terça-feira, 4 de agosto de 2015

Se te fadigastes a correr, como queres competir com os cavalos? - São João da Cruz

"Os trabalhos pelos quais são provados os que hão de chegar a este estado, são de três espécies; trabalhos e desconsolos, temores e tentações que lhe vêm do século, por vários modos; tentações, securas e aflições, que procedem do sentido; tribulações, trevas, angústias, desamparos, tentações, e outros sofrimentos provenientes do espírito. Todos eles servem de meio para a purificação da alma segundo as duas partes, a espiritual e a sensitiva.

    E necessários são tais trabalhos porque assim como um licor muito fino exige um recipiente forte, preparado e purificado, assim também esta altíssima união só pode ser dada a uma alma já fortalecida com trabalhos e tentações, e purifica da por meio de tribulações, trevas e angústias; destes trabalhos, uns purificam e fortalecem o sentido, e outros afinam, purificam e dispõem o espírito. Para se unirem a Deus na glória, passam na outra vida pelas penas do fogo os espíritos que estão ainda impuros; de modo semelhante, para alcançarem aqui na terra a união perfeita hão de passar pelo fogo destas penas que descrevemos, o qual obra mais fortemente em alguns, e menos em outros; naqueles, por largo tempo, nestes mais brevemente, segundo o grau de união a que Deus os quer elevar e conforme o que há neles a ser purificado.
    Por meio destes trabalhos com que Deus prova o espírito e o sentido, vai a alma cobrando virtudes, força e perfeição, com amargura; pois a virtude se aperfeiçoa na fraqueza (2 Cor 12, 9), e no exercício de sofrimentos vai sendo lavrada.
    Com efeito, na inteligência do artífice não pode o ferro servir e tomar alguma forma, a não ser por meio do fogo e do martelo, conforme diz o profeta Jeremias a respeito daquele fogo cujo meio Deus lhe deu inteligência: «Enviou do alto fogo nos meus ossos e ensinou-me» (Lam 1, 13). E do martelo, também fala o mesmo Jeremias: «Castigaste-me, Senhor, e fui ensinado» (Jer 31, 18). Por isto declara o Eclesiástico: «Que sabe aquele que não foi tentado? E o que não tem de experiência poucas coisas conhece» (Ecli 34, 9. 10). 27.
    Aqui nos convém notar a causa pela qual há tão poucos que cheguem a tão alto estado de perfeição na sua união com Deus. Não é porque Ele queira seja diminuto o número destes espíritos elevados, antes quereria fossem todos perfeitos; mas acha poucos vasos capazes de tão alta e sublime obra. Provando-os em coisas pequenas, mostram-se tão fracos que logo fogem do trabalho, e não querem sujeitar-se ao menor desconsolo e mortificação; em conseqüência, não os achando fortes e fiéis naquele pouquinho com que lhes fazia mercê de começar a desbastá-los e lavrá-los, vê claramente como o serão ainda menos em coisa maior. Não vai, pois, adiante em os purificar e levantar do pó da terra pelo trabalho da mortificação para a qual seria mister maior constância e fortaleza do que mostram.
   E assim há muitos que desejam passar adiante e mui continuamente pedem a Deus os traga e conduza a esse estado de perfeição; mas quando Deus quer começar a levá-los pelos primeiros trabalhos e mortificações conforme para isso é necessário, não aceitam sofrê-lo , e furtam o corpo, fugindo do caminho estreito da vida, para, buscarem a via larga e seu próprio consolo, que os leva a perdição. Procedendo deste modo, não dão ensejo a Deus para conceder-lhes o que pedem, mal o começa a dar. Quedam-se como vasos inúteis; pois, querendo alcançar o estado dos perfeitos, não somente não quiseram ser levados pelo caminho dos trabalhos que conduz a essa perfeição, mas nem sequer consentiram em começar a entrar pelo sofrimento de trabalhos menores, a saber, as pequenas provações que ordinariamente todos padecem. A estes tais se pode responder com as palavras de Jeremias: «Se te fatigaste em seguir, correndo, os que iam a pé, como poderás competir com os que vão a cavalo? E se não estiveste em sossego numa terra de paz, que farás no meio da soberba do Jordão?» (Jer 12, 5). E o mesmo que dizer: Se com os trabalhos que na via comum sucedem, ordinária e humanamente, a todos os que andam nesta terra, custavas tanto a aguentar, por causa do teu passo diminuto, que imaginavas correr, como poderás igualar ao passo do cavalo, isto é sofrer trabalhos acima dos ordinários e comuns, para os quais se requer mais força e ligeireza do que a do homem?
   Se não quiseste abandonar a paz e o gosto de tua terra, que é a tua sensualidade, e te recusaste a fazer-lhe guerra ,ou contradize-la em alguma coisa, não entendo como queres entrar pelas águas impetuosas das tribulações e trabalhos do espírito, que são mais profundas.
    Oh almas desejosas de andar seguras e consoladas nas coisas do espírito! Se soubésseis quanto vos convem padecer sofrendo, para alcançar esta segurança e consolo! E como sem isto é impossível chegar ao que a alma deseja, antes ao contrário, é voltar atrás, jamais buscaríeis consolo de modo algum, nem em Deus, nem nas criaturas."


Trecho do Livro: Cântico Espiritual, Chama Viva de Amor de São João da Cruz.

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