quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Excelência da Santíssima Eucaristia


“Dize-me, meu irmão, que é que o Senhor podia fazer mais a fim de se fazer amar de nós?”


Quid est bonum eius et quid pulchrum eius, nisi frumentum electorum et vinum germinans virgines – “Qual é o bem dele e qual é a sua formosura senão o pão dos escolhidos e o vinho que gera virgens?” (Zc 9, 17)
Sumário. O mais digno e excelente entre todos os sacramentos é o Santíssimo Sacramento do Altar, porque os demais sacramentos contém os dons de Deus, mas este contém o próprio Deus. Por isso não há outro meio mais eficaz para conduzir uma alma à perfeição do que a santa comunhão, que a une a Jesus Cristo e a faz uma só coisa com Ele. Dize-me, meu irmão, que é que o Senhor podia fazer mais a fim de se fazer amar de nós? Todavia não somente O temos amado pouco até hoje, mas ainda Lhe temos sido ingratos.
I. O mais nobre e excelente entre todos os sacramentos é o Santíssimo Sacramento do Altar. Os demais sacramentos contém os dons de Deus, mas o sacramento da Eucaristia contém o próprio Deus. Afirma o Doutor Angélico, que os outros sacramentos foram instituídos por Jesus Cristo a fim de preparar o homem para a recepção ou administração da Santíssima Eucaristia, a qual, na frase do Santo, é a consumação da vida espiritual, porquanto deste Sacramento deriva toda a perfeição de nossas almas.
Segundo o ensino dos mestres espirituais, toda a perfeição de uma alma consiste na união com Deus; pois bem, não há melhor meio para nos unir mais com Deus, do que a santa comunhão, pela qual a alma se forma uma só coisa com Jesus Cristo, como ele mesmo disse: Qui manducat meam carnem… in me manet, et ego in eo (1) – “O que come a minha carne, fica em mim e eu nele”. É belíssima a comparação que a este respeito faz São Cirilo de Alexandria. Diz ele que na santa comunhão o Senhor se une à nossa alma assim como se unem dois pedaços de cera derretida. — Foi exatamente para este fim que nosso Salvador instituiu o Santíssimo Sacramento em forma de alimento; para nos dar a entender que, assim como o alimento se transforma em nosso sangue, assim este pão celeste se torna uma coisa conosco.
Há, porém, esta diferença entre o alimento terrestre e a Santíssima Eucaristia: aquele se transforma em nossa substância, ao passo que na recepção desta, nós somos transformados na natureza de Jesus Cristo, segundo esta palavra que o abade Ruperto lhe põe na boca: Tomai-me por vosso alimento e sereis pela minha graça o que Eu sou por natureza. O Senhor deu a entender isso também a Santo Agostinho, quando lhe disse: Non ego in te, sed tu mutaberis in me — “Não sou eu que serei transformado em ti, mas tu serás transformado em mim”. — Ó prodígio de amor! O Deus tão poderoso, que tem o céu por seu trono, a terra por escabelo, os exércitos dos anjos por ministros, as estrelas por coroa, esse Deus tão grande, tão imenso, que nem os céus podem conter em seus vastos espaços, esse Deus se tornou nosso sustento para nos fazer participar de sua natureza divina!
II. Quid est quod debui ultra facere vineae meae, et non feci? (2) — “Que coisa há que eu devesse ainda fazer à minha vinha, que não lhe tenha feito?”. Ó minha alma, ouve o que te diz teu Deus: Que devia Eu fazer por ti e não o tenho feito: por teu amor Eu me fiz homem; de Senhor me fiz escravo; humilhei-me até nascer numa gruta, como um verme; cheguei mesmo a morrer por ti, e a morrer sobre um madeiro infame. Parecia, pois, que Eu não podia ir mais longe; mas por teu amor ainda excogitei e efetuei mais. Depois da minha morte, Eu me quis deixar ficar contigo no Santíssimo Sacramento. Dize-me, que é que devia fazer mais para cativar o teu amor? Quid est quod debui ultra facere?
Ó meu Senhor e meu Redentor, tendes razão: que Vos poderei responder? Não sei que dizer. Foi excessiva a vossa bondade para comigo, excessiva foi a minha ingratidão para convosco. Cheio de admiração pela vossa imensa bondade, e envergonhado à vista de minha ingratidão, me prostro a vossos pés e Vos digo: Meu Jesus, compadecei-Vos de mim, que paguei o vosso amor com tamanha ingratidão. Tomai vingança, assim Vos digo, tomai vingança de mim e castigai-me; mas não me castigueis desamparando-me; castigai-me e mudai-me. — Ó Senhor, que podeis esperar de mim, se Vós mesmo não o fizerdes? Nada posso fazer, senão dar-Vos o meu pobre coração, a fim de que façais dele o que for de vossa vontade. Eis que Vô-lo dou todo inteiro, Vô-lo consagro, Vô-lo sacrifico. Possui-o para sempre; não o quero mais. Se o quiserdes amar, achareis também o meio para o guardar. Peço-Vos que não o deixeis mais em minhas mãos; aliás tornarei a Vô-lo roubar.
Ó Deus amabilíssimo, ó amor infinito, já que me obrigastes tanto a amar-Vos, peço-Vos: fazei com que eu Vos ame, fazei com que eu Vos ame. Vós, que tão grande milagre fizestes neste Sacramento para entrardes em meu coração, fazei mais este: fazei que eu seja todo vosso, mas todo, todo, todo, sem partilha, sem reserva, de sorte que eu possa dizer nesta vida e na eternidade, que Vós sois o único Senhor de meu coração e a minha única riqueza: Deus cordis mei et pars mea, Deus in aeternum (3). — Ó Maria Santíssima, mãe e esperança minha, ajudai-me e serei certamente atendido.
Referências:
(1) Jo 6, 57
(2) Is 5, 4
(3) Sl 72, 26


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 253-256)

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Do eterno amor de Deus para conosco.




