terça-feira, 21 de outubro de 2014

Obrigações do Matrimônio

tradiciones-matrimonio[1]Do mesmo modo que do tronco brotam os galhos, assim também do matrimônio derivam-se certas obrigações que devemos necessariamente explicar. Elas se referem a três coisas: à prole, à unidade e à in- dissolubilidade. A primeira de todas é a prole. Para muitos o matrimônio é uma cerimônia, um passatempo, um pretexto para se divertirem. O matrimônio, na verdade, é tudo ao contrário.
Os direitos que ele confere, são lícitos, unicamente enquanto se referem à prole, sob pena de incorrerem os cônjuges na maldição divina. Há muitos, entretanto, que se julgam honestos porque têm uma família numerosa. Só isso não basta. Qual é a ambição de certas mães? Ter filhos bonitos, vesti-los bem, para exibi-los em toda parte e receberem os melhores elogios. Ou ainda, ter filhos espertos e atilados, ágeis, cheios de saúde.
Mas isto também não é suficiente. “Os filhos não estarão completamente criados enquanto não estiverem completamente educados”, isto é, capazes de viver no mundo uma vida honesta, tanto civil como religiosa. Não há dúvida, de que pesa sobre os pais a obrigação de prover aos seus filhos o necessário para a vida, como a comida, o vestuário, a habitação, a preservação dos perigos a que constantemente eles se ex- põem, cuidando de sua saúde quando estiverem doentes.
Mas também temos dever de procurar-lhes um estado que corresponda à sua condição, preocupando-se com a instrução e a educação requeridas. Ainda mais, têm obrigação séria de proporcionar-lhes uma sólida formação religiosa.
O fim do matrimônio-Sacramento não consiste unicamente na propagação da espécie humana, mas também em multiplicar os verdadeiros adoradores de Deus, isto é, formar cristãos. Devemos constatar um fato extremamente doloroso, e é que há pais, que cumprindo de maneira perfeita com os demais deveres ao seu cargo, coisa por um lado mui louvável, não se preocupam absolutamente nada com o que se refere à religião.
Se caem algumas gotas de chuva, se sopra um pouco de vento, se a temperatura é um pouco fria ou quente mais que de ordinário, tudo isso é motivo para que não permitam aos filhos irem a Missa ou ao Catecismo. Pois bem, nessas mesmas circunstâncias, os mandarão sem tantos temores à escola ou ao colégio. Para a escola não há nem pretextos nem desculpas. Os únicos a ficar prejudica- dos são sempre a Missa e o Catecismo. 
O Matrimônio há de ser uno, isto é, a união de um só homem com uma só mulher. É lei estabelecida por Deus quando criou os nossos primeiros pais: “Serão dois numa só carne!” (Gên., II, 24) Dois, não três, nem mais.
 Assim o homem há de ser todo da mulher e a mulher, toda do homem. Dois não somente em casa mas também fora dela. Não somente nos atos públicos da vida, mas também nos pensamentos da mente e nos afetos do coração. Dois, até a morte, ainda mesmo que se encontrem longe ou doentes, ainda que estejam separados legal ou canonicamente, quer estando o marido do outro lado do oceano, ou das montanhas.
Mesmo que um dos cônjuges estivesse encarcerado, mesmo que sua condenação devesse durar toda a vida. Dois, nas mudanças de domicílio e de cidade; nos contratempos, nos abandonos, e na perda dos bens.
Sempre dois, em qualquer tempo ou circunstância. E por quê? Porque o que Deus uniu, o homem não pode separar. (Mons. André Scotton, INSTRUÇÕES CATEQUÍSTICAS SOBRE O MATRIMÔNIO – Nova edição).
Requer-se fidelidade de PENSAMENTO pelo qual se proíbe todo pensamento voluntário sobre outra pessoa que não seja seu cônjuge; fidelidade do CORAÇÃO pela qual não se deve admitir deliberadamente nenhum sentimento, nenhum afeto, nenhuma complacência, nem desejo, que perturbe o amor conjugal; fidelidade de VONTADE pela qual há de permanecer na fé jurada ante o altar.
Quão formosa é a religião! Com que poder e eficácia defende a fidelidade conjugal. Existem esposos exageradamente ciumentos que para se certificarem da fidelidade do cônjuge, fazem indagações entre os amigos, vizinhos, e até mesmo entre os criados sobre o proceder do mesmo durante a sua ausência.
Uma coisa é suficiente para se viver tranquilo nesse ponto: A RELIGIÃO. Se ela existe, e principalmente se é sólida, ela somente basta; se ela não existir, todo e qualquer outro meio será ineficaz. O vínculo matrimonial validamente contraído não se rompe em nenhum caso durante a vida de ambos os esposos. É lei posta por Deus e confirmada por Jesus Cristo com estas palavras: “O que Deus uniu, o homem não separe”. (Mat., XIX, 6).
É lei eclesiástica, sustentada firmemente pela Igreja, através dos séculos, mesmo tendo que fazer frente a gravíssimas dificuldades. É também entre nós, lei civil. Várias vezes tentou o divórcio estabelecer- se entre nós, mas sempre encontrou repulsa por parte da maioria. Peça- mos a Deus que o afaste para sempre da nossa pátria. O divórcio é uma das maiores maldições que Deus pode mandar sobre uma nação, ao mesmo tempo é um dos maiores pecados contra as leis divinas e eclesiásticas. As leis civis são obrigatórias contanto que não se oponham às de Deus.
O Estado poderá permitir o divórcio, mas, apesar dessas leis, o matrimônio, permanece intacto diante de Deus e da Igreja. O divórcio é, além disso, uma maldição para a família porque diminui o número dos filhos e os já existentes veem-se expostos a mil perigos.
