sábado, 21 de setembro de 2019

Quem fala mal a um pobre injuria a Cristo



Francisco, pobrezinho e pai dos pobres, queria viver em tudo como pobre; sofria quando encontrava alguém mais pobre que ele, não por vaidade mas por causa da terna compaixão que os pobres lhe causavam. Só queria uma túnica de tecido grosseiro e muito comum; ainda assim acontecia-lhe bastantes vezes partilhá-la com algum infeliz. 

No entanto, era um pobre muito rico pois, movido pela sua grande caridade a socorrer os pobres sempre que podia, quando estava muito frio, ia ter com os ricos deste mundo e pedia-lhes que lhe emprestassem um sobretudo ou um casaco. Traziam-lhos mais depressa do que a pressa que ele se tinha dado em fazer o pedido. Ele então dizia: «Aceito com a condição de não esperarem que vo-los devolva.» E, com o coração em festa, Francisco oferecia o que acabava de receber ao primeiro pobre que encontrava. 

Nada lhe causava mais pena do que ver insultar um pobre ou que dissessem mal de qualquer criatura. Um dia, um irmão deixou escapar umas palavras que magoaram um pobre que pedia esmola: «Não serás por acaso um rico a fingir de pobre?» Estas palavras caíram muito mal a Francisco, o pai dos pobres, que infligiu ao delinquente uma terrível reprimenda e lhe ordenou que se despojasse das suas vestes na presença do pobre e lhe beijasse os pés, pedindo-lhe perdão. «Quem fala mal a um pobre, dizia, injuria a Cristo, de quem o pobre é o mais nobre símbolo neste mundo, uma vez que Cristo por nós Se fez pobre neste mundo» (cf 2Cor 8,9).

Tomás de Celano, biógrafo de S. Francisco in 'Vita prima' de S. Francisco, §76 

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Frei Junípero e a capacidade de suportar as críticas e a maldicência



Frei Junípero, um dos primeiros discípulos e companheiros de São Francisco de Assis, não conseguia manter-se em silêncio quando era repreendido ou quando alguém lhe fazia uma observação desagradável. Para se corrigir desse defeito fez o propósito de, durante seis meses, não dar réplica nem mesmo às mais pesadas injúrias que eventualmente lhe fossem feitas.

Essa luta contra si mesmo custou-lhe grandes sacrifícios. Certa vez, ao ser insultado de forma brutal, fez um tal esforço para se conter que sentiu subir-lhe aos lábios uma golfada de sangue que vinha do seu peito. Nesse dia, muito aflito, o bom frade entrou numa igreja, prostrou-se diante de um crucifixo e exclamou:

– Vede, meu Senhor, o que suporto por amor a Vós!

Então, cheio de temor e encanto, viu o divino Crucificado despregar do madeiro a mão direita e colocá-la sobre a chaga aberta pela lança do centurião, enquanto que lhe dizia:

E Eu, o que suporto por amor a ti? Profundamente emocionado, Junípero era outro homem ao levantar-se. Ele, que antes não conseguia aturar sem sofrimento qualquer pequena injúria, passou a receber com alegria as mais graves ofensas, como se fossem pedras preciosas para ornar a sua alma.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

O Amor Divino e os seus maravilhosos efeitos, por Tomás de Kempis









Jesus: Grande coisa é o amor! E um bem verdadeiramente inestimável que por si só torna suave o que é difícil e suporta sereno toda a adversidade. Porque leva a carga sem lhe sentir o peso e torna o amargo doce e saboroso. O amor de Jesus é generoso, inspira grandes ações e nos excita sempre à mais alta perfeição. O amor tende sempre para as alturas e não se deixa prender pelas coisas inferiores. O amor deseja ser livre e isento de todo apego mundano, para não ser impedido no seu afeto íntimo nem se embaraçar com algum incômodo. Nada mais doce do que o amor, nada mais forte, nada mais delicioso, nada mais perfeito ou melhor no céu e na terra; porque o amor procede de Deus, e em Deus só pode descansar, acima de todas as criaturas.


Quem ama, voa, corre, vive alegre, é livre e sem embaraço. Dá tudo por tudo e possui tudo em todas as coisas, porque sobre todas as coisas descansa no Sumo Bem, do qual dimanam e procedem todos os bens. Não olha para as dádivas, mas eleva-se acima de todos os bens até Àquele que os concede. O amor muitas vezes não conhece limites, mas seu ardor excede a toda medida. O amor não sente peso, não faz caso das fadigas e quer empreender mais do que pode; não se escusa com a impossibilidade, pois tudo lhe parece lícito e possível. Por isso de tudo é capaz e realiza obras, enquanto o que não ama desfalece e cai.

O amor vigia sempre, e até no sono não dorme. Nenhuma fadiga o cansam nenhuma angústia o aflige, nenhum temor o assusta, mas qual viva chama a ardente labareda irrompe para o alto e passa avante.


Só quem ama compreende o que é amar. Bem alto soa aos ouvidos de Deus o afeto da alma que diz: Meu Deus, meu amor! Vós sois todo meu, e eu todo vosso!

A alma: Dilatai-me o amor, para que possa, no âmago do coração, saborear quão doce é amar, no amor desmanchar-me e nadar. Prenda-me o amor, e eleve-me acima de mim, num transporte de fervor excessivo. Cante eu o cântico do amor, siga-vos ao alto, ó meu Amado, desfaleça minha alma no nosso louvor, no júbilo do amor. Amar-vos quero mais que a mim, e a mim só por amor de vós, e em vós a todos que deveras vos amam, conforme ordena a lei do amor que de vós dimana.

O amor é prontosinceropiedosoalegre amávelfortesofredorfielprudentelongânimeviril e nunca busca a si mesmo. Pois, logo que alguém procura a si mesmo, perde o amor.

O amor é circunspectohumilde retonão é frouxo, não é levianonem cuida de coisas vãs; é sóbriocastoconstantequietorecatado em todos os seus sentidos. O amor é submisso e obediente aos superiores, mas aos próprios olhos é vil e desprezível; devoto e agradecido para com Deus, confia e espera sempre nele, ainda quando está desconsolado, porque no amor não se vive sem dor.
Quem não está disposto a sofrer tudo e fazer a vontade do Amado não é digno de ser chamado amante. Àquele que ama cumpre abraçar por seu Amado, de boa vontade, tudo o que for duro e amargo e dele não se apartar por nenhuma contrariedade. [ii]

Bendigo-vos, Pai celestial, Pai de meu Senhor Jesus Cristo, por vos terdes dignado lembrar-vos de mim, pobre criatura. Ó Pai de misericórdia e Deus de toda consolação! (I Cor 1,3), graças vos dou porque, apesar de minha indignidade, me recreais às vezes com vossa consolação. Sede para sempre bendito e glorificado, com vosso Filho unigênito e o Espírito Santo consolador, por todos os séculos. Ah! Senhor Deus, santo amigo de minha alma, tanto que entrais em meu coração, exulta de alegria o meu interior. Vós sois a minha glória e o júbilo de meu coração; vós sois a minha esperança e meu refúgio no dia da tribulação.

Mas, como ainda sou fraco no amor e imperfeito na virtude, necessito ser consolado e confortado por vós; por isso visitai-me mais vezes e instruí-me com santas doutrinas. Livrai-me das más paixões e curai meu coração de todos os afetos desordenados, para que eu, sanado e purificado interiormente, seja apto para amar, forte para sofrer e constante para perseverar. [ii]

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[i]: KEMPIS, Tomás de. Imitação de Cristo. liv. III, cap. V, 3-8)
[ii]: KEMPIS, Tomás de. Imitação de Cristo. liv. III, cap. V, 1-2)

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Continue a esforçar-se e penitenciar-se.




Combate-se o dito de que não é preciso tanto.
Um leproso (diz o Evangelho) estava fazendo suplicas a Jesus Cristo, dizendo: Oh Senhor, vós se quiserdes, podeis sarar-me.» A lepra, meus irmãos, é um cancro universal, que deixando o doente com vida, lhe infecciona todo o corpo; e d’esta sorte é figura d'um cristão, que apesar de estar em graça, vive com tibieza e descuido, não fazendo caso dos pecados veniais, nem dos defeitos, nem de imperfeições: e por este motivo lhe saem  infeccionadas e manchadas todas as suas boas obras; porque não guarda os sentidos externos; porque vive sem mortificação, e sem recolhimento; porque se ocupa com pensamentos vãos; porque se não vence a si mesmo, nem reprime as suas paixões; tudo, tudo lhe sai infecciona- do e manchado!...
E por isso com grande fundamento comparou Isaías as nossas boas obras com panos os mais sujos: Oh! Quanto deve ser pura e santa a vida d´um cristão, para logo se entrar no Reino dos Céus e sair deste mundo! Já o disse, uma alma deve estar toda purificada como uma estrela para entrar no Reino dos Céus, e gozar da vista clara de Deus: é certo que os Santos tiveram luzes divinas, e acertaram; pois já estão seguros, já estão gozando de Deus lá na pátria celestial; e também é certo que os pecadores vivem nas trevas do erro, cegos com as suas paixões; e como pensaram os Santos sobre estas cousas? que disseram, ou como fizeram eles? Dizem os pecadores, ou antes diz o inimigo mundo: Para se salvar uma alma também não é preciso tanto. Não é preciso tanto? Pois desengana-te; para te salvares, ainda que fora necessário andares com a língua de rastos até ao fim da tua vida; ainda que fora necessário dares mil vidas, se as tiveras; ainda que fora necessário passares por mil infernos, se fora possível tudo isto, ainda era pouco; ainda o Céu te ficava muito e muito barato!.. Não é preciso tanto, dizes tu, ou dizem eles; mas pergunto eu: E por ventura estarão lá no Reino dos Céus esses que viveram e morreram segundo esse espírito do mundo? Ninguém m’o pode provar; e quantos já estarão ardendo no fogo do inferno? Sim, porque os verdadeiramente preguiçosos não podem conquistar o Reino dos Céus, nem merecer os bens eternos da gloria!... Que vos parece? Os Santos, cheios de luzes divinas, e talvez com bem poucas faltas, fizeram quanto puderam, não cuidavam em outra cousa, trabalhavam sempre por Deus, e tudo lhes parecia pouco; ainda temiam, e receavam; e os pecadores, esses homens do mundo, que vivem segundo o espírito do mundo, carregados de crimes, cheios de vícios, e sem luzes divinas, tudo lhes parece muito, tem medo de fazer alguma cousa de mais, ou de que outros o façam. Não vos enganeis, meus irmãos; não vos enganeis com esse mundo; por quanto ele te é um inimigo da alma; esse mundo tem enganado, e está enganando quase tudo; quase tudo vai perdido por via das más conversações e dos maus exemplos dessas pessoas desmoralizadas... Não olheis para ditos; quem ainda estremece com estes ditos, quem disso fizer caso, não está firme, e não vai longe com a sua vida espiritual; porque há de perder o fervor, há de cair na tibieza e no descuido; e por fim também cairá em pecados graves, e com eles irá ao inferno. Portanto sede firmes e fervorosos, fazendo sempre quanto puderdes, quando não, caminhais muito arriscados para a eternidade.

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Retirado do livro Missão Abreviada, pelo PADRE MANUEL JOSÉ GONÇALVES COUTO)

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

17 graus da perfeição: São João da Cruz:



















 "Procure em todas as coisas a maior honra e glória de Deus"

