sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Os dois senhores e as almas tíbias, por Santo Afonso de Ligório


Nemo potest duobus dominis servire - Ninguém pode servir a dois senhores. (Math. 6,24)


Quem dera esta máxima de Jesus Cristo fosse bem compreendida por aqueles que vivem na tibieza voluntária. Os ingratos repartem entre Deus e as criaturas o coração que lhes foi dado para amar a Deus só e ainda é muito pequeno para o amar devidamente. Com outras palavras, eles são tão insensatos que se persuadem que podem servir ao mesmo tempo a dois senhores, tão opostos entre si, como o são Deus e o mundo. Querem servir a Deus, preservando-se de pecados graves; e ao mundo, não fazendo caso das culpas veniais em que caem por hábito e com advertência. Tais almas dizem: Os pecados veniais não nos fazem perder a graça divina; por poucos que sejam, impedi-nos-ão de nos santificarmos; mas assim mesmo nos salvaremos, e é o que basta. - Mas o que faça assim, ouça o que assegura Santo Agostinho: Ubi dixisti, satis, ibi periisti - Dizes que basta que te salves? Sabe, porém, que desde que disseste basta, começou logo a tua perdição; porquanto a alma nunca fica no lugar onde caiu, mas vai sempre abismando-se mais e mais. Santo Isidoro dá-nos disso a razão, porque com justiça Deus permite que os que não fazem caso dos pecados veniais, em castigo do seu desleixo e do pouco amor que lhe tem, caiam afinal em pecado mortal.

    Demais, é natural que o hábito dos pecados leves incline a alma a pecados graves, exatamente como certos leves mas repetidos incômodos da saúde corporal acabam por fazer a pessoa cair numa enfermidade mortal e leva-la ao túmulo. - Em suma, persuadam-se bem as almas tíbias, que cedo ou tarde se verificará também nelas a palavra de Jesus Cristo: Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de amar a um e odiar ao outro, ou se apegar a um e abandonar o outro.
    Mas além do grave risco que correm as almas tíbias de caírem em pecado mortal, tem também uma vida infeliz na terra, sem jamais acharem a paz nesse estado. Sim, pois que por um lado estão privadas dos prazeres do mundo; por outro, não podem saborear as consolações espirituais. Justo é que, assim como elas são avarentas para com Deus, Deus o seja igualmente para com elas. - Tinha, pois, Santa Teresa razão de dizer: "Do pecado deliberado, por pequeno que seja, livre-te Deus." E alhures: "Aprouve a Deus que tivéssemos medo, não do demônio, mas de todo o pecado venial, que nos pode prejudicar mais do que todos os demônios do inferno."
    Amo-Vos, ó meu soberano Bem, amo-Vos, meu Deus, digno de amor infinito; e porque Vos amo, arrependo-me de todas as minhas ingratidões para convosco, e protesto antes querer morrer, do que tornar a  vos dar desgosto. Vós, porém, ó meu Jesus, pelo amor de Maria Santíssima, abençoai este meu propósito e dai-me a graça de Vos ser fiel. Guardai-nos, Senhor, com vossa perpétua clemência; e pois que a humana fraqueza, sem vossa assistência, cai a cada passo, fazei, com vossos auxílios, que eu fuja do que é nocivo, e tenda sempre ao que é saudável.

Meditações de Santo Afonso de Ligório, Tomo III.

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Um comentário:

  1. avançamos sempre para combater o bom combate: permanecendo firme na fé católica verdadeira!

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