domingo, 9 de setembro de 2012

O martírio da Alma sofrido por São Padre Pio





Abaixo está publicada a mais angustiante lamentação de Padre Pio, encontrada em uma carta enviada ao Padre Benedetto e ao Padre Agostino, comprovando o sofrimento espiritual que o dominava, associado ao temor de não cumprir plenamente a vontade de Deus.

San Giovanni Rotondo, 19 de junho de 1918.

Invoco a reunião de todos os poderes dispersos da alma, para expor, se for possível, nesta carta todo o martírio interior que sente a minha alma privada de seu Bem.

Ai de mim!... Ó céus!... Onde está a minha vida? O sol olha-me indiferentemente, de surpresa, prostra-me e me assusta; sem outro refúgio onde me ocultar, se fosse possível, de mim mesmo, peço instintivamente ao justo Senhor enraivecido comigo: gostaria de ocultar-me de todos, pois me parece que as próprias criaturas inanimadas leem em minha testa a minha condenação, a minha reprovação, a minha vista tão vergonhosa.

Ó céus!... Ó vida!... Que impressão dou?!... E não sabeis que sem vós não possuo existência, e não posso mais viver sem morrer?! Ó meu pai [1], só dominando a minha alma, fechando-a no silêncio a quem quer que seja, somente me ocultando das criaturas consigo de alguma maneira não ruminar sobre o meu martírio interno.

Abrindo o execrado livro, aparecendo diante das criaturas, vem à tona o eco dos agudos gritos da opressora necessidade de Deus e os clamores da insistente insônia e do jejum dEle.

Penso neste meu resvalar, sem querer, temo e tremo que os meus gritos e loucuras sejam prejuízo para a uniformidade requerida pelo divino querer e também para a obediência. É por isso que, não conseguindo deter a vertiginosa corrida que vai para onde eu não queria, a minha exposição redobra o martírio dos meus sofrimentos e das minhas necessidades.

Aborreço-me em tal trabalho e sou tentado a destruir este meu escrito, sem que chegue ao senhor [2] notícia alguma. A indignidade desta criatura, a sua dureza de cerviz, a rejeição que Deus lhe dirigiu não merecem nenhum socorro nem direção.

Tudo é devorado por uma força oculta que se consuma depois do instantâneo alívio, ou depois de simples e fugaz despertar; assim, a preciosidade do conselho e da direção dissipa-se com aumento do dano, pela prestação de contas que lhes pedirá o Senhor.

Ó meu pai [3], não abandone esta alma ingrata a seu Deus; não rejeite este cego que destruiu as santas alegrias por não se apascentar, não se alimentar a não ser do que era imundo! Ó Deus, coloquei-me a olhar isso e, diante de tal visão horrenda, tremo! Busco, meu pai [4], pelo fosco precipício no qual me vejo rolar, e, se alguma vez parece-me subi-lo, não sei, e não o encontro nem o subo, e os meus braços cansados recaem em abatimento, o vão agitar-se da alma na busca de seu bem, que tormento, que cruel martírio, que inferno é para a pobrezinha.

Onde devo encontrar o meu Deus? Onde pousar este pobre coração que sinto como se arrebentasse o peito? Busco-o com constância, mas não o encontro; bato no coração do divino prisioneiro e não me atende. O que é isso? A minha infidelidade tornou-o tão duro? Poderei esperar misericórdia e que ele, enfim, escute os meus clamores, ou devo renunciar a essa esperança? Ó Deus, que a minha horrorosa obstinação seja, enfim, suprimida. Meu bem! Que eu vos ame, enfim, com aquele amor que vós me pedis; que eu torne a vós, enfim, nesta trabalhosa e aflitiva busca.

Meu pai [5], nu e esquálido é o meu espírito; este coração é árido e seco para o seu Deus, aqueles não dão quase movimento para este que, de sua bondade, os criou. Não tenho mais fé: estou impotente para levantar-me nas felizes asas da esperança, virtude tão necessária para o abandono em Deus, quando o auge da tempestade se enfurece e a transbordante medida de minha miséria me comprime. Não tenho caridade. Ah! Amar ao meu Deus é consequência daquilo que é conhecimento pleno, na fé operante, e das promessas nas quais a alma mergulha, recriando-se, abandona-se e repousa ainda na doce esperança. Não tenho caridade pelo próximo, pois esta é consequência daquela; faltando a primeira, da qual o suco vital desce aos ramos, todo ramo perece.

Sim, sou privado de tudo, ó pai [6], até mesmo da larva da virtude, a ponto de parecer-me um estado de tepidez fatal, pelo qual justamente Deus vai cada vez mais me rejeitando de seu coração. Eu percebo que a minha ruína é irreparável, pois não vejo maneira de sair dela. Ai de mim! Perdi toda a estrada, todo o caminho, todo o apoio, toda a regra: e, se tento despertar a minha memória apagada, a misteriosa dispersão tem lugar, e me encontro mais perdido, mais impotente e mais obscuro do que antes, mais impotente para me levantar, e a misteriosa escuridão torna-se mais densa.

Meu Deus, por que se agita e se tortura, agita-se ainda mais uma vez e se transtorna com tal violência esta entristecida alma, esta alma já aniquilada e cujo aniquilamento diz-se movido, causado, querido por vosso comando e permissão?

