sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Grandeza do nome de “AMIGOS DA CRUZ”

A) Este nome é grande e glorioso
[3] Chamai-vos Amigos da Cruz. Como é grande esse nome! Confesso-vos que ele me encanta e deslumbra. É mais brilhante que o sol, mais elevado que os céus, mais glorioso e mais pomposo que os títulos mais magníficos dos reis e dos imperadores. É o grande nome de Jesus Cristo, a um tempo verdadeiro Deus e verdadeiro homem; é o nome inequívoco de um cristão.
B) Mas quantas obrigações encerra!
[4] Entretanto, se seu brilho me encata, seu peso não me espanta menos. Quantas obrigações indispensáveis e difíceis contidas neste nome e expressas por estras palavras do Espírito Santo; “Genus electum, regale sacerdotium, gens sancta, populus acquisitionis (4)”!
Um amigo da Cruz é um homem escolhido por Deus, entre dez mil que vivem segundo os sentimentos e a razão, para ser unicamente um homem todo divino e elevado acima da razão, e todo em oposição aos sentimentos, por uma vida e uma luz de pura fé e por um amor ardente pela Cruz.Um Amigo da Cruz é um rei todo poderoso e um herói triunfante do demônio, do mundo e da carne em suas três concupiscências. Pelo amor às humilhações, esmaga o orgulho de Satanás; pelo amor à pobreza, triunfa da avareza do mundo; pelo amor à dor, amortece a sensualidade da carne.
Um Amigo da Cruz é um homem santo e separado de todo o visível, cujo coração está acima de tudo quanto é caduco e perecível, e cuja conversa está no Céu (5); que passa pela terra como estrangeiro e peregrino; e que, sem lhe dar o coração, a contempla com o olho esquerdo com indiferença, calculando-a com desprezo  aos pés (6).
Um Amigo da Cruz é uma ilustre conquista de Jesus Cristo crucificado no Calvário, em união com sua Santa Mãe; é um Benoni ou um Benjamin, filho da dor e da dextra (7), gerando em seu dolorido coração, vindo ao mundo por seu lado direito atravessado e coberto da púrpura de seu sangue. Dada a sua extração sangrenta, só respira cruz, sangue e morte ao mundo, à carne e ao pecado, para estar totalmente oculto, aqui na terra, com Jesus Cristo em Deus (8).
Enfim, um perfeito Amigo da Cruz é um verdadeiro porta-Cristo, ou antes, um Jesus Cristo, de maneira que possa, em verdade, dizer: “Vivo, jam no ego, vivit vero in me Christus: vivo, mas não eu, é Jesus Cristo que vive em mim”(9)
Exame de consciência sobre essas obrigações.
[5] Sois, por vossas ações, meus queridos Amigos da Cruz, aquilo que vosso grande nome significa? Ou pelo menos, tendes verdadeiro desejo e vontade verdadeira de assim vos tornades, com a graça de Deus, à sombra da Cruz do Cálvário e de Nossa Senhora da Piedade? Entrastes no verdadeiro caminho da vida (10), que é o caminho estreito e espinhoso do Calvário? Não estareis, sem o pensar, no caminho da perdição? Sabeis bem que há um caminho que parece ao homem reto e seguro, e que conduz à morte?
[6] Distinguís bem a voz de Deus e de sua graça da voz do mundo e da natureza? Ouvís bem a voz de Deus, nosso Pai, que, depois de ter dado sua tríplece maldição a todos os que seguem as concupiscências do mundo: vae, vae, vae habitantibus in terra (11), grita-vos amorosamente, estendendo-vos os braços: “Separamini, popule meus”(12). Separai-vos, meu povo escolhido, queridos Amigos da Cruz de meu Filho; separai-vos dos mundanos, malditos por minha Majestade, excomungados por meu Filho (13) e condenados pelo meu Espírito Santo (14). Tomai cuidado para não vos sentardes em sua cadeira toda empestada, não sigais os seus conselhos, nem mesmo pareis em seu caminho (15). Fugi do meio da grande e infame Babilônia (16); não escuteis outra voz e não sigais outras pegadas que não as de meu Filho bem amado, que vos dei para que fosse vosso caminho, vossa verdade, vossa vida (17) e vosso modelo: “Ipsum audite”(18).
Ouvís o amável Jesus, que, carregando sua Cruz, vos grita: “Venite post me: vinde após mim; o que me segue não anda em trevas (19); confidite, ego vici mundum, tende confiança, eu venci o mundo (20)”?
Carta aos Amigos da Cruz – São Luiz de Montfort
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(4) Sois uma raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, um povo que Deus formou”(I Pedro, 2-9). Estas palavras inspiradas, que caracterizam o povo cristão em sua sublime vocação, Montfort as aplica especialmente a essa elite que seus discípulos devem constituir. “Na literatura espiritual poucas páginas tem tanto brilho quanto aquela em que ele se esforça para definir o que é um Amigo da Cruz”. (Mons. Villepelet, bispo de Nantes”. “Carta de Quaresma”, 1942).
(5) Fil., 3, 20.
(6) Montfort, tal como São Francisco de Assis, tinha um coração apaixonado pela beleza e, em sua gruta de Mervent, cantou deliciosamente a natureza. Não prende, porém, a ela a sua alma: ama-a tão somente na medida em que ela o eleva a una a Deus.
(7) Aplicação de dois nomes dados ao último filho do Patriarca: um por sua mãe Raquel, outro por seu pai Jacó (Gen., 35, 18).
(8) Estais mortos, com efeito, e vossa vida é toda oculta em Deus com Jesus Cristo (Col., 3, 3).
(9) Gal., 2,20.
(10) Prov., 6, 23, 10, 17, 15, 10; Jer., 21, 8.
(11) Maldição, maldição, maldição aos habitantes da terra… (Apoc., 8, 13).
(12) Is., 48, 20; 52, 51; Jer., 50, 8; 51, 6, 9, 45; Apoc., 48, 4.
(13) “Não peço pelo mundo..” (Jo., 17-9)
(14) Ele convencerá o mundo do pecado, da justiça e do julgamento (Jo., 16, 8-12).
(15) Comparai o Salmo 1, 1: “Feliz o homem que não anda segundo o conselho dos maus e que não permanece no caminho dos pecadores, nem se senta nunca no lugar de corrupção”.
(16) Is., 48, 20; Jer., 51, 6.
(17) Jo., 14,6.
(18) Mat., 17, 5; Luc., 9,35; Mrc., 9, 6; II Ped., I, 17.
(19) Jo., 8, 12.
(20) Jo., 16, 33.
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