre nós discutimos se remover o Mysterium Fidei da fórmula da consagração ou o tom narrativo invalida ou não a transubstanciação, mas para o novo rito esta discussão não tem sentido, porque para ele a presença de Cristo é efetivada por outro mecanismo: o poder evocativo do memorial. É difícil acreditar? Por exemplo: em Roma pôde ser considerada válida uma anáfora, a de Addai e Mari, sem as palavras da consagração. Evidentemente, sob o nome de Missa nova ou antiga estão sendo entendidas coisas muito, mas muito diferentes.
A nova teologia, que não é mais que um novo disfarce do camaleônico modernismo condenado por São Pio X, toma como instrumento o pensamento moderno, anti-realista e anti-metafísico, para reinterpretar a Revelação ao gosto do “homem de hoje”, uma criatura mitológica inventada pelos meios de comunicação. Assim, eles pretendem substituir a profunda teologia sacramental, levada tão alto por São Tomás e canonizada em muitos dos seus pontos pelo magistério da Igreja, com o confuso simbolismo dos pensadores modernos, que esvazia da realidade todos os mistérios e os deixa flutuando em uma esfera imaginária de puros conceitos. Para ela, não há apenas sete sinais sacramentais, mas tudo é “símbolo”: Cristo é sacramento, a Igreja é sacramento, a Escritura, a realidade, tudo o que percebemos se transforma em puro sinal de um mistério indefinível.
A realidade da transubstanciação, da união hipostática, do caráter sacerdotal, da graça santificante, tudo desaparece diante dessa maneira de pensar. E este é o pensamento que anima a Nova Missa. Cristo está presente na assembleia dos fiéis, na Sagrada Escritura, no ministro que presidente, no Pão Eucarístico, mas todas essas presenças se confundem em uma mesma, que resulta tão confusa e indefinível, que se desvanece: se Cristo está tanto no meio, no livro, no Padre, na Hóstia, se está em toda parte, não está em nenhuma! E os fiéis o encontram tanto nas igrejas como na rua.
A alma da Nova Missa é uma alma perversa. Os católicos que se esforçam em ver nela apenas os materiais de demolição, tentando reconstruir em sua cabeça a figura do rito tradicional, podem não percebê-la e atenuar os danos causados ​​por sua presença. Certamente não se trata de uma substância vivente e é necessário dar vida para uma certa compreensão do que seus ritos significam. Mas as formas sensíveis têm sua força e o homem não pode resistir por muito tempo a elas. Assim como não se pode frequentar as discotecas sem a erosão da honestidade, tampouco pode frequentar um rito modernista sem o desgaste da fé.
Isso é assim pelo menos para o mais comum dos mortais. E estamos olhando para um único lado da moeda, porque devemos ter em mente que os ritos tradicionais são “sacramentais”, isto é, são formas sensíveis com uma alma sagrada, que transmitem graças atuais quando recebidas com fé. Qualquer fiel católico pode unir-se à Missa ainda que à distância, mas se a Igreja mandou, sob pecado, que a cada domingo se assistida, é justamente pela eficácia santificadora de seus ritos, que predispõem a alma a unir-se mais eficazmente ao Santo Sacrifício. Por ter suprimido o rito tradicional, a fé dos católicos definha; por ter instalado um ritual modernista se propaga eficazmente – se torna mais um gesto do que um silogismo – um espírito carismático profundamente contrário ao catolicismo autêntico.
Não podemos ser indiferentes à Nova Missa, não podemos permitir que a Cruz de Cristo seja suprimida como se ninguém tivesse matado Nosso Senhor. Ratzinger disse que o “homem de hoje” não é capaz de compreender o sacrifício e deve-se falar em outra linguagem. É completamente falso. Um simples filme sobre a Paixão atraiu pessoas que já não vão mais à igreja, porque a única coisa que pode nos comover é o Sangue de Nosso Senhor.
Quando pensamos em tantos cristãos que estão de banquete perante o Calvário, parecemos sentir a queixa de Nosso Senhor:
Tornei-me um estranho para meus irmãos, um desconhecido para os filhos de minha mãe. Falam de mim os que se assentam às portas da cidade, escarnecem-me os que bebem vinho” (Salmo 68).
Sim, eles não sabem o que estão fazendo. Tampouco sabia a população manupilada pelos judeus na sexta-feira santa, mas não é muito diferente o tratamento que Jesus Cristo sofreu em sua Via Crucis daquele que agora sofre com a comunhão na mão. Católicos, assistir ao drama da paixão sem reação é pecado!
Não se pode assistir calado a uma Missa que pretende ignorar o Crucificado, que canta alegremente perante sua dor, que coloca as mãos não consagradas em tudo o que há de mais sagrado: sacerdote, altar, missal, sacrário e até o corpo divino…. tudo e por todos é manuseado. Quantos males cometeu o inimigo nos nossos altares! Mas não cessaremos de lutar até a abominação desoladora cessar nos lugares sagrados. 
Pe. Álvaro Calderón
 Tirado
Tirado da revista “Iesus Christus” nº 97, correspondente ao bimestre de janeiro / fevereiro de 2005.