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Considerai o amor eterno que Deus vos tem, porque muito antes que Jesus Cristo sofresse na Cruz por vós, como homem, a sua divina Majestade vos destinava à vida e vos amava extremamente. Mas quando começou Ele a amar-vos? Quando começou a ser Deus. E quando começou a ser Deus? Nunca; existiu sempre, e sem princípio nem fim, e desta forma amou-vos sempre e desde toda a eternidade vos preparou os favores e graças que vos tem concedido.  
Ele diz pela boca do profeta: "Amei-te com uma caridade perpétua e atraí-te misericordiosamente à mim." Entre outras coisas, pois, Deus tratou de vos fazer tomar boas resoluções de o amar e servir. Oh! como é amável este bom Deus, que pela sua infinita bondade, destinou a seu Filho para redentor do mundo, de todos em geral, mas em particular por mim, que sou o primeiro dos pecadores. Ah! amou-me, digo eu: amou-me a mim próprio e deu-se à morte por mim. É preciso considerar os benefícios divinos na sua origem primária e eterna. Oh! Deus, meu Teótimo! que amor digno poderemos nós consagrar à infinita bondade do nosso Criador, que de toda a eternidade projetou criar-nos, conservar-nos, remir-nos, glorificar-nos, a todos em geral, e a cada um em particular? 

Oh! o que era eu quando não existia, eu que sendo agora alguma coisa, não sou senão um pequeno verme da terra? E no entanto Deus, desde o abismo da eternidade, concebia a meu respeito pensamentos de benção; resolveu e marcou a hora do meu nascimento, do meu batismo, de todas as inspirações que me daria, e enfim todos os benefícios que me ofereceria mais tarde! Ah! haverá porventura consolação igual a esta? 

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Via Sacra e o Santo Rosário


Para alívio das almas do purgatório, temos uma fonte de indulgências e de riquezas espirituais — é a Via Sacra. Esta meditação da Paixão e morte do nosso divino Redentor, nos lembra o Sangue Preciosíssimo derramado pela salvação das almas, e nos faz pedir pelo Sangue de Cristo a libertação do purgatório. Quanto alívio não trás às almas sofredoras uma piedosa Via Sacra! É uma devoção santificadora para nós e um sufrágio precioso para as pobres almas. Dizia São Boaventura:
“Se quereis crescer de virtude em virtude, atrair para vossa alma graça sobre graça, entregai-vos muitas vezes ao exercício da Via Sacra”
A Paixão de Jesus Cristo é remédio para nossa alma pecadora, e este Sangue precioso cairá sobre as almas como doce refrigério.
Na Vida da V. Maria d’Antigna se conta que esta serva de Deus tinha o piedoso costume de fazer todos os dias a Via Sacra pelos defuntos. Depois, com outras ocupações e devoções, se descuidou desta. Um dia, uma religiosa do mosteiro, falecida há pouco tempo, lhe apareceu e lhe disse, gemendo:
“Minha Irmã, porque não faz as estações da Via Sacra por mim e pelas almas como antes?”
Neste momento apareceu-lhe Nosso Senhor:
“Filha, disse-lhe o Salvador, estou muito triste com tua negligência.
É preciso que saibas que a Via Sacra é muito proveitosa para os defuntos, e eis porque permiti que esta alma viesse reclamá-la em seu nome e em nome das outras almas padecentes. É um sufrágio muito importante. É preciso tornar este tesouro mais conhecido em favor das almas”
Desde esse dia, a serva de Deus se dedicou a este exercício e o propagou com muito zelo. Pelo menos às sextas-feiras, se possível, façamos uma Via Sacra pelos mortos. Como a Via Sacra, o Rosário é um tesouro dos mortos também.
Um dia, São Domingos pregava sobre a eficácia do Rosário em favor das almas sofredoras. Era nas planícies do Languedoc. Um homem incrédulo zombou do Santo. Naquela noite teve uma misteriosa visão. Via as almas se precipitarem nos abismos do purgatório e Maria Santíssima, com uma cadeia de ouro, as tirava do abismo e as punha em terra firme. Era uma imagem do Rosário, cadeia de ouro pela qual Nossa Senhora arranca do purgatório as pobres almas sofredoras.
Quantos prodígios faz o Rosário em favor dos seus devotos na vida, na morte e depois da morte no purgatório! Além do mais, o Rosário é um tesouro de muitas indulgências que podemos aplicar em sufrágio das pobres almas. Vamos rezá-lo sempre, nas horas vagas, pelas estradas, em toda parte, não percamos o tempo. Aproveitemos para rezar muitos rosários pelas pobres almas. Temos tantos parentes e amigos e tantas almas queridas no purgatório! Vamos aliviá-las com nosso rosário bendito!

