sexta-feira, 16 de agosto de 2019

O ABANDONO DE JESUS SOBRE A CRUZ E A PENA DE DANO NO INFERNO



Sustinui qui simul contristaretur, et non fuit, et qui consolaretur, et non inveni – “Esperei se algum se entristecia comigo, e não houve ninguém; esperei se alguém me consolava, e não achei” (Ps. 68, 21).
Sumário. O que mais atormentou Jesus, pregado na cruz, foi o abandono completo em que se viu. Não achando na terra quem o console, levanta os olhos para o Pai Celestial. Este, porém, vendo-o carregado dos nossos pecados, recusa-se a dar-lhe alívio e deixa-o morrer sem consolo. O Senhor quis padecer um abandono tão cruel, para nos livrar de outro abandono mais cruel ainda, qual é a pena de dano no inferno. Contudo, quão poucos são os que cuidam em render-Lhe graças, e em retribuir-lhe o seu amor!
*****************************
São Lourenço Justiniani diz que a morte de Jesus Cristo foi a mais amarga e a mais dolorosa de todas, pois que o Redentor morreu na cruz sem o mais pequeno alívio. Nas outras pessoas que sofrem, a pena é sempre aliviada, ao menos por algum pensamento consolador; mas a dor e aflição de Jesus padecente foi uma dor pura, uma aflição sem alívio. Por esta razão, São Bernardo, contemplando o Salvador morto sobre a cruz, Lhe diz, suspirando: Meu amado Jesus, olhando-Vos sobre esta cruz, desde a cabeça até aos pés, não vejo senão dor e aflição.
A pena, porém, que mais atormenta o coração amante de Jesus é o abandono completo em que se acha; eis porque Jesus se queixa pela boca do Profeta: Esperei se alguém me consolava, e não achei. – Maria Santíssima conservava-se, é verdade, ao pé da cruz, afim de lhe procurar algum alívio se pudesse; mas esta Mãe terna e aflita contribuiu antes pela dor que lhe causava a sua compaixão, a aumentar a pena do Filho que tanto a amava. São Bernardo diz que as dores de Maria contribuíam todas para afligir mais o Coração de Jesus; de tal sorte que, quando o Salvador lançava os olhos para sua Mãe aflita, sentiu o coração mais penetrado das dores de Maria que das suas, como a mesma Bem-aventurada Virgem o revelou a Santa Brígida.
Jesus, então, vendo que não achava na terra quem o consolasse, elevou os olhos e o coração a seu Pai, para lhe pedir alívio; mas o Eterno Pai, vendo seu Filho em forma de pecador, Lhe disse: Não, meu Filho, não te posso consolar agora, que estás satisfazendo à minha justiça por todos os pecados dos homens. É justo que te entregue a teus padecimentos e te deixe morrer sem algum alívio. Foi então que nosso Salvador exclamou em alta voz: “Meu Deus, meu Deus, porque me desamparaste?” – Clamavit Iesus você magna, dicens: Deus meus, Deus meus, ut quid dereliquisti me? (1) Ó abandono tão cruel para o Coração de Jesus!
A reflexão sobre a pena que sofreu Jesus Cristo, vendo-se abandonado de todos, chama nossa atenção sobre a desgraça terrível da alma abandonada para sempre de Deus no inferno. São grandes as outras penas daquele lugar de tormentos(2): o fogo que devora, as trevas que ofuscam, os gritos lancinantes dos réprobos que ensurdecem, o mau cheiro que infecciona, a estreiteza que oprime: todas estas penas, porém, não são nada em comparação com a perda de Deus. Foi desta perda irreparável que o Coração de Jesus nos quis livrar, aceitando tão cruel abandono sobre a cruz. E nós nem sequer pensamos em Lhe dar graças!
Ah, meu terno Jesus, queixais-Vos sem razão, quando dizeis: Meu Deus, porque me abandonastes? Porque, assim direi eu, porque Vos quisestes encarregar de pagar por nós? Não sabíeis que por nossos pecados merecíamos ser abandonados de Deus? Foi, pois, com justiça que vosso Pai Vos abandonou e Vos deixa morrer num mar de dores e amarguras. Ah, meu Salvador, vosso abandono aflige-me e me consola: aflige-me, porque Vos vejo morrer entregue a tantos sofrimentos, mas consola-me, porque me faz esperar que, pelos vossos merecimentos, não serei abandonado da divina misericórdia, como merecia, por Vos haver abandonado tantas vezes para seguir os meus caprichos.
Fazei-me compreender, ó Senhor, que, se vos foi tão penoso o ser privado por alguns momentos da presença sensível da Divindade, qual seria o meu suplício, se fosse privado de Deus para sempre. Suplico-Vos, pelo cruel abandono que sofrestes, que nunca me abandoneis, ó meu Jesus, sobretudo no artigo da morte. Quando todos me tiverem abandonado, não me abandoneis Vós, meu Salvador. Ah! Meu Senhor, abandonado de todos, sêde o meu consolo nas desolações. Sei que, se eu Vos amar sem consolação, mais contentarei o vosso Coração. Mas Vós conheceis a minha fraqueza; dai-me perseverança, paciência e resignação. – Ó Maria, a Vós também peço esta graça, que espero obter pelos merecimentos da dor que sentistes, vendo vosso Filho abandonado de todos.
  1. Matth. 27, 46.
    2. Luc. 16, 28.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Jesus, Fonte de Graças