4 comentários:

  1. Mas então o que devemos fazer? Ficar sem ir na missa? É muito triste isso...

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    1. Para aqueles que não têm Missas

      Garimpado na web, este texto traz consolo aos que se sentem ameaçados pela ausência da Missa e dos Sacramentos. São tempos confusos e de treva os que nós vivemos. Estamos no fim dos tempos? Não sei ao certo, nem creio que devamos nos preocupar com isso. Devemos, sim, obedecer a Nossa Senhora que, em Fátima, nos deu o remédio para nossos males: Sem Missa? Rezem o Rosário! Refugiem-se no Imaculado Coração de Maria!

      Para aqueles que não têm Missas


      Nossa angústia permanece por nossos filhos e amigos exilados de centros tradicionalistas nos quais a Missa tradicional é preservada; aqueles que são obrigados, por circunstâncias várias, a viver longe de padres tradicionalistas e de sacramentos; nossa angústia perene por milhões de fiéis católicos (ou já ex-católicos) que perderam há muitos anos o contato com ambientes de fé e sacramentos preservados, sobretudo pela observância tradicional, por padres formados como sempre o foram pela Igreja Católica, idêntica a si mesma pelos séculos afora, essa angústia que nos acompanha sempre, filhos enjeitados por hierarcas furiosamente obstinados contra nós, levou-nos à surpreendente observação relativa às palavras de Nossa Senhora em Fátima, como relata Irmã Lúcia, em entrevista, ao Padre Fuentes conforme relato publicado no “O Cruzado de Fátima” (versão em inglês) de Fevereiro/Abril de 1986:

      “Padre, a Santíssima Virgem não me disse que nós estamos nos últimos tempos do mundo, mas ela me fez entender isso por 3 razões:

      A primeira razão é que Ela me disse que o demônio está pronto para empenhar-se em uma batalha decisiva contra a Virgem. Uma batalha decisiva é a batalha final em que um dos lados será vitorioso, e o outro sofrerá uma derrota. Assim, desde já, devemos escolher nosso lado. Ou seremos a favor de Deus ou a favor do diabo. Não há outra possibilidade.

      A segunda razão é que Ela me disse, assim como a meus primos, que Deus está oferecendo dois últimos remédios ao mundo. Estes dois remédios são o Santo Rosário e a Devoção ao Imaculado Coração de Maria. Estes serão os dois últimos remédios, o que significa que não haverá outros.

      A terceira razão é que, nos planos da Divina Providência, Deus sempre exaure todos os remédios antes de castigar o mundo. Quando, porém, Ele vê que o mundo não lhes presta qualquer atenção, então... Ele nos oferece, com um “certo receio”, os últimos meios de salvação, isto é, Sua Santíssima Mãe. Ele o faz com um 'certo receio' porque se alguém despreza e repele estes últimos meios, não terá mais perdão dos Céus porque terá cometido um pecado que os Evangelhos chamam de pecado contra o Espírito Santo”.

