quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Uma das explicações contra a consulta de horóscopos

ACERCA DA CONSULTA AOS ASTROS 
Santo Tomás de Aquino 

Como pediste que te escrevesse a propósito da licitude da consulta aos astros, cuidei escrever, desejando satisfazer teu pedido, sobre aquilo que nos foi transmitido pelos Santos Doutores

 
        Antes de tudo, é necessário que saibas que a virtude dos corpos celestes se estende à moção dos corpos inferiores. Com efeito, disse Santo Agostinho no livro quinto d´A Cidade de Deus: “Definitivamente, nem sempre é absurdo dizer que determinados astros podem ocasionar mudanças nos corpos”. E assim, se alguém recorre aos julgamentos dos astros para conhecer de antemão certos efeitos corporais, como a tempestade ou a serenidade do tempo, o vigor ou a fraqueza de um corpo, a fecundidade ou infecundidade das colheitas, e coisas similares, que dependam de causas corporais e naturais, não parece haver pecado. Pois, todos os homens recorrem a alguma observação dos corpos celestes em vista de conhecer efeitos deste tipo: os agricultores semeiam e colhem em períodos exatos após a observação do movimento do sol; os marinheiros evitam navegar quando a lua está cheia ou nas noites sem lua; os médicos examinam as doenças em dias específicos, determinados pelo curso do sol e da lua. Donde não há inconveniente na consulta aos astros com relação a efeitos corporais, fundada na observação de estrelas menos evidentes. 

        Mas é preciso absolutamente compreender que a vontade do homem não está sujeita à necessidade dos astros; de outro modo, pereceria o livre arbítrio, e sem este, não se poderiam atribuir as boas ações ao mérito do homem, nem as más à sua culpa. E, por esta razão, todo cristão deve ter por certo que o que depende da vontade do homem — todas as obras humanas são desta espécie — não está submetido à vontade dos astros. Por isso lemos nas Escrituras (Jr. 10, 2): Não vos espanteis com os sinais dos céus; porque com eles os gentios se atemorizam. 
        Mas o diabo, a fim de arrastar os homens ao erro, imiscui-se nas predições daqueles que se voltam aos julgamentos astrais >. É o motivo pelo qual Santo Agostinho disse em seu Comentário Literal Sobre o Gênese: é preciso reconhecer que, quando os astrólogos predizem com veracidade, é devido a qualquer influência ocultíssima que os espíritos humanos põem ao seu serviço; e quando tal se dá com a intenção de mistificar os homens, é obra dos espíritos imundos e sedutores, que podem ter dos afazeres temporais algum conhecimento verdadeiro. Por este motivo, Agostinho diz ainda, no livro segundo de seu tratado Sobre a Doutrina Cristã, que as observações astrais desta espécie equivalem a um pacto contraído com demônios.


        Ora, o cristão deve evitar totalmente ter pacto ou sociedades com demônios, segundo esta palavra do Apostolo (I Cor. 10, 20): Não quero que vos torneis associados aos demônios. E assim, deve ser tido por certo que a consulta aos astros sobre o que depende da vontade do homem é um pecado grave. 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A devoção a Maria dá valor

Muito tempo faz encontrava-se entre os religiosos trapistas de Sept-Fons, na França, um irmão leigo, muito velho e enfermo, que tinha na mão o seu rosário. Era o irmão Teodoro, o qual outrora fora um soldado valoroso.
Quando em 1812 o exército francês, vencido voltava da Rússia, a coluna de Teodoro, extenuada de cansaço e de fome, encontrou-se em frente de uma bateria russa que barrava o caminho de fugida.
Um verdadeiro desespero se apoderou de todos: oficiais e soldados atiravam suas armas ao solo. Que fazer? Era no rigor do inverno e haviam caminhado longas horas sobre a neve e o gelo. Que fazer?Voltar era impossível. Ir adiante? Ali estava a poderosa bateria inimiga. Permanecer naquele posto? Era condenar-se a morrer de frio e de inanição.
De repente adianta-se um oficial:
- Venham comigo os valentes!…
Coisa rara nos anais de nossa guerra: nem uma voz respondeu.
Engano-me. Um só homem, um só, o irmão Teodoro, saiu da fila dizendo:
- Irei sozinho, se o Sr. quiser.
Dizendo isto, tira a mochila e o fuzil e ajoelha-se na neve, persigna-se diante de todos e reza uma dezena do rosário com fervor como nunca. Toma novamente o fuzil e, de cabeça baixa, lança-se a passo de carreira, com tanta confiança como se dez mil homens o seguissem.
Estava para alcançar a bateria inimiga, quando os russos, crendo que os franceses queriam apanhá-los pelas costas, enquanto se ocupassem de um só inimigo, abandonaram sua peça e bagagem e fugiram.
Dono do campo, disse nosso herói com admirável naturalidade:
- Eis aí! para sair de apuros, não há coisa melhor do que rezar o rosário.
O oficial entusiasmado corre para ele, tira sua própria Cruz de Honra e pendura-a ao peito do jovem, exclamando com lágrimas nos olhos:
- Valente soldado, tu a mereces mais do que eu!
- Comandante (respondeu Teodoro), não fiz mais do que meu dever.
Cinquenta anos mais tarde, com seu hábito de trapista, quando, no mais rigoroso inverno, passava a maior parte do dia de joelhos rezando o rosário, gostava de repetir:
- Não faço mais do que o meu dever!
Tesouro de Exemplos – Pe. Francisco Alves
Fonte:

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Deus me chama

Um missionário Lazarista, falecido na Itália em fins do século passado, pregava retiro a umas jovens de Constantinopla precisamente nos dias em que a cólera invadia a infeliz cidade.
Na manhã do terceiro dia, bem cedo, viu o missionário chegar uma das jovens retirantes, que lhe disse:
- Padre, desejo confessar-me e fazer uma boa comunhão esta manhã. Depois da missa lhe direi o motivo.
Comungou com singulares mostras de fervor. Depois da ação de graças veio dizer-me:- Padre, esta noite, passei-a acordada e tive a sensação de que chegara para mim o momento da morte e minha alma, separada do corpo, era levada por meu anjo da guarda ao tribunal do soberano Juiz.
Já não era o Salvador tão bom e misericordioso, de que tantas vezes nos falam os padres, mas um juiz inexorável. Iam chegando todas as partes do mundo inúmeras almas; muitas iam para o inferno, bastantes para o purgatório, muitas poucas diretas para o céu.
Perturbada e atemorizada, levantei os olhos e – ó felicidade! – minha boa Mãe, a Imaculada, ali estava a olhar para mim com uma doçura infinita. Animada com esta vista, do fundo do meu coração saiu o grito que repetia muitas vezes na terra: ” Boa Mãe, Mãe do Perpétuo Socorro, socorrei-me, salvai-me!”
Estava eu aos pés do tribunal de Deus e a minha sorte eterna ia decidir-se num instante.
De repente, uma voz melodiosa, como nenhuma outra da terra, se fêz ouvir:
- Meu Filho, esta é minha filha.
Então Nosso Senhor, voltando-se para sua gloriosa Mãe, disse-lhe com inefável carinho, que não se pode exprimir em linguagem humana:
- Pois é vossa: julgai-a Vós.
E por todo juízo a Rainha dos Santos abriu-me os braços e eu me refugiei neles. Era feliz por toda a eternidade!…
Calou-se a jovem. Seu rosto brilhava como se ainda estivesse vendo aquela visão celeste.
O missionário, mais impressionado do que deixava perceber, pregou naquela manhã sobre a necessidade da preparação para a morte.
Apenas havia terminado, vieram chamá-lo com toda a urgência; uma das jovens que assistiam ao retiro acabava de cair de cama vítima da cólera.
Naquele corpinho, que se retorcia com a violência da doença, reconheceu ele a jovem da visão.
- Padre, eu bem lhe dizia, Deus me chama!
E duas horas depois, com um sorriso celestial nos lábios, sua alma voava para a glória, repetindo pela última vez sua jaculatória favorita:
- Minha Mãe, Mãe do Perpétuo Socorro, socorrei-me! salvai-me!
Tesouro de Exemplos – Pe. Francisco Alves
Fonte:

sábado, 24 de janeiro de 2015

O Rosário nos perigos

Já faz bastante tempo, deu-se na cidade de Cartago, na república de Costa Rica, um terremoto tão violento que a destruiu quase por completo.
A Revista “América”, dos Jesuítas de Nova York, narrando os pormenores da pavorosa catástrofe, chamou a atenção dos leitores para o fato seguinte:
D. Ezequiel Gutiérrez, que fora presidente daquela república, no momento do cataclismo, achava-se em sua casa rezando o rosário acompanhado de toda a sua família. Algumas pessoas quiseram interromper a reza e fugir para a rua, mas o chefe obrigou-as a ficar até terminar o rosário.Acabada a oração, saíram à rua e qual não foi o assombro de todas ao verem as casas convertidas em ruínas. Em toda a redondeza nenhum edifício ficara intacto; a desolação era completa; somente a casa do ex-presidente não sofrera nenhum dano, nem sequer um abalo.
Evidentemente Nossa Senhora a tomara sob a sua especial proteção, porque ali se rezava o seu rosário.
Tesouro de Exemplos – Pe. Francisco Alves
Fonte:

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Remorsos e desejos de um pecador moribundo

mortedopecadorAngustia superveniente, requirent pacem, et non erit— “Ao sobrevir-lhes de repente a angústia, eles buscarão a paz e não a haverá” (Ezech. 7, 25).
Sumário. Consideremos o estado infeliz de um moribundo que viveu mal, especialmente se era pessoa consagrada a Deus. Que remorso lhe causará o pensamento de que, com os meios que o Senhor lhe proporcionou, até um pagão se faria santo! Desejará então um instante daquele tempo que agora se perde, ou é empregado no pecado, mas em vão. Irmão meu, a fim de que não tenhamos tal desgraça, tomemos agora as resoluções que então havíamos de tomar. Talvez seja esta a última vez que Deus nos chama.
I. Como se deixam bem conhecer no momento da morte as verdades da fé, mas para maior tormento do moribundo que viveu mal, especialmente se era pessoa consagrada a Deus, já que, para o servir, tinha mais facilidade, mais exemplos, mais inspirações. Ó Deus, que pena será para essa pessoa pensar e dizer: “Repreendi os outros e fiz pior do que eles! Deixei o mundo e vivi ligado aos gozos, às vaidades e às afeições do mundo!” Que remorso lhe causará o pensamento de que, com as luzes que recebeu de Deus, até um pagão se teria feito santo! Que dor não sofrerá, lembrando-se de ter ridicularizado as práticas de piedade dos outros como fraquezas de espírito e de ter louvado certas máximas do mundo, de estima ou de amor próprio!Desiderium peccatorum peribit (1) — “O desejo dos pecadores perecerá”. Quanto será desejado na morte o tempo que se perde agora! Conta São Gregório, nos seus Diálogos, que um homem rico, mas de maus costumes, chamado Crisâncio, estando a ponto de morrer, gritava aos demônios que lhe apareciam visivelmente para se apoderar de sua alma: “Dai-me tempo, dai-me tempo até amanhã.” Respondiam os demônios: “Ó insensato, é nesta hora que pedes tempo? Tiveste tanto tempo e perdeste-o, empregaste-o a pecar, e agora é que pedes tempo? Já não há mais tempo.” O desgraçado continuava a gritar e a pedir socorro. Próximo dele achava-se um seu filho chamado Maximo, que era monge. Dizia-lhe o moribundo: “Socorre-me, filho, meu caro Maximo, socorre-me!” No entanto, com o rosto chamejante, volvia-se de um para outro lado do leito, e nesta agitação e gritos de desespero, expirou desgraçadamente.
Ó céus! Durante a vida, aqueles desgraçados comprazem-se na sua loucura, mas na morte abrem os olhos e reconhecem quanto foram insensatos; mas isto então lhes serve tão somente para aumentar o seu desespero de remediarem o mal que fizeram. — Meu irmão, penso que ao leres estas reflexões, dirás: É verdade; é mesmo assim. Mas se é verdade, muito maior seria a tua loucura e a tua desgraça, se, reconhecendo a verdade na vida, não te aproveitasses dela a tempo. Esta mesma leitura, que acabas de fazer, ser-te-á no momento da morte uma espada de dor.
II. Eia pois, já que te é dado tempo de evitar tão deplorável morte, dá-te pressa em aproveitá-lo: não demores até que venha o tempo em que não poderá remediar o mal. Não demores sequer um mês, nem sequer uma semana. Quem sabe se a luz que Deus te dá agora na sua misericórdia, não é a última graça e a última exortação que te faz? É loucura não querer pensar na morte, que é certa e da qual depende a eternidade; mas maior loucura ainda é pensar nela e não se preparar. Faze agora as reflexões e resoluções que farás então; agora com fruto, então sem fruto; agora com a confiança de te salvar, então com grande desconfiança de tua salvação. — A um fidalgo, que se despedia da corte de Carlos V, a fim de viver unicamente para Deus, perguntou o imperador, porque deixava a corte. “Porque é necessário”, respondeu ele, “que exista um intervalo de penitência entre uma vida desordenada e a morte.”
Não, meu Jesus, não quero continuar a abusar da vossa misericórdia. Agradeço-Vos a luz que hoje me dais, e prometo-Vos mudar de vida. Quanto me consola o que dissestes:Convertimini ad me, et convertar ad vos (2) — “Convertei-vos a mim e eu me converterei a vós”. Afastei-me de Vós por amor das criaturas e das minhas miseráveis satisfações; agora deixo tudo e converto-me a Vós. Estou certo de que não me repulsareis, se eu quiser amar-Vos, porquanto me dizeis que estais pronto para me acolher em vossos braços. Convertar ad vos — “me converterei a vós”. Recebei-me na vossa graça, fazei-me conhecer o grande bem que em Vós possuo e o amor que tivestes para comigo, a fim de que não torne a deixar-Vos. — Perdoai-me, ó meu amado Jesus, perdoai-me; meu Amor, perdoai-me todos os desgostos que Vos tenho causado. Dai-me o vosso amor e fazei de mim o que quiserdes. Castigai-me, como entenderdes; privai-me de tudo, mas não me priveis da vossa graça. Venha o mundo todo a oferecer-me todos os seus bens; protesto que só Vos quero a Vós e nada mais. — Ó Maria, recomendai-me a vosso Filho; Ele vos concede tudo quanto pedis; em vós confio. (II 33.)
1. Ps. 111, 10.
2. Zach. 1, 3.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Sto. Afonso
Fonte:

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Nossa Senhora e a pastorinha devota


Conta o Padre Auriema que uma pastorinha de ovelhas tinha muito amor a Maria Santíssima. Todas as suas delícias eram ir a uma Capela da Virgem, que estava no monte, e aí entreter-se sossegadamente com sua boa Mãe, enquanto pastavam as ovelhas. E porque a pequena estátua da Mãe de Deus estava sem enfeite algum, pois-se a fazer-lhe um manto, com suas pobres mãozinhas. Um dia, colhendo do campo algumas singelas flores, dela compôs uma grinalda. Depois, subindo ao altar, a pôs na cabeça da imagem, dizendo: Minha Mãe, eu quisera pôr-vos na cabeça uma coroa de ouro, mas não posso porque sou pobre. Assim recebei de mim esta pobre coroa de flores; aceita-a em sinal do amor que vos tenho. Com estes semelhantes obséquios buscava a piedosa pastorinha servir e honrar a sua amada Rainha. Ora, vejamos agora como a boa Mãe recompensou as visitas e o afeto desta sua filha.
Caiu ela enferma e chegou a termo de morrer. Sucedeu que dois religiosos passando por aquele lugar, e cansados da viagem, se puseram a descansar debaixo de uma árvore. Um dormia e o outro estava acordado. Mas ambos tiveram a mesma visão. Viram um grupo de belíssimas virgens, e entre elas estava uma que em beleza e majestade excedia a todas. A esta perguntou um dos religiosos: Quem sois vós, Senhora, e a onde ides? - Eu - respondeu a Virgem - sou a Mãe de Deus e vou com estas santas virgens visitar aqui na aldeia uma pastorinha moribunda, que muitas vezes me visitou a mim. Assim disse e desapareceu. Disseram então aqueles bons servos de Deus: Vamos nós também vê-la! Prepararam-se e, chegando a casa onde estava a pastorinha moribunda, entraram na pobre choupana e ali a viram deitada sobre um pouco de palha. Saudaram-na; ela fez o mesmo e lhes disse: Irmãos, rogai a Deus que vos faça ver quem me está assistindo. Logo ajoelharam-se e eles viram a Mãe de Deus que estava ao lado da pastorinha com uma coroa na mão, e a consolava. Eis que as virgens começavam a cantar, e ao som daquele suave canto saiu do corpo a bendita alma da pastorinha. Maria colocou-lhe então a coroa na cabeça, tomou-lhe a alma e levou-a consigo ao Paraíso.

Santo Afonso Maria de Ligório, Glórias de Maria.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Ei de Morrer um dia...

hei

Statutum est hominibus semel mori; post hoc autem iudicium
 — “Está decretado que os homens morram uma só vez, e que depois venha o juízo” (Hebr. 9, 27).
Sumário. É utilíssimo para a salvação eterna dizermos muitas vezes conosco: “Hei de morrer um dia”; e entretanto escolhermos nos negócios da vida o que na hora da morte quiséramos ter feito. Com efeito, meu irmão: nesta terra um vive mais tempo, outro menos; mas mais cedo ou mais tarde, para cada um chegará o fim e então nada nos consolará senão o havermos amado Jesus Cristo e o termos padecido por seu amor e com paciência as dificuldade da vida presente.
I. É utilíssimo para a salvação eterna dizermos muitas vezes conosco: Hei de morrer um dia. A Igreja lembra-o todos os anos aos fiéis no dia de Cinzas: Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris — “Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar.” Mas no correr do ano a lembrança da morte nos é sugerida freqüentíssimas vezes, ora pela vista de um cemitério à beira da estrada, ora pelas campas que vemos nas igrejas, ora pelos defuntos que são levados à sepultura. — Os objetos mais preciosos que os anacoretas guardavam nas suas grutas eram uma cruz e uma caveira: a cruz para se lembrarem do amor que nos teve Jesus Cristo e a caveira para não se esquecerem do dia da sua morte. Assim é que perseveraram na sua vida de penitência até ao termo de seus dias. Morrendo pobres no deserto morreram mais contentes do que morrem os monarcas em seus palácios régios.Finis venit, venit finis (1) — “O fim vem, vem o fim!” Nesta terra uns vivem mais tempo, outros menos; porém, mais cedo ou mais tarde, para cada um chegará o fim da vida, e nesse fim, que será a hora da nossa morte, nada nos dará consolo, senão o termos amado Jesus Cristo e o termos padecido com paciência, por amor d’Ele, as penalidades desta vida. Então nenhum consolo poderão dar-nos, nem as riquezas adquiridas, nem as dignidades possuídas, nem os prazeres gozados. Todas as grandezas terrestres não somente não consolarão os moribundos, antes lhes causarão aflições. Quanto mais as tiverem procurado, tanto mais lhes aumentará a aflição. Soror Margarida de Sant´Anna, carmelita descaça e filha do imperador Rodolfo II dizia: Para que servirão os reinos do mundo na hora da morte?
Ah! Meu Deus, dai-me luz e dai-me força para empregar o tempo de vida que me resta em Vos servir e amar! Se tivesse de morrer neste instante, não morreria contente, morreria com grande inquietação. Para que, depois, esperar? Esperarei por ventura até que a morte me surpreenda, com grande perigo para a minha eterna salvação? Se nos tempos passados tenho sido tão insensato, não o quero ser mais. Dou-me inteiramente a Vós; aceitai-me e socorrei-me com a vossa graça.
II. Não há que ver; para cada um chegará o fim da vida, e com este fim o momento que decidirá da nossa eternidade feliz ou infeliz: O momentum a quo pendet aeternitas! Oxalá, todos pensassem nesse grande momento e nas contas que então deverão dar ao divino Juiz acerca de toda a vida! De certo, não se preocupariam tanto com acumulação de dinheiro, nem se afadigariam para serem grandes nesta vida, que deve findar; senão pensariam em tornar-se santos e em ser grandes na vida que nunca mais terá fim.
Se portanto temos fé e cremos que há uma morte, um juízo e uma eternidade, procuremos viver tão somente para Deus durante o tempo de vida que ainda nos resta. Por isso, vivamos quais peregrinos nesta terra. Lembrando-nos de que em breve a teremos de deixar. Vivamos sempre com o pensamento fito na morte e nos negócios da vida presente, prefiramos sempre o que na hora da morte quiséramos ter feito. As coisas da terra nos deixam ou nós havemos de deixá-las. Escutemos o que nos diz Jesus Cristo:Thesaurizate vobis thesauros in coelo, ubi neque aerugo neque tinea demolitur (2) — “Ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consome a ferrugem nem a traça”. Desprezemos os tesouros terrenos, que não conseguem contentar-nos e em breve perecerão e procuremos ganhar os tesouros celestes, que nos farão felizes e nunca poderão acabar.
Ó meu Senhor, ai de mim, que por amor às coisas deste mundo Vos tenho tantas vezes virado às costas, a Vós, ó Bem infinito! Reconheço que fui insensato procurando ganhar no mundo grande reputação e fazer grande fortuna. De hoje em diante não quero para mim outra fortuna senão a de Vos amar e de cumprir em tudo a vossa santa vontade. Ó meu Jesus, arrancai de meu coração o desejo de fazer figura, fazei que eu ame os desprezos e a vida oculta. Dai-me força para me negar tudo o que não Vos agrada. Fazei que aceite com paz as enfermidades, as perseguições e todas as cruzes que me enviardes. Por vosso amor quisera morrer abandonado de todos, assim como Vós morrestes por meu amor. Ó Virgem Santa, as vossas orações me podem fazer achar a verdadeira fortuna, que consiste em amar muito o vosso divino Filho; por favor, rogai por mim, em vós confio. (II 261.)
1. Ez. 7, 2.
2. Matth. 6, 20.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Sto. Afonso

Fonte:
http://catolicosribeiraopreto.com/

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O dom da fortaleza

Na semi-obscuridade das catacumbas, o Bispo acaba de oferecer o Santo Sacrifício da Missa. Com ar grave, volta-se para o pequeno grupo de fiéis que terminam sua ação de graças. Na penumbra, procura com o olhar um mensageiro seguro a quem possa confiar o Pão Consagrado, isto é, o Corpo de Cristo, para ser levado às tristes e úmidas prisões, onde os cristãos aguardam a hora do martírio.
- Tarcísio! chama o Bispo.
Uma criança levanta-se. Um menino de belos olhos leais e corajosos. Silenciosamente, aproxima-se do Bispo. Já compreendeu o que esperam que ele faça. Não é a primeira vez que isso acontece.
- Sim, eu o levarei.
Sob o amplo manto de lã, Tarcísio leva escondido o seu Deus. Calmo, forte, recolhido, segue pelas ruas de Roma. Ele é ainda uma criança. No meio de toda aquela gente, passará despercebido e ninguém suspeitará de onde vem e para onde vai, pois, sem saber bem porquê, todo o povo da cidade deseja a morte dos cristãos. Tarcísio julga que não será notado. Mas sabe perfeitamente o que acontecerá se o apanharem levando a Eucaristia aos prisioneiros: será a morte!O menino sente-se tão feliz com a difícil missão que lhe confiaram, caminha tão recolhido, rezando em silêncio, que nem vê, na esquina de uma pequena praça, um grupo de seus colegas dc escola, que organizavam uma grande partida de jogo.
- Tarcísio! Tarcísio! Venha cá!
- Precisamos de um companheiro para o nosso jogo!
- Não! responde Tarcísio, agora, não posso.
- Por quê?
- Aonde é que você vai?
- Que é que você carrega no seu manto?
- Mostre o que é! 
A princípio, os meninos não fizeram a coisa por mal. Tarcísio tem muito bom gênio e, embora seja cristão, é um bom colega. Mas o fato é que é cristão. Os companheiros pagãos o sabem, ou adivinham! Por brincadeira, talvez, um deles lança a frase que toda a cidade repete com desprezo: “É um asno de cristão, que carrega os mistérios!”
Os outros pulam e cercam Tarcísio:
- É verdade, Tarcísio? Mostre o que você leva aí!
- Mostre o que você leva, deve ser muito engraçado!
Tarcísio recua:
- Por favor, deixem-me passar!
Mas o bando cerca-o ainda mais de perto, e não o larga mais. Os meninos pagãos empurram e sacodem Tarcísio, dão-lhe bofetadas, pontapés, pedradas…
Tarcísio não procura defender-se.
O sangue jorra-lhe do nariz, da boca. Seu rosto está todo ferido. Mas não faz mal: com as duas mãos bem juntas, ele segura ainda o Pão consagrado. Isso é o que importa! Eis, porém, que tudo começa a rodar em volta dele, e, já sem forças, Tarcísio cai nas lajes de pedra.
Agora, aproxima-se um centurião e os meninos fogem. Mas Tarcísio está morto! SÃO TARCÍSIO, é como a Igreja hoje o designa. 
Sob formas diferentes, essa história tem se repetido muitas vezes, sempre que a Igreja é perseguida. Há uns vinte anos atrás, um meninozinho foi morto com uma injeção de veneno, porque tinha levado a Eucaristia a seu papai, que estava prisioneiro dos inimigos de Deus.
Essas crianças não tiveram medo nem do sofrimento, nem da morte. Como é isso possível?
É claro que, sozinhos, nunca teriam tal coragem! O Espírito Santo e que lhes deu o dom de Fortaleza, fazendo com que ficassem firmes até o fim, e dessem até a vida para provar que eram cristãos.
Mas temos de repetir aqui, que não somos todos chamados ao martírio. Nosso Senhor disse que não há maior amor do que dar a vida por aqueles que amamos. É verdade! Há, no entanto, duas maneiras de dar a vida por Deus. De uma só vez, pelo martírio, como Tarcísio e Salsa; ou por uma generosidade de todos os dias, procurando fazer o bem, por amor, a todos os instantes, nas menores coisas, sem nunca se cansar. E esta segunda maneira talvez seja a mais difícil.
Não, não é nada fácil, viver, em cada momento, como verdadeiro filho de Deus! Não é fácil evitar sempre o menor pecado para conservar a alma sempre completamente pura, na resplandecente luz de Deus. Isso é até por vezes muito difícil, pois desde o pecado original nos inclinamos sempre para o mal, e o demônio está à espreita para tentar-nos e fazer-nos cometer faltas.
Temos, portanto, muita necessidade de que o Espírito Santo dê à nossa alma o dom de Fortaleza, que nos atrai para Deus, tal como o ímã atrai a limalha de ferro. Ah! Se pudéssemos ser como os Santos, simplesmente uma limalhazinha de ferro, tudo se tornaria tão fácil em nossa vida!
As Sete Velas de meu Barco – M.D. Poinsenet
Fonte:

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Não irei dormir em pecado

Quando fez a sua primeira comunhão, tomou um menino a resolução de nunca ir dormir em pecado mortal na consciência.
O seu propósito era: “Se tivesse a desgraça de cair em falta grave, irei confessar-me no mesmo dia e não irei para a cama antes de me haver conciliado com Deus”.
Alguns meses mais tarde teve a fraqueza de cometer um tal pecado. Era sábado, fazia mau tempo e a igreja era distante. Ele dizia:
- Amanhã, quando fôr à missa, procurarei o confessor e me confessarei.
Lembra-se, porém, de sua promessa e uma voz interior lhe diz:
- Faze o que prometeste, vai te confessar…Contudo, não se resolvia ir e, nessa luta, ajoelhou-se e implorou o auxílio de Nossa Senhora, rezando uma Ave-Maria para que lhe fizesse conhecer a vontade de Deus. Apenas terminara a sua oração, sentiu-se mais vivamente impelido a ir confessar-se imediatamente. Levanta-se, corre à igreja e confessa-se.
De volta encontra-se com sua madrinha, que lhe pergunta de onde vem.
- Acabo de confessar-me, diz com rosto alegre e feliz: cometi um pecado e não quis ir dormir sem alcançar o perdão; agora, sim, tendo recuperado a graça de Deus, posso dormir tranquilo…
Sua mãe tinha o costume de deixá-lo dormir um pouco mais aos domingos; por isso não foi despertá-lo cedo. Às sete horas bate à porta, chama-o pelo nome… Não responde. Passa um quarto de hora e o menino não aparece.
Chama-o de novo, mas sem resultado algum.
Inquieta, abre a porta, abeira-se da cama onde o filho jaz imóvel; pega-lhe, está fria; fixa-o um instante, dá um grito e desmaia… O menino estava morto!
E se não tivesse ido confessar-se?
Tesouro de Exemplos – Pe. Francisco Alves
Fonte:

sábado, 17 de janeiro de 2015

Esforce-se por ser humilde do coração.

- Santo Afonso Maria de Ligório

"(...)A segunda coisa, em que principalmente consiste a doçura, é na paciência em sofrer os desprezos. 

Dizia S. Francisco de Assis que muitas pessoas fazem consistir a sua perfeição em recitar muitas orações, ou fazer muitas mortificasses corporais, ao passo que não pode suportar uma palavra injuriosa. 

Não compreendem elas, ajuntava o santo, quanto lhes é mais proveitoso suportar as afrontas. 

Maior mérito haverá em receber em paz uma injúria, que em jejuar dez dias a pão e água.

Segundo S. Bernardo, há três graus de virtude a que deve aspirar quem quer santificar-se: o primeiro é não querer dominar sobre os outros; o segundo querer estar sujeito a todos; o terceiro sofrer com paciência as injúrias.

Vereis, por exemplo, que se concede aos outros o que a vós se recusa; que o que os outros dizem é escutado; e o que vós dizeis escarnecido; que os outros são louvados, escolhidos para empregos honrosos e negócios importantes, e que de vós se não faz caso. 

Tudo quanto fazeis vos atrai censuras e remoques; então, diz S. Doroteu, sereis verdadeiramente humildes, se aceitardes em paz todas estas humilhações, e se recomendardes a Deus, como vossos maiores benfeitores, os que assim vos tratam, curando o vosso orgulho, — a mais perigosa moléstia, capaz de vos dar a morte."

(Livro: A Selva - Santo Afonso Maria de Ligório)
 
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"Esforce-se por ser humilde do coração. Muitos há que são humildes de palavras, mas não do coração; dizem que são os maiores pecadores do mundo, que merecem mil infernos; apesar disso, querem ser preferidos, estimados e louvados. 

Quando ninguém os aplaude, a si próprios se louvam; ambicionam os empregos mais altos, e não podem sofrer uma palavra de desprezo.Não procedem assim os humildes de coração: nunca falam dos seus talentos, da sua nobreza, das suas riquezas, nem de coisa alguma que os distinga.

Amará pois os empregos e serviços mais humildes e obscuros. Receberá as afrontas sem se perturbar, e até interiormente se comprazerá nelas, por se tornar assim semelhante a Jesus Cristo, que foi saturado de opróbrios.Será prestável a todos, e cuidará em especial de fazer bem a quem lhe tiver feito mal, pelo menos recomendando-o a Deus; é a vingança dos santos." 

(Regras Espirituais para um Padre que Aspire à Perfeição - 
Santo Afonso Maria de Ligório)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Devoção a Nossa Senhora

a) Um dia estava o Santo Cura de Ars em êxtase diante duma imagem de Nossa Senhora. Uma pessoa ouviu este diálogo:
- Boa Mãe, sabeis que não pude converter tal pecador. Dai-me sua alma, que por ela levarei o cilício durante oito dias.
Nossa Senhora respondeu:
- Eu ta concedo.
Há outro filho vosso, muito infeliz, do qual nada pude conseguir. Prometo-vos jejuar por êle muito tempo, se me concederes a sua conversão.
- Eu ta concedo, respondeu a Virgem.b) Ozanam, jovem de 18 anos e quase incrédulo, chegara a Paris.
Um dia viu num canto da igreja um venerando ancião que rezava o rosário.
 Aproximou-se e o observou bem. Era o famoso sábio Ampère. Ozanam ficou comovido, ajoelhou-se e chorou em presença daquele espetáculo. Mais tarde costumava dizer: O rosário de Ampère produziu em mim mais fruto do que todos os sermões e livros de leitura.
Tesouro de Exemplos – Pe. Francisco Alves
Fonte:

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Tratado da Castidade - 4ª Parte

TRATADO DA CASTIDADE
Bem-aventurados os puros
(SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO)

4ª Parte

§ IV. DA GUARDA DO CORAÇÃO
  
Santo Afonso
A modéstia dos olhos pouco nos servirá se não vigiarmos sobre o nosso coração. "Aplica-te com todo o cuidado possível à guarda do teu coração, diz o Sábio (Prov 4, 27), porque é dele que procede a vida". É aqui o lugar apropriado para se dizer algumas palavras sobre as amizades e, primeiramente, sobre as santas, depois sobre as puramente naturais e, afinal, sobre as perigosas.


1) Descrevendo São Paulo a corrupção moral dos gentios, enumerava entre seus vícios a falta de sentimento e de susceptibilidade para a amizade. A amizade, segundo São Tomás, é mesmo uma virtude. A perfeição não proíbe se entretenham amizades, diz São Francisco de Sales; exige somente que sejam santas e edificantes, a saber, só devem ser mantidas aquelas uniões espirituais por meio das quais duas, três ou mais pessoas, comunicam entre si seus exercícios de devoção, seus desejos piedosos e sentimentos nobres, tornando-se como que um só coração e uma só alma para a glória de Deus e o bem espiritual próprio e alheio. Com toda a razão podem tais almas exclamar: "Vede quão bom e suave é habitarem os irmãos em união" (Sl 132, 1). São Francisco diz mais que, em tal caso, o suave bálsamo da caridade destila de coração em coração por meio dessas mútuas comunicações, e bem pode-se dizer que Deus lança Sua benção sobre tais amizades, por toda a eternidade (Fil., III, c. 19).

Tais amizades são recomendadas pela Escritura mesma, em termos eloquentes: "Nada se pode comparar com o valor de um amigo fiel, e o valor do ouro e da prata não iguala a bondade de sua fidelidade" (Ecli 6, 16). "Um amigo fiel é um remédio para a vida e a mortalidade, e os que temem o Senhor encontram um tal" (Idem). Mas como podeis aconselhar as amizades particulares, dirá alguém, quando elas são tão rigorosamente condenadas por todos os ascetas? Respondo: As amizades particulares são proibidas unicamente nos claustros e com toda a razão, pois é imperiosamente necessário que todos os religiosos se amem mutuamente com amor fraterno, para que haja uma vida comum claustral. Ora, num claustro, as amizades particulares podem facilmente ocasionar perturbações dessa mútua caridade, dando ocasião a invejas, suspeitas e outras misérias humanas. São Basílio não hesitou dizer que as amizades particulares em um convento são uma sementeira perpétua de invejas, de desconfianças e inimizades. O mesmo acontece nas famílias em que o pai ou a mãe tem mais carinhos para um filho que para os outros. Os filhos de Jacó odiavam seu irmão José, porque seu pai lhe dedicava um amor especial.
 
Não há, além disso, nenhum motivo de se alimentar tais amizades num estado religioso, pois, num convento, onde reinam a disciplina e a ordem, todos os membros tendem ao mesmo fim, à perfeição, e não é necessário travar amizades particulares para animar-se mutuamente ao serviço de Deus e ao trabalho do aperfeiçoamento próprio.

Os que, vivendo no mundo, desejam dedicar-se à prática da virtude verdadeira e sólida, precisam, pelo contrário, de se unir aos outros por uma amizade santa e edificante, para poderem, por meio dela, se animar, se auxiliar e se estimular ao bem. Há no mundo poucas pessoas que tendem à perfeição e muitas que não possuem o espírito de Deus e, por isso, é preciso que os bons, quanto possível, evitem os que podem impedir seu adiantamento espiritual e travem amizade com os que os podem auxiliar na prática do bem.

2) Quanto às amizades puramente naturais, deve-se dizer que elas têm seu fundamento na nossa natureza, que nos compele a amar nossos pais, nossos benfeitores e todos aqueles em quem vemos belas qualidades e com quem simpatizamos. Esta espécie de amizade é o laço da família e da sociedade, mas facilmente degenera em amizades falsas; por exemplo, se os pais, por um carinho demasiado, toleram as faltas de seus filhos, ou se um amigo ofende a Deus para agradar a seu amigo, etc. As amizades naturais só são agradáveis a Deus se as santificarmos por meio da boa intenção; por exemplo, amando a nossos pais e amigos por amor de Deus.

3) Por amizades perigosas entendem-se, em particular, as sensuais, isto é, aquelas que se baseiam sobre uma complacência sensual, sobre a fruição comum de prazeres dos sentidos, sobre certas qualidades fúteis e vãs de espírito e coração. Essas amizades são já por si perigosas, mesmo que, no começo, nada tenham de inconveniente, e devemos guardar nosso coração desembaraçado delas.

a) "Quem não evita relações perigosas, cai facilmente no abismo", diz Santo Agostinho (Serm. 293). O triste exemplo de Salomão bastaria para nos encher de terror. Depois de ter sido amado tanto por Deus, servindo ao Espírito Santo de mão para escrever, travou relações com mulheres pagãs, já na sua velhice, e caiu tão profundamente que chegou a sacrificar aos deuses. Isso, porém, não nos deve estranhar, pois, será para admirar que alguém se queime, permanecendo no meio das chamas? - pergunta São Cipriano (De sing. cler.). Mas em nossas conversas, graças a Deus, não ocorre nada de mal, dirá alguém. Respondo: Todas as amizades que têm sua origem em afeições meramente materiais são, pelo menos, um grande impedimento à perfeição, ainda que não dessem ocasião a outras coisas. Elas, no mínimo, fazem-nos perder o espírito de oração e recolhimento interior; a alma que está presa por uma afeição natural poderá achar-se corporalmente na igreja, mas seu espírito estará se entretendo com o objeto de seu amor; perderá o amor aos Santos Sacramentos; não será mais sincera para com seu confessor, temendo que ele a obrigue a romper com essa cadeia e, envergonhando-se de lhe descobrir sua afeição, não lhe dirá a causa de sua tibieza, e assim se agrava, de dia para dia, seu estado lastimoso. Ao ouvir que fala mal da pessoa amada, se enfurece, defende-a calorosamente; descuida-se da obediência, pois quando o confessor a exorta a renunciar a tal amizade, procura mil desculpas para não ter de obedecer.

Não é só grande a perda espiritual que se sofre com essas amizades baseadas sobre certas qualidades externas duma pessoa, mas, principalmente se for doutro sexo, é também enorme o perigo que se corre de se se perder eternamente. No começo tais amizades parecem indiferentes, mas tornam-se pouco a pouco pecaminosas e, enfim, arrastam a alma ao pecado mortal. "São como o fogo e a palha, e o demônio não cessa de assoprar até irromper o incêndio", diz São Jerônimo.