O De Profundis

Que é o De ProfundisÉ o Salmo dos mortos, a oração que outrora nos lábios do Profeta Davi chegou até nós e parece vir das profundezas do abismo do purgatório a implorar nossa compaixão para com as pobres almas. É um dos sete Salmos penitenciais. O padre ajoelha-se diante do cadáver e reza o De Profundis. Depois, ao vir buscar o cadáver para a sepultura, de novo reza o Salmo dos mortos. No cemitério e a caminho da sepultura, sem o De Profundis. Os fiéis, depois do Pai Nosso e da Ave Maria, rezam o De Profundis. Por que esta prece? Por que se tornou a oração dos defuntos? Porque assim começa: De profundis…Das profundezas… Não parece um gemido saído do purgatório? O sentido deste salmo é este: o seu esquema pode ser o seguinte: O salmista, imerso na profundeza dos pecados, invoca a Deus (vs. 1 a 2). Como somos pecadores, só a confiança em Deus, só o perdão de Deus nos pode salvar (3 e 4). Com muita confiança e um desejo ardente, o pecador aguarda este perdão (5 e 6). O povo de Israel também alimenta esta mesma esperança de perdão e de redenção copiosa (6 a 8).
Ora, estes gemidos, estas aspirações de redenção e de perdão copioso, este clamor doloroso colocamos em nossos lábios e suplicamos pelas almas que sofrem no abismo do purgatório. Não é verdadeiramente próprio e significativo para uma súplica dos defuntos o De Profundis? Eis agora o texto do Salmo na tradução nova do Novo Saltério:
“Das profundezas clamo a Vós, Senhor,
Ouvi, Senhor, a minha voz!
Atendam os vossos ouvidos
O brado da minha súplica,
Se conservardes, Senhor, a memória das ofensas,
Quem, Senhor, poderá subsistir?
Mas em Vós está o perdão dos pecados,
Para que sejais servido com reverência.
No Senhor ponho a minha esperança,
Espera minha alma na sua palavra.
Aguarda minha alma o Senhor, mais do que os vigias da noite a aurora,
Sim, mais do que os vigias da noite a aurora aguarde Israel o Senhor,
Porque no Senhor a misericórdia,
Nele a redenção abundante.
E Ele resgatará Israel
De todas as suas iniquidades”
Eis o Salmo na nova tradução. Muita gente nossa o recita já de cor e em outras palavras. Não importa. O essencial é que o recitem com piedade e fervor e se lembrem de que é o Salmo dos defuntos, muito alívio pode trazer às benditas almas do purgatório.

Práticas Devotas

Há muitos meios de sufragar os mortos. Escolhamos a segunda feira consagrada pela tradicional piedade do povo a devoção do purgatório. Há o piedoso costume de se fazer tudo quanto possível na segunda-feira pelas almas. Dar esmolas aos pobres, visitar os doentes, praticar algumas mortificações, etc. Felizes se pudermos comungar, assistir a Santa Missa nesse dia, enfim, fazermos por juntar muitos tesouros de sufrágios pelas almas. Temos o Domingo, dia do Senhor, a terça, consagrada aos Santos Anjos, a quarta a São José, a quinta ao Santíssimo Sacramento, a sexta ao Coração de Jesus e à Paixão, o sábado a Nossa Senhora. Seja a segunda-feira dos fiéis defuntos. Dia do nosso sufrágio, da nossa caridade para com as almas que padecem nas chamas expiadoras. Em algumas paróquias e comunidades religiosas há piedosos exercícios neste dia. Por que não havemos de concorrer para que sejam eles frequentados os estabelecidos onde não se fazem? Muitas pessoas entre nós têm um costume que às vezes toma um cunho supersticioso: o de acender velas em portas de cemitérios e em cruzes da estrada, ou pelos campos pelas almas do purgatório. Não poderia ser reprovado se não tivesse às vezes um cunho muito supersticioso. Velas acesas sem orações pouco adiantam para os mortos. A vela é para lembrar Cristo, Luz do mundo, e sendo de cera, e benta, é um sacramental.
Por que não acender então velas bentas? E rezar mais ao invés de queimar tanta vela, sem um sufrágio, sem uma prece pelos mortos?
Nosso povo tem uma grande devoção pela vela acesa. Não a reprovamos, mas desejaríamos que houvesse mais compreensão da necessidade da oração pelos mortos. A vela simboliza a Luz que os defuntos esperam no céu. Diz tantas vezes a Liturgia: Que a luz perpétua resplandeça para eles. Talvez por esta súplica, repetida muitas vezes, este pedido de luz, é que o povo tomando num sentido muito material o belo simbolismo da vela, gosta de acendê-la em profusão. Não deixa de ser edificante e impressionante a multidão de velas acesas nas sepulturas de nossos mortos. Disse e repito: longe de mim reprovar tão piedosa prática, mas desejaria vê-la mais compreendida no seu simbolismo e preferiria ver ace¬sas velas bentas nas sepulturas e nos cemitérios.
Nosso povo tem muitas tradições de devoção às almas. Havia pelos nossos sertões os grupos de suplicantes de orações pelas almas, que muitas vezes degeneraram em abusos. Estão abolindo um costume piedoso e tocante. Quando morre alguém numa família, durante nove dias, a contar do dia da morte, todas as noites se reúnem os parentes e amigos do morto para a recitação do Terço ou da Novena das Almas em sufrágio do morto. Por que não conservar esta bela tradição?
Enfim, já vimos e meditamos durante este mês quanto é necessária e útil a devoção às santas almas do purgatório. Façamos tudo por elas, pobrezinhas, que só tudo esperam de nós. Sejamos dedicados apóstolos do purgatório!