1.Por nada deste mundo cometer pecado, nem mesmo venial com plena advertência, nem imperfeição conhecida.
2. Procurar andar sempre na presença de Deus, segundo as obras que se está fazendo.
3. Nada fazer nem dizer coisa de importância que Cristo não pudesse fazer ou dizer se estivesse no estado em que me encontro e tivesse a idade e a saúde que eu tenho.
4. Procure em todas as coisas a maior honra e glória de Deus.
5. Por nenhuma ocupação deixar a oração mental que é o sustento da alma.
6. Não omitir o exame de consciência, sob pretexto de ocupações, e, por cada falta cometida, fazer alguma penitência.
7. Ter grande arrependimento por qualquer tempo não aproveitado ou que tenha escapado sem amar a Deus.
8. Em todas as coisas, altas e baixas, ter a Deus por fim, pois de outro modo não se crescerá em perfeição e mérito.
9. Nunca faltar à oração e, quando experimentar aridez e dificuldade, por isso mesmo perseverar nela, porque Deus quer muitas vezes ver o que há na alma e isso não se prova na facilidade e no gosto.
10. Do céu e da terra sempre o mais baixo e o lugar e o ofício mais ínfimo.
11. Nunca se intrometer naquilo de que não se foi encarregado, nem discutir sobre alguma coisa ainda que se esteja com a razão. E, no que tiver sido ordenado, não imaginar que se tem obrigação de fazer aquilo a que, bem examinado, nada obriga.
12. Não ocupar-se das coisas alheias, sejam elas boas ou más, porque, além do perigo que há de pecar, essa ocupação é causa de distrações e amesquinha o espírito.
13. Procurar sempre confessar-se com profundo conhecimento da própria miséria e com sinceridade cristalina.
14. Ainda que as coisas de obrigação e ofício se tornem dificultosas e enfadonhas, nem por isso desanimar-se, porque não há de ser sempre assim, e Deus, que experimenta a alma simulando trabalho no preceito (Cf. Sl 93,20), em breve a fará sentir o bem e o ganho.
15. Lembrar-se sempre de que tudo quanto se passa, seja próspero ou adverso, vem de Deus, para que assim nem se caia em soberba por um lado, nem no desânimo por outro.
16. Recordar-se sempre de que não se veio senão para ser santo, e, assim, não consentir que reine na alma o que não leve à santidade.
17. Ser sempre mais amigo de dar alegria aos outros do que a si mesmo, e, assim, com relação ao próximo, não ter inveja nem predomínio. Entenda-se, porém, que isto se refere ao que está de acordo com a perfeição, porque Deus muito se aborrece com os que não antepõem o que lhe agrada ao beneplácito dos homens.
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São João da Cruz, em Pequenos Tratados Espirituais

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Como se proteger dos ataques iniciais do demônio






Os conselhos do padre Lorenzo Scupoli são antigos, porém muito eficazes

Em sua primeira carta, São Pedro diz que temos de ser vigilantes e conscientes da batalha espiritual que nos cerca por todos os lados: 
“Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar.Resisti-lhe fortes na fé. Vós sabeis que os vossos irmãos, que estão espalhados pelo mundo, sofrem os mesmos padecimentos que vós” (1 Pedro 5,8-9). 
Essa é uma verdade da qual muitas vezes nos esquecemos, pois normalmente não vemos o inimigo da nossa alma com nossos olhos. No entanto, só porque não conseguimos vê-lo, isso não significa que o poder que o diabo pode ter em nossas vidas seja reduzido.
O padre italiano Lorenzo Scupoli deu sua opinião sobre como defender-se do diabo em seu clássico “O Combate Espiritual”, publicado em 1589. Ele sugere que a chave está em avaliar como nos vemos. Confira: 
  1. O maior meio utilizado pelo maligno para roubar as nossas almas é a nossa própria vaidade e nosso amor-próprio;
  2. O segredo para derrotá-lo é manter-se profundamente entrincheirado na santa humildade e nunca abandoná-la;
  3. Se não tentarmos nos disciplinar, nós nos abandonaremos ao espírito orgulhoso para quem não somos páreo;
  4. Não é suficiente que só vigiemos; nós também temos que rezar. Pois foi dito que devemos vigiar e orar;
  5. Não permitamos que nossas mentes fiquem aflitas ou perturbadas de qualquer forma;
  6. A alma humilde e pacífica faz tudo com uma facilidade que salta sobre os obstáculos com graça e facilidade.