Uma maldição para a sociedade por causa das rixas, discórdias, e vinganças que se originam nas famílias. Uma maldição para a sociedade conjugal, que se veria sem base sólida: faltar-lhe-ia a alma, que é o verdadeiro amor cristão. As razões que alguns alegam, defendendo o divórcio, não têm valor.
A vida não é apenas uma poesia: é muito mais, é prosa séria e dura. Abri uma pequena brecha no costado de um navio, e em pouco tempo ele irá a pique. Há alguma coisa que faz sofrer, no matrimônio?
Supor-te-se com paciência. Pelo bem da sociedade e pelo bem da pátria dá-se até a vida. Bom seria que os pais fizessem seus filhos compreenderem esta grande verdade, principalmente aos que estão em vésperas de se casar. E como? Primeiro com o exemplo. Quando os filhos veem que seus pais levam uma vida laboriosa, séria, toda ela consagrada ao bem da família, ainda que cheia de sacrifícios, não podem deixar de fazer uma grande idéia da sublimidade do matrimônio.
Também por meio de conversas e confabulações em casa, pode-se fazer muito bem, neste campo. Há momentos na vida de família em que se está disposto a falar e a ouvir: em que se olha com seriedade o futuro. Excelente ocasião para uma boa mãe pronunciar uma palavra delicada, de luz e de vida. Esse é o momento propício para fazer o filho compreender que o matrimônio é um estado sério, que impõe obrigações muito graves, que é preciso pensar na futura família, tornando-se desde então capazes de mantê-la e educá-la; que o matrimônio une a própria vida com a de outrem, à qual se há de consagrar todo o afeto; que este laço há de durar toda a vida aconteça o que acontecer.
Para este mesmo fim pode a mãe aproveitar as correções que se veja obrigada a fazer aos filhos. Por exemplo: se o filho gasta muito, não trabalha com interesse e afinco, anda demasiado fora de casa; se a filha é ambiciosa, pouco amiga de retiro, vaidosa; então a mãe deve, aproveitando o momento oportuno, corrigi-los orientando-os ao matrimônio, fazendo-lhes advertências destinadas a sua futura maneira de proceder.
A um filho que durante o carnaval gastara demais, disse-lhe o pai: “É este o modo de portar-se de um chefe de família?” Estas palavras causaram mais impressão no filho do que qualquer outra reprimenda mais severa.  Em suma, é preciso que se fale em família, com as devidas precauções de tempo e de lugar, desobrigações do matrimônio, de sorte que os filhos cheguem a conhecer-lhe a fundo a natureza e seus fins. Costuma-se dar, com relação ao matrimônio, mais importância ao dote, à saúde, à família a que pertence a futura esposa. Tudo isso não é mal, mas é conveniente também dar-se importância às obrigações que se contraem nesse estado.
Maternidade Cristã- Pe. Humberto Gaspardo
Fonte:

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Deveres Matrimoniais

conrad-beckmannFelizmente, vivemos em tempos em que a moral católica e a ação do governo, no que se refere aos deveres matrimoniais, estão de acordo. Às famílias mais numerosas, com toda a justiça recebem um determinado auxílio, e as artes diabólicas encaminhadas a impedir a procriação da prole são castigadas pelo bom senso e pelas leis canônicas.
Fala-se publicamente desta matéria e se fazem. notar as vantagens que do ponto de vista social e político podem-se obter. Falemos nós também, considerando-o, porém, sob o ponto de vista religioso e moral.
Comecemos com uma pergunta: é lícito o ato conjugal?
Desde que o matrimônio é um Sacramento de vivos, é necessário recebê-lo em estado de graça, todas as ações dos cônjuges que se referem à consecução de seu fim primário, ou seja a procriação da prole, são lícitas, e muito lícitas. Deus disse: – “Crescei e  multiplicai-os e enchei a terra”.
Mas, notai bem, todas estas ações são lícitas no estado matrimonial e unicamente ordenadas ao fim para o qual foi estabelecido por Deus o matrimônio. O fogo sob a palha, pode queimar a casa, mas sob caldeira fá-la ferver e desta maneira serve para cozer o  alimento para a família. Do mesmo modo os atos matrimoniais feitos fora do matrimônio, ou também no matrimônio, mas contra seu fim primário, são a ruína da humanidade. Assim, pois, qualquer ato contra esta lei do matrimônio instituída por Deus, é um gravíssimo delito, pois que o  mesmo é matar uma criatura de dez anos como uma de dez horas e por isso um dia a maldição de Deus cairá sobre os cônjuges que transformam maliciosamente as fontes de vida numa cisterna envenenada que deixa perder-se a água.
Ai deles! Cometem um gravíssimo pecado que transtorna as leis da natureza e impede que Deus Pai continue a obra da criação, que Deus Filho, realize a obra da Redenção e que Deus Espírito Santo opere a santificação das almas. Mas isto não quer dizer que os esposos não possam viver juntos como irmãos, preferindo à fecundidade a fragrância  divina da virgindade: com efeito, segundo o exemplo de Maria e José, muitíssimos cônjuges mantiveram-se virgens à sombra do matrimônio, como se pode comprovar com a História Eclesiástica. Nos formosos tempos da fé, muitos esposos viviam como irmãos e irmãs durante a Quaresma, nos dias de jejum, e nas festas mais solenes, de modo que pouco a pouco esse costume transformou-se em lei.
De qualquer modo, a procriação da prole é sempre o fim do matrimônio.
