terça-feira, 16 de abril de 2019

Primeira Meditação para a Quarta-feira Santa - Quarta Dor de Maria Santíssima – Encontro com Jesus, que carrega a cruz



Primeira Meditação para a Quarta-feira Santa

Vidimus eum, et non erat aspectus, et desideravimus eum – “Vimo-Lo, e não havia nele formosura, e por isso nós O estranhamos” (Is 53, 2)
Sumário. Consideremos o encontro que no caminho do Calvário teve o Filho com sua Mãe. Jesus e Maria olham-se mutuamente, e estes olhares são como outras tantas setas que lhes traspassam o Coração amante. Se víssemos uma leoa que vai após seu filho conduzido à morte, aquela fera havia de inspirar-nos compaixão. E não nos moverá à ternura ver Maria que vai após o seu Cordeiro imaculado, enquanto o conduzem à morte por nós? Tenhamos compaixão, e procuremos também acompanhar a seu Filho e a ela, levando com paciência a cruz que nos dá o Senhor.
I. Medita São Boaventura que a Bem-aventurado Virgem passou a noite que precedia a Paixão de seu Filho sem tomar descanso e em dolorosa vigília. Chegada a manhã, os discípulos de Jesus Cristo vieram a esta aflita Mãe: um a referir-lhe os maus tratamentos feitos a seu Filho na casa de Caifás, outro os desprezos que recebeu de Herodes, mais outro a flagelação ou a coroação de espinhos. Numa palavra, cada um dava a Maria uma nova informação, cada qual mais dolorosa, verificando-se nela o que Jeremias tinha predito: Non est qui consoletur eam ex omnibus caris eius (1) — “Não há quem a console entre todos os seus queridos”.
Veio finalmente São João e lhe disse:
“Ah, Mãe dolorosa! Teu Filho já foi condenado à morte, e já saiu, levando Ele mesmo a sua cruz para ir ao Calvário. Vem, se O queres ver e dar-Lhe o último adeus, em alguma rua, por onde tenha de passar”.
Ao ouvir isto, Maria parte com João; e pelo sangue de que estava a terra borrifada conhece que o Filho já por ali tinha passado. A Mãe aflita toma por uma estrada mais breve e coloca-se na entrada de uma rua para se encontrar com o aflito Filho, nada se-lhe dando das palavras insultuosas dos judeus, que a conheciam como mãe do condenado. — Ó Deus, que causa de dor foi para ela a vista dos cravos, dos martelos, das cordas e dos outros instrumentos funestos da morte de seu Filho! Como que uma espada foi ao seu coração o ouvir a trombeta, que andava publicando a sentença pronunciada contra o seu Jesus.
Mais eis que já, depois de terem passado os instrumentos e os ministros da justiça, levanta os olhos e vê, ó Deus! Um homem todo cheio de sangue e de chagas, dos pés até a cabeça, com um feixe de espinhos na cabeça e dois pesados madeiros sobre os ombros. Olha para Ele, e quase não O conhece, dizendo então com Isaías: Vidimus eum, et non erat aspectus (2) — “Nós O vimus e não havia n’Ele formosura”. Mas finalmente o amor lho faz reconhecer e o Filho, tirando um grumo de sangue dos olhos, como foi revelado a Santa Brígida, encarou a Mãe e a Mãe encarou o Filho. Ó olhares dolorosos, com que, como tantas flechas, foram então traspassadas aquelas almas amantes!
II. Queria a divina Mãe abraçar a Jesus, como diz Santo Anselmo; mas os insolentes servos a repelem com injúrias, e empurram para diante o Senhor aflitíssimo. Maria, porém, segue — muito embora preveja que a vista de seu Jesus moribundo lhe causaria uma dor tão acerba, que a tornaria rainha dos mártires. O Filho vai adiante, e a Mãe tomando também a sua cruz, no dizer de São Guilherme, vai após Ele, para ser crucificada com Ele.
Se víssemos uma leoa que vai após o filho conduzido à morte, aquela fera nos causaria compaixão. E não nos inspirará compaixão o ver Maria, que vai após o seu Cordeiro imaculado, enquanto o levam a morrer por nós? Tenhamos compaixão por ela, e procuremos também acompanhar o Filho e a Mãe, levando com paciência a cruz que nos envia o Senhor. — Pergunta São João Crisóstomo, porque nas outras penas Jesus Cristo quis ser só, mas a levar a Cruz quis ser ajudado pelo Cirineu? E responde: Ut intelligas, Christi crucem non sufficere sinne tua: Não basta para nos salvar só a cruz de Jesus Cristo, se nós não levamos com resignação até a morte também a nossa.
Minha dolorosa Mãe, pelo merecimento da dor que sentistes ao ver o vosso amado Filho levado à morte, impetrai-me a graça de levar também com paciência as cruzes que Deus me envia. Feliz de mim, se souber acompanhar-vos com a minha cruz até a morte! Vós e Jesus, sendo inocentes, levastes uma cruz muito pesada, e eu pecador, que tenho merecido o inferno, recusarei a minha? Ah, Virgem imaculada, de vós espero socorro, para sofrer com paciência as cruzes.
Referências:
(1) Lm 1, 2
(2) Is 53, 2
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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 405-408)