Exemplo: Proteção das Santas Almas

Mons. Louvet, na sua obra “Le purgatoire d’ápres les revélations des Saints”, narra um fato prodigioso da proteção das almas aos que a elas socorrem com sufrágios.
Um padre italiano, Luiz Monaci, religioso dos Clérigos Menores, era um fervoroso devoto das almas. Em toda parte e em todas as ocasiões procurava meios de ajudar as benditas almas sofredoras. Em uma noite teve de viajar e atravessar sozinho uma planície deserta e perigosa, porque, infestada de bandidos e salteadores, haviam já tirado a vida a muita gente para roubar. Pelo caminho, o bom padre não perdia tempo: ia recitando piedosamente o rosário de Maria pelas almas do purgatório. Ao avistar de longe o pobre sacerdote sozinho e desprovido de armas, um grupo de bandidos se preparou para o assaltar e puseram-se de emboscada. Qual não foi o espanto de todos quando ouviram o soar de trombetas e um grupo de soldados que marchava armado aos lados do padre. Aterrorizados, esconderam-se os bandidos; pensaram em soldados que os vinham prender. Viam, entretanto o padre muito tranquilo a caminhar, recitando o rosário. Entrou este numa hospedaria próxima. Enquanto o padre ceava, dois bandidos curiosos se aproximaram e perguntaram curiosos:
— Que padre é este que anda acompanhado pelas estradas de soldados que o protegem?
— Aqui não chegou soldado algum e este padre nunca andou assim em viagem…
Os bandidos, furiosos, procuraram entrar em palestra com o sacerdote e perguntaram-lhe do batalhão que o escoltava.
— Meus filhos, eu ando sozinho pelos caminhos. Só tenho um companheiro, o meu rosário, que recito sempre pelas santas almas do purgatório para que elas me protejam.
— Pois bem, meu padre, confessa um bandido, estas almas vos salvaram. Somos bandidos e estávamos na estrada prontos para vos despojar e matar. E só não o fizemos porque um batalhão vos seguia pela estrada, e, aterrorizados, fugimos e viemos aqui curiosos saber do que se trata. Cremos que as almas das quais sois tão devoto vos salvaram da morte.
Os bandidos, tocados pela graça, ali mesmo de joelhos pediram perdão dos pecados e confessaram-se humildemente.
O Pe. Rossignoli e outros autores contam inúmeros casos de proteção das santas almas em favor dos seus benfeitores.
Na verdade, mesmo nas coisas temporais os devotos caridosos que nunca se esquecem de socorrer as benditas almas do purgatório, podem contar com uma proteção segura da divina Providência em todas as circunstâncias difíceis, porque Deus sempre recompensa esta grande caridade.
(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! 30 Meditações e Exemplos sobre o Purgatório e as Almas. 1948, p. 147-153)

Fonte:

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Catecismo Ilustrado - Parte 31 - 1º Mandamento (continuação): Adorar a um só Deus e amá-Lo sobre todas as coisas


Catecismo Ilustrado - Parte 31

Os Mandamentos

1º Mandamento (continuação): Adorar a um só Deus e amá-Lo sobre todas as coisas

1. Os principais pecados opostos à virtude da religião e ao culto devido a Deus são: A idolatria ou adoração aos ídolos, e impiedade ou irreligião, a superstição, o sacrilégio e todas as falsas religiões.

2. A idolatria consiste em dar às criaturas o culto supremo que só a Deus é devido.

3. Comete-se o pecado de impiedade ou irreligião quando se trata com desprezo ou indiferença os deveres do cristão, quando se profanam as coisas santas, e quando se mete a ridículo a religião e os seus ministros.

4. A superstição consiste em dar a Deus um culto que não Lhe é devido, ou vicioso por excesso. As principais superstições são três: a 1º é dar culto a Deus por coisas ridículas, em que Deus não pode ter glória; a 2º é considerar mau presságio por coisas que não têm conexão com o que tememos; a 3º querer adivinhar o Futuro observando certos sinais que não podem ter conexão com ele.

5. O sacrilégio é a profanação das coisas santificadas. Entendemos por coisas santificadas as que são especialmente consagradas a Deus; tais são: os templos, os vasos e ornamentos sagrados, os eclesiásticos, as virgens dedicadas a Deus, as coisas prometidas com votos; e outras semelhantes.

6. Há três espécies de sacrilégio: pessoal, local e real. Quando se ofende a santidade dos ministros de Jesus Cristo enquanto são consagrados a Deus, o sacrilégio é pessoal. O sacrilégio local é aquele com que se faz injúria a qualquer lugar sagrado com criminoso derramamento de sangue, com incêndio, com furto e com qualquer exercício profano. O sacrilégio real consiste na profanação ou violação de qualquer coisa sagrada.

7. As coisas sagradas profanam-se de três modos: 1º recebendo ou administrando os sacramentos em pecado mortal ou fazendo deles mau uso; 2º tratando sem reverência os vasos sagrados ou empregando-os para uso profano; 3º ultrajando as relíquias e imagens sagradas.
8. Na seguinte passagem do Evangelho vemos a Jesus expulsando os vendilhões do templo, porque cometiam um sacrilégio. Diz São João: “Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou, no templo, vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas sentados às suas mesas. Tendo feito um chicote de cordas, expulsou-os a todos do templo, e com eles as ovelhas e os bois, deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou as suas mesas. Aos que vendiam pombas disse: “Tirai isto daqui, não façais da casa de Meu Pai casa de comércio”. Então lembraram-se os Seus discípulos do que está escrito: “O zelo da Tua casa Me consome”.” (João II, 12-17)

Explicação da gravura

9. Exemplo de idolatria: adoração do bezerro de ouro. Subiu Moisés ao monte aonde Deus o chamou para dar-lhe a Lei. Aí ficou quarenta dias e quarenta noites; depois o Senhor deu-lhe as duas tábuas sobre as quais estavam gravados os mandamentos. Enquanto Moisés estava no monte o povo disse a Aarão: “Não sabemos o que é feito de Moisés; fazei-nos deuses como os dos Egípcios”. Para afastar o povo desta impiedade, Aarão disse: “Trazei-me os brincos de vossas mulheres e filhas”. Contra a sua expectativa, trouxeram-lhe todas as joias, e não ousando resistir, Aarão fundiu-as e formou um bezerro de ouro, ao qual os israelitas ofereceram sacrifícios, tocando e dançando à moda dos pagãos. Vendo isso Moisés, ao descer do monte, irou-se grandemente, e arremessou a terra as duas tábuas, as quebrou. Depois reduziu a pó o bezerro, e mandou os levitas matar quantos encontrassem adorando os ídolos.

10. Exemplo de sacrilégio na parte inferior esquerda. Vê-se Heliodoro, general do rei da Síria, que, querendo roubar o tesouro do templo de Jerusalém, foi atacado por um cavalheiro misterioso que o maltratou, aparecendo-lhe ao mesmo tempo dois anjos que o açoitaram fortemente e o deixaram meio morto.


11. Cometeu Saul um pecado de superstição quando foi consultar a feiticeira de Endor. Deus permitiu que lhe aparecesse Samuel, que lhe disse: “Amanhã morrerás na batalha”. Vê-se representado o fato na parte inferior direita.

domingo, 19 de novembro de 2017

Santa Isabel da Hungria e da Turíngia

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Santa Isabel da Hungria e da Turíngia, 7 de Julho de 1207 - Marburgo, 17 de Novembro de 1231), foi uma princesa do Reino da Hungria, filha de André II da Hungria e da rainha Gertrudes de Andechs-Meran, descendente da família dos condes de Andechs-Meran. Do lado materno, era sobrinha de Santa Edwiges, tia das santas Cunegundes (Kinga) e Margarida da Hungria e tia-avó de Santa Isabel de Portugal e, do lado paterno, prima de Santa Inês de Praga. Casara-se com o Duque Ludwig da Turíngia, filho do Landgrave Hermano I e de Sofia da Bavária, soberano de um dos feudos mais ricos do Sacro Império Romano-Germânico. O noivado foi realizado no Castelo de Wartburg, em Eisenach, capital do Ducado da Turíngia. Os dois realmente se apaixonaram, viveram uma grande e intensa história de amor, num matrimônio exemplar, e tiveram três filhos. O que fez atrair sobre Isabel os ciúmes de sua sogra, a duquesa Sofia e demais parentes do esposo. Foi fortemente influenciada pela espiritualidade franciscana, cuja ordem surgiu naquela época. Quis viver uma pobreza voluntária total, no que foi desaconselhada pelo seu diretor espiritual, Conrado de Marburgo, que a aconselhou a viver as virtudes do seu estado.Dela conta-se que certa vez, quando levava algumas provisões para os pobres nas dobras de seu manto, encontrou-se com seu marido, que voltava da caça.

Consolações do temor sobre o pensamento do purgatório

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Segundo um dos biógrafos de São Francisco de Sales,o santo dizia e sempre repetia que, em sua opinião, devemos tirar mais consolações do que temor do pensamento do purgatório. Verdade é que,naquele lugar logar de expiação, são tão grandes os tormentos que não se lhes podem comparar as maiores dores dessa vida. Mas também as alegrias interiores são lá de forma tal que não há neste mundo prosperidade nem alegria que as igualem. E quereis saber por que consola o pensamento do purgatório ? Pois é o próprio São Francisco de Sales quem o vai mostrar:

sábado, 18 de novembro de 2017

Sonetos de Madre Maria José de Jesus carmelita descalça

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Porque assim me conturbas e estás triste,
Minha alma? Pois em Deus não tens confiança?
Ele te olha do Céu, Ele te assiste...
Prende-te à âncora firme da Esperança.

O amor a tudo, impávido, resiste;
O amor jamais diz — basta! jamais cansa;
Paladino de lança sempre em riste
— Tão forte como a morte, — tudo alcança.

Ama, e canta a teu Deus tua saudade...
Em breve cantarás, na Eternidade,
O gonzo de possuir a teu Criador.

Em breve a Deus verás, no eterno dia
 Que não termina e que não principia,
— Na eterna luz do Sol do eterno amor.

Sonetos de Madre Maria José de Jesus
carmelita descalça

I - Da inclinação que Deus tem para fazer-nos o bem

LIVRO PRIMEIRO

Pensamentos Consoladores a respeito de

Deus, da Providência e dos Santos

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I - Da inclinação que Deus tem para fazer-nos o bem

Logo que o homem medite um pouco atentamente na Divindade, sente um doce transporte do coração, que lhe certifica que Deus é o Deus do coração humano; e nunca o nosso entendimento encontra tanto gosto como neste pensamento na divindade cujo menor conhecimento vale mais, segundo o príncipe dos Filósofos, do que tudo o que existe, da mesma forma que o menor raio do Sol é mais claro do que o maior raio da lua e das estrelas, e por isso mais luminoso do que o conjunto da lua e das estrelas. E se algum acidente atribula o nosso coração, imediatamente recorre à divindade confessando que quando tudo para ele é mau, ela só é boa, e quando esta em perigo ela só, como seu soberano bem, o pode salvar e proteger.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

