quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Maria também é Mãe dos pecadores arrependidos

Condições para o amor de Maria aos pecadores



Maria garantiu a S. Brígida que é Mãe não só dos justos e inocentes, mas também dos pecadores que se querem emendar. Se, desejoso de emenda, recorre um pecador a esta Mãe de Misericórdia, oh! como a encontra pronta para abraçar e socorrer, ainda mais do que se fosse sua mãe corporal. Era justamente o que o Papa Gregório VII escrevia à princesa Matilde: Desiste da vontade de pecar e acharás Maria, eu o garanto, mais pronta em ama-te do que tua própria mãe. Portanto, quem aspira a ser filho desta grande Mãe, é preciso que primeiro deixe o pecado, e depois será sem dúvida aceito por filho. Lemos nos livros Sagrados: Levantaram-se seus filhos e aclamaram-na ditosa (Pr 31,28).  
Refletindo Ricardo sobre estas palavras, nota que nelas primeiro se diz levantaram-se, e depois filhos. E isso porque, diz ele, não pode ser filho de Maria quem não procura primeiro levantar-se da culpa em que está caído. Quem procede de modo contrário ao de Maria diz por seus atos que não quer ser seu filho, observa S. Pedro Crisólogo. Maria é humilde, e ele quer ser soberbo? Maria pura, e ele desonesto? Maria cheia de amor, e ele cheio de ódio para com o próximo? Isto é sinal de que nem é nem deseja ser um filho desta santa Mãe. Os filhos de Maria, escreve Ricardo, imitam-lhe a pureza, a humildade, a mansidão, a misericórdia. Mas como ousará chamar-lhe filho de Maria quem tanto a desgosta com a sua má vida? Certo pecador disse um dia a Maria: Mostra que és minha Mãe! E a virgem lhe respondeu: Mostra que és meu filho! Um outro, invocando-a, chamava-lhe Mãe de Misericórdia. Mas ela lhe disse: Vós, os pecadores, quando quereis que vos ajude, me chamais Mãe de Misericórdia; e depois por vossos pecados não cessais de me fazer Mãe de misérias e de dores. É amaldiçoado de Deus o que aflige sua mãe, diz o Espírito Santo (Eclo 3, 18). Sua mãe, isto é, Maria, comenta Ricardo. Deus amaldiçoa quem com sua má vida e ainda mais com sua obstinação aflige essa boa Mãe. Digo com sua obstinação. Pois, quando o pecador, embora ainda em pecados, se esforça por abandoná-los e para isso procura o socorro de Maria, esta Mãe não deixará de o socorrer e de fazê-lo voltar à graça de Deus. Assim, um dia o ouvia S. Brígida da boca de Jesus Cristo, que, falando com sua Santíssima Mãe, lhe disse: Ajudas aquele que procura converter-se e a ninguém deixas retirar-se sem consolo. Enquanto, pois, o pecador está obstinado, Maria não pode amar. Mas se ele, achando-se nas cadeias de alguma paixão que o faz escravo do inferno, ao menos se encomendar à Virgem e lhe pedir, com perseverança e confiança, que o ajude a sair do pecado, sem dúvida esta boa Mãe lhe estenderá a sua poderosa mão, quebrará suas cadeias, conduzi-lo-á pelas veredas da salvação. Afirmar que todas as obras feitas por quem está em pecado são pecados, é heresia já condenada pelo Concílio de Trento. Disse S. Bernardo que a oração na boca do pecador, ainda que não seja especiosa, porque lhe falta a companhia da caridade, contudo é útil e frutuosa para tirá- lo do pecado. Porque, como ensina S. Tomás, a oração do pecador na verdade não tem merecimento, mas é muito apta para impetrar a graça do perdão. Funda-se esta sua força não tanto no merecimento daquele que ora, mas na bondade divina e nos méritos e promessas de Jesus Cristo, que disse: Todo aquele que pede recebe (Lc 11,10). O mesmo se deve dizer das preces dirigidas à Mãe de Deus. Se aqueles que oram, diz Eádmero, não merecem ser ouvidos, farão que o sejam. Exorta por isso S. Bernardo todo pecador a invocar a Santíssima Virgem e a ter confiança na sua intercessão. Pois, continua o santo, se o pecador desmerece ser atendido, os merecimentos de Maria, a quem ele se encomenda, lhe conseguem que seja ouvido.


  • Efeitos do amor de Maria para com os pecadores



Suponhamos que uma mãe soubesse que dois filhos seus eram inimigos mortais, intentando um tirar a vida do outro. Em tal conjuntura não seria dever de uma boa mãe procurar encarecidamente como pacificá-los? Assim pergunta Conrado de Saxônia. Ora, Maria é Mãe de Jesus e Mãe dos homens. Aflige-se quando vê um pecador inimizado com Jesus e tudo faz por reconciliá-lo com seu divino Filho. Do pecador só exige a benigníssima Rainha que se recomende a ela e tenha o propósito de emendar-se. Em o vendo a seus pés a implorar-lhe perdão, não olha para o peso de seus pecados, mas para a intenção com que se apresenta. Se esta é boa, mesmo que o pobre haja cometido todos os pecados do mundo, abraça-o e como terna Mãe não desdenha cura-lhe as chagas que na alma traz. Pois é Mãe de Misericórdia, não só de nome, senão de fato, e em verdade tal se mostra pela ternura e pelo amor com que nos socorre. A própria Virgem Santíssima assim o revelou a S. Brígida. “Por mais culpado que seja um homem, disse-lhe, se vem a mim com sincero arrependimento, estou sempre pronta a acolhê-lo. Não considero a enormidade de suas faltas, mas tão somente as disposições do seu coração. Não recuso ungir e curar as suas feridas, porque me chamo e realmente sou Mãe de Misericórdia”. É Maria a Mãe dos pecadores que se querem converter. Como tal não pode deixar de compadecer-se deles. Parece até que sente como próprios os males de seus pobres filhos. A cananeia, ao pedir que o Senhor lhe livrasse a filha do demônio que a atormentava, disse-lhe: Senhor, filho de Davi, tem compaixão de mim; minha filha está muito atormentada do demônio (MT 15, 22). Mas se a filha, e não a mãe, era atormentada do demônio, parece que havia de dizer: Senhor, tem piedade de minha filha! Mas não; ela disse: tem compaixão de mim e com muita razão. Pois sentem as mães como próprios os sofrimentos dos filhos. Ora, do mesmo modo, disse Ricardo de S. Lourenço, pede Maria a Deus, quando intercede por qualquer pecador que a ela recorre. Pede-lhe que dela se compadeça. Meu Senhor — parece dizer-lhe — esta pobre alma, que está em pecado, é minha alma; por isso compadecei-vos não tanto dela, como de mim que sou sua mãe. Oh! prouvesse a Deus que todos os pecadores recorressem a esta doce Mãe, porque todos certamente receberiam do Senhor o perdão! — Ó Maria, exclama admirado Conrado de Saxônia, tu acolhes maternamente o pecador desprezado por todo mundo, nem o abandonas antes que o hajas reconciliado com o juiz. Quer ele dizer: Enquanto o pecador perseverar no seu pecado, é aborrecido e desprezado de todos; até as criaturas insensíveis, o fogo, o ar, a terra, quereriam castigá-lo em desafronta à honra do seu Criador ultrajado. Porém, se este pecador miserável recorrer a Maria, expulsa-o Maria? Não; se vem com intenção de que o ajude afim de emendar-se, ela o acolhe com maternal afeto. Não o deixa, sem primeiro, com a sua poderosa intercessão, reconciliá- lo com Deus e o reconduzir à sua graça. No Segundo Livro dos Reis (14,5) lemos o que se deu com a sábia mulher de Técua. Disse ela a Davi: “Senhor, tinha tua serva dois filhos; para minha desventura um matou o outro; e assim perdi um filho. Quer agora a justiça tirar-me o outro, que é o único que me fica. Tem compaixão desta pobre mãe e não permitas que eu perca ambos os filhos”. Então Davi, compadecendo-se da mãe, libertou o delinquente e lho entregou. — O mesmo parece que diz Maria, quando vê a Deus irado com algum pecador que a ela recorre. “Meu Deus, lhe diz, eu tinha dois filhos, Jesus e o homem; o homem matou na cruz o meu Jesus; agora a vossa justiça quer condenar o homem. Senhor, já morreu o meu Jesus; tende compaixão de mim. Se eu perdi um, não me façais perder também o outro filho”. Certamente Deus não condena os pecadores que recorrem a Maria e por quem ela intercede. Pois o próprio Deus recomendou os pecadores por filhos de Maria. O devoto Landspérgio põe as seguintes palavras nos lábios do Senhor: “Eu recomendei a Maria de aceitar por filhos os pecadores. Por isso ela é toda desvelos para que, no desempenho de sua missão, não lhe aconteça perder a nenhum dos que lhe foram entregues, principalmente quando a invocam. E assim esforça-se o quanto pode em conduzir todos eles a mim”. Quem pode explicar, interroga Blósio, a bondade e misericórdia, a fidelidade e a caridade com que esta nossa Mãe procura salvar-nos, quando lhe pedimos que nos ajude? Prostremo-nos, pois, diz S. Bernardo, diante desta boa Mãe; abracemo-nos a seus sagrados pés e não a deixemos sem nos abençoar e sem nos receber por filhos seus. Nela esperarei, exclama S. Boaventura, ainda que me dê a morte; e cheio de confiança desejo morrer perante uma de suas imagens, e salvo estarei. Portanto, assim devem dizer todos os pecadores, que recorrem a esta piedosa Mãe: Minha Senhora e minha Mãe, por minhas culpas mereço ser repelido, e castigado por vós na proporção delas. Mas, ainda que me rejeites e me tireis a vida não perderei nunca a confiança, e se tiver a felicidade de morrer na presença de qualquer imagem vossa, recomendando-me à vossa misericórdia, espero certamente que não me hei de perder, mas hei de louvar-vos no céu em companhia de tantos que vos serviram e morreram invocando vossa poderosa intercessão. Leia-se o exemplo seguinte e veja-se que nenhum pecador deve desconfiar da misericórdia e amor desta boa Mãe, se a ela recorrer. 

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