A vida hoje em dia, – diz-se – é difícil, e como se há de obter a sustentação da família? – Respondo: Quando se ouviu dizer que alguém ficou na miséria por ter tido uma família muito numerosa? Lançai um olhar ao passado, e vereis se é verdade, o que diziam os nossos avós: Inocência – Providência!
Onde quer que nasça uma criança haverá sempre o necessário alimento para ela. Nalgumas famílias não há felicidade porque faltam muitos dos que deveriam existir e não existem. E antes de tudo, é a mesma lei natural que no-la ensina. Com efeito, assim como em nosso corpo a multiplicidade dos membros não diminui a força do poder da alma, a qual tem sobre os membros um domínio tanto mais perfeito quanto mais completa é a integridade dos membros, o mesmo sucede com a família. Quanto maior é o número dos filhos, tanto mais, parece que se acende neles um espírito de energia mais vivo e mais forte.
Um instinto natural os faz sentir, que, podendo esperar pouco da casa, é preciso que providenciem por si mesmos. Pois bem, sentimento semelhante, pode fazer milagres. Ao contrário, quando o filho é único, torna-se então um acumulador de soberba e de todos os demais vícios. Não é raro o caso de um filho único, que em pouco tempo dissipou a herança de um pai avarento, depois de lhe ter acarretado a morte com tantos desgostos.
É certíssimo: o que faz prosperar a família não é a abundância de riquezas e o número limitado de filhos, mas a bênção de Deus. Mas a bênção de Deus não pode descer sobre a casa em que  se espezinham as leis da natureza. Os pais que têm um pouco de fé sabem que os filhos mais que a eles pertencem a Deus. Não foi Deus quem estabeleceu as leis da geração? Não é Ele que a todo momento intervém diretamente por meio da criação da alma de cada um dos filhos?  Pois, bem, aquele Deus que não deixa faltar alimento nem mesmo aos pássaros do céu, poderá por acaso abandonar a criatura mais nobre, saída de suas mãos na criação do mundo visível?
Outra dificuldade: E quando o médico disse: “Basta  de filhos, de outra sorte a saúde da mãe corre perigos”. A esse respeito disse-me uma mãe: “Isso me disse o  médico depois do terceiro filho, já tenho cinco e estou melhor ainda do que antes”.
Neste caso, é preciso ter-se muito em conta a MORALIDADE DO MÉDICO. Além disso, devemos observar que para isso há remédios: suspensão do exercício dos direitos matrimoniais, por um tempo determinado, de mútuo acordo; observação de determinados dias de menor probabilidade; coisas que estão dentro do limite do honesto.
E se um dos cônjuges obstina-se em se fazer de surdo, fica sempre de pé, antes de tudo, a Divina Providência, que nunca abandona quem nela confia.
Nenhuma destas ou de outras razões, mesmo as mais graves, se existem, serão suficientes para autorizar a violação das leis da natureza, com o fim de se evitar um prejuízo material. Concluamos dizendo que unicamente a religião pode proporcionar a força necessária para se observarem os deveres do matrimônio.
Maternidade Cristã – Pe. Humberto Gaspardo
Fonte:

domingo, 19 de outubro de 2014

Finalidade do Matrimônio

pascal_dagnan-bouveret_-_blessing_of_the_young_couple_before_marriage1Aproximando-se o tempo em que os filhos devem escolher estado, devem saber o que vão fazer. Para isso é preciso que saibam convenientemente qual é o objeto e o fim do matrimônio.
Observemos o que diz a Bíblia:
Quando Deus criou Adão, disse: “Não está bem que o homem fique sozinho: façamos-lhe um adjutório semelhante a ele”. E então – continua a Escritura – enviou um profundo sono a Adão e enquanto ele estava dormindo tomou uma de suas costelas e a revestiu de carne. E da costela de Adão o Senhor Deus formou uma mulher e a apresentou a Adão e ao vê-la Adão, exultante de alegria, disse: Esta, agora, é osso de meus ossos, e carne de minha carne: terá o nome do varão, porque foi tirada do homem”. Isto se lê no primeiro livro da Sagrada Escritura, que se chama o Gênesis, no Capítulo XI.
Desta forma, tiveram princípio o homem e a mulher cujas qualidades físicas e morais são bem diferentes: vemos, com efeito, que no homem predomina a razão e na mulher o coração: no homem a força e a inteligência e na mulher a delicadeza e o sentimento. Na vida, pois, o homem com sua força, é apto para os grandes trabalhos, sabe dominar a natureza, tira dela seus produtos, e transforma-os. A mulher, com sua delicadeza, tem qualidades para conseguir aquilo de que o homem precisa.
O homem constrói a casa e enche-a de bens: a mulher os conserva, administra-os, regula-os, segundo as necessidades. O homem governa o Estado e a comunidade, a mulher a casa e a família.

O homem e a mulher são duas partes de um todo que tendem a realizar aquela união que primeiramente tiveram: daqui nasce a tendência natural de um para com o outro, tendência por si mesma legítima e honesta que leva o nome de AMOR; tendência estabelecida por Deus que Jesus Cristo regulou com leis sapientíssimas e santificou por meio do Sacramento do Matrimônio.
Desta verdade, isto é, que os dois sexos estão destinados a completar- se mutuamente, não só física, mas moralmente também, na vida, segue-se esta consequência importante: que falando-se de maneira geral, não se poderá fazer um juízo definitivo acerca do caráter de uma pessoa até que não tenha contraído matrimônio, quando, bem entendido, tivesse vocação para ele.
Quem poderá julgar com acerto de duas vozes destinadas a se completarem mutuamente e a formar uma única harmonia, se as escutarmos separadamente?
Às vezes, os jovens manifestam em seu caráter algo de anormal, que preocupa seriamente aos pais. Pois bem, pode muito bem suceder que uma vez contraído o matrimônio voltem à vida normal. Outra conseqüência é que o marido e a mulher devem procurar viver sempre de perfeito acordo, amando-se, consolando-se, auxiliando-se, um ao outro, tanto para conseguirem o seu aperfeiçoamento pessoal como para governar a família.
Chamam-se CÔNJUGES, isto é, jungidos à mesma canga, para levar juntos o peso da vida. Deus, como lemos na Sagrada Escritura quando criou o homem e a mulher disse: “Crescei e multiplicai-vos e enchei a terra!” Eis aqui o fim primeiro do matrimônio: A PROCRIAÇÃO DOS FILHOS. Quem, por natureza, fosse inepto para esse fim, ou o excluísse positivamente, não poderia contrair matrimônio válido. O contrato matrimonial seria nulo.
E quão doloroso é ter-se que levantar a voz e por outra parte, é estrita obrigação para o sacerdote, contra um fato pestilencial que se vai propagando cada dia mais, o neo-maltusianismo, que tem medo da prole! Malthus, autor desta doutrina, a concebia de uma maneira diferente da dos néo-maltusianos. Observando ele, que com o aumento da prole vinham a faltar os meios de subsistência, o que é falso, aconselhava a limitação dos filhos, excluindo-se, porém, toda fraude cometida contra as leis da natureza. Mas seus discípulos passaram além das limitações de seu mestre, e chegaram às mais funestas consequências.
A esta impiedade responde-se que de nada valem as razões apresentadas no número de filhos vivos, do bem estar da família, da dificuldade de encontrar casa, dos perigos pressagiados pelo médico, etc., porque encontramos famílias numerosíssimas que chegam a grande prosperidade e por outra parte, vê-se que riquíssimos patrimônios foram dilapidados por um só filho, o qual, precisamente por ser único, foi a desesperação dos pais. Olhar pela casa, pela economia, pela saúde, está muito bem, mas não basta. É preciso dirigir também suas vistas para o alto, para Deus; a fé, entre outras vantagens, tem esta que é fonte de prosperidade porque traz ao lar as bênçãos de Deus.
A doutrina da Igreja sobre este assunto é a seguinte: 1 – os cônjuges não podem fazer uso dos direitos que lhes confere o matrimônio senão em ordem à prole. 2 – São contrários à lei dei Deus todos os atos ou meios usados para se evitar a geração. Doutrina grave, mas justa, não somente segundo a lei de Deus, mas também segundo a lei natural.
O primeiro fim do matrimônio é, pois, a PROCRIAÇÃO DA PROLE, o segundo é o MÚTUO AUXÍLIO e o terceiro, o REMÉDIO CONTRA A CONCUPISCÊNCIA.
Com efeito, quem pensando serenamente nos cuidados, nas moléstias, nas incertezas, que traz consigo a formação, a manutenção e a educação da família, escolheriam o estado matrimonial? Pouquíssimos.
Por isso a Divina Providência, que preparou na comida um estímulo para o apetite, que incita a desejá-la para a conservação da sua própria pessoa, pôs também no homem uma inclinação muito forte, em ordem à conservação da espécie humana e à sua propagação sobre a terra CRÉSCITE ET MULTIPLICÁMINI ET REPLETE TERRAM! (Gên. I, 28). É uma inclinação que, ainda aumentada pelo pecado original, constitui a mais terrível e formidável tentação para o homem. Santo Agostinho diz que entre todas as lutas que o homem tem que sustentar a mais dura é a que ele enfrenta para guardar a castidade. Santo Afonso Maria de Ligório deixou escrito que todos os que se condenam, condenam-se como consequência do pecado oposto a esta virtude, ou pelo menos, não sem ele.
Nisto acontece o mesmo que com o vapor de água. Mal regulado, pode devastar a terra por meio, de terremotos, ao passo que reprimido em fortes tubos, pode mover os mais pesados comboios. O mesmo pode- se dizer das inclinações de que falamos. Reprimidos e bem encaminhados, pelo matrimônio, produzem a multiplicação e a propagação do gênero humano. Há o celibato virtuoso de que falamos mas Nosso Senhor diz: “Nem todos compreendem estas coisas, mas unicamente aqueles aos quais foi isso concedido do alto”. (São Mateus, XIX, 11).
Concluamos. Quem se dispõe a contrair matrimônio deve ter intenção de encontrar uma pessoa que verdadeiramente o ame e ajude a levar uma vida cristã, com o firme e preciso propósito de devolver-lhe todo o seu amor e formar honestamente uma família, em favor da qual há de estar disposto a sacrificar a sua própria vida para achar nela consolo e auxílio e para aumentar o número dos filhos de Deus, que algum dia serão herdeiros e possuidores do reino do céu.
MATERNIDADE CRISTà– PE. HUMBERTO GASPARDO
Fonte:

Casal sem Filhos

charles_haigh_wood-the_trystNo lugar onde se encontrava a casa da bem-aventurada Virgem-Maria, no quarto em que se deu a aparição do arcanjo Gabriel, onde Lhe deu a extraordinária mensagem de Deus, e no qual o Filho de Deus, no instante mesmo da humilde aceitação da Virgem, Se encarnou em Seu puríssimo seio, em Nazaré, cidade bendita, levanta-se hoje uma igreja cujo altar-mor tem em seu frontispício esta inscrição: “Verbum caro hic factum est – Aqui o Verbo se fez carne”. O Filho de Deus, querendo vir entre nós, começou aqui Sua existência humana, sob a forma humana.
Palavras sublimes! Cada vez que as pronunciamos, recitando o “Angelus”, ajoelhemo-nos. Mas o sacerdote também, na missa, genuflete quando na recitação do “Credo” chega a estas palavras: “Et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine, et homo factus est“. Ele Se fez homem. O Filho de Deus se fez homem, para começar Sua carreira terrestre, sob o aspecto de uma criancinha incapaz de falar, toda pequena vida humana que começa, resplandece, diante de nós uma coisa santa. E depois que a SS.Virgem trouxe em Seus braços o Menino-Deus uma espécie de auréola sobrenatural circunda a fronte de toda mãe de família. É também santa a dignidade de mãe.
Todos acharão, pois, natural que, nesta série de instruções sobre a família cristã e o casamento ideal, eu deva chegar a este ponto e queira consagrar-lhe vários sermões: O berço é um móvel indispensável na família. A criança faz parte integrante da família. Se o casamento não se expressasse em latim senão pela “coniugium“: “jugo-comum”, bastariam para realizá-lo plenamente e torná-lo feliz, as duas peças do mobiliário de que já falamos anteriormente, e que auxiliam a levar alegremente este jugo comum: a mesa de família e o crucifixo.
Mas o casamento se diz também em latim “matrimonium“, e isto indica um círculo inteiramente novo de obrigações: a criança precisa de um outro móvel: o berço. Dizei-me, vistes já a pequena ave fazer o seu ninho para que permaneça vazio? Ou apenas para que aí chilreie um passarinho? Não. Não há pássaro não há só um animal que assim faça, mas só o homem. Unicamente o homem descobriu essa coisa insensata: a família sem filhos.
Sim, é preciso falar disso, e bem alto, desta cátedra cristã, por delicado e difícil que seja o assunto. Consternados ouvimos jovens combinar antes se seu casamento e declararem: “Nós não teremos filhos, isto é natural, ou quando muito, um só″. São porventura muito severas as palavras de Santo Agostinho, quando chama tal existência, não um matrimônio, mas sim relações pecaminosas, sancionadas pelas formas legais?
Não trememos quando ouvimos as mães e mesmo as avós dizerem à sua filha, ou à sua neta ao se casarem, e repetirem com insistência: “Minha filha, cuidado, nada de filhos, Compreendestes? Nada de filhos”.
Olhemos de frente esta maneira perniciosa de ver as coisas. É preciso mostrar que a família voluntariamente estéril é como a árvore seca condenada a ser cortada. É preciso demonstrar que o filho pertence à idéia de família, não um, nem dois, mas vários. Naturalmente é preciso examinar as objeções e os pretextos que se apresentam no mundo moderno contra o filho.
Estas objeções formarão o objeto da instrução próxima. Nesta mostrarei que a exclusão do filho em uma família é um pecado. Um pecado:
I- Contra Deus.
II- Contra o filho.
III- Mesmo contra os interesses bem compreendidos dos próprios esposos. 
I – UM PECADO CONTRA DEUS
Primeiramente preciso mostrar, categoricamente que o Cristianismo sempre designou o filho como fim primeiro do matrimônio, e hoje ainda com bastante coragem, levanta uma voz contra certas idéias que se espalham pelo mundo, contra um modo de agir incrivelmente frívolo, que cada vez mais perigosamente contagia os esposos, mina a felicidade familiar e ao mesmo tempo a força da nação. Esta palavra de ordem terrível, essas idéias, este modo frívolo, é o receio de filhos.
A) Precisamos constatar dolorosamente que sobre esta questão se tinha uma idéia mais bela e mais nobre já antes do Cristianismo, quer entre os pagãos, quer entre os povos anteriores a Nosso Senhor Jesus Cristo.
É muito conhecido o caso da pagã Cornélia, a quem suas amigas, visitando-a ornadas de ricas jóias, perguntavam-lhe num tom afetado: “E vós mostrai-nos vossas jóias”. E esta pagã apresentou-lhes seus filhos dizendo: “Eis minhas preciosas jóias”.
Não mais preciso lembrar particularmente o magnífico amor aos filhos, manifestado pelo povo do Antigo Testamento, onde a ausência do filho passava por uma vergonha. Mesmo hoje não se pode ler sem emoção nos Santos Livros as fervorosas orações que as mulheres sem filhos dirigiam a Deus, pedindo a maternidade.
B) Chega, porém, o Cristianismo, e cresce ainda mais a grandeza deste nobre sentimento.
Com uma gravidade sem exemplo, fala do papel dos pais na transmissão da vida, porque sabe que o homem recebeu da confiança divina aquela faculdade de dar a vida, e por isso os pais participam da obra criadora de Deus. A vida conjugal e o exercício do dever conjugal não são, pois, nem uma humilhação, nem um pecado aos olhos do Cristianismo. Mostram, porém, neles, traços divinos, traços que enobrecem os colaboradores do Criador.
Dar a vida! Nunca, em parte alguma o homem o pode fazer, senão aqui neste instante. O homem pode tomar a vida de mil maneiras. O homem pode destruir a vida de mil formas. Mas dar a vida, ele não o pode, salvo dar o corpo, instrumento da alma, que Deus criou no momento da formação de um novo corpo humano. Ele mesmo a criou imediatamente e a depôs neste corpo humano, menor que um ponto.
Ah! Se os esposos vivessem sempre com a idéia que o Criador Se encontra entre eles; se sentissem, por assim dizer, o ruflar das asas do anjo que o Deus Criador envia neste instante ao pequenino corpo humano!
C) Veio, porém, o mundo egoísta atual e transformou esta nobre maneira de ver.
O mundo não quer ouvir falar senão de comodidades e prazeres, mas não deseja conhecer os sacrifícios que os acompanham. Para o mundo a criança não é mais um “dom de Deus”, e sim, “uma catástrofe”, um peso do qual se deve libertar por todos os meio, a fim de que não se perturbem os prazeres de duas pessoas grandes.
Eis, porém, a Igreja Católica, que não teme afirmar aberta e formalmente que é um pecado contra Deus impedir, de qualquer maneira, o nascimento do filho, aconteça isto por uma intervenção humana ou de qualquer outro modo. É uma profanação e um aviltamento da vida conjugal, uma grave ofensa ás leis naturais e aos mandamentos divinos, que o mundo frívolo chama de precaução e “sabedoria”, mas a que a Igreja não pode senão aplicar estas palavras de São Tiago: “Uma semelhança sabedoria não vem do alto, é terrestre, é carnal, diabólica” (Tiago, 3,15).
Sim, uma sabedoria diabólica, pois Nosso Senhor chama o demônio “homicida desde o princípio” (Jo 8,44). Se o profeta Isaías vivesse atualmente, ele diria que esses esposos fizeram um pacto com a morte, e uma aliança com o inferno (Is. 28,15). E se o salmista escrevesse hoje, faria ouvir a estes esposos estas terríveis palavras: “Amou a maldição e ela cairá sobre ele; não quis a bênção, e ela dele se afastará. Cobriu-se da maldição como de uma veste, e ela entrou como água dentro dele, e como óleo em seus ossos. Seja ela para ele como a veste que o cobre, e como a cintura que o cinge sempre”. (Sl 108, 18-19)
Quem não conhece famílias sem filhos, onde tudo isto se realizou se maneira terrível? Espíritos vingadores e mudos os terrificam, assim como as doenças do corpo e do espírito, falta de coragem, abatimento, e todos os flagelos de uma consciência inquieta, pois afastar o filho por meios pecaminosos é um pecado contra a ordem formal do próprio Deus Criador.
II – UM PECADO CONTRA OS INTERESSES DO FILHO
É igualmente um pecado contra os interesses do filho, da criança.
Não podemos racionalmente duvidar que o filho faz parte da família. Eis por que a maior parte dos esposos quer receber um filho das mãos de Deus; mas um só; quando muito dois. E não mais, por nada do mundo. E não pensam o quanto eles pecam contra o filho único que possuem, não querendo, sob diversos pretextos, outros filhos.
A) Os pais de filho único têm o costume de dizer muitas vezes que não é o número que importa, e sim a qualidade; eles não darão muitos filhos à Pátria, mas somente um; este, porém, será um ilustre personagem.
Infelizmente a vida mostra muitas vezes o contrário. Mostra que os verdadeiros homens ilustres não vêm das famílias de filhos únicos, mas, sim, de famílias numerosas. Se buscarmos a causa disto, constataremos, vários filhos do que um só.
Isto parece contraditório e no entanto é assim na realidade. Onde há vários filhos, a autoridade e o amor dos pais são divididos mais racionalmente, e assim não dificultam à personalidade dos filhos, pelas ordens perpétuas, e nem quebram a força de seu caráter por lisonjas contínuas. E a prova é que há mais homens ilustres nas famílias numerosas que nas famílias de filho único.
Demais, onde há vários filhos, estes são obrigados a aprender logo cedo a se absterem de muitas coisas. Onde há vários filhos, casa um deles é forçado a se contentar com pouco, e ouvir muitas vezes responder aos seus pedidos: “Não, meu filho! Não, minha filha! É preciso isto também para teus irmãos e tuas irmãs”. E isto não é um mal. É mesmo um bom princípio de educação. Porque, assim, eles aprendem melhor a prática da renúncia, e suportarão melhor, na idade adulta, as privações e as dificuldades da existência.
Ao contrário onde não há senão um só filho, os pais incessantemente o incomodam ou sem cessar o lisonjeiam. Todo o amor e todo o instinto educativo que a natureza depositou em seu coração de pais, eles o empregam agora para o seu filho único; ao infeliz não lhe fica sequer uma ocasião para firmar sua personalidade, para exercer suas faculdades de iniciativa, e eis por que, crescendo, ele se torna uma desajeitado, inepto, tímido, efeminado, sem expediente.
Mas se ordinariamente as famílias numerosas dão filhos mais bem educados que as famílias de filho único, há ainda uma outra causa. É principalmente que não são só os pais que educam os filhos, mas também os irmãos e as irmãs reciprocamente.
B) É um fato muito conhecido que a criança gosta de brincar, e para isto necessita de companheiros.
Ora os melhores companheiros de brinquedos para a criança são seus próprios irmãos e irmãs. A criança que cresceu sem irmãos e sem irmãs nunca foi verdadeiramente uma criança, nunca pode viver plenamente a sua infância; sempre no meio dos grandes torna-se uma criança precoce, ao princípio um pouco arrogante, mais tarde pretensiosa, um insensível e desiludido, velho antes da idade.
O filho único, que cresce só, está pois privado dos mais felizes momentos da vida, a idade dos brinquedos, e eis por que ele se torna uma criança que se aborrece, um ser retraído, triste, invejoso, sem alegrias. Ao contrário, onde há vários irmãos e irmãs, há alegres brincadeiras e saltos, barulhos, lutas, bagunças, brigas, reconciliações, eles vivem seus momentos mais felizes, a sua infância.
Acrescentemos que os irmãos e irmãs são uns para com os outros não só companheiros de brinquedos, mas, também, são, entre si, os melhores educadores. Enquanto juntos eles se divertem, são obrigados a tomar conta um dos outros, a portarem-se com inteligência, a dominarem-se e a se privarem de alguma coisa. Assim cada um compreende que não é o centro do mundo, mas que o segundo, o terceiro, o quarto de seus irmãos e irmãs, têm tanto direito como eles.
Onde vivem juntos vários irmãos e irmãs, eles se equilibram mutuamente, se refreiam e se educam.
Há, sem dúvida, choques entre si, mas é assim que se aviva o caráter, como os seixos do riacho, que se tornam polidos e luzidios, batendo uns aos outros incessantemente.
Onde, juntos vivem vários irmãos e irmãs, cada um deles é obrigado a aprender a dominar-se, a amar seu próximo, a perdoar, a abster-se, e a praticar o desinteresse.
C) É bom ainda mostrar um terceiro aspecto interessante dessa questão. Não só os pais educam seus filhos, mas os filhos também educam seus pais.
Ensinam a seus pais a virtude de que precisam para se ornarem bons educadores. Ensinam-lhes em primeiro lugar o amor devotado até o sacrifício. Será interessante examinar a fundo a transformação proveitosa que se opera na mulher mais superficial, quando pela primeira vez põe em seus braços o filho recém-nascido. Seria interessante observar com que terno amor, com que delicadeza o pai leva o filho em seus braços robustos.
Em seguida, constatamos o sentimento de responsabilidade e o gosto que desperta nos pais o cuidado da alma do corpo do filho. Pensam na responsabilidade que têm, em cada palavra que pronunciam diante do filho, em cada exemplo que lhes dão. Cada filho olha seu pai, sua mãe como dois seres melhores, mais sábios, mais inteligentes do mundo, são para eles o seu ideal.
E que aviso para os pais indicando-lhes o quanto pelo menos devem trabalhar para não ficarem longe desse ideal, que a alma de seus filhos evoca a esse respeito!
Não acreditais que os filhos possam ser os educadores dos pais? Pois bem! Escutai esta ingênua historieta.
Havia uma filha que, todas as manhãs e todas as noites, fazia piedosamente suas orações com a mãe. Uma noite que a mãe, tendo muito trabalho, não estava pronta para a oração, a filha lhe disse: “Mamãe venha fazer a sua oração”. A mãe respondeu um tanto impaciente: “Hoje farás tua oração com teu pai”. “Com papai?” diz a criança. “Mas papai não sabe rezar”. Ela nunca o via rezar, e pensava, com razão, que ele não sabia fazer as orações. Há muito tempo que o pobre homem se afastara de Deus… Mas agora… aquele ingênuo aviso de uma criança inocente, abalara sua alma e o tinha retornado aos deveres religiosos.
Certamente, seria preciso uma grande dureza, para que o coração de uma mãe ou de um pai não se enternecesse, para que não se despertassem neles as santas resoluções de domínio de si, de transformação de vida, quando o olhar inocente de seu filho ou de sua filha pousasse em seus olhos com tanta confiança, amor, entusiasmo e respeito.
Sim, os filhos, são também educadores dos pais.
III – UM PECADO CONTRA OS INTERESSES DOS PAIS
Precisamo-nos adiantar na exposição das nossas idéias. A exclusão culpável do filho é não só um pecado contra Deus e contra o filho, mas o é, ainda, contra os interesses bem compreendidos dos pais.
A) Primeiramente, o filho não é um filho, é um cuidado perpétuo.
A vida dos pais é uma inquietação contínua: Pode resfriar-se, pode-lhe acontecer qualquer coisa, e, sem ele, tudo estaria acabado para nós; esse receio é fundado porque as estatísticas demonstram que morrem muito mais crianças nas famílias de um ou de dois filhos, do que nas numerosas.
Se nestas famílias numerosas, um dos filhos morre, naturalmente os pais sentem e se enlutam, mas, ao menos, lhes ficam os outros para consolá-los. Que fica, porém, após a morte do filho único? o berço vazio, o quarto da criança emudece, seus brinquedos órfãos, ficam os amargos remorsos de consciência, recordando que poderia ser de outro modo, se mãos criminosas não contrariassem os planos divinos…
B) “Mas vários filhos custam mais caro”, tal a objeção mais comum.
Dou-lhe agora uma resposta muito curiosa e incrível.
Não, meus irmãos. O filho único custa mais que vários filhos.
Por toda parte onde há um só filho, não se conhecem as palavras privação e sacrifício; ao contrário, onde há vários, os pais são mais econômicos e trabalhadores.
Os esposos que afastam os filhos por meios culpáveis são mais irritáveis, menos afetuosos entre si, não se sentem bem entre as paredes de seu lar vazio e mudo.
Onde não há crianças, não há mais alegria, nem raios de sol, nem sorrisos, nem calor. É preciso procurar tudo isto fora do lar. E isto custa tão caro que se poderia, com a mesma soma, educar vários filhos.
Recordo-me o que conta em um de seus livros uma romancista húngara que passara o mais feliz e alegre natal, numa família de oito filhos, onde os pais trabalhavam duramente para sustentá-los. E quando ela perguntou aos pais, que riam com seus filhos, de que eram feitos aqueles brinquedos e presentes de todas as formas, a mãe respondeu com semblante alegre: “De madeiras, de trapos… e de amor”.
O filho contribui, pois, assim, para a realização e conservação da felicidade familiar.
É verdade, o filho causa também uma multidão de cuidados, despesas, temores e sacrifícios, mas é igualmente verdade que o filho dá em troca muitas coisas aos pais: dá-lhes alegrias, sol, vivacidade, esperança, um apoio para o futuro, enfim, é um reforço da vida conjugal.
É assim que se compreende esse fato curioso, que em 50% de lares divorciados não há sequer um filho, e que em 25% há apenas um. Pode-se, pois, tirar daí uma conclusão: Mais filhos, menos divórcio, pois, seguindo os planos admiráveis da divina providência, são as mãozinhas fracas da criança que mantêm unidos os braços robustos de dois adultos.
Mas, ao mesmo tempo, que prova terrível de que o filho não é obstáculo à felicidade dos pais, e que não é a sua ausência que traz a felicidade! Pois, muitas vezes, os lares que se separam são precisamente aqueles cuja felicidade não foi perturbada pela presença de filhos.
É justamente o contrário.
O sexto mandamento, o grande mandamento da felicidade, une igualmente interna e externamente. Aquele que vive no âmbito do matrimônio transgredindo as leis divinas dá facilmente o segundo passo, pelo qual se torna infiel também fora do casamento.
C) Mas, mesmo em outro sentido, os filhos são o consolo dos pais…
Examinaremos, porém, uma outra questão: Quem os amará em sua viuvez? Se um dos esposos morre, o outro fica só: Certamente se há vários filhos ficam ao sobrevivente muitos cuidados; mas se não há filhos, então ele se encontra num abandono cem vezes mais penoso. Que consolo para o viúvo ou para a viúva a presença dos filhos cuja tagarelice recorda a voz do caro desaparecido e cujos olhos revivem o olhar do morto!
É o que experimentava o poeta norte-americanos Longfelloe, quando, após 19 anos de felicidade, a morte arrebata-lhe a esposa. Em uma de suas cartas escreveu estas linhas:
“É uma coisa penosa reconstruir uma existência destruída. Tudo cai como a areia. Mas eu experimento e sou paciente… Meus filhos vão todos bem, isto me consola, e me dá coragem… minhas filhinhas tagarelam alegremente em meu quarto, como duas avezitas. Estão alegres por celebrarem o aniversário de suas bonecas… Que mundo maravilhoso o das crianças! Como é cheio de vida… Sou feliz por contemplar estas agitações, e sinto a doçura das palavras que foram pronunciadas um dia por lábios benditos: ‘Deixai vir a mim as criancinhas”.
É com estas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, um pouco modificadas, que desejo terminar esta instrução: Deixai as criancinhas virem ao mundo.
Ficamos sempre profundamente emocionados, cada vez que lemos na Sagrada Escritura, o morticínio dos Santos Inocentes, cometido por Herodes. Que gritos de dor dos lábios das mulheres de Belém. Com que desespero não apertaram, contra o peito, os seus filhos, quando os algozes chegaram para matar estas vítimas inocentes! Compadecemo-nos destas mães enlutadas!
O mundo atual porém tudo mudou. O mundo atual produziu mães, que não procuram com angustiado amor salvar da morte os seus filhos, mas vão elas mesmas procurar os algozes, e pagam bem para que tirem a vida a estas crianças inocentes. Haverá no vocabulário humano uma expressão bastante forte que possa caracterizar este crime? Terá o Céu bastantes raios para castigar dignamente esta monstruosidade?
Creio que sim.
Pois, aquele que cometeu este pecado e dele não fez penitência deve esperar duas espécies de castigos aqui na terra, todos os dois terríveis. Ou bem a sua consciência se desperta, e então não encontra em parte alguma repouso ante as sombras fúnebres dos pequeninos assassinados, ou então ele se endurece no pecado, e mata a sua consciência juntamente com os filhos, e neste caso cai em uma aridez de alma são indescritível, que lhe fica apenas um traço humano durante toda a sua vida.
Não se trata, em ambos os casos, de uma vida conjugal feliz e pacífica, mas só de um desgosto e de uma licença desenfreada, como o provam tantos exemplos tristes…
Senhor, nós vo-lo pedimos humildemente, dai à nossa pátria, que deles tanto precisa, esposos generosos, amantes de seus filhos. Amém.
Casamento e família – Dom Tihamér Tóth
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sábado, 18 de outubro de 2014

Da Oblação de Cristo na Cruz e da Própria Resignação

Voz do Amado


1.  Assim como eu a mim mesmo ofereci espontaneamente ao Pai eterno, com os braços estendidos e o corpo nu, de modo que nada restasse em mim que não fosse oferecido em sacrifício de reconciliação divina: assim também deves tu de coração oferecer-te voluntariamente a mim todos os dias na Santa Missa, em oblação pura e santa, com todas as tuas potências e afetos. Que outra coisa exijo de ti senão que te entregues inteiramente a mim? De tudo que me deres fora de ti, não faço caso; porque não busco teus dons, mas a ti mesmo.
2.  Assim como não te bastariam todas as coisas sem mim, assim me não pode agradar o que sem ti me ofereces. Oferece-te a mim, dá-te todo a Deus, e será aceita a tua oblação. Olha como me ofereci todo ao Pai por ti, e dei-te todo o meu corpo e sangue em alimento, para ser todo teu e para que tu te tornasses meu.
Se, porém, te apegares a ti mesmo, e não te ofereceres espontaneamente à minha vontade, não será completa tua oblação, nem perfeita a união entre nós. Portanto, a todas as tuas obras deve preceder o voluntário oferecimento de ti mesmo nas mãos de Deus, se desejas alcançar a liberdade e a graça. O motivo de haver tão poucos interiormente esclarecidos e livresé que muitos não sabem abnegar-se de todo a si mesmos. É imutável minha sentença: Quem não renunciar a tudo não poderá ser meu discípulo (Lc 14,33). Se desejas, pois, ser meu discípulo oferece-te a mim com todos os teus afetos.

Imitação de Cristo – Tomás de Kempis
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