Segunda Meditação para a Terça-feira Santa - Jesus é condenado e vai ao Calvário



Tunc ergo tradidit eis illum ut crucifigerunt – “Então entregou-lhes Jesus, para ser crucificado” (Jo 19, 16)
Sumário. Imaginemos ver Jesus Cristo que escuta a injusta sentença de morte, aceita-a por nosso amor, e abraçando a cruz, se encaminha para o Calvário. Os judeus temendo que a cada momento expire, e desejosos de O ver morrer crucificado, obrigam a Simão Cirineu a levar a cruz atrás de Jesus. Unamo-nos ao ditoso Simão, e abraçando com resignação a nossa cruz, carreguemo-la atrás de Jesus, que no-la manda para nosso bem.
I. Considera como Pilatos, depois de proclamar diversas vezes a inocência de Jesus, finalmente a torna a proclamar, lavando as mãos e protestando que é inocente do sangue daquele justo. Se, pois, havia de morrer, os judeus deveriam responder por Ele. Em seguida lavra a sentença e condena Jesus à morte. Ó injustiça nunca mais vista no mundo! O Juiz condena o acusado ao mesmo tempo que o declara inocente!
Lê-se a iníqua sentença de morte na presença do Senhor condenado; este escuta-a, e todo conformado com o decreto de seu Eterno Pai, que o condena à cruz, aceita-a humildemente, não pelos delitos que os judeus lhe imputavam falsamente, mas pelas nossas culpas verdadeiras, pelas quais se tinha oferecido a satisfazer com a sua morte. Na terra, Pilatos diz: Morra Jesus; e o Pai Eterno confirma a sentença no céu dizendo: Morra meu Filho. E o mesmo Filho acrescenta: Eis-me aqui, obedeço e aceito a morte, e a morte de cruz: Humiliavit semetipsum, factus obediens usque ad mortem, mortem autem crucis (1) — “Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz.”
Meu amado Redentor, aceitais a morte que eu devia sofrer, e pela vossa morte me alcançais a vida. Agradeço-Vos, ó amor meu, e espero ir ao céu para cantar eternamente as vossas misericórdias: Misericordias Domini in aeternum cantabo (2) Mas, já que Vós inocente aceitais a morte de cruz, eu pecador aceito de boa vontade a morte que me destinais; aceito-a com todas as penas que a tenham de preceder ou de acompanhar, e desde agora ofereço-a a vosso Eterno Pai em união com a vossa santa morte. Vós morrestes por meu amor, eu quero morrer por vosso amor.
II. Lida a sentença, o povo desgraçado levanta um brado de júbilo e diz: “Felizmente Jesus é condenado à morte! Vamos depressa, não percamos tempo, prepare-se a cruz, e façamo-Lo morrer antes do dia de amanhã, que é a Páscoa.” — E no mesmo instante agarram a Jesus, tiram-Lhe o manto vermelho dos ombros e entregam-Lhe os seus próprios vestidos; a fim de que, segundo diz Santo Ambrósio, fosse reconhecido pelo povo por aquele mesmo impostor (assim o chamavam) que poucos dias antes fora recebido como Messias. Depois tomam duas rudes traves, que compõem em forma de cruz, e mandam-Lhe com insolência que a leve sobre seus ombros até o lugar do suplício. Ó Deus, que crueldade, carregar com tamanho peso um homem tão maltratado e enfraquecido!
Jesus abraça a cruz com amor e encaminha-se para o Calvário. O seu aspecto naquele caminho é tão lastimoso, que as mulheres de Jerusalém, ao vê-Lo, O acompanham, chorando e lamentando tamanha crueldade. Mas, nem assim os pérfidos judeus são levados à compaixão! Ao contrário, desejando, por um lado, ver Jesus crucificado, e, por outro, temendo que expirasse no caminho, visto que caía quase a cada passo, tiraram-Lhe a cruz dos ombros e obrigaram certo homem, de nome Simão, a carregá-la. — Minha alma, une-te ao ditoso Cirineu; abraça a tua cruz por amor de Cristo, que por teu amor padece tanto. Vê como Ele vai adiante e te convida a segui-Lo: Qui vult venire post me, tollat crucem suam, et sequatur me (3) — “Se alguém quiser vir após mim, tome a sua cruz e siga-me”.
Não, meu Jesus, não quero deixar-Vos; quero seguir-Vos até morrer. Pelos merecimentos desse caminho doloroso, dai-me força para carregar com paciência a cruz que quiserdes mandar-me. Ah! Vós nos fizestes nimiamente amáveis os sofrimentos e os desprezos, abraçando-os por nós com tanto amor! Ó Mãe de dores, Maria, rogai a vosso Filho por mim.
Referências:
(1) Fl 2, 8
(2) Sl 88, 2
(3) Mt 16, 24
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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 403-405)

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Primeira Meditação para a Terça-feira Santa - Jesus é coroado de espinhos e apresentado ao povo



Et plectentes coronam de spinis, posuerunt super caput eius – “E entrançando uma coroa de espinhos Lha puseram na cabeça” (Jo 19, 1)
Sumário. Depois de terem açoitado a Jesus, os algozes, tratando-O como rei de comédia, atiram-Lhe sobre os ombros um manto de púrpura, colocam-Lhe um caniço na mão, e põem-Lhe na cabeça uma coroa de espinhos, na qual batem fortemente com o caniço, a fim de que penetre mais. O Senhor ficou reduzido a tão triste estado, que Pilatos julgou que comoveria de compaixão os próprios inimigos, só com apresentá-Lo. Contemplemo-Lo também, e pensando que foi tão maltratado por nosso amor, não tenhamos a crueldade de dizer com os judeus: Crucifigatur — “Seja crucificado”.
I. Contemplemos os outros bárbaros suplícios que os soldados infligiram a nosso Senhor já tão atormentado. Instigados, e, como afirma São João Crisóstomo, subornados pelo dinheiro dos Judeus, reúnem ao redor de Jesus toda a corte, põem-Lhe aos ombros um manto vermelho a servir de manto real, nas mãos colocam-Lhe um caniço a servir de cetro e na cabeça um feixe de espinhos a servir de coroa. Os espinhos estavam entrelaçados em forma de capacete, de modo que Lhe cobria a cabeça toda: Et plectentes coronam de spinis, posuerunt super caput eius.
Mas, porque os espinhos com a força das mãos não penetravam bastante na cabeça sagrada, já tão ferida pelos açoites, tomam-Lhe o caniço, e enquanto Lhe escarravam também no rosto, batem com toda a força sobre a cruel coroa, de sorte que rios de sangue corriam da cabeça ferida pelo rosto e sobre o peito. Ah, espinhos ingratos! É assim que atormentais o vosso Criador? — Mas, para que acusar os espinhos? Ó pensamentos perversos dos homens, sois vós que transpassastes a cabeça do meu Redentor.
Eia, minha alma, prostra-te aos pés de teu Senhor coroado; detesta ali os teus consentimentos pecaminosos, e roga-Lhe que te traspasse com um daqueles espinhos, consagrados pelo seu preciosíssimo sangue, a fim de que não o tornes mais a ofender. — Enquanto os bárbaros algozes, juntando o escárnio à dor, o tratam como rei de comédia, d’Ele motejam e o esbofeteiam, tu, pelo menos, reconhece-O pelo Supremo Senhor de tudo, como na verdade é; feito agora Rei de dor por amor dos homens.
II. Voltando outra vez Jesus ao pretório de Pilatos, depois da flagelação e coroação de espinhos, este, ao vê-Lo todo dilacerado e desfigurado, capacitou-se de que comoveria o povo à compaixão, só com mostrá-Lo. Saiu, pois, para a varanda com o nosso aflito Salvador, e disse: Ecce homo — “Eis aqui o homem”. Como se dissesse: Judeus, contentai-vos com o que este inocente tem sofrido até agora; vede a que estado se acha reduzido. Que medo ainda podeis ter que Ele queira fazer-se vosso rei, visto que não pode mais viver? Deixai-O ir morrer em sua casa. Exivit ergo Iesus, portans coronam spineam, et purpureum vestimentum (1) – “Jesus saiu coroado de espinhos e vestido de um manto de púrpura”.
Minha alma, tu também contempla naquela varanda a teu Senhor, ligado e arrastado por um algoz. Vê-O, como ali está meio despido, se bem que coberto de chagas e sangue, com as carnes todas rasgadas, com aquele farrapo de manto purpúreo, que serve tão somente para escarnecê-Lo, e com a cruel coroa que continuamente o atormenta. Vê a que estado se acha reduzido o teu Pastor, para te achar, a ti, sua ovelha perdida.
Ah meu Jesus! Quantos papéis de teatro fazem-Vos os homens representar, mas todos eles de dor e de ignomínia. Ó dulcíssimo Redentor, inspirais compaixão às próprias feras, mais aí não achais piedade! Ouve o que aquele povo responde Crucifige, crucifige eum! (2) — “Crucifica-o, crucifica-o!” Mas, ó Senhor meu, o que dirão no último dia, quando Vos virem na glória, sentado como Juiz num trono de luz? Ai de mim! Jesus meu, houve um tempo em que eu também disse: “Crucifica-o, crucifica-o!” Foi quando Vos ofendi pelos meus pecados.
Agora arrependo-me deles mais que de todos os outros males e amo-Vos sobre todas as coisas, ó Deus de minha alma. Perdoai-me pelos merecimentos de vossa Paixão. — Ó Mãe de dores, Maria, fazei que no dia do juízo eu veja vosso Filho aplacado e não irado para comigo.
Referências:
(1) Jo 19, 5
(2) Jo 19, 6
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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 400-403)

Segunda Meditação para a Segunda-feira Santa - Jesus preso à coluna e flagelado



Segunda Meditação para a Segunda-feira Santa

Tunc ergo apprehendit Pilatus Iesum et flagellavit – “Pilatos tomou então a Jesus e o mandou açoitar” (Jo 19, 1)
Sumário. Contemplemos como os algozes pegam dos açoites e a um sinal dado começam a bater por toda a parte em nosso divino Redentor. Seu corpo virginal primeiro torna-se roxo; depois começa a correr o sangue, e com tão grande abundância, que ficam manchados, não só os açoites, senão também as vestes dos algozes e a própria terra. Pelo que o Senhor ficou transfigurado como um leproso, coberto de chagas desde a cabeça até aos pés. E nós continuaremos a acariciar esta carne rebelde?
I. Vendo Pilatos que falharam os dois meios empregados para não ter que condenar ao inocente Jesus, isto é, a remessa para Herodes e a apresentação ao lado de Barrabás, toma o alvitre de lhe dar um castigo qualquer e depois mandá-Lo embora. Convoca portanto os Judeus e lhes diz:
“Apresentastes-me este homem como um agitador; não acho, porém, n’Ele culpa alguma, nem tampouco a achou Herodes. Todavia para vos contentar mandarei castigá-Lo e depois mandá-Lo-ei embora.”
Ó Deus, que injustiça clamorosa! Declara-O inocente, e depois manda-O castigar!
Mas, qual é o castigo, ó Pilatos, a que condenas este inocente? Vais condená-Lo a ser açoitado? A um inocente infliges uma pena tão cruel e tão vergonhosa? Sim, foi o que se fez. Tunc ergo apprehendit Pilatus Iesum, et flagellavit (1) — “Então Pilatos tomou a Jesus e mandou que O açoitassem.”
— Minha alma, contempla como, depois de uma ordem tão injusta, os algozes agarram furiosos o Cordeiro mansíssimo, e entre gritos e alaridos o levam ao Pretório e o prendem à coluna. E Jesus, que faz Jesus? Todo humilde e submisso, aceita por nossos pecados o tormento tão doloroso e ignominioso. Eis como os verdugos já pegam dos açoites, e ao sinal dado levantam os braços e começam a bater por toda a parte, na carne sagrada do Senhor. — Ó algozes, estais enganados, o criminoso não é Ele; fui eu que mereci esses castigos
Ó minha alma, queres ser do número daqueles que indiferentes contemplam um Deus açoitado? Considera a dor, e mais ainda o amor com que o teu dulcíssimo Senhor padece por ti tão grande suplício. Com certeza, entre os açoites Jesus pensava em ti. Se Ele tivesse sofrido por amor de ti um golpe só, já deverias estar abrasado de amor para com Jesus e dizer: “Um Deus quis ser batido por amor de mim!” Jesus porém quis, para satisfação de teus pecados, que Lhe fossem rasgadas e dilaceradas todas as carnes, segundo a profecia de Isaías: Ipse autem vulneratus est propter iniquitates nostras (2) — “Ele foi ferido pelas nossas iniquidades”
II. O corpo virginal de Jesus primeiro torna-se todo roxo; depois o sangue começa a correr por toda a parte. Ó céus! Os algozes já Lhe rasgaram a carne toda, e sem piedade continuam a bater nas feridas e a ajuntar novas dores. Assim o mais famoso de todos os homens fica tão desfigurado, que impossível é reconhecê-Lo. Numa palavra, Jesus é reduzido a um estado tão lastimável, que parece como que um leproso, coberto de chagas desde a cabeça até aos pés: Et nos putavimus eum quasi leprosum (3) — “E nós o julgamos como que um leproso”. E para que tudo isso? Para me livrar dos suplícios eternos. Desgraçado e infeliz de quem não Vos ama, ó Deus de amor!
Mas enquanto os algozes O açoitam tão cruelmente, que faz o nosso amável Salvador? Não fala, não se queixa, não geme; mas paciente oferece tudo a Deus a fim de abrandá-Lo para conosco. Sicut agnus coram tondente se, sine voce, sic non aperuit os suum (4) — “Como um cordeiro diante do que o tosquia, emudeceu, e não abriu a sua boca”
Ah, meu Jesus, Cordeiro inocente! Os bárbaros algozes Vos Tiram, já não a lã, mas, sim, a pele e a carne. É esse o batismo de sangue pelo qual suspirastes durante a vossa vida toda. Eia, minha alma, lava-te no sangue precioso de que foi embebida aquela terra ditosa. — Meu dulcíssimo Salvador, como poderei duvidar do vosso amor, vendo-Vos todo ferido e dilacerado por meu amor? Cada chaga é uma prova inegável do afeto que me tendes. Cada ferida pede-me que Vos ame. Uma só gota do vosso sangue era bastante para a minha salvação; mas Vós quereis derramá-lo todo sem reserva, a fim de que eu também me dê a Vós sem reserva. Sim, meu Jesus, sem reserva alguma me dou todo a Vós; aceitai-me e ajudai-me a ser-Vos fiel. Fazei-o pelas dores de vossa e minha querida Mãe Maria.
Referências:
(1) Jo 19, 1
(2) Is 53, 5
(3) Is 53, 4
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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 398-400)

domingo, 14 de abril de 2019

Primeira Meditação para a Segunda-feira Santa - Jesus é levado a Pilatos e a Herodes, e posposto a Barrabás



Primeira Meditação para a Segunda-feira Santa

Et vinctum adduxerunt eum, et tradiderunt Pontio Pilato praesidi – “E preso O conduziram e entregaram ao governador Pôncio Pilatos” (Mt 27, 2)
Sumário. Imaginemos ver Jesus Cristo, que em meio de uma multidão de gentalha insolente é conduzido ao tribunal de Pilatos, depois ao de Herodes e afinal novamente ao de Pilatos. Este, para livrá-Lo, apresenta-O ao povo juntamente com um ladrão e assassino; mas o povo responde: Seja livre Barrabás, e Jesus seja crucificado. Ó céus! Todas as vezes que pecamos, fizemos o mesmo, pospondo nosso Deus a um vil interesse, a um pouco de fumo, a um vil prazer.
I. Ao amanhecer, os príncipes dos sacerdotes novamente declaram Jesus réu de morte, e depois conduzem-no a Pilatos, a fim de que este O condene a morrer crucificado. Pilatos, tendo interrogado diversas vezes tanto os Judeus como nosso Salvador, reconhece que Jesus é inocente e que todas as acusações são calúnias. Sai, pois, para fora e declara que não acha em Jesus culpa alguma para condená-Lo. Vendo, porém, que os Judeus se empenhavam sumamente em fazê-Lo morrer, e ouvindo que Jesus era da Galiléia, para tirar-se dos apuros, remisit eum ad Herodem (1) — “devolveu-O a Herodes”.
Herodes ficou muito contente ao ver Jesus levado à sua presença. Esperava ver um dos muitos milagres obrados pelo Senhor e dos quais tinha ouvido falar. Interrogou-O muito, mas Jesus se calou e não lhe deu resposta alguma; castigando assim a vã curiosidade daquele insolente: At ipse nuhil illi respondebat (2). Ai da alma a qual o Senhor não fala mais.
— Meu Jesus, eu também tinha merecido este castigo, por ter resistido tantas vezes às vossas misericordiosas inspirações. Mas, meu amado Redentor, tende piedade de mim e falai-me: Loquere, Domine, quia audit servus tuus (3) — “Falai, Senhor, porque o vosso servo escuta”. Dizei-me o que desejais de mim; quero obedecer-Vos e contentar-Vos em tudo.
Herodes, vendo que Jesus não lhe respondia, desprezou-O e tratando-O como a um doido, fez escárnio d’Ele, mandando-O vestir uma túnica branca, e motejou dele com toda a sua corte, e assim desprezado e escarnecido mandou-O de novo a Pilatos. Eis que Jesus, vestido com aquele manto de escárnio, é levado pelas ruas de Jerusalém.