É por amor nosso e por causa do pecado que Jesus foi coberto de chagas



Capítulo XXV

Ipse autem vulneratus est propter iniquitates nostras, attritus est propter scelera nostra – “Foi coberto de chagas por causa de nossas iniquidades; foi dilacerado para expiar os nossos crimes” (Is 53, 5)
O mínimo tormento sofrido por nosso Salvador era seguramente mais que suficiente para satisfazer à justiça de Deus, e apagar os pecados do mundo: mas o amor que nos tinha não se pôde contentar com isso. Afim de expiar os nossos crimes e até para nos provar a grandeza da sua ternura para conosco, o nosso Redentor quis ser, na frase de Isaías, vulneratus e attribus, isto é, coberto de chagas desde os pés até à cabeça, de tal sorte que o seu adorável corpo não oferecia parte alguma sã. Assim Isaías o compara a um leproso: Et dos putavimus eum quasi leprosum, et percussum a Deo et humilhatum (Is 53, 4).
Quando com os olhos da fé se considera Jesus todo coberto de chagas, quando se contempla o seu corpo horrivelmente rasgado e a cair em pedaços ensanguentados, é fácil compreender quão grande é o amor deste divino Salvador por nós.
Ó homem, exclama Santo Agostinho, reconhece quanto vales, aprende que reconhecimento não deves ao teu Deus; aprende qual é a tua dignidade pelo que lhe custou a resgatar-te: vê agora quão infame seria ultraja-lo ainda com teus pecados; sabe pôr um freio às tuas paixões e um termo ás tuas desordens.
Jesus foi despedaçado para expiar os meus crimes. Jesus, o inocente Jesus, do pecado não tinha mais do que a aparência; e ainda assim a justiça do seu divino Pai pesou sobre ele, e ei-lo despedaçado pelos golpes, coroado de espinhos, pregado num infame patíbulo.
“Ó céu! Se assim se trata o pau verde, que será do seco?”
Que será de mim, pobre pecador; de mim cujas inumeráveis iniquidades se amontoaram todas sobre a minha cabeça; de mim, que até ao presente só vivi para vos ofender, meu Deus?… Ó Jesus, misericordioso Jesus, tende piedade de mim!
“Jesus foi despedaçado para expiar os meus crimes”
Deu-me este bom Mestre uma excelente lição: ensinou-me por tão horrendos tormentos que o pecado não podia ficar impune; é necessário que seja punido ou pelo pecador, ou pelo próprio Deus! Se choro os pecados que cometi, se deles faço penitencia, se exerço contra mim mesmo uma santa cólera, dou-lhes a punição que merecem; se, porém, eu mesmo não quero punir por este modo, Deus, que será o meu juiz, os punirá. Mas, desgraçado de mim! porque “é terrível cair nas mãos de Deus vivo”. Para evitar a desgraça de ser apresentado com uma alma manchada de crimes a esse juiz formidando, desde hoje devo trabalhar e os apagar por uma séria penitencia e marchar sobre os vestígios do meu Salvador. Mas, ó vergonha! A vida de Jesus Cristo foi um sofrimento contínuo, a minha passa-se nos cômodos e doçuras do repouso! Acaso ignorava eu até agora a necessidade em que estou de fazer penitencia neste mundo, ou faze-la no outro, no meio das chamas do inferno? Não sabia, porventura, que um pecador não pode ir ao céu senão pelas tribulações e sofrimento? Que é isto! Jesus chorou as minhas iniquidades, e eu não as chorarei! Ah! Tal não será, gemerei sobre tantos pecados que desde minha tenra infância cometi; castigarei o meu corpo; mortificar-me-ei sem cessar, e nas minhas penitencias irei cobrar alento na penitencia de Jesus e de todos os santos. Imitarei David que, já assegurado do perdão das suas faltas gemia continuamente; como ele, a lembrança de haver perdido a graça do meu Deus, dia e noite me fará derramar torrentes de lágrimas; como ele, sempre terei presente a meu espírito os pecados da minha vida; como ele, enfim, direi a todo instante:
“Senhor, esquecei os pecados da minha mocidade”
Meu Deus! que diferença acho entre o meu modo de obrar e o proceder dos santos? Pedro não peca mais que uma vez, e chora sempre; eu peco frequentemente, e não choro nunca. Um santo solitário dizia:
“Em qualquer lugar que esteja, não vejo senão os meus pecados; olho-me como uma vitima do inferno onde vejo uma infinidade de almas menos culpáveis do que eu; atiro-me então por terra, suspiro, choro diante do meu Juiz”
E eu penso apenas neste inferno, que tenho merecido, e nada faço para lá não cair. Todos os santos procuram pelos rigores da penitencia expiar os seus pecados: “uns submetiam-se ás chufas, aos açoites, ás prisões; eram outros serrados, lapidados; passaram por ferro e fogo e foram entregues à morte; aqueles outros internaram-se em medonhos desertos”: e eu de tudo isto não faço nada, nada sofro. Pobre e desafortunado de mim! Qual é a meta que me proponho tocar? É para o céu, para esse belo céu, que eles tão caro compraram, que eu dirijo a minha carreira? Sim… Pois bem! Devo tomar como eles o verdadeiro caminho; é estreito, o meu Mestre já m’o advertiu: Arcta est via quae ducit ad vitam. Devo, como eles, chorar as minhas iniquidades passadas; devo implorar o perdão delas, não algumas semanas somente, não alguns meses, mas toda a minha viva. Ai! Quem sabe se o meu Deus me perdoou? Quem sabe se o meu Pai do céu me restituiu o vestido da minha inocência? Espero-o da sua misericórdia, porém certeza não tenho. Devo, pois, sempre fazer penitencia, chorar sempre: e ainda mesmo que um anjo do céu viesse anunciar-me da parte de Deus que os meus pecados me estão perdoados, deveria ainda assim chorar à vista das chagas de que cobriam o meu divino Salvador. Mas estas chagas do meu Jesus não me conduzirão somente à penitencia e ao arrependimento dos meus pecados, excitar-me-ão ainda à confiança e ao amor. Nestas chagas ir-me-ei refugiar, para ai achar um doce repouso. Ai estarei tanto mais ao abrigo de todo o perigo quanto Jesus é mais potente para me salvar. Brama o mundo em volta de mim, faz-me o corpo uma guerra de morte, cerca-me o demônio de seus laços? não cairei, porque estou apoiado sobre Jesus. Cai na desgraça de cometer algum grande pecado, e acha-se perturbada a minha consciência? não me abandonarei ao desespero, porque me recordarei das chagas do meu Senhor. Que mal será tão incurável que não possa ser curado pela morte de um Deus? No meio de minhas misérias espirituais lançarei um olhar sobre as chagas de Jesus, e a vista de um tão poderoso remédio me restituirá a paz e a confiança.
Ó alma minha! Tu que és tão fraca, tão pobre, tão lânguida, vai lançar-te nos braços do teu bom Mestre; porque ele é tudo para ti; nele possuis todas as coisas. Queres curar as profundas chagas que te abriu o pecado, ele é o teu medico; estás vergada ao peso de tuas iniquidades, ele é a justiça e a santidade; tens necessidade de socorros entre os teus inimigos, ele é a força e o poder; queres ir para o céu, ele é o caminho; foges das trevas, é a luz; procuras alimento, ele mesmo é o sustento que te pode conservar a vida. Sim, minha alma, em Jesus Cristo acharás tudo; será a tua ancora e a tua força, e se quando te vires atacada do lobo infernal, fores fiel em te ocultares nas suas chagas, infalivelmente te protegerá contra ele, e sairás vitoriosa da luta.
Ó meu bom amado Jesus! Porque estais vós tão coberto de chagas lívidas e ensanguentadas? Quem vos pôs num tão miserável estado? Ah! Compreendo-vos: são meus pecados que dilacerara o vosso adorável corpo; são eles que cravaram essa coroa de espinhos sobre vossa cabeça. Ó bom Jesus! A que excessos vos levou o amor por nós? Era a mim que a pena era devida por minhas iniquidades, e vós sois que a levais! Fazei-me a graça de sofrer alguma coisa neste mundo por vós para reconhecer uma ternura tão excessiva: dai-me a graça de me mortificar, de me desprezar, de me humilhar em todos os recontros, e de nada omitir para vos provar que não sou um ingrato. À vista do que tanto sofrestes por mim, não posso viver sem sofrimentos. Feri, Senhor, feri neste mundo, mas perdoai-me na eternidade. Vulnerai o meu pobre coração, vulnerai-a com as setas do vosso amor! Sofra, sim, mas amei-vos. Sim, amei-vos, Deus meu, faça-vos amar sempre, sempre, sempre! Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS

Amor da Solidão

Hoje, meu caro Teótimo, toma e conserva toda a tua vida o santo habito de te retirar frequente¬mente em espírito ás chagas de nosso Senhor, e principalmente ao seu sagrado Coração. Nele faze uma solidão para onde possas fugir no tempo da tentação. Para o que, começa por te arrancar ao tumulto do mundo, tanto quanto t’o permitirem os teus deveres: ama o viver no retiro e no silencio. Ó meu Deus! Quantas almas não fazem progresso algum no amor de Jesus porque não sabem o que é a calma do retiro! Dizem estas almas que queriam viver no recolhimento, na união com nosso Senhor, fazem, e fazem precisamente o que as deve apartar deste fim; procuram companhias numerosas, divertimentos mundanos, efusões de coração que tem muito de humano, e fogem da solidão. Dir-se-ia que teem medo de se acharem a sós com Deus. Meu caro Teótimo, não os imites; se queres achar Deus, procura-o na solidão. Nunca estou menos só, dizia São Bernardo, do que quando estou só. Oh! E como isto é verdade! Na solidão achamos a Deus; na solidão pensamos em nossos deveres, em nossos pecados, choramo-los, detestamo-los; na solidão compreendemos a brevidade de tempo, a duração da eternidade, a vaidade das coisas do mundo, das honras, dos prazeres, das riquezas; na solidão falíamos com Deus e Deus conosco: entretemo-nos com ele coração a coração, exaltamos as suas grandezas, bem- dizemos as suas misericórdias, saboreamos as doçuras do seu amor; na solidão pensamos no céu, e desprendemo-nos de todas as criaturas. Ó doce solidão! Feliz quem te conhece e ama! mas mais feliz ainda aquele que descobriu o segredo de estar a sós com Deus no meio das mais numerosas companhias! Pede ao Senhor, meu caro Teótimo, que te dê esta solidão de coração, a qual faz que até mesmo no meio do tumulto dos homens e das ocupações, estejamos recolhidos, unidos a Deus, e atentos à sua presença: pede-a ao Senhor, mas não te esqueças que para a obter deves o mais que puderes viver retirado também na solidão exterior, sem nunca faltar por isto ao que os deveres de teu estado pedem. É possível gostar muito de sair fora sem necessidade ou utilidade do próximo, e ao mesmo tempo estar recolhido e unido a Deus.
(Pinnard, Abade Dom. As Chamas do Amor de Jesus ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção. Traduzido pelo Rev. Padre Silva, 1923, p. 184-190)