Haurietis aquas in gaudio de fontibus Salvatoris – Tirareis com gosto águas das fontes do Salvador.
Sumário. Consideremos as quatro fontes de graças que possuímos em Jesus Cristo. Ele é uma fonte de misericórdia, na qual nos podemos limpar de nossas imundices; uma fonte de paz, que nos dá pleno contentamento; uma fonte de devoção, que nos faz prontos, na obediência à voz divina; afinal, uma fonte de amor, que nos abrasa no fogo de amor divino. Aproximemo-nos com confiança, e vamos frequentemente apagar a nossa sede nessas fontes inesgotáveis.
I. Considera as quatro fontes de graça que possuímos em Jesus Cristo, segundo a contemplação de São Bernardo. A primeira fonte é a de Misericordia, na qual nos podemos limpar de todas as imundices dos nossos pecados. O Redentor fez-nos manar esta fonte com as suas lágrimas e o seu sangue: Dilexit nos et lavit nos a peccatis nostris in sanguine suo – Ele nos amou e nos lavou de nossos pecados em seu sangue.
A segunda fonte é de Paz e de consolação em nossas tribulaçõesInvoca-me, diz o Senhor, no dia da tribulação, e eu te consolarei. – Invoca me in die tribulationis, eruam te (2). Quem tem sede das verdadeiras consolações, também nesta terra, venha a mim e eu o saciarei – Si quis sitit, veniat ad me (3). Quem prova a água de meu amor, aborrecerá para sempre todas as delícias do mundo. Qui autem biberit ex aqua, quam ego dabo ei, non sitiet in aeternum (4) – O que beber da água que eu lhe der, nunca mais terá sede. E ficará plenamente satisfeito, quando entrar no reino dos Bem-aventurados, porquanto a água da minha graça o fará subir da terra ao céu: Fiet in eo fons aquae salientis in vitam aeternam (5) – Virá a ser nele uma fonte de água que jorre para a vida eterna. A paz que Deus dá as almas que o amam, não é como a paz que o mundo promete nos prazeres sensuais, que deixam atrás de si mais amargura da alma do que paz. A paz que Deus dá, leva vantagem a todos os gozos dos sentidos. Bem-aventurados, pois, aqueles que suspiram por esta fonte divina: Beati qui esuriunt et sitiunt institiam (6) – Bem-aventurados os que tem fome e sede da justiça.
A terceira fonte é de Devoção. Oh! Como se torna devoto e diligente em obedecer à voz divina, e como vai sempre crescendo em virtude, aquele com frequência medita em tudo o que Jesus Cristo tem feito por nosso amor! Será como a árvore plantada junto às correntes das águas: Erit tanquam lignum, quod plantatum est secus decursus aquarum (7).
II. Enfim, Jesus Cristo é fonte de amor. In meditatione mea exardescet ignis (8) – Na minha meditação se abrasará o fogo. Não é possível que o que medita nos sofrimentos e nas ignomínias que Jesus padeceu por nosso amor, não seja abrasado no fogo sagrado, que ele veio acender na terra. E assim se verifica inteiramente, que o que se aproveita das fontes benditas, que possuímos em Jesus Cristo, tirará com gosto águas das fontes do Salvador: Haurietis aquas in gaudio de fontibus Salvatoris (9).
Ó meu doce e amado Salvador, quanto Vos devo! Como me constrangestes a amar-Vos! Vós fizestes por mim o que nunca um filho teria feito por seu pai, nem um criado por seu senhor. Se, pois, me haveis amado mais que qualquer outro, é justo que Vos ame sobre todos os outros. Quisera morrer de dor, pensando que tanto padecestes por mim, e que chegastes a aceitar por meu amor a morte mais dolorosa e ignominiosa que um homem pode padecer, ao passo que eu tantas vezes tenho desprezado a vossa amizade. Quantas vezes Vós me haveis perdoado e eu Vos tornei a desprezar! Mas os vossos merecimentos são a minha esperança. Agora estimo a vossa graça, mais do que todos os reinos do universo. Amo-Vos e por vosso amor aceito qualquer pena, qualquer morte. Se não sou digno de morrer pela mão do algoz para defender vossa glória, aceito ao menos de boa vontade aquela morte que me tenhais destinado; aceito-a do modo e no tempo que tenhais marcado. – Minha Mãe, Maria, impetrai-me a graça de viver e de morrer no amor de Jesus.
Cristo abraçando São Bernardo (Francisco Ribalta)
Referências:
(1) Ap 1, 5
(2) Sl 49, 15
(3) Jo 7, 37
(4) Jo 4, 13
(5) Jo 4, 14
(6) Mt 5, 6
(7) Sl 1, 3
(8) Sl 38, 4
(9) Is 12, 3


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 50-52)

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

EXPLICAÇÃO DO CREDO por São Francisco Xavier

Folgai, cristãos, de ouvir e saber como Deus, criando, 
fez todas as coisas para serviço dos homens. 

SCHURHAMMER, ep. 58, em português. Ensinava-se cantando, ao gosto das crianças. 
( t. I, páginas. 352- -354), onde nos fala da catequese rítmica de S. Francisco Xavier, 
tão vulgar no seu tempo.

Primeiramente, criou os céus e a terra, os anjos, o sol, a lua, as estrelas, o dia com a noite, as ervas, os frutos, aves e alimárias que vivem em a terra, o mar e os rios, os peixes que vivem em águas; e acabadas de criar todas as coisas, por derradeiro criou o homem à Sua imagem e semelhança.

E o primeiro homem que Deus criou foi Adão, e a primeira mulher Eva. E depois que Deus criou Adão e Eva, no paraíso terreal, os bem-disse e casou e lhes mandou que tivessem filhos e povoassem a terra de gente. E de Adão e Eva viemos todas as gentes do mundo.

E pois Deus a Adão não deu mais de uma mulher, claro está que contra Deus os mouros e gentios e os maus cristãos têm muitas mulheres; e também é verdade que os que estão amancebados vivem contra Deus, pois primeiro Deus casou a Adão e Eva que lhes mandasse que crescessem e multiplicassem, tendo filhos de bênção.

E assim, os que adoram em pagodes, como fazem os infiéis, e os que creem em feitiços e sortes e adivinhadores pecam, gravemente, contra Deus porque adoram e creem no diabo e o tomam por seu senhor, deixando a Deus que os criou e lhes deu alma e vida e corpo e quanto têm, perdendo os tristes, por suas idolatrias, os céus, que é lugar das almas, e a glória do paraíso, para o qual foram criados.

Mas, os cristãos verdadeiros e leais a seu Deus e Senhor creem e adoram, de vontade e coração, um só Deus verdadeiro, criador dos céus e da terra; e bem o mostram quando vão às igrejas e veem suas imagens que são lembranças dos santos que estão com Deus, na glória do paraíso; põem, então, os cristãos os joelhos no chão, quando estão nas igrejas, e levantam as mãos para os céus, onde está o Senhor Deus, que é todo o seu bem e consolo, confessando o que diz São Pedro:

Creio em Deus Padre todo-poderoso, criador do céu e da terra.

Primeiro, criou Deus os anjos em os céus que os homens na terra. São Miguel, principal de todos, e a maior parte dos anjos adoraram logo ao seu Deus, dando-Lhe graças e louvores que os criou. Lúcifer, pelo contrário, e com ele muitos anjos, não quiseram adorar ao seu Criador, mas com soberba disseram: “Assubamos e sejamos semelhantes a Deus que está nos altos céus”. E pelo pecado da soberba, Deus lançou a Lúcifer e aos anjos, que eram com ele, dos céus ao inferno.

Lúcifer, com inveja de Adão e de Eva, primeiros homens, que em graça Deus criou, os tentou de pecado de soberba, no paraíso terreal, aconselhando-os que seriam como Deus, se comessem do fruto que seu Criador lhes proibia.

Adão e Eva, com desejos de serem como Deus, consentiram na tentação; comeram logo do fruto proibido, perdendo a graça na qual foram criados. E por seus pecados, o Senhor Deus os lançou do paraíso terreal, e viveram fora dele, em trabalhos, novecentos anos, fazendo penitência do pecado que fizeram. E foi tão grande o seu pecado, que nem Adão nem filhos dele o podiam satisfazer, nem tornarem a ganhar a glória do paraíso, a qual perderam por sua soberba de quererem ser como Deus; de maneira que as portas dos céus se fecharam, sem poderem lá entrar nem Adão nem filhos dele, pelo pecado que fizeram.

Ó cristãos, que será de nós, coitados, se os demônios por um pecado de soberba foram lançados dos céus ao inferno, e Adão e Eva, por outro pecado de soberba, do paraíso terreal, como nós, tristes pecadores, subiremos aos céus, com tantos pecados, sendo clara nossa perdição?

São Miguel, nosso amigo verdadeiro, e os anjos que ficaram nos céus, havendo piedade e compaixão de nós, pecadores, os anjos todos juntos pediram ao Senhor Deus misericórdia do mal que nos viram pelo pecado de Adão e Eva.

Diziam os anjos nos céus: “Ó bom Deus e Senhor piedoso, e Pai de todas as gentes! Já, Senhor, é chegado o tempo da salvação das gentes! Abri, Senhor, as portas dos céus aos Vossos filhos, pois nasceu da Santa Ana e Joaquim aquela Virgem sem pecado de Adão, sobre todas as mulheres santíssima, por nome Maria! A virtude e santidade da qual é sem par. De maneira que, em Virgem tão excelente, vós, Senhor, podereis formar, do Seu sangue virginal, um corpo humano, assim como, Senhor, formastes o corpo de Adão, pela Vossa vontade. Em tal corpo, pois sois poderoso, podeis, Senhor, juntamente criar uma alma mais santíssima que todas quantas criastes. Então, no mesmo instante, a segunda pessoa, Deus Filho, desce dos céus, onde está, a encarnar no ventre da Virgem Maria. E, desta Virgem tão excelente, nascerá Jesus Cristo, Vosso Filho, Salvador de todo o mundo. Assim, Senhor, se cumprirão as escrituras e promessas que fizestes aos profetas e patriarcas, amigos Vossos, que estão no limbo, esperando ao Vosso Filho, Jesus Cristo, seu Senhor e Redentor”.

O alto Deus, soberano e poderoso, movido de piedade e compaixão, vendo nossa miséria grande, mandou ao anjo São Gabriel, dos céus à cidade de Nazaré, onde estava a Virgem Maria, com uma embaixada, que dizia: “Deus te salve, Maria, cheia de graça, o Senhor é contigo, benta és tu, entre as mulheres. O Espírito Santo virá sobre ti, e a virtude do altíssimo Deus te alumiará, e o que de ti nascer se chamará Jesus Cristo, Filho de Deus”.

A Virgem Santa Maria respondeu ao anjo São Gabriel: “Eis aqui a serva do Senhor, seja feita em mim a sua santa vontade”.