— Ó meu desprezado Salvador, faltava-Vos ainda esta injúria, a de ser tratado como um doido. Cristão, vede como o mundo trata a Sabedoria eterna! Feliz de quem se compraz em ser considerado pelo mundo como doido, e não quer saber outra coisa senão a Jesus crucificado, amando os sofrimentos e os desprezos! Perante Deus terá mais valor um desprezo suportado em paz por amor d’Ele, do que mil disciplinas.
II. O povo israelítico tinha direito a exigir do governador romano no grande dia da Páscoa que deixasse ir livre um dos prisioneiros. Pelo que Pilatos lhes mostrou Jesus e Barrabás, homem criminoso, dizendo: Quem vultis dimittam, vobis, Barabbam an Iesum? (4) — “Qual quereis que vos solte, Barrabás ou Jesus?” Pilatos esperava que o povo com certeza preferiria Jesus a Barrabás, um celerado, homicida e salteador, que todos deviam detestar. Mas o povo, instigado pelos príncipes da sinagoga, de repente e sem deliberar, pede Barrabás. — Pilatos, surpreso e indignado ao ver um inocente posposto a tão grande malfeitor, diz: Quid igitur faciam de Iesu? — “Que farei então de Jesus?” Todos gritam: “Seja crucificado!” Pergunta outra vez Pilatos: “Mas, que mal fez Ele?” Eles porém gritam com mais força: “Seja crucificado!” Crucifigatur!
Assim como Jesus e Barrabás foram apresentados ao povo, assim também perguntou-se ao Pai Eterno, qual Ele queria que fosse salvo, seu Filho ou o pecador. E o Pai Eterno respondeu: Morra meu Filho e seja salvo o pecador. É o que nos afirma o Apóstolo (5); é o que nos diz Jesus Cristo mesmo: Sic Deus dilexit mundum, ut Flium suum unigenitum daret (6) — “Tanto amou Deus ao mundo, que lhe deu seu Filho unigênito”. — Mas, como é que os homens correspondem a estas supremas finezas do amor?
Ai de mim, meu Senhor! Todas as vezes que cometi o pecado, fiz como os Judeus. A mim também se perguntava o que desejava: a Vós ou ao vil prazer; e respondi: Quero o prazer e pouco se me dá perder o meu Deus. É assim que falei então; mas agora estou arrependido de todo o coração, e digo que prefiro a vossa graça a todos os prazeres e tesouros do mundo. Ó Bem infinito, ó meu Jesus, amo-Vos acima de todos os outros bens; só a Vós quero e nada mais. — Ó Mãe das dores, minha Mãe Maria, impetrai-me a santa perseverança.
Referências:
(1) Lc 23, 7
(2) Lc 23, 9
(3) 1Rs 3, 10
(4) Mt 27, 21
(5) Rm 8, 32
(6) Jo 3, 16
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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 395-397)

sábado, 13 de abril de 2019

Jesus faz a sua entrada triunfal em Jerusalém



Meditação para o Domingo de Ramos

Ecce rex tuus venit tibi mansuetus, sedens super asinam et pullum filium subiugalis – “Eis que o teu Rei aí vem a ti cheio de mansidão, montado sobre uma jumenta e um jumentinho, filho do que está sob o jugo” (Mt 21, 5)
Sumário. Imaginemos ver Jesus na sua entrada triunfal em Jerusalém. O povo em júbilo lhe vai ao encontro, estende seus mantos na estrada e juncam-na de ramos de árvores. Ah! Quem teria dito então que o Senhor, acolhido agora com tão grande honra, dentro em poucos dias teria de passar ali como réu, condenado à morte? Mas é assim: O mundo muda num instante o Hosanna em Crucifige. E não obstante isso somos tão insensatos, que por um aplauso, por um nada nos expomos ao perigo de perdermos para sempre a alma, o paraíso de Deus.
I. Estando próximo o tempo da Paixão, o nosso Redentor parte de Betânia para fazer a sua entrada em Jerusalém. Contemplemos a humildade de Jesus Cristo, que, sendo o Rei do céu, quer entrar naquela cidade montado numa jumenta. — Ó Jerusalém, eis que o teu rei aí vem humilde e manso. Não temas que Ele venha para reinar sobre ti ou apossar-se das tuas riquezas; porquanto vem a ti cheio de amor e piedade para te salvar e dar-te a vida pela sua morte.
Entretanto os habitantes da cidade, que, havia já tempos, O veneravam por causa de seus milagres, foram-Lhe ao encontro. Uns estendem os seus mantos na estrada por onde passa, outros juncam o caminho, em honra de Jesus, com ramos de árvores. — Oh! Quem teria dito que o mesmo Senhor, acolhido agora com tanta demonstração de veneração, havia de passar por ali dentro em poucos dias como réu condenado à morte, com a cruz aos ombros!?
Meu amado Jesus, quisestes fazer a vossa entrada tão gloriosa, a fim de que a vossa paixão e morte fosse tanto mais ignominiosa, quanto maior foi a honra então recebida. A cidade, ingrata, em poucos dias trocará os louvores que agora Vos tributa, por injúrias e maldições. Hoje cantam: “Glória a vós, Filho de Davi; sede sempre bendito, porque vindes para nosso bem em nome do senhor.” E depois levantarão a voz bradando: Tolle, tolle, crucifige eum (1) — “Tira, tira, crucifica-O”. — Hoje tiram os próprios vestidos; então tirarão os vossos, para Vos açoitar e crucificar. Hoje cortam ramos e estendem-nos debaixo de vossos pés; então tomarão ramos de espinheiro, para Vos ferir a cabeça. Hoje bendizem-Vos, e depois hão de cumular-Vos de contumélias e blasfêmias. — Eia, minha alma, chega-te a Jesus e dize-Lhe com afeto e gratidão: Bendictus, qui venit in nomine Domine (2) — “Bendito o que vem em nome do Senhor”.
II. Refere depois o Evangelista, que Jesus chegando perto da infeliz cidade de Jerusalém, ao vê-la, chorou sobre ela, pensando na sua ingratidão e próxima ruína. — Ah, meu Senhor, chorastes então sobre Jerusalém, mas chorastes também sobre a minha ingratidão e perdição; chorastes ao ver a ruína que eu a mim mesmo causava, expulsando-Vos de minha alma e obrigando-Vos a condenar-me ao inferno. Peço-Vos, deixai que eu chore, pois que a mim compete chorar ao lembrar-me da injúria que Vos fiz ofendendo-Vos. Pai Eterno, pelas lágrimas que vosso Filho então derramou por mim, dai-me a dor de meus pecados, já que os detesto mais que qualquer outro mal e resolvido estou a amar-Vos para o futuro, de todo o coração.
Depois que Jesus entrou em Jerusalém, e se fatigou o dia todo na pregação e na cura de enfermos, quando chegou a noite, não houve quem o convidasse a descansar em sua casa; pelo que se viu obrigado a voltar para Betânia. — Santa Teresa considerando certa vez num Domingo de Ramos, naquela descortesia para com o seu divino Esposo, convidou-O humildemente a vir hospedar-se no seu pobre peito. Agradou-se o Senhor tanto do convite de sua esposa predileta, que, ao receber a sagrada Hóstia, afigurava-se à Santa que tinha a boca cheia de sangue vivo e ao mesmo tempo gozava uma doçura paradisíaca.
Também tu, meu irmão, dirige a Jesus, especialmente quando te aproximas da santa comunhão, o convite que venha hospedar-se em tua alma, a fim de não sofrer mais.
— E agora roga a Deus que, “tendo Ele feito Nosso Senhor tomar carne e sofrer a morte de cruz, para dar ao gênero humano um exemplo de humildade para imitar, te conceda a graça de aproveitar os documentos de sua paciência e de alcançar a glória da ressurreição” (3). — Recomenda-te também à intercessão da Virgem Maria.
Referências:
(1) Jo 19, 5
(2) Mt 21, 9
(3) Or. Dom. curr.
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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 392-395)