sexta-feira, 22 de maio de 2015

Quem deseja a salvação deve temer a condenação

condCum metu et tremore vestram salutem operamiui – “Trabalhai em vossa salvação com medo e tremor” (Phil. 2, 12).
Sumário. Avisa-nos São Paulo que devemos trabalhar em nossa salvação não só com medo, mas com tremor, visto que se trata da eternidade. Se na hora da morte estivermos na graça de Deus, tudo estará seguro: seremos felizes para sempre. Se, ao contrário, a morte nos achar em pecado mortal, com que desespero confessaremos: Desviei-me do caminho e já não há remédio em toda a eternidade! Meu irmão, aproveitemo-nos do aviso. Quem sabe se esta meditação não é para mim o último convite… Quem sabe se não morreremos repentinamente!
I. São Paulo nos previne que devemos trabalhar em nossa salvação não só com medo, mas com tremor; porquanto quem não teme e treme pela sua salvação, não se salvará:Cum metu et tremore vestram salutem operamini. Um rei da Sicília, para fazer compreender a um simples cidadão o receio que o dominava no trono, o mandou sentar à mesa com uma espada suspensa por um fio delgado sobre a cabeça, de modo que, nesta terrível situação, mal podia comer um bocado. Coisa igual se dá conosco: todos nós estamos em semelhante perigo, pois que, de um instante para outro, pode cair sobre nós a espada da morte, da qual depende a nossa eterna salvação.
Trata-se da eternidade. Si ceciderit lignum ad austrum aut ad aquilonem, in quocumpque loco ceciderit, ibi erit (1) – “Se a árvore cair para a parte do sul ou para a do norte, em qualquer lugar onde cair, aí ficará”. Se na morte nos acharmos na graça de Deus, qual não será a alegria da alma, que então poderá dizer: “Tudo está seguro, já não posso mais perder a Deus, serei feliz para sempre!” Mas se a morte achar a alma em estado de pecado, com que desespero não exclamará: “Ergo erravimus! (2) Desviei-me do caminho e para a minha aberração já não há remédio em toda a eternidade!”
Foi este receio que fez o Bem-aventurado João de Ávila, apóstolo de Espanha, dizer quando lhe anunciaram a aproximação da morte: “Oxalá tivesse mais um pouco de tempo para me preparar para a morte!” Foi o mesmo temor que fez o Abade Agathon dizer, posto que morresse depois de longos anos de penitência: “Que será feito de mim? Quem conhece os juízos de Deus?” Santo Arsênio tremia igualmente à vista da morte, e perguntando-lhe seus discípulos a causa, respondeu: “Meus filhos, este temor não é novo em mim, tive-o sem cessar durante toda a minha vida.” Mais que ninguém tremia o santo homem Jó, quando exclamava: Quid faciam, cum surrexerit ad iudicandum Deus?(3) – “Que farei, quando o Senhor se levantar para me julgar? E Quando me interrogar, que lhe responderei?” E tu, meu irmão, que poderias responder a Jesus Cristo se ele te deixasse morrer neste instante e te chamasse perante o seu tribunal?
II. Meu irmão, quem sabe se a meditação que estás lendo, não é o último convite que Deus te faz? Preparemo-nos, portanto, quanto antes para a morte, afim de que não nos colha de improviso. Diz Santo Agostinho que Deus nos oculta o último dia da vida para que estejamos todos os dias preparados para morrer: Latet ultimus dies, ut observentur omnes dies.
Ah, meu Deus, quem houve jamais que me tenha amado mais do que Vós? E a quem tenho eu mais desprezado e injuriado do que a Vós? Ó Sangue, ó Chagas de Jesus, Vós sois a minha esperança. Pai Eterno, não repareis nos meus pecados; olhai as chagas de Jesus Cristo, olhai vosso Filho querido, que morre de dor por amor de mim, e Vos pede que me perdoeis. Arrependo-me, ó meu Criador, de Vos ter ofendido, e sinto-o mais que qualquer outro mal. Vós me criastes para que Vos ame, e vivi como se me tivésseis criado para Vos ofender. Por amor de Jesus Cristo, perdoai-me e dai-me a graça de Vos amar. Outrora eu resistia à vossa vontade; mas agora não quero mais resistir; quero fazer tudo que me ordenardes.
Ordenais-me, ó Senhor, que deteste os ultrajes que Vos fiz; pois bem, detesto-os de todo o coração. Ordenais que tome a resolução de não Vos ofender mais; eis que resolvo antes perder mil vezes a vida do que a vossa graça. Ordenais que Vos ame de todo o coração; ah sim! De todo o coração Vos amo, e não quero amar senão a Vós; de hoje em diante sereis o meu único bem, o meu único amor. Peço-Vos, e de Vós espero obter, a santa perseverança. – Meu Pai, pelo amor de Jesus Cristo, fazei com que eu Vos seja fiel e Vos diga sempre com São Boaventura: Sois o meu bem-amado, o meu único amor:Unus est dilectus meus, unus amor meus. Não, não quero que a minha vida sirva para Vos dar desgosto; quero que me sirva somente para chorar as mágoas que Vos causei, e para Vos amar. – Maria, minha Mãe, vós rogais por todos os que se vos recomendam; rogai também por mim a Jesus. (II 26.)
1. Eccles. 11, 3.
2. Sap. 5, 6.
3. Iob. 31, 14.

Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso

quinta-feira, 21 de maio de 2015

MAIO COM MARIA: DIA 21 - Maria é para os pecadores uma segura esperança

Maria é para os pecadores uma segura esperança

 Maria comparada ao plátano: Eu cresci como o plátano (Eclo 24, 14). A isso bem atendam os pecadores. O plátano oferece agasalho ao viandante que em sua sombra pode repousar, livre dos raios do sol. Também Maria, quando vê acesa contra eles a ira da divina justiça, os convida a refugiarem-se à sombra da sua proteção. Lamentava-se o profeta Isaías em seu tempo, dizendo "Eis aí está que tu te iraste, Senhor, porque nós pecamos...; não há quem se levante e te detenha" (64, 5, 7). Senhor, estais justamente irado contra os pecadores, queria ele dizer: não há quem por nós vos possa aplacar. Assim gemia o profeta, diz Conrado de Saxônia, porque então Maria ainda não era nascida. Mas agora, se Deus está irado contra qualquer pecador e Maria toma à sua conta protegê-lo, ela detém o Filho, para que não o castigue, e salva-o. Ninguém há, continua Conrado, mais apto do que ela para suspender a espada da divina justiça, para que não descarregue o golpe sobre os pecadores. Sobre este mesmo pensamento diz Ricardo de S. Lourenço que Deus, antes de no mundo existir Maria, se queixava de não haver quem o impedisse de punir os pecadores; mas agora é Maria quem o aplaca.