No mesmo instante que a Virgem Santa Maria obedeceu à embaixada que, de parte de Deus Padre, São Gabriel lhe trouxe, Deus formou, em Seu ventre desta Virgem, um corpo humano, do Seu sangue virginal, e juntamente criou uma alma no mesmo corpo. A segunda pessoa, Deus Filho, naquele instante, encarnou no ventre da Virgem Maria, unindo a alma e o corpo tão santíssimos!

E do dia que o Filho de Deus encarnou, até o dia que nasceu, nove meses se passaram. Acabado este tempo, Jesus Cristo, Salvador de todo mundo, sendo Deus e homem verdadeiro, nasceu da Virgem Santa Maria!

Santo André confessou isto, dizendo assim:

Creio em Jesus Cristo, Filho de Deus, um só Nosso Senhor.

E, após ele, logo disse São João:

Creio que Jesus Cristo foi concebido do Espírito Santo e nasceu da Virgem Maria.

Em Belém, perto de Jerusalém, nasceu Cristo Nosso Senhor e Redentor! Então, os anjos e a Virgem, sua Mãe, com seu esposo São José, e os três reis, e outros muitos, o adoraram por Senhor.

Mas Herodes, como mau, sendo rei em Jerusalém, com cobiça de reinar desejou de matá-lo. Foi José pelo anjo avisado que fugisse de Belém para o Egito e levasse a Jesus Cristo e a Virgem, sua Mãe, porque Herodes desejava de matar a Jesus Cristo.

Foi ao Egito São José, com Jesus Cristo e Sua Mãe, onde esteve até que Herodes de má morte morreu; porque foi tão cruel que, em Belém e pelos lugares seus vizinhos, matou todos os meninos que de dois anos para baixo achou, cuidando que Jesus Cristo entre eles matasse. E depois que Herodes faleceu, tornaram a sua terra, à cidade de Nazaré, por mandado do anjo.

Sendo Cristo de doze anos, subiu de Nazaré ao templo de Jerusalém, onde estavam os doutores da lei, e lhes declarou as escrituras dos profetas e patriarcas, que da vida do Filho de Deus falavam, de que todos se espantavam, vendo sua sabedoria. E tornando a Nazaré, esteve aí até idade de quase perto de trinta anos; e daí se partiu ao rio Jordão, onde estava São João Batista batizando a muitas gentes. Neste rio, batizou São João Batista a Jesus Cristo.

E daí se foi Jesus Cristo ao monte, no qual quarenta dias e quarenta noites não comeu. O demônio, no monte, sem saber que Jesus Cristo era Filho de Deus, o tentou de três pecados: de gula e de cobiça e de vangloria; e em todas as tentações, venceu Cristo ao demônio. E do monte, com vitória, descendeu a Galileia e convertia muitas gentes, e aos demônios lhes mandava que dos corpos das gentes se saíssem.

Os demônios obedeciam ao mandado de Jesus Cristo, saindo dos corpos dos homens onde estavam, e as gentes que isto viam se espantavam e diziam: “Que é isto a que os demônios lhe obedecem?” Era de maneira que a fama de Jesus Cristo entre as gentes crescia muito, porque viam que os demônios lhe obedeciam.

Os homens que ouviam as santas pregações de Jesus Cristo e viam o grande poder que tinha sobre os demônios, começaram logo de crer em Jesus Cristo e lhe traziam os doentes de qualquer enfermidade que estivessem: saravam todos, logo, como Jesus Cristo os tocava com suas santas mãos.

E depois, chamou Jesus Cristo os doze apóstolos e aos setenta e dois discípulos e os levava, em Sua companhia, pelas terras onde andava, ensinando os mistérios do reino dos céus; pregando Cristo às gentes, fazendo milagres que provavam ser verdade o que ele pregava, sendo presentes os apóstolos e os discípulos, dava Cristo vista aos cegos, fala aos mudos, ouvir aos surdos, vida aos mortos, sarava aos coxos e aos mancos.

Os apóstolos e os discípulos que isto viam, cada vez mais e mais em Jesus Cristo criam. Deu-lhes Cristo tanta sabedoria e virtude que pregavam às gentes, sendo eles pescadores, e não sabiam letras mais daquelas que o Filho de Deus lhes ensinou.

Em nome e virtude de Jesus Cristo, faziam milagres os apóstolos, saravam muitas enfermidades, e lançando os demônios dos corpos dos homens, em sinal de ser verdade o que pregavam da vinda do Filho de Deus.

Era a fama de Jesus Cristo e seus discípulos entre as gentes tanta, que os judeus principais assentaram de o matar, com inveja que dele e de suas obras tinham, porque viam que todos a doutrina de Jesus Cristo seguiam e louvavam.

Conhecendo os fariseus que perdiam a honra e crédito que primeiro tinham, com os judeus, antes que Jesus Cristo se manifestasse ao mundo, movidos os fariseus de inveja, foram a Pilatos, que então era juiz, e com rogos e com medos e subornos (que tudo acabam) disseram os fariseus a Pilatos que não era amigo de César, se deixava mais pregar nem fazer milagres a Jesus Cristo, porque se fazia rei dos judeus contra César, pois o povo o amava.

Conhecendo Pilatos que os fariseus, com a inveja que de Jesus Cristo tinham, pelas obras e milagres que fazia e o amor que lhe o povo tinha, o acusavam e lhe levantavam os judeus falsos testemunhos, e consentiu Pilatos que os judeus prendessem a Jesus Cristo, sem nunca saberem que era Filho de Deus, cuidando que era homem, assim como Isaías, Elias e Jeremias, ou São João Batista, ou alguns santos homens dos passados.

Depois que os fariseus prenderam a Jesus Cristo, lhe faziam muitas desonras, levando-O de uma casa para a outra, e desprezando-O e fazendo escárnio d'Ele. E, com ódio grande que os fariseus tinham a Cristo, O levaram a casa de Pilatos, onde O acusaram de falsos testemunhos.

E, por fazer Pilatos a vontade aos judeus, mandou açoitar a Jesus Cristo, cruelmente, que dos pés até à cabeça todo o Seu santo corpo foi ferido; e assim cruelmente açoitado, Pilatos entregou Jesus Cristo aos judeus, para O crucificarem.

E, antes que O crucificassem, puseram a Cristo na cabeça uma coroa de espinhos e uma cana na mão direita; e os fariseus, por fazerem escárnio de Jesus Cristo, se punham de joelhos diante d'Ele, dizendo: “Deus te salve, Rei dos judeus!”. E cuspiam-Lhe no rosto, dando-Lhe muitas bofetadas e, com uma cana que Ele levava, O feriam na cabeça. E por derradeiro, no monte Calvário, próximo de Jerusalém, os judeus crucificaram a Jesus Cristo! E assim morreu Jesus Cristo, em a Cruz, para salvar aos pecadores!

De maneira que a santíssima alma de Jesus Cristo verdadeiramente se apartou do Seu corpo precioso, quando na cruz expirou, unida sempre a divindade com a alma santíssima de Jesus Cristo, ficando a mesma divindade com o corpo preciosíssimo de Jesus Cristo, na cruz e no sepulcro.

Na morte de Jesus Cristo, o sol se escureceu, deixando de dar o seu lume, a terra toda tremeu, as pedras se partiram, dando-se umas com as outras, e os sepulcros dos mortos se abriram e muitos corpos dos homens santos ressurgiram e foram à cidade de Jerusalém, onde apareceram a muitos. E os que viram estes sinais, na morte de Jesus Cristo, disseram que, verdadeiramente, Jesus Cristo era Filho de Deus. E por isto ser assim, o apóstolo São Tiago disse:

Creio que Jesus Cristo padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado.

E Jesus Cristo era Deus, pois era a segunda pessoa da Santíssima Trindade, Filho eterno; e também era homem verdadeiro, pois era filho da Virgem Maria; e tem alma racional e corpo humano. Enquanto era homem, verdadeiramente morreu na cruz, quando foi crucificado, porque a morte não é outra coisa senão a separação da alma, deixando o corpo em que vive.

A santíssima alma de Jesus Cristo foi apartada do corpo, quando na cruz expirou. Então, acabando de expirar, a santíssima alma de Jesus Cristo, sendo unida com a divindade de Deus Filho, assim como sempre foi, desde instante que o Senhor Deus a criou, desceu ao limbo, que é um lugar que está debaixo da terra, onde estavam os santos padres, profetas, patriarcas e outros muitos justos, esperando pelo Filho de Deus que os havia de tirar do limbo e levar ao paraíso.

Em todo tempo, começando desde Adão e Eva, houve homens bons e, sendo amigos de Deus e por falarem verdade, repreendiam os maus de seus vícios e pecados, porque ofendiam a seu Deus e Criador; e os maus, sendo servos e cativos do demônio, prosseguiam aos bons e amigos de Deus, prendendo-os e desterrando-os e fazendo-lhes muitos males; de maneira que, quando os bons morriam, suas almas iam ao limbo. E o limbo, por estar debaixo do chão, se chamava inferno, e não porque nele haja pena de fogos nem tormentos; e mais abaixo do limbo, está um lugar que se chama purgatório.

A este purgatório vão as almas daquelas pessoas que, quando morrem, estão em graça, sem pecado mortal; e pelos pecados passados, que fizeram em sua vida, dos quais antes da sua morte não fizeram inteira penitência ou pendença, vão a este purgatório, onde há tormentos grandes, para pagarem os males e pecados que fizeram em sua vida; e acabando de pagar a pendença de seus pecados, saindo do purgatório, vão logo ao paraíso.

O derradeiro lugar, que está debaixo da terra, se chama inferno infernal, onde há tão grandes tormentos de fogo e misérias que, se os homens cuidassem nele, cada dia uma hora, não fariam tantos pecados como fazem; e não folgariam de fazer a vontade ao diabo, como fazem, se soubessem os trabalhos do inferno. Lá, está Lúcifer e todos os demônios que foram lançados do céu e todas as gentes que morreram em pecado mortal. E os que vão a este inferno não têm nenhum remédio de salvação: para sempre dos sempre, sem fim dos fins, hão de estar nele!

Ó irmãos, que é isto, que tão pouco medo temos de ir ao inferno! Pois cada dia fazemos maiores pecados, sinal é que temos pouca fé, pois que vivemos como homens que não creem que há inferno infernal.

A Igreja e os santos, que estão no céu com Deus, nunca rogam pelos mortos que estão no inferno, porque estes não têm nenhum remédio para irem ao paraíso; mas, a Igreja e os santos rogam por os mortos que estão em o purgatório e por os vivos que não vão ao inferno.

Jesus Cristo em sexta-feira morreu e a santíssima alma Sua, unida sempre com a divindade, descendeu ao limbo e tirou todas quantas almas lá estavam esperando pelo Filho de Deus, Jesus Cristo. Depois, ao terceiro dia, que é ao domingo, ressurgiu dentre os mortos, tornando sua alma santíssima a tomar o mesmo corpo que deixara, quando em a cruz morreu.

Depois que Jesus Cristo ressurgiu em corpo glorioso, apareceu à Virgem Santa Maria, Sua Mãe, e aos Seus amigos, os quais estavam tristes por Sua morte. Com Sua ressurreição gloriosa, consolou aos tristes desconsolados, perdoando aos pecadores seus pecados; e muitos creram em Jesus Cristo, depois que dentre os mortos O viram ressurgir, os quais, primeiro que morresse e ressurgisse, não quiseram crer. E ser isto assim verdade, São Tomé afirmou, dizendo: 

Creio que Jesus Cristo descendeu aos infernos e ao terceiro dia ressurgiu dos mortos.

— E depois que Jesus Cristo ressurgiu, quarenta dias esteve, neste mundo, pregando às gentes o que haviam de crer para irem ao paraíso. E neste tempo mostrou Sua santa ressurreição ser verdadeira, e aos que duvidavam, em Sua morte, que não havia de ressurgir. E, nestes quarenta dias, apareceu aos apóstolos e discípulos e a outros Seus amigos que duvidavam que ressurgisse, quando O viram morrer em o monte Calvário, na cruz; e nestes quarenta dias, os que não creram na morte e paixão de Jesus Cristo, que ao terceiro dia havia de ressurgir, acabaram de crer, sem mais duvidar, que Jesus era Filho de Deus verdadeiro, Salvador de todo o mundo, pois da morte à vida ressurgiu.

Ao fim de quarenta dias, foi Jesus Cristo a Monte Olivete, donde aos altos céus havia de subir, e com ele ia a Virgem Santa Maria, Sua mãe, e Seus apóstolos e outros muitos. E deste monte Olivete subiu Jesus Cristo aos altos dos céus, em corpo e em alma, e levou, em Sua companhia, à glória do paraíso, todas as almas dos santos Padres que do limbo tirou.

As portas dos céus se abriram, quando Jesus Cristo aos altos céus subiu, e os anjos do paraíso vieram acompanhar Jesus Cristo, para, com grande glória, O levarem onde estava Deus Padre, de onde, para salvar os pecadores, descendera ao ventre da gloriosa Virgem, tomando carne humana, para nele pagar nossas dívidas. De maneira que Jesus Cristo, Filho de Deus, pelos pecadores se fez homem e nasceu, morreu, ressurgiu e assubiu aos céus, onde à parte direita de Deus Padre se assentou. Sendo isto assim verdade, São Tiago Menor é que o disse: 

- Creio que Jesus Cristo subiu aos céus e está assentado à destra de Deus Padre todo poderoso.

E pois este mundo teve princípio, há de ter fim, de maneira que há de acabar; e assim como Jesus Cristo subiu aos céus, assim, quando o mundo se há de acabar, dos céus descenderá e dará a cada um o que merece. E certo, é verdade que todos os que creram em Jesus Cristo e guardaram Seus santos mandamentos serão julgados para irem à glória do paraíso, e os que em Jesus Cristo não quiseram crer, como são os mouros, judeus, gentios, irão para o inferno, sem nenhuma redenção e os maus cristãos que não quiseram guardar os dez mandamentos serão julgados por Jesus Cristo, para irem ao inferno. E no fim do mundo, todos os que forem vivos morrerão, porque todo homem com esta condição nasce, que há de morrer.

Pois Jesus Cristo, nosso Redentor, pelos pecadores morreu e ressurgiu, todos havemos de morrer e ressurgir; e também porque os corpos dos homens bons, que no fim do mundo forem vivos, não são santos nem gloriosos para que, com eles, possam subir aos céus, por isso é necessário morrerem; e, em sua ressurreição, tomarão os mesmos corpos, não sujeitos à paixão, como dantes eram. De maneira que, quando Jesus Cristo do céu descender, no dia do juízo, a julgar os bons e os maus, todos ressurgirão, começando do primeiro até o derradeiro que morreu. E por ser assim verdade, São Filipe disse:

Creio que Jesus Cristo do céu há de vir julgar os vivos e os mortos.

Quando os cristãos nos benzemos, confessamos a verdade acerca da Santíssima Trindade, como é três pessoas, um só Deus trino e uno. Deus Padre, nem é feito, nem criado, nem gerado; o Filho é gerado de Deus Padre, nem é feito nem criado; o Espírito Santo procede do Padre e do Filho, não criado nem gerado.

Quando nós fazemos o sinal da cruz, mostramos esta ordem de proceder, pondo a mão direita na cabeça, dizendo: “Em nome do Padre”, em sinal que Deus Padre não é feito nem gerado; depois, pondo a mão nos peitos, dizendo: “e do Filho”, em sinal que do Padre é gerado o Filho, e não feito nem criado; e depois, pondo a mão em o ombro esquerdo, dizendo: “e do Espírito”, e passando depois a mão ao ombro direito, dizendo: “Santo”, em sinal que o Espírito Santo procede do Filho e do Padre.

Obrigado é todo o bom cristão a crer firmemente, sem duvidar, no Espírito Santo, e em Suas santas inspirações, que nos defendem de mal fazer e nos movem os corações a guardar os dez mandamentos do Senhor Deus e os da santa madre Igreja universal, e a cumprir as obras da misericórdia corporais e espirituais. E por ser isto verdade, o apóstolo São Bartolomeu é que disse:

Creio em o Espírito Santo.

Todos os fiéis cristãos somos obrigados a crer, sem duvidar, o que creram de Jesus Cristo os apóstolos e discípulos e mártires e todos os santos, crendo de Jesus Cristo tudo o que é necessário crer para nossa salvação, acerca de sua divindade e humanidade, depois que Jesus Cristo foi Deus e homem verdadeiro.

E também em geral somos obrigados a crer firmemente, sem duvidar, em tudo o que creem os que regem e governam a Igreja universal de Jesus Cristo, pois pelo Espírito Santo são. inspirados e regidos do que hão de fazer, acerca da governação da Igreja universal e das coisas da nossa santa fé, e nas quais não podem errar, porque são regidos pelo Espírito Santo; de maneira que, das escrituras da nossa lei, de Jesus Cristo, pelo demais que somos obrigados a crer, como são santos cânones e concílios, que são ordenados da Igreja, feitos pelo Papa e cardeais, patriarcas, arcebispos, bispos e prelados da Igreja, quando em todas estas coisas crermos, sem duvidar, cremos tudo o que creem os que regem e governam a Igreja universal de Jesus Cristo, e o que nos encomendou o apóstolo e evangelista São Mateus, quando disse:

Creio na santa Igreja Católica.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

A oração une a alma a Deus




A oração une a alma a Deus. Mesmo que a nossa alma, pela sua natureza, se assemelhe sempre a Deus, restaurada que foi pela graça, de facto ela é-Lhe muitas vezes dissemelhante por causa do pecado. A oração testemunha então que a alma deveria querer o que Deus quer; reconforta a consciência; torna-nos aptos a receber a graça. 

Deus ensina-nos, assim, a rezar com uma confiança firme de que receberemos aquilo que pedimos em oração; porque Ele olha-nos com amor e quer associar-nos à sua vontade e às suas acções benfazejas. Incita-nos, assim, a rezar para que seja feita a sua vontade […]; parece dizer-nos: «Que Me poderia satisfazer mais do que ouvir uma súplica fervorosa, sábia e insistente para que os Meus desígnios se cumpram?» Portanto, pela oração, a alma entra em concordância com Deus. 

Mas quando, pela sua graça e a sua cortesia, Nosso Senhor Se revela à nossa alma, então obtemos o que desejamos. Nesse momento já não conseguimos ver que mais poderíamos pedir. Todo o nosso desejo, toda a nossa força, estão inteiramente concentrados nele, para O contemplar. Parece-me ser uma oração muito alta, impossível de sondar. 

O objectivo da nossa oração é estarmos unidos, pela visão e pela contemplação, Àquele a Quem rezamos, com uma alegria maravilhosa e um temor respeitoso, numa doçura e delícia tão grandes que, nesses momentos, não podemos rezar senão como Ele nos conduz a fazê-lo. Bem sei que, quanto mais Deus Se revela a uma alma, mais ela tem sede dele, pela sua graça; mas, quando não O vemos, sentimos a necessidade e a urgência de rezar a Jesus, por causa da nossa fraqueza e da nossa incapacidade.

Santa Juliana de Norwich

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Prática da paciência




O apóstolo São Tiago disse que a paciência era por excelência a obra perfeita de uma alma. A terra é lugar onde se conquistam merecimentos, e portanto não é lugar de descansomas de trabalho e padecimento: e aquele que não sofre com paciência, sofre menos e salva-se; ao passo que sofre muito mais quem sofrer com impaciência, e pode condenar-se. A paciência deve praticar-se:

 - Nas enfermidades. Estas são a pedra de toque, para discernir o espírito das pessoas. Algumas há que são devotas, e até, ao parecer, fervorosas, enquanto gozam boa saúde: mas se a enfermidade as visita, impacientam-se, queixam-se de todos, entregam-se a tristeza e cometem muitas outras faltas.

 - Na morte dos parentes. Quantos há que pela perda dum parente ficam inconsoláveis, a ponto de deixarem a oração, os Sacramentos e todas as obras de piedade, chegando alguns a queixar-se até do próprio Deus! Que temeridade!

 - Na pobreza, sofrendo com resignação a perda de seus interesses, confiando no Senhor, que não deixará de socorrer a quem a Ele confia.

 - Nos desprezos e perseguições: pois se Jesus, sendo a própria inocência, padeceu tanto por nosso amor; que muito será que nós padeçamos alguma coisa pelo d'Ele. Diz o Apóstolo que, todo aquele que quiser viver neste mundo, unido com Jesus Cristo, a de ser perseguido.

 - Nas angústias de espírito, que são os sofrimentos mais duros e custosos de suportar a uma alma que ama a Deus: são, porém, um meio de que Deus Se serve para provar os Seus escolhidos. Nestas circunstâncias deve haver sumo cuidado em não omitir nenhuma das obras de piedade costumadas, como orações, devoções, visitas, leituras espirituais etc. Pois que, ainda quando tudo pareça perdido, por se fazer com tédio e dificuldade, cumpre-se, com inteiro agrado de Deus, a Sua Santíssima Vontade.

 - Nas tentações. Almas a tão pusilânimes, que, se a tentação for mais demorada, assustam-se e julgam-se abandonadas de Deus. E não obstante Deus nunca permite que sejamos tentados além do que as nossas forças comportam, e a cada tentação vencida correspondem muitas graças de glória. É necessário, sem dúvida, pedir ao Senhor que nos livre das tentações, mas quando elas chegam, não é menos necessário resignar-nos com a vontade de Deus e pedir-Lhe força para resistir e vencer.

