segunda-feira, 12 de novembro de 2018

QUASE NINGUÉM LEVA SUA CRUZ COMO DEVE


Depois de lida a sentença, os Judeus tomaram a Jesus Cristo, e o levaram para ser crucificado. Ele saindo levou a sua cruz para o lugar do Calvário. E com que amor a recebeu! Como lhe diria “Ó cruz desejada de minha alma!

Tu és o objeto dos meus desejos e dos meus suspiros; vem cá, vem a mim, ó amada minha! Tu és o altar sobre o qual me quero sacrificar, para remir o mundo, dando a vida! Vem cá, recebe-me em teus braços, pois já há trinta e três anos que te procuro com os maiores desejos!...” Jesus Cristo assim receberia a sua cruz pelos grandes desejos que tinha de padecer e morrer por nosso amor.

E com que gosto e alegria levas tu a tua cruz, cristão?

Se estás enfermo, já não queres as dores com que Deus te purifica. Se te contradizem, se te repreendem, se te injuriam ou caluniam, já te inquietas. Não te humilhas, nem sofres com paciência por Deus; vais queixar-te e falar com contra essas pessoas. Se te causam algum dano ou prejuízo nos teus campos, ou nas tuas coisas, também logo te turbas, enches de ira e raiva, e rompes em ralhos e pragas contra quem te deu esse prejuízo temporal, e ao mesmo tempo com a tua alma carregada de pecados, podendo encher-te de merecimentos.

É assim, cristão, como observas o Santo Evangelho? Será isso viver como cristão, e imitar a Jesus Cristo? Ó, grande cegueira! Já que perdes o temporal, não percas também o eterno! Uma vez que tens esse prejuízo, o remédio é sofrê-lo por Deus, e com paciência, e oferecer a Deus essa mortificação. Desta sorte se purifica a tua alma cada vez mais, e adquires grandes merecimentos.

Que mais queres? Não sabes que Deus se serve de umas pessoas para castigar as outras? Não sabes que um pecador, por isso mesmo que é pecador, e se rebelou contra Deus, tudo merece? Não mereces tu por via dos teus pecados quantos castigos se podem dar neste mundo?

Vai conhecendo, que Deus todos os dias te está enchendo de benefícios, e tu nem sequer os conheces, nem lhos agradeces, e porque? Porque tens ainda os olhos da tua alma fechados, ainda te não diriges pela fé. As enfermidades, as dores, os trabalhos, a fome, a sede, o prejuízo nas coisas temporais, tudo isto são graças e benefícios divinos: porque Deus é justo, e o pecador há de ser castigado, ou neste mundo com estas e outras coisas, ou no outro à força do fogo; Porém neste mundo fica mil vezes mais folgado. Logo tudo são graças e benefícios que Deus está fazendo aos pecadores.

Finalmente, a cruz hás de levá-la quer queiras, quer não. Com a diferença que, se sofreres com paciência por Deus, custa-te menos, e ganhas o céu. E se levares a cruz contra a tua vontade, custa-te mais e ganhas o inferno. Portanto sofre tudo por Deus, e oferece tudo a Deus e tem paciência com tudo, para que tudo te sirva de proveito para a tua alma.


Texto retirado da Obra “Missão Abreviada”, do Padre Manoel José Gonçalves Couto.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

AS GRAÇAS, AS VIRTUDES E SEUS EFEITOS E OS VÍCIOS


As graças de Deus e as virtudes são a escada e o caminho para subir ao céu. Os vícios e os pecados, porém, são a escada e o caminho para descer ao inferno. 

Os vícios e os pecados são veneno; as virtudes e as boas obras são remédio.  

Uma graça atrai outra graça; e o vício puxa outro vício.

A virtude não quer ser elogiada, como o vício não quer ser desprezado. Isso quer dizer que o homem virtuoso não procura ser elogiado nem deseja o louvor das pessoas; e o mau não quer ser desprezado nem repreendido. E isso provém da soberba. 

O espírito repousa na humildade. A paciência é sua filha.

Se amares, será amado. Se temeres, será temido. Se servires, será servido. Se te comportares bem com os outros, os outros comportar-se-ão bem contigo. 

Bem-aventurado aquele que ama sem desejar ser amado. Bem-aventurado aquele que teme sem querer ser temido. Bem-aventurado aquele que serve sem querer ser servido. Bem-aventurado aquele que se comporta bem com os outros sem desejar que os outros se comportem bem com ele. Estas coisas são grandes; os tolos não conseguem entendê-las.

Existem três coisas muito grandes e úteis que, possuindo-as, não nos deixarão cair no mal. A primeira é suportar em paz e por amor a Deus todo o sofrimento que aparecer. A segunda, ter grande humildade por tudo que se fizer e receber. A terceira, amar com fidelidade os bens que o olho humano não pode ver.

As coisas mais ridicularizadas e negligenciadas pelas pessoas do mundo são as mais consideradas e veneradas por Deus e por seus santos. E as coisas mais amadas, abraçadas e reverenciadas pelas pessoas do mundo são as mais odiadas, negligenciadas, desprezadas por Deus e por seus santos. Acontece que as pessoas odeiam tudo o que deve ser amado e amam tudo o que deve ser odiado.

Uma vez, Frei Egídio perguntou a um frade: "Tens tu uma alma boa?" Respondeu o frade: "Meu irmão, não sei." Então Frei Egídio disse: "A santa contrição, a santa humildade, a santa caridade, a santa devoção e a santa alegria tornam a alma santa e boa".

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Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Sabedoria de um simples: os ditos do Beato Egídio de Assis. Petrópolis: Vozes, 1997.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Na morte tudo acaba



Dies mei breviabuntur; et solum mihi superest sepulchrum – “Os meus dias se abreviam, e só me resta o sepulcro” (Jó 17, 1)
Sumário. A felicidade da vida presente é comparada por Davi ao sono de um homem que desperta; porque os bens deste mundo parecem grandes, mas em realidade nada são e duram pouco, como pouco dura o sono e logo se evapora. Já que nos temos que separar um dia desses bens, desprendamo-nos de tudo aquilo que nos afasta ou nos pode afastar de Deus, e não deixemos para amanhã o bem que podemos fazer hoje. Por terem procrastinado o bem, quantos se acham agora no purgatório e quiçá no inferno!
I. Davi chama à felicidade da vida presente sonho de um homem que desperta: Velut somnium surgentium (1); porque os bens deste mundo parecem grandes, mas em realidade nada são e duram pouco, assim como pouco dura o sonho e logo se evapora. Este pensamento determinou São Francisco de Borja a dar-se inteiramente a Deus.
O Santo foi encarregado de acompanhar à Granada o corpo da imperatriz Isabel. Quando abriram o caixão, o aspecto horrível e o mau cheiro do cadáver afugentaram toda a gente. Mas Francisco, guiado pela luz divina, deteve-se a contemplar naquele cadáver a vaidade do mundo e exclamou fitando-o:
“Sois vós então a minha imperatriz? Sois vós aquela diante de quem se prostravam respeitosos tão notáveis personagens? Ó Isabel, minha senhora, que é feito da vossa majestade, da vossa beleza?”… “É, pois, assim”, concluiu consigo, “que terminam as grandezas e coroas da terra! Quero para o futuro servir um senhor que me não possa ser roubado pela morte.”
Desde então consagrou-se inteiramente ao amor de Jesus crucificado, fazendo voto de abraçar o estado religioso, o que depois executou entrando na Companhia de Jesus.
Tinha, portanto, razão certo homem desiludido quando escreveu estas palavras sobre um crânio: Cogitanti vilescunt omnia — “Tudo se afigura desprezível àquele que reflete”. Quem pensa na morte, não pode amar a terra. Mas porque é que há tantos desgraçados que amam este mundo? Porque não pensam na morte. — Filii hominum, usquequo gravi corde (2) — Pobres filhos de Adão, diz o Espírito Santo, porque não arrancais do coração tantas afeições terrenas que vos fazem amar a vaidade e a mentira? O que aconteceu a vossos pais, acontecer-vos-á também. Habitaram eles essa mesma morada, dormiram nesse mesmo leito, e agora não estão mais aí. O mesmo vos acontecerá igualmente.
II. Meu irmão, cuida em dar-te sem demora todo inteiro a Deus, antes que a morte chegue, não deixes para amanhã o que podes fazer hoje, porque o dia presente passa e não volta mais, e amanhã pode vir a morte que nada mais te deixará fazer. Por causa dessas procrastinações, quantos estão agora no purgatório, e quiçá no inferno? Liberta-te quanto antes do que te afasta ou te pode afastar de Deus. Abandonemos pelo afeto os bens terrestres, antes que a morte no-los venha arrancar à força. — Beati mortui qui in Domino moriuntur (3). Felizes aqueles que, ao morrer, se acham já mortos para as afeições do mundo! Longe de recearem a morte, desejam-na e abraçam-na com alegria, pois, em lugar de os separar dos bens que amam, une-os ao soberano Bem, que é o único objeto do seu amor e que os tornará eternamente felizes.
Meu amado Redentor, agradeço-Vos o terdes esperado por mim. Que seria de mim, se me tivésseis deixado morrer quando estava longe de Vós? Seja sempre bendita a vossa misericórdia e a paciência que durante tantos anos me dispensastes. Agradeço-Vos a luz e a graça com que hoje me favoreceis. Então não Vos amava e pouco se me dava ser amado de Vós. Agora Vos amo de todo o coração, e não sinto maior pena do que a de haver desagradado tanto a um Deus tão bom.
Meu doce Salvador, porque não morri mil vezes antes de Vos ter ofendido! Tremo só ao pensar que no futuro Vos posso ofender ainda. Fazei-me morrer da morte mais cruel, antes que eu perca de novo a vossa graça. Fizestes-me tantas graças que não pedia, que já não receio me negueis a que Vos peço agora. Não permitais que Vos perca; dai-me o vosso amor e nada mais desejo. — Maria, minha esperança, intercedei por mim.
Referências:
(1) Sl 72, 20
(2) Sl 4, 3
(3) Ap 14, 13

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 322-324)

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

A recompensa da Fé e da oração



A recompensa de São João Damasceno 

 

Este santo, vingador das santas imagens contra os ímpios iconoclastas, foi condenado por Leão Isauro a ter a mão direita decepada.

Logo depois dessa bárbara execução, João foi prostrar-se diante da imagem de Maria, seu recurso ordinário, com o fim de oferecer a Deus, por Maria, seus sofrimentos. Confiado no seu poderosíssimo auxilio, disse a Maria:

"Sabeis, ó Virgem Santa, qual foi o motivo por que me cortaram a mão. Ela era sagrada a vosso serviço. s Rainha dos anjos e dos homens, se não for contrário à vontade de Deus, vossa intercessão me pode restituir de novo a minha mão, a qual, mais do que antes, será vossa".
Enquanto assim rezava, sentiu as dores diminuírem de intensidade até desaparecerem. Durante um sono reparador, Maria restituiu-lhe a mão, pedindo-lhe que escrevesse sempre em defesa da Igreja. Ao redor do pulso, ficou apenas uma simples linha vermelha, como para servir de testemunho da autenticidade do milagre. Tal prodígio, Maria o fez em favor de um homem que, pelas suas palavras e por seus escritos, defendia o culto das santas imagens.

("Maria ensinada à mocidade" - Livraria Francisco Alves, 1915)

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Dia dos Fiéis Defuntos - História e significado.


Em todo o mundo, a Igreja Católica celebra o “Dia dos Fiéis Defuntos” em 2 de novembro. Nessa data, missas são especialmente celebradas na intenção dos falecidos, em cemitérios e nas igrejas e capelas.


É um dia propício para rezar pelos fiéis defuntos e também para meditar sobre os novíssimos do homem.

O costume de rezar pelos mortos existe desde os primórdios do Cristianismo, e foi conservado pelas comunidades Cristãs. A criação da data deve-se a Santo Odilon, ou Odílio, abade do mosteiro beneditino de Cluny, na França (no século XIII, 998 dC), que supôs que, do mesmo modo que havia um dia para a celebração de "Todos os Santos" (1º de Novembro), devia haver também um dia dedicado à celebração de todos os fiéis falecidos que não estavam colocados na lista dos Santos canonizados pela Igreja. Então, ele determinou que os monges rezassem por todos os mortos, conhecidos e desconhecidos, religiosos ou leigos, de todos os lugares e de todos os tempos. Quatro séculos depois, o Papa, em Roma, na Itália, adotou o dia 2 de novembro como o Dia dos Fiéis Defuntos.

A Igreja oficializou a celebração em 1311, e, em 1915, o Papa Bento XV estendeu a solenidade a toda a Igreja. Mas desde os primeiros séculos, os Cristãos já visitavam os túmulos dos Mártires para rezar por eles e por todos aqueles que um dia fizeram parte da comunidade primitiva.

Santo Isidório de Servilha (atualmente tido como "patrono da internet", havendo até uma oração para acessar a rede) chegou a apontar que o fato de oferecer sufrágios e orações pelos mortos é um costume tão antigo na Igreja que pode ter sido ensinado pelos Apóstolos. 


A Doutrina Católica evoca algumas passagens bíblicas que fundamentam a celebração (cf. Tobias 12,12; Jó 1,18-20; Mt 12,32 e II Macabeus 12,43-46), e se apoia em uma prática de quase dois mil anos.
Nota: Os protestantes afirmam que a doutrina da Igreja Católica que recomenda a oração pelos falecidos é desprovida de fundamento bíblico. Segundo eles, a única referência a este tipo de prática estaria em “II Macabeus 12,43-46”, contudo pelo fato de serem “asinus in cathedra” (é um ditado romano, literalmente significa “um asno na cátedra”, mas quer dizer “uma pessoa ignorante querendo ensinar aos outros”), os protestantes não reconhecem a canonicidade deste livro (incongruentes) e nem a legitimidade desta doutrina, porque o Protestantismo não se submete às tradições católicas.


Dia dos Fiéis Defuntos e Purgatório.

O Purgatório faz parte da doutrina escatológica da Igreja e é a condição de purificação pela qual as almas devem passar para apresentarem-se sem mancha diante de Deus. Trata-se de uma intervenção da misericórdia de Deus. A doutrina do Purgatório veio definida no segundo Concílio de Lion, em 1274.

Mas, desde o século 1º, os Cristãos rezam pelos falecidos; costumavam visitar os túmulos dos Mártires nas Catacumbas para rezar pelos que morreram sem martírio. No século 4º, já encontramos a “Memória dos Mortos” na celebração da Missa (no Canon). Desde o século 5º, a Igreja dedica um dia por ano para rezar por todos os mortos pelos quais ninguém rezava e dos quais ninguém se lembrava. Desde o século XI, os Papas Silvestre II (1009), João XVIII (1009) e Leão IX (1015) determinam que se deve dedicar um dia por ano aos mortos. Desde o século XIII, esse dia anual por todos os mortos é comemorado no dia 2 de novembro, porque no dia 1º de novembro é a festa de "Todos os Santos".

O Dia de Todos os Santos celebra todos os que morreram em estado de graça e não foram canonizados. O Dia dos Fiéis Defuntos celebra todos os que morreram não estando em estado de graça total, mais precisamente os que se encontram em estado de purificação de suas faltas e, assim, necessitam de nossas orações.

A Festa dos Fiéis Defuntos, embora se trate de uma festa do Cristianismo, tornou-se um feriado cívico com o nome de Dia dos Finados. "Tem diferença?" - você perguntaria. Adentrando-se a fundo no significado e na origem das palavras, podemos notar que há sim uma diferença, e relevante. A palavra “finado” significa, em sua origem, “aquele que se finou”, ou seja, que teve seu fim, que se acabou, que foi extinto. A palavra “defunto”, por sua vez, originada do latim, era o particípio passado do verbo "defungor", que significava “satisfazer completamente, desempenhar a contento, cumprir inteiramente uma missão”. Mais tarde, foi utilizada e difundida pelo Cristianismo para dizer que “uma pessoa morta era aquela que já havia cumprido toda a sua missão de viver”. Modernamente, porém, tornou-se sinônimo de “cadáver”.

O Dia dos Fiéis Defuntos, portanto, é o dia em que a Igreja celebra o cumprimento da missão das pessoas queridas que já faleceram, através da elevação de preces a Deus por seu descanso junto a Ele.

No Brasil o costume de rezar pelos mortos nesse dia foi trazido pelos católicos portugueses. As igrejas e os cemitérios são visitados, os túmulos são decorados com flores, e milhares de velas são acesas.


O que acontece segundo as Escrituras com os seres humanos na hora da morte.

No livro de Hebreus 9.27 se lê que após a morte segue-se o juízo. E Jesus contou sobre a situação dos mortos Lc 16.19-31. Nessa parte bíblica destacamos quatro ensinos de Jesus: a) que há consciência após a morte; b) existe sofrimento e existe bem estar; c) não existe comunicação de mortos com os vivos; d) a situação dos mortos não permite mudança. Cada qual ficará no lugar da sua escolha em vida. Os que morrem no Senhor gozarão de felicidade eterna (Ap 14.13) e os que escolheram viver fora do propósito de Deus, que escolheram o caminho largo (Mt 7.13-14) irão para o lugar de tormento consciente de onde jamais poderão sair.


Reze pelos fiéis defuntos, sobretudo por aqueles que já foram esquecidos

A depositária das recordações



"Não é grata ao coração dos mortos, não é consoladora essa reconstituição, pelo pensamento, da família, que a morte dis­persou.
Mãe! esse filho que morreu em teus braços, a esta hora é o amigo, o irmão o companheiro de teu anjo da guarda perto de ti, a teu lado talvez; ele te diz baixinho: Não chores, mãe, eu sou feliz!
Filho! tua mãe, teu pai, mortos na paz do Senhor, são como outrora, embora de um modo invisível, teu guia, teu conse­lheiro, teu defensor!
Amigos, irmãos, esposos! aquele que o bom Deus chamou a si, não cessa de vos amar: mais puro com a expiação do pur­gatório, mais amante pela sua união com Deus, no Céu ele será para convosco tudo o que era na terra, e ainda mais clara e poderosamente!
Nutri-vos destas ideias, pobres almas aflitas; os sentimentos que elas desper­tarem suavizarão a amargura de vossa dor. Se tais sentimentos perseverarem, se fi­zerem permanência em vossa vida, oh! como os dias vos correrão tranquilos! Mas, ah! o sentimento é de sua natureza passageiro: tanto mais impressionável quanto mais delicado, o coração também vê apagarem-se, pouco a pouco, suas im­pressões substituídas por outras. Os ves­tidos do luto ficam durante algum tempo a avivar nossas recordações queridas, mas esses vestidos se deixam, e com eles aliviam-se primeiro e depois desaparecem também as lembranças.
Pobre natureza humana! a Igreja bem o conhece, e, não querendo que nos tor­nemos esquecidos, constituiu-se, em nome de Deus, a depositaria das recordações de nossos mortos.
Vejamos o que ela fez.
Consagrou um dia inteiro todos os anos, à oração pelos finados. Nesse dia, reveste-se de todas as suas pompas fúne­bres e nos conduz todos ao cemitério a olhar mais uma vez o túmulo dos nossos mortos.
Quis que um dia de cada semana, a segunda-feira — fosse especialmente con­sagrado a sufragar os falecidos, e, em muitas Ordens religiosas, junta-se nesse dia ao Ofício canônico — o dos mortos.
Dispôs que no fim de cada Ofício, isto é, sete vezes por dia, todos os sacerdotes e religiosos tivessem uma lembrança em favor dos mortos e rogassem a Deus para eles o descanso e a paz.
Instituiu aniversários, a fim de que as famílias viessem regularmente, todos os anos, ajoelhar-se ao pé do altar para pe­dir de um modo particular por seus de­funtos.
Determinou que todas as manhãs, no santo sacrifício da Missa, houvesse uma recomendação e um memento especial pelos mortos.
Concedeu indulgências particulares às orações pelos defuntos, e permitiu que se aplique em favor deles grande número de indulgências ganhas por orações e boas obras.
Aprova, sustenta e acoroçoa[‡] a funda­ção das confrarias consagradas ao cuida­do dos mortos.
Vós que praticais o culto dos mortos, amai a Igreja que tem a missão de con­servá-lo em vossos corações!
Aquele que não vai mais à Igreja, esquece depressa os mortos!"