Oh! Meu pai [7], o senhor que sabe dele, diga-me, peço-lhe, e não me reproche a minha dispersão, a minha ânsia, o meu errar em busca dele; não me reproche pela falta de abandono deste espírito, que clama o pouso mais cego e humilde no divino consentimento, diga-me, por caridade: onde está o meu Deus? Onde posso encontrá-lo? O que devo fazer para ir à busca dEle? Diga-me: encontrá-lo-ei? Diga-me: onde devo pousar este meu coração que está extremamente doente de morte e que, instintivamente, sinto sempre em uma contínua busca trabalhosa e penosa?

Ó Deus, ó Deus, dizer outra coisa não posso: por que me abandonastes? Este espírito, justamente percorrido pela vossa divina justiça, jaz em uma veemente contradição, sem nenhum recurso ou notícia, exceto pelos fugazes clarões, atos que aguçam a pena e o martírio. Sinto-me morrer, queimo de aridez, torno-me lânguido de fome, mas parece-me que a fome já vai se restringindo à ânsia de uniformidade aos divinos quereres, da maneira que ele quer.

Como, pois, se me sinto sempre tão agitado, tão irrequieto, torna-se para mim torturante a minha insônia e a falta de abandono, a tortura do abalo, a falta de entendimento para compreender tal querer divino? Nenhuma asseguração consegue insinuar-se no espírito cerrado, salvo o fulminante instante no qual passa e voa a notícia, para solicitar, pois, outra fome e sede e necessidade de Deus.

Mas fiat [8], eu repito sempre, e outra coisa não desejo além do cumprimento exato deste fiat, justamente da maneira que ele o requer generoso e forte. Oh!, pai [9], eu lhe peço o assíduo socorro da sua oração, pois me vejo a ponto de ser esmagado, sufocado e afogado sob tão dura prova. Vejo o inferno aberto sob os meus pés, ou melhor, já desci: estou a ponto de naufragar.

Apenas o temor de ofender a Deus novamente me faz estremecer, assunta e faz agonizar. Eu temo pelo meu coração, infelizmente ignorante do verdadeiro mal. A férrea intenção leva a obedecer às cegas; mas temo por alguma surpresa de meu coração, que não se deixe levar pela ignorância de minha vontade abatida; sofro, por isso, penas de morte na dúvida de transgredir ao comando da obediência e desagradar, minimamente, ao meu Deus.

Meu Deus! Até quando deverei permanecer nesta época sanguinolenta? O meu estado é simplesmente desesperador: o homem animal se manifesta em toda a sua realidade abominável: sinto compaixão de minha excessiva miséria.

Meu pai [10], quando acabará essa atroz carnificina? Parece-me que foi retirada toda a beleza da graça da alma; sem esse ornamento tão necessário, apenas com a própria capacidade, aproxima-se do nível dos brutos.

Tal conhecimento apresenta-se para mim ao vivo, com todo o aparato das tendências e atentados.

Meu Deus, dai-me as penas e a força para saber sofrer, e sofrer com amor, para a punição das minhas culpa. E aqui, pai, parece-me faltar a contrição. O homem velho reina soberbo e não cede nem quer cair; nenhum esforço parece-me suficiente para dominar esta soberba que resiste até parecer-me que venceu.

Eu me reconheço em tal ruína e choro, sem encontrar energia suficiente para humilhar tanta arrogância. A vontade está em seu pleno desgosto e não sabe ou não quer dar força ao espírito para pronunciar, como se deve, o fiat do rejeitado.

O que é tudo isso? Sinto-me esmagado moral e fisicamente; e parece-me não percebê-lo em todo o seu aparato aterrorizante na explicação do meu ministério.

Tão maltratado, assediado, tedioso, suspirando me aproximo do altar com desgosto e repugnância pela veemência que me acompanha – monstruosidade e feiura. O que acontece naquele horrível entretempo que estou no altar não consigo dizer, pois a alma o sente sem percebê-lo.

Como? Não pode estar aqui um beijo sacrílego, quando a vida sente-se suspirosa e sangrenta, e a essência vital dá indício da verdadeira condenação? Na maioria das vezes, não saberia dizer-lhe se estou longe ou não da nobreza do ato; a apatia parece acompanhar-me antes e alegrar-me depois.

Ó Deus! Se eu tivesse pensado nisso naquele instante, a vida cederia. Um só sinal bastou em outros tempos para me fazer curvar-me sobre o altar. O sono letárgico, que se formava na impotência completa, era sempre muito atormentado e quase sempre seguido pela impetuosidade dos esforços, pela completa ligação entre os sentidos internos e externos do corpo.

Temo enganar-me, manifestando por verdade aquilo que poderia não ser. Meu pai [11], confio no senhor, para que a minha alma não se alimente de verdadeiras ilusões.

Termino, mas com tanta pena e remorso!... é bom que se cale o ínfimo, o degradante, o desprezível, e eu devo me calar. Para que tantas reclamações, se a justiça de Deus, que é justa, santa e bem apropriada, me atingiu?

Frei Pio, capuchinho.


_________
Nota

[1] “meu pai” refere-se, aqui, ao seu diretor espiritual, Padre Agostino ou Padre Benedetto.
[2] “senhor”, ibidem.
[3] Idem 1.
[4] Ibidem.
[5] Ibidem.
[6] Ibidem.
[7] Ibidem.
[8] No português: faça-se.
[9] Idem 1.
[10] Ibidem.
[11] Ibidem.


Acesse o Artigo Original: http://blog.christifidei.com/2012/08/o-martirio-da-alma-sofrido-por-padre-pio.html#ixzz25HXIUkwR

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