terça-feira, 1 de setembro de 2015

Como se deve dirigir a Deus - São João da Cruz


"Quanto mais as almas confiam nessas vãs cerimônias, tanto menos confiança põem em Deus, e não alcançarão dEle o que desejam. Há alguns que oram mais pelas suas pretensões pessoais do que para honrar a Deus; e, embora persuadidos de estar a realização de suas petições sempre subordinada à vontade divina, o espírito de propriedade e o gozo vão que os animam levam-nos a multiplicar as preces para obter o efeito dos pedidos. Fariam melhor dando outro fim às suas súplicas, ocupando-se em coisas mais importantes como em purificar deveras a consciência, e ocupar-se, de fato, no negócio de sua salvação eterna. Todas as outras diligências, fora destas, devem ser relegadas a segundo plano. Obtendo de Deus o que é mais essencial, obtém-se igualmente todo o resto, desde que seja para o maior bem da alma, mais depressa e de modo muito melhor do que se fosse empregada roda a fôrça para alcançar essas graças. Assim prometeu o Senhor dizendo pelo Evangelista: «Buscai, pois, primeiramente o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas se vos acrescentarão» (Mt 6, 33).

   Esta é aos olhos divinos a prece mais perfeita; e para satisfazer as petições íntimas do coração, não há melhor meio do que pôr a fôrça de nossas orações naquilo que mais agrada a Deus. Então, não somente o Senhor nos dará o que lhe pedimos, isto é, as graças necessárias a nossa salvação, mas ainda nos concederá os bens que julgar mais convenientes e melhores às nossas almas, ainda mesmo quando omitimos de lhos solicitar. David no-lo faz compreender em um salmo: «Perto está o Senhor de todos os que o invocam; de todos os que o invocam em verdade» (SI 144, 18). Ora, os que O invocam em verdade são precisamente esses que pedem os dons mais elevados ou, em outras palavras, as graças da salvação. Referindo-se a estas, o mesmo David acrescenta: «Ele cumprirá a vontade dos que o temem, e atenderá à sua oração, e os salvará. O Senhor guardará a todos os que o amam» (SI 144, 19-20). Esta expressão - Perto está o Senhor - significa a sua disposição em ouvir as súplicas e satisfazer naquilo mesmo que nem pensaram em pedir. Lemos a respeito de Salomão, que tendo solicitado uma graça muito do agrado do Senhor, isto é, a sabedoria para governar seu povo seguindo as leis da equidade, ouviu esta resposta: «Pois que a sabedoria agradou mais ao teu coração, e não me pediste riquezas, nem bens, nem glória, nem a morte dos teus inimigos, e nem ainda muitos dias de vida; pois me pediste sabedoria e ciência, para poderes governar o meu povo, sobre o qual eu te constituí rei; a sabedoria e a ciência te são dadas· e de mais te darei riquezas e bens e glória, de modo que nenhum rei, nem antes de ti, nem depois de ti, te seja semelhante» (2 Par 1, 11-12). Deus, fiel a sua promessa, fez com que os inimigos de Salomão lhe pagassem tributo, e todos os povos vizinhos vivessem em paz com ele. Semelhante fato lemos no Gênesis. Abraão pedira a Deus para multiplicar a posteridade de Isaac, seu legítimo filho. Essa prece foi ouvida pelo Senhor, que prometeu realizá-Ia, dando a Isaac uma geração tão numerosa quanto as estrelas do firmamento. E acrescentou: «E quanto ao filho da tua escrava, eu o farei também pai de um grande povo, por ser teu sangue» (Gn 21, 13).
   Deste modo, pois, as almas devem dirigir para Deus as forças e o gozo da vontade nas suas orações, não. se apoiando em invenções de cerimônias que a Igreja Católica desaprova e das quais não usa. Deixem o sacerdote celebrar a Santa Missa do modo e maneira conveniente, segundo a Liturgia determinada pela Igreja. Não queiram usar de novidades, como se tivessem mais luz do que o Espírito Santo e a sua Igreja. Se não são atendidas por Deus numa forma simples de oração, creiam que muito menos as ouvirá o Senhor por meio de todas as suas múltiplas invenções. De tal modo é a condição de Deus, que, se O sabem levar bem e a seu modo, alcançarão dEle quanto quiserem; mas se as almas O invocam por interesse, de nada adianta falar-lhe.
   Quanto às outras cerimônias de várias orações e devoções ou práticas de piedade, não se deve aplicar a vontade em modos e ritos diferentes dos ensinados por Cristo. Quando os discípulos suplicaram ao Senhor que lhes ensinasse a rezar, Ele que tão perfeitamente conhecia a vontade do Pai Eterno sem a menor dúvida, lhes indicou todo o necessário para o mesmo Pai nos ouvir. Para isto contentou-se em ensinar-Ihes as sete petições do Pater Noster, onde estão incluídas todas as nossas necessidades espirituais e temporais. Não acrescentou a essa instrução outras fórmulas ou cerimonias, longe disso, em outra circunstância, ensinou-Ihes o seguinte: «Quando orassem, não fizessem questão de muitas palavras, porque o Pai Celeste bem sabia tudo quanto convinha a seus filhos» (Mt 6, 7-8). Só lhes recomendou com insistência, que perseverassem na oração, isto é, nessa mesma oração do Pater Noster. E noutra passagem, diz: «É preciso orar sempre, e não cessar de o fazer» (Lc 18, 1). Mas não ensinou grande variedade de petições, senão que repetissem muitas vezes com fervor e cuidado aquelas da oração dominical que encerram tudo o que é a vontade de Deus, e conseqüentemente tudo o que nos convém. Quando no horto de Getsêmani, Nosso Senhor recorreu por três vezes ao Pai Eterno, repetiu de cada vez as mesmas palavras, como. referem os Evangelistas: «Pai meu, se é; possível, passe de mim este cálice; todavia, não se faça nisto a minha vontade, mas sim a tua» (Mt 26, 39). Quanto às cerimônias que nos ensinou para a oração, são apenas de dois modos: seja no segredo de nosso aposento, onde, afastados do tumulto e de qualquer olhar humano, podemos orar com o coração mais puro e desprendido, conforme aquelas palavras do Evangelho: «Mas tu quando orares, entra no teu aposento e, fechada a porta, ora a teu Pai em secreto» (Mt 6, 6) seja, então, nos retirando a orar nos desertos solitários, como Ele próprio fazia nas horas melhores e mais silenciosas da noite, esta forma, não será preciso assinalar tempo limitado às ossas orações, nem dias marcados, preferindo uns aos outros, para nossos exercícios devotos; não haverá também rapara usar de modos singulares expressões estranhas, em suas preces. Sigamos em tudo a orientação da Igreja, confiando-nos ao que ela usa; porque todas as orações se reunem nas mencionadas petições do Pater Noster.
   Não quero condenar algumas pessoas que escolhem certos dias para as suas devoções, ou para jejuar e fazer outras coisas semelhantes; pelo contrário, antes aprovo essas práticas devotas. Merece repreensão somente o modo e as cerimônias com que as fazem, pondo limites e formalidades nessas devoções. Foi isto que reprovou Judite aos habitantes de Betúlia, quando os censurou por terem fixado a Deus o tempo em que esperavam receber o efeito da sua misericórdia; e assim lhes disse: «E quem sois vós para limitar o tempo da misericórdia de Deus? Não é esse o meio de atrair a sua misericórdia, mas antes de excitar a sua cólera» (Jdt 8, 11-12)."

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