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  2. Estas palavras foram transcritas em artigo publicado também pelo jornal “Catholic” editado em Victoria, Austrália, por alguém que adota o pseudônimo literário de “Charles Martel”. O autor do artigo, com muita propriedade, pergunta: “Porque Nossa Senhora oferece, como últimos meios de salvação, a si mesma e ao Santo Rosário, e não a Santa Missa?”. A Santa Missa que, acrescentamos nós, autores do porte de Garrigou-Lagrange e muitos outros mestres de espiritualidade nos apresentaram sempre como o centro de nosso dia-a-dia, principal instrumento de nossa santificação? A razão, prossegue aquele autor, parece ser a previsão de que o “Sacrifício Perpétuo” desapareceria, como parece ser o caso atualmente.

    Ele se refere às palavras proféticas de Daniel, que foram citadas por Nosso Senhor, Ele mesmo (Mateus 24, 15), e que podemos encontrar em Daniel 9,27: “... e, no meio da semana, fará cessar a hóstia e o sacrifício; e estará no templo da abominação da desolação; e a desolação durará até a consumação e o fim (do mundo)”. (O texto entre parêntesis é da Vulgata.) E também em Daniel 11,31: “... E estarão ao seu lado os braços que farão cessar o sacrifício perpétuo e porão no templo a abominação da desolação”.

    Ora, em nossos tempos, justamente, percebemos que o sacrifício perpétuo cessou. Não temos Missas. As missas progressistas, ainda que utilizem (nem sempre) textos que não podemos demonstrar serem geradores de Missas inválidas, são missas provavelmente inválidas por falta de intenção do sacerdote de fazer o que a Santa Igreja sempre fez e, além disso, constituem ocasião propícia à perda da Fé, como já assinalamos em artigo publicado em Permanência n. 136-137, em que Mons. Lefebvre formalmente desaconselha a assistência à missa nova, mesmo se o sacerdote parece sério, porque esta missa é sempre ocasião próxima e de alto risco de perda de Fé. Assim, hoje, para os que procuram defender a Fé, a Missa tradicional é algo extremamente raro (pelo menos em Países como o nosso), joia preciosa que buscamos com fervor quando podemos. Mas, ai de nós, para muitos de nós e de nossos filhos! Não podemos nada em muitos lugares onde vivemos exilados, privados de sacramentos, de Missa, de assistência eclesiástica, porque os padres e bispos progressistas, que julgam que não têm obrigações quanto à Fé porque estão — alegam — “unidos ao Papa”, estes nos execram e nos rejeitam sem piedade e sem remorso. E de quanta angústia se faz nosso dia-a-dia quando vemos os filhos e, sobretudo, os netos privados de formação religiosa adequada, sem ambiente religioso, sem Missa, sem sacramentos! Que Nosso Senhor nos valha.

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  3. E Ele, como vemos, com a ajuda dos que bem escrevem sobre o assunto, para nos socorrer, para nos consolar, previu, predisse, providenciou com antecedência o aviso prévio e o socorro prévio: nossos instrumentos de salvação para os últimos tempos serão a recitação do Santo Rosário (ou, pelo menos do Terço) e a devoção ao Imaculado Coração de Maria. Com estes instrumentos seremos santificados, com eles seremos salvos.

    E que não nos aflija a falta de Missa ou sacramentos ou formação religiosa: façamos o que pudermos com aquilo que nos foi dado, lembrando-nos de que é a Nossa Senhora que está confiada nossa assistência nesses tempos apocalípticos e que Ela, Mãe e Santificadora nossa, conhece nossas necessidades, e foi posta não apenas para socorrer-nos nas coisas fundamentais que dizem respeito à Fé, mas até mesmo nas pequenas necessidades de nossa vida quotidiana, como ficou bem claro na passagem das Bodas de Canaã. É a Ela que devemos recorrer, com Ela que devemos contar e nEla procurar socorro e instrumentos de salvação para aquilo que nos ameaça, para a crise de nossos tempos apocalípticos e para o abandono em que nos encontramos por parte de pastores e hierarcas que nos manifestam sua ojeriza bem claramente. Não nos pedirá Ela mais do que podemos fazer, e, ao contrário, nos dará muito mais do que podemos merecer.

    Que Nossa Senhora nos socorra. Imaculado Coração de Maria, sede a nossa salvação.

    Júlio Fleichman
    (Permanência, no. 258-259, Maio-Junho de 1990)

    Fonte: Permanência

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