(Sagrada Família, por um padre redentorista, 1910)

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Quem quer ser santo faça estes exercícios piedosos ao longo dia



Um bom cristão, pela manhã, assim que desperta, deve fazer o sinal da Cruz, e oferecer o coração a Deus, dizendo estas ou outras palavras semelhantes: "Meu Deus, eu vos dou o meu coração e a minha alma".

Ao levantar da cama e enquanto nos vestimos, deveríamos pensar que Deus está presente, que este dia pode ser o último da nossa vida; ademais, devíamos levantar-nos e vestir-nos com toda a modéstia possível.

A um bom cristão, apenas se tenha levantado e vestido, convém pôr-se na presença de Deus e ajoelhar-se, se pode, diante de alguma devota imagem, dizendo com devoção: "Eu adoro-vos, meu Deus, e amo-vos de todo o coração; dou-Vos graças por me terdes criado, feito cristão e conservado nesta noite; ofereço-Vos todas as minhas acções, e peço-Vos que neste dia me preserveis do pecado, e me livreis de todo o mal. Ámen".

E rezar depois o Pai-Nosso, a Ave-Maria, o Credo, e os Actos de Fé, de Esperança e de Caridade, acompanhando-os com um vivo afecto do coração.

O cristão, podendo, deveria todos os dias:

1º. Assistir com devoção à Santa Missa;
2º. Fazer uma visita, por breve que fosse, ao Santíssimo Sacramento;
3º. Rezar o terço do Santo Rosário.

Antes do trabalho, convém oferecê-lo a Deus, dizendo do coração: "Senhor, eu Vos ofereço este trabalho, dai-me a vossa bênção". Deve-se trabalhar para glória de Deus e para fazer a sua vontade.

Antes da refeição, convém fazer o sinal da Cruz, estando de pé, e depois dizer com devoção: "Senhor, abençoai-nos a nós e ao alimento que vamos tomar, para nos conservarmos no vosso santo serviço".

Depois da refeição, convém fazer o sinal da Cruz, e dizer: "Senhor, eu Vos dou graças pelo alimento que me destes; fazei-me digno de participar da mesa celeste".

Quando nos vemos atormentados por alguma tentação, devemos invocar com fé o Santíssimo Nome de Jesus ou de Maria, ou recitar fervorosamente alguma oração jaculatória, como, por exemplo: "Dai-me a graça, Senhor, de que eu nunca Vos ofenda"; ou então fazer o sinal da Cruz, evitando porém que as outras pessoas, pelos sinais externos, suspeitem da tentação.

Quando uma pessoa reconhece ou receia ter cometido algum pecado, convém fazer imediatamente um acto de contrição, e procurar confessar-se quanto antes.

[Quando fora da igreja se ouve o sinal de elevação da Hóstia na Missa solene, ou da bênção do Santíssimo Sacramento] é bom fazer, ao menos com o coração, um acto de adoração, dizendo, por exemplo: "Graças e louvores se dêem a todo o momento ao Santíssimo e diviníssimo Sacramento".

Ao toque das Ave-Marias [pela manhã, ao meio-dia e à noite], o bom cristão recita o Anjo do Senhor ["Angelus"] com três Ave-Marias.

À noite, antes de se deitar, convém pôr-se, como de manhã, na presença de Deus, recitar devotamente as mesmas orações, fazer um breve exame de consciência, e pedir perdão a Deus dos pecados cometidos durante o dia.

Antes de adormecer, farei o sinal da Cruz, pensarei que posso morrer esta noite, e oferecerei o coração a Deus, dizendo: "Meu Senhor e meu Deus, eu Vos dou todo o meu coração. Trindade Santíssima, concedei-me a graça de bem viver e de bem morrer. Jesus, Maria e José, eu Vos encomendo a minha alma’.

No decurso do dia pode-se invocar a Deus frequentemente com as orações breves que se chamam "jaculatórias". [Eis algumas:]

"Senhor, valei-me";
"Senhor, seja feita a vossa santíssima vontade";
"Meu Jesus, eu quero ser todo vosso";
"Meu Jesus, misericórdia";
"Sagrado Coração de Jesus, que tanto nos amais, fazei que eu Vos ame sempre e cada vez mais";
"Doce Coração de Maria, sede a minha salvação";

É muito útil recitar, durante o dia, muitas jaculatórias, e podem recitar-se também com o coração, ser preferir palavras, caminhando, trabalhando, etc.

Além das orações jaculatórias, o cristão deveria exercitar-se na "mortificação cristã". Mortificar-se quer dizer privar-se, por amor a Deus, daquilo que agrada, e aceitar o que desagrada aos sentidos ou ao amor-próprio.

Quando é o Santíssimo Sacramento levado a um enfermo, devemos, sendo possível, acompanhá-Lo com modéstia e recolhimento; e, se não é possível acompanhá-Lo, fazer um ato de adoração em qualquer lugar que nos encontremos, e dizer: "Consolai, Senhor, este enfermo, e concedei-lhe a graça de se conformar com a vossa Santíssima vontade e de conseguir a sua salvação".

Ouvindo tocar o sino pela agonia de algum moribundo, irei, se puder, à igreja orar por ele; e, não podendo, encomendarei a Nosso Senhor a sua alma, pensando que dentro em breve hei de encontrar-me também eu nesse estado.

Ao ouvir sinais pela morte de alguém, procurarei rezar um "De profundis" ou um "Requiem", ou um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, pela alma desse defunto, e renovarei o pensamento da morte.  

in Catecismo Maior de São Pio X