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Quanto os religiosos devem confiar no patrocínio de Maria




Ego diligentes me diligo: et qui mane vigilante ad me, invenient me – “Eu amo os que me amam: e os que vigiam desde a manhã por me buscarem, achar-me-ão” (Pr 8, 17)
Sumário. Se a divina Mãe ama todos os homens com tão grande afeto, que nenhum outro lhe seja superior, ou mesmo igual, quanto mais não amará os religiosos, que sacrificaram a liberdade, a vida e tudo ao amor de Jesus Cristo? Ponhamos, pois, toda a nossa confiança em tão boa Mãe. Provemos-lhe a nossa devoção, honrando-a fervorosamente e fazendo com que os outros também a honrem. Um religioso que não tem para com nossa Senhora uma devoção especial, perseverará dificilmente.
I. Se é certo, como é certíssimo, no dizer de São Pedro Damião, que a divina Mãe Maria ama todos os homens com tamanho afeto, que, depois de Deus, não há nem pode haver quem a exceda ou iguale no amor: amat nos amore invincibili — “ama-nos com amor inexcedível”, quanto devemos pensar que a grande Rainha ama os religiosos, que consagraram a sua liberdade, a sua vida, tudo ao amor de Jesus Cristo? Ela bem vê que a vida deles é mais semelhante à sua e à do seu divino Filho. Vê-os empregados continuamente em louvá-la e em honrá-la com novenas, visitas, rosários, jejuns e outras práticas de devoção. Vê-os muitas vezes a seus pés a invocá-la e a pedir-lhe graças, graças essas todas conformes aos seus santos desejos, como sejam: a perseverança no serviço divino, a força contra as tentações, o desapego da terra, o amor para com Deus.
Ah! Como poderemos duvidar que ela deixe de empenhar todo o seu poder e misericórdia em benefício dos religiosos, especialmente de nós, que vivemos nesta santa Congregação (1), na qual, como se sabe, se faz profissão especial de honrar a Virgem Mãe com visitas, jejum no sábado, mortificações particulares nas suas novenas, etc., e com promover por toda a parte a sua devoção, por meio de pregações e novenas em sua honra?
A nossa excelsa Senhora é grata, e tão grata, que, como diz Santo André Cretense, costuma dar grandes coisas em retribuição a quem lhe oferece o mais pequeno obséquio: Solet maxima pro minimis reddere. A quem a honra e procura fazê-la honrar dos outros, ela promete, na sua benevolência, livrá-lo do pecado: Qui operantur in me, non peccabunt; promete-lhe também o paraíso: Qui elucidant me, vitam aeternam habebunt (2).
Por esta razão devemos nós especialmente dar graças a Deus por nos haver chamado a esta Congregação, onde, pelos costumes da comunidade e pelos exemplos dos companheiros, somos frequentemente advertidos e como que constrangidos a recorrer a Maria e a honrar continuamente esta nossa Mãe amantíssima, que se chama e é a alegria, a esperança, a vida e a salvação de quem a invoca e honra.
II. Grande é a confiança que os religiosos devem ter no patrocínio de Maria Santíssima; e grande deve ser a sua devoção, porque, aliás, perseverarão dificilmente. — São Francisco de Borgia perguntou certa vez a uns noviços, de que Santo eram mais devotos, e achou que alguns deles não tinham devoção especial a Nossa Senhora. Advertiu por isso ao Mestre dos noviços que olhasse com mais atenção para aqueles desgraçados; e aconteceu que todos eles perderam miseravelmente a vocação e saíram da religião.
Minha Mãe amabilíssima e amantíssima, pelo amor de Jesus Cristo vos suplico, não permitais que tão grande desgraça venha sobre mim. Agradeço sempre ao meu Senhor e a vós, que além de me haverdes arrancado do mundo, me chamastes para viver nesta Congregação, onde se pratica uma particular devoção para convosco. Aceitai-me, portanto, minha Mãe, para vos servir, e não tomeis por mal que entre tantos vossos diletos filhos vos sirva também este miserável. Vós, depois de Deus, haveis de ser sempre a minha esperança, o meu amor. Em todas as minhas necessidades, em todas as tribulações e tentações, sempre recorrerei a vós, que haveis de ser o meu refúgio, a minha consolação. Não quero outro conforto nos combates, nas tristezas e nos aborrecimentos desta vida, senão Deus e a vós.
Minha amabilíssima Mãe, para vos servir, renuncio a todos os reinos do mundo; o meu reino nesta terra será servir, bendizer e amar a minha dulcíssima Senhora: cui servire, regnare est — “a quem servir, é reinar”, como diz Santo Anselmo. Visto que sois a Mãe da perseverança, obtende que eu vos seja fiel até à morte.
— Fazendo assim, espero, e espero com segurança, ir um dia louvar-vos e bendizer-vos eternamente e nunca mais apartar-me de vossos pés. Iesus et Maria — assim protesto com vosso amante servo Santo Afonso Rodrigues — amores mei dulcissimi, pro vobis patiar, pro vobis moriar; sim totus vester, sim nihil meus — “Jesus e Maria, amores meus dulcíssimos, padeça por Vós, morra por Vós, seja todo vosso e nada meu”.
Referências:
(1) Santo Afonso escreveu esta meditação para os noviços da Congregação do Santíssimo Redentor por ele fundada
(2) Eclo 24, 30-31

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 224-226)

Fonte: