sábado, 30 de abril de 2016

OS FALSOS MOTIVOS PARA A CONTRACEPÇÃO

image008Este post é continuação do: NEO-MALTUSIANISMO – UM GRANDE GOLPE DO INIMIGO
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São insubsistentes os motivos com que pretendem justificar-se os fraudadores. Examinemos alguns dos mais comuns.
1) Situação econômica 
Autoriza a continência periódica desde que seja real. Nunca autorizará um ato contra a natureza. Na verdade, os que argumentam com situação econômica são, em geral, os que melhor a desfrutam. Guilherme Schimidt chegou a estabelecer como uma tese que “o temor dos filhos é fruto da abundância, e não da necessidade”. Têm com que manter os próprios filhos e estão ainda obrigados em consciência a concorrer para as crianças pobres que vivem na miséria. Mas desejam uma vida cada vez mais burguesa, gozadores, impenitentes e insaciáveis.
Move-os a desmedida ambição da riqueza, a preocupação obsedante do luxo, a vaidade imbecil da ostentação. Aqueles, cuja situação econômica é deveras penosa, são os grandes procriadores em que se estaria a densidade demográfica, se o Estado acudisse à mortalidade infantil que dizima assustadoramente as classes proletárias.
2) Melhor educação aos filhos
Não consiste, porém, em colégios caros, vida folgada, estágios no estrangeiro, mimos excessivos, absoluta ociosidade servida à mão por serviçais bem pagos. Pelo contrário. Nada melhor para prejudicar a educação dos filhos! Como nada melhor para realizar uma boa educação doméstica e social do que o ambiente da família numerosa.
3) Saúde da esposa
Quer o marido poupar a saúde da esposa, em prejuízo da consciência dela impondo-lhe sacrifícios morais, enchendo-a de remorsos, atribulando-lhe o coração cristão – contanto que ele não diminua a dose de prazeres sexuais! esta é a verdade. Sei de casos em que o “delicado” esposo, para poupar a cara metade, franzida e doentia, fê-la correr o risco de uma operação esterilizadora – quando o cavalheirismo (já não digo o amor) mandava conter-se, se fosse real o motivo alegado.
Já vimos que os processos anti-concepcionais são todos eles nocivos aos cônjuges, especialmente à esposa. Ao invés, a medicina diz que é na maternidade que se realiza plenamente o organismo feminino. A maternidade é necessária à saúde e ao desenvolvimento da mulher, diz o Dr.Pinard. A maternidade é uma função normal e fisiológica do organismo feminino, junta o Dr. Guchtencere. Podíamos alinhar dezenas de citações semelhantes.
Mas não se trata somente do aspecto físico do problema. Igualmente importante é o lado psíquico. Os processos anti-concepcionais não são tão esterilizantes como parecem… Não geram filhos, mas geram perturbações nervosas. Alguns são unicamente responsabilizados pelos médicos como fonte de desequilíbrios psíquicos.
O nervosismo da mulher contemporânea progride inquietadoramente dia a dia, escreve o Dr. Cattier em seu La Procréation Humanine. Eis um fato em que todos convêm… Já sabemos, agora, de modo seguro, que a causa do desequilíbrio da mulher reside muitas vezes na esfera genital. Deve-se perguntar se, na vida conjugal, os atos contra a lei natural e a lei fisiológica e principalmente as fraudes anti-concepcionais… não são as verdadeiras causas do desequilíbrio tantas vezes verificado“.
E ele conclui esta página dizendo:
É banal repetir que a mulher foi feita para a maternidade. É para ela uma lei inelutável: procurando fugir-lhe, ela o faz sempre em prejuízo de sua saúde geral“.
O médico belga Schockaert (Mariage et Natalité) depois de acentuar os males orgânicos dos métodos neo-maltusianistas…, aponta os inconvenientes psíquicos: irritabilidade, irascibilidade, tristezas, emotividade, falta de energia e coragem, idéias de suicídio. Os estados de angústia se acentuam quando a mulher é católica – o que quase sempre acontece entre nós, o estado de pecado a abate; o remorso a tortura; o pensamento da morte a apavora. Vive sobressaltada. Repelida (dos Sacramentos) da Confissão e da Eucaristia, sente-se diminuída, humilhada em face das companheiras piedosas, retrógrada espiritual em vista dos seus tempos de vida sacramental.
Não sei como é possível preconizar o neo-maltusianismo em nome do bem-estar da esposa.
4) Ordem médica
Há um grave risco de vida com nova concepção, afirma o médico; e vai logo aconselhando a evitar filhos… Esses riscos graves são, em geral, muito fáceis em proclamá-los; mas a experiência mostra felizmente que eles são mais raros. A verdadeira medicina, em vez de secar a fonte da vida, cuja proteção e defesa é sua missão, tem feito precisamente diminuir os inevitáveis perigos que acompanham a maternidade.
Os cuidados acépticos e anticépticos reduziram a porcentagem mínimas a mortalidade obstétrica. Há um século, Semmelweis estabelecia 10% de morte nestes casos; já hoje De Lee dá 1,5% (NB: a edição deste livro é de 1955). E que fossem os perigos frequentes; poderão os homens transtornar as leis naturais, mudar a natureza das coisas e sobrepor-se à vontade de Deus? Têm com que substituir a graça divina nas almas? Irão defender seus clientes no tribunal definitivo que decide da eternidade? Para o verdadeiro “é melhor morrer do que pecar”. As senhoras que morreram vítimas da maternidade, nos raros casos em que isto acontece, são verdadeiras heroínas, que não devem ser lastimadas, mas glorificadas.
São um exemplo, não apenas às outras senhoras, mas a todos os que só sabem cumprir deveres fáceis e se acovardarem diante do sacrifício. Mas, não esqueçamos de apontar o egoísmo gozador desses maridos: não sabem conter-se nem ante os riscos da vida da esposa! Ela é que deve sacrificar a consciência à sua fome de sexo.
5) A saúde dos filhos
Têm sido franzinos ou subnormais. Há casos frequentes de degenerecência na família – máculas perigosas. Preferimos, sem dúvida, uma prole sadia. Mas a eugenia nunca poderá tornar lícitos processos imorais. Recorram à continência periódica; aos atos contra a natureza, nunca. Para quem sabe o que é a graça de Deus mais valem filhos doentios do que um só pecado mortal. Os cristãos, sem perderem de vista os cuidados científicos, procriam primeiramente para gerar filhos de Deus.
Chamamos a atenção para a solução simplista e apressada de certos médicos. Correm logo ao “remédio” anti-concepcional, em vez de buscarem os verdadeiros remédios. É assim quando se trata da saúde da esposa, é assim quando se trata da saúde dos filhos. Àquela cortam os riscos, desviando-a da maternidade; destes se descartam, eliminando-os… A ciência tem já hoje preciosos recursos para prevenir males hereditários: eles os desconhecem, ou não querem aplicá-los. A lei do menor esforço diminui, ao mesmo tempo, a necessidade dos estudos e… os clientes.
No entanto, quem acompanha os progressos da pediatria, da psicoterapia, e vê como realizam verdadeiros prodígios os médicos e educadores conjugados, sabe quanto bem se pode fazer às crianças mal dotadas. Se isto não autoriza facilidades perigosas aos que vão contrair matrimônio, muito menos deve autorizar desrespeito às leis divinas e naturais aos que já o contraíram.
A Igreja reconhece as razões da verdadeira eugenia. Ainda a nova ciência não tinha organização e nome, e a Igreja já cuidava da saúde dos homens e exigia em consciência cuidados preciosos ao bem-estar da prole possível e nascitura. Nunca, porém, aprovará meios eugênicos que colidam com os princípios naturais em que se espelha a Razão Eterna, fonte imutável de toda a Moral.
Grande coisa é a saúde: muito mais importa a higidez espiritual. Na hierarquia de valores dos que se conservam fiéis à Moral mais vale a alma que o corpo, mais vale o espírito que os músculos, mais vale a virtude que a força. A humanidade cultura sábios e santos, que viveram em corpos fracos e doentios: o saber e a bondade deram-lhes auréola.
Venha a eugenia dentro da Moral. Cuide-se dos corpos, sem prejuízo das almasMelhorem-se as condições físicas, sem detrimento das espirituais. Revigore-se a saúde, revigorando ainda mais a virtude. Que os cuidados higiênicos não sirvam para estabelecer o domínio dos instintos sobre o espírito. O progresso humano não deve ser medido pela resistência física mas pela inteligência e pela consciência.
Os que acreditam no espírito sabem que as disposições morais se transmitem aos filhos, tal como as físicas. E que mais precisamos de caracteres que de atletasO grande mal dos nossos tempos, é que os homens estão ficando menos homens. Uma eugenia que procure melhorar a “raça”, em vez de elevar os homens, e que liberte as consciências dos preceitos espirituais para considerar as condições do “produto”, e que repute a geração humana condicionada exclusivamente às normas da higiene – equiparando a geração dos homens com a reprodução dos irracionais, está desservindo à civilização e fazendo retrogradar a humanidade.
A maior de todas as medidas eugênicas é a virtude. Os subprodutos humanos nascem da libertação dos instintos – que é o pecado. Da impureza vêm os sifilíticos; da embriaguez, os agitados – e assim por diante. Pois, em geral, os “eugenistas” são pregadores da liberdade sexual, e não se pejam de repetir que a castidade é impossível e até nociva. Acima das necessárias condições fisiológicas, venham as mais necessárias ainda condições morais!
6) É só por algum tempo…
Fosse por única vez!… É gravíssimo pecado mortal. E não se pode cometer um pecado que seja, mesmo que para salvar o mundo.
As maternidades, em si, não são prejudiciais. Já vimos precisamente o contrário: são benéficas. E de modo geral não são tão frequentes que se tornem indesejáveis. A média apresentada pelas estastisticas é de um intervalo de dois anos no mínimo… Os primeiros filhos vêm mais próximos; os outros vão-se naturalmente espaçando. A própria amamentação é, em muitas senhoras, um óbice à concepção.
Restam os casos de excessiva fecundidade e de senhoras realmente fraquinhas – em que se pode recorrer à continência periódica.
Nunca, porém, seria lícito, por nenhum motivo, seja para que for, recorrer a processos pecaminosos. Só os que desconhecem o que seja o pecado, os que calejaram a pobre consciência, ou os que perderam a fé e o santo temor de Deus, poderão apelar para o pecado mortal, mesmo que fosse uma só vez na vida. E os que não entendem esta linguagem não são dignos do reino do céu.
7) Já tem a “família normal”
Isto é, os três filhos de que falam os sociológos e economistas. Mas esta linguagem não tem sentido em moral. Em moral cada ato fraudado é contrário à natureza e à vontade de Deus. Tanto faz ter dez filhos como não ter nenhum. Trata-se de um ato intrinsecamente mau que nenhuma razão poderá jamais contestar.
Os que se detêm no segundo ou no terceiro filho cortam o passo à felicidade, mesmo natural. Interessantes pesquisas sobre a felicidade conjugal determinam que as famílias com muitos filhos são mais felizes. Têm mais com quem compartilhar os sacrifícios e mais a quem proporcionar alegrias. Têm menos preocupações absorventes e assustadoras. A perda de um filho é sempre dolorosa, é naturalmente compensada pelos que ficam. Eis mais um castigo da própria natureza aos que calculam contra ela!
8) A intolerância da Igreja
Aliás, não se trata de uma doutrina da Igreja propriamente dita. Trata-se de uma lei natural, que a Igreja não poderá jamais modificar, nem modificará. Esta sagrada intransigência só pode honrá-la. Enquanto os bispos anglicanos (protestantes dos mais conservadores) autorizam o desrespeito às leis naturais, a Igreja mantém-se inabalável como a rocha em que Cristo a firmou. Enganam-se os que pensam que ela venha um dia a ceder nesta matéria.
A própria Bíblia é positiva, quando afirma que Onam “fazia uma coisa detestável” porque, quando se unia à esposa, “impedia que ela concebesse“. E a severidade do castigo indica a gravidade da falta: “E por isto o Senhor o feriu de morte” (Gen. 38,10). De resto, contam pouco com a Igreja os cônjuges neo-maltusianos…
9) Não casou para a continência
É frequente este argumento na boca dos maridos. Laboram num engano: pensam que o casamento não exige continência. Exige, e não pequena. O nascimento de um filho exige de um marido decente o mínimo de dois meses de continência. Como o guardará, se não é capaz de conter-se uns poucos dias cada mês? Argumentando assim, ele justificará a infidelidade nas ausências ou enfermidades da esposa.
Não se casou para a continência absoluta, certo; casou-se, porém, para a continência conjugal, talvez ainda mais penosa. A esses maridos árdegos e sôfregos perguntaremos:  Casaram-se, acaso, para o pecado? Ou pensam que o matrimônio dá-lhes alvará de licenciosidade conjugal?
Noivos e esposos – Pe. Álvaro Negromonte

sexta-feira, 29 de abril de 2016

NEO-MALTUSIANISMO – UM GRANDE GOLPE DO INIMIGO

CONTRA“Qualquer uso do matrimônio, em que pela malícia humana, o ato seja destituído da sua natural virtude geradora, é contra a lei de Deus e da natureza, e aqueles que ousem cometer esses atos tornam-se réus de culpa grave”. (Encíclica Casti Connubii – Papa Pio XI)
Os erros vêm de longe quando atingem o terreno moral.  O individualismo racionalista tem velhas raízes. A Renascença iniciou muita desgraça, que os erros acumulados foram alastrando. A Reforma protestante, sendo também  um fruto, inclinou ainda mais rapidamente, caindo em abismos. O Comunismo é o último deles – e não sabemos se é possível virem outros piores. Do individualismo religioso do frade apóstata sairia facilmente o individualismo pedagógico e político de Rousseau ou o individualismo econômico de Adam Smith.
Outros individualismos viriam. Ou melhor novas formas e aplicações do mesmo sistema, em que o indivíduo se coloca no centro do mundo e da sociedade, fazendo que tudo gire em torno dele. Assim é que veio o individualismo demográfico de Malthus.
Robert Malthus, economista inglês, pastor protestante, é o responsável mais próximo por um dos mais desgraçados crimes do individualismo. O homem, levantando-se contra a comunidade, irá perseguir a espécie nas suas próprias fontes, estancando-as. O bem social da propagação da espécie humana vai reverter em mero instrumento de prazer individual sem ônus. Pouco importa que com isso se desrespeitem as mais evidentes leis da natureza. Triunfe o indivíduo, embora pereça a espécie! 
Homem de pouca visão. Malthus se impressionou com o empobrecimento crescente do solo da Inglaterra e com o espantoso aumento de população nos Estados Unidos. Jogando com estes dois dados, conclui, erradamente, para todo o mundo, que as populações cresciam em progressão geométrica, enquanto a terra produzia em progressão aritmética. O remédio estava em diminuir os nascimentos.
APLICAÇÕES IMORAIS
Para alcançar seus fins propunha Malthus meio honesto: – a continência. [não para o caso tratado] Os seus continuadores tiraram conseqüências mais próximas da malícia e da fraqueza dos homens. Ensinaram o emprego de meios positivos para impedir a geração. Realiza-se o ato sexual, mas se lhe frustra o fim natural e primeiro. É o prazer sem a geração. O neo-maltusianismo teve logo numerosos propagadores tanto na Inglaterra como na França e principalmente nos Estados Unidos.
Preconizaram-se mil modos de burlar a finalidade que a própria natureza aponta à função do ato sexual. Hoje é um dos crimes mais divulgados do mundo. Tem feito a ruína de inúmeras almas, corrompendo os corações, animalizando os sentimentos, manchando a dignidade dos leitos conjugais, rebaixando as esposas à desgraçada condição de instrumento de prazer aos homens paganizados deste século.
Os que usam do matrimônio, empregando meios para evitar a geração, cometem um gravíssimo pecado mortal. Enumeremos as razões:
1º – É contra a mente de Deus
O ato sexual foi instituído por Deus para a geração. Para isto criou o homem e a mulher… Aparelhou-os orgânica e psicologicamente para o nobre mister da reprodução. Associou-os à Sua obra de Criador, porque os pais geram o corpo e Deus infunde a alma a cada novo homem que vem ao mundo. Atraiu-os e compensou-os dos encargos da geração com os prazeres dos sentidos e as alegrias espirituais da vida conjugal. Portanto, transformar o ato sexual em meio de prazer, impedindo-lhe a finalidade geradora, é agir contra a mente de Deus.
2º – É contra a natureza
A natureza indica o fim da união dos sexos. Estão no homem e na mulher, os germes de uma nova vida. Entre os animais a união só se dá para a geração: realizada esta, a fêmea se recusa sistematicamente. O ato, é, pois, realizado primariamente para a geração, embora não o seja unicamente para isto. Admite fins secundários; mas não admite que se impeça e destrua o fim primeiro. Não se pode proceder contra a natureza.
O Catecismo, na sua linguagem enérgica, enumera o pecado sensual contra a natureza entre os “pecados que bradam aos céus e pedem vingança a Deus.” Para que se lhe aquilate melhor da perversidade, basta considerar que a prostituição ou mesmo a infidelidade conjugal – embora pecados mortais – são menos graves do que ele.
3º – É contra o matrimônio
No contrato matrimonial faz-se a doação dos corpos em vista da geração dos filhos, portanto. Os cônjuges se unem no matrimônio para o exercício da função sexual. Ela constitui matéria e finalidade do próprio contrato matrimonial. O cônjuge, dá-se ao outro para colaborarem ambos na procriação, que é o termo natural da função conjugal. E não se dá para nenhum ato contrário à natureza mesma do contrato – como seria realizar a união excluindo por meios positivos o seu fim natural.
4º – É contra o amor
Os homens corrompidos acordaram em chamar amor à função sexual. A sublimidade da palavra escusa-lhes a baixeza dos sentimentos. É-lhes vantajoso o disfarce. Mas a dignidade do amor não se compadece. É o amor conjugal um misto das atrações da carne e de aspirações morais. O amor tem no homem outras faces e se pode elevar às alturas do puro espiritual. Não é esta a natureza do amor conjugal. Mas seria bestial colocá-lo na esfera do instinto e confiná-lo ao sexo.
Mesmo entre cônjuges chega-se ao amor espiritual, sem o sexo; mas nunca merecerá o nome de amor a fome de sensualidade que tanto se sacia com a esposa como procura a mercenária.
Amor…
“Amor” comprado a dinheiro nas feiras da volúpia!
“Amor” que abandona a esposa, quando esta não ceva a besta humana!
“Amor” que só vê o sexo, e despreza a pessoa!
Se fosse isto o amor, como chamaríamos à dedicação desinteressada das almas nobres, ao devotamento de uma esposa cujo marido a moléstia inutilizou para tais funções, ao afeto espiritualizado de dois velhinhos em quem a idade extinguiu o fogo da paixão? A verdade é que a função sexual é separável do amor – e os que a procuram por ela não sabem o que é o amor. São tremendos egoístas – e nada mais contrário ao amor do que o egoísmo.
CONSEQÜÊNCIAS
Gravíssimo pecado mortal, tão contrário às leis divinas e naturais, à própria condição do matrimônio e do amor, é ainda o neo-maltusianismo uma sementeira de males.
1. A ciência médica condena os vários processos anti-concepcionais como nocivos à saúde, principalmente da esposa. Distúrbios nervosos e psíquicos, perturbações do aparelho genital, repercussões patológicas no sistema glandular, fibromas, adenoma uterino, etc., além dos inevitáveis perigos de infecção local, são o triste cortejo desses degradantes processos.
Copio de Ensaios de Biologia, do capítulo “A esterilidade voluntária e sua patologia“, de Barbosa Quental, algumas opiniões.
A mulher está toda organizada em vista da maternidade; a falta de reprodução ou a insuficiência de reprodução vicia todo o seu metabolismo“.
(Dutalollis, em Troubes, Funcionels et Dystrophies en Gynecologie)
Todas as vezes que o útero não produz filhos tende a fazer fibromas“.
(Pinard)
Todos os processos anti-concepcionistas são de natureza a lesar a saúde daqueles que os usam regularmente“.
(Max Marcuse)
O uso repetido dessas práticas não pode deixar de influenciar a saúde num sentido desfavorável e de provocar perturbações mentais“.
(Max Cann)
Sabido como é… que no útero e no colo uterino uma tal irritação é produzida pela introdução de produtos químicos, pelas injeções anti-sépticas e pela presença prolongada de corpos estranhos como pessários oclusivos, etc., há sérias razões para crermos que o aumento acusado dos cânceres genitais esteja ligado às práticas desta natureza“.
Os que desejarem um conhecimento mais largo do assunto vejam La Limitation des Naissancesde Raoul de Guchteneere e La Vie Intime des Époux de Gaston Monin. Aliás, é fácil perceber que a natureza nunca deixa violar impunemente as suas sábias leis.
2. As conseqüências sociais são igualmente graves. Alarmam-se sociólogos e moralistas com a crescente diminuição da natalidade. Os que aprofundaram o assunto ficaram horrorizados ante as perspectivas. (Ver L’Indiscipline de Moeurs de Paul Bureau, talvez o mais completo estudo sobre a questão) A derrota da França, minada de anti-concepcionismo, era prevista desde há muito, não somente por Mussolini e Rommel, mas pelos franceses a quem o vício não cegara.
No Brasil já temos centros em que o neo-maltusianismo, de mãos dadas às misérias físicas, leva o nível demográfico abaixo da necessidade de estabilidade da população. Os sociólogos chamam “família normal” a que tem três filhos: dois respondem pela falta dos pais e um representa o aumento da população. Menos do que isto constitui inevitável baixa demográfica, verdadeiro suicídio de uma nação. Não estamos considerando agora o aspecto moral, mas o demográfico, deste importante problema.
E mesmo assim vemos que é criminoso o procedimento dos cônjuges que ficam no segundo filho, quando não se contentam com o “filho único”, de tão perigosas perspectivas.
Os neo-maltusianistas pretendem que a limitação na natalidade diminuirá a porcentagem da mortalidade infantil. Enganam-se. Diminuirá evidente e conselheiralmente o número de crianças mortas: nascem menos, morrem menos. Mas até aumentará a porcentagem. De fato, obirth-control elimina precisamente os filhos da classe em que morrem menos crianças. As classes mais desfavorecidas de meios econômicos, educação higiênica, etc. são os que mais procriam, e onde há maior coeficiente de crianças mortas. A razão da mortalidade infantil é outra, se morrem de preferência as crianças da classe mais prolifera não é porque a mortalidade esteja na proporção da natalidade e sim por falta de educação, higiene e meios econômicos.
O remédio está não em estancar as fontes da vida, mas em acudir as classes abandonadas com assistência social, educação e recursos necessários à condigna subsistência.
*A comparação entre a natalidade e a mortalidade infantil de vários países mostra precisamente o que acabamos de dizer. Países com natalidade fraca (como a França) têm grande percentil de mortos, enquanto outros, cuja natalidade é bastante forte (Holanda) têm um baixo nível de mortalidade. Países há (Alemanha, Itália) em que, ao mesmo tempo que a natalidade cresceu, a mortalidade diminuiu, graças à divulgação dos meios de proteção à vida infantil. Esses meios, divulgados entre as classes proliferas, têm conseguido em toda parte, uma sensível diminuição na mortalidade. (NOTA DE RODAPÉ)
Se os neo-maltusianos argumentassem de verdade, deviam proceder de outra maneira. Estão sendo dizimadas as crianças? Corre risco a manutenção do nível demográfico – e então é necessário intensificar a natalidade. Imaginem um economista que reclamasse diminuição de produção por ver escassear o artigo…
Não: o remédio está em eliminar as causas das mortes das crianças – tal como tem feito a ciência com crescente eficácia. E não na solução simplista de eliminar preventivamente os filhos. Assim, ter-se-ia de eliminar muita coisa. Para evitar desastre de avião, suprimia-se a aviação…
3. Do ponto de vista moral são múltiplas as conseqüências, e cada qual mais grave.
a) Já insinuamos quanto se rebaixa o homem que faz o amor apenas a função sexual. Agravemo-lo agora com a degradante circunstância de desvirtuar esta função, arrebatando-a do serviço da espécie para o desfrute pessoal.
b) Precisaria de apontar a degradação da esposa, transformada em mera ceva de incontestável paixão sedenda de prazeres e trânsfuga das responsabilidades? Basta pensar no que exigem da mulher certas práticas anti-concepcionais, mesmo fisicamente…
c) A experiência ensina que a provocação de abortos acompanha quase sempre os cuidados neo-maltusianos. E os crimes vão se acumulando, cada qual mais grave. Abyssus abyssum invocat.
d) O egoísmo passional dos fraudadores vai-se alimentando. A diuturnidade os caleja. Embotam-se os sentimentos elevados. Recurvados sobre si, como um caracol moral, só enxergam a si próprios, seus interesses e seus sentidos, num criminoso desprezo da sociedade, do próximo e dos próprios bens superiores.
e) Atentem os maridos nestas duas últimas considerações que lhes vamos apresentar, sem pretendermos esgotar o assunto:
1) Os desentendimentos a que dá lugar a limitação da natalidade. É este um aspecto que pouco tem preocupado os maridos, e, no entanto, é importante e grave. As mulheres  se tornam, com os processos anti-concepcionais, insatisfeitas, irritadiças – nevropatasVai-se a paz, a harmonia do lar. Diminui a resistência espiritual, a capacidade de tolerância, e multiplicam-se os atritos.
Afastada dos Sacramentos da Penitência e da Comunhão, a mulher perde o mais forte esteio em que se apoia a alma, e começa a perder o equilíbrio. E ai de um lar cuja esposa perde a linha justa!…
Eis preparado o caminho para desgraças maiores.
2) A infidelidade conjugal é, muitas vezes, o castigos desses pecadores. Vem primeiro a suspeita. Estes processos frequentemente falham. Mas o marido confia cegamente neles. E a mulher aparece grávida!… Conheço verdadeiras tragédias por isto. São fáceis de imaginar, aliás.
* Sei de um médico que só se convenceu depois do exame de sangue para prova de paternidade. Avaliemos porém, o estado de espírito deste homem durante todo aquele tempo, e a situação doméstica sob tão opressiva atmosfera. (NOTA DE RODAPÉ)
3) As conseqüências espirituais já ficaram insinuadas. Afastamento dos Sacramentos; vida em permanente pecado mortal; progressivo abandono das outras práticas religiosas; insensibilidade espiritual, verdade da fé; extinção das inquietações e do próprio remorso – paz em charco que precede a impenitência final! O quadro é horroroso, porém verdadeiro.
Noivos e esposos – Pe. Álvaro Negromonte

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Adquira já o seu "MÊS DE MAIO" - D. Félix Sardá y Salvany

Adquira já o seu livro!

Salve Maria!

É com muita alegria que no próximo sábado (30/04) lançaremos o livro: "MÊS DE MAIO"  - D. Félix Sardá y Salvany, inédito no Brasil. 


Interessados entrar em contato pelo e-mail:


Valor: R$ 12,00 (+ frete)

PELA SANTA MISSA ADORAMOS DIGNAMENTE A DEUS

Nossa primeira obrigação para com DEUS é adorá-Lo e honrá-Lo. Sendo DEUS de Majestade infinita, homenagens infinitas Lhe devemos. Infelizes que somos! Onde encontraremos oferenda digna de nosso Criador? Passai vós em revista todas as criaturas do Universo: coisa alguma encontrareis digna Dele.
Ah! é que uma oferenda digna de DEUS não pode ser senão o próprio DEUS. Necessário é que Aquele mesmo. que está assentado no Trono de Sua Majestade, desça para oferecer-se como vítima sobre nossos Altares, a fim de que a homenagem corresponda perfeitamente à Excelência de sua Grandeza infinita.
É isto é o que se realiza na Santa Missa, única Homenagem pela qual DEUS é adorado na medida que merece, porque é adorado por DEUS mesmo, isto é, por JESUS que, pondo-se sobre o Altar em estado de Vítima, adora a SANTÍSSIMA TRINDADE por um ato de inefável dependência tanto quanto Ela merece. E de tal modo que todas as outras homenagens que Lhe possam prestar as criaturas, comparadas a essa Humilhação de JESUS, desaparecem como as estrelas em presença do Sol. 
Conta-se de uma santa alma que, totalmente abrasada de Amor a DEUS, traduzia em mil desejos o ardor de sua ternura: “Ah! meu DEUS”, dizia ela, “quisera ter tantos corações e tantas línguas como há de folhas em todas as árvores, de átomos no ar e de gotas d´água no oceano, para vos amar e louvar como mereceis. Oh! Se eu os tivesse em meu poder e todos se consumissem de amor por vós, contanto que eu vos amasse mais que todas juntas, mais que todos os Anjos, os Santos e todo o Paraíso!” – Certo dia em que tal desejo se repetia com mais fervor do que nunca, ouviu ela o SENHOR responder-lhe: “Consola-te, minha filha, pois com uma só Missa da qual participas com devoção, dás-me toda esta Glória que me desejas, e ainda mais, infinitamente”.
Admira-vos talvez esta afirmação? Não tendes motivo, pois visto nosso Boníssimo JESUS ser não somente Homem, mas DEUS verdadeiro e Todo-Poderoso, quando Ele se aniquila sobre o Altar, dá com este ato homenagem e adoração infinitas à SANTÍSSIMA TRINDADE. Deste modo nós, que concorremos com Ele no oferecimento deste grande Sacrifício, damos também de nossa parte, a DEUS, honra e homenagem infinitas. Oh! Que coisa sublime! Digamos uma vez ainda, pois importantíssimo é sabê-lo: sim, assistindo à Santa Missa, prestamos a DEUS adoração, honra e homenagem infinitas.
Deixai, aqui, empolgar-vos de admiração, e reconhecei que é absolutamente verdade dizer que, ao assistirmos com devoção à Santa Missa, damos a DEUS mais glória do que lhe dão, com suas adorações, todos os Anjos e todos os Santos juntos: pois, definitivamente, eles são apenas simples criaturas e, portanto, suas homenagens são limitadas e curtas. Na Santa Missa, porém, JESUS se aniquila, e esta Humilhação é de valor e mérito infinitos.
Por conseguinte, a homenagem e a honra que por meio d´Ele prestamos a DEUS na Santa Missa são homenagem e amor infinitos. Sendo assim, como quitaremos bem a nossa primeira dívida com DEUS, assistindo à Santa Missa! Ó mundo obcecado, quando abrirás os olhos para compreender verdade tão importante?
E vós, cristãos negligentes, tereis ainda a coragem de dizer: “Uma Missa a mais, uma Missa a menos…”? Que triste cegueira!

As Excelências da Santa Missa – São Leonardo de Porto Maurício

terça-feira, 26 de abril de 2016

NO INFERNO SOFRE-SE SEMPRE

Picture-of-HellCruciabuntur die ac nocte in saecula saeculorum — “Serão atormentados dia e noite pelos séculos dos séculos” (Apoc. 20, 10).
Sumário. Consideremos que o inferno é um cárcere tristíssimo, no qual se sofrem todas as penas e todas elas eternamente. De sorte que passarão cem anos, passarão mil, e o inferno apenas terá começado. Passarão cem mil séculos, passarão cem milhões, e o inferno estará ainda no seu princípio. Ora, esse inferno nos está também preparado, se não nos aplicarmos ao serviço de Deus, se O ofendermos pelo pecado. Quantos dentre os que, como nós, meditaram nesse horroroso cárcere, estão agora nele queimando para sempre!
Considera que o inferno não tem fim; sofrem-se nele todas as penas, e todas elas eternamente. De sorte que passarão cem anos de sofrimentos, passarão mil, e o inferno terá apenas começado. Passarão cem mil, cem milhões, mil milhões de anos e de séculos, e o inferno estará ainda no seu princípio. — Se um anjo fosse nesta hora dizer a um réprobo que Deus o quer livrar do inferno, mas quando? Quando tiverem passado tantos milhões de séculos quantas são as gotas de água, as folhas das árvores, e os grãos de areia que existem no oceano e na terra, vós haveríeis de ficar pasmos; mas a verdade é que aquele réprobo sentiria mais alegria com tal notícia do que vós se vos dessem a notícia de haverdes sido eleito rei de um grande reino. Sim, porque o réprobo diria consigo: é verdade que devem passar tantos séculos, mas chegará o dia em que terminarão. Porém, os séculos hão de passar, e o inferno estará no seu princípio; suceder-se-á tantas vezes igual número de séculos, quantos são os grãos de areia, as gotas de água, as folhas das árvores, e ainda o inferno estará no seu princípio. — Cada réprobo de boa vontade proporia a Deus esta condição: Senhor, aumentai as minhas penas tanto quanto vos aprouver; prolongai-as tanto quanto for da vossa vontade, mas ponde-lhe um termo qualquer dia e ficarei contente. Mas não, esse fim nunca chegará.
Se o pobre réprobo pudesse ao menos iludir-se e consolar-se dizendo: quem sabe? Talvez um dia Deus se apiede de mim e me livre do inferno! Mas não, o desgraçado réprobo terá incessantemente diante da vista a sentença de sua condenação eterna, e dirá: todas as penas que agora estou sofrendo, o fogo, os lamentos, nunca mais terão fim? Nunca! E quanto tempo durarão? Sempre, sempre! Ó nunca! Ó sempre! Ó eternidade! Ó inferno! Como? Os homens o crêem, e pecam e continuam a viver no pecado?
Irmão meu, põe sentido; lembra-te de que o inferno é também para ti, se cometeres o pecado. Já está ardendo essa fornalha horrorosa debaixo de teus pés, e no momento em que estás lendo isto, quantas almas caem nela! Lembra-te que, se uma vez mereceste o inferno, dá graças a Deus por não te ter lançado nele. Procura o mais depressa possível reparar o mal feito, chora os teus pecados e emprega os meios mais aptos para a tua salvação. Confessa-te quanto antes, lê cada dia um pouco em um ou outro livro espiritual; pratica a devoção a Maria Santíssima recitando cada dia o Terço e jejuando cada sábado: resiste às tentações, chamando logo por Jesus e Maria: foge das ocasiões do pecado, e se Deus te chamar para deixares o mundo, faze-o, obedece. Tudo quanto se fizer para livrar-se de uma eternidade de penas, é pouco, é nada: Nulla nímia securitas, ubi pericliatur aeternitas (1) — “Nenhuma cautela é demasiada, quando se trata de assegurar uma eternidade feliz”. Quantos eremitas foram viver em grutas, nos desertos, a fim de fugir do inferno! E tu, o que fazer depois de teres merecido tantas vezes o inferno? Que fazes? Que fazes? Vê que te condenas. Entrega-te a Deus e dize-lhe:
Eis-me aqui, ó Senhor meu: quero fazer tudo quanto me pedirdes. Graças Vos dou por me terdes suportado até hoje com tanta paciência; agradeço-Vos as luzes que agora me destes, fazendo-me ver a minha insensatez, e o mal que fiz ultrajando-Vos com tão numerosos pecados. Ah! Jesus, doce Salvador meu, detesto-os e arrependo-me de toda a minha alma. Amo-Vos sobre todas as coisas. Vós não me condenastes ao inferno, a fim de que eu comece a amar-Vos. Sim, quero amar-Vos, e quero amar-Vos muito. Dai-me a força para compensar com o meu amor os desgostos que Vos tenho dado. † Doce Coração de Maria, sêde minha salvação (2). (II 479.)
  1. S. Bern.
    2. Indulg. de 300 dias, cada vez.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Vídeo de lançamento do livro "Pedro, tu me amas?", de Daniel Leroux.


"Este livro é esclarecedor..." Dom Marcel Lefebvre



DEUS QUER SERVIR-SE DE MARIA NA SANTIFICAÇÃO DAS ALMAS

mariaA conduta das três pessoas da Santíssima Trindade, na encarnação e primeira vinda de Jesus Cristo, é a mesma de todos os dias, de um modo visível, na Igreja, e esse procedimento há de perdurar até à consumação dos séculos, na última vinda de Cristo.
Deus Pai ajuntou todas as águas e denominou-as mar; reuniu todas as graças e chamou-as Maria10. Este grande Deus tem um tesouro, um depósito riquíssimo, onde encerrou tudo que há de belo, brilhante, raro e precioso, até seu próprio Filho; e este tesouro imenso é Maria, que os anjos chamam o tesouro do Senhor11, e de cuja plenitude os homens se enriquecem.
Deus Filho comunicou a sua Mãe tudo que adquiriu por sua vida e morte: seus méritos infinitos e suas virtudes admiráveis. Fê-la tesoureira de tudo que seu Pai lhe deu em herança; é por ela que ele aplica seus méritos aos membros do corpo místico, que comunica suas virtudes, e distribui suas graças; é ela o canal misterioso, o aqueduto, pelo qual passam abundante e docemente suas misericórdias.
Deus Espírito Santo comunicou a Maria, sua fiel esposa, seus dons inefáveis, escolhendo-a para dispensadora de tudo que ele possui. Deste modo ela distribui seus dons e suas graças a quem quer, quanto quer, como quer e quando quer, e dom nenhum é concedido aos homens, que não passe por suas mãos virginais. Tal é a vontade de Deus, que tudo tenhamos por Maria e assim será enriquecida, elevada e honrada pelo Altíssimo, aquela que, em toda a vida, quis ser pobre, humilde e escondida até ao nada. Eis a opinião da Igreja e dos Santos Padres.12
Se eu me dirigisse aos espíritos fortes desta época, tudo isso, que digo simplesmente, poderia prová-lo pela Sagrada Escritura, pelos Santos Padres, citando longas passagens em latim e aduzindo os mais fortes argumentos, que o Padre Poiré deduz e desenvolve em sua Tríplicecoroa da Santíssima Virgem. Falo, porém, aos pobres e aos simples que, por serem de boa vontade e terem mais fé que a maior parte dos sábios, crêem com mais simplicidade e mérito, e, portanto, contento-me de lhes simplesmente a verdade, sem me preocupar em citar todos os textos latinos, embora mencione alguns, mas sem os rebuscar muito. Continuemos.
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Pois que a graça aperfeiçoa a natureza e a glória aperfeiçoa a graça, é certo que Nosso Senhor continua a ser, no céu, tão Filho de Maria, como o foi na terra. Por conseguinte, ele conserva a submissão e obediência do mais perfeito dos filhos para com a melhor das mães. Cuidemos, porém, de não atribuir a essa dependência o menor abaixamento ou imperfeição em Jesus Cristo. Maria está infinitamente abaixo de seu Filho, que é Deus, e, portanto, não lhe dá ordens, como uma mãe terrestre as dá a seu filho. Maria, porque está toda transformada em Deus pela graça e pela glória que, em Deus, transforma todos os santos, não pede, não quer, não faz a menor coisa contrário à eterna e imutável vontade de Deus. Quando se lê, portanto, nos escritos de São Bernardo, São Bernardino, São Boaventura, etc., que no céu e na terra tudo, o próprio Deus, está submisso à Santíssima Virgem13, devemos entender que a autoridade, que Deus espontaneamente lhe conferiu, é tão grande que ela parece ter o mesmo poder que Deus, e que suas preces e rogos são tão eficazes que se podem tomar como ordens junto de sua Majestade, e ele não resiste nunca às súplicas de sua Mãe, porque ela é sempre humilde e conformada à vontade divina.
Se Moisés, pela força de sua oração, conseguiu sustar a cólera de Deus contra os israelitas, e de tal modo que o altíssimo e infinitamente misericordioso Senhor lhe disse que o deixasse encolerizar-se e punir aquele povo rebelde, que devemos pensar, com muito mais razão, da prece da humilde Maria, a digna Mãe de Deus, que tem mais poder junto da Majestade divina, que as preces e intercessões de todos os anjos e santos do céu e da terra?14
No céu, Maria dá ordens aos anjos e aos bem-aventurados. Para recompensar sua profunda humildade, Deus lhe deu o poder e a missão de povoar de santos os tronos vazios, que os anjos apóstatas abandonaram e perderam por orgulho.15 E a vontade do Altíssimo, que exalta os humildes (Lc 1, 52), é que o céu, a terra e o inferno se curvem, de bom ou mau grado, às ordens da humilde Maria16, pois ele a fez soberana do céu e da terra, general de seus exércitos, tesoureira de suas riquezas, dispensadora de sua graças, artífice de suas grandes maravilhas, reparadora do gênero humano, medidora para os homens, exterminadora dos inimigos de Deus e a fiel companheira de sua grandezas e de seus triunfos.
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Por meio de Maria, Deus Pai quer que aumente sempre o número de seus filhos, até a consumação dos séculos, e diz-lhes estas palavras: In Iacob inhabita – Habita em Jacob (Ecli 24, 13), isto é, faze tua morada e residência em meus filhos e predestinados, figurados por Jacob e não nos filhos do demônio e nos réprobos, que Esaú figura.
Assim como na geração natural e corporal há um pai e uma mãe, há, na geração sobrenatural, um pai que é Deus e uma mãe, Maria Santíssima. Todos os verdadeiros filhos de Deus e os predestinados têm Deus por pai, e Maria por mãe; e quem não tem Maria por mãe, não tem Deus por pai. Por isso, os réprobos, os hereges, os cismáticos, etc., que odeiam ou olham com desprezo ou indiferença a Santíssima Virgem, não têm Deus por pai, ainda que disto se gloriem, pois não têm Maria por mãe. Se eles a tivessem por Mãe, haviam de amá-la e honrá-la, como um bom e verdadeiro filho ama e honra naturalmente sua mãe que lhe deu a vida.
O sinal mais infalível e indubitável para distinguir um herege, um cismático, um réprobo, de um predestinado, é que o herege e o réprobo ostentam desprezo e indiferença pela Santíssima Virgem17 e buscam por suas palavras e exemplos, abertamente e às escondidas, às vezes sob belos pretextos, diminuir e amesquinhar o culto e o amor a Maria. Ah! Não foi nestes que Deus Pai disse a Maria que fizesse sua morada, pois são filhos de Esaú.
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O desejo de Deus Filho é formar-se e, por assim dizer, encarnar-se todos os dias, por meio de sua Mãe, em seus membros. Ele lhe diz: “In Israel hereditare – Possui tua herança em Israel” (Ecli 24, 13), como se dissesse: Deus, meu Pai, deu-me por herança todas as nações da terra, todos os homens bons e maus, predestinados e réprobos. Eu os conduzirei, uns com a vara de ouro, outros com a vara de ferro; serei o pai e advogado de uns, o justo vingador para outros, o juiz de todos; mas vós, minha querida Mãe, só tereis por herança e possessão os predestinados, figurados por Israel. Como sua boa mãe vós lhes dareis a vida, os nutrireis, educareis; e, como sua soberana, os conduzireis, governareis e defendereis.
“Um grande número de homens nasceu nela”, diz o Espírito Santo: Homo et homo natus est in ea. Conforme a explicação de alguns Santos Padres o primeiro homem nascido em Maria é o homem-Deus, Jesus Cristo; o segundo é um homem puro, filho de Deus e de Maria por adoção. Se Jesus Cristo, o chefe dos homens, nasceu nela, os predestinados, que são os membros deste chefe, devem também nascer nela, por uma conseqüência necessária. Não há mãe que dê à luz a cabeça sem os membros ou os membros sem a cabeça: seria uma monstruosidade da natureza. Do mesmo modo, na ordem da graça, a cabeça e os membros nascem da mesma mãe, e, se um membro do Corpo Místico de Jesus Cristo, isto é, um predestinado, nascesse de outra mãe que Maria, que produziu a cabeça, não seria um predestinado, nem membro de Jesus Cristo, e sim um monstro na ordem da graça.
além disso, pois que Jesus é agora, mais do que nunca, o fruto de Maria, como lhe repetem mil e mil vezes diariamente o céu e a terra: “…e bendito é o fruto do vosso ventre”, é certo que Jesus Cristo, para cada homem em particular, que o possui, é tão verdadeiramente o fruto e obra de Maria como pra todo o mundo em geral. Deste modo, se qualquer fiel tem Jesus Cristo formado em seu coração, pode atrever-se a dizer: “Mil graças a Maria! este Jesus que eu possuo é, com efeito, seu fruto, e sem ela eu jamais o teria”. Pode-se aind aplicar-lhes, com mais propriedade que São Paulo aplica a si próprio, as palavras: “Quos iterum parturio, donec formetur Christus in vobis” (Gal 4, 19): Dou à luz todos os dias os filhos de Deus, até que Jesus Cristo seja nele formado em toda a plenitude de sua idade. Santo Agostinho, sobrepujando a si mesmo, e tudo o que acabo de dizer, confirma que todos os predestinados, para serem conformes à imagem do Filho de Deus, são, neste mundo ocultos no seio da Santíssima Virgem, e aí guardados, alimentados, mantidos e engrandecidos por esta boa Mãe, até que ela os dê à glória, depois da morte, que é propriamente o dia de seu nascimento, como qualifica a Igreja a morte dos justos. Ó mistério de graça, que os réprobos desconhecem e os predestinados conhecem muito pouco.
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É vontade de Deus Espírito Santo que nela e por ela se formem eleitos. “In electis meis mitte radices” (Ecli 24, 12), lhe diz ele: Minha bem-amada e minha esposa, lança em meus eleitos as raízes de todas as virtudes, a fim de que eles cresçam de virtude em virtude e de graça em graça. Tive tanta complacência em ti, quando vivias na terra, praticando as mais sublimes virtudes, que desejo ainda encontrar-te sobre a terra sem que deixes de estar no céu. Reproduze-te, portanto, em meus eleitos. Que eu veja neles com complacência as raízes de tua fé invencível, de tua humildade profunda, de tua mortificação universal, de tua oração sublime, de tua caridade ardente, de tua firmíssima esperança e de todas as tuas virtudes. É sempre a minha esposa tão fiel, tão pura e tão fecunda como nunca: que tua fé me dê fiéis, que tua pureza me dê virgens, que tua fecundidade me dê eleitos e templos.
QUANDO MARIA LANÇA SUAS RAÍZES EM UMA ALMA, maravilhas de graça se produzem, que só ela pode produzir, pois é a única Virgem fecunda que não teve jamais, nem terá semelhante em pureza e fecundidade.
Maria produziu, com o Espírito Santo, a maior maravilha que existiu e existirá – um Deus-homem; e ela produzirá, por conseguinte, as coisas mais admiráveis que hão de existir nos últimos tempos. A formação e educação dos grandes santos, que aparecerão no fim do mundo, lhe está reservada, pois só esta Virgem singular e milagrosa pode produzir, em união com o Espírito santo, as obras singulares e extraordinárias.
Quando o Espírito Santo, seu esposo, a encontra numa alma, ele se apodera dessa alma, penetra-a com toda a plenitude, comunicando-se-lhe abundantemente e na medida que lhe concede sua esposa; e uma das razões por que, hoje em dia, o Espírito Santo não opera, nas almas, maravilhas retumbantes, é não encontrar ele uma união bastante forte entre as almas e sua esposa fiel e inseparável. Digo esposa inseparável porque, depois que este Amor substancial do Pai e do Filho desposou Maria para produzir Jesus Cristo, o chefe dos eleitos, e Jesus Cristo nos eleitos, nunca a repudiou, pois ela tem sido sempre fiel e fecunda
Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem – São Luiz Maria Grignon de Montfort
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10) Appellvit eam Mariam, quasi mare gratiarum (S. Antonino, Summa, p. IV, tit. 15, cap. 4, § 2).
11) Ipsa est thesaurus Domini (Idiota, In contemplatione B.M.V.).
12) Ver, entre outros, São Bernardo e São Bernardino de Sena, que S. Luís Maria cita mais adiante (141-142).
13) Ver adiante a citação (nº 76).
14) S. Agostinho, Sermo 208 in Assumpt., nº 12.
15) Per Mariam ab hominibus Angelorum chori reintegrantur (São Boaventura – Speculum B.V., lect. XI, § 6).
16) In nomine tuo omne genu flectatur caelestium, terrestrium et infernorum (São Boaventura – Psalter. maius B.V., Cantic. Instar “Cantici trium puerorum”).
17) Quicumque vult salvus esse, ante omnia opus est ut teneat de Maria firmam fidem (São Boaventura, Psalter. maius B.V., Symbol. Instar Symboli Athanasii).