Vide: Dia 6 - http://precantur.blogspot.com.br/2012/11/novembro-mes-das-almas-do-purgatorio.html.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Como surgiu o “Santa Maria, rogai por nós”

Nossa Senhora e o Concilio de Éfeso

A história da Ordem do Carmo é cheia de riquezas. Seu fundador, Santo Elias, 400 anos antes de Nosso Senhor Jesus Cristo, já venerava a Mãe de Deus que iria nascer.

Afirmava São Epifânio que já na primeira metade do século IV, existia uma associação de mulheres cristãs que prestavam um culto a Maria Santíssima.Vemos na história quantos Santos tiveram grande devoção à Mãe de Deus, e que muitos a conheciam como Santa Maria.

Porém, foi depois do Concílio de Éfeso, realizado no ano de 431, por convocação do Papa Celestino I, que surgiu um culto litúrgico em honra à Mãe de Deus.

O Concílio de Éfeso foi convocado para combater as heresias do Pelagismo e Nestorismo, dirimindo equívocos sobre a Doutrina Cristã, ao mesmo tempo em que definia uma sublime prerrogativa de Maria e o seu verdadeiro posicionamento na economia da salvação, culminando por decretar o Dogma de SUA Maternidade Divina.

Os erros das heresias espalharam-se rapidamente, fazendo muitos adeptos como normalmente acontecia de inicio com todas as heresias. Mas esses erros que versavam sobre a Divindade de Jesus Cristo e a Maternidade de Sua Santa Mãe, foram logo e energicamente combatidos.

São Cirilo, Bispo de Alexandria, foi o Presidente do Concílio em Éfeso, que defendeu dignamente as verdades do cristianismo, contra as investidas herejas.

No dia do encerramento, após a leitura da sentença que condenava os heresiarcas, expressando o pensamento unânime de todos os presentes, foi lido o decreto do Dogma da Maternidade Divina de Maria Santíssima, proclamado e justificado com toda honra, para a maior Glória de Deus. O Papa São Celestino emocionado e com lágrimas nos olhos, ajoelhou-se e respeitosamente saudou-a assim:

“Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amem”

Essa saudação de Sua Santidade, ficou sendo a segunda parte da AVE MARIA, que tem como primeira parte dois trechos. Um formado pelo cumprimento feito pelo Arcanjo São Gabriel a Maria, no dia da Anunciação, em Nazaré:

“Ave Maria, cheia de graça. O Senhor é convosco”.

O outro trecho é constituído pela frase pronunciada por Santa Isabel, prima de Maria, quando a Santíssima Virgem foi a Ain Karin para ajuda-la durante os três últimos meses de gravidez, do qual nasceu São João Batista. Disse Isabel:

“Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre”.

Fonte: “Pelos Caminhos do Amor” – Jusan F. Novaes – 1ª Edição – ano 1983 – Com Aprovação Eclesiástica
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segunda-feira, 29 de outubro de 2018

OS DOIS PARTIDOS: O DE JESUS CRISTO E O DO MUNDO



Meus queridos irmãos e irmãs, há duas categorias que aparecem diante de vocês a cada dia: os seguidores de Cristo e os seguidores do mundo. A companhia do nosso querido Salvador está à direita, escalando uma estrada apertada, tornou tudo mais estreito por causa da imoralidade do mundo. Nosso Mestre conduz o caminho, de pés expostos, coroado com espinhos, coberto com sangue, e onerado com uma pesada cruz. Aqueles que O seguem, embora mais corajosos, são somente uns poucos do mundo, ou porque ao povo falta coragem para segui-Lo em sua pobreza, sofrimentos, humilhações e outras cruzes que Seus servos devem carregar todos os dias de suas vidas.
Na mão esquerda está a companhia do mundo ou do demônio. Essa é ainda mais numerosa, mais imponente e mais conhecida, pelo menos na aparência. A maioria do povo moderno corre para se juntar a ela, todos juntos abarrotados, embora a estrada seja larga e esteja continuamente se tornando mais larga como nunca se viu pela multidão que se derrama como uma torrente. Está espalhada com flores, margeada com todo tipo de distrações e atrações, e pavimentada com ouro e prata.
À direta, os poucos grupos que seguem a Jesus falam a respeito da aflição e penitência, rezam e têm indiferença pelas coisas mundanas. Eles encorajam continuamente uns aos outros dizendo, Agora é hora de sofrer e ficar de luto, viver no retiro e na pobreza, humilhar-se e mortificar-se; por que aqueles que não possuem o espírito de Cristo, que é o espírito da cruz, não pertencem a Ele. Aqueles que pertencem a Cristo crucificaram todas suas paixões e desejos de auto-satisfação. Nós devemos ser verdadeiras imagens de Cristo ou estaremos eternamente perdidos.”
Tenha confiança,” eles dizem uns aos outros. Se Deus está do nosso lado, conosco e diante de nós, quem pode ficar contra nós? Aquele que está conosco é mais forte do que aquele que está no mundo. O servo não é maior do que seu mestre. Essa nossa leve e momentânea tribulação nos trará uma imensa e eterna glória. O número daqueles que serão salvos não é tão grande quanto algumas pessoas imaginam. Somente os valentes e os esforçados arrebatam o céu pela força. Ninguém será coroado sem que haja combatido legitimamente segundo o Evangelho e não de acordo com as máximas do mundo. Vamos lutar com toda nossa força, vamos correr com toda velocidade, que nós podemos alcançar nosso objetivo e obter a coroa. Tais são alguns dos conselhos celestiais com os quais os Amigos da Cruz inspiram uns aos outros.
Aqueles que seguem o mundo, pelo contrário, encorajam-se para continuar em seus maus caminhos sem escrúpulos, chamando uns aos outros, dia após dia, Vamos comer e beber, cantar e dançar, e nos divertir. Deus é bom. Não nos criou para nos destruir. Ele não nos proíbe de nos divertir. Nós não deveríamos ser destruídos por tão pouco. ‘Não morrereis’.
Queridos irmãos e irmãs, lembrem-se que nosso amado Salvador tem Seus olhos em vocês nesse momento, e Ele diz a cada um de vocês individualmente:
“Veja como quase todos Me abandonaram na estrada real da Cruz. Os pagãos em sua cegueira ridicularizam Minha Cruz como loucura; Judeus obstinados são repelidos por isso como um objeto de horror; heréticos destróem e quebram-na em pedaços como algo desprezível. Mesmo Meu próprio povo – e eu digo isso com lágrimas nos olhos e sofrimento em Meu coração – Meus próprios filhos que Eu criei e instruí em Meus caminhos, Meus membros que eu ressuscitei com Meu próprio Espírito, voltaram as costas para mim e Me abandonaram se transformando em inimigos de Minha Cruz.
Vocês também irão embora? Vocês também Me abandonarão fugindo de Minha Cruz como os mundanos, que assim se tornam tantos anticristos? Vocês também seguirão o mundo; a despeito da pobreza de Minha Cruz para procurar então a riqueza; evitar os sofrimentos de Minha Cruz para procurar o divertimento; evita as humilhações de Minha Cruz para seguir então as honras do mundo? Em aparência tenho muitos amigos, que asseguram Me amar, porém, no fundo de seus corações Me odeiam. Eu tenho muitos amigos em Minha mesa, mas muito poucos de Minha Cruz. (Imit. II, 11, 1).”
Nesse apelo apaixonado de Jesus, vamos nos elevar sobre nossa natureza humana; não vamos nos deixar seduzir pelos nossos sentimentos, tal como Eva; mas mantenhamos nossos olhos fixados em Jesus crucificado, que nos conduz a nossa fé e nos induz à perfeição (Heb 12.2). Vamos nos separar das práticas do mal do mundo; Vamos mostrar nosso amor por Jesus da melhor forma, isto é, através de todo tipo de cruzes. Reflita bem nessas excelentes palavras de nosso Salvador, “Em seguida, Jesus disse a seus discípulos: Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me.” (Mt 16.24; Lc 9.23).
Carta aos Amigos da Cruz – São Luiz Maria Grignon de Montfort

sábado, 27 de outubro de 2018

Na hora da tentação: recorre a Maria!


Muitos de nós somos tentados e na hora da tentação, muitas vezes não sabemos muito o que fazer. Neste texto, o Padre David Ardito nos ensina algo simples e eficaz: recorrer à intercessão da Santíssima Virgem Maria, nossa Mãe Celeste

Se o receio de não perseverar no bem é capaz de nos inquietar e perturbar nos períodos de paz e de tranquilidade espiritual, quanto mais facilmente o faz no momento doloroso e terrível da tentação.

Quando nos encontramos em luta com o nosso mais traiçoeiro inimigo, quando o mundo, os sentidos, as criaturas nos atraem e procuram arrastar-nos para longe de Deus, que luta, que atroz agitação para a alma que não quer sucumbir e está prestes a fazê-lo! Com que terrível força de sedução e de falsidade o demônio sopra ao ouvido da nossa perturbada consciência a insidiosa palavra: é impossível, és fraca demais, não poderás resistir!

Às vezes, esta palavra é poderoso incentivo para o pecado, é o que dá o último empurrão à alma e a faz cair. Se em vez de titubear, ao ouvir a insinuação do inimigo, reagisse prontamente e se dispusesse a repeli-lo; se nesse momento se lembrasse de que no céu tem Mãe poderosa; se n'Ela confiasse, recorrendo como filha a seu todo poderoso patrocínio, acharia n'Ela força, perseverança, vitória.

Recordemo-nos bem: a hora da tentação deve ser, mais que as outras, a de uma terna e ilimitada confiança em Maria.

Da nossa Mãe do céu recebemos o auxílio nessa hora terrível e dolorosa, se a Ela quisermos recorrer sem demora, com sinceridade e com fé.



Recorrer a Maria sem demora 
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A história da primeira culpa no Éden repete-se quase todas as vezes que uma alma cai no pecado. Recordai a queda de Eva. O tentador aproxima-se dela: antes de mais nada, dirige-se aos sentidos, que sabe serem impressionáveis e mostra o fruto proibido. Incauta, ela olha. Nunca o havia fitado e agora lhe parece belo e despertam a vista e os sentidos. Depois o astuto começa com ela uma discussão: “Por que vos proibiu Deus comer esse fruto?”. O pérfido bem sabe por que, mas vai preparando a cilada. Eva deveria ter recusado discutir com a serpente, mas sempre incauta, aceita a discussão. O inimigo prossegue afoito: “Ah! Deus vo-lo proibiu, porque, comendo-o, ficaríeis iguais a Ele”. Observai bem o que se deu: um olhar para um fruto proibido, uma pergunta insidiosa, uma discussão e logo o doloroso epílogo da queda. Quantas vezes ainda acontece o mesmo! Do nosso lado, falta de presteza no fugir; do outro, uma mentira do demônio que promete a felicidade no pecado; e é sempre a mesma a história de todas as tentações e de todas as culpas. E depois do pecado? A inquietação, a perturbação, o remorso.

Não tardemos, pelo amor de Deus, quando nos assalta a tentação; não imitemos por descuido a Eva no discutir com o demônio! Se o fizermos, mais cedo ou mais tarde estamos perdidos. Pelo contrário, voltemo-nos logo para Maria pedindo socorro, e do céu Ela nos ajudará. Oh! Também os santos quantas vezes se acharam em perigo de pecar! Por quantas tentações se viram assaltados! Quem os tornou tão firmes no bem? Quem os fez vencer o demônio, constantes como foram na luta e na vitória? Maria, que prontamente invocaram; Maria, que fielmente os rodeou e acompanhou com exército em ordem de batalha: ut castrorum acies ordinata [Ct. VI, 3.]. Não havemos de fazer outro tanto? Pretenderemos ser socorridos pela Virgem sem Lhe ter pedido a proteção ou só a pediremos quando o demônio já tiver ganho terreno?



Recorrer com sinceridade
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Para mereceres, porém, o auxílio de Maria, deveis invocá-La cheios da firme e resoluta vontade de fugir ao pecado e animados por fervente desejo de que Ela deveras obtenha para vós força na tentação e perseverança na virtude. Talvez pareça estranho esse aviso, mas na verdade não o é. Quantas vezes na tentação acontece rezarmos, sim, mas sem fervor, distraídos, sem a vontade resoluta que leva a odiar o pecado e sem o horror que é a primeira e indispensável condição para dele sempre nos mantermos afastados! Há almas que, segundo a palavra do Espírito Santo, querem e não querem ao mesmo tempo, ou melhor, que em vez de sincera vontade apenas têm uma veleidade. Bem sabemos que em certos momentos a tentação é forte e insistente, o mal fascina os sentidos, o coração, a inteligência, a imaginação; as paixões tornam-se cúmplices poderosas do demônio e tudo parece conjurar-se contra nossa débil vontade. Nesses momentos, não é fácil à alma dar-se conta do horror e da repulsa explícita que deve ter pelo pecado. Está agitada por forte tempestade; tudo a arrasta para o mal e ela se vê no estado que tão bem descreve São Paulo ao exclamar: “Sinto uma lei nos membros que se opõe à lei do espírito e me faz escravo da lei do pecado, a qual está nos meus membros” [Rom. VII, 23]. Mas assim como o Apóstolo não perde a firme vontade de resistir a essa lei de pecado e de morte, também a nossa alma deve nesses momentos reunir todas as forças de sua vontade para sinceramente se voltar para a Mãe do céu, que é cheia de graça ou antes a própria Mãe da graça divina, para que Ela a ampare e ajude no perigo e no combate.

Costumava dizer um grande Santo que, quando à hora da tentação uma alma invoca sinceramente Maria, por mais que lhe continuem no coração a dúvida e o receio de ter caído, deve absolutamente convencer-se de que não cedeu ao inimigo: porque, concluía, não é possível crer que Maria não a tenha socorrido e que o demônio tenha vencido.

Longe, portanto, de hesitar ou dar à tentação ensejo de ir ganhando terreno em nosso coração, invoquemos a Virgem Santíssima com toda a sinceridade, apelemos para todas as nossas energias espirituais, dirijamos-Lhe uma oração não frouxa e sem convicção, mas animada pelo desejo ardente de fugir ao pecado. Experimentaremos então os efeitos do seu poder e da sua bondade.


Recorrer com fé 

Mais uma condição tem de satisfazer o nosso recurso a Maria na hora da tentação: deve ser confiante. Para aumentar em nós essa confiança, reflitamos no que diz São Luís [Maria Grignion] de Montfort: “Pode um homem defendido por um exército de cem mil soldados, temer o inimigo? Pois bem, um fiel servo de Maria, defendido por sua proteção e por seu imperial poder, ainda menos tem que recear. Esta boa Mãe e poderosa Princesa do céu enviaria legiões de milhões de anjos para socorrer um dos seus filhos, mas nunca deixaria dizer que um servo fiel que n'Ela confiou pôde sucumbir por causa da malícia, do número, da força dos seus inimigos” [Tratado da Verdadeira Devoção, Parte II, c. II.]. Ao recorrer a Maria e invocar-Lhe a proteção, lembremo-nos de que Ela é a Torre de Davi, contra a qual em vão se enfurecem os demônios. Quantos, refugiando-se nessa torre, conseguiram defesa e salvação! Santa Justina era uma virgem de pureza ilibada; o demônio experimentou todos os meios para arrastá-la ao pecado. Ela, porém, não perdia o ânimo; abrigada nos muros dessa inabalável fortaleza, sentia-se forte e potente do próprio poder de Deus. São Martiniano viu-se no meio das mais terríveis seduções. São Luís, rei de França, viveu nas grandezas do trono. A São Francisco de Sales armaram perigosa cilada alguns jovens sem moral que lhe queriam derrubar a virtude. Como triunfaram esses santos? Não sofreram mal nenhum, pois tinham posto toda a confiança em Maria.

Por que, pois, não os havemos de imitar invocando com fé a proteção e o auxílio de nossa Mãe do céu quando mais necessário o sentimos e mais próximo está o perigo de cairmos no pecado?

Num belo dia de primavera, de céu límpido, toda florida a natureza, um pequenino divertia-se a colher flores num prado. A mãe estava sentada não longe dele. Mas quando as mãozinhas se estendiam para apanhar entre as flores uma rosa silvestre, eis que lívida serpente sai da moita e olha fixamente para o menino. Aterrado, ele dá um grito: Mamãe! Mamãe, socorro! Dum salto, ei-la de pé, corre logo à moita e esmaga com o pé a cobra venenosa. Ainda apavorado mas salvo, o pequenino agarra-se ao colo da mãe amorosa e beija-a com amor e viva gratidão.

É outra cena que mil vezes se repete: a venenosa serpente do mal se esconde entre ervas e flores, surge onde menos é esperada, mais insidiosa e fatal por isso mesmo.

Queremos evitar-lhe a picada e o veneno? Imitemos a criancinha no prado, voltemo-nos logo para a Mãe boa e poderosa que temos no céu.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Maria Santíssima suaviza a morte dos seus devotos

Non tanget illos tormentum mortis – "Não os tocará o tormento da morte" (Sap. 3, 1).

Sumário. Desde o grande dia em que a Santíssima Virgem teve a felicidade e ao mesmo tempo a dor de assistir no Calvário à morte de Jesus Cristo, tornou-se protetora especial dos pobres moribundos. Quando a divina Mãe vê um seu devoto nestes extremos, ordena a São Miguel que o defenda contra os assaltos do demônio e ela mesma também vai assisti-lo e socorrê-lo. Avivemos, pois, a nossa devoção para com Maria, e, ainda que pecadores, esperemos que também nós havemos de gozar da sua proteção na hora de nossa morte. Oh! Que doce consolação morrer entre os braços de Maria!

I. Os amigos do mundo não deixam o amigo enquanto está em prosperidade; mas se vem a cair em alguma desgraça, e especialmente à hora da morte, logo os amigos o deixam. Não faz assim Maria com os seus devotos. Nas suas angústias, e em particular nas da morte, que são as maiores que se pode ter na terra, nossa boa Mãe não sabe desamparar os seus fiéis servos. Assim como ela é nossa vida no tempo de nosso desterro, assim também quer ser doçura na hora suprema, alcançando para nós uma morte doce e preciosa, pelo que a Igreja lhe conferiu o belo título de Auxilio dos agonizantes.

Desde o grande dia em que Maria teve a felicidade, e ao mesmo tempo a dor de assistir à morte de Jesus seu Filho, que foi a cabeça dos predestinados, adquiriu a graça de assistir também a todos os predestinados na sua morte. E por isso, como diz São Boaventura, ela manda que o arcanjo São Miguel vá com outros espíritos celestiais defender seus filhos moribundos das tentações do demônio e receber suas almas a fim de as levar ao tribunal divino.

E não contente com isso, nossa piedosa Rainha, como prometeu à Santa Brígida, virá ela mesma e muitas vezes visivelmente assistir a todos os devotos que a serviram fielmente e se-lhe recomendaram continuamente. Assim, efetivamente, lemos que ela apareceu a Santa Clara de Montefalco, a Santa Teresa de Jesus, a São Pedro de Alcântara e a centenas e milhares de outros. Ó Deus! Que consolação será para um filho de Maria, quando no supremo momento de sua vida, em que se há de decidir a causa de sua eterna salvação, vir ao pé de si a Rainha do céu, para o defender dos assaltos dos demônios e lhe prometer a sua proteção!

II. Quando São João de Deus estava para morrer, esperava a visita de Maria Santíssima, da qual era muito devoto; mas, vendo que ela não aparecia, estava aflito e lamentoso; eis que a divina Mãe lhe aparece e, como que repreendendo-o de sua pouca confiança, lhe diz: "Meu João, não sabes que eu não desamparo os meus devotos na hora da morte?" – Animemo-nos, pois, e tenhamos confiança em que a Virgem virá assistir-nos na hora da morte e consolar-nos com a sua presença, se nós a servirmos com amor, ao menos no tempo de vida que ainda nos resta.

Ó Maria Santíssima, Mãe de bondade e misericórdia, quando me lembro dos meus pecados e penso no momento da minha morte, estremeço de espanto. Ó Mãe terníssima, todas as minhas esperanças são fundadas nos méritos de Jesus Cristo e na vossa intercessão. Ó Consoladora dos aflitos, não me abandoneis então, não deixeis de me consolar nessa extrema aflição. Se agora estou tão atormentado pelo remorso dos pecados cometidos, pela incerteza do perdão, pelo perigo de recair e pelo rigor da justiça divina, que será de mim naquele momento?

Ah, Soberana minha! Antes que a morte chegue, dai-me uma viva dor dos meus pecados, uma verdadeira emenda, e a fidelidade a Deus para o resto de minha vida. E quando soar a hora derradeira, ó Maria, minha esperança, assisti-me nas cruéis agonias em que me achar; sustentai-me para que não me desespere à vista dos pecados que o demônio me há de por diante dos olhos. Obtende-me a graça de vos invocar mais vezes então, a fim de que expire tendo nos lábios o vosso dulcíssimo nome e o vosso divino Filho. Esta graça, vós a tendes feito a muitíssimas almas que vos eram dedicadas; eu a quero e espero para mim também.

"E Vós, ó meu Deus, que quisestes que a Virgem Maria, Mãe de vosso Unigênito, estivesse presente quando Ele estava pregado na cruz pela nossa salvação: concedei-me, suplico-Vos, que, achando-me no fim da vida, também eu seja socorrido pela sua intercessão, e alcance a recompensa eterna. Fazei-o pelo amor de mesmo Jesus Cristo."(1)


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(1) Or. Eccl.

LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 131-133.)

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

MEDITAÇÕES: A Caridade de Maria para com Deus



A Caridade de Maria para com Deus


Diz S. Alberto Magno: Quanto é grande a pureza, é também grande o amor. Quanto mais um coração é puro e vazio de si mesmo, tanto mais cheio é de caridade para com Deus. Assim Maria, sendo sumamente humilde e vazia de si, foi cheia do divino amor e nesse amor excedeu a todos os anjos e homens, como disse S. Bernardino de Sena. Com razão, a chama S. Francisco de Sales Rainha do amor.

1.  Deu o Senhor aos homens o preceito: Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração (Mt 22,37)

Entretanto os homens, diz S. Tomás, não na terra, mas no céu, poderão cumpri-lo perfeitamente. Na opinião de S. Alberto Magno, semelhante preceito, por ninguém cumprido com perfeição, de certo modo teria sido indecoroso ao Senhor, que o decretou, se não houvesse existido sua Santa Mãe que o cumpriu perfeitamente. Tal pensamento é confirmado por Ricardo de S. Vítor: A mãe de nosso Emanuel em todo sentido praticou as virtudes com consumada perfeição. Quem como ela cumpriu o preceito de amar a Deus de todo o coração? Tão intenso era-lhe o incêndio do amor divino, que não restava lugar para a menor imperfeição. De tal modo o amor divino feriu a alma de Maria, observa S. Bernardo, que não lhe deixou parte alguma que não fosse ferida de amor. Deste modo, pois, cumpriu a Senhora perfeitamente o primeiro preceito divino. Bem podia dizer de si: O meu amado é para mim, e eu para ele (Ct 2,9). Até os serafins, exclama Ricardo, podiam descer do céu para aprender no coração de Maria a maneira de se amar a Deus.


2. Deus é o amor (1Jo 4,16) e à terra veio para atear em todos os corações a chama de seu amor.

Mas, como o de Maria, não inflamou nenhum outro. Puro completamente de afetos terrenos, estava ele preparadíssimo a arder nesse bem-aventurado fogo. Daí então as palavras do Pseudo-Jerônimo: Tanto o abrasou o amor divino, que nada de terreno lhe prendia as inclinações. Ardia, completa e totalmente, no amor divino e dele estava inebriado. Sobre esse amor lê-se nos Cânticos: Seus abrasamentos são abrasamentos de fogo, chamas do Senhor (8,6). Fogo e chamas tão somente era, pois, o coração de Maria. Fogo, porque ardia inteiramente pelo amor, como fala um texto atribuído a S. Anselmo. Chamas, porque resplandecia externamente pelo exercício das virtudes. Quando Maria, na terra, trazia o Menino Jesus ao colo, bem se podia dizer dela que era um fogo levando outro fogo. E isso em melhor sentido do que Hipócrates disse um dia de uma mulher que levava fogo na mão. De fato, explica S. Ildefonso, como o fogo encandesce o ferro, assim o Espírito Santo abrasou a Maria, a ponto de manifestar-se a chama do divino amor. S. Tomás de Vila-nova aponta como figura do coração da Virgem a sarça de Moisés, a qual ardia sem se consumir. Com razão, portanto, declara S. Bernardo: A mulher que João Evangelista (Ap 12,1) viu revestida do sol, foi Maria, que esteve tão unida a Deus pelo amor, quanto de tal união podia ser passível uma criatura.

3. Sobre isso apóia-se o pensamento de S. Bernardino de Sena, de que Maria nunca foi tentada pelo inferno

Eis as suas palavras: Assim como de um intenso fogo fogem as moscas, assim do coração de Maria, fogueira de caridade, eram expulsos os demônios, de modo que nem tentavam aproximar-se dele. Lemos o mesmo pensamento em Ricardo de S. Vitor: Os príncipes das trevas de tal maneira temiam a Virgem Santíssima, que nem ousavam chegar-se para tenta-la , porque as chamas de sua caridade os afugentavam. Maria revelou a S. Brígida que no mundo nunca teve outro pensamento, outro desejo, outra alegria, senão Deus. Sua alma bendita gozava de uma contínua contemplação, sendo sem conta os atos de amor que fazia, escreve o Padre Suárez. Mais ainda me agrada este pensamento de Bernardino de Busti: Maria não vivia repetindo atos de amor, à maneira dos santos; mas, por singular privilégio, lhe foi a vida um ato único e contínuo de amor de Deus. Qual águia real conservava os olhos fitos no sol divino, de modo que diz Nicolau, monge, nem os trabalhos cotidianos da vida lhe impediam o amor, nem o amor lhe impedia o trabalho. Essa é a razão por que S. Germano vê uma figura de Maria no altar propiciatório, onde o fogo nunca se extinguia, nem de dia nem de noite.

4. Nem mesmo o sono impedia a Mãe de Deus de amar ao seu Criador

Tal privilégio foi concedido aos nossos primeiros pais no estado de inocência, como assevera S. Agostinho. Certamente por isso não foi recusado a Maria, como pensam Suárez e Recupito, abade, com S. Bernardino e S. Ambrósio. Este último afirma: Enquanto o seu corpo repousava, vigiava sua alma. Realizou-se assim na Virgem a passagem dos Provérbios: A sua candeia não se apagará de noite (31,18). Com efeito, enquanto seu corpo bem-aventurado tomava, num ligeiro sono, o necessário repouso, sua alma elevava-se até Deus, diz S. Bernardino; e mesmo no sono praticava a contemplação em grau mais perfeito do que outros quando acordado. Podia, por conseguinte, dizer com a esposa dos Cânticos: Eu durmo, mas meu coração vigia (5,2). Tanto adormecida como acordada, era feliz a Virgem, diz-nos o Padre Suárez. Em suma, repete S. Bernardino, enquanto Maria viveu na terra, estava continuamente amando a Deus; nunca fez, senão o que conhecia ser do agrado de Deus; e amou-o tanto quanto julgou de seu dever amá-lo. Com muito acerto exprime-se por conseguinte S. Alberto Magno: Maria foi cheia de tanto amor que quase não se pode conceber maior em uma pura criatura, nesta terra. Segundo S. Tomás de Vilanova, a Virgem, com sua ardente caridade, de tal modo se tornou formosa e encantou a Deus, que ele, atraído por seu amor, desceu a seu seio, fazendo-se homem. Daí, pois, a exclamação de S. Bernardino de Sena: Eis uma Virgem, que com sua virtude, feriu e arrebatou o coração de Deus.

5. Mas já que Maria ama tanto a seu Deus, nada exige de seus servos senão que o amem, tanto quanto possível

Disse ela uma vez à Bem-aventurada Ângela de Foligno, que havia comungado: Ângela, abençoada sejas por meu Filho, e procura amá-lo quanto puderes. Igualmente falou a S. Brígida: Filha, se queres prender-me a ti, ama a meu Fillho. –Maria não tem maior desejo, do que ver amado seu dileto Filho, que é Deus. Pergunta Novarino por que razão a Santíssima Virgem rogava aos anjos, com a esposa dos Cânticos, que sessem parte ao Senhor do grande amor que lhe consagrava? “Eu vos conjuro, filhas de Jerusalém, que, se encontrardes o meu amado, lhe façais saber que estou enferma de amor” (5,8). Por acaso não conhecia Deus o seu amor? Por que tem ela tanto empenho em mostrar-lhe a chaga que ele mesmo abriu? E Novarino responde que desse modo a Mãe de Deus queria patentear seu amor, não a Deus, mas a nós mesmos, para nos ferir com o amor divino, assim como já estava por ele ferida. Como é toda fogo para amar a Deus, a todos os que a amam e dela se aproximam inflama e torna semelhante a si mesma, observa S. Boaventura. Chama-lhe por isso S. Catarina de Sena a portadora do fogo do divino amor. Portanto, se nós também queremos arder nessa chama bem-aventurada, procuremos sempre estar junto de nossa Mãe, com as orações e os afetos.

Ó Maria, Rainha do amor, a mais amável, a mais amada e a mais amante de todas as criaturas (como vos dizia S. Francisco de Sales), ah! Minha Mãe! Vós ardestes sempre no amor de Deus, dignai-vos, pois, conceder-me ao menos uma centelha desse amor. Vós pedistes a vosso Filho por aqueles esposos, a quem faltava o vinho. E não pedireis por nós, a quem falta o amor de Deus, que somos tão obrigados a ter? Dizei a Jesus: Eles não têm amor. É só o que vos pedimos. Ó minha Mãe, pelo amor que tendes a Jesus, atendei-nos, rogai por nós. Amém.


Fonte: Livro Glórias de Maria - Santo Afonso Maria de Ligório


Visto em: http://vashonorabile.blogspot.com.br/2013/01/a-caridade-de-maria-para-com-deus.html.