Ó pecador - exclama Basílio de Seleucia - não percas a confiança, mas recorre a Maria em todas as necessidades; chama-a em teu socorro, pois a encontrarás sempre pronta para te valer, porque é vontade de Deus que ela nos valha em todos os nossos apuros. Tem esta Mãe de Misericórdia mui vivo desejo de salvar os pobres pecadores. Por isso vai pessoalmente em busca deles para os ajudar e sabe como reconciliá-los com Deus, se a ela recorrem.
Desejava Isaac comer alguma caça e prometeu a Esaú que o abençoaria, se lha trouxesse. Mas Rebeca queria que esta bênção coubesse a Jacó, outro filho seu. Mandou-o por isso buscar dois cabritos e guisou-os ao gosto de Isaac (Gn 27, 9). Os cabritos são uma imagem dos pecadores e Rebeca, segundo S. Antonio, é figura de Maria. Trazei-me os pecadores, diz a Senhora aos anjos, quero prepará-los, obtendo-lhes contrição e bom propósito, para que se tornem dignos e agradáveis a meu Senhor. Revelou a própria Virgem Santíssima a S. Brígida que não há no mundo pecador tão inimizado com Deus, que se não converta e recupere a divina graça, se a invocar e a ela recorrer. Certo dia a mesma santa ouviu Jesus Cristo dizer a sua Mãe que ela estaria pronta a obter a divina graça até mesmo a Lúcifer, caso este se humilhasse e implorasse seu auxílio. Jamais aquele espírito soberbo saberá humilhar-se para impetrar o socorro de Maria. Fora isso, entretanto, possível, dele tivera a Virgem piedade e o poder de suas preces lhe obtivera perdão e salvação. Mas o que não é possível a respeito do demônio acontece com os pecadores que se dirigem a esta compassiva Mãe.
Figura foi de Maria a arca de Noé. Pois como nela acharam abrigo todos os animais da terra, igualmente sob o manto de Maria encontraram refúgio todos os pecadores, cujos vícios e pecados sensuais os tornam semelhantes aos brutos. Há esta diferença entretanto, observa Pacciucchelli: na arca entraram os brutos e brutos ficaram. O lobo ficou sendo lobo e o tigre ficou sendo tigure. Mas debaixo do manto de Maria o lobo é mudado em cordeiro e o tigre em pomba. Um dia viu s, Gertrudes a Maria com o manto aberto e debaixo dele muitas feras de diversas espécies: leopardos, ursos, etc. Viu também que a Virgem não só não os afugentava, mas antes docemente os recebia e afagava. Entendeu a santa que eles figuravam os míseros pecadores, acolhidos por Maria com afável amor, quando a ela recorrem.
Razão sobejava, pois, a Egídio de Schoenau ao dizer à Santíssima Virgem: "Senhora, não detestais a nenhum pecador, por mais asqueroso e abominável que seja. Se ele implora vossa proteção, nunca deixais de estender-lhe compassiva mão para arrancá-lo do abismo do desespero". Bendito e para sempre louvado seja Deus, que vos fez, ó Maria amabilíssima, tão compassiva e tão benigna até para com os mais miseráveis! Infeliz de quem não vos ama, e que podendo recorrer a vós, em vós não confia! Perde-se quem a Maria não recorre, mas quem jamais se perdeu, depois de implorá-la?

*Grifos meus.
Fonte: Glórias de Maria, Santo Afonso de Ligório
Fonte:

MAIO COM MARIA: DIA 20 - Maria é realmente a esperança dos pecadores

Maria é a esperança dos pecadores



Depois que Deus criou a terra, criou também dois luzeiros. Um maior, isto é, o sol, para que alumiasse de dia. Outro menor, isto é, a lua, para que brilhasse à noite (Gn 1, 16). O sol, diz o Cardeal Hugo, é a figura de Jesus Cristo, de cuja luz gozam os justos que vivem no dia da divina graça. A lua é figura de Maria, por meio da qual são iluminados os pecadores que vivem na noite do pecado. Já que Maria é esta lua propícia aos miseráveis pecadores, se algum miserável, diz Inocêncio III, se acha imerso nesta noite de culpa, que há de fazer? Aquele que perdeu a luz do sol, perdendo a divina graça, volte-se para a lua, faça oração a Maria; dela receberá luz para conhecer a miséria de seu estado e força para deixá-lo imediatamente. Garante-nos S. Metódio que os rogos de Maria converterem continuamente uma quase inumerável multidão de pecadores.
Um dos títulos com que a Santa Igreja saúda Maria, e que muito anima os pobres pecadores, é aquele da Ladainha: Refúgio dos pecadores.


Havia na Judéia, outrora, cidades de refúgio, nas quais os culpados podiam abrigar-se e ficavam a salvo das penas merecidas. Agora já não há tantas cidades de refúgio como antigamente. Só há uma que é Maria Santíssima, da qual foi dito: Coisas gloriosas se tem dito de ti, ó cidade de Deus (Sl 86, 3). Existe aqui uma diferença, porém. Nas antigas cidades de refúgio não havia asilo para todos os culpados, nem para toda sorte de delitos, enquanto que sob o manto de Maria acham refúgio todos os pecadores e toda espécie de delito. Basta que se recorra a ela, para se estar a salvo. Sou cidade de refúgio para todos que a mim recorrem, faz S. Damasceno dizer nossa Rainha. Só se exige que a ela se recorra. "Ajuntai-vos e entremos na cidade fortificada e guardemos aí silêncio" (Jr 8, 14). Esta cidade fortificada, explica S. Alberto Magno, é a Santíssima Virgem fortificada em graça e em glória.
"Guardemos aí silêncio" - a isso observa a Glossa: Já que nós não temos de pedir ao Senhor, basta que entremos nesta cidade, e nos calemos; porque Maria falará e rogará por nós. Exorta por isso Benedito Fernandes todos os pecadores a refugiarem-se sob o manto de Maria, dizendo: Fugi, ó Adão, ó Eva, fugi, ó filhos seus que tendes ofendido a Deus, fugi e refugiai-vos no seio desta boa Mãe. Não sabeis que é ela a única cidade de refúgio e a única esperança dos pecadores? Também nos sermões atribuídos a S. Agostinho, Maria é chamada nossa única esperança.
Da mesma forma exprime-se S. Efrém: Vós sois a única advogada dos pecadores e daqueles que precisam de todo o socorro. Eu vos saúdo como asilo e refúgio no qual ainda podem os pecadores achar salvação e acolhimento. E isto precisamente Davi queria dizer com as palavras: Ele me põe a coberto no escondido do seu tabernáculo (Sl 26,5). E quem é este tabernáculo de Deus, senão Maria, como a chama André de Creta? "Tabernáculo feito por Deus, em que só Deus entrou para cumprir os grandes mistérios da Redenção".
Diz a este propósito o grande padre da Igreja S. Basílio, que o Senhor nos deu Maria como um hospital público, onde se podem recolher todos os enfermos, que são pobres e desamparados de todos os socorros. Ora, pergunto eu, quais são os que mais direito têm a ser admitidos nos hospitais destinados aos indigentes? Não são porventura os mais pobres e mais enfermos? Portanto, quem se achar mais pobre, isto é, mais despido de merecimentos, e mais oprimido das enfermidades da alma, que são os pecados, pode dizer a Maria: Senhora, vós sois o refúgio dos enfermos pobres; não me desampareis. Pois, sendo eu o mais pobre de todos, tenho mais razão para que me aceiteis. Digamos com S. Tomás de Vilanova: Ó Maria, nós, miseráveis pecadores, não sabemos achar outro refúgio fora de vós. Sois nossa única esperança, a quem confiamos a nossa salvação; perante Jesus Cristo sois nossa única advogada, a quem nos dirigimos.
Astro precursor do sol é Maria, nas revelações de S. Brígida. Quer isto dizer: Quando em uma alma pecadora desponta a devoção a Maria, é sinal certo que dali a pouco Deus a virá enriquecer com a sua graça. Para avivar nos pecadores a confiança na proteção de Maria, recorre o glorioso S. Boaventura à imagem de um mar agitado pela tempestade. Os pecadores já caíram da nau da divina graça e são carregados, de todos os lados, sobre as ondas, pelos remorsos de consciência e pelo temor da justiça de Deus, sem luz nem guia. Já estão próximos de perder toda a esperança, prestes a desesperar. Eis que neste momento o Senhor lhes mostra Maria, chamada comumente Estrela do mar, e brada-lhes. Pobres pecadores, que já estais quase perdidos, não desespereis; volvei os olhos para esta formosa Estrela e confiai; pois Maria vos livrará desta tempestade e vos conduzirá ao porto da salvação.
O mesmo diz S. Bernardo: Se não queres ficar submergido das tempestades, olha para a Estrela e chama por Maria para que te socorra. Pois, como diz Blósio, é ela a única salvação de quem ofendeu a Deus, o único refúgio de todos os tentados e atribulados. - Esta Mãe de misericórdia é toda benigna, toda suave, não só para com os justos, mas também para com os pecadores e desamparados. Logo que os vê recorrer a ela, pedindo de coração seu auxílio, prontamente os socorre, acolhe-os e obtém-lhes o perdão de seu Filho. A ninguém desdenha, por mais indigno que seja. A ninguém sonega a sua proteção, a todos consola e, apenas é chamada, já está presente. Com a sua bondade muitas vezes atrai à sua devoção os afastados de Deus e desperta-os da letargia do pecado. Por este meio dispõem-se eles a receber a graça e tornam-se finalmente dignos da eterna glória. De coração compassivo e tão amável dotou o Senhor esta sua filha predileta, que ninguém pode recear recorrer à sua intercessão. Enfim, conclui o piedoso Blósio, não é possível que se perca quem com diligência e humildade cultiva a devoção para com a divina Mãe.
*Grifos meus.
Fonte: Glórias de Maria, Santo Afonso de Ligório
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MAIO COM MARIA: DIA 19 - Maria é a esperança de todos

 "A visitaçãoPintor Domenico Ghirlandaio c. 1491 (Musée du Louvre, Paris).


S. Germano, reconhecendo em Maria a fonte de todo nosso bem e a libertação de todos os males, assim a invoca: Ó Senhora minha, sois a minha única consolação dada por Deus, vós o guia da minha peregrinação, vós a fortaleza das minhas débeis forças; a riqueza das minhas misérias, a liberdade das minhas cadeias, e a esperança da minha salvação. Ouvi as minhas orações, tende compaixão dos meus suspiros, ó minha Rainha, que sois meu refúgio, minha vida, meu auxílio, minha esperança, minha fortaleza!

Tem, portanto, razão S. Antonino ao aplicar a Maria estas palavras da Sabedoria (7, 11): Juntamente com ela me vieram todos os bens. Já que Maria é a Mãe e a dispensadora de todos os bens, diz ele, bem se pode afirmar que todos os homens, especialmente os que vivem no mundo como devotos desta Soberana, juntamente com a devoção de Maria adquiriram todos os bens. Por isso, sem mais restrições, dizia o Abade de Celes: Quem ama Maria acha todo o bem, acha todas as graças e todas as virtudes, porque ela por sua intercessão lhe alcança tudo quanto lhe é necessário para enriquecê-lo com a divina graça. - Ela própria nos faz cientes de ter consigo todas as opulências de Deus, isto é, as divinas misericórdias, para dispensá-las aos que a amam. "Comigo estão as riquezas... a magnífica opulência... para enriquecer os que me amam" (Pr 8, 18, 21). Exorta-nos por isso Conrado de Saxônia a que não retiremos os olhos das mãos de Maria, a fim, de por seu intermédio recebermos os bens que almejamos.

Oh! Quantos soberbos, com a devoção de Maria, acharam a humildade; quantos coléricos, a mansidão; quantos cegos, a luz; quantos desesperados, a confiança; quantos transviados, a salvação! E isto mesmo o profetizou ela, quando proferiu em casa de Isabel aquele seu sublime cântico: eis que já desde agora todas as gerações me chamarão de bem-aventurada (Lc 1, 48). Sim, ó Maria, todas as gerações chamar-vos-ão de bem-aventurada - comenta S. Bernardo - porque a todas tendes dado a vida e a glória; pois em vós acham o perdão os pecadores e perseverança os justos. O piedoso Landspérgio imagina o Senhor falando assim ao mundo: "Homens, pobres filhos de Adão que viveis no meio de tantos inimigos e de tantas misérias, procurai honrar com especial afeto a minha e vossa Mãe; pois eu dei Maria ao mundo para vosso exemplo, para que dela aprendais a viver como é devido. Dei-a como vosso refúgio para que a ela recorrais em vossas aflições. Esta minha filha eu a fiz tal, que ninguém a pudesse temer, nem ter repugnância de recorrer a ela. Exatamente por isso a formei tão benigna e compassiva, que nem sabe desprezar os que a invocam, nem sonegar seus favores a quem a suplica. A todos abre o manto de sua misericórdia e não despede alma nenhuma desconsolada".

Louvada seja, pois, e bendita a imensa bondade de nosso Deus, que nos concedeu esta excelsa Mãe e advogada tão terna e amorosa!

Como são ternos os sentimentos de confiança de um S. Boaventura, tão abrasado de amor para com nosso Redentor e nossa amantíssima advogada, Maria! Ainda que o Senhor me tenha reprovado quanto quiser, exclama o Santo, eu sei que ele não pode negar-se a quem o ama e a quem de todo coração o busca. Eu o abraçarei com o meu amor e sem me abençoar não o deixarei; sem me levar consigo, ele não poderá ausentar-se.

Se mais não puder, ao menos esconder-me-ei dentro de suas chagas, onde ficarei para que me não possa encontrar fora de si. Finalmente, se o meu Redentor, por causa de minhas culpas, me lançar fora dos seus pés, eu me prostrarei aos pés de Maria, sua Mãe, e deles não me afastarei enquanto ela não me alcançar o perdão. Por ser Mãe de misericórdia, nem recusa nem jamais recusou compadecer-se de nossas misérias, e socorrer os infelizes que imploram o auxílio. E assim, senão por obrigação, ao menos por compaixão, não deixará de induzir o Filho a perdoar-me.

Olhai, pois, para nós, concluamos com Eutímio, olhai para nós finalmente com os vossos olhos piedosos, ó Mãe nossa misericordiosíssima! Pois somos servos vossos e em vós temos colocado toda a nossa esperança.

Exemplo


A Santíssima Virgem convida uma virgem na terra para fazer parte do coro de virgens no Céu



S. Gregório Magno, Papa, conta-nos que uma virgem, cha­mada Musa, distinguia-se por uma grande devoção a Nossa Senhora. Achando-se, porém, em grande perigo de perder a sua inocência por causa dos maus exemplos das companheiras, apareceu-lhe certo dia a Mãe de Deus, na companhia de muitos Santos, e assim lhe falou: Musa, não queres entrar para o coro destas virgens? Musa disse que sim e ouviu como resposta da Rainha do céu o seguinte: Pois bem; nesse caso deixa as tuas companheiras e prepara-te; dentro de trinta dias estarás entre as santas virgens» — De fato, Musa deixou suas amigas e trinta dias depois estava para morrer, vitimada por gravíssima enfermi­dade . Outra vez apareceu-lhe a Mãe de Deus chamando-a por seu nome, ao que Musa respondeu: Sim, ó minha Rainha, já vou. Com estas palavras expirou na paz do Senhor.

ORAÇÃO


O Mãe do santo amor, ó vida, refúgio e esperança nossa! Bem sabeis que vosso Filho Jesus Cristo, não contente de constituir-se nosso perpétuo advogado junto ao Eterno Pai, quis ainda que vos empenhásseis junto a ele para impetrar as divinas misericórdias. Ele dispôs que as vossas orações concorressem para nossa salvação, e deu-lhes tanto poder, que alcançam quanto pedem. Eu, miserável pecador, para vós me volto, ó esperança dos miseráveis. Espero, ó Senhora minha, que, pelos mereci­mentos de Jesus Cristo e pela vossa intercessão, me hei de salvar. Assim o espero e confio tanto que, se a minha salvação eterna estivesse na minha mão, certamente eu a poria na vossa. Pois mais confio em vossa misericórdia e proteção, que em todas as minhas obras. Mãe e esperança minha, não me desampareis como eu mereço; olhai para as minhas misérias e movei-vos à piedade, socorrei-me e salvai-me. Confesso que com meus pecados tenho muitas vezes posto obstáculo às luzes e aos socorros que me tendes alcançado do Senhor. Porém vossa piedade para com os miseráveis e vosso poder junto a Deus excedem o numero e a malícia de todos os meus pecados. É patente ao céu e à terra que quem é de vós protegido certamente não se perde.

Esqueçam-me, pois, todas as criaturas, vós, porém, não me esqueçais, ó Mãe de Deus onipotente. Dizei a Deus que eu sou vosso servo; dizei-lhe que vós me protegeis, e serei salvo. Ó Maria, tenho confiança em vós, nesta esperança vivo, e nela quero e espero morrer, dizendo sempre: Minha única esperança é Jesus e depois de Jesus, Maria.

*Grifos meus.

(Livro: Glórias de Maria - Santo Afonso Maria de Ligório)
Fonte:

quarta-feira, 20 de maio de 2015

O Poder de Maria sobre todos os demônios brilhará particularmente nos últimos tempos!

“Deus constituiu não somente uma inimizade, mas ‘inimizades’, não apenas entre Maria e o demônio, mas também entre a descendência da Virgem Santa e a de Satanás. Isto quer dizer que Deus estabeleceu inimizades, antipatias e ódios secretos entre os verdadeiros filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e escravos do demônio: eles não se amam, nem têm qualquer correspondência interior uns com os outros. Os filhos de Belial (Dt 13, 13), os escravos de Satanás, os amigos do mundo (não há diferença), até hoje perseguiram sempre, e perseguirão mais do que nunca, aqueles que pertencem à Santíssima Virgem, como outrora Caim perseguiu seu irmão Abel, e Esaú perseguiu Jacó, figuras dos réprobos e dos predestinados. Mas a humilde Maria alcançará sempre a vitória sobre este orgulhoso.

Essa vitória será tão grande que chegará a esborrachar-lhe a cabeça, onde reside o seu orgulho. Ela descobrirá sempre a sua malícia de serpente, e porá a descoberto as suas tramas infernais. Dissipará os seus conselhos e protegerá, até o fim dos tempos, os Seus servos fiéis contra aquelas garras cruéis.”

“Mas o poder de Maria sobre todos os demônios brilhará particularmente nos últimos tempos, em que Satanás armará ciladas contra o seu calcanhar, ou seja, contra os humildes escravos e pobres filhos, que Ela suscitará para lhe fazer guerra.

Eles serão pequenos e pobres na opinião do mundo, humilhados perante todos, calcados e perseguidos como o calcanhar o é em relação aos outros membros do corpo. Mas, em troca, serão ricos da graça de Deus, que Maria lhes distribuirá abundantemente. Serão grandes e de elevada santidade diante de Deus, e superiores a toda criatura pelo seu zelo ardente. Estarão tão fortemente apoiados no socorro divino que esmagarão, com a humildade de seu calcanhar e em união com Maria, a cabeça do demônio, fazendo triunfar Jesus Cristo.”

[São Luís Maria Grignion de Montfort, Tratado de Verdadeira Devoção à Ssma. Virgem, capítulo 1, artigo II, 2ª consequência, 3, I, Ofício Especial de Maria nos Últimos Tempos, n. 54; edição em *pdf, pp. 50-51.]

terça-feira, 19 de maio de 2015

Aprendei vós também, piedosas mulheres...

Comentário de Sto. Ambrósio sobre Lc.1,39-47


 


Costuma ser admitido por todos que, para se exigir a Fé, deve-se apresentar motivos válidos. Assim o Anjo, ao anunciar os mistérios escondidos, para motivar a Fé, anunciou à Virgem Maria que uma mulher idosa e estéril havia concebido, indicando que Deus pode tudo o que lhe agrada. Quando ouviu isso, não como incrédula diante do oráculo, nem desconfiando do mensageiro, nem duvidando do exemplo, mas alegre pela entrega, religiosa pelo encargo, apressada pelo gozo, parte Maria para a montanha. Para onde parte ligeira, já cheia de Deus, senão para as alturas? A graça do Espírito Santo ignora o peso da lentidão.

Aprendei vós também, piedosas mulheres, como deveis estar atentas a vossas parentas prestes a dar à luz. Maria, que antes vivia só, no retiro da casa, não se atrasou no caminho, nem pelo pudor virginal de sair a público, ou pela lembrança das dificuldades das montanhas, ou do excesso de trabalho. Vai pelas montanhas a Virgem apressada, a Virgem que só pensa no seu dever, esquecida dos incômodos, correndo pela afeição, sem pensar na fragilidade de seu sexo, deixando a sua casa.  

Aprendei, virgens, a não passear de casa em casa, a não se demorarem nas praças, a não alimentarem conversas em público. Maria, em casa lenta, em público apressada, ficou com sua prima três meses.

Vós, virgens, que conhecestes o pudor de Maria, aprendei agora a sua humildade. Ela vem como próxima a seu próximo, jovem à idosa: não apenas veio, mas a cumprimentou antes. Convém, de fato, que quanto mais casta seja uma virgem, mais humilde sejaque ela saiba ser educada com as mais velhasQue seja mestre de humildade quem professa a castidade. É causa da piedade e também norma de doutrina. Mas fica claro, aqui, que a superior veio à inferior, para ajudá-la: Maria veio a Isabel, Cristo a  João

segunda-feira, 18 de maio de 2015

MAIO COM MARIA: DIA 18 - Maria é realmente nossa esperança

Não suportam os hereges modernos que nós saudemos e chamemos a Maria nossa esperança. Dizem que só Deus é nossa esperança, e que ele amaldiçoa quem põe sua confiança na criatura. "Maldito o homem que confia no homem" (Jr 17, 5). Maria é criatura, objetam eles; como, pois, uma criatura há de ser a nossa esperança? Isto dizem os hereges. Entretanto quer a Santa Igreja que cada dia todos os eclesiásticos e todos os religiosos em voz alta, e em nome de todos os fiéis, invoquem e chamem a Maria com este nome de esperança nossa.

De dois modos, diz o Angélico S. Tomás, podemos pôr nossa esperança numa pessoa, como causa principal ou como causa mediante. Quem deseja obter do rei uma graça, espera alcançá-la do rei como soberano senhor, e espera obtê-la do seu ministro ou valido, como intercessor. No último caso a graça concedida veio do rei, mas por intermédio do seu valido. - Portanto, quem pretende a graça com razão chama aquele seu intercessor a sua esperança. Por ser de infinita bondade, sumamente deseja o Rei do céu enriquecer-nos com as suas graças. Mas porque para tanto é necessária da nossa parte a confiança, deu-nos o Senhor, para aumentá-la, sua própria Mãe por advogada e intercessora, e concedeu-lhe plenos poderes a fim de nos valer. Por esta razão quer também que nela coloquemos a esperança de nossa salvação e de todo nosso bem. Sem dúvida são amaldiçoados pelo Senhor, como diz Jeremias, aqueles que põem sua confiança na criatura unicamente. Tal é o procedimento dos pecadores que, em troca da amizade e dos préstimos de um homem, não se incomodam de ofender a Deus. São abençoados pelo Senhor e lhe são agradáveis, porém, os que esperam em Maria, tão poderosa como Mãe de Deus, para impetrar-lhe as graças e a vida eterna. Pois assim quer Deus ver honrada aquela excelsa criatura, que neste mundo o amou e honrou mais do que todos os anjos e homens juntos.

É, portanto, com muita razão que chamamos à Virgem esperança nossa, porque, como diz S. Roberto Belarmino, Cardeal, esperamos pela sua intercessão obter o que não alcançaríamos só com nossas orações. Invocamo-la, observa Suárez, para que a dignidade da intercessora supra a nossa falta de méritos. De modo que, continua ele, invocar a Virgem com tal esperança não é desconfiar da misericórdia de Deus, senão temer pela própria indignidade.

Motivo tem, pois, a Igreja em aplicar a Maria as palavras do Eclesiástico (24, 24), com as quais lhe chama a Mãe da santa esperança, Mãe que faz nascer em nós, não a esperança vã dos bens transitórios desta vida, mas a santa esperança dos bens imensos e eternos da vida bem-aventurada. Salve, esperança de minha alma, saudava-a S. Efrém, salve, ó segura salvação do mundo. Aqui pondera S. Boaventura que, depois de Deus, outra esperança não temos senão Maria e por isso a invoca "como única esperança nossa depois de Deus". Também é esta a convicção de S. Efrém. Reflete o Santo sobre a presente ordem da Providência, com que Deus tem determinado (como diz S. Bernardo e adiante nós demonstraremos largamente) que todos, que se hão de salvar, hajam de o conseguir por meio de Maria. E diz-lhe então: Senhora, não deixeis de guardar-nos e de proteger-nos sob vosso manto, já que depois de Deus não temos outra esperança senão a vós. O mesmo diz S. Tomás de Vilanova, para quem Maria é nosso único refúgio, socorro e asilo. S. Bernardo parece nos dar o motivo de tudo isso, quando diz "Considerai, ó homem, o desígnio de Deus, desígnio cuja finalidade é dispensar-nos mais profundamente sua misericórdia. Querendo ele remir o gênero humano, depositou o preço inteiro da redenção nas mãos de Maria para que o reparta à sua vontade".

Ordenou o Senhor a Moisés que fizesse de outro puríssimo o propiciatório, dizendo que daí lhe queria falar: Farás outrossim um propiciatório de finíssimo ouro... daí é que eu te darei minhas ordens e te falarei (Ex 25, 17 e 22). Na opinião de Pacciucchelli, Maria é este propiciatório de onde o Senhor fala aos homens e concede-nos o perdão, a graça e todos os seus demais dons. Por isso foi que o Verbo Divino, antes de encarnar-se no seio de Maria, mandou o arcanjo pedir-lhe o consentimento; pois Deus queria que a ela ficasse o mundo devendo o mistério da Encarnação. Assim discorre S. Ireneu. Por este motivo diz o Abade de Celes: Todos os bens, todas as graças, os auxílios todos que jamais receberam ou até ao fim do mundo receberão os homens, lhes tem vindo e hão de vir por intermédio de Maria. É portanto mui justa a exclamação do piedoso Blósio: Ó Maria, sois tão amável e agradecida para com os que vos amam; quem será tão louco ou infeliz que não vos ame? Nas dúvidas e confusões ilustrais o entendimento daqueles que a vós recorrem nas suas aflições. Consolais nos perigos aqueles que em vós confiam. Acudis a quem por vós chama; vós, depois do vosso divino Filho, sois a segura salvação de vossos fiéis servos. Salve, pois, ó esperança dos desesperados, ó refúgio dos abandonados. Sois onipotente, ó Maria, visto que vosso Filho quer vos honrar, fazendo sem demora tudo quanto vós quereis.


*Grifos meus.

(Livro: Glórias de Maria - Santo Afonso Maria de Ligório)

MAIO COM MARIA: DIA 17 - Maria é nosso auxílio no tribunal divino

Nossa Senhora recebe Santo Estevão de Hungria no Céu

Quando uma alma está para sair desta vida, diz Isaías, se conturba o inferno todo e manda os demônios mais terríveis a tentá-la antes de sair do corpo e depois acusá-la, quando se apresentar ao tribunal de Jesus Cristo. " O inferno via-se lá embaixo à tua chegada todo turbado, e diante de ti levanta gigantes" (Is 14, 9). Mas Ricardo diz que os demônios, em se tratando de uma alma patrocinada por Maria, não terão atrevimento, nem ainda para acusá-la. Pois sabem muito bem que o Juiz nunca condenou, nem condenará jamais uma alma patrocinada por sua grande Mãe. S. Jerônimo escreve à virgem Estóquio que Maria não só socorre os seus amados servos na sua morte, mas também os vem esperar na passagem para a eternidade, a fim de os animar e de os acompanhar até ao tribunal divino. Ó dia esse, exclama o Santo, em que a Mãe de Deus, rodeada de muitas virgens, há de vir ao teu encontro! E isto se conforma com o que a mesma Santíssima Virgem disse a S. Brígida, referindo-se a seus devotos moribundos: Na hora da morte dos meus servos eu venho, como Senhora e Mãe amantíssima deles, e lhes trago consolo e alívio. Ajunta S. Vicente Ferrer que a bem-aventurada Virgem recebe as almas dos que morrem. Nossa amorosa Rainha acolhe sob seu manto as almas dos seus servos, apresenta-as ao Filho que as deve julgar e obtém-lhes a salvação. Foi o que aconteceu a Carlos, filho de S. Brígida. Morrera na perigosa carreira de soldado, longe da mãe, que por isso mesmo muito temia pela salvação dele. Mas a Santíssima Virgem revelou-lhe que Carlos se havia salvo, pelo grande amor que lhe consagrava, razão por que ela própria o assistira na última hora, sugerindo-lhe todos os atos cristãos necessários no momento. Ao mesmo tempo viu a Santa Jesus Cristo no trono, e viu também que o demônio lhe apresentou duas acusações contra a Santíssima Virgem. Era a primeira que Maria lhe tinha impedido de tentar o moribundo; a segunda, que ela mesma havia apresentado ao Juiz a alma de Carlos e assim a salvara, sem lhe permitir alegar nem ainda os direitos que ele, demônio, possuía.

Seus vínculos são uma atadura de salvação - e nela acharás tu no fim o teu descanso (Eclo 6, 29, 31). Feliz de ti, meu irmão, se na hora da morte te achares preso pelas doces cadeias do amor à Mãe de Deus. Como cadeias de salvação, esses vínculos te assegurarão a tua eterna bem-aventurança, e te farão gozar na morte aquela paz bendita, que será princípio da paz e do repouso eterno. Refere o Padre Binetti no seu livro "A Perfeição", que assistindo ele um grande devoto de Maria à hora da morte, o ouviu dizer antes de expirar: "Ó meu padre, se soubésseis quanto contentamento sinto por ter sido servo da Santíssima Mãe de Deus! Não sei explicar a alegria que sinto neste instante! - Tinha o Padre Suárez muita devoção a Nossa Senhora e costumava dizer que trocaria sua ciência pelo valor de uma Ave-Maria. Ao morrer, tanta lhe era a alegria, que exclamou: Nunca imaginei que fosse tão suave o morrer! O mesmo contentamento e alegria sentirás também tu, devoto leitor, se na hora da morte te recordares de haver amado a esta boa Mãe, a qual não sabe deixar de ser fiel com os seus filhos, que foram fiéis em servi-la e em obsequiá-la, visitando-lhe as imagens, rezando o rosário, jejuando, rendendo-lhe graças com frequencia, louvando-a e encomendando-se a seu poderoso patrocínio.

Não te privará desta consolação a lembrança de teus pecados passados, se de hoje em diante cuidares em viver como bom cristão, servindo a tão grata e benigna Senhora. Verdade é que o demônio há de vir com angústias e tentações para levar-te ao desespero. Mas a Virgem te confortará; virá em pessoa te assistir na hora da morte, como fez a Adolfo, conde de Alsácia. Deixara ele o mundo e entrara para a Ordem dos Franciscanos, onde se tornara, como rezam as Crônicas, um grande servidor de Maria. Estando para morrer, ao pensar no rigor do juízo divino, começou a tremer perante a morte, cheio de receios sobre a sua salvação. Então Maria, que não dorme nas angústias dos seus servos, acompanhada de muitos santos, se apresentou ao moribundo e animando-o lhe disse:Meu caro Adolfo, por que tens medo da morte? Porventura não me pertences? Com estas palavras o servo de Maria se consolou, desaparecendo todos os seus temores e expirou em santa paz e contentamento.

Eia, pois, animemo-nos nós também. Ainda que sejamos pecadores, tenhamos confiança que Maria há de vir assistir-nos na hora da morte, consolando-nos com sua presença, se a servimos com amor durante os dias que ainda nos restam no mundo. Nossa Rainha prometeu um dia a S. Matilde que havia de vir assistir, à hora da morte, todos os seus devotos que a servissem fielmente em vida. Que consolação, ó meu Deus, não será a nossa, quando no último momento da nossa vida, tão decisivo para a causa da nossa salvação, virmos ao pé de nós a Rainha do céu, assistindo-nos e consolando-nos com a promessa de sua proteção! Inumeráveis exemplos da assistência de Maria a seus servos moribundos, além dos já citados, vêm narrados em vários livros. Esse favor foi concedido a S. Félix de Cantalício, capuchinho, a S. clara de Montefalco, a S. Teresa, a S. Pedro de Alcântara. Conta o padre Crasset que S. Maria Ognocense viu a Santíssima Virgem à cabeceira de uma devota viúva de Villembroc, que ardia em febre; e viu-a consolando a doente, refrigerando e aliviando-a em sua febre.

Fechemos este capítulo com um novo exemplo que fala do terno amor desta boa Mãe para com seus filhos na hora da morte.

Exemplo:

A Virgem Santíssima busca um servo seu agonizante e leva-o ao Paraíso


S. João de Deus, estando para morrer, esperava a visita da Santíssima Virgem, de quem era muito devoto. Não a vendo vir, porém, entristeceu-se muito e disso queixou-se com os parentes. Eis que a seu tempo lhe aparece a Mãe de Deus e repreende-o da sua falta de confiança. Diz-lhe em seguida estas meigas palavras, que devem alentar a todos os seus servos: João, não abandono meus servos numa hora como esta! Com isso parecia querer dizer: Que estás pensando, meu caro João? Que eu te havia abandonado? Não sabes então que nunca abandono meus ser­vos, à hora da morte? Não vim mais cedo porque ainda não era tempo; agora, sim, vim te buscar; vamos juntos para o paraíso.— Pouco depois expirava o Santo (t 1550)e voava para o Céu, a dar graças a sua amantíssima Rainha, por toda a eternidade.

ORAÇÃO 

Ó minha Mãe suavíssima, qual será a morte de um pobre pecador como eu? Quando penso naquele terrível momento em que hei de expirar e comparecer ao tribunal divino, tremo e fico todo confuso, e muito duvido da minha salvação eterna, lembrando-me de que eu mesmo escrevi a sentença de minha condenação. 

O Maria, no sangue de Jesus e na vossa intercessão ponho toda a minha esperança. Sois Rainha do céu, a Soberana do universo, numa palavra, sois Mãe de Deus. É verdade que sois muito elevada em dignidade; mas vossa grandeza não vos afasta de nós, senão que faz com que tenhais ainda mais compaixão de nossas misérias. Quando elevados a alguma dignidade, abandonam os amigos do mundo e desprezam seus antigos companhei­ros caídos no infortúnio. Mas vosso coração tão amoroso não procede assim. Mais se empenha em aliviar, onde maiores misérias descobre. Assim que vos invocamos, vindes em nosso socorro: prevenis até nossas preces com vossos favores. Vós nos consolais nas aflições, dissipais as tempestades e venceis os inimigos. Em suma, nunca perdeis ensejo de trabalhar para nosso bem. Bendita seja para sempre aquela divina mão que em vós aliou a tanto amor tanta grandeza, tanta majestade e tanta ternura. Agradeço-o sem cessar ao Senhor e sobre isso me alegro. Pois em vossa felicidade encontro a minha também, e considero minha a vossa ventura. Ó consoladora dos afli­tos , consolai uma alma aflita que a vós se recomenda. Aflito estou por causa dos remorsos de uma consciência tão sobrecarregada de pecados. 

Não sei se os tenho chorado como devia. Vejo todas as minhas obras cheias de defeitos e manchas. O inferno só espera por minha morte para acusar-me; a justiça divina ultrajada quer ser satisfeita. Que será de mim, minha Mãe? Se não me ajudardes, estou perdido. Que dizeis, quereis ajudar-me? Ó Virgem piedosa, consolai- me; obtende-me verdadeiro arrependimento de meus pe­cados, alcançai-me força para emendar-me e ser fiel a Deus nos dias que ainda me restam. E quando eu me achar nas ânsias da morte, ó Maria, esperança minha, não me abandoneis. Então fortalecei-me mais do que nunca e assisti-me para que, à vista de meus pecados relembrados pelo demônio, eu não me entregue ao deses-spero. O Senhora minha, escusai tanta ousadia: vinde vós mesma consolar-me com a vossa presença. A tantos ou­tros já tendes feito semelhante graça. Fazei-a também a mim. Se grande é minha ousadia, ainda maior é vossa bondade, que anda procurando os infelizes para os conso­lar. E nesta que eu ponho minha esperança. Seja vossa eterna glória o haverdes salvo do inferno e conduzido ao vosso reino um pobre condenado. Lá espero depois consolar-me, estando sempre aos vossos pés, dando-vos graças, louvando-vos e amando-vos eternamente. Ó Ma­ria, eu espero em vós; não me deixeis ficar desconsolado. Assim seja, assim seja. Amém.
 
*Grifos meus.
(Livro: Glórias de Maria - Santo Afonso Maria de Ligório)
Fonte:

MAIO COM MARIA: DIA 16 - Maria é nosso conforto na morte



"Aquele que é amigo o é em todo tempo; e nos transes apertados conhece-se o irmão" (Pr 17, 17). Os amigos verdadeiros e os verdadeiros parentes não se conhecem no tempo de prosperidades, mas sim no das angústias e das desventuras. Os amigos do mundo não deixam o amigo, enquanto está em prosperidade. Mas o abandonam imediatamente, se lhe acontece uma desgraça ou dele se avizinha a morte. Tal não é o procedimento de Maria com seus devotos. Nas suas angústias e especialmente nas da morte, que de todas são as piores, essa boa Senhora e Mãe não abandona seus fiéis servos. Como é nossa vida no tempo do nosso degredo, assim também quer ser a nossa doçura no tempo da morte, obtendo-nos um suave e feliz trânsito. Desde aquele dia em que teve a dor e juntamente a felicidade de assistir à morte de Jesus, seu Filho, cabeça dos predestinados, obteve também a graça de assistir na morte todos os predestinados. Por isso a Santa Igreja manda rogar à bem-aventurada Virgem: Rogai por nós, pecadores, agora, e na hora de nossa morte.

Muito e muito grandes são as angústias dos pobres moribundos, já pelos remorsos dos pecados cometidos, já pelo horror do próximo juízo, já pela incerteza da salvação eterna. É então que o inferno lança mão de todas as armas e empenha todas as reservas para ganhar aquela alma que passa a eternidade. Bem sabe que pouco tempo lhe resta para obtê-la e que para sempre a perde, se então lhe escapar. "O demônio desceu a vós cheio de uma grande ira, sabendo que lhe resta pouco tempo" (Ap 12, 12). Costumado a tentá-la durante a vida, não se contenta de ser ele só que a tenta na morte, mas chama companheiros para o ajudarem. "Encher-se-ão as suas casas (de Babilônia) com dragões" (Is 14, 21). Quando alguém está para morrer, entram-lhe pela casa os demônios que à porfia tentam perdê-lo.

De S. André Avelino conta-se que, estando para morrer, vieram muitos demônios para tentá-lo. E de tal modo investiram contra ele, que deixaram horrorizados aos bons religiosos que o estavam assistindo. Viram eles que ao Santo se lhe inchou com grande agitação o rosto, de tal sorte que se fez de todo negro. Viram-no tremer e debater-se. De seus olhos corriam lágrimas e violentos lhe eram os movimentos da cabeça. Tudo sinais da horrível peleja que lhe dava o inferno. Os religiosos choravam de compaixão, redobravam de orações e tremiam de pavor, vendo que assim morria um Santo. Mas consolavam-se em ver que o Santo repetidas vezes movia os olhos para uma devota imagem de Maria, como quem procurava o seu socorro. Vinha-lhes à lembrança a frase na qual ele afirmara que a Mãe de Deus havia de ser o seu refúgio na hora da morte. Enfim, foi Deus servido que terminasse aquele combate com uma gloriosa vitória. Cessadas as convulsões do corpo, desinchado e tornado o rosto à sua cor antiga, viram-no, de olhos tranquilamente fixos naquela imagem, fazer uma devota inclinação a Maria (a qual se crê que então lhe apareceu). como em ação de graças, e expirar placidamente nos braços da Mãe de Deus, tendo no rosto a transfiguração dos eleitos. Ao mesmo tempo uma religiosa capuchinha, agonizante, voltou-se para as que a assistiam e lhes disse então: Rezai a Ave-Maria, porque agora morreu um Santo.

Ah! Como fogem os demônios à presença de Nossa Senhora! Se na hora da morte tivermos Maria a nosso favor, que poderemos recear de todo o inferno? Reanimava-se Davi para as terríveis angústias da sua morte, pondo sua confiança na morte do futuro Redentor e na intercessão da Virgem Mãe. "Pois ainda quando andar no meio da sombra da morte, não temerei males; porquanto tu estás comigo. A tua vara e o teu báculo, eles me consolaram" (Sl 22, 4-5). Pelo báculo entende o Cardeal que foi a vara profetizada por Isaias (11, 1). Esta divina Mãe, diz S. Pedro Damião, é aquela poderosa vara que vence todas as violências dos inimigos infernais. Anima-se por isso S. Antonio, dizendo: Se Maria é por nós, quem será contra nós? - Estando à morte o Padre Manuel Padial, da Companhia de Jesus, apareceu-lhe Maria, que, para consolá-lo, lhe disse: Eis, finalmente, chegada a hora, em que os anjos, congratulando-se contigo, vão dizer! Ó felizes trabalhos, ó bem recompensadas mortificações! E nisso foi visto um bando de demônios que, desesperados, fugiam, gritando: Ai! Que nada podemos, porque, aquela que não tem mancha o defende! Da mesma forma o Padre Gaspar Haywood foi assaltado por uma grande tentação contra a fé. Encomendou-se, porém, sem demora à Virgem Santíssima e ouviram-no exclamar: Sinceros agradecimentos, ó Maria, porque me viestes ajudar.

Como assevera Conrado de Saxônia, a Santíssima Virgem, em defesa dos fiéis moribundos, manda o príncipe S. Miguel com todos os seus anjos, para protegê-los contra as tentações do demônio e lhes receber as almas, com especialidade as daqueles seus servos que se recomendaram continuamente a ela.

*Grifos meus.
(Livro: Glórias de Maria - Santo Afonso Maria de Ligório)

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sábado, 16 de maio de 2015

Revelação a Santo Angelo

Santo Ângelo, um dos mais importantes santos na Ordem do Carmo, enquanto estava no deserto, por um período de cinco anos, em que viveu totalmente solitário, recebeu a seguinte revelação de Nosso Senhor:

“Sabe Ângelo, Servo meu, a cidade de Jerusalém, a Galileia e toda a terra da promissão, Capadócia e Egito, com muitas regiões da Ásia e da África, passados poucos anos, irão de todo ao poder dos Ismaelitas (muçulmanos): as Igrejas, os Templos que tu vês agora, onde se celebram os louvores divinos, serão destruídos. e as cerimônias, costumes e observâncias dos cristãos em tudo, quase serão reduzidos a nada.

E o poder de Maomé e de seus sucessores crescerá sempre mais e atemorizará quase todas as gentes e será com isto amedrontada e molestada toda a Europa, e virá fogo, sangue, ruína e quase total destruição e haverá grande aflição e crescerá o furor e ira sobre os  filhos da ingratidão.

Estas coisas virão pela abominação daqueles que edificam Babilônia, dissipam o Santuário e sustentam o povo da maldade, ódio e rancor e o arrastam à crueldade, desonestidade, malícia e pecado.

Então Santo Ângelo disse:

“Quando, meu Senhor, isso há de suceder?
Cristo respondeu-lhe:

“Quando a Igreja, despojada de seu esplendor jazer como uma viúva: quando a Cadeira do Pontífice Romano seja posta em contradição, quando se levantarem os hipócritas com cor e pretexto de santidade e religião, defraudarem os povos, e a Igreja estiver cheia de seitas, nas quais reinarão a soberba, ambição, luxúria, com todo o esquadrão de seus filhos: quando os príncipes divididos guerrearem e um Bispo estiver contra outro, e as mulheres se tornarem ministras em lugar dos sacerdotes e quase seja tirada toda a paz do mundo, e da discórdia nasça a morte: quando os hereges prevalecerem, e a Fé estiver quase extinta e os seus pregadores se derem a vaidades e loucuras; então meu Eterno Pai mandará o seu furor e permitirá que os filhos da ingratidão sejam atormentados pelos inimigos do meu Nome. Todas estas calamidades lhes sobrevirão por seus pecados.”

E tendo Cristo dito isto, desapareceu aos olhos de Santo Ângelo em uma nuvem alvíssima. (Esta revelação se encontra na vida de Santo Ângelo, escrita por Enoc, Patriarca de Jerusalém.) Deve-nos trazer grande admiração a notícia de que uma profecia como esta, escrita no século XIII esteja se cumprindo tão perfeitamente nos nossos dias. Vemos aqui a relação entre a expansão do Islã com a crise da Cristandade.

De fato, a Igreja, agora sem o seu  esplendor, jaz como uma viúva triste e amordaçada. A Cátedra de Pedro já não se apresenta como o baluarte seguro da doutrina imutável. Vemos nestes tempos os hipócritas modernistas, com toda liberdade, sob o pretexto de uma maior pureza da religião, acabaram defraudando os povos dos seus ritos e de sua piedade e a Igreja vai se enchendo de seitas que, como várias  falsas igrejas, corroem o seu interior e dilaceram suas forças aumentando a perda das almas e a confusão.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

MAIO COM MARIA: DIA 15 - Por intermédio de Maria obtemos a graça da perseverança


Com as palavras dos Provérbios a nós se dirige Maria: Feliz aquele que me ouve e que vela todos os dias à entrada da minha casa (8, 34). Feliz quem escuta a minha voz e por isso está de alerta para vir sempre à porta da minha misericórdia, em busca de socorro e de luzes. Sem dúvida não deixará Maria de obter-lhe luzes e força para sair do vício e trilhar pela vereda da virtude. Pelo que graciosamente Inocêncio III lhe chama "lua de noite, aurora da manhã, sol de dia". É lua para quem está cego na noite do pecado, a fim de esclarecê-lo e mostrar-lhe o miserável estado de condenação em que se acha. É aurora, isto é, precursora do sol para quem já está iluminado, a fim de o fazer sair do pecado e recuperar a divina graça. Para quem já está em graça é finalmente o sol, cuja luz o livra de cair em algum precipício.

Aplicam os Santos Doutores a Maria as palavras do Eclesiástico: Suas cadeias são ataduras de salvação (6, 31). Mas cadeias, por que? pergunta Ricardo de S. Lourenço. Porque Maria prende os seus servos, para que não se desviem pela estrada dos vícios. Do mesmo modo explica Conrado de Saxônia as palavras que se encontram no ofício da Santíssima Virgem: "Na plenitude dos santos se acha a minha assistência" (Eclo 24, 16). Maria não só está colocada na plenitude dos santos, diz ele, mas também nela os conserva para que não tornem para trás; conserva-lhes as virtudes, a fim de que não diminuam; impede os demônios, para que não lhes façam mal.

Dos devotos de Maria diz-se que estão cobertos com dois vestidos. "Todos os seus domésticos trazem vestidos forrados" (Pr 31, 21). Maria, expõe Cornélio a Lápide, adorna os seus fiéis servos tanto com as virtudes de seu Filho, como com as suas, e assim revestidos conservam eles a santa perseverança. Desta forma explica este comentador quais são estes vestidos duplicados. S. Filipe Néri sempre admoestava os seus penitentes dizendo-lhes: Filhos, se desejais a perseverança, sede devotos de Nossa Senhora! S. João Berchmans, da Companhia de Jesus, dizia também: Quem amar a Maria terá perseverança. Bela é a reflexão que faz aqui o Abade Roberto, sobre a parábola do filho pródigo: Se ainda lhe vivesse a mãe, não deixara o filho pródigo a casa paterna, ou para ela regressara mais depressa do que voltou. Quer com isso dizer que um filho de Maria, ou nunca se aparta de Deus, ou, se por desgraça o faz, logo para ele torna por meio de Maria.

Oh! Se todos os homens amassem essa tão benigna e amorosa Senhora, e se nas tentações sempre e sem demora recorressem a seu patrocínio, quem cairia jamais? Quem se perderia jamais? Cai e perece só quem não recorre a Maria. S. Lourenço Justiniano, aplicando à Virgem o texto do Eclesiástico: "Eu andei sobre as ondas do mar" (24, 8), fá-la dizer: Caminho com meus servos por entre as tormentas em que se acham, para assisti-los e salvá-los do pecado.

Quando nos vem tentar o demônio, escreve S. Tomás de Vilanova, não deixemos de fazer como os pintinhos, que, mal enxergam o gavião, correm logo a refugiar-se sob as asas da mãe. Logo que nos assaltam tentações, sem discorrer com elas, refugiemo-nos depressa sob o manto de Maria. E vós, Senhora, deveis defender-nos, continua o santo; depois de Deus outro refúgio não temos senão vós, que sois a nossa única esperança e protetora, em quem confiamos.

Concluamos, pois, com as palavras de S. Bernardo: "Homem, quem quer que sejas, já sabes que nesta vida vais flutuando mais entre perigos e tempestades, do que caminhando sobre a terra. Se não queres ser submergido, não apartes os olhos dos resplendores desta estrela. Olha para a estrela, chama por Maria. Nos perigos de pecar, nas moléstias das tentações, nas dúvidas do que deves resolver, considera que Maria te pode ajudar, chamar logo por ela para que te socorra. O seu poderoso nome nunca se aparte do teu coração pela confiança, nem de tua boca para os entoares. Seguinto a Maria, não errarás o caminho da salvação. Quando te encomendares a ela, não desconfies; sustendo-te ela, não cairás. Protegendo-te ela, não temas perder-te; sendo tua guia, sem fadiga te salvarás. Em suma, pretendendo Maria defender-te, certamente chegarás ao reino dos bem-aventurados".

Exemplo:

A Virgem Maria converte e abre as portas de uma Igreja para uma pecadora que Deus tinha tocado para fora devido sua má vida


Célebre é a história de S. Maria Egipcíaca, que se lê no Livro primeiro das Vidas dos Padres no deserto. Com doze anos fugiu ela da casa paterna e foi para Alexandria. Aí passou uma vida infame, e veio a ser o escândalo daquela cidade. Depois de passar 16 anos em pecados, foi peregrinando até Jerusalém. Celebrava- se então na cidade a festa da Exaltação da Santa Cruz. Movida antes pela curiosidade do que pela devoção, quis a pecadora entrar na igreja. Mas no limiar da porta sentiu uma força invisível que a repelia para trás. Intentou segunda vez entrar e também foi repelida. O mesmo lhe sucedeu terceira e quarta vez. Então, encostando-se a miserável a um canto do pórtico da igreja, foi iluminada para conhecer que, por sua má vida, Deus a tocava para fora da igreja. Levantando depois os olhos, por felicidade sua, viu uma imagem de Maria que estava pintada no pórtico. Voltando-se para ela, disse-lhe entre lágrimas: Ó Mãe de Deus, tende piedade desta pobre pecadora. Bem vejo que pelos meus pecados não mereço que olheis para mim; mas sois o refúgio dos pecadores; por amor de Jesus, vosso Filho, ajudai-me. Fazei que eu possa entrar na igreja, pois quero mudar de vida e ir fazer penitência aonde vós me ordenardes.




Ouviu então uma voz interna, como se a bem-aventurada Virgem lhe respondesse: Eia, já que a mim recorreste e queres mudar de vida, entra na igreja, que já a sua porta não se fechará para ti. Entra a pecadora, adora a Santa Cruz e chora. Torna à imagem e lhe diz: Senhora, aqui estou pronta; para onde queres que me retire a fazer penitência? — Vai, respondeu-lhe a Virgem, para o Jordão e acharás o lugar do teu repouso. A pecadora confessa-se, comunga, passa o rio, chega ao deserto e aqui entendeu que era o lugar da sua penitência. Ora, nos primeiros dezessete anos, que combates lhe não deram os demônios, dese­josos de vê-la recair! Então que fazia ela? Nada mais que encomendar-se a Maria. E Maria lhe alcançou força para resistir em todos os anos de luta, depois dos quais cessaram as batalhas. Finalmente depois de ter vivido cinqüenta e sete anos naquele deserto, achando-se na idade de oitenta e sete anos, permitiu a divina Providência que fosse encontrada pelo abade S. Zózimo. A ele contou ela toda a sua vida e pediu-lhe que tornasse ali no ano seguinte e lhe trouxesse a sagrada comunhão. Volta com efeito o santo abade e dá-lhe a comunhão. Depois a Santa lhe tornou a pedir que viesse outra vez visitá-la. Retorna novamente S. Zózimo e a encontra morta, com o corpo cercado de luzes e na cabeça escritas estas palavras: Sepulta neste lugar o corpo desta miserável pecadora e roga a Deus por mim. — Sepultou-a o Santo na cova, que veio abrir um leão. Voltando para seu mosteiro, publicou as maravilhas que a divina Misericórdia operara com esta feliz penitente.

ORAÇÃO


Ó Mãe de piedade, Virgem sacrossanta, eis a vossos pés o traidor, que em pagando com ingratidão as mercês, por vossa intercessão recebidas de Deus, tem sido infiel a vós e a ele. Mas, Senhora, vós bem sabeis que a minha infidelidade não tira, antes aumenta a minha confiança em vós. Pois vejo que minha miséria faz crescer vossa compaixão para comigo. Mostrai, pois, ó Maria, que sois cheia de liberalidade e de misericórdia para com este pecador, assim como o sois para com todos aqueles que vos invocam. Basta que me olheis e tenhais compaixão de mim. Se o vosso coração se compadecer, que posso eu temer? Não; não temo nada. Não temo os meus pecados, porque podeis remediar o mal que fiz. Não temo os demônios, porque vós sois mais poderosa que o inferno todo. Não; não temo vosso Filho, justamente irritado contra mim porque uma só palavra vossa o aplacará. Só temo por minha negligência que me leve a deixar de recomendar-me a vós nas minhas tentações e por isso me perca. Mas isto é o que hoje vos prometo, que quero recorrer sempre a vós. Ajudai-me a executá-lo. Vede que bela ocasião tendes de satisfazer o vosso desejo de socorrer um miserável, qual eu sou?


Ó Mãe de Deus, eu tenho uma grande confiança em vós. De vós espero a graça de chorar como devo os meus pecados! E de vós espero a fortaleza para não tornar a cair neles. Se eu estou enfermo, vós, ó auxilio celeste, podeis valer-me. Se minhas culpas me fizeram ser fraco, o vosso socorro me fará valente. Ó Maria, tudo espero de vós, porque podeis tudo junto de Deus. Amém.

Fonte: